Publicado em 30/08/2017 às 16:38

Chico Buarque e o disco que não foi

chico Chico Buarque e o disco que não foi
O novo disco de Chico Buarque é igual todo disco do Chico Buarque. Ele é nosso letrista mais sofisticado e segue assim. As melodias escorregam pelo ouvido, os arranjos são pedestres, a voz é de taquara rachada. Como sempre.
Chico não tem que provar nada para ninguém, claro. Mas todo novo disco é um teste. Todo mundo que chega a esse ponto de uma carreira tão importante concorre consigo mesmo. E de fato, na hora da gente ouvir, não vai ouvir repetidamente um álbum novo só porque no passado o artista fez coisas geniais.
Chico sabe que daqui cem anos será lembrado pelo que fez nos anos 70, não no século 21. Parece em paz com o fato. Não deve satisfações ao público - nenhum artista de verdade deve; se achar que deve não é artista, é marketeiro. Faça o que quiser que será tudo da lei, dizia Raul (hei, teria sido legal uma parceria Chico-Raul, hem?).
Caravanas é o disco que Chico quis fazer, ótimo, mas não é o disco de Chico que eu queria ouvir nesse momento. Ninguém do mundo artístico brasileiro se expõe politicamente como Chico Buarque. Ele dá e sempre deu a cara para bater. Pagou por isso de muitas maneiras. Recentemente, com agressões públicas e mais. Você pode concordar ou discordar das opções políticas dele. Mas se for simplesmente com um "gênio!" ou "vai pra Cuba!", não faz jus à inteligência de Chico.
Chico Buarque tem mais de meio século observando, registrando, refletindo o Brasil. Com sua sensibilidade social e talento imenso, poderia ter nos dado não o disco romântico que queria fazer, mas o disco político que o Brasil 2017 precisa ouvir. Minha crítica a Caravanas não é musical, não é pelo disco que é. Mas pelo disco que poderia ter sido.

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