Posts com a categoria: Cultura

Publicado em 13/04/2015 às 14:59

As trilhas abertas por Eduardo Galeano – os caminhos que desbravaram, e por onde outros passarão

galeano1 708x1024 As trilhas abertas por Eduardo Galeano   os caminhos que desbravaram, e por onde outros passarão

Eduardo Galeano é ilegível e indispensável. As Veias Abertas da América Latina é um livro lacrimoso. Dói ler, porque melodramático, e porque o tema exige lágrimas. É sobre como fomos colonizados, escravizados, calados, vendidos. Por séculos. Até hoje? É.

Foi clássico da literatura de oposição dos anos 70 para 80. Li besta no colegial. Nossas elites nos torturaram com requintes de crueldade medieval. Inquisição espanhola perde.

A América Latina permanece colônia em 2015. Seguimos subalternos, cumprindo as ordens dos impérios e seus funcionários nativos. Está aí o ajuste fiscal, que só serve para render juros gordos para quem tem o que aplicar, e garantir notas boas das agências de rating, cuja credibilidade é zero. Pelo menos não é mais “América Latrina”, como dizíamos em 1980, governados como animais por cavalgaduras fardadas. Vivemos menos mal. Não é muito, mas é muita coisa.

Galeano tem sua parte de responsabilidade nisso. Inspirou muita gente a enfrentar governos autoritários. Inspirou também muitos cretinos. Era armamento garantido no arsenal autoritário do stalinismo global. Comunicação é o que gente diz e o que os outros ouvem.

Uns anos atrás Galeano fez uma meia mea-culpa. Disse que escreveria o livro de outra maneira, se fosse hoje. Que na época não tinha conhecimentos mínimos de economia para fundamentar suas teses. Mas não mudou de posição política. Continuou esquerdista a la Século 20. Apoiou acriticamente Hugo Chávez, tão preguiçoso quanto demonizá-lo. Galeano não conseguiu abandonar a visão do mundo em preto e branco, bandidos e seus inimigos, meus amigos. Poucos conseguem.

Caducou no tratamento, mantém-se atual no diagnóstico. Nossa responsabilidade é só nossa, mas nossos problemas não. Muitos, talvez os principais, têm origens fora de nossas fronteiras. Isso não é política, é economia.

Galeano deveria ser leitura obrigatória por esses idiotas que usam as liberdades da democracia para defender que elas acabem. Hm, deixemos os quadrúpedes com seus tapa-olhos. Quem sabe a garotada que foi às ruas em 2013 lê Galeano e se inspira para os anos que virão? Não no stalinismo, torçamos.

A notícia de sua morte me lembrou seu talento de frasista. Galeano mandava bem nos provérbios instantâneos. Enterro Eduardo com eles. Qualquer um fica bem na lápide de Galeano, intelectual falível, militante manco, eterno ícone da luta contra todas as ditaduras.

“Somos o que fazemos, mas somos, principalmente, o que fazemos para mudar o que somos.”

 

  • “O corpo não é uma máquina como nos diz a ciência. Nem uma culpa como nos fez crer a religião. O corpo é uma festa.”
  • “Nossa derrota esteve sempre implícita na vitória dos outros. Nossa riqueza sempre gerou nossa pobreza por nutrir a prosperidade alheia: os impérios e seus beleguins nativos.”
  • “Na alquimia colonial e neocolonial o ouro se transfigura em sucata, os alimentos em veneno.”

    “A direita tem razão quando se identifica com a tranquilidade e com a ordem. A ordem é a diuturna humilhação das maiorias, mas sempre é uma ordem - a tranquilidade de que a injustiça siga sendo injusta e a fome faminta.”

  • “A história é um profeta com o olhar voltado para trás: pelo que foi, e contra o que foi, anuncia o que será.”
  • “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”
Publicado em 12/01/2015 às 14:33

Charlie e Chris: como combater a ignorância

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O atentado à Charlie Hebdo gerou um vendaval de burrice. Não permitamos que ele apague nossa faisquinha de civilização. É hora de lembrar e ler Christopher Hitchens.

Publicado em 04/12/2013 às 16:36

Mariza Dias Costa: ilustrando a história, fazendo meu Natal

O Brasil é rico em grandes ilustradores. Nenhum é maior que Mariza Dias Costa. Cresci hipnotizado por sua arte, que melhorou durante anos o Diário da Corte de Paulo Francis, na Folha. Hoje é o lançamento de seu livro, o melhor de 40 anos de ilustração. Vá e compre. Se não fôr: compre online.

Mariza é combinação única. Faz arte com caixa-baixa, cotidiana, noticiosa, impressa em papel jornal, pra gente lambuzar de café e requeijão. E ao mesmo tempo é Arte com A maiúsculo, de enquadrar e botar na parede - dia após dia, semana após semana, eterna, da hora. Refletindo sobre a história, faz a História.

Finalmente Mariza tem a retrospectiva que merece. Ilustrador de primeiríssima, o amigo Orlando Pedroso organizou o livro, e a campanha para a sua publicação.Tem projeto gráfico do mestre Toninho Mendes, e introdução do Contardo Calligaris, cujos artigos na Folha Mariza ilustra. Um projeto todo finesse, portanto, que você deve abraçar e espalhar para os amigos que sabem o que é bom, e se não conhecem Mariza, apresente.

O livro chama E Depois a Maluca Sou Eu.... Mariza tem fama de doidona. Não conheço pessoalmente, mas depois de tantos anos me perdendo nos detalhes dos seus desenhos, não duvido que seja louquinha de pedra. Gente "normal" não é capaz dessas coisas.

Você pode e deve fazer com que este livro se materialize, autografado, na sua casa. Em janeiro de 2014. Ou comprar já, como eu. Porque não posso imaginar melhor presente para o meu Natal.

Veja aqui o vídeo!

Reserve seu livro (e gravura autografada?!) na campanha do Catarse, aqui!

E este é o convite para o lançamento do livro, hoje, dia 4 de dezembro, está aqui.

mariza Mariza Dias Costa: ilustrando a história, fazendo meu Natal

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Publicado em 01/11/2013 às 13:28

Quer ver mulher feia e brega? Vá ao São Paulo Fashion Week (estrelando Gisele)

 

gisele Quer ver mulher feia e brega? Vá ao São Paulo Fashion Week (estrelando Gisele)

Gisele, de perto

Uma vez eu passei uma tarde no São Paulo Fashion Week. Nunca vi tamanha concentração de mulher horrorosa e brega. As feias na passarela. As bregas, "desfilando" pelos corredores, emperiquitadas, maquiadas demais, perfumadas demais. É um desfile de horrores, indescritível. Só indo pra ver, o que recomendo, como experiência antropológica. Mas não me convide para voltar.

Imagino que especialistas em design, tecidos e tal encontrem muitos prazeres de ir a eventos como este. Ou experts na história da moda. E, claro, há o lado circo da moda, como há o circo da Fórmula 1, do rock'n'roll, ou de Brasília. Quem não gosta de rock acha tudo igual, quem não curte Fórmula 1 não entende como alguém pode ficar assistindo os caras dando aquelas voltas infinitas.

Não tenho o menor interesse por moda nem roupa. Me visto como aos 15 anos, fora "farda", roupa de trabalho, jeans-camisa de manga comprida-sapato-cinto. Compro aos pares ou trios, sempre nas mesmas lojas, a camisa entrou? Vê uma preta, uma azul e uma bege. Não tenho gravata, não aprendi a dar nó e nunca aprenderei. Se dependesse de mim, passava o resto da vida de bermuda, camiseta e descalço.

Sou, portanto, o cara menos indicado do mundo para dar palpite sobre o São Paulo Fashion Week: não entendo nada de moda. Mas entendo um bocado de mulher. Nasci em 1965. Estou de olho nas moças desde a Giovanna, do Carrossel, e a Rose di Primo, na capa da Manchete. Sei o que é uma mulher bonita. Entendo que não se resume a medidas, proporções, alturas e larguras. Nem a cor, cultura ou idade. Já viajei aos cinco continentes, e compreendi que beleza é contexto. Já aprendi que uma mulher pode não ser bonita e pode ser bela, e uma mulher pode ser feia e ser muito sensual.

Portanto uma mulher pode ser esquálida, pálida e desconjuntada e pode ainda assim ser bonita, e pode ainda assim ser atraente para um homem. Mas quando você vê um monte de mulheres assim, todas iguais, e mocinhas além do mais, é chocante. Certo que elas não estão na passarela para serem vistas; as estrelas de um desfile são as roupas. Mas acabam estabelecendo um padrão mórbido, que influi na vida de muitas meninas e mulheres. Porque mexe com a percepção que cada mulher tem de si mesma.

Há uma piada velha de que as modelos mulheres são sempre feinhas, e os modelos homens são sempre bonitos, porque os estilistas são todos gays. É duro não matutar sobre o assunto quando você vai a um evento de moda. Os homens são bonitos, fortes e másculos, sejam homo ou hetero. São o ideal de homem. As mulheres não são o ideal de mulher, de jeito nenhum.

