Posts com a categoria: Comportamento

Publicado em 23/04/2015 às 20:10

Chega de preconceito contra o funk. Deixa MC Melody ser funkeira e rebolar – mesmo que tenha 8 anos de idade

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Funkeiro mata. Funkeira é assassinada. Funkeiro ostenta. Funkeira mirim sensualiza. Dois pesos, duas medidas. Se fosse sambista, sertanejo, roqueiro, o discurso era outro. Funk incomoda, os outros estilos não. Funk existe é mesmo para incomodar.

Quantas vezes você já viu na TV menininhas passistas? Sempre em reportagens simpáticas, olha como a garotinha samba no pé, incrível. Discurso completamente diferente do caso de MC Melody.

Ela tem oito aninhos. É uma criança. Brinca de ser grande, de ser funkeira, de ser Anitta. Rebola como criança. Como vinte anos atrás as menininhas dançavam na boquinha da garrafa ou queriam ser Paquitas.

A grita é que o pai está expondo a menina. Médio. O pai da menina é músico, não neurocirurgião. Era pagodeiro, virou MC Belinho, que funk é onde está a grana na periferia. Fatura com a garota? Mathew Knowles botou a filhinha para cantar e dançar aos oito anos também. Produtor musical, com nove Beyoncé já estava no Destiny´s Child. Logo era um grupo de teenagers, requebrando com pouca roupa. Qual a diferença?

Abra ouvidos e olhos. As letras que Melody canta podem ser adultas, não são pornográficas. Os movimentos são padrão em funk. Ela nem tem ainda hormônios para “sensualizar”. Se você vê Melody dançando e fica excitado, quem tem problema é você, não ela...

Tem até petição online pedindo para o pai perder a guarda da criança. Onze mil pessoas já assinaram. Um advogado do conselho da criança e do adolescente diz que o cara cometeu um crime, que poderia dar até dois anos de cadeia. Genial, a menina (e a irmã) arriscam ficar sem o pai, que as sustenta, para agradar os indignados da internet...

Pai roqueiro cria filho que faz o sinal do capeta com os dedos desde bebê. Fã de Sertanejo embala o churrascão da família com Fernando & Sorocaba. Pagodeiro ensina a garotada só no sapatinho. Criança vai na dos pais, pelo menos até a adolescência. Às vezes para sempre. Mais comum: encrenca um pouco na juventude e acaba se rendendo à sua criação.

Claro que puxar pelo lado do funk rende repercussão e dá cliques. Também sou jornalista e imprensa também é isso aí. É perfeitamente válida a reportagem do camarada Helder Maldonado que levantou essa lebre. A cobertura de TV foi equilibrada. Bem menos o artigo da Deborah Bresser, também aqui no R7, que foi pra cima de MC Belinho. Discordo totalmente de Deborah, que sabe muitíssimo de moda. Pergunto pra amiga: botar essas modelos de 14 anos pra fazer dieta de fome e desfilar na São Paulo Fashion Week não é exploração dos pais também? O tema rendeu um segundo texto no Blog da DB, com comentários dos leitores, que você pode ler aqui. Tem link para o primeiro artigo.

Em qualquer vizinhança você encontra pais e mães fazendo uma série de besteira com as filhas. Inclusive botando pra fora de casa porque engravidou, até hoje. Vamos fazer o quê? Jogar todos os pais de quem discordamos na cadeia? Tem pai mundo afora que cria filha com burca e proíbe de estudar, vamos invadir o Iêmen e mandar o Bope para a Arábia Saudita?

Mau gosto não é pecado e tosqueira não é crime. Botar sua filhinha para dançar funk não é pior que botar para sambar na Maracaí. É bem fácil argumentar que o funk brasileiro hoje influencia a música pop global muito mais que o samba, mas esse é outro texto para outro dia.

Vamos lembrar que vivemos em um país campeão da prostituição infantil, que está aí na cara de todos, e sob o nariz da polícia e autoridades. País campeão em homicídios e mortes decorrentes de abortos, sempre gente nova, sempre gente pobre. Qual a trilha sonora dessa juventude? O funk. Vamos criminalizar até a diversão deles?

Nós brasileiros já temos problemas de sobra, e bem mais sérios, para ficar pegando no pé do pai da Melody. Se você não gosta de funk – música, letras, roupas, ambiente – está no seu direito. Mas preconceito não é direito de ninguém.

Publicado em 02/04/2015 às 07:00

Com a redução da maioridade penal, a violência não vai diminuir – vai aumentar

001987 imgN G Com a redução da maioridade penal, a violência não vai diminuir – vai aumentar

Desperdício de tempo discutir se a redução da maioridade penal é certa ou errada. Certo e Errado é subjetivo. Lei tem que ser construída sob solo mais sólido. O que funciona e o que não? E se funcionou em outro lugar, vai funcionar aqui?

Vamos falar da experiência internacional. E vamos falar de dinheiro.

A maioridade penal foi importante em algum país para diminuir a criminalidade? A resposta é não. Na lista dos 53 países mais seguros do mundo, a maioridade é de 18 anos em 42 deles. O único país rico que pune como adulto os jovens é os Estados Unidos. Justamente o país rico com os maiores índices de criminalidade.

Países diferentes fizeram experiências diferentes para diminuir o crime. Algumas deram certo. Outra não. Punir adolescentes como adultos não funcionou. A razão é simples. Criminoso nunca acha que vai ser pego. Adolescente menos ainda. Têm certeza que podem aprontar impunemente. Os hormônios em erupção garantem a eles: somos invencíveis, invisíveis e imortais. Se ameaça de punição evitasse o crime, nossas cadeias não estariam cheias. Nem as dos americanos.

No tráfego, basta os chefes que hoje usam a molecada de 16 anos como olheiro e avião passar a usar meninos de 11 ou 12. Molequinho pobre precisando descolar algum não falta...

Tem um argumento mais poderoso ainda. De uma pessoa que tem experiência lidando com menor infrator. Garante que a violência vai aumentar, não diminuir. E custar rios de dinheiro, dinheiro nosso, do contribuinte. Em um ano que o governo corta investimentos na segurança, na saúde, na educação.

Ana Luísa e eu somos amigos de longe faz tempo. Só nos falamos pela internet. Somos fãs de algumas coisas em comum, rock, rock velho.
Ana trabalha no Ministério Público de São Paulo. Tem muita experiência com jovens criminosos. Leniência zero. Sabe que não dá para brincar com bandido, tenha 15 ou 50 anos.

Escreveu e publicou no Facebook um texto muito impressionante sobre o tema. Só uma pessoa que está na linha de frente para ter uma visão tão clara sobre o tema. Pedi sua autorização para republicar aqui. Por favor: leia o depoimento de Ana Luísa antes de decidir sua opinião sobre a redução da maioridade penal.

“Com a redução da maioridade penal, vamos precisar de uma nova estrutura, que vai demandar:
- número maior de policiais
- de escreventes judiciais
- de juízes
- criação de novas Varas Criminais e Varas cumulativas (nas Comarcas em que Varas não especializadas cumulam processos criminais e cíveis)
- ampliação do espaço físico de delegacias, tanto para acomodar inquéritos como maior carceragem
- ampliação do espaço físico em fóruns (a digitalização das Varas anda a passos de tartaruga; o papel ainda é o suporte físico dos autos em grande parte do país)
- criação e ampliação de presídios
- contratação de carcereiros, faxineiros, serviços de manutenção, de fornecimento de alimentação, etc.

Traduzindo: GASTO DE MUITO DINHEIRO. Dinheiro que o país não tem, né. Alguém acredita que Dilma e Alckmin vão liberar verba para construir penitenciária? O que fazer então para acomodar a crescente população carcerária? Enfiar adolescentes em espaço no qual já quase não cabem presos? Não.

E dá-lhe indulto pra soltar então os presos mais antigos (muitas vezes bandidos já graduados e imunes à ressocialização) para colocar no lugar adolescentes.

Que talvez pudessem ser ressocializados se permanecessem longe da convivência maléfica com bandidos experientes.

E se você foi vítima de um crime e aguarda ansioso que o processo criminal seja logo julgado, com a condenação da pessoa que lhe fez mal, pode esperar sentado. Com as Varas estouradas, fique satisfeito se, em dois, três anos, com otimismo, for protelada a sentença de primeiro grau (o que não significa punição e fim do processo. Pode haver recurso). Será sorte.

Porque um número assombroso de crimes vai prescrever por decurso do prazo legal dentro do qual é permitido o julgamento. Em uma palavra: impunidade.

A criminalidade vai aumentar, não diminuir. Gente mais perigosa solta; gente menos perigosa presa".

Publicado em 25/03/2015 às 19:45

Jean Wilys quer legalizar o aborto. Talvez ele não saiba a única diferença entre a vida sexual das mulheres ricas e das pobres

jean wyllys no poder e politica 1329848240282 1920x1080 1024x576 Jean Wilys quer legalizar o aborto. Talvez ele não saiba a única diferença entre a vida sexual das mulheres ricas e das pobres

“Não tem televisão naquela casa.” Era a piada que se fazia antigamente quando o casal tinha um filho atrás do outro. Falta de TV para distrair no sábado à noite, o casal ia lá e pimba – lá vem mais um bebê.

Hoje toda casa tem TV. E a fertilidade vem caindo. Mas no mundo todo as mulheres pobres continuam tendo muito mais filho que as mulheres ricas. Por quê?

No Brasil, não sabemos. Nos Estados Unidos, agora eles sabem. Uma pesquisa do Brookings Institute acompanhou durante um bom tempo 3.885 mulheres que não tinham plano de engravidar. Conclusão: mulheres pobres têm cinco vezes mais chance do que as ricas de ter um filho sem ter planejado.

O que isso tem a ver com a vida sexual de umas e outras? Essa é uma boa surpresa da pesquisa: nada. As classes abastadas e as apertadas se comportam da mesma maneira na cama. Ricaças e remediadas transam mais ou menos o mesmo número de vezes por mês.

Número de parceiros diferentes também não tem a ver com a conta bancária. E a mulher americana média tem uma vida sexual ativa por dez anos antes de se casar. Também nisso classes A e E se assemelham.

O que varia loucamente entre ricas e pobres? Adivinha: dinheiro. É a capacidade financeira de evitar a gravidez. Por exemplo: a taxa de gravidez entre as mulheres que usam DIU é 0,08%. Camisinha é 12%. Camisinha é barato. DIU custa mil dólares para mais nos EUA.

Uma conclusão cruel do instituto Brookings: a desigualdade começa antes do nascimento. Se sua mãe é rica e você é filho único, terá muito mais oportunidades na vida do que se fôr um de quatro irmãos de uma mãe pobre.

Por isso este é um problema que vai além da vida particular de cada um, das escolhas de cada indivíduo. Tem um impacto social brutal. Econômico também, para o país como um todo. Se de um lado falta dinheiro para as mulheres pobres evitarem a gravidez, custa bastante para o governo lidar com tanta criança indesejada. São 21 bilhões de dólares anuais do contribuinte americano gastos com isso.

Os números da pesquisa gritam. Quantas mulheres pobres tiveram uma gravidez no último ano? Nove por cento. Ricas? Três por cento. E quantas crianças nasceram? As mulheres ricas fizeram mais abortos: 32% abortaram propositalmente no último ano, contra só 9% entre as mais pobres. O aborto nos EUA é lei. Mas a aplicação desta lei e a disponibilidade do procedimento depende de legislação local. E o custo também varia, claro.

E no Brasil? A diferença entre mulheres ricas e pobres deve ser infinitamente maior, considerando que o aborto aqui é criminalizado. Outro dia mesmo um médico denunciou à polícia uma moça que tinha feito um aborto. No Brasil quem tem dinheiro faz aborto com todo conforto e segurança, com ótimos médicos em clínicas confortáveis. Quem depende do SUS que corra da polícia.

É essa diferença entre classes que o novo projeto de lei do deputado Jean Wyllys pretende enfrentar. O PL 882/15 prevê a legalização do aborto até 12 semanas de gravidez, se a mulher assim o quiser.

O projeto será muito debatido. É bom que seja mesmo. Mas vamos desde já desqualificar as críticas cretinas. Ainda é muito comum comentários do tipo "essa mulherada fica tendo um filho atrás do outro pra ganhar Bolsa-Família." É preconceito de classe e é estupidez, nos EUA e no Brasil.

Talvez o deputado do PSOL não saiba desta pesquisa, que demonstra que a vida sexual das americanas e pobres é igual. Te empresto o argumento, Jean. Como o Brasil adora se espelhar nos Estados Unidos, pode ser um cala-boca nos críticos mais truculentos.

Conheço (e discordo) de gente ótima que é contra a legalização do aborto no Brasil. Mas aqui nem discuto o aborto em si. O problema é maior e começa bem antes. Com a diferença de tratamento entre classes, nos EUA, aqui, em qualquer lugar. É uma praga a ser combatida em todas as frentes.

