Posts com a categoria: Cinema

Publicado em 19/11/2014 às 11:26

Interestelar: uma odisséia ao umbigo

okokok <i>Interestelar</i>: uma odisséia ao umbigo

Não há sequências ou personagens memoráveis nos 169 minutos de Interestelar. A alardeada premissa científica é lugar comum no cinema desde O Planeta dos Macacos, 1968. Só ouvimos duas notas, as únicas no repertório do diretor Christopher Nolan: solene e estridente.

O roteiro conecta coincidências. Não há emoção verdadeira. Os momentos eletrizantes são de matinê, "o computador quebrou, vou ter que dar a volta no buraco negro usando só o manual" etc.

O protagonista vai do piloto audaz ao frio engenheiro sem razão e na velocidade da luz. Ao alcançar seu grande objetivo, o abandona.

Já vimos esses efeitos especiais em filmes anteriores e melhores, como 2001. Em A Origem, do próprio Christopher Nolan. E em uma pá de seriados de divulgação científica, como a recente reinvenção de Cosmos.

O filme acaba quando começa Elysium. O futuro pertence a uns poucos ricaços sortudos, vivendo em condomínios espaciais de luxo. Faltou mostrar os bilhões de miseráveis chafurdando na Terra.

O colunista Georges Monbiot elogiou Interestelar como filme emocionante (não é) e criticou pela mensagem. O herói, logo no começo do filme, explicita: "nós nascemos para ser pioneiros, exploradores, não cuidadores... não estamos na Terra para morrer aqui, mas para deixá-la".

É propaganda da exploração espacial, preferencialmente privada, modinha do momento entre bilionários gringos. É postura indefensável em tempos de aquecimento planetário, pontua Monbiot. Como a unificação da economia e a globalização das culturas, o desafio climático impõe soluções consensadas e transnacionais, além do horizonte do empreendedorismo cowboy.

Interestelar viaja a outra galáxia  sem deixar a órbita do umbigo de Christopher Nolan. O diretor e co-roteirista se pretende intelectual, ideólogo, terapeuta, ambientalista. Quer fazer grande arte e vender pipoca. Quer demais.

Gravidade, outro pseudoépico espacial recente, era assumidamente sobre nada, fora embasbacar o espectador. Interestelar quer ser sobre tudo. E assim em tudo falha.

http://r7.com/ryTx

Publicado em 18/11/2014 às 07:00

Faça o que eu digo: ouça o disco que mais ouvi na vida

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Todo mundo tem um disco favorito. É o disco que você mais ouviu na vida. Esse é o meu. Qual é o seu?

Publicado em 17/11/2014 às 07:00

Faça o que eu digo: embarque em Night Train, de Martin Amis

amis and hitchens 1 Faça o que eu digo: embarque em <i>Night Train</i>, de Martin Amis

Sou fã de livros secretos de autores conhecidos. Aqueles que nunca entram nas listas de leituras obrigatórias. Que são esquecidos depois de uns anos, obras "menores". Esse é um caso clássico. Grande autor, pequeno livro. Mas vai em velocidade de bala até um final irritantamente inconclusivo. E por isso mesmo, perfeito (e, sim, é Christopher Hitchens ao lado de Amis na foto acima, giovanottos, anos 70...).

Publicado em 14/11/2014 às 08:00

Faça o que eu digo: leia o mangá antes de assistir No Limite do Amanhã

maga Faça o que eu digo: leia o mangá antes de assistir <i>No Limite do Amanhã</i>

O mangá é ficção científica. O filme inspirado nele é uma comédia romântica - Tropas Estelares no Feitiço do Tempo. Li a tradução para o inglês, All You Need is Kill, e vi o DVD, tudo no mesmo final de semana.  Faça isso, ou espere a versão brasileira do mangá. Foi anunciado para breve, pela JBC. Mas tenho boas razões para te dizer para ler antes de assistir - e elas estão aqui.

Publicado em 10/01/2014 às 12:50

2014 no cinema: imaginação, coração, e cérebro também

russell 2014 no cinema: imaginação, coração, e cérebro também

Russel Crowe como Noé, no filme de Darren Aronofsky que estreia este ano

Os filmes que chegam a nossos cinemas são cada vez mais filmes infantis e fantasiosos. Não é um problema, se você carrega uma criança dentro de você. Ou se frequentemente carrega uma criança com você para o cinema. Meu caso, nos dois casos.

Se o objetivo é ter uma experiência adulta e realista, basta acordar, ir para o trabalho, almoçar etc. Cinema é pra me levar para outro lugar por duas horas. É experiência que nada substitui, nem o home theater dos sonhos que vi ontem na casa de um amigo. Projetor com imagem fantástica, tela monstruosa, som surround, sofazão-divã monstro pra se jogar.

Não sou de ter inveja das coisas dos camaradas. Dessa vez, tive, e antevi um dia que vou ter algo tão legal quanto (ou mais legal! 4K! 5K!). E mesmo assim, por mais incrível que esteja sendo a experiência, dá para pausar para ir ao banheiro e estourar pipoca. O telefone e campainha tocam. Você lembra que está aguardando um email urgente e checa o celular. Deitadão é mais fácil puxar um ronquinho. E por aí vai.

3 2014 no cinema: imaginação, coração, e cérebro também

Hayao Miyazaki

Cinema não. Cinema é quietinho no escuro, concentrado na luz. É um compromisso de isolamento, de imersão, de entrega. Momento cada vez mais raro em uma época com mais e mais distrações. Para mim, momento cada vez mais precioso.

As experiências cinematográficas mais satisfatórias nos entregam esse mergulho hipnótico em outra dimensão. A maioria de nós não exige de um filme profundidade psicológica, textura delicada, arrebatamento emocional, diálogos brilhantes etc. Eu também não. Se quisesse isso tudo, lia um livro…

Claro que uma pitada de inteligência é tempero delicioso quando a gente vai ao cinema. Encontro muito prazer em filmes inteiramente patetas. Mas não que me tratem como idiota, ou apostem na burrice.

Então comecei a fazer minha listinha de filmes de 2014 que prometem nos tocar o coração e a imaginação, sem deixar de lado o cérebro. Semana que vem está aí. Tem David Cronenberg, John Turner, dragões, mutantes e a arca de Noé…

Para abrir o apetite, um dos que me dão mais água na boca: The Wind Rises, primeiro filme de Hayao Miyazaki em cinco anos. Segundo o próprio, é sua despedida do cinema. Notícia triste: o mestre nos deu Totoro, Ponyo, O Castelo Encantado, Princesa Mononoke e muito mais.

The Wind Rises - Trailer oficial por thevideos no Videolog.tv.

E hoje vamos ver A Vida Secreta de Walter Mitty, que o ano começou há dez dias, e ainda não fui nem uma vez ao cinema!

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Publicado em 07/11/2013 às 10:35

O que você topa fazer por dinheiro, Martin Scorsese?


Falei ontem para um amigo: não trabalho por dinheiro. Fui impreciso. Quis dizer que não trabalho "só" por dinheiro. Considero várias outras coisas: satisfação, autonomia, colegas, horários, muitas coisas. Até a distância da minha casa, coisa que em São Paulo é crucial. E até o volume e variedade da demanda. O trabalho não pode ser sempre idêntico, que a vida fica chata. Nem variar esquizofrenicamente. Como li outro dia: quer fazer as coisas bem, faça poucas coisas.

Vamos ser mais precisos ainda: não topo qualquer trabalho por dinheiro. Nisso, sou como a maioria das pessoas. Ninguém é santo. Também não precisamos chafurdar no lodo. Cada um que defina seus limites. Já tentei fazer muita coisa só porque parecia lucrativo. Umas foram, a maioria deu com os burros n'água. É uma arte alinhar nosso interesse e nossos interesses. Demora para entender que não é porque o negócio é bom, que ele é bom negócio para você, merece sua atenção, inteligência, energia.

