Publicado em 28/09/2017 às 10:31

A Playboy morreu antes de Hugh Hefner. Mas a Playboy e Hef viverão para sempre

hef 1024x797 A Playboy morreu antes de Hugh Hefner. Mas a Playboy e Hef viverão para sempre
A Playboy era mulher pelada. Foi o grande diferencial da revista com relação às que vieram antes e depois. Antes era a Esquire, onde Hugh Hefner, fundador da Playboy, foi redator: a revista do que interessa para o homem, do bem-viver com inteligência e estilo. Com sex-appeal, mas “decente”. Depois veio a Hustler, 100% sexo explícito, e hoje vão morrendo as revistas em geral, e as revistas com mulher nua também.
A Playboy era muito mais que isso, claro. A fórmula da Playboy é como a da Coca-Cola, segredo. E não industrial: segredo artesanal. Muito humor e um tanto de seriedade. Muito bom-viver e alguma provocação. Cérebro e hormônios, política e costumes. Mulher para domar e para namorar. Seus melhores editores foram verdadeiros equilibristas. E seu melhor editor foi seu criador, Hugh Hefner.
Claro que a Playboy era principalmente inspiração para masturbação. Mostrava nua, disponível e provocante a vizinha lindinha das fantasias dos americanos. Mas não era exatamente “revista de sacanagem”. Era revista para fantasiar. As moças não pareciam prostitutas. Pareciam estar a fim, e não a fim de dinheiro.
Hoje vemos mocinhas lindinhas praticando o kama sutra e muito além, perversões de A a Z, de todos os modelos e nacionalidades. Está tudo na internet, de graça. A Playboy perdeu esse bonde. Poderia ser a dona do YouPorn, RedTube, e todos esses serviços de pornografia digital instantânea.
Mas não é, como nenhum dos grandes canais de televisão é dono do YouTube, e nenhuma empresa de mídia é dona do Google ou do Facebook, as empresas de mídia que mais faturam no planeta Terra.
É fácil identificar as bobeadas nas empresas dos outros. As Playboy Enterprises cometeram muitas.Tropeço imperdoável foi o reality show mostrando Hugh Hefner como um velho babão, morando com três “namoradas” falsas loiras e falsas em geral.
Se assumiu paródia de si mesmo, modelo obsoleto, pagando por companhia de garotas com idade pra serem suas netas, um Olacyr de Moraes gringo. Tudo que o homem do século 21 não quer ser quando envelhecer. Foi a imagem que ficou.
Importante lembrar que Hefner lançou a Playboy jovem, com 32 anos de idade, e dinheiro emprestado da mãe e dos amigos. E que foi editor de meter a mão na massa, e de mão cheia. Um dos maiores editores de revista da história, além de um dos maiores empreendedores que o mundo do jornalismo já viu.
A Playboy de fato era para ser lida pelos artigos. O time de colaboradores da revista foi a fina flor do jornalismo americano. Playboy divertia e influía, combinação perfeita e quase impossível. Hefner era símbolo de realização, não só da vida boa que os machos de sua geração e seguintes sonhavam ter.
E lutou o bom combate, pelos direitos civis, pela liberdade de expressão, pela revolução sexual, contra o militarismo, o racismo, a truculência. Vamos falar a verdade: Hef era o editor que todo editor sonhava em ser.
No Brasil, Playboy foi sonho de outro jovem, que convenceu o pai a recriar no Brasil as três revistas americanas que mais admirava: Time, Fortune e Playboy. Era Roberto Civita, que fez, e fez muito bem, suas versões das três. Eram Veja, Exame e a própria Playboy, licenciada da edição americana, mas com identidade muito própria.
A revista brasileira teve sua fase de ouro quando a americana já não tinha tanto apelo assim. Grandes entrevistas, grandes cartunistas, grandes fotógrafos, muito molho, tudo do melhor. Grandes editores, sem dúvida. E as mulheres mais maravilhosas e mais famosas do Brasil sonhavam em posar para a Playboy.
Comecei a "ler" a Playboy antes dela existir por aqui. Pingavam umas raramente por aqui nos anos 70, de pais de amigos, e meu inglês ainda não dava para o gasto. Minhas primeiras memórias são da cutchuquinha Barbi Benton. Lá pros 14 anos eu já era desse tamanho de hoje, e comprava de um jornaleiro amigo.
Comprei intermitentemente desde então. Escolhendo pela capa, como todo mundo. Fui convidado uma única vez pra colaborar. Escrevi sobre o Velvet Underground em 1991.
Tenho amigos que passaram pela redação da Playboy brasileira. Sinto inveja deles, e saudades da surpresa do mês, a revista despindo as personagens que todo mundo quer ver peladinhas. Fosse a atriz, a estrelinha de reality show, ou a protagonista do novo escândalo de Brasília. Vi uma foto de Magda Cotrofe esses dias, continua batendo um bolão. Aliás, a foto era ela com a filha. Aliás, vamos mudar de assunto.
Tivesse eu um muitão de dinheiro, quem sabe investiria em uma nova Playboy. Uma revista linda e leve, esperta sem ser metida, com carteira recheada para convencer as famosas mais desejadas do mundo a tirar a roupa.
Colocaria trinta fotos da estrela da edição na revista. E essas trinta e mais cem no site, junto com o making of do ensaio, em vídeo. E, claro, o arquivo completo dos trocentos anos da Playboy. Todos aqueles zilhões de textos e ilustrações e cartuns e piadas e mulheres incríveis.
Um dólar por mês. Você não assinava? Você e eu e mais uns vinte milhões de machos. E mais um monte de moças que gostam de moças. E senhoras que liam a Playboy pelos artigos... Não, péssima idéia. Nostalgia é sempre perda de tempo, e o tempo da Playboy é lá no século 20.
Hugh Hefner se foi da edição da Playboy há décadas, a verdadeira Playboy se foi tem um tempão. Agora Hugh se foi de fato, 91 anos. O futuro sabe-se lá. O passado não se apaga. Todos aqueles textos e reportagens, ilustrações e piadas e ensaios, tudo vive. E o que a Playboy fez por gerações de homens não tem preço. Deu prazer e fez pensar. O que mais você pode desejar? Obrigado, Hef.
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