Publicado em 10/04/2017 às 15:59

Temer libera empréstimos para governos estrangeiros comprarem armas

 Temer libera empréstimos para governos estrangeiros comprarem armas
No governo do PT houve uma grande grita contra os empréstimos concedidos pelo Brasil a Cuba e outros países. Afinal, com tantas demandas sociais não atendidas no Brasil, porque emprestar o dinheiro dos nossos impostos para o estrangeiro? Seria muito melhor investir aqui mesmo, para enfrentar os tantos problemas que o Brasil enfrenta.

Independente de qualquer questão ideológica, o questionamento fazia todo sentido. O Tribunal de Contas da União publicou uma auditoria sobre o assunto em janeiro de 2016. Tratava de empréstimos concedidos pelo BNDES para construção de rodovias, portos e outras obras, entre 2006 e 2014. Os países mais beneficiados foram:
Angola (R$ 14 bilhões)
Venezuela (R$ 11 bilhões)
Argentina (R4 8 bilhões)
República Dominicana (R$ 8 bilhões)
Cuba (R$ 3 bilhões)
O argumento dos governos petistas era que esses empréstimos eram bons para o Brasil, porque serviam para financiar a compra de produtos fabricados aqui, e serviços prestados por empresas brasileiras. Isso é verdade. Também é verdade que esses recursos poderiam ter uso muito melhor. E hoje sabemos que as empresas beneficiadas estavam pagando por fora pelo privilégio - e seus executivos estão delatando tudo na Lava-Jato.

Agora, imagine que Lula tivesse usado o BNDES para financiar a venda de armas para Cuba e Venezuela.

É exatamente o que está fazendo Michel Temer. O BNDES acaba de anunciar a criação de uma nova linha de crédito para países estrangeiros. Para construir obras nesses países? Não, para eles comprarem armas fabricadas no Brasil. Por empresas brasileiras ou não.
O BNDES poderá financiar até 100% do valor total do projeto e conceder empréstimos com prazos longos, de até 25 anos. Segundo a presidente do BNDES, Maria Silvia Bastos Marques, haverá "flexibilização de mecanismos de garantias " e "equalização maior" das taxas de juros. Ou seja: é empréstimo de pai para filho.
Quanto o Brasil vai emprestar de nosso dinheiro para governos estrangeiros comprarem bombas, canhões, tanques e aviões de guerra? Segundo Maria Silvia, "não temos restrição de orçamento." Uma estimativa inicial é que o Brasil possa atingir R$ 35 bilhões de empréstimos. Incrível, considerando que o próprio governo sempre nos garante que o Brasil está quebrado, que o povo tem que fazer sacrifício, abrir mão de direitos trabalhistas, aposentadoria etc.
Novamente fica claro que o Brasil não está quebrado coisa nenhuma. A realidade é que o governo espreme o povão para proteger alguns setores. Os multimilionários, que pagam menos imposto do que em qualquer país. Os bancos. As grandes empresas.

E nossa "indústria de defesa". Que se fosse tão competitiva, não precisaria usar o dinheiro do Tesouro Nacional para convencer governos estrangeiros a comprar as nossas armas. Mas tem seus fãs no governo, e relação de simbiose com nossas Forças Armadas.

Aliás, que governos estrangeiros o BNDES pretende financiar? Alguns vizinhos, como Paraguai e Argentina. Mas o principal mercado é a mundo árabe, a África e Ásia. Muitos desses países têm democracia duvidosa. Alguns são muito mais autoritários que Cuba e Venezuela, que causaram tanto escândalo na Era Lula. Alguns potenciais "parceiros" querem as armas é para declarar guerra ao seu próprio povo. Em todo lugar existem governantes impopulares, que impõem medidas cruéis à sua população, e lidam com truculência com qualquer oposição.

Para ficar aqui por perto, o Paraguai quer comprar nosso tanques Guarani, fabricados em Minas Gerais por uma empresa italiana. Pra ir à guerra com o Uruguai ou a Argentina? Mais provável que seja pra reprimir a população paraguai, que está cansada dos desmandos de seu governo. Aliás o Brasil, que era importador de gás lacrimogêneo, agora já produz aqui. Podemos vender também.