Scorsese dirige Matthew e Scarlett

É fácil a gente enxergar quando os outros atravessam a linha do aceitável. Mais difícil quando o umbigo é o nosso. É o caso deste anúncio. Dirigido por Martin Scorsese, que já dirigiu outros anúncios na vida. E por que não? Só porque você é o diretor americano mais aclamado de sua geração, não quer dizer que você não possa faturar uns trocos bons de vez em quando, no mundo da publicidade. Dá pouco trabalho e muito dinheiro. Mas Marty atravessou um limite. Pequeno, para os padrões atuais. Mas marcante.

Este anúncio foi caro, porque envolve muita computação gráfica, para recriar uma Nova York do passado. É estrelado por duas estrelonas, Matthew McConaughey e Scarlett Johansson. Você assista e decida se tem algo de memorável. Mas ainda que fossem os dois minutos e pouco mais incríveis que você já viu na vida, continua sendo uma encomenda de uma empresa. Não é "um filme" de ninguém.

E por isso dá um certo nojo ver no comecinho, "A Film By Martin Scorsese". Martin é um diretor pior por assinar publicidade? Não. Fica um pouquinho menor, ao conceder seu perfume autoral a um anúncio? Fica. No lugar dele, eu faria igual? Depende do dinheiro.

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Publicado em 30/08/2013 às 15:57

Terry Prachett: pelo direito de escolher a hora da nossa morte


Terry Pratchett é o segundo escritor mais lido da Inglaterra. É adorado, além de popular. Tive o prazer de publicar alguns livros seus, na editora Conrad. São muito imaginativos e engraçados. Não emplacaram comercialmente. Por quê? Não sei. Terry vendeu 85 milhões de livros planeta afora. Mas aqui no Brasil quem leu sua série Discworld virou fã.

Eu não sou. Incapacidade de ler fantasia. Nem O Senhor dos Anéis encarei, nem Philip Pullman, e muito menos Harry Potter. Dou preferência aos universos fantásticos dos quadrinhos, ou mesmo na pintura. Quando se trata de magia, ver é mais poderoso que ler... mas desta vez, trata-se de ouvir Pratchett.

Neste vídeo, ele defende o direito à morte assistida. Na Inglaterra é ilegal. Em outros países, como Suíça e Holanda, se não exatamente fácil, menos difícil. Porque deixar seu momento de morrer nas mãos do acaso? Por quê sofrer desnecessariamente?

Terry foi diagnosticado com Alzheimer aos 59 anos. Tem 65 hoje. Sua doença, e sua opção e a de muitos, foi o tema do programa de televisão. Em 2009, declarou que pretende optar pelo suicídio assistido, dependendo de como sua situação evoluir. Deu longo depoimento a respeito em 2010. O autor amado por tantos já tinha dificuldades para ler; a maior parte de seu texto foi dita por Tony Robinson.

Terry continua "escrevendo": dita textos para um assistente, ou usa um software que captura sua voz. Li uns trechos essa semana. Enfrenta depressões e preocupações, mas continua galhofeiro, que bom. Ele é, afinal, o cara que em 1990 escreveu Good Omens (Belas Maldições), uma comédia sobre o Apocalipse, dando chance a um jovem co-autor chamado Neil Gaiman...

O ser humano está geneticamente programado a lutar pela vida até o último suspiro. Nossos antepassados fizeram de tudo para sobreviver, e nos repassaram o talento e a missão. Nosso DNA nos predispõe contra o suicídio. Justamente por isso é que o direito à morte assistida é importante. Na hora que mais precisarmos, precisaremos de ajuda.

Quem decide se e quando? Cada um, se quiser, se puder e se o governo deixar. O outro lado da moeda: dói sentir alguém querido se distanciando lentamente. Ainda que essa longa despedida seja muitas vezes necessária, e uma chance preciosa de doação. Cada minuto com quem amamos é tudo. Como abrir mão dos que poucos que restam?

Ouça. É difícil contestar os argumentos de Terry Pratchett. Espero que essa decisão nunca me apareça pela frente - e que eu morra aos 120 anos, de infarto fulminante, após uma longa noite de sexo, como reza a piada.

Mas se o destino não me sorrir assim, espero que eu tenha a opção, a consciência... e o direito legal, e o apoio, para partir para o lugar de onde vim.

Em inglês, com legendas, Terry Pratchett: O Direito de Morrer.

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Publicado em 16/08/2013 às 11:21

Blue Jasmine: Woody Allen de volta ao drama

penelope <i>Blue Jasmine</i>: Woody Allen de volta ao drama

Woody dirige Penélope Cruz

Adoro Woody Allen. Justamente por isso cobro forte. Detestei o condescendente Meia Noite em Paris. Já Para Roma, Com Amor, desceu melhor. O formato episódico lembra justamente aqueles filmes italianos com várias historinhas, dirigidas por diretores diversos. Mulheres muito bonitas, como convém a um filme italiano. Amore, trapalhadas. Penélope Cruz fazendo a Sophia Loren, putana do coração de ouro. E o que é essa Alessandra Mastronardi?

http://www.theplace.ru/archive/alessandra_mastronardi/img/2-96.jpg

Se você gostou de Meia-Noite em Paris, e quer passar raiva, baixei o chanfalho no filme aqui.

Se és fã de Woody Allen, talvez não saiba várias coisas importantes sobre ele. Eu não sabia, até ler um livro muito educativo, com bons conselhos - por exemplo: ame o que você faz, trabalhe muito, e respeite a inteligência do próximo. Quer mais? Aqui está.

O novo filme de Allen foge completamente do script dos últimos anos. Nada de cenários turísticos, sem romances à vista, nem aquela chuva de estrelas no elenco. Blue Jasmine é a história de uma ricaça novaiorquina que perde tudo,  quando o marido é preso por fraudar investidores, a la Bernie Madoff. Só resta ir morar com a irmã duranga em San Francisco. A ex-milionária cachaceira é vivida por Cate Blanchett, que dá pra ver em qualquer coisa, imagine em um papel polpudo desses.

cate <i>Blue Jasmine</i>: Woody Allen de volta ao drama

Cate Blanchett e Sally Hawkins em Blue Jasmine

É drama de verdade. Com humor dolorido, pela pinta. Aleluia. Allen nunca foi mais poderoso que em Crimes e Pecados, doce-amargo, nunca solene. Como de costume, além de dirigir também assina o roteiro. Só por seus scripts já merecia ganhar o Oscar todo ano. E ele ainda é ator, e escritor de livros, e engraçado e inteligente, e tem uma assinatura absolutamente pessoal. Quem tem sua estatura? Ninguém. Pelo menos é bem feinho...

O filme só estreou em Nova York e Los Angeles. O trailer atiça. Aqui, só dia 11 de outubro. Encontro marcado, Woody.

Blue Jasmine - Trailer por perolasblogs no Videolog.tv.

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Publicado em 13/08/2013 às 10:59

Cosmos: uma nova jornada, a mesma missão

carl sagan Cosmos: uma nova jornada, a mesma missão

Carl Sagan / Foto: Divulgação

"O Cosmos é tudo que já foi, tudo que é, e tudo que um dia será..." - essas palavras abrem Cosmos, o seriado, e gelam a espinha. Compreensão imediata: sou um cisco no olho da eternidade. A probabilidade de nosso universo existir é de uma em um zilhão. Qualquer outra combinação de massa, forças gravitacionais, e outro infinito de variantes, e nenhum de nós estaria aqui. Quase tão impensável é que um programa de TV explicando este mistério tenha sido campeão de audiência. Mas aí está: elimine o improvável, e o impossível deve ser verdade.