Passou a hora de mudar a lei e corrigir essa injustiça. A mulher que engravida sem planejar e decide ter a criança, que tenha. E quem decidir pelo aborto, que possa fazer isso com segurança, sem risco para sua saúde. Sendo rica ou pobre.

http://r7.com/ubIj

Publicado em 06/03/2015 às 10:50

Comemore o Dia Internacional da Mulher, mas saiba: o importante é ser loira e magra

okok Comemore o Dia Internacional da Mulher, mas saiba: o importante é ser loira e magra

Economia biológica. Já ouviu falar? É uma nova área da ciência, se é que se pode chamar estatística de ciência. Relaciona características físicas com recompensa monetária. Nos últimos anos estão fazendo muitos estudos nesse campo.

Os resultados são exatamente aquilo que você imagina. Completamente, cruelmente politicamente incorretos. Todo esse discurso de que você pode ser exatamente o que é, e o mundo que se adapte a você, não passa disso, discurso. A teoria na prática é bem outra. Quer mudar o mundo? Comece reconhecendo como é o mundo real.

Se você é gordo, magricelo, baixinho, ou tem voz desafinada, está em desvantagem. Ganham mais dinheiro os altos, bonitos, elegantes. Voz grave também é importantíssimo. Não é à toa que CEOs e políticos fazem curso de dicção, para aprender a falar com aquela voz de narrador de trailer. Ou você acha que Obama nasceu falando assim?

Lucy Kellaway, colunista do Financial Times, fez uma coluna divertida sobre o tema. Lembra uma pesquisa de 2005 com presidentes das maiores empresas dos Estados Unidos. Eles tinham em média 1,82m, seis centímetros a mais que o homem americano médio.

Lucy batizou como "Prêmio Beleza". As pessoas bonitas ganham de 10 a 20% mais que o restante de nós. Um estudo de Harvard pediu a candidatos a empregos que resolvessem quebra-cabeças. As pessoas mais bonitas não se saíram melhor que as médias ou feias. Mas os empregadores preferiam sempre contratar as mais belas.

Mulher? Mais ainda. Segundo os cientistas, para atingir o sucesso financeiro o fundamental é ser loira e magra. Um estudo da universidade de Queensland determinou que as loiras ganham 7% a mais que o restante das mulheres. Um estudo da Universidade de Nova York liga a quantidade de gordura no corpo à quantidade de dinheiro que se deixa de ganhar. A cada 1% a mais de massa corporal, a mulher ganha 0,6% a menos.

Lucy, que é uma inglesa pequena, morena e comum, fecha seu artigo com uma provocação. Sarrista, sugere que os empregadores contratem pessoas feias, baixas e mal-vestidas. Elas farão um trabalho tão bom quanto as lindas, e dá para pagar um pouco a menos.

Então, minha amiga baixinha, gordinha e moreninha, celebre feliz seu dia internacional da mulher. Mas se quiseres celebrar esse mesmo dia em 2016 ganhando um pouco melhor, faça o que a ciência recomenda. Regiminho, salto alto, banho de loja e tintura no cabelo...

Publicado em 20/02/2015 às 18:36

Como morrer e como viver (com câncer terminal ou com saúde perfeita)

OliverSacks PhotobyAdamScourfield 1024x1009 Como morrer e como viver (com câncer terminal ou com saúde perfeita)

Médicos sabem mais sobre o que somos. Também sabem mais sobre o que não sabemos. Talvez por isso lidem com nossa frágil humanidade com mais graça que o resto de nós. Doutor nenhum conquista o diploma sem suturar vivos e dissecar mortos. Viu um paciente soltando o último suspiro, viu todos?

Médicos da mente vêem além das tripas e carne. Enxergam dentro do crânio, onde massa esponjosa e descargas elétricas nos fazem únicos, eternos, preciosos.

Meu pai é psiquiatra. Impressiona a naturalidade com que trata a morte. Certo que ele acredita em uma vida pós-túmulo, mas isso não é alívio para a maioria dos viventes. Dr. João fala da morte, e até da morte de pessoas próximas, com um à-vontade inconcebível entre civis. Sabe confortar quem sofre perdas. Costuma dizer que vive cercado de “defuntos queridos”, gente que amava e se foi.

Adoraria presenciar um papo entre ele e o colega Oliver Sacks, o neurologista mais famoso do mundo.

Sacks escreveu um artigo anunciando câncer terminal no fígado. Um ano para viver ou menos. Tristeza planeta afora. Professor e pesquisador respeitadíssimo, Sacks se fez escritor. Escreveu sobre epilepsia, fotofobia, doenças degenerativas, tudo de assustador, sempre com humor e delicadeza. Escreveu 13 livros no total. Virou autor best-seller. “Awakenings” ganhou uma adaptação lacrimosa com Robin Williams e Robert de Niro, “Tempo de Despertar”. Sacks papou tudo que é honraria em literatura e medicina. Ficou famoso em nível global. Mais, galáctico. Um planetinha distante foi batizado em sua homenagem em 2003.

Seu artigo de adeus é bonito. Oliver escreve sobre a própria morte sem focar no umbigo. Fala de si mas fala de nós. Seu tema é o único que importa: como morrer? Porque é a resposta à única pergunta: como viver?

Sacks não nega temer final, mas diz que o sentimento dominante é a gratidão. Cita o filósofo David Hume com admiração. Gostaria de ter a abordagem tranquila do filósofo, sua contenção diante da morte, a moderação frente às paixões. Não tem. Mas assina embaixo quando Hume escreve: “É difícil estar mais distante da vida do que estou nesse momento.”

“Neste últimos dias”, conta Oliver Sacks, “tenho sido capaz de ver minha vida como se de uma grande altitude, uma espécie de paisagem, e com um sentido aprofundado da conexão de todas suas partes. Isso não significa que dei adeus à vida. Pelo contrário, me sinto intensamente vivo, e quero e espero que no meu tempo restante possa aprofundar meus relacionamentos, dizer adeus aos que amo, escrever mais, compreender mais.”

Sacks se despedirá da Terra vivendo como sempre viveu – mas Mais, com M maiúsculo. Para isso limpará sua rotina de pequenas distrações. Não assiste mais o noticiário, por exemplo. Não porque não se importe com injustiça ou desigualdade. É que esses são problemas que enfrentarão os que ficam, os jovens. “O futuro está em boas mãos”, nos assegura.

tombeau montaigne 1 1024x731 Como morrer e como viver (com câncer terminal ou com saúde perfeita)

Teremos a chance de decidir como partiremos? Terei eu? Michel de Montaigne, em um de seus ensaios mais inspiradores, aconselha, e traduzo porcamente: “se você não sabe como morrer, não se preocupe. A Natureza te dirá em detalhes e adequadamente o que fazer, quando chegar o momento. Fará o serviço perfeitamente por você. Não esquente a cabeça com isso.”

Montaigne enterrou o pai, o melhor amigo e quatro filhos pequenos. Chegou perto ele mesmo, quando bateu a cabeça caindo do cavalo. Perdeu a memória, que voltou aos borbotões. Depois de tudo isso, se fez o estóico que ainda hoje nos ensina a viver. Como? “Com leveza, na superfície, deslizando”.

Montaigne e Hume nos convidam a viver com a consciência permanente de nossa transitoriedade. E por isso, de maneira mais plena.

Como viverei? Pronto para morrer hoje e com a certeza que viverei para sempre. O sentido da vida é ela própria. Como Sacks, aspiro à sabedoria cuca-fresca dos antigos, mas carrego o sangue quente do Mediterrâneo. E tenho a convicção de que a vida é essa e finita la commedia.

Viverei sorvendo a vida até o último gole. Há que se viver mais e Mais, aqui e agora. Meu pai diz que só quer duas palavras em sua lápide: “Sob Protesto”. Boas palavras de despedida, e podem me pôr na mesma cova – no dia de São Nunca.

 Leia o artigo de Oliver Sacks

E um textinho sobre porque considero Montaigne o nome fundador do jornalismo cultural... com outra participação especial do Forasta pai.

http://noticias.r7.com/blogs/andre-forastieri/2011/03/23/vamos-conversar-sobre-jornalismo-cultural/

Publicado em 04/02/2015 às 15:31

Drogas dominam o esporte faz tempo. É hora de liberar o doping

ok Drogas dominam o esporte faz tempo. É hora de liberar o doping

Atletas usam drogas. Superatletas usam superdrogas. Ilegais, legais, e mais ou menos. Durante a vida toda. É bomba pra ficar forte, aditivos diversos comprados com receita, e bola para aguentar as lesões e dores. Depois de aposentados, mal param em pé.

O caso de doping de Anderson Silva é o bilionésimo. Ele nega. Veremos. Chama atenção porque ele é ídolo de muitos, foi vendido como bom moço, virou garoto-propaganda eficiente de marcas diversas, e de luta-livre, ou como quer que você chame MMA e UFC. O caso mais incrível dos últimos anos foi o de Lance Armstrong, o superciclista americano, que venceu o câncer, e viu sua moral rolar escada abaixo pelo uso de drogas.

Todo mundo já acompanhou o jogador que era um franguinho e, contratado por um time grande, em dois anos está coberto de músculos. As tenistas de hoje são mais machas que eu, braços de lenhador. Usam drogas para isso. Tá mais na cara que nariz. Todo mundo do meio sabe. Treinadores dão a benção. A família olha para o lado. A imprensa deixa para lá, porque tira o lustro do esporte, sempre vendido como grande maravilha.

Tomar drogas e remédios a rodo é o caminho mais curto para ser um superatleta, ou tentar. Vale? Se você conquista o ouro, o dinheiro é ótimo. Cada vez mais grana. Qualquer zé que chega à seleção brasileira por uma única Copa fatura mais do que um Rivelino na carreira toda.

Do pódio para baixo as recompensas são bem menores. Às vezes nenhuma. Fazendo essa conta não compensa detonar sua saúde tomando tanta porcaria. Mas ninguém sabe até onde vai chegar antes de tentar, certo? E a maioria de quem se dedica a esses esportes que exigem tanto do corpo é gente pobre ou remediada. No caso de MMA, e aliás futebol também, é 99% moleque durango.

Exigimos muito dos atletas. E cada vez mais, mais, mais. "Superar os limites" é o maior chavão de narrativas esportivas. Eles têm que ser cada vez mais rápidos, mais fortes, mais resistentes. Ir além do humano.

O público exige que eles sejam super-humanos. E depois vamos culpá-los por fazer de tudo, dentro e fora da lei, para chegar lá? Quem não usa doping já entra na briga em desvantagem. E quem usa e não é pego ganha nosso aplauso e rios de dinheiro. Como Anderson Silva fez até agora, pelo jeito. E como tantos outros que você vai assistir em campo, nas quadras, no ringue. Uma parte enorme dos seus ídolos, meu amigo, é um bando de drogados. Talvez a maior parte.

Poderíamos parar de transformar meros esportistas em heróis, milionários, modelos de conduta para os jovens. Impossível, porque esporte é um negócio bilionário e global.

A outra opção é liberar totalmente o uso de doping. Qualquer outra alternativa é hipocrisia. É a coisa certa a fazer.

http://r7.com/xG67

Publicado em 03/02/2015 às 10:36

Pare de economizar água. Pare de chatear os outros. Vá tomar banho! E pode ficar meia hora no chuveiro (como eu)

kok Pare de economizar água. Pare de chatear os outros. Vá tomar banho! E pode ficar meia hora no chuveiro (como eu)

Continuo tomando banhos longos. Sem dor nenhuma na consciência. E molhando o quintal, regando o jardim, lavando o carro como sempre. Sou egoísta? Não, sou consciente, e sai pra lá, maleta.

Só tem uma coisa mais chata que falta de água. É a falta de noção dos chatos que fiscalizam como os outros estão usando a água. Nessas horas de crise sempre vem à tona o ditadorzinho que existe dentro das pessoas. É o clássico problemas dos regimes autoritários. O pior não é o ditador que manda no país, é o guardinha da esquina que quer mandar em você.

Milhões de anos de seleção natural criaram esse nosso ego monstruoso. Seu cérebro te garante que o universo gira em torno do seu umbigo. Que cada pequeno ato seu tem reverberações cósmicas. Que depende fundamentalmente de você tudo que te acontece, que acontece no mundo, no seu mundo. É uma armadilha que a evolução armou para a gente.

A mídia pega a onda. Agora é uma reportagem atrás da outra sobre como economizar água. Estrelando os malas que enchem a paciência do próximo. Sim, inclusive malas amigos. Você mesmo, mano. Você aí, querida. Tenho só uma coisa a dizer para você: vai tomar banho! E pode ficar uma hora no chuveiro. Não fará diferença nenhuma para a cidade, a sociedade, a humanidade. Só pra sua conta.

