Publicado em 25/09/2017 às 16:17

Toda Arte é nua

168411 1024x722 Toda Arte é nua
Francisco Goya e Toulouse-Lautrec são dois dos maiores artistas de todos os tempos. Fazem parte do canône da Grande Arte. Têm o aplauso incondicional da crítica, e contam no que mais conta nesse nosso mundo: suas obras valem milhões, suas exposições atraem multidões. Ninguém com senso de ridículo pode se dar o direito de decretar desimportância dos dois.
São Paulo recebe uma pequena e preciosa exposição de Goya, e a primeira, e primorosa, exposição de Toulouse-Lautrec no Brasil. Se conversam nos traços impiedosos com que um e outro capturam a humanidade, às vezes no limite do cartum.
A de Goya reúne as últimas gravuras que ele produziu na vida, os "Disparates". São alegorias sobre a sua Espanha, sobre a nossa natureza. Tocam no medo, na loucura, na maternidade e na guerra. Foram produzidas entre 1815 e 1823 e só vieram a público quatro décadas após sua morte, em 1864.
Porque eram provocativas demais para uma temporada de trevas. Porque sem conter ataques diretos aos poderes de seu tempo, a monarquia e o clero, as fantasias negras de Goya nos tocam o subconsciente. Quase como faria um século depois o surrealismo.
Polêmicas na época, as gravuras de Goya seguem perturbadoras, mas não escandalizariam o olhar mais pudico. Já Toulouse-Lautrec tem como temas principais bordéis e cabarés, e como protagonistas prostitutas e seus clientes, bailarinas de can-can e bêbados nos bares. A exposição no Masp tem imagens de nu frontal e um quadro que retrata sexo oral entre duas mulheres.
Muitos pais se sentiriam constrangidos de visitar a exposição de Toulouse-Lautrec em companhia de seus filhos, crianças e mesmo adolescentes. Outros, não. Perfeitamente natural que os pais decidam o que é apropriado para seus filhos verem. Até que os filhos cresçam o suficiente, ou tomem em suas próprias mãos a independência de tomar esse tipo de decisão. Artificial é transferir esse poder ao político, ao juiz, ao governo. Qualquer governo.
Goya e Toulouse-Lautrec arregaçam nossa humanidade. Expõem nossas vísceras e vaidades. A insanidade que se esconde nas folias cotidianas dos espanhóis desgraçados pela guerra, a rendição pragmática das prostitutas na Paris da Belle-Époque. Temas difíceis, cantos obscuros da psique. Horror e amor iluminados pelo talento fulgurante, inescapável, de dois talentos a serviço de seu tempo.
Muitos hoje ainda sonham em aprisionar a liberdade criativa de Goya e Toulouse-Lautrec em censura prévia, faixas etárias, classificações indicativas. Estão do lado perdedor da História. As obras de Goya e Toulouse-Lautrec que mais forte nos falam, já no século 21, são justamente as que os poderosos de suas épocas se negavam a aceitar, loucas, violentas, difíceis. Aos olhos de algumas pessoas de então e de hoje, pornográficas.
Existem muitas imagens que gostaríamos de poupar aos nossos filhos. Uma delas vimos no caminho para a mostra de Goya, bem em frente à Caixa Cultural. Eram centenas de moradores de rua na praça da Sé, esmolando água e comida, envoltos em um miasma de urina e álcool e lixo.
Eu gostaria que meu filho jamais tivesse que ver nada parecido. Mas entendo que é minha obrigação como pai expôr o adolescente à realidade da sua cidade, seu mundo e sua natureza. E expôr ele à Arte, ao que a mãe dele e eu entendemos que é Arte, decisão que não aceitamos transferir para ninguém.
Até porque certas realidades, de ontem e de hoje, só mesmo artistas como Goya e Toulouse-Lautrec são capazes de retratar, interpretar, eviscerar, desnudar. Todo artista que importa incomoda; toda obra eterna é explícita; toda Arte é nua.

http://r7.com/LE2r

Ir para o Topo