O educativo de ir ao São Paulo Fashion Week é perceber como a imagem que temos das famosas não têm nada a ver com seu aspecto no mundo real.  Imaginamos que as poucas mulheres que estão na passarela para serem vistas fugirão do padrão campo-de-concentração do resto. É impressão falsa. De perto, essas superstars são também magricelas, ainda que se permitam uma corzinha de saúde e peitos (normalmente de silicone). É o caso de Gisele Bündchen.

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Gisele: magreza como padrão de beleza

gi 2 Quer ver mulher feia e brega? Vá ao São Paulo Fashion Week (estrelando Gisele)

Gisele é considerada "exuberante"

Gisele é feia? Não. Ficaria mais atraente com mais uns quilinhos nos lugares certos? Na opinião de 99,99% dos machos do planeta Terra, sem dúvida nenhuma. Mas a cobertura deste São Paulo Fashion Week é todo sobre a volta de Gisele, e como ela está maravilhosa, divina etc. Esses dias outras modelos famosas voltaram ao tema. Isabela Fiorentino disse que modelo tem que ser magra mesmo, e é isso aí. E é isso aí mesmo: garota que quer ser modelo tem que passar fome. É o que o mercado exige. Mas por que o mercado exige isso?

Em entrevista ao R7, Izabel Goulart nem percebe como se contradiz. Ela fala que é magrinha porque toda sua família é assim. "Tenho que ser feliz com minha própria pele. Esse é o corpo que Deus me deu e sou feliz assim." E depois desfia todas as atividades que faz pra se manter: malhação, pilates, kickboxing. E não comenta o óbvio: dieta radical.

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Izabel é considerada gostosona, tanto que posa para a Sports Illustrated

Essas modelos brasileiras são famosas por serem carnudas, pelos padrões do mundo da moda. Tanto que várias são parte do time de Angels, modelos de lingerie, da grife Victoria's Secret. A mais conhecida é Alessandra Ambrosio.

ale Quer ver mulher feia e brega? Vá ao São Paulo Fashion Week (estrelando Gisele)

Alessandra: exuberante?

Não são só as modelos. Quando fui ao São Paulo Fashion Week, vi muitas atrizes famosas. Dizem que televisão engorda, e é verdade. De perto, elas são todas muito mais secas, e muito menos atraentes. Esses dias estava traçando uma picanha perto de casa, restaurante desencanado na Vila Madalena. Entrou uma atriz brasileira bem famosa, com uma amiga. Vestia roupa bem normalzinha, era um sábado à tarde. Cadê o bocão, as curvas, o sex-appeal? Era só mais uma moça mirrada. Almoçou - pouco - e foi embora. Ninguém reconheceu. Mas toda brasileira quer ser como as estrelas da TV...

Não sou bobo de defender um padrão único de beleza para mulher. Seria muita pobreza de espírito, e pelo contrário, quanto mais diversidade, melhor para os olhos e para nosso caldo genético. Uma razão porque o Brasil tem tanta mulher bonita é justamente a variedade e a miscigenação. É possível uma mulher ser magérrima, ou fortona, e linda. Mas esses padrões que vêm se afirmando no país são bizarros - tanto essa magreza esquizofrênica, quanto seu oposto, as musculosas paquidérmicas de reality show.

E é impossível, porque a mulher normal é normal, estuda, trabalha, tem filho, não vive de ser um esqueleto ambulante. Aí é essa neura miserável, que massacra quase toda mulher que eu conheço. Estão todas sempre de regime, e sempre descontentes com seus corpos. Todas as capas de revista são sobre como emagrecer, e trazem famosas da TV de biquíni, magérrimas e melhoradíssimas pelo Photoshop. E toca vender livro da dieta, remédio pra dieta, suplemento de não sei o quê. E agora é o sopão, e depois o Dukan, e o novo milagre ortomolecular pra enganar as trouxas. Ou, alternativamente, suplemento, bomba e academia.

Se eu pudesse dizer uma coisa no ouvido de cada brasileira é: relaxe. A mulher fica mais bonita quando à vontade no seu corpo, e caprichando um pouco para nos agradar, seduzir, encantar. Ah, e a missão da mulher por acaso é ficar bonita para o homem? Claro que não. Mas agradecemos de coração.

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Publicado em 28/10/2013 às 14:51

Lou Reed colhe o que plantou

earlylou Lou Reed colhe o que plantou

Lou Reed cantava o prazer das drogas injetáveis em 1966. Morreu em 2013, fígado detonado. Viveu mais que o provável, pelo mal que fez a si mesmo. Talvez tenha vivido mais que moralmente aceitável, considerando os muitos que inspirou a fazer merda também.

Garoto judeu, bissexual e durango, aos 17 anos foi tratado com terapia de choque. O tratamento eletrificou seus pesadelos? Descobriu um caminho na arte de vanguarda, e na arte de vanguarda que qualquer um podia fazer, o rock. Não rock qualquer: rock além do limite do bem e do mal. Ninguém se esforçou tanto para encontrar no perigo, glamour - e um bom refrão. Para fazer barra pesada um ideal de vida, sedutor e inevitável. Esse era Lou, e essa era sua banda, o Velvet Underground, de que ele era o coração. Velvet, que na época poucos ouviram, e cada um que ouviu montou sua própria banda. Velvet que hoje poucos ouvem, porque organicamente integrado ao que entendemos como "rock" e "risco".

O Velvet inspirou 99% dos roqueiros posteriores que, como Lou, tinham algo a gritar - Bowie ou Sid Vicious, Patti Smith ou o Jesus & Mary Chain ou, bem, a lista jamais terá fim. Com o fim da banda, seguiu encrencando. Fez discos que eram só distorção de guitarra. Seus primeiros álbuns solo passeiam chapados pelo lado negro da força - vício, putaria, miséria, revolta. "Walk on the Wild Side", seu único hit, descreve a via crucis de jovens drogados e prostituídos que orbitavam a cena artística de Nova York.

Seu único bom disco mais alegrinho, Coney Island Baby, foi inspirado, segundo o jornalista Lester Bangs, por uma figura de "longo cabelo negro, barbada, grotesca, abjeta... como algo que poderia ter se arrastado implorando para dentro da casa, quando Lou abriu a porta pra pegar o jornal ou o leite, pela manhã." Era Rachel, ou Tommy, travesti e amante de Lou, que explicou: "Rachel não tinha o menor interesse em quem eu era ou o que eu fazia. Nada impressionava ela. Pouco tinha ouvido minha música, e quando ouviu também não deu a mínima".

lourachel Lou Reed colhe o que plantou

Mais sobre Lou e Rachel aqui.

Lou envelheceu sem amadurecer, nem fazer sucesso. Batia nos quarenta quando viu que os punks faturavam firme, vomitando o que ele fazia 15 anos antes. Se metamorfoseou em rocker machão e malhado. Tirou Rachel da biografia, virou garoto-propaganda de motocicleta, fez duetos com qualquer um, tocou para o papa, por Mandela, pela Anistia Internacional. Ressuscitou o Velvet para excursionar com o U2. Ganhou uma graninha e atestado de ícone no Rock'n'Roll Hall of Fame.

Vovô ranzinza, tornou-se figurinha fácil nos saraus vanguardistas de Nova York, casado com a também artista, tiazinha e inofensiva, Laurie Anderson.  O Lou de outros tempos ainda mostraria dentes afiados em dois discos: o jornalístico New York, em 1989, e o belo Songs for Drella, de 1990, sobre Andy Warhol, co-assinado com o parceiro no Velvet, John Cale. As últimas duas décadas, bem, que artista sobrevive pelos últimos anos de sua obra?

Lou merecia mais fama, mais dinheiro, um verbete maior nas enciclopédias do futuro? Merecia ter vivido mais que 71 anos? O melhor de Lou Reed permanecerá, doce e assustador como sangue na calçada: algumas canções, muitos herdeiros, e o disco de estreia do Velvet Underground, imortal, atemporal. Lou morreu cedo, não fará mais falta, e viverá para sempre. Recebe tanta justiça quanto podemos aspirar: colheu o que plantou.

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Publicado em 03/09/2013 às 07:40

Caetano e Capilé, da Tropicália à Mídia Ninja: nem contra, nem cultura

"O Tropicalismo pretende destruir a cafonice endossando a cafonice, pretende criticar Chacrinha participando de seus programas de auditório. A participação de um tropicalista num programa do Chacrinha obedece a todas as coordenadas do programa e não às do tropicalista – isto é, o cantor acata docilmente as regras do jogo do programa sem, em nenhum momento, modificá-las (...) O  Tropicalismo é inarticulado – justamente porque ataca as aparências e não a essência da sociedade, e, justamente porque essas aparências são efêmeras e transitórias, o Tropicalismo... apenas xinga a cor do camaleão."

