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O fantasma do Fantasma Da Máquina

Postado por admin em 6 de abril de 2017 às 17:49 em Sem categoria | Nenhum comentário

 O fantasma do Fantasma Da Máquina [1]

Ghost In the Shell foi o primeiro filme de animação para adultos. Ou pelo menos nos parecia assim quando apareceu, para nós que nos achávamos muito adultos, discutindo assuntos de adultos. Talvez Ghost In The Shell tenha sido mesmo é o primeiro anime que rendeu animadas discussões filosóficas em mesas de bar. Até o título rendia: Ghost? Mas é um fantasma ou é uma alma? Virtual ou real, simulacro ou consciência? Do que exatamente esse desenho está falando?
Responsabilidade de Masamune Shirow, que fez um mangá diferente do que existia na épóca, apelativo mas ambíguo, inspirado por Arthur Koestler, Blade Runner e Neuromancer. Do diretor do desenho, Mamoru Oshii, fã de cinema europeu e de Tarkovski, que imprimiu um ritmo deliberadamente pausado, antinatural, ao que poderia ter sido só uma maçaroca de cenas de tiroteio e porrada. De Kenji Kawai, que compôs a trilha sonora espectral, coro e tambores Kodo, inesquecível.
E responsabilidade nossa, que finalmente estávamos preparados para Ghost In The Shell. Para um desenho animado que nos tratasse como o que éramos, adultos. Mas adultos que conviviam harmoniosamente com nossa infância e adolescência. Famintos por um banquete que exigisse mais do nosso paladar, com sabores mais sutis, desafiadores. Mas um banquete, que nos fartasse.
Então Ghost In The Shell, entre hipnótico e monótono, a maior obra audiovisual do cyberpunk. Cyberpunk que era o mundo das idéias de então: a chegada da revolução digital às ruas e às nossas almas, ao business e à guerra, além das fronteiras, para o bem e para o mal.
Como chamávamos então, pela sigla: GITS. Balas voando e Baudrillard, Philip K. Dick e Mecha, política, pop e espiritualidade. A presciência do século 21, do impacto que a nascente internet teria, a intuição das discussões de gênero e identidade e classe e geopolítica que viriam. E Major, uma protagonista feminina capaz, complicada, fria e quente, quente como só um cérebro humano em um corpo artifical poderia ser.
Depois vieram continuações e videogames e merchandising e cópias descaradas e homenagens honestas e Matrix. Que os irmãos Wachowski venderam para o produtor Joel Silver mostrando Ghost In The Shell e garantindo: "vamos fazer isso aqui só que com atores de verdade". E Major se tornou a inspiração de mil heroínas e um milhão de cosplays. E veio este filme. Este anacronismo fidelíssimo ao espírito do original. Até na frieza, até na aparente superficialidade, e absurdamente no impacto visual. Apesar do peso do blockbuster que tenta canhestramente ser, do roteiro pipocando de familiares frases de efeito.
É um documento de outra era, filtrado via Imax e 3D para uma massa de jovens que não viveu os anos 80 / 90. Cyberpunk hoje é a paisagem onde vivemos, invisível para a audiência do Século 21.
Uma alegria assistir o novo filme naquele cinemão, com meu filho fã de anime. Vaga sensação de perda horas depois, como de um membro que não está mais lá. Lembrando da minha primeira sessão de Ghost In The Shell naquela TV pequena, naquele apartamento pequeno, naquele VHS que até hoje está em algum lugar da minha casa, fantasma que estará sempre comigo.

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