Publicado em 24/08/2017 às 15:38

Porque o Brasil adora George R. Martin (e porque não leio seus livros)

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Dos dez livros mais lidos do Brasil essa semana, cinco são de George R. Martin, incluindo os três primeiros. Todos fazem parte da série "Crônicas de Gelo e Fogo", que foram adaptadas para a televisão como "Game of Thrones", fenômeno de audiência e repercussão entre os fãs.
É fácil simpatizar com Martin, um tio gordinho e simpático, 68 anos, barbicha, sempre de boné, sempre vestido de qualquer-um, muitas vezes milionário. Cresceu lendo gibis da Marvel e jogando xadrez. Passou a escrever contos e romances de monstro, de ficção científica, de super-heróis, conforme o mercado comprasse. Um escritor profissional, dançando conforme as vendas, profissão que só nos Estados Unidos.
Nos anos 90 os leitores americanos se encantaram com grandes sagas, trilogias, tetralogias, séries compridas e cheias de personagens, principalmente de "fantasia". Termo que engloba muita coisa, mas dá pra resumir em uma expressão bem antiga, "sword and sorcery", espada-e-magia. Você sabe como é: cavaleiros e dragões, princesas e magos, castelos e encantos. Você sabe como é: "O Senhor dos Anéis".
Em 1996, Martin lançou o primeiro episódio de sua série de fantasia. Era justamente "A Song of Ice and Fire - Game of Thrones", aqui "Guerra dos Tronos", o livro mais vendido do Brasil essa semana. Fez sucesso desde o começo, mas nada comparável ao de hoje. Só dez anos depois virou série de TV através da HBO, e fenômeno global. Gerou um monte de livros paralelos, produtos licenciados, bugigangas diversas.
Não sou aficcionado por fantasia, mas também não tenho preconceito. Dei uma folheada de curioso profissional no primeiro livro. Prefiro fazer tratamento de canal que ler um desses inteiro.
Perguntei numa rede social: amigos leitores de George R. Martin, podem me explicar porque curtem tanto esses livros? Uma explicação comum é que seus personagens são ambíguos, não tem mocinho e bandido, bem e mal, maniqueísmo besta. Bem, isso é o mínimo que se aceita em literatura desde o século 19. É um avanço sobre, digamos, Harry Potter, mas não muito mais que isso.
Perguntei aqui pro amigo Tiago Alcântara, que curte a saga e a série, porque ele leu todos os livros e porque curte Martin. Suas respostas foram esclarecedoras. Sim, tem a ambiguidade moral. Mas também a maneira como Martin conta a história, com capítulos mostrando o ponto de vista de só um dos protagonistas. Sua falta de piedade com os personagens, que mata sem piedade; e o charme dos personagens principais, que é difícil abandonar. O próprio ambiente de vale-tudo dos reinos. Também confessou que depois de ter as duas mil páginas dos três primeiros livros, não teria coragem de não ler os seguintes.
Assuntei se os livros têm cenas de sexo como a série. Tiago confirma, mas mais suaves; de qualquer forma, raridade em livros de fantasia, tradicionalmente castos, leitura para todas as idades.
Entendi porque não assisto Game of Thrones. É uma novela. Não gosto de novela desde criança. Nunca assisti uma. Preconceito nenhum. Novela é um produto cultural tão válido quanto filme, videogame ou rap. Mas quando estou na casa dos outros e vejo uns minutos de qualquer novela, me sinto assistindo grama crescer.
O fato de Martin escrever telenovelas em formato de fantasia explica sua popularidade global. Novela é o formato de ficção favorito do planeta. O único lugar onde não era assim são os Estados Unidos. Mas no século 21 os americanos também se renderam à ficção multiepisódios, temporada após temporada desenrolando uma longa história. Brasileiro é doido por novela desde sempre, claro, e assim estão explicados os cinco livros de Martin entre os dez mais vendidos do Brasil.
Se não assisto novela, muito menos vou ler esses tijolaços, novela em papel. Abandonei romances gigantes tem mais de uma década. Sagas em vários volumes nem pensar. Jamais lerei Elena Ferrante etc. Devo estar perdendo muita coisa boa. Tem outras melhores, te prometo, te garanto.
Livro longo, só se for de contos, e o último que li, por acaso, é de fantasia: Cuentos Completos, de Jorge Luis Borges. Recomendadíssimo para você que adora George R. Martin. E para você que abomina, também. Um gostinho, aqui...

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