Augusto Boal, 1968

O Fora do Eixo leva chumbo - na grande imprensa, nas redes sociais, de músicos, de ex-integrantes. Fogo cerrado e público. Novos depoimentos convincentes contra o FdE aparecem a cada dia. Um grupo de moças se reuniu em um manifesto contra o machismo do Fora do Eixo. Concluir que é tudo invenção de reacionários e rancorosos é tarefa para fundamentalista.

pablo capile Caetano e Capilé, da Tropicália à Mídia Ninja: nem contra, nem cultura

Com tudo isso, o Mídia Ninja continua recebendo elogios em veículos internacionais, como ontem o Guardian. E convite para participar de debates sobre jornalismo. E afagos de...  Caetano Veloso. O velho baiano, como se apresenta, mais uma vez aplaude o Fora do Eixo. Desta vez, cita a entrevista publicada aqui com o líder do FdE, Pablo Capilé. Que foi respondida coletivamente pelo FDE, segundo o próprio Capilé. E, não respondendo o principal, disse muito.

Capilé e Bruno Torturra, diretor de comunicação do Fora do Eixo e coordenador da Mídia Ninja, não explicam nada. Se defendem das acusações atacando os acusadores: direitistas, vendidos, amargos, ultrapassados. Silenciam sobre perguntas difíceis. Pablo faz de maneira antipática; Bruno, simpática. A tática tem longo histórico de sucesso.

Muitos críticos acreditam que o FdE vai se dissolver. Não. Fora do Eixo/Mídia Ninja sobreviverão. Não estão aí seus inspiradores, as dentaduras sugando as tetas de sempre? Basta seguir o exemplo de quem sobrevive desde os anos 60 de oportunismo e pose.

O que vai acontecer com o FdE? Patrocinadores privados, avessos a polêmicas, e ainda mais envolvendo machismo e mocinhas, reduzirão seu apoio. O dinheiro público vai continuar pingando, mas menos. O FdE estará sob escrutínio permanente, e quem der dinheiro para eles, idem. Marta Suplicy tem densidade política e capital eleitoral. Não é Gilberto Gil.

Muitos jovens que poderiam se encantar com o FdE agora podem ler os depoimentos de quem saiu. A vida nas casas Fora do Eixo não parece mais tão convidativa, para dizer o mínimo. Festivais de música continuarão a acontecer - de preferência pagando os artistas.

O Fora do Eixo sobreviverá, com importância reduzida, porque não tem integrantes, tem fiéis. Como em tantos "movimentos" culturais brasileiros, o principal financiamento vem dos cofres públicos. Seus apoiadores são acríticos. Alguns se aboletam em nichos confortáveis entre imprensa, academia e capital.

Mas não seria exagero perseguir o Fora do Eixo? O que é o FdE perto de tantos apaniguados no nosso cinema, literatura, música? E o que são essas sanguessugas das leis de incentivo perto dos Eikes Batistas de plantão?

O ponto é o que o Fora do Eixo, além de se propor como movimento cultural, também se arvora em iniciativa política transformadora - e, atenção, como a única alternativa jornalística ética e independente. Se contrapõe à imprensa tradicional, à reportagem, à pauta, à edição. Mas, se quer cobrar independência, transparência e ineditismo dos outros, comece pela  própria casa.

Independência: a Mídia Ninja não existe. É um pedacinho do Fora do Eixo. É impossível aplaudir Mídia Ninja e criticar Fora do Eixo, porque eles são a mesma coisa. Mídia Ninja é o Bruno Torturra, que é do FdE, e mais uns caras do FdE, usando equipamentos do FdE, e as bases são as casas do FdE.

O que eles fizeram de importante fora das manifestações? Nada. O que fizeram de importante nas manifestações? Transmitiram pela internet o que acontecia, em vídeo, torcendo contra a polícia. Outros fazem parecido há muitos anos (recordo uma capa da revista "Play", editada por Alexandre Matias, sobre o Centro de Mídia Independente, em 2002).

Nos protestos, outros fizeram igual, mas sem tanta repercussão, porque sem os integrantes do FdE repercutindo a cobertura no Twitter e Facebook. Outros continuarão fazendo a mesma coisa, e mais e melhor.

Transparência: Fora do Eixo / Mídia Ninja querem informar o que acontece na rua, mas são especialistas em desinformação quanto se trata de explicar suas próprias atividades. Não esclarecem o que acontece dentro das Casas FdE, não abrem as contas dos festivais, não explicam as repetidas vitórias em tantos editais, e muitíssimo menos explicam suas finanças. Na entrevista publicada aqui, Pablo Capilé, afirma que o orçamento total do FdE em 2012 foi de R$ 5 milhões. E emenda: "o recurso público representa de 3 a 7% do total do orçamento do Fora do Eixo." E depois: "nosso orçamento em 2012 foi R$ 1.7 milhão em recurso público". Bem, R$ 1,7 milhão não é nem 3% e nem 7% de R$ 5 milhões.

Capilé ainda informa que o Fora do Eixo "tem 20 CNPJs". Em português claro: suas planilhas não valem os elétrons que ocupam na internet.

A terceira coisa importante sobre Fora do Eixo/Mídia Ninja: eles não são "o novo". Muito pelo contrário: estão perfeitamente integrados à veia principal da cultura e da política brasileiras,  fundamentadas na busca de benesses e na proximidade dos cofres públicos. É filhote da Tropicália. É Contracultura a favor.

O falso rock da Tropicália inventou o adesismo antropofágico. Segundo os tropicalistas, nada é certo ou errado, tudo pode ser divino e maravilhoso. O novo, o velho, o brega, o chique, o intelectual e o ignorante. Nenhum juízo de valor é possível. O relativismo é o único  mandamento. Qualquer um pode dizer: estou fazendo uma coisa radicalmente nova, e se você não entende é radicalmente careta.

A estratégia tropicalista-de-mercado exige a apropriação de cada novidade que pintar. Nem é mais antropofagia, é glutonice. Quem nunca engoliu esses árbitros da cultura brasileira foi ostracizado - Raul Seixas é o caso mais chocante.

Não é à toa que FDE/Mídia Ninja tenham a benção de Caetano, que já pensava velho nos anos 60. Nem que tenha sido tão bem patrocinado por Gilberto Gil, quando ministro da Cultura, e por sua turma, Juca Ferreira, Cláudio Prado. Nem que o Overmundo, site colaborativo sobre cultura idealizado pelo antropólogo Hermano Vianna, e bastante financiado por dinheiro público, tenha sido doado por Vianna para o Fora do Eixo.

 Caetano e Capilé, da Tropicália à Mídia Ninja: nem contra, nem cultura

Vianna e um grupo à sua volta articulam a ponte conceitual entre o oportunismo estratégico da Tropicália e a fuleiragem tática do FdE/Mídia Ninja. Sua coluna no Globo, pouco lida fora do Rio, embrulha a ação-entre-amigos habitual em citações dos pensadores da moda, misturando Ballard, Rucker e Philip K. Dick com Gilberto Freyre, Ronaldo Lemos e principalmente, inevitavelmente, interminavelmente Caetano.

Hermano assina em série curadorias de grandes eventos corporativos. É colaborador frequente de Gil e Caetano. Lembra da milionária proposta de blog de Maria Bethania? Era ele o idealizador, e quase emplacou, mesmo sob a gestão de Ana de Hollanda no Ministério da Cultura. Hermano também é muito próximo de Regina Casé. Foi chefe de Bruno Torturra, recentemente, no programa "Esquenta", que dispensa críticas.

Pauta um influente grupelho de militantes da cultura hacker-patrocinada, alternativa-estatal.  É uma gente que produz pouco, fala muito e atrapalha demais.

E se tem alguma posição, é sempre a favor, mas de maneira dissimulada, pernóstica, sempre fugindo do embate. É uma geléia desprovida de ideias e espinha, que não tem objetivo fora causar e faturar. Em entrevista à revista Trip, Vianna resume: "Virtude é ocupar os dois extremos ao mesmo tempo. Por isso fico no Software Livre e na Rede Globo... quando você escolhe uma posição, apaga uma parte da complexidade da vida. Você tem que ser infiel às idéias em que acredita."

Entendeu? Entendemos. Caetano e Capilé se irmanam em espírito, mitomania e logorreia. Cada profeta tem os seguidores que merece.

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Publicado em 09/08/2013 às 10:09

Algumas perguntas para Pablo Capilé, o Fora do Eixo e a Mídia Ninja

A semana foi uma montanha-russa para a rede Fora do Eixo, e um de seus braços midiáticos, a Mídia Ninja. Pablo Capilé, gestor do Fora do Eixo, e Bruno Torturra, coordenador de comunicação do FDE, e face da Mídia Ninja, começaram dando baile em baluartes da imprensa no programa Roda Viva, na segunda (5). E chegaram à quinta sob ataque cerrado, enfrentando denúncias, e principalmente depoimentos impactantes de ex-integrantes do Fora do Eixo.

Eu já tinha publicado uma entrevista com Bruno. Na terça (9), comentei o Roda Viva. Na quarta (10), convidei Pablo para uma entrevista aqui no blog, e ele aceitou. Na quinta, enviei as perguntas abaixo. No mesmo dia, Capilé as publicou em seu perfil no Facebook.

