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A militarização do regime Temer

Postado por aforastieri em 31 de março de 2017 às 14:23 em Sem categoria | Nenhum comentário

Marcelo Camargo ABr Michel Temer 1024x592 A militarização do regime Temer [1]
O VBTP-MR Guarani é um veículo blindado anfíbio de combate, reconhecimento e transporte. Seu design modular permite a incorporação de diferentes sensores, sistemas de comunicação e armas, inclusive um canhão de 105 mm e morteiros pesados. Parece um tanque, mas não é. É mais leve e usa pneus.
O Guarani foi desenvolvido pela Iveco, uma divisão da Fiat. É produzido em Sete Lagoas, Minas Gerais. O contrato para produção do Guarani foi assinado em 2009. Prevê a produção de 2044 unidades em um período de vinte anos. Até hoje foram encomendadas 1798 unidades. Destas encomendas, 1580 aconteceram no governo de Michel Temer.
O primeiro protótipo do Guarani foi apresentado pela primeira vez em 2011. Justamente para Michel Temer, então presidente em exercício, na Latin America Aero & Defence (LAAD), maior feira militar da América Latina.
Em 2012, foi a vez de Temer elogiar os drones desenvolvidos pela empresa israelense Elbit. É a maior empresa privada da área militar de Israel. O então vice-presidente disse que os drones produziam “um resultado extraordinário” no controle das fronteiras brasileiras. Logo, em 2013, na época da Copa das Confederações, a Elbit recebeu R$ 102,6 milhões do governo. Drones foram usados a partir dessa época para monitorar manifestações de rua.
Em 2014 a Elbit anunciou o fornecimento de uma nova linha de drones para a FAB, o Hermes 900, que tem autonomia de vôo de 36 horas e alcança raio de 300 quilômetros em relação à sua base no solo.
Segundo o site Intercept, a subsidiária brasileira da Elbit até hoje já recebeu R$ 456 milhões das Forças Armadas do Brasil. Agora vai além. Neste dia 5 de março, o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) aprovou a venda dos negócios de comunicação militar da Mectron Engenharia para a Elbit. A Mectron é a empresa da área de defesa da Odebrecht, que está na maior crise de sua história graças ao seu envolvimento com corrupção e às investigações da Lava-Jato.
A Elbit vende bem no Brasil, mas não consegue vender para diversos outros países, como França, Noruega e Suécia. Desde 2008 a Elbit é vinculada a “crimes de guerra e crimes contra a humanidade”, segundo a ONU. A empresa foi condenada por dezenas de organizações ligadas aos direitos humanos. Um dos principais casos foi em 2008, quando ataques usando drones Hermes 450 levaram à morte de centenas de civis no território Palestino.
Com a compra da Mectron, a Elbit herdará todos os contratos assinados pela Odebrecht com as nossas Forças Armadas. Só um, de sistemas de comunicação entre caças e torres de comando, é de R$ 193 milhões.
Esses são só dois casos, pra não ficar listando projetos das três Forças, submarinos convencionais e nucleares, caças, bases navais e companhia. Em 2016, o Brasil gastou US$ 24.6 bilhões com nossas Forças Armadas. Representa 1,4% do PIB. São quase 320 mil militares, o décimo-sexto maior exército do mundo. Faz do Brasil o décimo primeiro país com maiores gastos militares do planeta. A previsão é de que, somados os restos a pagar de 2016, o Orçamento dos militares cresça 36% em 2017.
Considerando que o Brasil nunca foi invadido por ninguém, tem boas relações com o planeta todo, e excelentes relações com o restante da América Latina, a pergunta é: para quê? Para proteger nossas fronteiras? Missão impossível. São quase 17 mil quilômetros de fronteiras com dez países, a oeste, e mais de 7 mil quilômetros de litoral. Os EUA, com tanto esforço e investimento, não conseguem fechar nem sua pequena fronteira com o México.
Nossas fronteiras são abertas. Tanto que o Brasil é o segundo maior consumidor de cocaína do mundo, e maior distribuidor de cocaína para a Europa. E tanto que no Brasil viceja o contrabando, inclusive de armas.
