Publicado em 20/07/2017 às 18:15

Um conselho para João Dória (e uma encomenda para os paulistanos)

FUP20170102460 Um conselho para João Dória (e uma encomenda para os paulistanos)

É comum e forçada a comparação entre João Dória e Donald Trump. Mas é inegável que pelo menos uma coisa o prefeito e o presidente têm em comum. É a dificuldade de ouvir críticas. E com isso, de reconhecer erros e pedir desculpas.

A deficiência no diálogo é um problema para qualquer pessoa. Mais ainda em gestores. E infinitamente mais em gestores públicos, que são representantes da vontade popular, e lá estão única e exclusivamente como funcionários da população. Como Trump, Dória fala pelos cotovelos. Está o tempo todo nas redes sociais, e gerando ganchos para aparecer na imprensa. Sua equipe de mídia social esquadrinha a internet 24 horas por dia, à procura de citações positivas, para alavancá-las, e negativas, para rebatê-las.

Normal? Até certo ponto. Político tem que vender seu peixe mesmo. Que político quer dar destaque para o que está indo mal na cidade que administra? Mas a marcação cerrada da administração Dória contra críticas vai além do habitual. Inclusive do habitual no estado de São Paulo, onde os jornalistas já estão bem acostumados com a postura de Geraldo Alckmin, cuja estratégia de comunicação é nunca se explicar e nunca pedir desculpas.

Pode ser uma questão de formação profissional. Dória é publicitário das antigas. Vê a mídia como um espaço para relações públicas, não questionamento. Em todos os seus anos como entrevistador, nunca fez uma pergunta que colocasse o entrevistado em uma situação difícil. Seu negócio é networking, é relações públicas. Natural que veja esta fase na prefeitura como continuação do trabalho que sempre fez. E quem sabe sua longa experiência como facilitador de relacionamentos possa render bons resultados para São Paulo.

Mas o marketing mudou e Dória parece que não percebe. Mesmo usando todo o arsenal da internet, e tendo uma ótima equipe de mídia social, a impressão é que o prefeito parou no tempo. Ainda vê a comunicação como via de mão única, em que o anunciante determina ao consumidor como, o quê, quando e por quanto ele deve comprar. Qualquer publicitário afinado com o espírito da nossa época sabe que não é assim que se faz comunicação efetiva no século 21.

Dois casos atuais explicitam o problema do prefeito. Primeiro, a história dos moradores de rua que teriam sido alvo de jatos de água, nesse frio desgraçado. Na verdade a água não foi neles, foi nos cobertores. Evidentemente, não foi Dória que mandou fazer isso. E vale lembrar que na gestão Haddad aconteceu algo similar, quando a Guarda Civil retirou cobertores de moradores de rua em pleno inverno.

Mas de fato equipes de zeladoria da prefeitura, e a Guarda Civil Metropolitana, estão recolhendo cobertores, colchões e objetos pessoais de gente que mora na rua. É a conclusão de diversas reportagens, e denunciada pelo próprio padre Júlio Lancellotti, coordenador da Pastoral do Povo da Rua.

Como Dória deveria ter reagido? Bastaria dizer: "De fato isso aconteceu. Peço desculpas aos moradores de rua. Isso é um absurdo. Já avisei todas as Sub-Prefeituras e a Guarda Civil que não pode voltar a acontecer e que se algum funcionário nosso fizer isso, será punido severamente."

Como Dória reagiu? Disse que foi "um descuido". E disse também o seguinte:

"A informação foi difundida de maneira equivocada. As equipes de limpeza fazem a limpeza todas as manhãs: varrição e limpeza de pisos. Jamais algum profissional foi orientado a jogar jatos d'água em moradores. É uma mentira. E ninguém checa a informação, que jornalismo é esse? Não houve e nem haverá jatos d'água... Alguns cobertores foram molhados. Inclusive, hoje distribuímos novos cobertores para essas pessoas. Gaste pelo menos dois minutos para checar se a informação é verdadeira."

O prefeito pisou na bola. As reportagens não são obra de moleques. São matérias de veículos como CBN e Folha de S. Paulo. É um caso em que Dória lembra, de fato, Trump, atacando a imprensa por divulgar "fake news". A repercussão, como se pode imaginar, está sendo péssima para o prefeito.

Um outro caso: uma viatura da Guarda Civil Metropolitana atropelou uma menina de nove anos na rua Helvétia, na região da Luz. A Helvétia era o epicentro da Cracolândia, que agora se localiza na esquina da rua Cleveland com a Praça Júlio Prestes - não acabou, claro, só mudou de lugar.

A menina mora por ali. Brincava na rua com uma irmã e um amigo. Teve uma fratura na tíbia da perna direita e lesões no pé esquerdo, joelho e cotovelo. Passou por cirurgia e vai passar por mais uma. Ela não tem previsão de alta. A reportagem do nosso Peu Araújo, aqui do R7, conta em detalhes o caso. Entrevistou a mãe da menina. Ela conta que é comum viaturas passarem em alta velocidade naquela esquina. A reportagem do R7 verificou que na nova Cracolândia também há risco de acidentes. Tem centenas de pessoas ocupando a praça e parte da rua e não tem semáforos.

O repórter mandou uma série de perguntas para a prefeitura sobre o acidente com a menina (por exemplo, o Samu não foi acionado), o risco de acidentes, se houve outros atropelamentos, que providências serão tomadas para evitar casos assim.

A resposta da prefeitura foi a seguinte: "A Guarda Civil Metropolitana lamenta o ocorrido e informa que a criança foi imediatamente socorrida pelos integrantes da viatura para o hospital da Santa Casa. No hospital foi constatada fratura no pé esquerdo, a menina ficou em observação, acompanhada pela mãe. A ocorrência foi conduzida ao 2° DP."

De novo: comunicação que não comunica. Ignora questões e questionamentos. Fala, fala, e parece que não ouve, ou não quer ouvir.

Dória tem fãs ardorosos e detratores automáticos. Passada a eleição, a maioria não é uma coisa nem outra. Os paulistanos são muito pragmáticos. Queremos ver resultados. Só louco quer ver o fracasso da gestão Dória. Todos torcemos que esse prefeito faça a melhor gestão de todos os tempos. E o prefeito que o substituir, idem, seja quem fôr, do partido que fôr. Todos sonhamos com uma cidade muito melhor.

Mas para nosso prefeito fazer uma boa gestão, precisamos também nós fazer a nossa parte. Minha encomenda para os paulistanos: está na hora da gente cobrar Dória. Já são seis meses na prefeitura. Está na hora dele provar que é o que dizia ser, durante a campanha, um bom gestor. E já passou da hora dele se tocar: a primeira obrigação de um gestor é aprender a falar menos e ouvir mais.

http://r7.com/i8UF

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