Publicado em 17/07/2017 às 10:50

Crime e recompensa: o legado de Martin Landau

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Judah é um homem bom. Oftalmologista respeitado, pai de família, pilar da comunidade judaica de Nova York. Tem pela primeira vez na vida um caso, com uma aeromoça quarentona. Ela ameaça expôr a relação. Desesperado, ele explica a situação para seu irmão trambiqueiro, que promete dar um jeito na situação. Judah concorda. A amante é assassinada. Um abismo se abre sob Judah, um homem bom com sangue nas mãos: confessar o crime ou seguir com a vida, como se nada tivesse acontecido?
Só pela cena final entre Martin Landau e Woody Allen é obrigatório assistir Crimes e Pecados, o papel definitivo de Landau, que acaba de nos deixar. A tradução é ruim. Pecado é pior que crime. O original é Crimes and Misdemeanors, palavra sem equivalente em português, uma infração, um pecadilho.
Título de acordo com o tratamento ambíguo, como a vida é e a arte deve ser. Allen, que nos entediou em sua fase russa-escandinava quando resolveu ser diretor "sério", nunca foi tão sério. Costura o drama de Judah com uma trama paralela, em que faz seu papel habitual, "Woody Allen", exasperado com frustrações, enredado em paixonites, embatucado com o sentido da vida.
Voltaria ao tema Dostoievski-light, crime e talvez castigo, no hitchcockiano Match Point. É a mesma trama e mais explicitamente sobre guerra de classes, porque na Inglaterra, e mais jovem e sexy, Jonathan Rhys-Davies e Scarlett Johansson.
"Se você quer um final feliz, vá assistir um filme de Hollywood", provocava Judah, em um filme de 1989 que inclui um produtor de TV mercenário e um documentarista cego. No século 21 só há final feliz e uma interpretação do como a de Landau é missão quase impossível. Requer material que exija não só do ator, mas do espectador.
O entretenimento de hoje é patrulhado em todas as reentrâncias e comportado em qualquer plataforma. Espetaculoso na telona, algorítmico na telinha. Qualquer desvio do bem-pensante prontamente digerível é anátema.
Landau em Crimes e Pecados é empatia pura, humaníssimo, forte e fraco como eu e você. Surpresa: era em ator sensível o impassível canastrão que minha geração conheceu em Espaço: 1999.
Martin Landau foi da primeira geração do Actors Studio. Estudou com Lee Strasberg e Elia Kazan, foi colega de James Dean e Steve McQueen. Foram quase quarenta anos para ganhar o papel que o fará imortal. A recompensa por uma vida de trabalho demorou, mas chegou.
Allen, maior criador vivo do cinema americano, segue vilificado por pecadilhos que a opinião pública conservadora insiste que são crimes, mesmo que nunca tenham sido provados. A recompensa por sua vida de trabalhos brilhantes é o estigma de pecador.
Mas sua obra será vista e revista pelas gerações que nos seguirão. O ganhador do Oscar e a série que todos comentam neste final de semana, não. Enquanto houver inteligência e sensibilidade no planeta, enfrentaremos o dilema de Judah, admirável monstro moral, que o talento de Landau impõe: e se fosse eu?

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