Eu não pretendia publicar as perguntas sem resposta. Mas já que ele tomou a iniciativa, e disse que vai respondê-las nos próximos dias, deixo aqui registradas também.

O "algumas" do título é brincadeira. São um monte. E muitas outras não incluí. O Fora do Eixo é complexo. Não foi nenhum grande esforço de reportagem. Minha pesquisa levou algumas horas, três telefonemas, e
tive a sorte de contar com algumas fontes muito bem informadas.

O mais estranho não é que eu tenha elaborado tantas perguntas. O mais estranho é que eu, que tenho um simples blog, e outro emprego, tenha feito isso tão fácil e tão rápido. E a imprensa - tradicional ou independente - jamais tenha se dado ao trabalho.

Abaixo, a íntegra do email que mandei para Pablo Capilé e Bruno Torturra.

Oi Pablo,

aí está. Um questionário e tanto!
E olha que ainda cortei muitas perguntas.
Como você sabe, o Fora do Eixo tem muitos críticos.
E todo mundo resolveu me procurar, quando anunciei que preparava uma entrevista contigo...
Dei uma boa peneirada. Mesmo assim sobrou um tanto de perguntas provocativas.
E outras que são bem pragmáticas mesmo.
As regras são as mesmas da entrevista que fiz com o Bruno Torturra: as suas respostas serão publicadas na íntegra e nesta mesma ordem. Só editarei se for realmente necessário, e somente por questões de espaço e de padronização de texto do R7.
Confirma se recebeu, OK?
Obrigado, abraço

capile  Algumas perguntas para Pablo Capilé, o Fora do Eixo e a Mídia Ninja

André

título: Uma entrevista com Pablo Capilé, gestor do Fora do Eixo

Quantas organizações compõem a rede Fora do Eixo?

O que elas são - empresas, ONGs Oscips?

Quantos CNPJs?

Cada uma tem autonomia para captar recursos e participar de editais independentemente, ou há uma coordenação nacional?

Existe um caixa único?

O que é o Banco Fora do Eixo?

Existe uma prestação de contas unificada, ou cada organização presta contas separadamente?

Qual é o total de recursos que a rede Fora do Eixo recebeu em 2012?

Quanto destes recursos veio de editais, quando de patrocínios e apoios, quanto de festivais, e quanto de outras fontes?

Quanto veio de recursos públicos, seja via editais, patrocínios, publicidade ou qualquer outra modalidade de apoio?

O Fora do Eixo defende a transparência e afirma que suas contas e planilhas estão à disposição de quem quiser. Onde estão disponíveis planilhas que dêem conta de todas as movimentações do FDE?

A área de "empreendimentos" do site do FDE está em manutenção pelo menos desde fevereiro passado. Por quê?

Esta planilha de prestação de contas é difícil de analisar. Às vezes os valores aparecem em número, às vezes por extenso, o que dificulta a soma direta. Por quê?

A cada ano, nesta planilha, há projetos que não incluem resultados. A gente sabe que às vezes fica para outro ano. De todos os projetos apresentados pelo FdE, qual a proporção que é aprovada e qual a proporção rejeitada?

O FDE já afirmou que 7% do total de seu orçamento vem de dinheiro público. No Roda Viva, você falou em 5%. Isso indica que o FDE tem um orçamento consolidado. Tem ou não tem? Se tem, você pode divulgar?

E onde estão as informações sobre os investimentos de empresas privadas e receitas de outras atividades, que somam esses 95%? Esta planilha divulgada pelo FDE não contém valores nesse montante.

O que é a Universidade Fora do Eixo?

Quantos estudantes e quantos professores estão na Universidade Fora do Eixo?

Os estudantes pagam? Quanto?

O site da Universidade Fora do Eixo lista dezenas de docentes. Eles recebem? Quanto?

Alguém já se formou nessa Universidade?

Qual é o orçamento da Universidade FDE, e quem gere este orçamento?

No site da Universidade Fora do Eixo, há um crédito: "Realização: Ministério da Cultura, Petrobras, Fora do Eixo", com os logotipos. Qual a participação, e o investimento financeiro, do Ministerio da Cultura e da Petrobras na Universidade Fora do Eixo?

A Petrobras vem sendo um grande apoiador das iniciativas do Fora do Eixo. O FDE já indicou alguém para participar das instâncias que decidem os patrocínios da Petrobras?

O Fora do Eixo já apoiou candidatos a cargos públicos? Quem?

O Fora do Eixo já indicou alguém para participar de governos? Quem?

Embora o FDE tenha entrado de cabeça no movimento Existe Amor em SP, contra Russomano e pró-Haddad, a secretaria de cultura de São Paulo está com Juca Ferreira, e com o chefe de gabinete Rodrigo Savazoni. Savazoni é da Casa de Cultura Digital e independente do Fora do Eixo. Você acha que o FDE mereceria mais espaço na gestão Haddad?

Quantas pessoas trabalham em período integral na rede Fora do Eixo?

É obrigatório para quem trabalha em período integral no FDE morar nas Casas Fora do Eixo?

Qual é a faixa etária dessas pessoas?

Três pessoas diferentes me disseram que os integrantes do Fora do Eixo são pressionados a se relacionar amorosamente somente com outros integrantes do FDE. Quem quiser namorar com alguém de fora é convidado a sair do FDE. É verdade ou mentira?

Há relatos de que uma criança mora em uma Casa Fora do Eixo, apelidada "Bebê 2.0". Seria filho de dois militantes do FDE, mas seria criada coletivamente, por vários "pais" e "mães". O pai e mãe biológicos não teriam poder paterno sobre a criança. É verdade?

O Fora do Eixo criou diversas moedas virtuais: Cubo Card, Goma Card, Marcianos, Lumoeda, Palafita Card e Patativa. Como elas são utilizadas?

Por quê criar diversas moedas, e não uma só?

Essas moedas virtuais podem ser trocadas por reais? Se sim, qual o câmbio? Se não, por quê não?

Quem trabalha para o Fora do Eixo recebe em moedas virtuais. Se sair do FDE, o que vai fazer com suas moedas virtuais?

No site da Casa Fora do Eixo, há, em destaque, um logotipo da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Qual o valor do apoio da Secretaria à Casa Fora do Eixo?

O Estado de São Paulo é governado pelo PSDB. O Fora do Eixo aceita apoio de governos de qualquer partido?

O governador Geraldo Alckmin foi o principal alvo das manifestações em São Paulo. Você vê alguma contradição em receber apoio de um governo e militar contra ele?

A homepage do Portal Fora do Eixo traz três patrocínios federais: Ministério da Cultura, programa Cultura Viva e Programa Mais Cultura. Isso não provoca no leitor uma ideia imediata de vinculação entre o FDE e o governo federal?

O que é o Partido da Cultura? É ligado ao Fora do Eixo?

No site do Partido da Cultura, o último post é de janeiro de 2012. No twitter, de março de 2012. Ele está ativo? Pretende se constituir como partido regular e disputar eleições?

O FDE vem se aproximando de Marina Silva e seu projeto de partido, a Rede, inclusive colaborando na campanha de assinaturas. Há alguém indicado pelo FDE na executiva da Rede?

Se Marina Silva vencer a eleição para presidente, o FDE pretende indicar o ministro da cultura?

O Fora do Eixo costumava proclamar a política do "pós-rancor". O termo "pós-rancor" é criação de Claudio Prado, chefe do programas de cultura digital do Ministério da Cultura na época de Gilberto Gil e Juca Ferreira. Segundo a teoria do pós-rancor, as tensões entre capital e trabalho estão superadas, o conflito agora é entre quem tem informações e quem não tem. Cláudio Prazo é muito próximo do FDE, tem até programa na Pós TV. Mas nas manifestações de rua, o que não falta é rancor e polarização, ainda mais nos últimos protestos. O "pós-rancor" morreu?

Uma fonte me disse que o Fora do Eixo costuma apoiar determinados candidatos em eleições municipais e estaduais, com os militantes trabalhando diretamente nas campanhas. Se o candidato vence, o Fora do Eixo indica gente para a secretaria de cultura, geralmente pessoas que não são do FDE, mas próximas. Seriam mais de dez secretários da cultura no Brasil. É verdade?

A Mídia Ninja, como a Pós-TV, é do Fora do Eixo. O FDE recebe verbas de grandes corporações, como Vale e Petrobras. O Fora do Eixo financia a Mídia Ninja, que critica o grande capital, e principalmente a grande mídia. Afinal, FDE e a Mídia Ninja são contra o grande capital ou a favor?

Diversos apoiadores do FDE trabalham ou trabalharam na grande imprensa. A principal figura da Mídia Ninja, Bruno Torturra, trabalhou anos na Editora Trip, chegando a diretor de Redação. Contratou, demitiu, controlou orçamentos. Além da Trip, a editora faz revistas pra grandes corporações, como Gol, Pão de Açúcar e Audi. Seu emprego mais recente foi na TV Globo, como redator do programa Esquenta, com Hermano Vianna e Regina Casé. Você vê alguma contradição nisso?

