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O que aprendi no meu 7 de setembro inesquecível

Postado por aforastieri em 6 de setembro de 2017 às 15:28 em Sem categoria | Nenhum comentário

Sete de Setembro rio preto O que aprendi no meu 7 de setembro inesquecível [1]
Rua Barão de Limeira 425, três da tarde de 7 de setembro de 1988: André, 23, um metro e oitenta e quatro, 65 quilos, cabelo nos ombros, calça de veludo bege, jaqueta de couro e bota carrapeta, entra na sala pra fazer sua primeira entrevista de emprego na vida e mente sem parar.
Mente sobre sua experiência, que é nenhuma, sobre quanto viajou, quanto leu, o que está lendo, mente mente mente. Se não está mentindo está exagerando, embelezando, enrolando. Os entrevistadores são Márion Strecker, editora da Ilustrada, Maurício Stycer, editor-assistente, e Carlos Eduardo Lins da Silva, secretário de redação da Folha de S. Paulo.
Já tinha mentido no currículo que mandou - e deu certo, foi chamado pra entrevista, certo? E então é hora do teste: escreva em uma hora duas laudas dizendo quais são os principais problemas da Ilustrada e o que você pode fazer para melhorar o caderno. À máquina, favor corrigir erros com branquinho.
O que escrevi? Adoraria ler hoje. Lembro de citar acid house. Eu acabava de voltar de Londres, e tinha dado a entender no currículo que tinha uma larga experiência internacional (que nada, tinha só passado 45 dias mochilando na Europa com a namorada). Que mais? Richard Ellmann, disse que estava lendo sua biografia de Oscar Wilde. Mentirinha - até queria ler mas ainda não tinha comprado não. Esqueci o resto.
Ironias: eu estava de volta ao Brasil. A namorada tinha ficado em Londres. Tinha gasto todo meu dinheiro na viagem. Minha prima mais próxima ia ser operada, tumor no cérebro (sobreviveu, quatro filhos lindões hoje). Eu absolutamente não queria voltar de novo à faculdade, que já tinha abandonado uma vez.
Nunca tinha trabalhado e já tinha mais que decidido que esse negócio de jornalismo não era para mim. Estava empurrando a vida com a barriga, que não tinha. Um dia tomo café e vejo o anúncio no jornal: vaga para cobrir férias durante um mês, na Ilustrada.
No penúltimo dia possível batuquei meu currículo inventado. No último dia fui entregar pessoalmente aquela falcatrua na Folha. Me perdi geral, não manjava nada daquele pedaço da cidade. Durango, não tinha como viajar no feriado, então fiquei na cidade... e no dia seis de setembro tocou o telefone me convocando pra entrevista no dia seguinte.
Se isso, se aquilo, mil ses e meu futuro teria sido completamente diferente. E no dia sete fiz a entrevista. Foi meu sete de setembro inesquecível, meu dia da independência. Comecei a ganhar minha grana, achei minha vocação e aqui estamos. E é por isso que essa data é tão cheia de significado, de simbolismo para mim.
Perguntei muitos anos depois para Márion, que virou amiga: o que te deu para me contratar? E ela retrucou na galhofa: e como não ia te contratar?
Acho que na entrevista percebeu que eu queria muito aquilo, e que eu era o tipo de garoto que a Folha podia aproveitar, e que eu não pensava dentro de caixinhas, e que ia dar o sangue. E dei. Porque quando uns dias depois me chamaram para começar a cobertura de férias de um mês, eu fui lá pra trabalhar o resto da vida.
No primeiro dia de manhã já fui pra rua com uma pauta. Zeca Camargo era o pauteiro, e me mandou fazer uma reportagem sobre o show do Circo Imperial da China no Ibirapuera!
E aí começou. Na primeira semana entrevistei Gianfrancesco Guarnieri e Célia Helena, imagine, eu que nunca entendi nada de teatro. E depois do expediente comecei a pegar críticas de discos e de filmes pra fazer, cortesia de Carlos Rennó e Alcino Leite.
E escrever sobre qualquer coisa que pintasse de quadrinhos, porque o cara que mais manjava do assunto na Ilustrada, Marcos Smirkoff, tinha virado fechador e tinha bem menos tempo. Quem mais estava lá no comecinho? Marco Chiaretti, Carlos Calado, quem mais?
Era uma turma muito generosa, e paciente, e fui aprendendo, e o mês passou e me convocaram para outro mês de cobertura de férias, e aí fui efetivado. Eu era Da Reportagem Local. Nunca tinha visto tanto dinheiro. Não lembro quando era em cruzeiro, nem lembro que moeda a gente usava na época, devia ser uns mil dólares bruto. Tava rico!
E logo tinha uma coluna de HQ às segundas, e estava entrevistando Lobão, Titãs e Lulu Santos, e fazendo matérias de capa, e crítica de cinema, e indo para Londres entrevistar Tina Turner na casa dela, hot legs. Blefava que era um horror, mas lia, lia, lia, gastava boa parte do meu salário em livros e enciclopédias de filmes e rock.
Fui me educando em público, fui aprendendo com os colegas mais experientes.
Logo entrou um monte de gente nova na Ilustrada, minha nova turma. Ia em todos os shows e baladas e me divertia loucamente.
Trabalhar na Ilustrada era o emprego dos meus sonhos quando eu era um colegial em Piracicaba. Miraculosamente, foi meu primeiro emprego. E dezesseis meses depois de pisar pela primeira vez na redação da Folha, eu estava indo embora sem olhar para trás, convidado para ser - com nem dois anos de experiência nas costas - editor da grande revista de música do país, a Bizz.
Esses meses na Folha são um borrão inesquecível na minha vida. Foi na Folha que eu comecei a virar eu. Foi lá que comecei a ser adulto. Foi lá a primeira e última vez que fui jornalista e nada mais.
Porque na Bizz eu já era editor, e tinha que controlar borderô, chefiar equipe e isso e aquilo. Meu chefe quando eu saí, Mário César Carvalho, falou: tá louco, você tá indo bem na Folha, vai trocar pela Bizz?
Ele estava certo, eu estava louco mesmo... louco por aventura, e continuo assim. Foi fazendo a Bizz que me encontrei. E depois larguei tudo para fazer fazer revista independente, e montar editora, e veio outro projeto, e outro.
Publiquei um monte de livros e quadrinhos legais, lancei revistas, montei e desmontei sociedades. Escrevi pra caramba. Fui trabalhar com internet. Trabalhei com centenas de pessoas legais, aprendi muito, e jamais parei de me enfiar em mil e uma e de meter os pés pelas mãos, e sempre, SEMPRE dei um jeito de manter o olho no amanhã e energia para brigar no dia seguinte.
Quase três décadas depois e sigo buscando, defendendo aquela independência, que comecei a conquistar naquele sete de setembro...

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