Cosmos - Uma Viagem Pessoal é uma história do universo, e de nossas tentativas de explicá-lo. Foi visto por meio bilhão de pessoas desde sua estréia em 1980. Ninguém atravessa os treze epísódios incólume. Porque teorias antigas e novíssimas ali ganham face humana, humor, tempero, porquê. O roteiro refuta a superstição, mas abraça terno nossas idissioncrasias, necessidades, fraquezas. Como o nome diz, é uma viagem pessoal, uma viagem que cada espectador faz com seu idealizador e apresentador, o físico Carl Sagan. Sua voz explicando que todos os átomos do nosso corpo foram criados no interior de estrelas, que somos todos feitos de "star stuff", ecoa há décadas, redescoberta geração após geração.

Ouça as palavras de Carl Sagan sobre nosso pequeno ponto azul...

Pale Blue Dot from ORDER on Vimeo.

Anos atrás, Cosmos passou por uma necessária lanternagem: ganhou remasterização, som digital, efeitos especiais contemporâneos. Era hora. O ambiente televisivo hoje está repleto de herdeiros de Carl Sagan, e até canais inteiros dedicados à divulgação científica. Todo este material está permanentemente disponível pela internet afora. Nenhum, por enquanto, à altura de Sagan.

Em 2014 Cosmos ganhará uma sequência, produzida pela viúva e parceira de Sagan, Ann Druyan, e pelo comediante Seth MacFarlane, criador de Family Guy e, como muitos, fã de Cosmos. Desde a morte de Sagan, em 1996, Ann elegeu como protagonista e cabeça criativa da nova série o astrofísico Neil deGrasse Tyson. É cientista respeitado e tarimbado apresentador de TV, do programa Nova. Dirige o Hayden Planetarium em Nova York. É figurinha fácil na mídia americana (foi eleito "astrofísico mais sexy" pela revista de fofocas People). Vive pelos talk shows, divulgando seus livros e sua pauta humanista.

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Neil DeGrasse Tyson / Foto: Divulgação

O novo seriado chama Cosmos: A Space-Time Odissey (uma odisséia no espaço e no tempo). Terá estrutura inspirada pelo original e um orçamento bem maior. O projeto é ambicioso. A ciência evoluiu mais entre 1980 e hoje do que em qualquer outro período da história. Este programa precisa criar esta ponte entre décadas, projetar o amanhã, e ainda ser relevante para quem não viu a série original. Tyson resume: ciência rigorosa, temas inspiradores, e uma chamada à ação: pelo conhecimento, contra a ignorância.

Razão, emoção, ativismo. Uma missão e tanto. Nossa ciência acelera em velocidade de escape. Será intransponível o abismo entre o avanço do nosso conhecimento, e a lerdeza de nossas instituições? Primatas metidos a besta, será a natureza humana tão permanente quanto a Via Láctea? Estaremos destinados a viver em um futuro mal distribuído, como cravou o escritor William Gibson?

Carl Sagan nos fez crer que não. Que cada um de nós pode viver já em um mundo que não é assombrado por demônios. É para isso que estamos aqui: somos o pedaço do Cosmos que aprendeu a refletir sobre a própria existência. Mas Sagan ensinou também que além da luz da razão, o Cosmos nos fez também campeões de outros valores - compaixão, tolerância, e um espírito de aventura, porquê não? É um lindo legado, tocha brilhante que agora é passada para Neil De Grasse Tyson. E que todos nós devemos carregar com orgulho, e passar às próximas gerações.

Veja o trailer de Cosmos: A Space-Time Odissey

Official Trailer - Cosmos por perolasblogs no Videolog.tv.

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Publicado em 02/08/2013 às 11:29

Wolverine: imortal e imoral

clint eastwood Wolverine: imortal e imoral

Clint lembra alguém?

Wolverine é herói da fronteira. Pistoleiro solitário e soturno, brigão e bocudo. Só não vive no velho oeste, no século 19. É relíquia de tempos duros, deslocado na modernidade. Como Clint Eastwood, o herói/anti-herói por excelência dos primeiros anos 70, quando o herói mutante foi criado. Clint é cowboy, seja de chapéu e poncho, ou vestindo terno e gravata. Logan é Dirty Harry com garras de adamantium.

Wolverine - Imortal assume completamente o legado western do herói mutante. Tem a exata estrutura de faroestes clássicos como Shane. Ou como o remix de Shane, Pale Rider, Cavaleiro Solitário, estrelado por... Clint Eastwood. Na ressaca de superproduções espetaculosas e solenes como O Homem de Aço, aposta no mito fundador do cinema americano. Em roteiro decente, orçamento pé-no-chão, combate urbano mano-a-mano. Surpresa: investe em romance e em personagens femininas fortes. Hugh Jackman é peça rara - um astro que os machos admiram e as mulheres desejam.

Aposta mais arriscada foi a integração com filmes anteriores e próximos dos X-Men. Quem não viu, ou não lembra, tem grande chance de ficar perdido. Porque Wolverine agora é um mendigo barbudo que mora isolado nas montanhas? Porque vive enchendo a cara? Porque desistiu de lutar? Quem é essa Jean que fica aparecendo nos sonhos dele? E quem são os dois velhinhos que surpreendem o herói na tradicional sequência pós-créditos?

Que se passe inteiramente no Japão, e que quase todos os personagens sejam japoneses, também foi opção improvável. Natural para leitores de quadrinhos. Foi em páginas dos anos 80 que Wolverine, o cowboy fora da lei, mostrou seu lado samurai. Revelou-se homem dedicado e delicado, apaixonou-se por uma linda e forte japonesinha, assumiu responsabilidades antes impensadas. Descubriu os prazeres da honra e deu novo sentido à sua vida.

O que pode ser dificuldade para o espectador normal é delícia para os especialistas, nós. A primeira história que li de Wolverine foi a primeira história que li dos novos X-Men, 1979, um confronto com um time de super-heróis canadenses, Alpha Flight. A revista não parecia com nada que eu já tivesse visto antes, roteiro zapt-zupt, arte com perfume de futuro. Os mutantes se tornaram instantaneamente minha super-equipe predileta; Vingadores e Liga da Justiça não davam para o cheiro.

Li tudo que me consegui dos X-Men, que absolutamente ninguém conhecia no Brasil, e foi grande surpresa quando as histórias começaram a ser publicadas aqui. De repente os X-Men eram populares. E depois eles ganharam um desenho animado e mais outro e outro, e Cíclope e Ororo e Noturno estavam em mochilas e lancheiras. E de repente todos os heróis dos gibis se tornaram durões e violentos e amargurados, inclusive meu eterno favorito Batman (e o que é "O Cavaleiro das Trevas" se não uma reinterpretação de Batman a la Wolverine?). E depois vieram os filmes, e hoje todo mundo sabe quem é Wolverine. Quando olho para trás, fico meio besta com tudo que aconteceu. Que futuro fantástico vivemos.

frank Wolverine: imortal e imoral

Wolverine mergulhado em ninjas, por Frank Miller

Igualmente besta fiquei de assistir Wolverine em uma sala 4DX. A cadeira parece que vai sair voando., Sobe e desce, cutuca costas e traseiro. Jatos de ar te pegam por todos os lados. Quando a vilã Viper cospe veneno, um jatinho de água respinga na sua cara! Experiência assim costumava ser privilégio de parque de diversões. A primeira vez que senti algo parecido foi uma década atrás, nos estúdios da Universal, em Los Angeles, na atração do Exterminador do Futuro. Hoje tem na minha cidade!