Egocentrismo é nossa natureza. Você não precisa se render a ela. Existem os seus problemas pessoais. E existem desafios coletivos. Que precisam ser enfrentados coletivamente. Perceba: isso é muito diferente de cada pessoa “fazer sua parte”. Soluções coletivas não são compostas de um monte de iniciativas individuais. É, como grupo, como sociedade, compreendermos a raiz do problema, articularmos como sociedade as soluções, e enfrentar os desafios de implementá-las.

Não percamos tempo listando aqui as barbaridades e bandalheiras várias que nos levaram a esta situação. O ponto principal é: sabemos o que fazer para garantir água farta e barata, talvez grátis, para todos.

Sabemos quais obras precisam ser feitas. Sabemos que precisamos despoluir os rios. Sabemos que é preciso acabar com o desperdício na distribuição (um terço da nossa água se perde aí).Sabemos que precisamos de saneamento básico universal. Sabemos que precisamos de uma economia que não exporte nossa água como commodity, na forma de soja e bife. Sabemos que precisamos parar de derrubar floresta e reflorestar a Amazônia. Sabemos de tudo.

Então por que não fazemos o que sabemos ser fundamental? Porque “sabemos” que não há dinheiro para isso. Quem diz? Os  caras que a gente botou lá para gerir o dinheiro dos nossos impostos. E um monte de sub-experts e jornalistas matraca-trica que macaqueiam esse discurso.

Os cofres públicos estão recheados. Municípios, estados e governo federal usam nossos recursos de maneira errada. Errada de três maneiras diferentes. Errada porque uma boa parte da grana é roubada. Errada porque outra boa parte é gasta com coisas que não são prioritárias, mas garantam visibilidade e reeleição.

E errada da maneira mais sem cabimento e menos visível para você. Que é pagando os juros mais altos do planeta. Sim: entre todos os países da Terra, o Brasil tem os juros mais altos. Todo empresário está comprando títulos públicos, em vez de investir na produção. Tudo que é investidor gringo está faturando altíssimo nessa.

Municípios, estados e governo federal estão sufocados com o pagamento dessa dívida, cada vez mais impagável. Para os investidores, é o melhor investimento do mundo. Para os brasileiros, é o pior investimento possível dos nossos impostos. Dilma acaba de subir os juros mais ainda. A Selic hoje está em 13%.

Chamam isso de responsabilidade fiscal. É uma irresponsabilidade social. Em 2014 o Brasil pagou R$ 249 bilhões de reais em juros da dívida. Esse ano pagará mais. Precisa pagar menos. Preferencialmente nada. Que pagasse um terço a menos. Seriam mais R$ 66 bilhões para investir, um oceano de grana. Sabe como se faz isso? Com uma canetada lá em Brasília. Agora, como forçamos dona Dilma a dar essa canetada? Coletivamente.

Para fazer tudo aquilo que sabemos que tem que ser feito, há que enfrentar a roubalheira dos políticos. Há que melhorar a gestão dos recursos públicos. Mas nossa pressa é grande. A solução mais rápida é pagar menos juros e já. Isso nada tem de radical. É uma proposta modesta para uma questão bem arroz com feijão. Se você, na sua casa, tiver que optar entre ter água na torneira ou pagar as dívidas, vai escolher o quê? Morrer de sede com o carnê em dia?

Os brasileiros precisam tomar esta decisão. Isso é que é "fazer a sua parte". Pense nisso quando entrar hoje no chuveiro. Sem pressa...

Publicado em 08/12/2014 às 14:48

Ei, pedestre, sai da minha frente, quer morrer atropelado?

pedestre Ei, pedestre, sai da minha frente, quer morrer atropelado?

Guiava eu para o trabalho quando o cretino apareceu do nada na minha frente. Saiu de trás de um carro, uma kombi, sei lá, não deu tempo de ver, e quase não deu tempo de brecar. O cara parou no meio da rua, me olhou muito feio, e acabou de atravessar no ritmo mais lento possível. Só faltou me xingar. Ainda bem que não. Perigava eu ter atropelado o infeliz.

Bem, não, que sou calminho. Mas vai ser folgado assim na Cochinchina. Atrás de mim vinham dois carros e um ônibus, todos obrigados a brecar de repente, um monte de gente em risco. Por quê? Porque um folgado se sente no direito de atravessar a rua na hora que quiser, no ritmo que quiser, e o mundo motorizado que se exploda.

Comentei com conhecidos. Vários viveram ou ouviram histórias parecidas. Um me contou que ouviu uns palavrões de uma moça, "velho broxa" etc. É o novo personagem das nossas cidades: o pedestre-dono-da-rua. Gente que se sente superior a quem está dentro de veículos. Nem olha para os lados antes de atravessar, haja faixa ou não. Os carros, motos, ônibus que estão vindo que freiem como puderem, se puderem. O trânsito que piore, os motoristas que se ferrem, os passageiros que se explodam.

Sou pedestre também. Ando mais nas cercanias da minha casa e do meu trabalho, como a maioria de nós. No meu bairro, supostamente moderninho e civilizado, Vila Madalena, é um perigo dirigir. Não tem tanta gente na rua, mas é enorme a concentração de pedestres (e ciclistas) que se julgam donos do espaço público.

As ruas em volta do R7 são em bairro popular e coalhadas de gente. Temos ali o terminal Barra Funda, de ônibus, metrô e trem; os fóruns trabalhista e criminal; faculdades; botecos, comércio popular; pedestre pra dedéu. E mil carros, ônibus, motos, tudo. Observação: a classe trabalhadora, veja só, olha antes de atravessar. Por quê?

Talvez porque essas mesmas pessoas sejam as que mais usem ônibus. Quando usam carro, são as que mais sofrem com trânsito, porque moram na periferia? Pode ser. Arrisco outra explicação.

Os americanos inventaram a teoria do excepcionalismo dos Estados Unidos. Segundo a doutrina, por natureza a América é completamente diferente dos outros países. Por isso, tem um conjunto de deveres e direitos muito diferente.

A elite brasileira é americanófila em muita coisa e também nisso. Tem plena consciência de que está acima da peãozada. Está de fato. O que vale pra rico não vale para pobre. É dificílimo punir as transgressões de nossos poderosos. Só que "a elite" não é um punhado de bilionários encastelados em fortalezas no Leblon ou na Vila Nova Conceição. Segundo o governo do Brasil, você tem renda acima de R$ 2480,00, já faz parte da "alta classe alta". A elite brasileira somos nós.

No topo da pirâmide está gente que nem caminha na rua, só em carrão blindado com motorista. Alguns agora estão ali citados na Operação Lava-Jato... fantasiemos planos diabólicos para eles. Mas na real, no dia-a-dia, me incomodam menos que essa turminha ongueira-culturets-descolex, que se acha muito cosmopolita mas é caipira até. Que está sempre falando do coletivo mas não desfoca do próprio umbigo. Vivem em São Paulo, esse monstrengo do terceiro mundo, como se estivessem em Amsterdam ou Portland.

Se você acha que atravessar a rua quando lhe dá na telha é um ato de rebelião, de afirmação de civilização, de resistência ao "apocalipse motorizado", cuidado. Um dia desses alguém lhe passa por cima, pateta.

http://r7.com/90Is

Publicado em 04/09/2014 às 16:22

Somos todos macacos – e pior, somos todos burros

1reproducao23 Somos todos macacos   e pior, somos todos burros

Racismo não é o massacre de quase 38 mil negros brasileiros a cada ano - sete entre dez pessoas assassinadas neste país são negras.

Racismo não é que os negros têm menos saneamento. Menos casa própria. Menos acesso à saúde, hospital, creche.

Nem que são menos alfabetizados, que vivem menos, que vivem pior.

Racismo não é que os negros são minoria nas universidades, nas redações, no shopping, nos restaurantes.

Ou minoria nas novelas, nos telejornais, no público que frequenta os programas de auditório.

Não estão nos palcos dos teatros, são poucos nas paradas de sucesso. Não apresentam talk shows.

Há pouquíssimos negros nas gerências e direções das empresas. E no comando da Polícia Militar, Civil, Federal.

Não há negros entre os bilionários brasileiros.

E não se vê negros nos ministérios, nas secretarias, autarquias, ou nos altos cargos judiciário.

Mas nada disso é racismo. Não é assunto pra campanha de candidato nenhum. Isso é normal. É o dia a dia. Tanto que não é manchete.

Não, racismo é quando uma moça branca grita "macaco" para um jogador negro do time adversário.

E a solução para o racismo é humilhar publicamente a moça. Se possível, botar ela na cadeia.

E tirar o time da moça do campeonato. Mesmo que nenhum de seus jogadores tenha gritado "macaco".

Isso é fazer justiça com os negros. E todos fazemos que sim com a cabeça, sim, é o correto, não podemos aceitar uma agressão  como essa. Agora que a justiça foi feita,e está tudo de volta ao normal, podemos todos dormir em paz.

Os negros não são macacos - ou  melhor, são. São tão primatas quanto brancos e amarelos. Somos bichos, movidos por instintos, impulsionados pelo medo e preguiça, pelo atavismo, pelo imediatismo. Criados em clãs, surdos para o que não queremos ouvir, cegos para o que não queremos ver. Todos criados na lama - um ou outro de olho nas estrelas.

Nosso problema não é que somos todos macacos. É que somos todos burros.

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Publicado em 22/07/2014 às 19:28

Os homens que quiserem usar saia, fiquem à vontade. Mas não com o meu dinheiro

10341853 759295600767355 6997691906874142091 n 400x600 Os homens que quiserem usar saia, fiquem à vontade. Mas não com o meu dinheiro

“Estar no mundo exercendo a sua singularidade única e inédita”. Isso é ser homem no Século 21, segundo Paulinho Moska. O músico que cantava as aventuras de uma anã paraguaia 25 anos atrás é o nome mais “famoso” envolvido na campanha “Homens, Libertem-se”. Ele e o ator Marcos Breda. Libertar do quê? Da obscuridade?

A criadora da campanha é uma mulher, a atriz Maíra Lana. Uma busca na internet revelou a moça fazendo cover de Janis Joplin e participando de programas de calouros. Os outros do grupo são igualmente célebres. Algumas figuras públicas não participam diretamente, mas apoiam a campanha: Nelson Motta, o deputado Marcelo Freixo e as escritoras Mary del Priore e Marcia Tiburi. E o cartunista Laerte, que sabe tudo de usar saia.

O objetivo declarado de Maíra é captar R$ 400 mil reais em recursos. É o valor que o grupo já tem aprovado na Lei Rouanet. Não resisto a nomear algum dos grupos que prometem fazer “uma campanha com uma enorme variedade de ações artísticas em torno do tema da opressão masculina”: A Bem Soada, Cia Córtex, Eta Aquarídea, Laboratório Madalenas, Nós Marílias, Omkara, Saia de Saia, Cãoletivo da Vagabundança...

Cada grupo, explica o site, “criará uma ação performativa que culminará numa queima simbólica de elementos simbólicos da construção social do homem (homenagem ao símbolo mais popular do movimento feminista, quando queimaram os opressivos sutiãs). Os homens ainda terão a possibilidade de trazer suas calças ao evento, trocando-as por saias estampadas com o manifesto da campanha. As calças serão doadas posteriormente a instituições que atendem pessoas carentes”.

Claro que para isso o grupo quer captar mais recursos públicos, explica Maíra Lana.  Quanto? Vamos chutar uns R$ 400 mil por cidade, quase cinco milhões de reais, tá bom? Depois vem o quê, o DVD, a turnê e a minissérie? Tendo dindin, não duvido da capacidade de criação da trupe teatral.

O site desafia a imaginação. O analfabetismo empolado parece pegadinha. Convido o leitor a uma visita, para ver com seus próprios olhos. Atiço postando aqui o vídeo da campanha. Tem clipes de Dragon Ball Z, briga em estádio e Bolsonaro defendendo surra em meninos gays.  Tem antropóloga explicando que homem tem dificuldade em “tematizar a subjetividade”, psicanalista zona sul falando molinho, e até uma explosão atômica!

A campanha repercute modestamente na imprensa. Na Folha, que tirou um sarro fino, e no Globo, que reportou tudo a sério, com direito a esta declaração de Paulinho Moska: “Eu era magrelo, usava pulseirinhas hippie e me identificava com Caetano, Gil e Bowie, que eram andróginos. Passei a ser chamado de bicha e viado de forma agressiva. Sofri até me ver livre da representação masculina clássica.”