Você acha que quem participa dos protestos tem consciência de que a Mídia Ninja e o FDE recebem apoio financeiro de grandes empresas, e governos de diversos partidos?

O Fora do Eixo costumava ser muito ativo nas redes sociais. Mas no auge das manifestações em S. Paulo, você abandonou o Twitter. Entre 11 e 18 de junho, não publicou nada, sendo que a manifestação em que a repórter da Folha foi ferida no olho aconteceu no dia 13. Coincidentemente, o twitter do Fora do Eixo tb não publicou nada entre 13 e 22 de junho. Vc só voltou ao twitter pra divulgar as transmissões da Mídia Ninja e pra anunciar que o prefeito Haddad ia baixar as tarifas. Por quê?

No começo deste ano, o Fora do Eixo publicou na internet o glossário do FDE: termos que devem ser conhecidos e usados por todos os militantes. Outros coletivos fizeram críticas, o FdE tirou o texto do ar, depois republicou, mas com alterações. A principal: eliminou o verbete "choque pesadelo". O verbete era assim:  "Choque pesadelo: Embate conveniente direcionado a alguém que vem conflitando ideias através de críticas não propositivas que desestimulem uma pessoa, ou grupo. O choque pesadelo serve como uma fala direcionada que busca esclarecer situações através do "papo reto". Ex. Tivemos uma conversa franca que serviu como choque pesadelo para ele. Ler também "papo reto". Pode explicar?

Muitos críticos do FDE dizem que o Fora do Eixo é uma seita, com regras rígidas para todas as ocasiões. O fato de existir um glossário tão detalhado não dá razão aos que criticam o FDE por ser uma espécie de seita?

O que é "catar e cooptar?"

Embora o FDE se apresente como uma rede, ex-integrantes do FDE dizem que a estrutura é totalmente verticalizada, e que você é como um guru na organização - jamais é questionado por ninguém. Quais outros integrantes do FDE têm influência próxima à sua?

Muitos coletivos de esquerda e movimentos populares não se dão com o Fora do Eixo. É o caso do Movimento Passe Livre, do MST, Movimento Hip Hop, Ocupa São Paulo e vários outros. A que você atribui essa rejeição?

Um conhecido jornalista de esquerda, José Arbex, escreveu um texto com críticas pesadas ao Fora do Eixo, em 2011, na revista Caros Amigos: "Lulismo Fora do Eixo". Ele conta que durante a preparação da Marcha pela Liberdade, em maio de 2011, você mencionou a possibilidade de a Coca-Cola patrocinar a marcha, e que a Coca nem fazia questão de sua  marca aparecer --era só pra ficar bem com os movimetos progressistas. Outros coletivos rejeitaram o patrocínio. Várias pessoas contaram a mesma versão dessa história. Isso é verdade? Se não é, exatamente o que você disse nessa reunião? Se isso não é verdade, o que foi que você disse nessa reunião?

O coletivo de esquerda chamado Passa Palavra se destaca nas críticas ao Fora do Eixo. Em um texto muito alentado, de 2011, eles afirmam que: a) o Fora do Eixo tem 57 CNPJs diferentes; b) o FDE é uma máquina de ganhar editais, que floresceu nas gestões de Gilberto Gil e Juca Ferreira no MinC, por meio do programa Cultura Viva, dirigido pro Claudio Prado. Segundo o Passa Palavra, o FDE participava da elaboração de editais da área digital do Minc, editais esses que eram vencidos pelo próprio FDE. Como você responde a essas acusações?

O Fora do Eixo começou em Cuiabá, com o Festival Calango. Esse festival não existe mais, apesar do crescimento do FDE. Por quê?

Você já disse defendeu várias vezes de que os artistas que tocam em festivais não deveriam receber cachês. Por quê?

Se os artistas não ganham para tocar, não ganham para divulgar música na internet, e o mercado de discos está em baixa, do que os artistas devem viver?

O FDE agencia shows? De que artistas? Como o FDE é remunerado por agenciar shows?

Os festivais independentes de rock brasileiros eram reunidos, desde 2005, numa entidade chamada Abrafin. Qual a relação atual entre a Abrafin e o Fora do Eixo?

Em 2011, treze festivais independentes, incluindo alguns dos mais importantes do Brasil, como o Goiânia Noise e o Abril Pro Rock (de Recife), abandonaram a Abrafin. Alegaram que o FDE tentava impor um paradigma único a todos os festivais. E que os festivais se viam obrigados a chamar sempre os mesmo artistas ligado ao FdE. O que aconteceu de fato na Abrafin?

Você tem a informação de que festivais que abandonaram a Abrafin passaram a receber menos patrocínios? A que atribui isso?

Vários artistas - o cantor China, o Daniel Peixoto (do Montage) e o Márvio dos Anjos (do Cabaret), entre muitos outros - relatam que os festivais do Fora do Eixo têm como características a infraestrutura muito simples e o não-pagamento de cachê, exceto em casos muito excepcionais. Se a infraestrutura é básica, não tem cachê, e os festivais são feitos com dinheiro de editais, para onde vai o dinheiro que sobra? Ou não sobra?

A cineasta Beatriz Seigner divulgou ontem um longo depoimento no Facebook. Cita um jantar na casa da diretora de marketing da Vale, onde ela e você estavam. Segundo o texto dela, você disse que "era contra pagar cachês aos artistas, pois se pagasse valorizaria a atividade dos mesmos e incentivaria a pessoa ‘lá na ponta’ da rede, como eles dizem, a serem artistas e não ‘DUTO’ como ele precisava. Eu perguntei o que ele queria dizer com “duto”, ele falou sem a menor cerimônia: “duto, os canos por onde passam o esgoto”. Esse diálogo aconteceu?

Beatriz também diz que seu filme Bollywood Dream - O Sonho Bollywoodiano foi exibido em sessões que contavam com patrocinadores, mas que o dinheiro ficou sempre com o Fora do Eixo; ela não recebeu nada pela exibição durante os festivais Grito do Rock, e só conseguiu receber o dinheiro do SESC depois de muito insistir com o FDE. Isso é verdade?

Diz que lhe foi pedido que seu filme tivesse o crédito "Realização Fora do Eixo", embora o filme não tenha sido produzido pelo FDE. Isso é uma prática comum? Você considera isso um pedido normal?

Todo o depoimento de Beatriz é muito crítico ao FDE e a você pessoalmente. Como você responde a ele?

"Fora do Eixo" é marca registrada. O registro no INPI é da Globo Comunicação e Participações. Pode explicar? Aqui está o registro:

NCL(8) 3582861623009/08/2006FORA DO EIXORegistroGLOBO COMUNICAÇÃO E PARTICIPAÇÕES S.A.NCL(8) 41

O Fora do Eixo vem recebendo mais e mais críticas. Agora, também de ex-integrantes do FDE. Alguns preparam publicações de novos depoimentos contra o FDE. Certamente, a imprensa vai investigar ainda mais.

Com tanta publicidade negativa, dificilmente o FDE continuará recebendo apoios e patrocínios na mesma escala - afinal, empresas não querem risco na hora de escolher quem patrocinam. E necessariamente todas as contas do FDE serão examinadas com cada vez mais rigor. O Fora do Eixo - e portanto Mídia Ninja, Abrafin, Pós TV, Casas FDE, Universidade FDE etc. - está em risco de desmoronar de repente?

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Publicado em 23/04/2013 às 13:35

Boston, uma semana depois: não é o fim nem o começo

Tsarnaev brothers 010 Boston, uma semana depois: não é o fim nem o começo

O ataque à maratona de Boston vai chegando ao seu epílogo. Dominou - exageradamente - as atenções do mundo, durante uma semana. Agora um dos responsáveis está morto, outro ferido e preso. Restam os detalhes dos porquês. Como nenhum porquê é suficiente para explicar tamanha maldade, o assunto vai sumindo do noticiário. Fim.

Ou não? Talvez seja o começo de algo novo e diferente. Talvez não hajam mais começos e fins. Os posfácios têm sido os momentos mais iluminadores da história. Durante uma semana, Boston rendeu entretenimento minuto a minuto, caçada aos assassinos de inocentes, a população em fuga, soldados nas ruas da metrópole - Hollywood perde. Agora chegou a hora de discutir o que o filme significa.

Foi exagero. A televisão americana exibia incríveis modelos 3D em computação gráfica dos bairros de Boston, e onde o fugitivo poderia estar. Mas talvez estivesse mais pra lá. Ou acolá. E talvez estivesse armado, e talvez não. E talvez fosse muçulmano, ou não. Na falta do que dizer, e na obrigação de continuar dizendo qualquer coisa, vieram chutes e barbeiragens veio aos borbotões. A internet reciclou tudo, e abriu as comportas para maremoto ainda maior de besteirol.

No minuto que eu soube do ataque, profetizei no Twitter: aposto dez dólares que é obra de um americano psicopata. O FBI concorda. Um diretor declarou anteontem que o ataque de Boston teve mais a ver com as ações alucinadas, como a de Columbine, do que com um ato político. Está mais para dois garotos americanos revoltados com os colegas, do que com dez milhões de garotos do mundo islâmico revoltados com a América.

