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O que aprendi sendo pai (e filho)

Postado por admin em 11 de agosto de 2017 às 10:30 em Sem categoria | Nenhum comentário

calvin 104 O que aprendi sendo pai (e filho) [1]

Todo pai quer ser o melhor amigo do seu filho. Mas amigos se tratam de igual para igual. Nunca seremos iguais, meu pai e eu, eu e meu filho. Me dou muito bem com os dois. É amizade, sim, mas embolada em muitas outras coisas - autoridade, responsabilidade, contradição, confusão, história, amor.

Quando meu filho nasceu, meu pai, que é psiquiatra, me informou: "pai não serve para nada na primeira infância. A relação do nenê é com a mãe. O pai serve no máximo para ajudar a mãe." Não dei a mínima. Curti meu filho como se fosse mãe. Fiz tudo que mãe faz, menos produzir leite.
Tempos depois eu estava dando papinha para o meu filho, aquela meleca, e meu pai, do lado, mandou o seguinte comentário: "você sabe que eu nunca te dei papinha? Também nunca dei mamadeira, nunca troquei fralda, nunca dei banho... e você cresceu muito bem e está aí, um pai excelente!"
Fiquei feliz de ouvir isso, claro. Foi um desses momentos marcantes, o avô babão e o netinho babando, e me toquei que esse negócio de ser pai não tinha cartilha nem fôrma. A mulher quando dá a luz vira uma chave. O bebê lá todo sangrento e ela plim, se transforma em mãe de um segundo para outro.
Já pai não tem essa, não tem o clique, o momento da metamorfose. Ser Pai é uma coisa que o homem tem que ir inventando com o tempo. E nos dias de hoje, ser pai é explorar território desconhecido. Porque entre a geração do meu pai e a minha, o papel do pai mudou muito, e continua mudando, e o papel da mãe não mudou quase nada. A paternidade no século 21 é muito divertida, porque não tem regras claras.
Agora meu filho está adolescente. A relação de pai e filho muda. A autoridade automática do pai vai se esvanescendo. É o curso natural da vida. Você tem que criar uma nova relação, em novas bases. Aquela criança que você tanto curtia já era. Fica um tanto da personalidade, da criação, da doçura infantil. Mas quando os hormônios batem, batem forte.
Adolescentes são naturalmente insolentes, o que é ótimo e necessário. Mas prepare sua paciência para os comentários sarcásticos. E não adianta você retrucar, porque o moleque (ou moleca) está com o headphone no ouvido. Em outras épocas os reis mandavam jovens dessa idade pra guerra...
É um equilíbrio difícil. De um lado, você quer ser amigo do seu filho, uma pessoa em quem ele possa confiar e com quem possa conversar. De outro, não pode, não deve abdicar de ser pai, o que significa frequentemente ser chato e dizer não. Até o dia em que ele será adulto e independente, meus "nãos" passarão a ser meramente retóricos, e minha autoridade será exclusivamente moral, se é que a terei conquistado.
Quando seu filho vai crescendo é sinal que seu pai está envelhecendo. E você ali, entre um e outro. E quando os nossos pais vão envelhecendo, é tentador ter uma visão paternal deles. Tipo "eles cuidaram da gente, agora a gente é que vai cuidar deles".
Mas não é assim que funciona. Não dá para ser pai do seu pai, ou mãe da sua mãe. Não dá para força-los a fazer o que você quer, mesmo que seja "o melhor para eles". Também não dá pra lavar as mãos e deixar eles fazerem o que bem entenderem.
É muito mais complicado que isso, e é importante que seja mais complicado que isso. Depende muito da gente criar, com o tempo, uma autoridade moral de filho para pai. Exige tempo, dedicação, esforço, experiência. Como a nossa relação com os filhos, vai mudando com o tempo e nunca para de mudar.
Mas é para sempre, é contrato vitalício, é trabalho para todo dia. Ser pai dá trabalho, ser filho também. Mas nos dois casos é o melhor trabalho do mundo. Feliz dia dos pais, dos filhos - dos melhores amigos.

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