O que os mancebos reivindicam? O manifesto lista demandas como:

- posso ser sensível
- posso broxar
- posso ser cabeleireiro, decorador, artista ou bailarino
- posso não gostar de futebol
- posso me maravilhar diante da beleza de uma flor
- posso ser frágil, ter medo, chorar e gritar
- posso falir
- nunca mais quero ouvir a frase "seja homem"
- posso usar saia
- posso fazer exame de próstata
- posso ser levado a sério sem ter que usar uma gravata
- posso trocar fraldas, dar mamadeira e ficar em casa cuidando das crianças
- quero poder ser eu mesmo, masculino, feminino, louco, são, frágil, forte, tudo e nada disso

É papo de grupinho de teatro bicho-grilo temperado com reivindicações do século 19. A exceção é "homem pode usar saia", o que já se fazia no tempo das cavernas. A novidade na história masculina é a calça, que só passou a fazer sucesso mesmo depois do zíper. Razões práticas. Homem prefere fazer xixi de pé.
Se o objetivo da turma era provocar os caretas, o arquiteto Flávio de Carvalho fez melhor em 1956, andando de saia pelas ruas de São Paulo. Maíra e seus machos de saiote estão quase 60 anos atrasados. Mas sempre é boa época para embolsar uma graninha, sabe como é.
1165028370 Os homens que quiserem usar saia, fiquem à vontade. Mas não com o meu dinheiro

Quem quiser se arriscar a passar ridículo tem sempre minha bênção e torcida. Mas sem usar nosso dinheiro.  A Lei Rouanet permite que qualquer um bem conectado emplaque seu projeto no Ministério da Cultura, e depois capte recursos de empresas para seus projetos. É  grana cujo destino justo é o tesouro nacional. Nada garante que seria bem usada, mas pelo menos o cidadão teria a chance de fiscalizar.

Direito de captar não significa dinheiro em caixa. Mas nesses casos que envolvem subcelebridades cariocas com arzinho hipster-de-havaianas, sempre aparece um diretor de marketing amigo pra pingar uma grana. Frequentemente de estatais. Os projetos mais escabrosos, tipo esse e o famoso blog da Bethania-Hermano-Andrucha, sempre nascem no Rio, quartel general de algumas das maiores empresas públicas do Brasil. Nenhuma coincidência.

Convido os criadores do “Homem Libertem-se” a se inspirarem no próprio lema. Homens (e Maíra!), que tal se libertar da dependência de verbas públicas para contestar o establishment? Se quiser usar saia, usa aí, cara. Mas tira a mão da minha grana.

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Publicado em 19/02/2014 às 10:47

Para que serve a foto de uma mulher nua, mutilada pelo câncer?


Corajosa é o adjetivo mais usado para Beth Whaanga. A australiana, mãe de quatro filhos, postou uma foto nua no Facebook. Seu corpo assusta. Carrega cicatrizes brutais, marcas de uma batalha contra o câncer.

Beth foi diagnosticada com câncer aos 32 anos. Passou por uma histerectomia e uma mastectomia dupla (a mesma cirurgia que Angelina Jolie fez voluntariamente, sem estar doente, louca varrida). Criou o projeto Under the Red Dress, por baixo do vestido vermelho, com uma fotógrafa. A foto colorida, com Beth vestida, maquiada, arrumada, contrasta com as imagens de seu corpo nu, sofridas, em preto e branco.

Perdeu alguns amigos no Facebook por ter postado as fotos. Ganhou muitos admiradores, na Austrália e mundo afora. Explica que o objetivo da foto é alertar as pessoas sobre os riscos do câncer: "aqueles entre nós que tivemos a sorte de prevenir nossa condição de evoluir temos a responsabilidade de conscientizar os outros."

Câncer continua matando a rodo, mas é cada vez mais fácil de prevenir. Qualquer iniciativa que eduque as pessoas merece aplauso. Minha avó Virgínia teve uma mama extirpada. Usava prótese tosca, um enchimento no sutiã. Se habituou rápido. Ia para a praia, maiôzão de vó, a prótese perfeitamente visível.

Não deve ter sido engraçado tirar a mama, ela tinha mais de setenta. Quando percebeu o caroço, já era tarde. Mãe de seis filhos bem crescidinhos, ela não fazia o autoexame nos seios. Explicou: nunca imaginei que velha tivesse câncer de mama! Deu sorte: morreu de outra coisa, muitos anos depois.

O que minha avó pensaria de Beth? Conhecendo vó Vivi, diria que o fato da moça publicar foto pelada não vai convencer mulher nenhuma a fazer o auto-exame diariamente. O que os quatro filhos de Beth pensam da foto? Espero que repórter nenhum pergunte. O que eu penso? Não consigo decidir.

Imagens assim não são novidade. Anos atrás o fotógrafo David Jay fez uma série com mulheres que enfrentaram cirurgias semelhantes. "The Scar Project", o Projeto Cicatriz, impressiona pela diversidade, e pelo à vontade de algumas mulheres. Algumas se escondem. Outras sorriem, aparentemente bem confortáveis em seus corpos mutilados. Bem, porque não? Tá cheio de gente por aí sem braço, perna e pior, e vivendo, trabalhando, casando.

Não faço pouco do sofrimento de Beth. Mas doença não faz ninguém santo. Ela está sendo canonizada na imprensa internacional, símbolo de bravura e de desprendimento. Quem a criticou, de preconceito e ignorância. É exagero dos dois lados.

O corpo é de Beth, naturalmente, e ela faz o que bem entender com ele. O que desconfio que ela fará, no mais curto prazo possível, é uma série de cirurgias plásticas, pra reparar o estrago do câncer. Certa ela.

Quando vejo Beth sorrindo debaixo do vestido vermelho, e melancólica expondo seu corpo, recebo sinais contraditórios. É exibicionismo? A maldita vontade de aparecer, nem que por quinze segundos? Ou é altruísmo real, solidário, militante? Mesmo que fosse um desejo por fama instantânea e nada mais - porque negar isso a Beth?

Não consigo me pôr no lugar das mulheres fotografadas por David Jay. Muito menos no de Beth. Difícil entender a gente mesmo. Impossível entender os outros.

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Publicado em 03/09/2013 às 07:40

Caetano e Capilé, da Tropicália à Mídia Ninja: nem contra, nem cultura

"O Tropicalismo pretende destruir a cafonice endossando a cafonice, pretende criticar Chacrinha participando de seus programas de auditório. A participação de um tropicalista num programa do Chacrinha obedece a todas as coordenadas do programa e não às do tropicalista – isto é, o cantor acata docilmente as regras do jogo do programa sem, em nenhum momento, modificá-las (...) O  Tropicalismo é inarticulado – justamente porque ataca as aparências e não a essência da sociedade, e, justamente porque essas aparências são efêmeras e transitórias, o Tropicalismo... apenas xinga a cor do camaleão."

Augusto Boal, 1968

O Fora do Eixo leva chumbo - na grande imprensa, nas redes sociais, de músicos, de ex-integrantes. Fogo cerrado e público. Novos depoimentos convincentes contra o FdE aparecem a cada dia. Um grupo de moças se reuniu em um manifesto contra o machismo do Fora do Eixo. Concluir que é tudo invenção de reacionários e rancorosos é tarefa para fundamentalista.

Com tudo isso, o Mídia Ninja continua recebendo elogios em veículos internacionais, como ontem o Guardian. E convite para participar de debates sobre jornalismo. E afagos de...  Caetano Veloso. O velho baiano, como se apresenta, mais uma vez aplaude o Fora do Eixo. Desta vez, cita a entrevista publicada aqui com o líder do FdE, Pablo Capilé. Que foi respondida coletivamente pelo FDE, segundo o próprio Capilé. E, não respondendo o principal, disse muito.

Capilé e Bruno Torturra, diretor de comunicação do Fora do Eixo e coordenador da Mídia Ninja, não explicam nada. Se defendem das acusações atacando os acusadores: direitistas, vendidos, amargos, ultrapassados. Silenciam sobre perguntas difíceis. Pablo faz de maneira antipática; Bruno, simpática. A tática tem longo histórico de sucesso.

Muitos críticos acreditam que o FdE vai se dissolver. Não. Fora do Eixo/Mídia Ninja sobreviverão. Não estão aí seus inspiradores, as dentaduras sugando as tetas de sempre? Basta seguir o exemplo de quem sobrevive desde os anos 60 de oportunismo e pose.

O que vai acontecer com o FdE? Patrocinadores privados, avessos a polêmicas, e ainda mais envolvendo machismo e mocinhas, reduzirão seu apoio. O dinheiro público vai continuar pingando, mas menos. O FdE estará sob escrutínio permanente, e quem der dinheiro para eles, idem. Marta Suplicy tem densidade política e capital eleitoral. Não é Gilberto Gil.

Muitos jovens que poderiam se encantar com o FdE agora podem ler os depoimentos de quem saiu. A vida nas casas Fora do Eixo não parece mais tão convidativa, para dizer o mínimo. Festivais de música continuarão a acontecer - de preferência pagando os artistas.

O Fora do Eixo sobreviverá, com importância reduzida, porque não tem integrantes, tem fiéis. Como em tantos "movimentos" culturais brasileiros, o principal financiamento vem dos cofres públicos. Seus apoiadores são acríticos. Alguns se aboletam em nichos confortáveis entre imprensa, academia e capital.

Mas não seria exagero perseguir o Fora do Eixo? O que é o FdE perto de tantos apaniguados no nosso cinema, literatura, música? E o que são essas sanguessugas das leis de incentivo perto dos Eikes Batistas de plantão?

O ponto é o que o Fora do Eixo, além de se propor como movimento cultural, também se arvora em iniciativa política transformadora - e, atenção, como a única alternativa jornalística ética e independente. Se contrapõe à imprensa tradicional, à reportagem, à pauta, à edição. Mas, se quer cobrar independência, transparência e ineditismo dos outros, comece pela  própria casa.

Independência: a Mídia Ninja não existe. É um pedacinho do Fora do Eixo. É impossível aplaudir Mídia Ninja e criticar Fora do Eixo, porque eles são a mesma coisa. Mídia Ninja é o Bruno Torturra, que é do FdE, e mais uns caras do FdE, usando equipamentos do FdE, e as bases são as casas do FdE.

O que eles fizeram de importante fora das manifestações? Nada. O que fizeram de importante nas manifestações? Transmitiram pela internet o que acontecia, em vídeo, torcendo contra a polícia. Outros fazem parecido há muitos anos (recordo uma capa da revista "Play", editada por Alexandre Matias, sobre o Centro de Mídia Independente, em 2002).

Nos protestos, outros fizeram igual, mas sem tanta repercussão, porque sem os integrantes do FdE repercutindo a cobertura no Twitter e Facebook. Outros continuarão fazendo a mesma coisa, e mais e melhor.

Transparência: Fora do Eixo / Mídia Ninja querem informar o que acontece na rua, mas são especialistas em desinformação quanto se trata de explicar suas próprias atividades. Não esclarecem o que acontece dentro das Casas FdE, não abrem as contas dos festivais, não explicam as repetidas vitórias em tantos editais, e muitíssimo menos explicam suas finanças. Na entrevista publicada aqui, Pablo Capilé, afirma que o orçamento total do FdE em 2012 foi de R$ 5 milhões. E emenda: "o recurso público representa de 3 a 7% do total do orçamento do Fora do Eixo." E depois: "nosso orçamento em 2012 foi R$ 1.7 milhão em recurso público". Bem, R$ 1,7 milhão não é nem 3% e nem 7% de R$ 5 milhões.

Capilé ainda informa que o Fora do Eixo "tem 20 CNPJs". Em português claro: suas planilhas não valem os elétrons que ocupam na internet.

A terceira coisa importante sobre Fora do Eixo/Mídia Ninja: eles não são "o novo". Muito pelo contrário: estão perfeitamente integrados à veia principal da cultura e da política brasileiras,  fundamentadas na busca de benesses e na proximidade dos cofres públicos. É filhote da Tropicália. É Contracultura a favor.

O falso rock da Tropicália inventou o adesismo antropofágico. Segundo os tropicalistas, nada é certo ou errado, tudo pode ser divino e maravilhoso. O novo, o velho, o brega, o chique, o intelectual e o ignorante. Nenhum juízo de valor é possível. O relativismo é o único  mandamento. Qualquer um pode dizer: estou fazendo uma coisa radicalmente nova, e se você não entende é radicalmente careta.

A estratégia tropicalista-de-mercado exige a apropriação de cada novidade que pintar. Nem é mais antropofagia, é glutonice. Quem nunca engoliu esses árbitros da cultura brasileira foi ostracizado - Raul Seixas é o caso mais chocante.

Não é à toa que FDE/Mídia Ninja tenham a benção de Caetano, que já pensava velho nos anos 60. Nem que tenha sido tão bem patrocinado por Gilberto Gil, quando ministro da Cultura, e por sua turma, Juca Ferreira, Cláudio Prado. Nem que o Overmundo, site colaborativo sobre cultura idealizado pelo antropólogo Hermano Vianna, e bastante financiado por dinheiro público, tenha sido doado por Vianna para o Fora do Eixo.

Vianna e um grupo à sua volta articulam a ponte conceitual entre o oportunismo estratégico da Tropicália e a fuleiragem tática do FdE/Mídia Ninja. Sua coluna no Globo, pouco lida fora do Rio, embrulha a ação-entre-amigos habitual em citações dos pensadores da moda, misturando Ballard, Rucker e Philip K. Dick com Gilberto Freyre, Ronaldo Lemos e principalmente, inevitavelmente, interminavelmente Caetano.

