Publicado em 05/10/2017 às 10:31

Por que o Brasil não ganha o Nobel de Literatura

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Todo ano quando é anunciado o Nobel de literatura, duas palavras pipocam: nunca li. Quando vou me informar sobre o vencedor, outras duas se repetem com incrível frequência: nunca lerei. Os vencedores de 2013 e 2014, Alice Munro e Patrick Modiano, bem, parei em um estágio anterior, e, admito, muito comum: nunca ouvi falar.

Imperdoável? Jornalista tem esse cacoete de posar de sabichão. A gente pode nunca ter lido, assistido, ido ou vivido, mas tem que fazer de conta que sabe de tudo. Pior que nosso vício privado virou virtude das massas. Com a internet, somos todos pseudo-especialistas instantâneos em tudo, com direito a opinião sobre tudo, e acalorada e radical sempre faz mais sucesso.

O prêmio é entregue desde 1901. Li 29 dos vencedores - li alguma coisa dos 29, para ser preciso, não "a" obra. Para pegar uma amostrinha recente, no século 21 os vencedores foram:

2017 - Kazuo Ishiguro

2016 - Bob Dylan (nunca li mas ouvi bastante)

2015 - Svetlana Alexievitch

2014 - Patrick Modiano

2013 - Alice Munro

2012 - Mo Yan

2011 - Tomas Transtromer

2010 - Mario Vargas Lllosa

2009 - Herta Muller

2008 - Jean-Marie Gustave Le Clézio

2007 - Doris Lessing

2006 - Orhan Pamuk

2005 - Harold Pinter

2004 - Elfriede Jelinek

2003 - John M. Coetzee

2002 - Imre Kertész

2001 - V.S. Naipaul

2000 - Gao Xingjian

Se sentiu ignorante? Eu sim. Devemos estar perdendo um monte de coisa boa. Mas a academia sueca também perdeu. Porque quase nenhum dos meus autores favoritos de todos os tempos ganhou o prêmio.

Kazuo Ishiguro? Quase nunca li. Escreve sobre o passado, ficção científica, fantasia, drama. Varia de tom e tema, o que é incomum e intrigante. Britânico nascido no Japão, escreve gostoso, pelo menos no seu único livro que li, The Buried Giant, O Gigante Enterrado, uma fábula arturiana com bruxas e ogros. Mas vi um filme baseado em livro seu, Os Vestígios do Dia, chatíssimo, e ele me espaventou da obra de Ishiguro.

Ele é a exceção que confirma a regra. A maioria dos vencedores do Nobel escrevem no gênero "drama realista contemporâneo". Já leio muita não-ficção, ensaios, jornalismo. Quando leio ficção, é exclusivamente por prazer. Que também encontro neste gênero, que domina premiações e atenção da crítica. Mas encontro mais em outros cantos.

Previ anos atrás que pela crescente estatura internacional do país, na próxima década o prêmio não nos escaparia. Mas nossa boa fase se foi. De qualquer forma, se um autor brasileiro vencerá por merecimento, ou porque simplesmente terá chegado a hora do Brasil levar o prêmio, é outra história.

O Nobel não premia "o melhor escritor do mundo do ano". No caso de nomes consagrados que escrevem em inglês, o habitual é premiar pelo conjunto da obra - vide Pinter, Lessing e Naipaul (os únicos deste século que li mais ou menos, com Vargas Llosa).

Quando a obra é em língua "exótica", o Nobel premia um tanto o autor, e muito a literatura daquela cultura, país, continente. Você não vai ver autores africanos ganharem três anos seguidos, ou asiáticos, ou latino-americanos. O que nos leva à eterna questão: e o Brasil, por que nunca ganhou, e quando vamos ganhar?

Adoraria encontrar um autor conterrâneo que abrace nossa complexidade social. Meio Naipaul e meio Philip K. Dick. Com ginga e humor. Nem precisa tanto: alguém que não faça feio do lado de Pinter e Vargas-Llosa. De cabeça, não me ocorre ninguém. Ninguém que dê conta do mundo além de nossas fronteiras; ninguém que dê conta de nossa realidade única, radical, improvável. Talvez sejamos melhores biógrafos, ensaistas, cronistas, piadistas e tuiteiros que romancistas e, aliás, contistas.