Tamerlan Tsarnaev

Mas o que importa o que diz o FBI? A agência está sendo questionada de todos os lados. Por que não previu o ataque? Por que não prendeu os irmãos antes? E será que é isso mesmo que aconteceu, ou será que o FBI está acobertando outras razões para o ataque, e outros culpados?

Disse o que tinha a dizer logo no início, e depois mantive a máxima distância possível da história. O mal contamina, a burrice contagia. Se manter informado sobre o que te importa é prazer, sobre o que deve te importar é obrigação. Mergulhar na cascata de desinformação é masoquismo, catucar a feridinha pra ver se infecciona.

Hoje interneto à procura de uma compreensão maior do ataque. Chafurdo em lagoas de análise e palpitol. A história de Boston não domina mais as homepages, mas rende em dobro nas colunas de opinião e nas redes sociais, como o Aleph da lenda, infinitas histórias convergindo no mesmo buraco negro. Alguns reflexos:

- Amanda Palmer, cantora e compositora, escreveu um poema assumindo o ponto de vista do irmão que sobreviveu.  Amanda se propõe provocadora e perigosa. É o que era no início da carreira: cabaré, agora mais famosa, porque casada com o astro da fantasia e quadrinhos, Neil Gaiman. A Poem for Dzhokhar revolta os americanos, com exceções no campo ultraliberal.

Há quem peça a cabeça de Amanda, por escrever coisas como "você não sabe mais em que acreditar... você não sabe ajustar o espelho retrovisor." Ela aproveita o barulho e publica outro texto em seu blog, agora explicando como criou o poema. Queria escandalizar. Conseguiu.

David Sirotta causou logo no início do caso, escrevendo um artigo cujo título era "Espero que o assassino de Boston seja branco." Seu argumento é: se forem árabes, isso seria mais um degrau na escalada de incompreensão e violência entre muçulmanos e cristãos e judeus, e argumento para leis de imigração mais duras nos EUA. David diz: se o culpado for ítalo-americano, não bombardearemos Roma...

Sirotta deve ter imaginado que ia ouvir bastante por seu texto. Não podia esperar que ia levar dura apesar de estar certo. Assim que os culpados foram identificados, foram pintados como estrangeiros, não-americanos, não brancos. Mas nos Estados Unidos, imigrantes de origem russa, chechênia, cazaque são considerados brancos pelo governo federal. Os irmãos eram americanos, se vestiam como americanos, viviam como americanos. E eram mais que brancos que eu - eram literalmente caucasianos.

- Há quem garanta que os irmãos não têm nada a ver com o peixe. Seria tudo uma grande conspiração. Os culpados seriam outra dupla, e aliás ligados a uma empresa de segurança muito suspeita. Viagem de doidão? O autor da acusação montou uma peça bem convincente. Alguns compraram. Os vídeos têm milhões de visualizações no YouTube. Decida por você mesmo se é balela, ou suficiente para te colocar uma pulga atrás da orelha. Veja mais aqui.

Ou se preferir, em vídeo:

Boston Marathon Bombing is Staged Terror Attack por perolasblogs no Videolog.tv.

- Por um dia ou dois, a imprensa bateu na tecla dos videogames, como previsto no roteiro: "Há relatos de que Dzhokhar costumava jogar games violentos". O melhor cala-boca veio no Twitter: "é a mesma coisa que dizer que ele era um cara de 19 anos e morava no planeta Terra em 2013".

- Quando as explicações se dividem entre uma teoria conspiratória toda complicada, ou a simples incompetência e lambança, a segunda é sempre mais provável. A mídia americana ajudou a encobertar os verdadeiros culpados? Ou simplesmente enfiou os pés pelas mãos, desesperada por audiência e relevância, mais espectadores, mais cliques? Aposte no óbvio. O Huffington Post até criou um vídeo com os momentos mais constrangedores da cobertura de Boston.

- Os Tsarnaev pelo jeito eram mesmo radicais islâmicos. Muita gente politicamente correta demais diz que é injustiça caracterizá-los assim. Mas Tamerlan, o mais velho, vem sendo descrito por membros da própria comunidade muçulmana de Boston como radical e agressivo, e pela própria família como irascível e truculento. Quer apostar que tinha grande influência sobre o irmão adolescente e o levou no embrulho? Leia aqui.

Sou obrigado a discordar do FBI e da minha primeira impressão. Não é Columbine. Os irmãos não mataram só para causar o caos. Tem uma causa em algum lugar aí. Mas eles não se martirizaram, como os do 9/11, ou os homens-bomba da Intifada. É algo novo e diferente.

- O escritor Douglas Rushkoff honrou seu papel de teórico da mídia. Também viu novidade e diferença, mas de outro gênero. No calor dos acontecimentos, foi crítico, sem abrir mão de ser compassivo. Traduzo alguns destaques de sua coluna na CNN.com, com o título "Terror em Tempo Real":

"Não é uma questão de como reagir a uma crise, ameaça ou tragédia em particular, mas de como lidarmos com o próprio fluxo persistente de urgência... interruptiva ou crônica, a ansiedade continua vindo e vindo... vivemos em um Estado de Choque Presente".

"Nenhuma das narrativas usuais se aplicam. Não vivemos mais em um mundo com começos, meios e fins. Esta estrutura obsoleta foi para o lixo com a Era Industrial... Não planejamos mais nossas carreiras, não investimos mais no futuro. Nós ocupamos, frilamos, negociamos derivativos. Tudo acontece no Agora. Mesmo o Terror."

"Não enfrentaremos mais inimigos no sentido normal. Não podemos começar uma guerra ao terror e declarar vitória quando acabarmos... os desafios da sociedade pós-industrial é menos conquistar e mais administrar preocupações permanentes. O óleo está derramando, o clima está mudando, terroristas estão planejando. Crises não são solucionadas para o futuro, são gerenciadas no presente."

"Só nos libertando das narrativas antiquadas em que nos apoiamos, podemos começar a reconhecer os padrões no aparente caos. Podemos não encontrar respostas que nos mobilizem, nem finais dramáticos e satisfatórios. Mas também não precisaremos inventar histórias emocionantes e falsas para nos motivar a agir."

"Em um mundo em que as crises são constantes e perpétuas, é melhor começar a desenvolver abordagens mais sustentáveis para solucionar os problemas em tempo real, do que pensar em resolvê-los definitivamente. A vida continua."

É.

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Publicado em 14/12/2012 às 18:45

Veríssimo vive

(Me ligaram do R7 duas semanas atrás: Veríssimo está muito mal. Pode morrer. Você quer escrever sobre ele? Era sexta à tarde. Sábado  caí da cama com o texto pronto, derramado, pessoal. Despachei para o R7 com a encomenda: "para só ser publicado caso ele morra. Espero que saia daqui uns dez anos." Exatamente duas semanas depois, Veríssimo deixa o hospital, ufa. Não vou aguardar dez anos. Vais ler teu obituário vivinho, mestre. E podes esperar por um telefonema...)

A verdade de Veríssimo

 Veríssimo vive

Luiz Fernando Veríssimo escreveu demais. Nos cercava: em jornais, artigos em infinitas revistas, roteirizando tantos programas de televisão, desenhando cartuns e tiras, tradução disso e daquilo, toda hora um novo título nas livrarias, mais de sessenta. Escrevia como Fred Astaire dançava. Da maneira mais difícil: fazendo parecer fácil.

Sua produção prodigiosa fez dele parte previsível do cenário. Veríssimo, que passou a juventude nos Estados Unidos, e era louco por jazz, foi raridade no nosso país: um working writer, um cara que vive de escrever. Era parte do nosso dia, como um pôr do sol, que, precioso, não nos encanta, por sua entediante regularidade. Li Veríssimo a vida inteira, intermitentemente. Escrevesse ele a cada dois anos um romance, e nada mais, talvez o valorizássemos mais. Teria na certa status literário diferente. Quem sabe se sentiria desafiado a mergulhar mais fundo?

Não. Sua matéria prima era o cotidiano, os momentinhos de que o caleidoscópio da vida é feito. Escrever um romance demanda arrogância. Ele os escreveu, como escreveu todo tipo de coisa. Mas só na última temporada, a maioria de encomenda, para coleções temáticas. Não era de sua natureza, nem o melhor uso de seu talento sofisticado e acessível, se dedicar a uma coisa só.

Era caminho já percorrido por outro Veríssimo. Seu pai, Érico, foi obrigatório na minha geração, tanto quanto Jorge Amado ou Graciliano Ramos. Contemporâneos dos nossos avós, nos transmitiam a imagem de um país rural, brutal, encantador, perdido; Érico, de um sul épico, mítico, másculo. Imagine o peso de se tornar um escritor e assinar Veríssimo, sendo filho de quem foi. De novo: Veríssimo fez parecer fácil.