Hermano assina em série curadorias de grandes eventos corporativos. É colaborador frequente de Gil e Caetano. Lembra da milionária proposta de blog de Maria Bethania? Era ele o idealizador, e quase emplacou, mesmo sob a gestão de Ana de Hollanda no Ministério da Cultura. Hermano também é muito próximo de Regina Casé. Foi chefe de Bruno Torturra, recentemente, no programa "Esquenta", que dispensa críticas.

Pauta um influente grupelho de militantes da cultura hacker-patrocinada, alternativa-estatal.  É uma gente que produz pouco, fala muito e atrapalha demais.

E se tem alguma posição, é sempre a favor, mas de maneira dissimulada, pernóstica, sempre fugindo do embate. É uma geléia desprovida de ideias e espinha, que não tem objetivo fora causar e faturar. Em entrevista à revista Trip, Vianna resume: "Virtude é ocupar os dois extremos ao mesmo tempo. Por isso fico no Software Livre e na Rede Globo... quando você escolhe uma posição, apaga uma parte da complexidade da vida. Você tem que ser infiel às idéias em que acredita."

Entendeu? Entendemos. Caetano e Capilé se irmanam em espírito, mitomania e logorreia. Cada profeta tem os seguidores que merece.

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Publicado em 23/08/2013 às 09:12

Por que os gays me xingam de bicha?


"Quem é esse Forastieri na night, no terreiro de macumba?"

"Quem é você na uruguaiana, bixa nojenta?"

"Desejo tudo de positivo pra você, inclusive seu teste de HIV, ser humano depressível..."

Esse foi o tom geral dos comentários dos fãs de Lady Gaga sobre meu texto de uns dias atrás, no Twitter e Facebook.

Dos fãs, e não das, porque a maioria esmagadora é homem. Homem e gay, pelo tom e linguajar.

Tirando um ou outro xingamento ("exu mal despachado", "blogueiro inválido"), a maioria dos gays me xingaram de... bicha.

É engraçado. Se eu escrever que alguém é bicha, viado etc., vai aparecer uma renca de patrulheiros me acusando de preconceito.

Eu escrevi um textinho sobre Lady Gaga. Nem comentei nada sobre sexo, sobre ela cortejar os fãs homossexuais à la Madonna, Cher etc., e como isso é um evidente artifício de marketing, e como funciona pra enganar trouxa. Nem entrou no papo. E as fanzocas vieram pra cima (epa!) me chamando de:

- Flopada.

- Viado escroto

- Bicha velha

- Passiva nojenta

- Bicha invejosa

- Arrombado

- Bixa nojenta

- Passiva

- Pega seu recalque e enfia

- Viado molestado

- Essa maricona vive nas saunas GLS de SP atrás de um michê

- Viadinho pão com ovo

- Derrotada

- É falta de dar?

E daí pra mais baixo. Alguém pode me explicar por que tantos gays, quando querem ofender um heterossexual, dizem que ele é gay, bicha e tal? Não funcionou, claro. Não me ofendo com as opiniões dos outros sobre mim, a não ser que seja alguém que eu respeito muito. Muito menos com xingamentos assim, de fã acrítico e histérico. Tenho muitos preconceitos, mas não relacionados a comportamento sexual.  Cada um faz o que quiser com seu corpo e sua vida, e lida com as consequências.

É parte do jogo de ter um blog: quem diz o que quer, eu, sempre, ouve o que não quer, às vezes. Confesso que não esperava essa reação, e que foi surpreendente pelo preconceito embutido. Mas deu pra rir.  Se você não se importa de ver um monte de palavrão e grosseria, dá uma olhada no meu Facebook, pra ver os cartões postais que eu recebi dos fãs de Lady Gaga. Humor gay, quando dá de ser grosso, é coisa fina...

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Publicado em 09/08/2013 às 10:09

Algumas perguntas para Pablo Capilé, o Fora do Eixo e a Mídia Ninja

A semana foi uma montanha-russa para a rede Fora do Eixo, e um de seus braços midiáticos, a Mídia Ninja. Pablo Capilé, gestor do Fora do Eixo, e Bruno Torturra, coordenador de comunicação do FDE, e face da Mídia Ninja, começaram dando baile em baluartes da imprensa no programa Roda Viva, na segunda (5). E chegaram à quinta sob ataque cerrado, enfrentando denúncias, e principalmente depoimentos impactantes de ex-integrantes do Fora do Eixo.

Eu já tinha publicado uma entrevista com Bruno. Na terça (9), comentei o Roda Viva. Na quarta (10), convidei Pablo para uma entrevista aqui no blog, e ele aceitou. Na quinta, enviei as perguntas abaixo. No mesmo dia, Capilé as publicou em seu perfil no Facebook.

Eu não pretendia publicar as perguntas sem resposta. Mas já que ele tomou a iniciativa, e disse que vai respondê-las nos próximos dias, deixo aqui registradas também.

O "algumas" do título é brincadeira. São um monte. E muitas outras não incluí. O Fora do Eixo é complexo. Não foi nenhum grande esforço de reportagem. Minha pesquisa levou algumas horas, três telefonemas, e
tive a sorte de contar com algumas fontes muito bem informadas.

O mais estranho não é que eu tenha elaborado tantas perguntas. O mais estranho é que eu, que tenho um simples blog, e outro emprego, tenha feito isso tão fácil e tão rápido. E a imprensa - tradicional ou independente - jamais tenha se dado ao trabalho.

Abaixo, a íntegra do email que mandei para Pablo Capilé e Bruno Torturra.

Oi Pablo,

aí está. Um questionário e tanto!
E olha que ainda cortei muitas perguntas.
Como você sabe, o Fora do Eixo tem muitos críticos.
E todo mundo resolveu me procurar, quando anunciei que preparava uma entrevista contigo...
Dei uma boa peneirada. Mesmo assim sobrou um tanto de perguntas provocativas.
E outras que são bem pragmáticas mesmo.
As regras são as mesmas da entrevista que fiz com o Bruno Torturra: as suas respostas serão publicadas na íntegra e nesta mesma ordem. Só editarei se for realmente necessário, e somente por questões de espaço e de padronização de texto do R7.
Confirma se recebeu, OK?
Obrigado, abraço

capile  Algumas perguntas para Pablo Capilé, o Fora do Eixo e a Mídia Ninja

André

título: Uma entrevista com Pablo Capilé, gestor do Fora do Eixo

Quantas organizações compõem a rede Fora do Eixo?

O que elas são - empresas, ONGs Oscips?

Quantos CNPJs?

Cada uma tem autonomia para captar recursos e participar de editais independentemente, ou há uma coordenação nacional?

Existe um caixa único?

O que é o Banco Fora do Eixo?

Existe uma prestação de contas unificada, ou cada organização presta contas separadamente?

Qual é o total de recursos que a rede Fora do Eixo recebeu em 2012?

Quanto destes recursos veio de editais, quando de patrocínios e apoios, quanto de festivais, e quanto de outras fontes?

Quanto veio de recursos públicos, seja via editais, patrocínios, publicidade ou qualquer outra modalidade de apoio?

O Fora do Eixo defende a transparência e afirma que suas contas e planilhas estão à disposição de quem quiser. Onde estão disponíveis planilhas que dêem conta de todas as movimentações do FDE?

A área de "empreendimentos" do site do FDE está em manutenção pelo menos desde fevereiro passado. Por quê?

Esta planilha de prestação de contas é difícil de analisar. Às vezes os valores aparecem em número, às vezes por extenso, o que dificulta a soma direta. Por quê?

A cada ano, nesta planilha, há projetos que não incluem resultados. A gente sabe que às vezes fica para outro ano. De todos os projetos apresentados pelo FdE, qual a proporção que é aprovada e qual a proporção rejeitada?

O FDE já afirmou que 7% do total de seu orçamento vem de dinheiro público. No Roda Viva, você falou em 5%. Isso indica que o FDE tem um orçamento consolidado. Tem ou não tem? Se tem, você pode divulgar?

E onde estão as informações sobre os investimentos de empresas privadas e receitas de outras atividades, que somam esses 95%? Esta planilha divulgada pelo FDE não contém valores nesse montante.

O que é a Universidade Fora do Eixo?

Quantos estudantes e quantos professores estão na Universidade Fora do Eixo?

Os estudantes pagam? Quanto?

O site da Universidade Fora do Eixo lista dezenas de docentes. Eles recebem? Quanto?

Alguém já se formou nessa Universidade?

Qual é o orçamento da Universidade FDE, e quem gere este orçamento?

No site da Universidade Fora do Eixo, há um crédito: "Realização: Ministério da Cultura, Petrobras, Fora do Eixo", com os logotipos. Qual a participação, e o investimento financeiro, do Ministerio da Cultura e da Petrobras na Universidade Fora do Eixo?

A Petrobras vem sendo um grande apoiador das iniciativas do Fora do Eixo. O FDE já indicou alguém para participar das instâncias que decidem os patrocínios da Petrobras?

O Fora do Eixo já apoiou candidatos a cargos públicos? Quem?

O Fora do Eixo já indicou alguém para participar de governos? Quem?

Embora o FDE tenha entrado de cabeça no movimento Existe Amor em SP, contra Russomano e pró-Haddad, a secretaria de cultura de São Paulo está com Juca Ferreira, e com o chefe de gabinete Rodrigo Savazoni. Savazoni é da Casa de Cultura Digital e independente do Fora do Eixo. Você acha que o FDE mereceria mais espaço na gestão Haddad?

Quantas pessoas trabalham em período integral na rede Fora do Eixo?

É obrigatório para quem trabalha em período integral no FDE morar nas Casas Fora do Eixo?

Qual é a faixa etária dessas pessoas?

Três pessoas diferentes me disseram que os integrantes do Fora do Eixo são pressionados a se relacionar amorosamente somente com outros integrantes do FDE. Quem quiser namorar com alguém de fora é convidado a sair do FDE. É verdade ou mentira?

Há relatos de que uma criança mora em uma Casa Fora do Eixo, apelidada "Bebê 2.0". Seria filho de dois militantes do FDE, mas seria criada coletivamente, por vários "pais" e "mães". O pai e mãe biológicos não teriam poder paterno sobre a criança. É verdade?

O Fora do Eixo criou diversas moedas virtuais: Cubo Card, Goma Card, Marcianos, Lumoeda, Palafita Card e Patativa. Como elas são utilizadas?

Por quê criar diversas moedas, e não uma só?

Essas moedas virtuais podem ser trocadas por reais? Se sim, qual o câmbio? Se não, por quê não?

Quem trabalha para o Fora do Eixo recebe em moedas virtuais. Se sair do FDE, o que vai fazer com suas moedas virtuais?

No site da Casa Fora do Eixo, há, em destaque, um logotipo da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Qual o valor do apoio da Secretaria à Casa Fora do Eixo?

O Estado de São Paulo é governado pelo PSDB. O Fora do Eixo aceita apoio de governos de qualquer partido?

O governador Geraldo Alckmin foi o principal alvo das manifestações em São Paulo. Você vê alguma contradição em receber apoio de um governo e militar contra ele?

A homepage do Portal Fora do Eixo traz três patrocínios federais: Ministério da Cultura, programa Cultura Viva e Programa Mais Cultura. Isso não provoca no leitor uma ideia imediata de vinculação entre o FDE e o governo federal?

O que é o Partido da Cultura? É ligado ao Fora do Eixo?

No site do Partido da Cultura, o último post é de janeiro de 2012. No twitter, de março de 2012. Ele está ativo? Pretende se constituir como partido regular e disputar eleições?

O FDE vem se aproximando de Marina Silva e seu projeto de partido, a Rede, inclusive colaborando na campanha de assinaturas. Há alguém indicado pelo FDE na executiva da Rede?

Se Marina Silva vencer a eleição para presidente, o FDE pretende indicar o ministro da cultura?

O Fora do Eixo costumava proclamar a política do "pós-rancor". O termo "pós-rancor" é criação de Claudio Prado, chefe do programas de cultura digital do Ministério da Cultura na época de Gilberto Gil e Juca Ferreira. Segundo a teoria do pós-rancor, as tensões entre capital e trabalho estão superadas, o conflito agora é entre quem tem informações e quem não tem. Cláudio Prazo é muito próximo do FDE, tem até programa na Pós TV. Mas nas manifestações de rua, o que não falta é rancor e polarização, ainda mais nos últimos protestos. O "pós-rancor" morreu?

Uma fonte me disse que o Fora do Eixo costuma apoiar determinados candidatos em eleições municipais e estaduais, com os militantes trabalhando diretamente nas campanhas. Se o candidato vence, o Fora do Eixo indica gente para a secretaria de cultura, geralmente pessoas que não são do FDE, mas próximas. Seriam mais de dez secretários da cultura no Brasil. É verdade?