A melhor explicação é a mais simples: o escritor brasileiro é um chato. É homem, branco, tem diploma universitário, mora no eixo Rio-São Paulo, e uns 50 anos. O protagonista de seu romance é homem, branco, tem diploma universitário, mora em metrópole etc. etc.

Dos nossos autores, 36% trabalham como jornalistas. Pois as profissões mais comum dos protagonistas da literatura brasileira são, pela ordem, escritor, criminoso, artista, estudante e jornalista. E a maioria das histórias se passam no presente, ou no máximo dos anos 80 para cá.

O assunto da literatura brasileira é o escritor brasileiro e seu mundinho. É um coroa diletante e seu tema é a própria juventude e meia-idade, reimaginadas dramaticamente. Este é o resumo curto e grosso da pesquisa feita pela professora Regina Dalcastagnè, da UNB. Ela analisou 258 romances de 165 escritores diferentes, de 1997 a 2012, de editoras variadas. É mostra significativa.

Regina conclui que não há na literatura nacional o que chama de "pluralidade de perspectivas sociais". Nossos livros não incluem brasileiros de várias cores, classes, religiões, idades. Bidu. É e sempre foi assim. Não há gays, velhos, deficientes, umbandistas e tal nos nossos livros.

A ausência mais escandalosa em nossa literatura, personagens negros, tem razão bem concreta. Não há negros nas redações, na universidade, nas posições de comando do País. O típico escritor brasileiro simplesmente não convive com negros de igual para igual. Mas há mais discriminação nos nossos livros que no Brasil não-ficcional. Em 56% dos romances, todos os personagens são brancos. Negro, quando aparece, é miserável, bandido e, principalmente, coadjuvante.

Faz sentido que 36% dos nossos escritores sejam jornalistas. Tirando jornalista, poucos brasileiros têm português legível. Jornalista não sabe grande coisa, mas aprende a encaixar uma frase na outra, respeitar concordâncias, economizar nas vírgulas.

Dashiell Hammett recomendou: escreva sobre o que você conhece. Donde que temos jornalistas escrevendo sobre jornalistas. Um bando de rato de redação se imaginando como herói: uma vez na vida, a notícia sou eu! Bem, sou exatamente o perfil do romancista brasileiro, jornalista, branco, cinquentão, e passo muito bem sem ler sobre mim. Nem em versão romantizada, e muito menos realista...

A pesquisa de Regina explica a desconexão de muitos, e a minha, com a literatura brasileira atual. Me recomendam este e aquele autor nacional. Compro, leio quinze páginas e despacho pro sebo, raríssimas exceções.

O problema não é o País de origem nem a profissão dos autores. É o universo ficcional e existencial dos autores e personagens. Poucos leitores se interessam pelos problemas dos brasileiros letrados de classe média e meia-idade, suas neurinhas, fantasias e infidelidades.

Em todo lugar o gênero "problemas sexuais-existenciais da classe média intelectualizada" tem longa tradição. É um gênero, como livros de vampiro ou histórias de detetive. Nos Estados Unidos, é o que garante prêmios, convites para lecionar e confete em festivais literários. É o favorito de escritores que não vivem de escrever.

Ganham a vida como professores, quase sempre. Quem sabe faz, quem não sabe ensina... Não, sacanagem. Tá cheio de professor por aí que manda muito bem nas mal-traçadas. A desgraça é quando os escritores começam a escrever para impressionar outros escritores (e isso vale também para músicos, pintores, arquitetos e qualquer atividade criativa).

No Brasil literatura é segunda profissão ou hobby. Um autor ganha uns três reais por exemplar vendido, e as tiragens aqui raramente passam de 3.000 exemplares. Pouco importa sobre o que o escritor brasileiro vai escrever, e muito menos se vai escrever bem: meia dúzia vai ler. E ele não vai ganhar dinheiro nenhum com isso.

Escrever em tempo parcial não precisa ser problema. Muitos usam bem as conexões acadêmicas e mesadinhas variadas, de fundações, esse e aquele programa governamental etc. O problema é quando a profissão do escritor não é escrever, é “ser escritor”. Cobrar cachê pela participação. Cavar verbinha do diretor de marketing do banco. Preparar a palestra para a o próximo festival corporativo. É como esses roqueiros picaretas que pegam dinheiro público via Lei Rouanet para gritar contra o sistema.