Salas como essa custam o dobro de uma sala 3D normal, e valem cada centavo. Estão se espalhando por todo lugar. Porque cinema, cada vez mais, é para isso, para vivermos emoções que a TV e a internet não são capazes de oferecer. É por isso que o futuro do cinema (e não da narrativa cinematográfica) pertence aos superpoderes, à fantasia, à ficção científica, aos monstros. E aliás se você quiser saber como será este futuro, já pode - custa uma passagem a Los Angeles e uma entrada na mesma Universal, mas para viver a aventura Transformers - The Ride. Prepare o coração.

quadrinho Wolverine: imortal e imoral

Os X-Men, por John Byrne

Como me explicou um velho amigo, depois de assistir o primeiro filme dos X-Men: "ganhamos". É. E esse novo Wolverine, com tantos acertos a mais que os erros, e tão fiel aos quadrinhos, é mais uma batalha vencida. Mas o resultado da guerra continua em aberto. Porque as pessoas que criaram Wolverine, Len Wein e Dave Cockrum, não estão entre os vencedores. Nem Chris Claremont, que fez do personagem o que é, e criou a história que dá base a Wolverine - Imortal (inclusive criando os personagens secundários, Mariko, Yukio, Harada, Yashida). Ou Frank Miller, que desenhou a minissérie-chave de Wolverine no Japão. Nem John Byrne, que mais que ninguém fez do herói, canadense como ele, um protagonista. Byrne também criou o argumento que embasa a próxima aventura cinematográfica dos X-Men, Dias do Futuro Passado.

É imoral que Wolverine, um personagem criado há tão pouco tempo, por gente que está por aí, renda tanto dinheiro a seus donos e tão pouco a seus criadores. Não dá para declarar vitória antes que essa injustiça seja corrigida. O prazo é curto. Claremont, Byrne e a maioria das pessoas que tornaram Wolverine um ícone estão por volta dos 60 anos; Cockrum morreu passando dificuldades. Que os criadores recebam os créditos e royalties que merecem. A Marvel pode estar dentro dos limites jurídicos, ao negar os direitos dos criadores, mas está sendo aética. Trai os princípios que move seus personagens. O que é um herói de gibi, senão alguém que valoriza mais a justiça do que a lei?

Ainda mais Logan, eterno outsider. Ele o único super-herói dos quadrinhos criado nos últimos quarenta anos que rivaliza com os velhinhos Batman e Super Homem, Homem Aranha e Vingadores. Tem tudo viver além de Hugh Jackman e dos quadrinhos, viver para sempre, como esses heróis, e como o cowboy e o samurai, de quem é herdeiro. Wolverine pode ser de fato imortal. Mas precisa ser também moral.

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Publicado em 10/07/2013 às 04:00

Homem de Aço, pés de barro, coração de ouro

super man Homem de Aço, pés de barro, coração de ouro

Tarefa hercúlea mapear aqui todas as crateras no roteiro de O Homem de Aço. A nova versão cinematográfica do Super Homem é mais um desses filmes em que efeitos especiais no volume 11 massacram os nossos sentidos. Nada contra espetáculos visuais incríveis, mas é um problema quando eles vêm em primeiro e nada vem depois. É o Superman para a geração UFC: a porrada pela porrada. Mark Waid, escritor ele mesmo de bons quadrinhos do herói, cravou a estaca: utterly joyless, absolutamente desprovido de sentimento.

Mark ficou chateado. Leva a sério o Super Homem. Eu também. Mas já esperava isso mesmo. É obra da mesma dupla da mais recente trilogia de Batman, o diretor Cristopher Nolan e o roteirista David Goyer. Lá, criaram um Batman preguiçoso, burronaldo e coxinha, que não investiga nada, não planeja coisa nenhuma, e se aposenta na primeira oportunidade - o anti-Batman. Aqui, inovaram com um Super Homem que não protege os inocentes. Os últimos quarenta minutos do filme se resumem ao herói e seus inimigos kriptonianos destruindo uma cidadezinha, e depois uma cidadezona. Em nenhum momento Super Homem se preocupa com os milhares, milhões de inocentes morrendo. Salva a namorada Lois Lane repetidamente, e só.

Nolan assume aqui a cadeira de produtor. Terceirizou a direção para Zach Snyder, que já mostrara a que veio com 300, Watchmen e Sucker Punch, os dois primeiros também baseados em quadrinhos. São shows de derreter a retina, mas incapazes de nos acelerar o pulso, muito menos nos tocar o coração. Zach, americano, nos vende emoções baratas de parque temático, excitação de clube de strip. Nolan, inglês, com pretensões artísticas, encharca de solenidade tudo que faz. Esse Homem de Aço carrega dupla cruz.

Mas vamos pôr na conta de Goyer os pecados mortais destes filmes. Lendas precisam de, bem, lendas, histórias épicas e inesquecíveis. Vale para Ulisses, Hércules etc. Não lembramos de Robin Hood só porque ele é o bamba do arco e flecha. Tudo começa com a história, em cinema, com o roteiro. Goyer é quadrinheiro. Ninguém escreveu ou produziu mais filmes baseados em super-heróis - Blade, Motoqueiro Fantasma, Nick Fury, em breve outro Homem de Aço e a Liga da Justiça. Escreveu quadrinhos também. Conhece os personagens e as diferenças entre eles.

Se você está chegando agora: Batman é detetive, Superman é bombeiro. Um existe para punir os criminosos, o outro para nos proteger. Um deus das trevas, um deus solar. São arquétipos eternos, cartunizados por garotos nos anos 30, e desde então revisados sem parar por milhares de criadores, em gibis, filmes, desenhos animados, videogames. Sobrevivem porque são importantes e úteis, geração após geração. E porque dão rios de dinheiro, umas gotas para esses tantos criadores, oceanos seus mestres corporativos.

Goyer, como um vilão de gibi, optou por trair nossos heróis. Colocou ambos a serviço de sua própria pauta, existencial e, sim, política. À flor da pele, O Homem de Aço é só outro remix da saga que já vimos tantas vezes, sobre um jovem descobrindo seus estranhos e novos poderes (como todos os fenômenos pop do século 21). Esta é a parte do filme que funciona. Seu primeiro terço, que vai até a primeira vez que o herói veste o uniforme, e voa. Leia aqui.

 Homem de Aço, pés de barro, coração de ouro

Henry Cavill como o Superman no novo filme

Mas em suas entranhas, o filme trata de um homem aceitando que é superior aos outros, e impondo sua individualidade sobre inimigos coletivistas. Ele enfrenta os remanescentes do planeta Krypton, uma sociedade tecnologicamente avançada, em que a liberdade individual é restrita desde antes do nascimento. Lá cada indivíduo é geneticamente programado para se tornar o que o futuro precisa - soldado, cientista, operário, governante. O bebê Kal El é diferente: não foi programado. Foi concebido pelas vias normais, parido pela mãe. Krypton era uma sociedade expansionista. Conquistou muitos outros planetas. Mas com o tempo, sem desafios à sua altura, sua economia foi definhando. Abandonaram as colônias à sua própria sorte, e exauriram os recursos naturais de seu planeta. Que está para explodir a qualquer momento! , Kal é enviado para a Terra bebê. Trama de seu pai, o cientista, individualista e renegado, Jor El.

Aqui é batizado de Clark Kent, criado no Kansas por pais caipiras, sal da Terra. Seu pai o proíbe de usar os poderes. Tenta fazer dele um humano qualquer. Clark cresce relutando em assumir seu status de mais-que-homem. Vaga pelo mundo sem destino, ajudando secretamente as pessoas, procurando descobrir quem é, e para quê está aqui. É pressionado pela chegada dos alienígenas, que pretendem matar toda a humanidade, mudar o ecossistema da Terra, e repovoar nosso planeta com kriptonianos. Agora ele assume o uniforme que conhecemos - o S no peito é o símbolo kryptoniano da família dos El, que significa Esperança, e principalmente a esperança de ser livre.