Incrivelmente, além do Veríssimo dos romances, das crônicas e causos, tivemos o privilégio de conviver com o Veríssimo cartunista. O Veríssimo das tiras das Cobras. O Veríssimo da televisão, das Comédias da Vida Privada. O criador do Ed Mort, do Analista de Bagé e da Velhinha de Taubaté. O personagem Veríssimo, que expunha suas fragilidades e angústias, sem grosseria nem exibicionismo. E o Veríssimo jornalista, observador agudo e cético, mas sempre otimista, do Brasil e do mundo. E sempre transparente em suas posições.

No meio, era conhecido pela generosidade. Principalmente com os colegas mais jovens, de jornalismo, literatura e cartum. Um exemplo só: já muito famoso, escrevia de graça todo mês para a revista Caros Amigos, quando foi lançada, meio dos 90. Projeto independente, de esquerda, não tinha verba para os colaboradores. Tenho o orgulho de ter meu nome ao lado do seu, no sumário da revista, naqueles primeiros anos. Me arrependo de nunca tê-lo procurado. Estava ao alcance de um telefonema. Ele era tímido, eu também fui.

A vida passou. Perdi a chance. E o que eu ia dizer a Luiz Fernando Veríssimo?  Que seu trabalho me faz questionar o meu trabalho? Que ele era uma referência única de escritor profissional no Brasil? Um compasso ético pelo qual o melhor Brasil se guiou? Que era admirável como enfrentava as certezas de sua dúvida? Que usava pontos e vírgulas melhor que ninguém?

Veríssimo não deixa obra-prima. Nos deu mais: sua verdade. Uma visão pungente, irônica, compromissada e muito pessoal de quem fomos e somos. E marca do gênio: de quem sempre seremos.

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Publicado em 31/10/2012 às 14:54

O que a compra da Lucasfilm pela Disney (não) significa para as empresas de comunicação do Brasil

George Lucas vendeu a Lucasfilm, que fundou e da qual era o único proprietário, por US$ 4 bilhões. Quais os ativos da Lucasfilm? Luke, Yoda, Indy: um grupo de personagens que saiu da cabeça de Lucas, de seus funcionários e colaboradores. De mais importante ainda: a relação pessoal que muitos milhões, talvez bilhões, de seres humanos têm com esses personagens.

Sim, a Disney comprou os seis filmes de Star Wars, os quatro de Indiana Jones, as séries para TV desses personagens, um prédio aqui, outro penduricalho acolá. Isso tudo tem valor. Mas o valor real está no futuro: na exploração comercial das próximas histórias de Star Wars e Indiana Jones, o que inclui não só bilheteria, mas merchandising, interatividade e integração com outras propriedades da Disney.

geroge lucas O que a compra da Lucasfilm pela Disney (não) significa para as empresas de comunicação do Brasil

E o que é a Disney? Às vezes as pessoas se distraem e pensam que é um estúdio que faz desenho animado. A Disney é o maior conglomerado de mídia do mundo. Em 2011, faturou quase 41 bilhões de dólares (USD 40.893.000,00, se preferes). A Disney comprou nos últimos anos:

— Marvel, estúdio e editora de gibis de super-herói

— Pixar, estúdio de animação

— Muppets, o Caco, a Miss Piggy, etc.

— a comunidade infantil online Club Penguin

— a rede de TV ABC

— o canal esportivo ESPN

— agora, a LucasFilm

E a Disney também é dona:

— da produtora de videogames Disney Interactive

— dos canais Disney XD, Disney Channel, e da Rádio Disney

— da gravadora Disney Music

— da Disney World e de outros 13 parques espalhados pelo mundo

 

logo O que a compra da Lucasfilm pela Disney (não) significa para as empresas de comunicação do Brasil

— e mais várias outras coisinhas menos importantes.

Se você analisar de onde vem a receita da Disney, vai descobrir que o grosso vem de seus personagens. Como foi a divisão em 2011, arredondando os números:

— 6,3 bilhões de dólares dos estúdios

— 3 bilhões de produtos

— 11,8 bilhões dos parques e dos cruzeiros

— 18,7 bilhões de suas empresas de mídia

— 1 bilhão de internet e games

A única coisa aí que não é 100% propriedade intelectual da Disney são as empresas de mídia. Nem tudo que é exibido nos canais de TV abertos, pagos, rádio etc. da Disney são da Disney, embora boa parte seja.

Mas o grosso da receita do grupo vem, sim, de propriedades intelectuais da Disney. Bichinhos falantes, Vingadores, Piratas do Caribe e companhia. Boas histórias com esses personagens garantem boa bilheteria, boa audiência, muita gente nos parques. E boas vendas de produtos com suas imagens, produtos estes que são licenciados a fabricantes em troca de belos royalties.

Os parques, canais, rádios etc., geram rios de dinheiro. Mas sua importância maior é como plataforma de distribuição dos personagens. A Disney World e o Disney XD são a Apple Store da Disney, uma maneira da empresa controlar a apresentação de seus personagens, e encantar seus fãs.

Por que a Disney é capaz de ter uma empresa tão grande como essa, fundamentada em algo tão rarefeito como personagens fantásticos? Várias razões:

a) eles sabem manter vivo o interesse por seus personagens

b) sabem executar muito bem

c) controlam um mix bem balanceado de conteúdo e distribuição

d) diversificam sem perder o foco na tal Family Magic

e) a receita é global; quando a crise atrapalha em um país, a Disney se dá bem em outro canto

f) são as histórias, estúpido! No final, é tão simples quanto isso: a Disney é a melhor contadora de histórias do mundo.

Não quer dizer que a Disney não tenha cometido erros cretinos no passado, ou não vá cometer outros no futuro. Frequentemente, dá suas tropeçadas (uma recente e bem visível: o fracasso monstro da saga espacial John Carter de Marte). E considerando o tamanho de suas outras divisões, ainda é muito pequena em internet e games, apesar do fenômeno Club Penguin.

Mas não dá pra imaginar uma situação como a de 25 anos atrás, quando a Disney estava às portas da falência. A compra de uma grande publisher de games é o próximo movimento lógico para a Disney. A EA, com suas megafranquias de esportes, tem encaixe perfeito (eu adoraria ver uma improvável associação entre Disney e Nintendo, a única gigante dos games com personagens tão carismáticos, e bem cuidados, quanto os da Disney). E o movimento lógico seguinte é a aquisição das versões regionais, ou pan-regionais, da Marvel, LucasFilm, e Club Penguin.

O que o Brasil tem a aprender com a aquisição da Lucasfilm pela Disney?

Bem, aqui não tem nada parecido com a Disney. As empresas brasileiras especializadas em contar histórias, no Brasil, são editoras, que só pensam em termos de livros, ou os grandes grupos de comunicação. Quanto a esses:

— produzem todo seu conteúdo ou compram enlatados gringos

— não são diversificados, dependem fundamentalmente de publicidade

— não investem em propriedades intelectuais permanentes (novela acabou, o personagem morreu)

— não pensam em termos globais

— não têm plataformas de distribuição extramídia

— não têm plataformas eficientes de distribuição internacionais

— não trabalham o licenciamento como item fundamental na geração de receitas

— não se preocupam em identificar e adquirir propriedades intelectuais de terceiros

— não pensam em si próprios como empresas que precisam ser excelentes em serviço

— como regra geral, investem pouquíssimo em plataformas digitais, como internet, mobile e games.

Portanto, as grandes empresas de comunicação brasileiras são muito frágeis. Têm um modelo de negócios que qualquer ventania leva, que dirá o furacão permanente do século 21. Isso é que devia estar preocupando os seus executivos. E, aliás, a intelectualidade tupi, e o governo do Pindorama, porque um país que não souber contar histórias daqui para frente é um país sem alma nem futuro, um entreposto de commodities.

Infelizmente, aqui não existe nada parecido com a Lucasfilm. E poderia, pode existir. Uma propriedade intelectual na área de entretenimento, o que é? Ser um bom contador de histórias, em um ambiente que favoreça a remuneração de histórias bem contadas. Será que, em quase 200 milhões de brasileiros, não temos uma meia dúzia capaz de criar universos tão atraentes quando os de Star Wars ou Indiana Jones?

Claro que temos o Sítio do Picapau Amarelo, a Galinha Pintadinha, o Menino Maluquinho, personagens e mundos que atraem muita gente. Mas não com escopo e ambição de universo ficcional multiplataforma... Uma possível e única exceção me ocorre: Maurício de Sousa Produções. O Cebolinha é nosso Anakin, o Horácio é nosso Yoda. Arrisca Maurício receber antes do que imagina uma visita do rato que ruge... Mas ainda é muito pouco para um país como o Brasil. Caramba, a Finlândia, que é do tamanho de Jundiaí, conseguiu criar os Angry Birds, um bilhão de downloads no mundo, 50 milhões de dólares de faturamento só em merchandising!

