Publicado em 19/07/2017 às 16:45

Protesto tem que incomodar. E o Brasil precisa aprender isso

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Macchu Picchu é um dos lugares mais fascinantes da Terra. É o principal destino turístico do Peru. Essa é a época que mais enche, porque não chove, visibilidade perfeita. Vem um monte de turistas, principalmente dos EUA e Europa. Chega a seis mil pessoas por dia. Justamente por isso é que os professores da região decidiram fazer agora um grande protesto por salários melhores - bloqueando o acesso a Macchu Picchu.

O sindicato dos professores do estado de Cusco fez greve durante os dias 12 e 13 de junho. Querem o mesmo que os professores do Brasil: mais dinheiro. O piso lá é uma miséria, como aqui. O movimento começou no início do mês. O governo explicou que não tem dinheiro no orçamento agora, as desculpas habituais.

Pois os professores foram lá e bloquearam a trilha de trem que leva a Macchu Picchu, e que é a única maneira de chegar lá. Botaram paus e pedras nos trilhos. Com isso, muitos turistas que tinham visita programada para esses dois dias perderam a viagem. Do Brasil, e também de lugares muito mais distantes. Imagine a frustração, voar da Alemanha ao Peru e não conseguir visitar Macchu Picchu.

Bem, certamente é menor que a frustração de ensinar todo dia a nova geração de peruanos, ganhar mal e ouvir desculpa dos políticos, ano após anos. E a população do Peru entende isso. Inclusive os guias turísticos. E inclusive os policiais.

Veja só: a polícia teve uma reação inesperada. Não sentou a borracha nos manifestantes, nem tacou gás lacrimogêneo neles, mesmo quando o sindicato ocupou toda a Plaza de Armas, o lugar mais turístico de Cusco. Um policial resumiu muito bem a posição dos peruanos: "todos sabemos que os professores precisam ganhar mais, e todos temos filhos nas escolas." O que a polícia fez? Os professores bloqueavam os trilhos, os policiais iam lá e limpavam. E assim foi durante dois dias.

O Peru é um dos berços da civilização humana. Um dos primeiros lugares onde se desenvolveu uma sociedade sofisticada, organizada, com agricultura, arquitetura, cultura próprias, há uns oito mil anos atrás. Foi lá, no México, Crescente Fértil, Índia, China e só. Os peruanos seguem mais civilizados que os brasileiros, de várias maneiras, mesmo com toda a pobreza e desigualdade do país. Por exemplo, não há violência. Nem do crime, nem do estado contra seus cidadãos (OK, de vez em quando há. Mas não nesse caso dos professores).

Eles entendem que protestar é direito de todos. E que protesto é para incomodar mesmo, para atrapalhar o andamento da vida normal, para dar prejuízo. Protesto que não incomoda não é protesto, porque não pressiona, não repercute, não faz a sociedade prestar atenção, a imprensa debater, o governo se mexer.

Foi enchendo o saco que nossos antepassados conquistaram o voto, salário mínimo, escola pública gratuita, e todas as conquistas que hoje damos de barato. Podes crer que muita gente naquela época reclamava, "lá vem aquela mulherada de novo atrapalhando o trânsito para conseguir o direito ao voto!".

Mas os professores peruanos conseguiram seu objetivo, atrapalhando a vida dos turistas? Ainda não. O governo tá enrolando, promete uns aumentos para o final do ano. O sindicato segue mobilizado. Os médicos da rede pública entraram em greve em apoio aos professores. E agora os mineiros também declararam greve sem data para acabar, mas contra o pacote de reformas trabalhistas que o governo pretende impôr, e que a população do Peru rejeita. Lembrou de algum país?

Enquanto isso no Brasil ainda continuamos com o discurso de que protesto é coisa de vagabundo. Que interromper as vias é coisa de criminoso, que manifestação é anarquia e por aí vai. Outro dia estavam chamando de vândalos uns manifestantes que quebraram umas vidraças no Rio de Janeiro. Ora, perto do vandalismo que foi cometido pelos governantes do Rio contra a população... são dois erros, sei, e não fazem um acerto, sei, mas não vamos comparar a violência cometida por Sérgio Cabral e cia. contra o Rio, com uns vidros espatifados.

Hoje mesmo uns estudantes que protestavam contra o aumento no preço do transporte para eles, aqui em São Paulo, entraram no sarrafo. Uma mulher foi hospitalizada com cacetada na cabeça. Manifestantes e um jornalista se machucaram. A maior parte da imprensa noticiou como "confusão". Não tem confusão nenhuma, tem é agressão do poder público contra a população.

Que tem todo o direito de protestar. Inclusive tem o direito de protestar contra a retirada de seus direitos. Porque, como sabemos, direito não é uma coisa que se concede, não é um presente. É uma coisa que se conquista, e que a gente precisa defender para não perder. Por isso é que protesto tem que incomodar. Coisa que qualquer país civilizado sabe e dá de barato. Inclusive nosso vizinho Peru. E que o Brasil ainda tem que aprender.

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