O Homem de Aço de Goyer e Nolan é um personagem típico de Ayn Rand. Como John Galt, de Atlas Shrugged. Como Leônidas em 300, aliás. Sua bandeira é a liberdade do indivíduo, mais importante que qualquer acordo coletivo. Seu inimigo é a imposição de regras pela turba. Rand é influente em muitos círculos, principalmente econômicos. No Brasil, inspira muita gente do sistema financeiro. Seus livros têm sido publicados aqui com apoio do Instituto Millenium, organização que reúne grandes empresários, poderosos da imprensa etc. Leia mais.

Traição imperdoável ao primeiro dos super-heróis. O Super Homem nasceu para enfrentar os poderosos, não se tornar o maior deles. É o herói do New Deal, criação de dois garotos judeus de Cleveland, protetor dos fracos e oprimidos. Sua missão é nos segurar quando caímos, seja você quem fôr, tenha feito o que fôr. É raridade, um herói com coração de ouro, sem drama, sem rancor. É nosso melhor, mas é nosso. "Super Homem" não significa que ele é superior aos outros homens. Significa que ele é incrivelmente, absurdamente, heroicamente humano. Que este roteiro tente transformá-lo em ícone do individualismo e da brutalidade é um embuste. Leia mais.

Este Homem de Aço tem indisfarçáveis pés de barro. Mas é inútil tentar derrotar Superman. Tanto que, no momento que escrevo, lembro dos momentos ternos do filme, de Henry Cavill e Amy Adams sensíveis como Clark e Lois, das cenas ensolaradas do Kansas. Me sinto tentado a amenizar na crítica, ficar do lado do herói. Super Homem é assim: sempre vence, é sua razão de existir. Para quem bate Lex Luthor e Brainiac mensalmente, Goyer, Nolan e Snyder são fichinha.

Um de seus melhores intérpretes, Grant Morrison, escreve no livro Super Deuses (Super Gods). "O Super Homem foi criado para ser mais forte, rápido e durável que qualquer ser humano. Ele é mais real que nós. Escritores vêm e vão, gerações de artistas o interpretam, e ainda assim algo persiste, algo que é sempre Superman. Nós temos que nos adaptar às regras dele, se quisermos adentrar seu mundo. Nunca podemos mudá-lo demais, ou perdemos o que ele é. Há um grupo persistente de caraterísticas que definem o Super Homem, através de décadas de vozes criativas. O personagem possui essa qualidade essencial e imutável, em qualquer de suas encarnações. E isso tem nome: divindade."

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Publicado em 08/05/2013 às 11:19

Nossa noite com Ray Harryhausen (estrelando outra pessoa)

getImage4 Nossa noite com Ray Harryhausen (estrelando outra pessoa)

Era o grande homenageado da noite. Ia até ganhar uma estátua. Era Ray Harryhausen em bronze, em tamanho natural, sobre um pedestal. Foi apresentada com fanfarra. Presente de Mike Richardson, que andava riquinho. Sua editora, a Dark Horse, era a terceira maior dos EUA em quadrinhos, e seus títulos na época abafavam em Hollywood (Sin City, Hellboy, logo 300).  Mike, dois metros de altura, fez um discurso comprido entoando loas a Ray, pequenito ao seu lado. O velhinho agradeceu em poucas palavras, gentil. Parecia pouco à vontade com tanto confete.

Foi uma chance única de apertar a mão de um gênio. Ray será eternamente o grande mestre da animação stop-motion. Fazia bonequinhos articulados, que mudava sutilmente de posição mil vezes, até parecerem se mexer. Falando assim parece trivial. É incrivelmente trabalhoso, facílimo de ficar ridículo, e hipnotizante quando perfeito. As criaturas de Ray tinham poder e personalidade. São épicos encantadores: Jasão e o Velo de Ouro, Sinbad e a Princesa, Fúria de Titãs (a Medusa ainda assusta a criançada, testei no meu moleque dois anos atrás). E Ray não fez As Sete Faces do Dr. Lao! Fui checar agora e descobri que Jim Danforth assina os efeitos especiais do clássico da Sessão da Tarde. Bem, Jim foi totalmente inspirado por Ray...

Pois o mestre estava ali na nossa frente. Tínhamos a preciosa chance de agradecer a Ray por ter feito nossa infância mais mágica, assustadora, feliz. Harryhausen já estava no bico de corvo na época - morreu ontem, com 92 anos. Era agora ou nunca. Mas nós, Odair Braz Jr. e eu, desperdiçamos a oportunidade. E tivemos uma boa razão para isso.

Foi em 2006. Outro dia. Parece que foi no século 19, de tanta água que passou debaixo da ponte. Fomos a San Diego à cata de quadrinhos para publicar na Pixel, editora de que eu era sócio com a Ediouro, e onde Júnior, parceiro de outros carnavais, era editor-chefe. A Pixel foi uma ótima idéia executada da pior maneira possível - não por responsabilidade do Júnior, certamente, e espero que não totalmente por minha. História para outro dia. Ou nunca. Nunca esquecer e nunca perdoar, ditado do extremo sul da Itália, terra dos Forastieri.

Mas lembrando da parte boa, a Pixel publicou Hugo Pratt, Bryan Talbot, Steve Rude, Neil Gaiman, Alan Moore, Warren Ellis e muitos outros bacanas dos quadrinhos. É de dar orgulho em qualquer um. Uma parte dos títulos era justamente negociada com a Dark Horse, e por isso tínhamos sido convidados à festa, e estávamos felizes tomando nossos coquetéis na cobertura de um edifício em San Diego, durante a Comic Con de 2006. Júnior lembra aquela noite, em sua homenagem a Ray Harryhausen (leia o post aqui).

i135007 Nossa noite com Ray Harryhausen (estrelando outra pessoa)

Só que, por mais fãs de Harryhausen que fôssemos os dois, estávamos mais impressionados ainda com outro gênio no recinto. Cercado de sicofantas, ciceroneado por um intérprete com vocação de cão-de-guarda, circulava Kazuo Koike. Quem? KOIKE - o criador de Lobo Solitário. A melhor história de samurai de todos os tempos. O mangá que fez milhões lerem mangá. O Júnior também e eu também. Koike-san nunca visitava convenções. Tinha setenta anos, era rico, e devia só sair do Japão pra jogar golfe com os amigos. Mas estava lá, em San Diego, na nossa frente, e sua lenda fez sombra à de Ray Harryhausen.

Então uma bela hora fomos até Ray, cumprimentamos, apertamos a mão, foi bacana. Mas eu queria era falar com Koike. Cercamos, cercamos, e uma bela hora vimos a abertura e pegamos Kojima e capangas de jeito. O intérprete fez cara feia, saí falando: "Mr. Koike, somos do Brasil, queremos apenas agradecer o senhor por ter escrito nosso mangá favorito. Li Lobo Solitário em 1989, e foi sua obra que me fez gostar de mangá, e felizmente tive a chance de me tornar editor de quadrinhos, e foi minha editora que lançou no Brasil os mangás em formato original, Dragon Ball e outros, inclusive vários de samurai, Vagabond, Blade of the Immortal, e por enquanto ainda não publicamos nada do senhor, mas temos esperança que algum dia publicaremos". Ou algo assim, fanboys babões, enrolando a língua de emoção. O intérprete ia replicando tudo em japonês (espero), Kojima grunhindo ó, ú, sorria, acenava com a cabeça. Respondeu algo como que bom, muito obrigado, e nós dois lá todos bobos.

Ray Harryhausen e Kazuo Koike. Na mesma festa. Júnior, vou te contar, nossa vida é demais.

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Publicado em 31/10/2012 às 14:54

O que a compra da Lucasfilm pela Disney (não) significa para as empresas de comunicação do Brasil

George Lucas vendeu a Lucasfilm, que fundou e da qual era o único proprietário, por US$ 4 bilhões. Quais os ativos da Lucasfilm? Luke, Yoda, Indy: um grupo de personagens que saiu da cabeça de Lucas, de seus funcionários e colaboradores. De mais importante ainda: a relação pessoal que muitos milhões, talvez bilhões, de seres humanos têm com esses personagens.