Outros fatos: os Guaranis não são veículos apropriados para combate na selva amazônica, naturalmente. Nem são os drones da Elbit a melhor maneira de guardar nossas fronteiras, seja no sertão ou no litoral.
O que vemos de ação militar em 2017 é o uso de tropas em situações extremas como a greve da PM no Espírito Santo; no Rio, Amazonas, Rio Grande do Norte. O que vemos é monitoramento de manifestações.
O que vemos é o aumento dos gastos militares num momento em que se reduz, ou se propõe reduzir, gastos fundamentais com saúde, educação, aposentadorias. Quando o desemprego bate recordes sucessivos, sem alívio à vista.
Temer acenou às Forças Armadas desde sua posse; fez do lema positivista "Ordem e Progresso", caro aos militares e à ditadura militar, o slogan de sua administração. Quando ainda era interino, em julho e agosto de 2016, sancionou reajustes para as Forças Armadas. Foi o único setor que teve reajustes, fora o Banco Central e o Judiciário. Só essa medida teve impacto de R$ 50 bilhões nas contas públicas. Temer não incluiu os militares da sua proposta de reforma da Previdência. As novas regras para aposentadoria dessa categoria vai ficar para algum dia no futuro, se vierem novas regras. A legislação para as Forças Armadas pode valer, em cascata, para a Polícia Militar e os Bombeiros em todos os Estados.
Temer não tem força em nenhum setor da sociedade brasileira, salvo talvez o 0,001% de milionários que aceitam sua presidência tampando o nariz, ávidos por "reformas" que aumentem suas fortunas. Segundo a pesquisa mais recente, 90% da população rejeitam seu governo. E isso, com toda a propaganda a favor, paga ou disfarçada. Sem isso, sua aprovação seria ainda mais ínfima. Sua aposta para angariar a simpatia dos militares é transparente.
Parece exagerado gastar tanto com as Forças Armadas, no meio dessa crise enorme? É ainda mais espantoso saber que Temer vai usar recursos públicos para financiar governos estrangeiros.
Em entrevista ao jornal Valor Econômico, o ministro da Defesa, Raul Jungmann, afirmou que o governo vai passar a financiar a venda de armas para o exterior. O plano, segundo Jungmann, é que o BNDES crie uma linha de empréstimos "governo a governo. A linha financiaria o país que compra o produto."
Um caso concreto citado por Jungmann é o do Paraguai, que tem interesse em comprar caças Super Tucano, produzidos pela Embraer. O BNDES emprestaria dinheiro para o governo paraguaio comprar os caças. Como garantia, o secretário de produtos da Defesa, Flávio Basílio, diz que o Paraguai poderia oferecer "Itaipu".
O Ministério da Defesa de Temer vai mais longe: quer determinar estratégias econômicas para o Brasil. Segundo o Valor, o Ministério vai criar uma política nacional que centralizaria as negociações e compensações comerciais em torno de transferência de tecnologia, tanto de fora do Brasil para dentro, como daqui para fora.
O próprio Jungmann diz: "nós queremos que as compensações sejam orientadas para os projetos estratégicos das Forças.... terá que ser voltado para o que nós considerarmos a prioridade. O Ministério da Defesa vai definir isso, ouvindo a base industrial de Defesa e as Forças Armadas".
Essa política deve envolver outras áreas, segundo a mesma reportagem. Por exemplo, quando o Brasil discutir compensações na área agrícola, deve integrar nessa discussão o comércio de armamentos produzidos aqui. Esta mudança colocará as Forças Armadas no centro decisório do comércio internacional do Brasil.
O Brasil poupa os militares da reforma da Previdência. Aumenta seus salários. Mantém 320 mil militares empregados, sem guerra a lutar, num país com 13,5 milhões de desempregados. Investe mais e mais em armas que não tem função, quando falta remédio no hospital e merenda na escola. Vai financiar governos estrangeiros para que comprem armas fabricadas no Brasil. E pretende subordinar as negociações comerciais do país às prioridades das Forças Armadas.
É a militarização do governo Temer. Que já não podemos chamar de governo. E já devemos chamar de regime.

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