A Mídia Ninja, como a Pós-TV, é do Fora do Eixo. O FDE recebe verbas de grandes corporações, como Vale e Petrobras. O Fora do Eixo financia a Mídia Ninja, que critica o grande capital, e principalmente a grande mídia. Afinal, FDE e a Mídia Ninja são contra o grande capital ou a favor?

Diversos apoiadores do FDE trabalham ou trabalharam na grande imprensa. A principal figura da Mídia Ninja, Bruno Torturra, trabalhou anos na Editora Trip, chegando a diretor de Redação. Contratou, demitiu, controlou orçamentos. Além da Trip, a editora faz revistas pra grandes corporações, como Gol, Pão de Açúcar e Audi. Seu emprego mais recente foi na TV Globo, como redator do programa Esquenta, com Hermano Vianna e Regina Casé. Você vê alguma contradição nisso?

Você acha que quem participa dos protestos tem consciência de que a Mídia Ninja e o FDE recebem apoio financeiro de grandes empresas, e governos de diversos partidos?

O Fora do Eixo costumava ser muito ativo nas redes sociais. Mas no auge das manifestações em S. Paulo, você abandonou o Twitter. Entre 11 e 18 de junho, não publicou nada, sendo que a manifestação em que a repórter da Folha foi ferida no olho aconteceu no dia 13. Coincidentemente, o twitter do Fora do Eixo tb não publicou nada entre 13 e 22 de junho. Vc só voltou ao twitter pra divulgar as transmissões da Mídia Ninja e pra anunciar que o prefeito Haddad ia baixar as tarifas. Por quê?

No começo deste ano, o Fora do Eixo publicou na internet o glossário do FDE: termos que devem ser conhecidos e usados por todos os militantes. Outros coletivos fizeram críticas, o FdE tirou o texto do ar, depois republicou, mas com alterações. A principal: eliminou o verbete "choque pesadelo". O verbete era assim:  "Choque pesadelo: Embate conveniente direcionado a alguém que vem conflitando ideias através de críticas não propositivas que desestimulem uma pessoa, ou grupo. O choque pesadelo serve como uma fala direcionada que busca esclarecer situações através do "papo reto". Ex. Tivemos uma conversa franca que serviu como choque pesadelo para ele. Ler também "papo reto". Pode explicar?

Muitos críticos do FDE dizem que o Fora do Eixo é uma seita, com regras rígidas para todas as ocasiões. O fato de existir um glossário tão detalhado não dá razão aos que criticam o FDE por ser uma espécie de seita?

O que é "catar e cooptar?"

Embora o FDE se apresente como uma rede, ex-integrantes do FDE dizem que a estrutura é totalmente verticalizada, e que você é como um guru na organização - jamais é questionado por ninguém. Quais outros integrantes do FDE têm influência próxima à sua?

Muitos coletivos de esquerda e movimentos populares não se dão com o Fora do Eixo. É o caso do Movimento Passe Livre, do MST, Movimento Hip Hop, Ocupa São Paulo e vários outros. A que você atribui essa rejeição?

Um conhecido jornalista de esquerda, José Arbex, escreveu um texto com críticas pesadas ao Fora do Eixo, em 2011, na revista Caros Amigos: "Lulismo Fora do Eixo". Ele conta que durante a preparação da Marcha pela Liberdade, em maio de 2011, você mencionou a possibilidade de a Coca-Cola patrocinar a marcha, e que a Coca nem fazia questão de sua  marca aparecer --era só pra ficar bem com os movimetos progressistas. Outros coletivos rejeitaram o patrocínio. Várias pessoas contaram a mesma versão dessa história. Isso é verdade? Se não é, exatamente o que você disse nessa reunião? Se isso não é verdade, o que foi que você disse nessa reunião?

O coletivo de esquerda chamado Passa Palavra se destaca nas críticas ao Fora do Eixo. Em um texto muito alentado, de 2011, eles afirmam que: a) o Fora do Eixo tem 57 CNPJs diferentes; b) o FDE é uma máquina de ganhar editais, que floresceu nas gestões de Gilberto Gil e Juca Ferreira no MinC, por meio do programa Cultura Viva, dirigido pro Claudio Prado. Segundo o Passa Palavra, o FDE participava da elaboração de editais da área digital do Minc, editais esses que eram vencidos pelo próprio FDE. Como você responde a essas acusações?

O Fora do Eixo começou em Cuiabá, com o Festival Calango. Esse festival não existe mais, apesar do crescimento do FDE. Por quê?

Você já disse defendeu várias vezes de que os artistas que tocam em festivais não deveriam receber cachês. Por quê?

Se os artistas não ganham para tocar, não ganham para divulgar música na internet, e o mercado de discos está em baixa, do que os artistas devem viver?

O FDE agencia shows? De que artistas? Como o FDE é remunerado por agenciar shows?

Os festivais independentes de rock brasileiros eram reunidos, desde 2005, numa entidade chamada Abrafin. Qual a relação atual entre a Abrafin e o Fora do Eixo?

Em 2011, treze festivais independentes, incluindo alguns dos mais importantes do Brasil, como o Goiânia Noise e o Abril Pro Rock (de Recife), abandonaram a Abrafin. Alegaram que o FDE tentava impor um paradigma único a todos os festivais. E que os festivais se viam obrigados a chamar sempre os mesmo artistas ligado ao FdE. O que aconteceu de fato na Abrafin?

Você tem a informação de que festivais que abandonaram a Abrafin passaram a receber menos patrocínios? A que atribui isso?

Vários artistas - o cantor China, o Daniel Peixoto (do Montage) e o Márvio dos Anjos (do Cabaret), entre muitos outros - relatam que os festivais do Fora do Eixo têm como características a infraestrutura muito simples e o não-pagamento de cachê, exceto em casos muito excepcionais. Se a infraestrutura é básica, não tem cachê, e os festivais são feitos com dinheiro de editais, para onde vai o dinheiro que sobra? Ou não sobra?

A cineasta Beatriz Seigner divulgou ontem um longo depoimento no Facebook. Cita um jantar na casa da diretora de marketing da Vale, onde ela e você estavam. Segundo o texto dela, você disse que "era contra pagar cachês aos artistas, pois se pagasse valorizaria a atividade dos mesmos e incentivaria a pessoa ‘lá na ponta’ da rede, como eles dizem, a serem artistas e não ‘DUTO’ como ele precisava. Eu perguntei o que ele queria dizer com “duto”, ele falou sem a menor cerimônia: “duto, os canos por onde passam o esgoto”. Esse diálogo aconteceu?

Beatriz também diz que seu filme Bollywood Dream - O Sonho Bollywoodiano foi exibido em sessões que contavam com patrocinadores, mas que o dinheiro ficou sempre com o Fora do Eixo; ela não recebeu nada pela exibição durante os festivais Grito do Rock, e só conseguiu receber o dinheiro do SESC depois de muito insistir com o FDE. Isso é verdade?

Diz que lhe foi pedido que seu filme tivesse o crédito "Realização Fora do Eixo", embora o filme não tenha sido produzido pelo FDE. Isso é uma prática comum? Você considera isso um pedido normal?

Todo o depoimento de Beatriz é muito crítico ao FDE e a você pessoalmente. Como você responde a ele?

"Fora do Eixo" é marca registrada. O registro no INPI é da Globo Comunicação e Participações. Pode explicar? Aqui está o registro:

NCL(8) 3582861623009/08/2006FORA DO EIXORegistroGLOBO COMUNICAÇÃO E PARTICIPAÇÕES S.A.NCL(8) 41

O Fora do Eixo vem recebendo mais e mais críticas. Agora, também de ex-integrantes do FDE. Alguns preparam publicações de novos depoimentos contra o FDE. Certamente, a imprensa vai investigar ainda mais.

Com tanta publicidade negativa, dificilmente o FDE continuará recebendo apoios e patrocínios na mesma escala - afinal, empresas não querem risco na hora de escolher quem patrocinam. E necessariamente todas as contas do FDE serão examinadas com cada vez mais rigor. O Fora do Eixo - e portanto Mídia Ninja, Abrafin, Pós TV, Casas FDE, Universidade FDE etc. - está em risco de desmoronar de repente?

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Publicado em 03/05/2013 às 16:33

Contra Lobão, Contra Mano Brown

lobao 1 Contra Lobão, Contra Mano Brown

Lobão falou um monte sobre Dilma para promover seu novo livro. Defendeu a ditadura militar. Atacou a Comissão da Verdade. Comparou seus dias de cana por drogas com a tortura de guerrilheiros. Isso tudo que ele disse não é de direita nem de esquerda. É propaganda para seu novo livro. Propaganda não tem posição política. É neutra como um fuzil.

Você não precisa ser conservador para criticar o governo de Dilma Rousseff. Nem todo mundo que critica seu governo é reacionário. Parece dispensável botar isso em palavras. Não é. Lobão não é conservador. É inteligente, e como outros assim, contraditório. Sempre soube fazer barulho em causa própria e se posicionar como o rebelde independente contra os gigantes da opressão. Sempre foi um franco-atirador.

Entrevistei Lobão em 1989. Explicava a ausência da bateria de escola de samba em seu show dizendo que o promotor de shows, Manoel Poladian, era racista. Botei na matéria. Poladian processou. Lá fui eu com meu bloquinho de anotações e o advogado da Folha, explicar que jornalista não cria declaração, jornalista publica. O juiz me tirou do processo. Lobão nem apareceu.

Desta vez elegeu alvos retumbantes. Dilma e o PT, a cultura que sobrevive de dinheiro público, o rap militante de Racionais MCs, Criolo e Emicida, e por aí vai.  Todos são alvos perfeitamente razoáveis. Alguns tiros de Lobão são exagerados no limite da alucinação. Alguns sim, outros não. Criticar Gilberto Gil por ter sido um ministro da Cultura que gestou em causa própria e dos amigos não é exagero, é obrigação.

Mano Brown, dos Racionais, retrucou forte. Disse que Lobão se comportou como puta para vender seu livro. E desafiou Lobão pra resolver isso na porrada. Mano Brown manja de marketing tanto quanto Lobão, uma das principais razões do impacto e permanência dos Racionais. Estava sendo Mano Brown quando chamou Lobão pro pau. É o que seus fãs esperam dele.

Existem muitas razões para criticar o governo - qualquer governo. Não são as que mais circulam por aí. Muita gente (e inclusive muita gente esperta), quando vai criticar o governo federal, meio que automaticamente desliza para clichês caretas e truculentos. E outra tanta gente (e inclusive muita gente esperta), quando vai criticar governos mais conservadores e grande imprensa, apela para cacoetes politicamente corretos, autovitimizantes, tolinhos.

Tenho implicância com governo, qualquer governo. Mas resumir toda nossa possibilidade de crítica em preto-ou-branco é pobreza mental. E ainda pior é limitar nosso arsenal de críticas só a nossos representantes eleitos, sem incluir empresas e empresários, cardeais da cultura, imprensa, ONGs etc.

Alguns tiros de Lobão talvez tenham sido no pé? As vendas do novo livro dirão. Você, minha amiga, não precisa escolher entre quem fala muita besteira e quem fala alguma besteira. Porque é pra lá de desperdício - é antiético. Não se renda à tentação de optar por Lobão ou Mano Brown. Lobão disse o que quis, e o que vai adiantar o lado de Lobão. Mano Brown disse o que quis (e só disse, não bateu em ninguém), e sempre o que vai adiantar o lado dos Racionais.

Não digo que você não deva ter posição. Mas debater quem faz o melhor marketing, defender posição sobre factóides publicitários, é jogar preciosos neurônios e minutos fora. Só existe uma posição possível sobre quem fala besteira, maior ou menor: contra.

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Publicado em 23/04/2013 às 13:35

Boston, uma semana depois: não é o fim nem o começo

Tsarnaev brothers 010 Boston, uma semana depois: não é o fim nem o começo

O ataque à maratona de Boston vai chegando ao seu epílogo. Dominou - exageradamente - as atenções do mundo, durante uma semana. Agora um dos responsáveis está morto, outro ferido e preso. Restam os detalhes dos porquês. Como nenhum porquê é suficiente para explicar tamanha maldade, o assunto vai sumindo do noticiário. Fim.

Ou não? Talvez seja o começo de algo novo e diferente. Talvez não hajam mais começos e fins. Os posfácios têm sido os momentos mais iluminadores da história. Durante uma semana, Boston rendeu entretenimento minuto a minuto, caçada aos assassinos de inocentes, a população em fuga, soldados nas ruas da metrópole - Hollywood perde. Agora chegou a hora de discutir o que o filme significa.

Foi exagero. A televisão americana exibia incríveis modelos 3D em computação gráfica dos bairros de Boston, e onde o fugitivo poderia estar. Mas talvez estivesse mais pra lá. Ou acolá. E talvez estivesse armado, e talvez não. E talvez fosse muçulmano, ou não. Na falta do que dizer, e na obrigação de continuar dizendo qualquer coisa, vieram chutes e barbeiragens veio aos borbotões. A internet reciclou tudo, e abriu as comportas para maremoto ainda maior de besteirol.