Sim, a Disney comprou os seis filmes de Star Wars, os quatro de Indiana Jones, as séries para TV desses personagens, um prédio aqui, outro penduricalho acolá. Isso tudo tem valor. Mas o valor real está no futuro: na exploração comercial das próximas histórias de Star Wars e Indiana Jones, o que inclui não só bilheteria, mas merchandising, interatividade e integração com outras propriedades da Disney.

E o que é a Disney? Às vezes as pessoas se distraem e pensam que é um estúdio que faz desenho animado. A Disney é o maior conglomerado de mídia do mundo. Em 2011, faturou quase 41 bilhões de dólares (USD 40.893.000,00, se preferes). A Disney comprou nos últimos anos:

— Marvel, estúdio e editora de gibis de super-herói

— Pixar, estúdio de animação

— Muppets, o Caco, a Miss Piggy, etc.

— a comunidade infantil online Club Penguin

— a rede de TV ABC

— o canal esportivo ESPN

— agora, a LucasFilm

E a Disney também é dona:

— da produtora de videogames Disney Interactive

— dos canais Disney XD, Disney Channel, e da Rádio Disney

— da gravadora Disney Music

— da Disney World e de outros 13 parques espalhados pelo mundo

logo O que a compra da Lucasfilm pela Disney (não) significa para as empresas de comunicação do Brasil

— e mais várias outras coisinhas menos importantes.

Se você analisar de onde vem a receita da Disney, vai descobrir que o grosso vem de seus personagens. Como foi a divisão em 2011, arredondando os números:

— 6,3 bilhões de dólares dos estúdios

— 3 bilhões de produtos

— 11,8 bilhões dos parques e dos cruzeiros

— 18,7 bilhões de suas empresas de mídia

— 1 bilhão de internet e games

A única coisa aí que não é 100% propriedade intelectual da Disney são as empresas de mídia. Nem tudo que é exibido nos canais de TV abertos, pagos, rádio etc. da Disney são da Disney, embora boa parte seja.

Mas o grosso da receita do grupo vem, sim, de propriedades intelectuais da Disney. Bichinhos falantes, Vingadores, Piratas do Caribe e companhia. Boas histórias com esses personagens garantem boa bilheteria, boa audiência, muita gente nos parques. E boas vendas de produtos com suas imagens, produtos estes que são licenciados a fabricantes em troca de belos royalties.

Os parques, canais, rádios etc., geram rios de dinheiro. Mas sua importância maior é como plataforma de distribuição dos personagens. A Disney World e o Disney XD são a Apple Store da Disney, uma maneira da empresa controlar a apresentação de seus personagens, e encantar seus fãs.

Por que a Disney é capaz de ter uma empresa tão grande como essa, fundamentada em algo tão rarefeito como personagens fantásticos? Várias razões:

a) eles sabem manter vivo o interesse por seus personagens

b) sabem executar muito bem

c) controlam um mix bem balanceado de conteúdo e distribuição

d) diversificam sem perder o foco na tal Family Magic

e) a receita é global; quando a crise atrapalha em um país, a Disney se dá bem em outro canto

f) são as histórias, estúpido! No final, é tão simples quanto isso: a Disney é a melhor contadora de histórias do mundo.

Não quer dizer que a Disney não tenha cometido erros cretinos no passado, ou não vá cometer outros no futuro. Frequentemente, dá suas tropeçadas (uma recente e bem visível: o fracasso monstro da saga espacial John Carter de Marte). E considerando o tamanho de suas outras divisões, ainda é muito pequena em internet e games, apesar do fenômeno Club Penguin.

Mas não dá pra imaginar uma situação como a de 25 anos atrás, quando a Disney estava às portas da falência. A compra de uma grande publisher de games é o próximo movimento lógico para a Disney. A EA, com suas megafranquias de esportes, tem encaixe perfeito (eu adoraria ver uma improvável associação entre Disney e Nintendo, a única gigante dos games com personagens tão carismáticos, e bem cuidados, quanto os da Disney). E o movimento lógico seguinte é a aquisição das versões regionais, ou pan-regionais, da Marvel, LucasFilm, e Club Penguin.

O que o Brasil tem a aprender com a aquisição da Lucasfilm pela Disney?

Bem, aqui não tem nada parecido com a Disney. As empresas brasileiras especializadas em contar histórias, no Brasil, são editoras, que só pensam em termos de livros, ou os grandes grupos de comunicação. Quanto a esses:

— produzem todo seu conteúdo ou compram enlatados gringos

— não são diversificados, dependem fundamentalmente de publicidade

— não investem em propriedades intelectuais permanentes (novela acabou, o personagem morreu)

— não pensam em termos globais

— não têm plataformas de distribuição extramídia

— não têm plataformas eficientes de distribuição internacionais

— não trabalham o licenciamento como item fundamental na geração de receitas

— não se preocupam em identificar e adquirir propriedades intelectuais de terceiros

— não pensam em si próprios como empresas que precisam ser excelentes em serviço

— como regra geral, investem pouquíssimo em plataformas digitais, como internet, mobile e games.

Portanto, as grandes empresas de comunicação brasileiras são muito frágeis. Têm um modelo de negócios que qualquer ventania leva, que dirá o furacão permanente do século 21. Isso é que devia estar preocupando os seus executivos. E, aliás, a intelectualidade tupi, e o governo do Pindorama, porque um país que não souber contar histórias daqui para frente é um país sem alma nem futuro, um entreposto de commodities.

Infelizmente, aqui não existe nada parecido com a Lucasfilm. E poderia, pode existir. Uma propriedade intelectual na área de entretenimento, o que é? Ser um bom contador de histórias, em um ambiente que favoreça a remuneração de histórias bem contadas. Será que, em quase 200 milhões de brasileiros, não temos uma meia dúzia capaz de criar universos tão atraentes quando os de Star Wars ou Indiana Jones?

Claro que temos o Sítio do Picapau Amarelo, a Galinha Pintadinha, o Menino Maluquinho, personagens e mundos que atraem muita gente. Mas não com escopo e ambição de universo ficcional multiplataforma... Uma possível e única exceção me ocorre: Maurício de Sousa Produções. O Cebolinha é nosso Anakin, o Horácio é nosso Yoda. Arrisca Maurício receber antes do que imagina uma visita do rato que ruge... Mas ainda é muito pouco para um país como o Brasil. Caramba, a Finlândia, que é do tamanho de Jundiaí, conseguiu criar os Angry Birds, um bilhão de downloads no mundo, 50 milhões de dólares de faturamento só em merchandising!

Mauricio de Sousa 051 2 O que a compra da Lucasfilm pela Disney (não) significa para as empresas de comunicação do Brasil

O Brasil precisa entrar de vez na Economia Criativa, ou se render a vender minério e bife, e consumir pra sempre o mesmo folhetim. Isso tem a ver com criar um ambiente de negócios amigável para quem tem boas histórias para contar — seja em um livro, um gibi, um desenho, um game. Tem a ver com as grandes empresas de comunicação arejarem as ideias e, francamente, se espelharem no exemplo da Disney. E tem a ver com a gente usar a cabeça para criar histórias que vão nos encantar e durar. Estamos no século 21 — e, quem tem imaginação, tem a Força.

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Publicado em 18/10/2012 às 18:19

Emmanuelle era homem

foto 11 Emmanuelle era homem

Antes de Sylvia Krystel, existiu Emanuelle Arsan, a ousada esposa de um diplomata francês, que se entregava a prazeres proibidos para uma mulher, e contou tudo em um livro. Era 1959. O livro foi distribuído clandestinamente na França, sem o nome do autor. A pílula anticoncepcional estava para disparar a revolução sexual. Sucesso.

