Publicado em 09/08/2017 às 16:09

Porque o Brasil precisa de Pabblo Vittar rebolando na nossa cara

pabllo Porque o Brasil precisa de Pabblo Vittar rebolando na nossa cara

O cantor Pabllo Vittar em sua participação no Encontro nesta quarta (9)

É uma bicha! Rebola como bicha, se veste como bicha, tem voz de bicha - como é possível que uma bicha dessa faça tanto sucesso com os jovens? Quem, Pabblo Vitar? Não, Ney Matogrosso, mais de quarenta anos atrás. Lembro da primeira vez que vi os Secos & Molhados na tevê, uma bomba nuclear na nossa sala e na minha cabeça, vira homem vira vira lobisomem. Pra família brasileira, rock até então era Jovem Guarda. Eu tinha oito anos e me assustavam as "crianças cegas, telepáticas" da Rosa de Hiroshima.

Hoje Ney é o medalhão da nossa MPB, geração setentão, junto com os tropicalistas, Chico, Roberto Carlos e cia. Longa carreira para trás, segue lúcido, engajado. Seus shows seguem cheios de tiazinhas que acham Ney o máximo e cantam junto "se correr o bicho pega se ficar o bicho come."

Ney explodiu em um dos momentos mais sombrios da nossa história, o segundo recrudescimento da ditadura militar. Que não reprimia só a liberdade de expressão, de organização, de lutar por melhores salários. Era repressora também nos costumes. O ideal militar era cada cidadão ocupando seu devido lugar na sociedade, homem na rua e mulher em casa, Brasil Ame-o ou Deixe-o, e vamos cortar o cabelo aí, seu maconheiro. Ser bicha era ser fraco, e inaceitável no meu Brasil infantil, na minha escola pública onde toda sexta-feira celebrávamos o "Culto À Bandeira".

Mas naquele 1973 os ventos da liberdade já procuravam frestas para se infiltrar. E como sempre, o primeiro sopro vinha da Cultura, e não da política. No caso, da Contracultura. Quando as instituições se mantém imóveis, é necessário mudar a vida.

Em alguns anos a garotada que se espantou e se encantou com Ney teria imaginação e músculos para criar um Brasil diferente. Imperfeito, mas anos-luz à frente do regime militar. Seguimos tentando, alguns da nossa geração. Com cada vez menos empenho, mas essa é a ordem natural: coroas tocam o barco, jovens tocam o terror.

Hoje vivemos em um país muito melhor que o da minha juventude. E as mudanças não vêm como brisas, e sim com a força de um tufão, informação nova, digital, poderosa, provocante.

Uma mudança muito grande do século 21 é na área do discurso. Existe uma patrulha enorme sobre o que se fala e como se fala. Hoje as pessoas ainda usam termos como "bicha" e "viado" na rua, mas ai-ai-ai se você escrever. O problema é que nesse caso, como em muitos outros, essa mudança no palavreado não se reflete em mudança na vida real. A violência contra gays no Brasil continua extrema, e está piorando.

Segundo a Ordem dos Advogados do Brasil, nos primeiros quatro meses de 2017 houve um aumento de 20% nas agressões contra pessoas LGBT. Em 2016 houve 343 mortes violentas nesse grupo e 144 eram travestis e transsexuais. É quase um por dia. Fora os tantos que foram agredidos, que são agredidos, no dia-a-dia, e sobrevivem. Fora o tanto de preconceito que têm que enfrentar.

Há quem veja gente como Pabllo Vittar como parte do problema, porque "provoca". Nada disso. Ele é parte da solução. Pabllo se define como "drag queen". Mas não tem nada a ver com as Robertas Closes de outras épocas, homens que pretendiam passar por mulher. É sexy como homem e sexy como mulher, e não há como negar. Diz que gosta de "afeminada", de"ser o que quiser ser".

Pabllo é andrógino como os melhores popstars. Inimaginável hoje, mas Elvis era considerado muito feminino na sua época. E também os Beatles. E Bowie, Prince, Michael Jackson...

Pabllo Vittar vai ter uma carreira longa e proveitosa como Ney Matogrosso? Não importa. Importa o agora. E nesse momento, é evidente que Pabblo tem o mesmo potencial transformador de Ney.  Como Ney, Pabblo é agressivo nas performances, mas pura simpatia em entrevistas, articulado, engraçado e gente fina. E assim como Ney foi aceito pela família brasileira, Pabllo já começa a ser. Virando garoto-propaganda de cosméticos, cantando nos programas matutinos.

Não é que de repente todo mundo vai passar a aceitar os homossexuais, ou achar normal, ou aceitar tranquilamente se o seu fiho ser gay. "Todo mundo" é muita gente, e "de repente" é muito rápido.

Mas a presença de gente como Pabllo na nossa cena cultural vai fazer, com o tempo, que a gente vá aceitando a presença de gente como Pabllo na rua, no trabalho, na vida. É o caminho para que a gente pare de isolar, agredir, matar pessoas porque elas se relacionam com outras do mesmo sexo, se vestem de maneira estranha, ou têm atitudes das quais discordamos.

Você não precisa aplaudir Pabllo, mas precisa aplaudir um Brasil mais acolhedor e menos violento. Pabllo é importante, porque um perigo para o Brasil que ainda mata e persegue gays, esse Brasil nojento, que precisamos enterrar. Como fez Ney Matogrosso, Pabblo combate nosso atraso - rebolando bem na nossa cara.

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