No minuto que eu soube do ataque, profetizei no Twitter: aposto dez dólares que é obra de um americano psicopata. O FBI concorda. Um diretor declarou anteontem que o ataque de Boston teve mais a ver com as ações alucinadas, como a de Columbine, do que com um ato político. Está mais para dois garotos americanos revoltados com os colegas, do que com dez milhões de garotos do mundo islâmico revoltados com a América.

Tamerlan Tsarnaev

Mas o que importa o que diz o FBI? A agência está sendo questionada de todos os lados. Por que não previu o ataque? Por que não prendeu os irmãos antes? E será que é isso mesmo que aconteceu, ou será que o FBI está acobertando outras razões para o ataque, e outros culpados?

Disse o que tinha a dizer logo no início, e depois mantive a máxima distância possível da história. O mal contamina, a burrice contagia. Se manter informado sobre o que te importa é prazer, sobre o que deve te importar é obrigação. Mergulhar na cascata de desinformação é masoquismo, catucar a feridinha pra ver se infecciona.

Hoje interneto à procura de uma compreensão maior do ataque. Chafurdo em lagoas de análise e palpitol. A história de Boston não domina mais as homepages, mas rende em dobro nas colunas de opinião e nas redes sociais, como o Aleph da lenda, infinitas histórias convergindo no mesmo buraco negro. Alguns reflexos:

- Amanda Palmer, cantora e compositora, escreveu um poema assumindo o ponto de vista do irmão que sobreviveu.  Amanda se propõe provocadora e perigosa. É o que era no início da carreira: cabaré, agora mais famosa, porque casada com o astro da fantasia e quadrinhos, Neil Gaiman. A Poem for Dzhokhar revolta os americanos, com exceções no campo ultraliberal.

Há quem peça a cabeça de Amanda, por escrever coisas como "você não sabe mais em que acreditar... você não sabe ajustar o espelho retrovisor." Ela aproveita o barulho e publica outro texto em seu blog, agora explicando como criou o poema. Queria escandalizar. Conseguiu.

David Sirotta causou logo no início do caso, escrevendo um artigo cujo título era "Espero que o assassino de Boston seja branco." Seu argumento é: se forem árabes, isso seria mais um degrau na escalada de incompreensão e violência entre muçulmanos e cristãos e judeus, e argumento para leis de imigração mais duras nos EUA. David diz: se o culpado for ítalo-americano, não bombardearemos Roma...

Sirotta deve ter imaginado que ia ouvir bastante por seu texto. Não podia esperar que ia levar dura apesar de estar certo. Assim que os culpados foram identificados, foram pintados como estrangeiros, não-americanos, não brancos. Mas nos Estados Unidos, imigrantes de origem russa, chechênia, cazaque são considerados brancos pelo governo federal. Os irmãos eram americanos, se vestiam como americanos, viviam como americanos. E eram mais que brancos que eu - eram literalmente caucasianos.

- Há quem garanta que os irmãos não têm nada a ver com o peixe. Seria tudo uma grande conspiração. Os culpados seriam outra dupla, e aliás ligados a uma empresa de segurança muito suspeita. Viagem de doidão? O autor da acusação montou uma peça bem convincente. Alguns compraram. Os vídeos têm milhões de visualizações no YouTube. Decida por você mesmo se é balela, ou suficiente para te colocar uma pulga atrás da orelha. Veja mais aqui.

Ou se preferir, em vídeo:

Boston Marathon Bombing is Staged Terror Attack por perolasblogs no Videolog.tv.

- Por um dia ou dois, a imprensa bateu na tecla dos videogames, como previsto no roteiro: "Há relatos de que Dzhokhar costumava jogar games violentos". O melhor cala-boca veio no Twitter: "é a mesma coisa que dizer que ele era um cara de 19 anos e morava no planeta Terra em 2013".

- Quando as explicações se dividem entre uma teoria conspiratória toda complicada, ou a simples incompetência e lambança, a segunda é sempre mais provável. A mídia americana ajudou a encobertar os verdadeiros culpados? Ou simplesmente enfiou os pés pelas mãos, desesperada por audiência e relevância, mais espectadores, mais cliques? Aposte no óbvio. O Huffington Post até criou um vídeo com os momentos mais constrangedores da cobertura de Boston.

- Os Tsarnaev pelo jeito eram mesmo radicais islâmicos. Muita gente politicamente correta demais diz que é injustiça caracterizá-los assim. Mas Tamerlan, o mais velho, vem sendo descrito por membros da própria comunidade muçulmana de Boston como radical e agressivo, e pela própria família como irascível e truculento. Quer apostar que tinha grande influência sobre o irmão adolescente e o levou no embrulho? Leia aqui.

Sou obrigado a discordar do FBI e da minha primeira impressão. Não é Columbine. Os irmãos não mataram só para causar o caos. Tem uma causa em algum lugar aí. Mas eles não se martirizaram, como os do 9/11, ou os homens-bomba da Intifada. É algo novo e diferente.

- O escritor Douglas Rushkoff honrou seu papel de teórico da mídia. Também viu novidade e diferença, mas de outro gênero. No calor dos acontecimentos, foi crítico, sem abrir mão de ser compassivo. Traduzo alguns destaques de sua coluna na CNN.com, com o título "Terror em Tempo Real":

"Não é uma questão de como reagir a uma crise, ameaça ou tragédia em particular, mas de como lidarmos com o próprio fluxo persistente de urgência... interruptiva ou crônica, a ansiedade continua vindo e vindo... vivemos em um Estado de Choque Presente".

"Nenhuma das narrativas usuais se aplicam. Não vivemos mais em um mundo com começos, meios e fins. Esta estrutura obsoleta foi para o lixo com a Era Industrial... Não planejamos mais nossas carreiras, não investimos mais no futuro. Nós ocupamos, frilamos, negociamos derivativos. Tudo acontece no Agora. Mesmo o Terror."

"Não enfrentaremos mais inimigos no sentido normal. Não podemos começar uma guerra ao terror e declarar vitória quando acabarmos... os desafios da sociedade pós-industrial é menos conquistar e mais administrar preocupações permanentes. O óleo está derramando, o clima está mudando, terroristas estão planejando. Crises não são solucionadas para o futuro, são gerenciadas no presente."

"Só nos libertando das narrativas antiquadas em que nos apoiamos, podemos começar a reconhecer os padrões no aparente caos. Podemos não encontrar respostas que nos mobilizem, nem finais dramáticos e satisfatórios. Mas também não precisaremos inventar histórias emocionantes e falsas para nos motivar a agir."

"Em um mundo em que as crises são constantes e perpétuas, é melhor começar a desenvolver abordagens mais sustentáveis para solucionar os problemas em tempo real, do que pensar em resolvê-los definitivamente. A vida continua."

É.

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Publicado em 13/03/2013 às 14:45

As duas únicas coisas que faltam para resolver de vez o trânsito em São Paulo


Andar de bicicleta nas ruas de São Paulo é muito perigoso. Quem defende bicicleta como meio de transporte viável para a cidade estimula as pessoas a se arriscarem loucamente. Parece evidente. Aproveitei o gancho do pobre ciclista que foi atropelado e perdeu um braço. Fui pra cima, naquele estilo salto-no-vácuo-com-joelhada. O objetivo era mesmo causar impacto e gerar debate, que o tema merece. O título já dava o tom: Os motoristas têm mais direitos que os ciclistas.

Como sempre em temas polêmicos, a maior parte do barulho foi estática. Muitos entenderam, concordando ou não. Dois amigos entraram forte na discussão trânsito e direitos. Marcelo Soares ponderou a favor de linha dura, marronzinhos camuflados, e gradualismo. Alex Antunes só faltou defender o linchamento de todos os motorizados. Como eu disse para Alex: pra quem labuta todo dia, um carro é a diferença entre quatro horas de transporte público sofrendo de pé ou duas horas de comparativos conforto e paz. Ouvindo uma musiquinha, checando celular. Se você não vê a vantagem, precisa de oculista. O que é a primeira coisa que um paulistano faz assim que consegue um dinheirinho? Compra um carro.

O impressionante é como tem gente com problemas sérios de interpretação de texto por aí. Houve até quem entendesse que eu aplaudo que as coisas sejam como são, e defenda que elas assim permaneçam. Mas o pior é gente que não entende porque não quer entender, e muito menos debater. Quer, em uma palavra, aparecer. O objetivo é gritar bem alto: sou excepcional, moderno, do bem, contra a caretice, pró-ativo, e outros chavões. O único argumento deles é desqualificar o interlocutor.

A sub-inteligentsia politicamente correta paulistana é a coisa mais invertebrada e entediante do planeta. E sua característica mais vomitante é a certeza de que suas iniciativas e posições pessoais fazem toda a diferença. Não fazem diferença nenhuma. Se cada um fizer sua parte, e governos e empresas não fizerem as deles, ficamos exatamente no mesmo lugar. É o mesmo de sempre: socializam os problemas e privatizam as soluções.

O único plano que faz sentido para São Paulo ter menos trânsito é a cidade ter menos carros. Surpresa! Simples assim. Tem que estabelecer o objetivo e dizer: daqui dez anos SP vai ter metade do número de carros e um quarto do número de motos que tem hoje. E aí alinhar todos os esforços nessa direção. O resto é enxugar gelo.

O que falta para isso? Só duas coisas. Primeiro, vontade e visão políticas - pensar grande e a longo prazo, e focar no que é fundamental. Segundo, a quantidade certa de dinheiro. Só vontade é voluntarismo. Só jogar dinheiro no problema é jogar dinheiro fora.

Vamos usar nossa referência habitual, quando se trata de São Paulo? O departamento de transportes de Nova York tem orçamento anual de cinco bilhões de reais, e 4500 funcionários. A grana vem dos cofres da cidade, um tanto do estado e do governo federal, e um pouco de patrocínios da iniciativa privada. Considerando que são oito milhões de novaiorquinos e mais de onze milhões de paulistanos, um orçamento anual de dez bilhões de reais para a cidade de São Paulo é o mínimo.

Em 2013 o orçamento da Secretaria de Transportes Metropolitanos de São Paulo é de R$ 7,2 bilhões, 9% maior do que o de 2012. Está sob responsabilidade do petista Jilmar Tatto. Não é suficiente. Ainda mais se considerarmos que São Paulo é bem mais detonada que Nova York. E é obrigatório pensar em termos de Grande São Paulo - é tudo a mesma massa urbana. Somos quase vinte milhões de pessoas. Pra dar um jeito nos transportes da sexta maior área metropolitana do planeta, vou chutar aqui que precisamos de um orçamento total de... vinte bilhões de reais por ano, no mínimo. É muito dinheiro? Eike Batista pegou dez bilhões de reais de grana pública em empréstimos amigos nos últimos anos. É questão de prioridade.

Voltemos à Nova York, sempre uma boa idéia.  A secretária de transportes da cidade, Jenette Sadik-Khan, causa polêmica, pisando em calos diversos e rodando de bike pela cidade. Instalou 400 quilômetros de faixas para bicicletas. Fez muitos calçadões e calçadões temporários (só no final de semana, ou só no verão). Bancou um sistema de ônibus expressos, em que o usuário compra o ticket antes de entrar, mais ou menos no modelo de Curitiba. Instalou um sistema de compartilhamento gratuito de bicicletas. Botou um monte de bancos bem confortáveis nas ruas, para estimular as pessoas a caminhar mais, dando a elas um lugar para descansar. Está trocando a sinalização da cidade inteira, e incluindo mapas para pedestres. Também desviou tráfego pesado das zonas residenciais e construiu dezenas de novas praças. E por aí vai.

Resultado: hoje um terço dos novaiorquinos vai para o trabalho de carro, um terço de transporte público, um terço a pé (e 2% do total vai de bicicleta). Desde quando Jenette comanda este esforço? Desde 2007. Só? Pois é. Cinco anos podem fazer toda diferença. É esse tipo de ataque por parte do poder público que muda as coisas. Não descoladinhos gritalhões exibindo as bikes, tatoos e suposta superioridade moral pelas alamedas dos Jardins.

Iniciativas como as comandadas por Michael Bloomberg e Sadik-Khan em Nova York são importantíssimas. Podemos e devemos imitá-las já. Mas não são suficientes para um país com tantos problemas de desigualdade e infraestrutura como o Brasil. Precisamos de muito mais. O Brasil precisa de um plano de ocupação de seu território. A maioria esmagadora dos brasileiros vive a no máximo 500 quilômetros da costa atlântica. Há que estimular de maneira inteligente e organizada a diminuição de nossas maiores metrópoles e o crescimento de nossas cidades menores a médias. Há que segurar o crescimento da população. Temos que ser menos. Temos que ir para o Oeste. Temos que olhar para o Oceano Pacífico. E não dá pra deixar isso ao acaso, ou botar a responsabilidade na mão do mercado.