Outros livros viriam, contando as aventuras sexuais da moça, em tom autobiográfico, já assinados por Arsan.

foto 2 Emmanuelle era homem

Mas antes de Emanuelle Arsan existiu Marayat Bibidh, a tailandesa de Bangcok. Aos 16 anos se casou com Louis-Jacques Rollet-Andriane, diplomata francês. Mais tarde foi revelado que ela era a verdadeira autora dos livros. Teve dois filhos com Andriane. Foi atriz bissexta nos anos 60.

foto 3 Emmanuelle era homem

Quando o filme Emmanuelle se tornou um fenômeno, em 1974, Marayat escreveu e dirigiu Laure, em 1976. Era a história  de uma jovem que explora sua sexualidade e tal. Foi propagandeado como a verdadeira história que inspirou Emmanuelle, e agora sem censura! Forever Emannuelle foi o título alternativo, mais conhecido. Marayat trabalha no filme. Tira a roupa. É creditada como Emannuelle Arsan.

foto 4 Emmanuelle era homem

Mas antes de Marayat existiu Louis-Jacques Rollet-Andriane. E foi ele que escreveu os livros. E ele que escreveu e dirigiu Laure. Ele era o pornógrafo. Mas trabalhava para a Unesco. As duas vocações não combinam.

Sua mulher era um disfarce. Emmanuelle Arsan era seu pseudônimo, antes de ser dela. Só há poucos anos ele assumiu a autoria. As aventura de Emmanuelle ganharam continuações e variações sem fim. O último livro, La Siamoise Nue, de 2003, é co-assinado por Louis-Jacques e Marayat - que já tem oitenta anos.

O casal viveu as aventuras dos livros? Em todo, em parte? De onde veio a inspiração? Não importa. As palavras, as peripécias, as personagens saíram da pena de Louis-Jacques. E, depois, elas viveram no cinema com vaselina nas lentes, sob direção de outro homem, Just Jaeckin. E tudo foi embalado pela doce melodia de outro francês, Francis Lai - e a trilha fez toda diferença: transformou em doce romance o que podia ter parecido bruta sacanagem.

Marayat pode ter inspirado, e Sylvia Krystel, encarnado. Mas a verdadeira Emmanuelle, o maior símbolo sexual dos anos 70, era homem.

Aliás, três.

foto 51 Emmanuelle era homemLeia uma entrevista definitiva de Sylvia Krystel, em inglês, aqui.

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Publicado em 15/10/2012 às 06:00

Vivendo no mundo cão que Mondo Cane criou

mondo cane Vivendo no mundo cão que <i>Mondo Cane</i> criou

Cachorros devoram outro cachorro. Fãs ensandecidas rasgam a camisa de seu ídolo. Terceiro-mundistas idolatram deuses pagãos. Garotas seminuas se expõem na rua. Jovens enchem a cara e aprontam na rua. Animais judiados, escalpelados, mortos, devorados. Funerais macabros. Danças provocantes. Homens vestidos de mulher. Uma máquina esmaga automóveis. E mais: gente como a gente fazendo besteira! Gente diferente da gente fazendo o inimaginável! A vida nua e crua, como ela é! Fim.

Não: começo. O mundo de 2012 nasceu com Mondo Cane, o documentário que deu origem ao termo, e ao entretenimento que domina hoje nossas atenções, formata nossos medos e desejos, e nos leva às compras. Está tudo prefigurado no filme italiano de 1962. É a matriz da moderna mídia de massa.

Mondo Cane, condenado pelos bem-pensantes, foi sucesso de público. Surpresa, de crítica também. O filme de Paolo Cavara, Franco Prosperi e Gualtiero Jacopetti chegou a ser indicado para a Palma de Ouro em Cannes. Perdeu para O Pagador de Promessas, mas levou um David di Donatello, o Oscar italiano (empatando com o magnífico Uma Vida Difícil, de Dino Risi).

Teve continuações, variações, imitações descaradas e principalmente influência. Cinquenta anos depois, vivemos no mundo que Mondo Cane criou.

select Vivendo no mundo cão que <i>Mondo Cane</i> criou

Esses aí no alto são os primeiros parágrafos do meu ensaio gigante sobre Mundo Cão, que abre a nova edição da revista Select. Tipo uns 10% do total. Parto do filme para pensar alto sobre reality shows, MMA, pornografia, e por aí vai. Me diverti horrores pesquisando e escrevendo.

A Select é sobre arte. Tem foco em artes plásticas, design, arquitetura, e como isso tudo se combina com tecnologia e com a nossa vida. Cada número tem um tema. Este, Mundo Cão, capa Quentin Tarantino. Recomendo esta, anteriores e próximas Select. É diferente de qualquer outra revista brasileira. Já nas melhores bancas! Saiba mais, clique aqui.

E aqui está Mondo Cane, o filme, para seu deleite (?!):

Mondo Cane [1962] #1 por perolasblogs no Videolog.tv.

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Publicado em 10/10/2012 às 08:58

O que você diria a si mesmo se pudesse voltar no tempo?

forasta ok O que você diria a si mesmo se pudesse voltar no tempo?
O argumento de Looper não tem buracos, tem buracos negros. Mas a força gravitacional da premissa força o filme a funcionar. Bruce Willis durão, Joseph Gordon Levitt esquisitão, Jeff Daniels malvadão e Emily Blunt (loira e bronzeada, uia) emprestam gravidade a esta ficção-científica. Que é bem pé-no-chão, mesmo a premissa sendo Viagens no Tempo. É naquela linha: se você pudesse voltar no tempo e matar Adolf Hitler quando ele era uma criança inocente, e com isso impedir a Segunda Guerra, você mataria?

Nada de novo, mas tem momentinhos de brilho, e uma interessante inovação extra-tela. O escritor-diretor Rian Johnson gravou um comentário do filme. Em vez de esperar o DVD para botar como extra, colocou na internet agora.

Você pode baixar já, e assistir o filme no cinema já com o comentário de Rian no iPod ou celular. Se você adorou o filme, vá lá ver de novo, que dá tempo, e agora com os insights do criador da história. Como ninguém pensou nisso antes? É demais quando um cara reinventa o óbvio assim, num passe de mágica, tirando o inesperado da manga da casaca.

Pelo menos um momento fiquei deglutindo longamente: o encontro entre o coroa Bruce e sua versão trinta anos mais nova. O que um cara de 55 anos, que fez muita besteira mas conseguiu encontrar a embocadura para uma vida decente, tem a dizer para si mesmo aos 25, juventude bombando, Mr. sabe-tudo? O que eu, 47, diria a mim, 17? E o que ele-eu pensaria sobre o que virou? Como André me julgaria? Acertei, errei, careteei, traí meus sonhos adolescentes?

O que eu diria ao garotão é: relaxa. As coisas são bem piores do que você imagina, e muito melhores. Você vai ter seus problemas, frustrações, e a ocasional bolada nas costas, como todo mundo. A vida é assim. Mas serás poupado de grandes desgraças (pelo menos até os 47, knock knock na madeira). Vais conseguir rápido muito do que sonhas. Vais viajar, se divertir, ter um trabalho que impactará na vida de muita gente. Vais fazer amigos e ser amado. A vida é bela.

O que ele diria: prefiro não saber.

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Publicado em 05/10/2012 às 13:35

Os 50 anos de 007, mais chato que nunca, e muito mal acompanhado por Adele

Só o sucesso desses programas de calouros explica o fenômeno Adele. É uma espécie de Amy Winehouse para toda a família, rechonchuda, bonitinha e boazinha. É o que todas essas gritalhonas de Ídolos, Astros, The Voice, X-Factor e cia. querem ser quando crescerem, tirando a banha. Adele me lembra aquela paródia do filme Amazonas da Lua, começo dos 80, B.B.King gozando negros republicanos, jogadores de golfe, e pedindo ajuda para a fundação Niggers Without Soul.