É verdade que a Indústria Bélica gira muito dinheiro por aqui. Estima-se que seja um negócio de R$ 200 bilhões por ano, ou 3.7% do nosso PIB. Emprega 30 mil pessoas. O principal cliente, claro, é o Estado Brasileiro.  Quanto à exportação, vai crescer com o apoio do BNDES... já temos tradição, a gente já exporta bombas de fragmentação que estão sendo usadas contra a população civil no Iêmen!

É imoral ter lucro com a morte dos outros. É imoral fazer de todos nós, brasileiros, financiadores disso. É imoral aplicar em armas os nossos impostos, com tanto desemprego e miséria no nosso país. Temer tira recursos do Brasil para financiar a guerra em outros países. É mais uma violência de um regime que se esfacela, e que cada vez mais se apóia nas Forças Armadas. Mas agora, a violência não é só contra nós, brasileiros - mas contra inocentes em outros cantos do mundo.

Leia o artigo anterior sobre a Militarização do Regime Temer: como o governo está privilegiando os militares e as Forças Armadas.

http://r7.com/rCum

Publicado em 06/04/2017 às 17:49

O fantasma do Fantasma Da Máquina

 O fantasma do Fantasma Da Máquina

Ghost In the Shell foi o primeiro filme de animação para adultos. Ou pelo menos nos parecia assim quando apareceu, para nós que nos achávamos muito adultos, discutindo assuntos de adultos. Talvez Ghost In The Shell tenha sido mesmo é o primeiro anime que rendeu animadas discussões filosóficas em mesas de bar. Até o título rendia: Ghost? Mas é um fantasma ou é uma alma? Virtual ou real, simulacro ou consciência? Do que exatamente esse desenho está falando?
Responsabilidade de Masamune Shirow, que fez um mangá diferente do que existia na épóca, apelativo mas ambíguo, inspirado por Arthur Koestler, Blade Runner e Neuromancer. Do diretor do desenho, Mamoru Oshii, fã de cinema europeu e de Tarkovski, que imprimiu um ritmo deliberadamente pausado, antinatural, ao que poderia ter sido só uma maçaroca de cenas de tiroteio e porrada. De Kenji Kawai, que compôs a trilha sonora espectral, coro e tambores Kodo, inesquecível.
E responsabilidade nossa, que finalmente estávamos preparados para Ghost In The Shell. Para um desenho animado que nos tratasse como o que éramos, adultos. Mas adultos que conviviam harmoniosamente com nossa infância e adolescência. Famintos por um banquete que exigisse mais do nosso paladar, com sabores mais sutis, desafiadores. Mas um banquete, que nos fartasse.
Então Ghost In The Shell, entre hipnótico e monótono, a maior obra audiovisual do cyberpunk. Cyberpunk que era o mundo das idéias de então: a chegada da revolução digital às ruas e às nossas almas, ao business e à guerra, além das fronteiras, para o bem e para o mal.
Como chamávamos então, pela sigla: GITS. Balas voando e Baudrillard, Philip K. Dick e Mecha, política, pop e espiritualidade. A presciência do século 21, do impacto que a nascente internet teria, a intuição das discussões de gênero e identidade e classe e geopolítica que viriam. E Major, uma protagonista feminina capaz, complicada, fria e quente, quente como só um cérebro humano em um corpo artifical poderia ser.
Depois vieram continuações e videogames e merchandising e cópias descaradas e homenagens honestas e Matrix. Que os irmãos Wachowski venderam para o produtor Joel Silver mostrando Ghost In The Shell e garantindo: "vamos fazer isso aqui só que com atores de verdade". E Major se tornou a inspiração de mil heroínas e um milhão de cosplays. E veio este filme. Este anacronismo fidelíssimo ao espírito do original. Até na frieza, até na aparente superficialidade, e absurdamente no impacto visual. Apesar do peso do blockbuster que tenta canhestramente ser, do roteiro pipocando de familiares frases de efeito.
É um documento de outra era, filtrado via Imax e 3D para uma massa de jovens que não viveu os anos 80 / 90. Cyberpunk hoje é a paisagem onde vivemos, invisível para a audiência do Século 21.
Uma alegria assistir o novo filme naquele cinemão, com meu filho fã de anime. Vaga sensação de perda horas depois, como de um membro que não está mais lá. Lembrando da minha primeira sessão de Ghost In The Shell naquela TV pequena, naquele apartamento pequeno, naquele VHS que até hoje está em algum lugar da minha casa, fantasma que estará sempre comigo.

http://r7.com/xEkK

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