- André Forastieri - http://noticias.r7.com/blogs/andre-forastieri -

Quem ainda se importa com Caetano Veloso?

Postado por aforastieri em 8 de agosto de 2017 às 13:47 em Sem categoria | Nenhum comentário

cae 1024x682 Quem ainda se importa com Caetano Veloso? [1]

Caetano Veloso completou 75 anos. Quando fez 70, a imprensa empinou ensaiadinha o rabicó, coreografia previsível, estilo abertura das Olimpíadas. Submissão abjeta à autoridade e ao consenso que compensa. Surpresa zero. Agora igual, mas no esquema internet, "relembre a trajetória". Nos dois casos, o tema das matérias era o passado do cantor, compositor, músico, muso, e ênfase é o presente. Pergunto: que presente? Caetano não importa há mais de três décadas.

Pior: importa em tudo que não importa. Segue influente onde sua influência é nefasta. Ninguém ouve o que Caetano diz, mas quem ouve é surdo à qualquer crítica ao guru. A vida é curta e os fãs de Caetano, à prova de argumentos. Já sei o que penso sobre sua bazófia, ansiedade e oportunismo. E ele é um senhor, ou, mais precisamente, um sinhozinho. Podia ser meu pai. Vamos respeitar o tio. Mas não vamos respeitar suas fanzocas baba-ovo.

Tenho prática. Jovenzinho, eu já costumava animar festinhas desanimadas zoando os zumbis-Caê. Jornalistaiada jovem e companhia, festinha no apê, turminha reunida em volta da geladeira, cerveja gelada, cheiro de maconha etc., discussões esquentando, eu jornalista culturets, suposto entendedor de música.

Bola quicando, eu chutava: a questão não é se Caetano Veloso já fez um monte de música boa. Claro que fez! (Qual? Minha resposta de arquivo é Leãozinho, que fãs de Caetano frequentemente odeiam, eu acho uma beleza de canção de ninar).

O problema, explicava eu espocando outra latinha, não é Caetano, é gente como vocês, que continuam babando por ele, batendo palmas sem pensar, quando ele não faz um disco que preste há muitos anos. Polêmica! Contestações raivosas: como assim? Tá maluco? E essa música, e aquela outra da novela ano passado, e o dueto com não sei quem?

E aí eu cravava a estaca: não estou falando de uma canção ou outra. Estou falando de um disco decente. Quer dizer, de dez músicas do álbum, pelo menos um terço tem que ser de bacanudas. Cite aí, amigo, três canções sensacionais de um disco recente de Caetano Veloso. Silêncio. Tentativas falhas.

Eu rebatia: não, essa é do Araçá Azul, essa é deste, essa não foi composta por ele, só vale composição própria etc. (quase tudo enrolação minha. Eu vou lá saber essas coisas?). O fato é que NINGUÉM jamais acertou três músicas decentes pertencentes ao mesmo álbum. Rendia uma meia hora de bate-boca, seguida de um satisfatório calaboca nos coleguinhas. Hoje seria mais fácil ainda. Caetano tem vários discos com pelo menos três canções de sua autoria inquestionavelmente decentes. São todos dos anos 70. Não é nem de longe suficiente para beatificação.

Caetano sobrevive da admiração acrítica de fãs bestas, da condescendência da imprensa e principalmente de suas relações. Que parecerista do Ministério da Cultura, diretor de marketing ou produtor de trilha de novela dirá não a Caê e Paulinha? Está sempre em evidência, sempre correndo para colar na nova modinha. Invariavelmente chega atrasado, mas sempre a tempo de passar por vanguardista junto aos desinformados, quem acredita ou se importa com vanguardinhas.

Em política, cala-te boca. Mas faça você de conta que o episódio Procure Saber não existiu. Caetano e os tropicalistas, e seus discípulos e apaniguados, são sempre Contracultura a favor. Estão perfeitamente integrados à veia principal da cultura e da política brasileiras,  fundamentadas na busca de benesses e na proximidade dos cofres públicos.

O falso rock da Tropicália inventou o adesismo antropofágico. Segundo os tropicalistas, nada é certo ou errado, tudo pode ser divino e maravilhoso. O novo, o velho, o brega, o chique, o intelectual e o ignorante. Você pode e deve transitar do morro à Barra, do samba no pé à mesa dos poderosos.

Nenhum juízo de valor é possível. O relativismo é o único mandamento. Qualquer um pode dizer: estou fazendo uma coisa radicalmente nova, e se você não entende é radicalmente careta. É a mensagem de Caetano, talvez a única. A estratégia tropicalista-de-mercado exige a apropriação de cada novidade que pintar. Nem é mais antropofagia, é glutonice. Quem nunca engoliu esses árbitros da cultura brasileira é perseguido, processado, e muitas vezes foi ostracizado - Raul Seixas é o caso mais chocante.

Raul, já sabemos, permanece muitíssimo vivo quase trinta anos após sua morte. Em 2050, esqueleto de Caetano brilhando no caixão, ele será lembrado por Alegria, Alegria etc., suas canções mais populares e antigas, umas 15 ou 20, que ficarão como intrigante retrato de uma época distante. Não é pouco. Também não é grande coisa, porque sua melhor obra se perde em meio a tanta porcaria que fez depois, dentro dos estúdios e nas ruas, na nossa cultura e no nosso país.

Meio século atrás, 1968, Augusto Boal já previa o futuro de Caetano:

"O Tropicalismo pretende destruir a cafonice endossando a cafonice, pretende criticar Chacrinha participando de seus programas de auditório. A participação de um tropicalista num programa do Chacrinha obedece a todas as coordenadas do programa e não às do tropicalista – isto é, o cantor acata docilmente as regras do jogo do programa sem, em nenhum momento, modificá-las (...) O  Tropicalismo é inarticulado – justamente porque ataca as aparências e não a essência da sociedade, e, justamente porque essas aparências são efêmeras e transitórias, o Tropicalismo... apenas xinga a cor do camaleão."

http://r7.com/NaNk

  [2]
  [3]


Artigo impresso de André Forastieri: http://noticias.r7.com/blogs/andre-forastieri

Endereço do artigo: http://noticias.r7.com/blogs/andre-forastieri/2017/08/08/quem-ainda-se-importa-com-caetano-veloso/

Endereços neste artigo:

[1] Imagem: http://noticias.r7.com/blogs/andre-forastieri/files/2017/08/cae.jpg

[2]  : http://noticias.r7.com/blogs/andre-forastieri http://noticias.r7.com/blogs/andre-forastieri/2017/08/08/quem-ainda-se-importa-com-caetano-veloso//emailpopup

[3]  : http://noticias.r7.com/blogs/andre-forastieri http://noticias.r7.com/blogs/andre-forastieri/2017/08/08/quem-ainda-se-importa-com-caetano-veloso//print