Objetivo despropositado? Megalomania? Ambição alta foi acabar com a escravidão, curar a tuberculose e colocar o homem na lua. Resolver o trânsito em São Paulo é moleza. Basta um pouco mais de dinheiro. E muito mais ambição.

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Publicado em 01/02/2013 às 20:39

Renan e Santa Maria: como mudar o Brasil para melhor, mantendo o que temos de pior

A eleição de Renan Calheiros para presidente do Senado causa revolta.

Não há porquê tanto choque. Não é pior que Sarney, Maluf, Collor, outantos outros políticos que dão sustentação para o governo de Dilma, e deram para o de Lula. Também não é pior que Antonio Carlos Magalhães ou outros do mesmo quilate, que viabilizaram os mandatos de Fernando Henrique Cardoso.

Em brincadeira de gente grande não tem santo. Você vai pra guerra com as armas e os aliados que consegue. Churchill tinha quase mais nojo de Stálin, seu aliado, do que de Hitler, seu arquiinimigo. Vale também para empresas, aliás. Business is war.

Agora, quem vai negar que tivemos avanços nos últimos vinte anos?Controlamos a inflação. A mortalidade infantil caiu. Mais gente tem acesso sapato, xampu, iogurte e um diploma universitário. O Brasil se tornou um ator global. A consultoria Price Waterhouse garantiu neste começo do ano: nosso país é o terceiro melhor do mundo para as empresas investirem, atrás só dos Estados Unidos e China.

Deveríamos ter avançado mais neste período, claro. Mas não tem como tapar o sol com a peneira. O Brasil melhorou muito nestas duas décadas de políticas de alianças. Desde o final da ditadura, todos os governos juntaram alhos com bugalhos num grande balaio, amorfo e amoral. O PSDB, partido de oposição, fundado por políticos com histórico de resistência ao regime militar, atravessou o rubicão quando selou a aliança com o PFL, herdeiro político da Arena.

Essa política, que permite e recompensa os Renans, mudou o Brasil para melhor. A questão, e é uma questão dramática e urgente, é que é essa política não muda o principal, que é a cultura do país. Pelo contrário, é gasolina na fogueira. Se nossos eleitos aceitam bandidos como companheiros de cama e mesa, porque não você ou eu? Se as regras não valem pra quem tem dinheiro e influência, a única atitude racional é fazer qualquer coisa pra enricar.

Também é um modelo concentrador de riqueza. O Brasil tem pobres menos pobres que há vinte anos, mas tem ricos muitíssimo mais ricos. Se a maior fatia da riqueza está nas mãos do governo, e de empresas beneficiadas pelo governo, a impunidade é certeza e a injustiça é cotidiana. Pode prender os músicos e os donos da boate. Outros incêndios virão.

Aqui ou em qualquer canto do planeta, os melhores países para viver, onde o governo funciona melhor, são os países em que as riquezas são melhor distribuídas. Em que um número maior de empresas pequenas representam o coração da economia, e são o motor de geração de empregos.

Em que a distância entre a base e o topo da pirâmide é uma estilingada. No sistema dominante no planeta - vamos chamar de capitalismo? - a única liberdade de fato vem da riqueza. Não só para o indivíduo, mas para a comunidade, e a nação. Quanto mais pobres tem um país, menos poder e menos poder de pressão tem seu povo, como um todo. E menor a liberdade de expressão, porque a imprensa é sustentada por poucos. Vale para Estados e regiões. Compare São Paulo com o Maranhão, ou o Leblon com a Favela da Maré.

Não estamos sós. Os BRICS estão cada vez mais ricos. Mas só os ricos apitam nestes países. Está sendo criada uma nova aristocracia empresarial-governamental, a cobra comendo o rabo. Há quem diga que a saída é a educação. Os russos tem alto nível educacional. A Rússia está há anos nas mãos de um brucutu da KGB e de uma elite plutocrata.

Educação não é o que você diz, é o que você faz. Só se educa por exemplo. Não adianta um povo com mestrado, e todas as apostilas garantirem que o crime não compensa, se os Renans continuam se dando bem.

Renan é só uma engrenagem na máquina. ACM, por exemplo, era bem mais importante. Morre um, nasce outro. Sempre vai ter alguém lá no alto para dizer ele é bandido, mas é o nosso bandido. E assim esses picaretas continuam ganhando carta branca para aprontar, porque fundamentais para o projeto de poder do momento. E é isso que o Brasil ensina para seus filhos.

Não dá pra mudar tudo do dia para noite. Mas as mudanças que buscamos tem que ser de verdade. Há que meter a mão no vespeiro. Não basta boquejar contra Renan. Nem brigar para tirar Renan, e pôr outro igual no lugar. Os beneficiados por este estado das coisas vão lutar para que as coisas permaneçam como são.

Em um País em que a presidente tem 80% de aprovação da população, não precisava ser assim. Dilma tem cacife para liderar dando o exemplo. Bancou Renan lá. É a política de sempre, que está mudando o país para melhor, mantendo o que há de pior no País.

Mudar de verdade requer intransigência, radicalismo, coragem moral. Renan só é importante de uma maneira: sua eleição é um perfeito exemplo de tudo que há de errado no nosso país. Enquanto as regras não valerem para todos, a compra de votos, eleições, pareceres, benesses, fortunas, monopólios e alvarás é inevitável. Novas Santas Marias são inevitáveis.

Permitir o mal em prol de um suposto bem maior é mais que imoral: é garantia de desgraça. Os meios modificam os fins...

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Publicado em 11/12/2012 às 08:04

Como virei um pai chato

Papo entre amigos: conversamos sobre nossos filhos e suas escolas. Nunca estamos satisfeitos. Uma escola é muito careta. A outra muito leniente. Uma soca decoreba e disciplina na molecada, mas os valores são muito pra playboy. A outra forma seres humanos bacanas, mas muito bagunçados. E será que nossos meninos serão capazes de entrar em uma faculdade decente algum dia? Que dirá se sustentarem?

Minha amiga fala do pai do coleguinha do filho, que arrotava numa festinha que a cura para os gays é na porrada. Eu zombo da ongueirice da escola do meu moleque. Rimos os dois da resistência dessas escolas moderninhas à taboada. Duro desembatucar. Queremos que nossos filhos cresçam pra ser... exatamente o quê? Gênios? Ricos? Felizes? Que contribuam para o mundo, que nos visitem aos domingos, que não nos enfiem num asilo? Que nos obedeçam nesse exato momento?

Não sabemos o que é o melhor para nossos filhos. Nenhum pai ou mãe sabe. Fazemos o que a vida nos ensinou e permite, o que os tempos nos sugerem ou ordenam. Há pais que terceirizam suas funções pra escola. Não é nosso, meu caso. O que me dá urticária: escola que quer passar sua responsabilidade para os pais. Nem a pública, muito menos a paga. Vocês estão recebendo pra cuidar de nossas crianças, do Estado ou de mim. Façam seu trabalho.

Mas as escolas têm que atender as expectativas da média dos alunos, e dos pais. Tomás vai fazer nove anos. Sou pai mais velho que a maioria dos pais de seus colegas. Vivi mais, outros tempos, outra infância. E, inevitável, transmito isso de alguma maneira para o menino. Quando eu cresci, criança não questionava, não apitava e não aprontava - senão apanhava. Eu tinha a vida mais mansa do quarteirão. Só levava umas palmadinhas de vez em quando. Um vizinho meu tomava verdadeiras surras de cinta.

Também era outra época na escola. Criança levantava quando o professor entrava na sala. Usava uniforme. Cantava o hino nacional todo dia. Toda sexta tinha o Culto à Bandeira, com jograis e cantilenas louvando a pátria, a ordem e o progresso. Desfilei no Sete de Setembro pela avenida principal da minha cidade. Fui ver o presidente Emilío Garrastazu Médici, quando ele visitou Piracicaba. Nos deu tchauzinho, da janela do Galaxy preto.

A escola era o que era, e não era cadeia, nem inferno na Terra. Tive bons professores, o de português, José Salles, sensacional. Meus pais foram bem bacanas comigo. Mas eles nasceram em 1937. Eu nasci em 1965. Os pais deles certamente foram bem mais duros com eles, do que eles comigo. 2012 é melhor que os anos 40 ou 70. Mas é tanta pedagogia, tanta regra, tanto artigo na revista e reportagem na TV e tanto ranço... e no final, a responsabilidade de criar teu filho é tua e pronto.

Eu quero que meu filho tenha liberdade de ser o que ele quiser, e tudo que ele puder. Mas isso é quando ele crescer. Por enquanto, faz aí o que teu pai tá dizendo, garoto, que não te peço mil coisas, e sei o que é melhor para você. E sem me fazer repetir quinhentas vezes, fazendo o favor. Não tenho prazer em cercear sua liberdade, mano. Nem de frequentemente ser um pai pentelho, mandão, gritão. Mas de vez em quando sou, e vou continuar sendo. Sem culpa.

Educo Tomás sonhando com o homem que ele pode vir a ser. Mas não escapo do menino que fui. E nem vou tentar.

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Publicado em 08/11/2012 às 09:52

Catarina: o mundo da moda é careta, e você não é

catarina virgem forasta Catarina: o mundo da moda é careta, e você não é

Catarina Migliorini, a brasileira que vendeu a virgindade, continua rendendo. Primeiro, topou leiloar sua primeira vez, em troca de dinheiro e de aparecer em um documentário-reality-show australiano. Agora, porque foi convidada e desconvidada para desfilar no Fashion Rio, pela grife TNG. A marca é focada em garotas adolescentes. Escândalo, gritaram pra todo lado. A TNG cancelou a participação dela na passarela. Não entendi a grita.

Tem mil meninas sendo vendidas todo dia por este País afora. A história de Catarina deu gancho para vários veículos fazerem reportagens a respeito. Li em um jornal que uma moça bonita, virgem, entre 13 e 17 anos, vale até R$ R$ 1.500 no interior do Pará, dinheiro que naturalmente não verá. É venda, não aluguel. O novo dono fará dela o uso que quiser. Um programa com uma adolescente lá por esses cantos chega a custar só R$ 10. Você leu direito: dez reais.

 Catarina: o mundo da moda é careta, e você não é

Isso sim é razão pra escândalo. Eu gostaria muito que essas grandes grifes, em vez de trazer Catarina da Austrália, trouxessem as prostitutas-mirins da Amazônia para desfilar. Se é pra fazer escândalo, vamos fazer de verdade, e com um objetivo útil: resgatar as meninas que tiveram suas virgindades e juventudes vendidas. E não entendo de jeito nenhum a grita de pessoas de cabeça aberta, feministas e tal, como algumas amigas minhas.

Tá, virgindade é um valor fora de moda, deveria ser enterrado junto com a burca etc. Mas espera aí: Catarina tem 20 anos. É dona do corpo dela e maior de idade. Decidiu de pura e espontânea vontade leiloar sua virgindade em um reality show. Deu sorte: o leilão lhe rendeu US$ 780 mil. Por uns minutinhos de desconforto, por transar logo pela primeira vez na vida com um desconhecido?

Tá bem pago, ou ela achou que está. Se souber usar a fortuna, não precisa trabalhar para o resto da vida.

Na época, Catarina justificou: se você faz isso uma vez só na vida, não é prostituta. Bem, a definição de se prostituir é trocar serviços sexuais por dinheiro. Mas entendo a visão de Catarina. Ela trocou sua virgindade pela liberdade de uma conta de banco forrada. Foi com um único cara, e já pode se aposentar. Está lá no site Virgins Wanted, a foto dela, com o carimbo SOLD, vendida. Mas ela não se vendeu, só se alugou por uns minutos.

catarina virgem  Catarina: o mundo da moda é careta, e você não é

Com sua atitude ela reforçou estereótipos machistas? Ora, vamos ter a santa paciência. A vida é dela, e ela não tem obrigação nenhuma de ser politicamente correta. E aliás, todas essas grifes fazem o quê? Reforçam estereótipos do que é ser mulher, homem, elegante etc. O diretor da TNG, aliás, disse que queria Catarina na passarela para demonstrar que o mundo da moda não é preconceituoso. Ao ceder às pressões, demonstrou justamente o contrário.

Catarina não precisa do Fashion Rio. É celebridade instantânea e internacional. Deu entrevistas pelo mundo afora, apareceu, causou etc. Não foi modelo por um dia, mas certamente logo estará decorando as páginas de alguma revista masculina. Não é uma beldade: é uma garota normal de sua idade, e tem suas curvinhas. Orna bem mais com a Playboy que com um desfile de moda, onde destoaria dos varapaus.

Pode ser que eu esteja sendo machista e insensível. Não seria a primeira vez... mas desconfio que muitas (a maioria?) das adolescentes do mundo, e do Brasil também, topariam vender sua virgindade por essa montanha de grana. Se a virgindade é um valor tão obsoleto, como garantem minhas amigas feministas, qual é o problema? Catarina, o corpo é seu, a vida é uma só, e é sua. Vai sem medo, pela sombra, e com a benção do tio...

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