Publicado em 07/08/2017 às 12:14

Hospital que dá lucro é prejuízo para o paciente

pss Hospital que dá lucro é prejuízo para o paciente

Um hospital é uma linha de montagem. O produto final é a alta ou o óbito. O objetivo do hospital é gerenciar os recursos da maneira mais eficiente. Produtividade é a palavra-chave.

Esta é a razão porque o internado vive sendo interrompido. Agora é hora do antibiótico, daqui meia hora da fisioterapia. Mais uma hora e vamos tirar sangue; mais duas horas, checar a pressão e a oxigenação; agora o banho; em mais uma hora o almoço, o soro, a milésima picada. E segue o inferno da interrupção infinita, hora após hora, dia inteiro e noite adentro.

Isso exaspera o paciente (e o acompanhante). Porque, primeiro, não se dorme. Segundo, a simpatia das profissionais (e são sempre “as”) não esconde que o sorriso é obrigatório, o salário é sofrível e a responsabilidade, pesada. Seria simples organizar isso melhor, com o foco no paciente, e não no andamento militar da máquina hospitalar.

Isso tudo, veja bem, é hospital bom, pra quem tem recursos e seguro bacana. Estão acima das possibilidades de 90% dos brasileiros. Mas os outros  hospitais, que atendem as massas, têm a mesma lógica, com níveis bem superioridades de crueldade - não do pessoal. Pelo contrário:  do Impessoal.

“Produtividade” é palavra que devia ser riscada da discussão social.  Discute-se política o tempo todo no Brasil. Palavras ao vento, porque não se fala de Política com P maiúsculo: como forçar nosso país a aplicar seus imensos recursos em favor de seu povo, começando pelos que mais precisam. E ninguém precisa mais que uma pessoa doente.

Enfrentar uma doença grave podia ser mais suave. Devia ser mais suave. O caminho de volta à saúde deveria ser uma jornada da fraqueza para a vitalidade, que elevasse o espírito e fortalecesse o ânimo. Como, sei lá, em Delfos, banhos, beberagens e bençãos dos sacerdotes de Apolo. Só que com toda a tecnologia atual, claro.

Uma parte enorme do que hoje é feito em hospital poderia ser feito em casa, aliás, e já começa a ser assim em muitas partes do mundo. Outra parte grande de manter a saúde é prevenção, o que naturalmente não interessa para os grandes players da área, começando pela indústria farmacêutica.

As discussões brasileiras sobre o tema pararam no século 19, como aliás várias outras. Quando leio os pseudo-debates sobre investimento social em saúde, tipo “devemos botar mais dinheiro nas crianças ou nos velhos?”, ou "o importante não é o salário", sempre lembro daquelas plaquinhas antigas de hospital mandando a pessoa calar a boca, “Silêncio!”.

Por que são assim tão desagradáveis os hospitais? Já não basta a agressividade das doenças? Não poderíamos ser mais gentis com as pessoas, quando elas estão no seu estado mais frágil?

Não, porque a “lógica econômica” dita que o hospital pode ter no máximo três enfermeiras para cuidar de 15 leitos, a fisioterapeuta tem que dar conta de três andares, o médico só pode passar cinco minutinhos. Para “a conta fechar”.

O que significa sempre que recursos preciosos, que poderiam estar indo pra gente doente, estão indo para outros destinos menos nobres. Sejam dividendos no bolso dos acionistas, dos hospitais, seguradoras e companhia. Ou, e nesse caso é a ainda mais injusto, a grana que deveria ser da saúde pública vai parar em algum canto obscuro do orçamento público, para os usos obscuros que todos conhecemos.

"Produtividade", no jargão de hoje, é fazer mais com menos. Pra quê? Pra dar lucro. Lucro com o sofrimento alheio é feio, vamos concordar. Nosso objetivo tem que ser outro: fazer mais para quem precisa mais. Enquadrar pacientes de carne e osso dentro da prisão dessa pseudo-produtividade (ou, como faremos no Brasil a partir de 2018, dentro de um “teto de gastos”) é imoral. E improdutivo...

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