Cada um se vira como pode? Escritor não tem esse direito. Sardinha na brasa: escrever está acima de qualquer outra atividade artística. Aprender a escrever é aprender a pensar. Ter o que dizer é o melhor do humano. Dizer de maneira poderosa é divino.

Escritor que depende do poder político e econômico se assume subalterno. O que nossos romancistas dizem sobre nós? Pouco ou nada. O que perdemos com esse silêncio? Muito, tudo. As exceções reforçam a regra. A cultura do Brasil é dominada pelo consenso que compensa.

Graham Greene cravou: "A Itália, durante trinta anos sob os Borgias, conheceu a guerra, o terror, o assassinato e o derramamento de sangue. Mas produziu Michelangelo, Leonardo da Vinci e o Renascimento. Na Suíça, eles têm o amor fraternal e quinhentos anos de democracia e paz - e o que produziram? O relógio de cuco."

Falta de tempo e dinheiro para escrever frequentemente foi bem estimulante. James Joyce, para pegar o mais celebrado autor do século passado, criou Ulisses num miserê de dar gosto, exilado mundo afora, casado com uma mulher que zoava suas veleidades de artista e dois filhos pequenos pra criar. Na ponta oposta da respeitabilidade crítica, igual. A fábrica de best-sellers Stephen King pariu Carrie, seu primeiro sucesso, quando labutava como zelador e morava em um trailer, datilografando até altas horas, os nenês chorando.

Podemos e devemos fazer melhor. Ficção exige imaginação e encantamento; um tanto de história, outro de jornalismo; e variedade. Hoje festins pantagruélicos, amanhã snacks para devorar aos nacos.

Escrever bem é técnica, e escrever divinamente é talento e suor. Mas a prova dos nove é escrever sobre a realidade. Ainda que no formato de um romance histórico, ficção científica, horror ou humor ou o que for.

Escrever sobre a realidade não é escrever sobre a minha vida. E muito menos um livro é melhor ou pior porque se passa na São Paulo de hoje, e não em Saturno no século 30. O que existem são livros mais e menos ambiciosos, e mais e menos bem-sucedidos, em relação ao tema, à trama, à linguagem, ou na criação de ambientes e personagens. Alta e baixa literatura é papo de crítico cretino.

A pesquisa de Regina explicita que o assunto central da ficção brasileira é o umbigo do seu autor. Não é problema localizado. Em todo lugar, cada vez mais os escritores estão caraminholando sobre seu mundinho particular, reciclando fantasias de aventura e consumo, revisitando seus livros e filmes e ícones culturais prediletos. "Influence is Bliss", resume Michael Chabon, que faz isso melhor que a maioria.

A possibilidade de celebridade propiciada pelas redes sociais acentua a tendência. Todos vivemos escrevendo e lendo devaneios narcisistas. Boa parte do que passa por literatura é tão verdadeira quanto essas fotos supostamente displicentes, mas cuidadosamente planejadas e retocadas, que colocamos em nossos perfis no Facebook.

A ambição da ficção, e da ficção brasileira, pode e deve ser maior. Escritores são faróis na neblina. Vivem na escuridão. Tateiam. Tropeçam. Mas apontam rumos. Sinalizam um norte. E sem eles, nos perdemos.

A vencedora do Nobel de literatura de 2015 foi uma jornalista e das boas, Svetlana Alexievich. Vive no mundo, não em seu mundinho. Repórter, lhe importa mais a voz dos outros que a sua. Seu tema é a dor de parto de um mundo pós Guerra Fria, uma Rússia pós soviética, num continente quietamente deflagrado. Nunca tinha ouvido falar.

Onde estão nossas Svetlanas? Cadê os escritores de que o Brasil precisa? Nossos guias, intérpretes, espelhos? Cadê o grande romance sobre nossa miséria e nossa fortuna? A Itália do século XV é um nada de sacanagem perto do Brasil do século 21.

Hammett estava errado. A literatura que importa não é sobre o autor, é sobre o leitor. Quero, exijo, um livro que me hipnotize, e me leve para outro lugar, e para dentro de mim mesmo. O que importa em literatura é fitar o desconhecido. E não conseguir desviar o olhar.

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