Adele é, portanto, perfeita para cantar o tema do novo filme de 007, Skyfall. James Bond comemora seus cinquenta anos de cinema da maneira mais anódina possível. O 007 de Daniel Craig não tem charme, humor, inteligência ou sex-appeal. Circula por ambientes comuns, enfrenta bandidinhos de quinta, faz cara de prisão de ventre, nos bota pra dormir. É um Jason Bourne, um Jack Bauer piorado. Não é Bond.

Eu sei, porque sou fã da série. Pulei diretamente de Jonny Quest para James Bond e, aliás, são primos. Li até uns livros de Ian Fleming, minha Tia Cacilda era fã. São muito ruins, mas têm seus momentos excitantes, na violência e no sexo, ou tinham quando li na oitava série. Tatiana Romanova, ai ai ai.

Mas o que interessa de Bond não são os livros, e sim os filmes. Vi O Espião Que Me Amava quando tinha doze anos, na mesma temporada que Super-Homem e Guerra nas Estrelas, e já era. Combinam. 007 é filme de super-herói, ficção científica emocionante, pra pré-adolescentes de todas as idades.

De Dr. No a Die Another Day, tudo sempre se passa uns quinze minutos no futuro. Quando ninguém viajava de avião, Goldfinger tinha jato particular. Quanto a pílula não tinha sido inventada, as mulheres transavam relax. Quando não havia terrorismo internacional, já havia a Spectre. E os gadgets? As engenhocas criadas para os agentes britânicos por Q eram totalmente sci-fi, ainda que em alguns casos tenham se tornado realidade pouco depois. Lembro do meu espanto ao ver Roger Moore andando em uma moto aquática em Moonraker. Demorou duas décadas para qualquer um poder alugar um jet ski.

Além de ser ficção científica, 007 é filme de mocinho. Suas vitórias sobre exércitos de capangas sem rosto são tão improváveis quanto as de um Batman (a trilogia de Chris Nolan é inteiramente calcada em Bond). Os argumentos são para lá de esquemáticos - abertura eletrizante, a premissa é apresentada, Bond é convocado, encontra uma garota, provoca o vilão, é capturado/toma umas bifas, escapa, enfrenta o vilão mais uma vez, fim. O mundo livre está salvo outra vez... Lembro de esquerdistas acusando Bond de agente do imperialismo. É como condenar Robin Hood por trucidar muçulmanos nas cruzadas.

Quanto às eternas acusações de chauvinismo, são ridículas. Os livros foram escritos nos anos 50, por um senhor que nasceu no começo do século. Tão cretino quando descartar Lobato, nascido no século 19, por racismo. E nos filmes, o principal objeto sexual é Bond. Connery era sempre mostrado sem camisa, pernas musculosas de fora, brilhantina no cabelo, sorriso kolynos, as gatas crescendo os olhos pra cima dele.

Skyfall Os 50 anos de 007, mais chato que nunca, e muito mal acompanhado por Adele

Agora é essa tristeza. Transformaram James Bond num zé maneba. Até gostei de Casino Royale, como filme, não como filme de 007; Eva Green ajudou bem. Quantum of Solace é fraquíssimo, o único 007 que vi só uma vez. Esse novo, Skyfall, não promete. O diretor, Sam Mendes, tem pretensões intelectuais e dramáticas bem além de seu talento. As Bond Girls são umas minas quaisquer lá. O vilão é Javier Bardem, canastrando forte pelo trailer. E Daniel Craig é aquela posta de carne, agora meio acabadinho. Nem é culpa dele que a série esteja essa porcaria. É do público, que se deixou engambelar e  aprovou essa pobreza, como aprova a pobre Adele.

007 tem salvação? Não a curto prazo. É uma franquia. Em alguns anos, a fórmula atual se esgotará, junto com Daniel Craig. Quem sabe aí a coisa melhore, com a substituição do time de produtores atuais, já bem velhinhos. De vez em quando, 007 muda de geração e rota - Viva e Deixe Morrer, Goldeneye... Enquanto isso, vou ver Skyfall? Vou, já decidido a não gostar. E quando tocar essa música, meu humor vai azedar de vez.

007 - Operação Skyfall - Clipe: Skyfall (Adele) por cinema10 no Videolog.tv.

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Publicado em 03/10/2012 às 19:04

Veja o trailer de Johnny Depp como o índio Tonto, em novo filme do Zorro

O astro menos provável do mundo, Johnny Depp, já fez milhões pra si mesmo e bilhões para Hollywood interpretando personagens mais e mais esquisitos. Agora, dá mais um passo na direção da bizarria total. Retoma a parceria com seu diretor nos Piratas do Caribe, Gore Verbinski, e o espetaculoso produtor Jerry Bruckheimer.

Ele é Tonto, parceiro do herói-cowboy Lone Ranger. Quem? Bem, no Brasil, ele ganhou o nome de Zorro, como o da espada, do Z e do Sargento Garcia.

Nada a ver. Ele é um vigilante mascarado do velho oeste, o Cavaleiro Solitário. Aquele, o Kemo-Sabe, da bala de prata e do ai-ô, Silver. Como vão traduzir no Brasil? Por mim, Zorro. E Tonto, podem manter tonto mesmo, que o cara usa um chapéu com um corvo empalhado...

Lone Ranger - Trailer oficial por perolasblogs no Videolog.tv.

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Publicado em 28/09/2012 às 11:16

Costa-Gavras x O Capital: como sempre, do lado certo da trincheira

costa gravas Costa Gavras x <i>O Capital</i>: como sempre, do lado certo da trincheira

Constantin Costa-Gavras saiu de moda com as ditaduras cruentas que denunciou, em thrillers políticos obrigatórios na virada dos anos 60 para os 70. Filmes como Z, A Confissão, Estado de Sítio, Seção Especial de Justiça e Desaparecidos. Estes cinco já são mais que obra para vida inteira. Emocionam como filmes. Incendeiam como gritos de resistência.

Costa-Gavras, 79 anos, não parou de filmar nem brigar. Percebeu que o inimigo agora é mais sutil. Saem de cena cassetetes e choques elétricos — infelizmente, ainda não em todo lugar. No ar, candidatos fotogênicos, armados com promessas inócuas que trairão à primeira oportunidade. Em pauta, o de sempre: encher cada vez mais os bolsos de quem tem mais, manter as turbas dóceis carregando seus fardos.

Merece ser visto O Corte, de 2005, sobre um químico que perde o emprego numa demissão massiva, vê a família escorregando para o lumpesinato, e decide eliminar os concorrentes para conquistar emprego. É sombrio, engraçado e político. Mas sete anos se passaram. A crise de 2008 não acabou. Este ano termina sem respiro para a economia mundial, e sem oxigênio para as menores economias da Europa. Agora Costa-Gavras atira diretamente no alvo, na causa do desemprego: o sistema financeiro.

Seu novo filme, O Capital, promete. Costa-Gavras volta sua mira para o mundo das finanças, que é o que interessa na economia do planeta Terra, 2012. Um mundo hermético, dominado por fórmulas automatizadas de investimentos e megabônus desconectados das ruas. Não é nem mais um cassino: é um sistema cibernético, com capatazes humanos — Skynet, Matrix.

Konstantinos, grego naturalizado francês, faz à sua maneira um filme sobre sua terra natal. Ele cresceu com a Grécia na Guerra Civil e fez mais que sua parte para enfrentar o regime militar grego, com o eletrizante Z. Hoje, Atenas novamente sangra, como sangram Espanha e Portugal, e outros virão. A resistência local é importante e impossível. A pátria da democracia é somente a primeira trincheira. A ditadura do capital internacional desregulamentado, turbinado por algoritmos, alimentado por ganância sem fim, precisa ser enfrentado globalmente. Costa-Gavras mais uma está do lado certo.

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