 

Mauricio de Sousa 051 2 O que a compra da Lucasfilm pela Disney (não) significa para as empresas de comunicação do Brasil

O Brasil precisa entrar de vez na Economia Criativa, ou se render a vender minério e bife, e consumir pra sempre o mesmo folhetim. Isso tem a ver com criar um ambiente de negócios amigável para quem tem boas histórias para contar — seja em um livro, um gibi, um desenho, um game. Tem a ver com as grandes empresas de comunicação arejarem as ideias e, francamente, se espelharem no exemplo da Disney. E tem a ver com a gente usar a cabeça para criar histórias que vão nos encantar e durar. Estamos no século 21 — e, quem tem imaginação, tem a Força.

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Publicado em 15/08/2012 às 10:20

Lego comemora 80 anos contando sua origem em desenho animado

Lego Color Bricks ok Lego comemora 80 anos contando sua origem em desenho animado
Quem não adora Lego? Bem, eu. Custa muito caro, em qualquer lugar do mundo, e no Brasil é infame; some-se a isso que já tem um bilhão de kits legais, a variedade é infinita, e está sempre saindo coisa nova! Problema para pais nos cinco continentes. A gente dá umas voltas e pega uns atalhos.

Por exemplo: um game de Lego (o mais recente, Lego Batman 2, é sensacional; eu gosto de jogar com o Flash) rende bem mais horas de diversão que uma caixinha, que custa o dobro. Depois não tem que arrumar lugar embaixo da cama dos filhos, nem passar raiva com a bagunça de pecinhas desparceiradas. Não tem jeito. O negócio é se render.

Menti aí acima: adoro Lego. Que não existia na minha infância, mas curti demais os similares que existiam no Brasil dos primeiros anos 70, Polly e depois Hering-Rasti - que vinha com motorzinho à pilha! O escritor Michael Chabon tem um ensaio iluminado sobre isso. Conta que no começo, ficava irritado de comprar para os filhos esses kits de Lego supersofisticados, complicados para montar, repletos de peças específicas.

Que tinha saudade de sua infância, quando os blocos eram mais genéricos, provocavam mais a imaginação. Com o tempo, percebeu que as crianças montam só da primeira vez o modelo daquela caixinha. Depois ele vai sendo desmontado, se une aos outros zilhões de blocos bagunçados... e todas essas peças serão novamente recombinadas, e recriadas, e a brincadeira reinventada à exaustão.

Pra celebrar seus 80 anos, a Lego produziu um desenho animado contando a origem da empresa, desde os primeiros brinquedos de madeira criados pelo carpinteiro Ole. No original, em inglês, abaixo. Versão Disney da realidade, adocicada, um teco simples - dinamarquesa, não americana. Mas te desafio a não se emocionar. Ainda mais se você tem gravadas na memória umas mãozinhas tentando encaixar os blocos e pedindo: ajuda, pai?

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Publicado em 09/08/2012 às 04:30

Quando o crítico é mais importante que o artista

forasta1 ok Quando o crítico é mais importante que o artista

Impensável que Robert Hughes tenha nos deixado. Opa, ainda vivia? Só 74 anos? Imaginei morto há séculos, ou velho caquético. Pois não era o crítico de arte mais importante do mundo quando eu era um molequinho?

Hughes, celebrado por muitos e crucificado por outros tantos, estava na ativa sim senhor. Ignorância minha; ignoro a produção atual nas artes plásticas; nada contra; ainda estou me educando sobre o que aconteceu antes de 1939.

O Choque do Novo foi o que fez sua fama. Uma minissérie para a televisão sobre arte moderna e pós. Passou na TV Cultura? Tenho em VHS, imagine. Era aula para ver e rever muitas vezes; veja, se ainda não. Hughes, crânio, culto e humano, generoso nos elogios e impiedoso nos malhos, era figura única. Australiano, falava bem e escrevia melhor: estilo límpido e preciso.

Hughes, percebo agora, estava enbaralhado com Kenneth Clark no meu engarrafado cérebro. Nada a ver! Clark, esnobérrimo, mas também brilhante, tinha indisfarçada repulsa por arte contemporânea. Ele sim morreu faz tempo, 1983, acabo de conferir. De comum tinham só sotaques obtusos e uma minissérie sobre arte para a BBC.

A de Clark foi Civilisation, 1969, uma década antes de The Shock of the New. Civilisation, também tem bom livro adaptado, que li e treli, é um passeio pelas evolução das maravilhas arquitetônicas e artísticas que, somadas, dão bom resumo do que se chamava antigamente de civilização ocidental.

Visão fora de moda faz tempo. A única fé que a arte se permite hoje é no relativismo. Mas é preciso alma bruta para não se deixar comover pelo nosso melhor, as montanhas que já escalamos.

forasta 2 Quando o crítico é mais importante que o artista

Kenneth Clark em cena de Civilisation

Clark era confiável guia do eterno. Hughes, mestre do moderno, não ignorava o que veio antes, nem se rendia a panelinhas críticas ou acadêmicas. Seus obituários me contam de uma vida de prazer e dor, como todas, e de brilho e coragem.

São tantos outros livros que me envergonho de não ter lido - uma história da Austrália! Um guia de Barcelona! Goya! O próprio Culture of Complaint, que quebrou as duas pernas da América conservadora de esquerda e direita, li pulando. É tempo de conferir os poderes proféticos de Hughes, resgatar minha velha edição empoeirada, 20 anos já...

Na morte, Robert Hughes sobreviverá. Raro para artistas, ainda mais seus contemporâneos, e muito mais para um jornalista. Invejo.

Assista ao primeiro capítulo de O Choque do Novo:

The Shock of the New - ep 1 The Mechanical Paradise por perolasblogs no Videolog.tv.

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Publicado em 01/08/2012 às 12:46

Gore Vidal

Nunca houve ou haverá alguém remotamente parecido com Gore Vidal. Foi bonito, inteligente e cruel como um deus grego, um Apolo sulista. Morreu lenda e ruína aos 86 anos.

Mente e língua mantinham o fio. Sua morte enterra uma era. Vidal foi monumento a um tempo próximo que já cheira a antiguidade: quando escritores eram maiores que a vida e importavam. Foi famoso além de sua obra.

Romancista de prestígio, roteirista mercenário, vendeu seu talento a Hollywood e namorou Washington, sem nunca abandonar a literatura. Cortejou a celebridade e foi figurinha fácil em programas de  debates na TV.

Ativista, nunca abriu mão da independência irrascível. Não fugiu da raia política e jamais foi politicamente correto. Era elegante; um príncipe, se existissem príncipes americanos.

forasta Gore Vidal
Escreveu sobre seu tempo e romances históricos; farsas e ficção-científica; policiais de aluguel. Era mestre dos ensaios, onde não há quem se compare em elegância, clareza e provocação. Homossexual voraz, manteve o mesmo companheiro por 53 anos.

Também transou mulheres, algumas famosas. Parente de Jimmy Carter, foi do círculo dos Kennedy, que não temeu criticar, como a todos os presidentes que o seguiram, sem piedade. Amou a América tão profundamente que a abandonou, por Roma e depois, Ravello, jóia amalfitana, condizente com sua postura patrícia.

forasta 2 ok Gore Vidal

Inimigo feroz do establishment, era meritocrata intransigente. Lutou as principais batalhas de duas gerações. Elegeu os inimigos certos, e não os perdoava ou pedia desculpas. Quando morreu um deles, Gore fuzilou: "que descanse no inferno... onde encontrará aqueles que serviu durante a vida."

Merece homenagem além do meu tempo e talento. Traio algumas de suas pérolas, convertendo seu inglês delicioso ao meu português pedestre. E imploro: leia sua antologia de ensaios. United States: Essays 1952-1992 é imortal e será leitura obrigatória enquanto houver civilização.

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Nunca perco chance de fazer sexo ou aparecer na televisão.

Qualquer americano que queira concorrer à presidência deveria ser automaticamente desqualificado.

Toda vez que um amigo se dá bem eu morro um pouco.

O segredo do meu longo relacionamento: nunca faça sexo com quem você ama.

Estilo é saber quem você é, o que você quer dizer, e pouco se importar.

Não existem pessoas homossexuais ou heterossexuais. Existem atos homossexuais ou heterossexuais.

Não há problema humano que não possa ser resolvido se as pessoas simplesmente fizerem o que eu recomendo.

Não há boa ação sem punição.

As três palavras mas lindas da nossa língua: Eu te disse.

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Publicado em 25/05/2012 às 09:35

Magra, gorda ou gostosa?

forasta 1 ok4 Magra, gorda ou gostosa?

 Esta é Candice Huffine. Ela é uma modelo famosa. Está este mês na capa da revista espanhola S Moda. É americana e tem 27 anos.

forasta 2 ok2 Magra, gorda ou gostosa?

Candice já foi capa da Vogue Italia. É a do meio.

forasta 3 ok1 Magra, gorda ou gostosa?

Ela está neste editorial da W magazine. É a segunda. Clique aqui.

Essas são três modelos que fazem parte do time de Angels da grife de lingerie e cosméticos Victoria´s Secret.

 As Angels são consideradas as modelos mais sexy da indústria de moda. A do meio é a brasileira Alessandra Ambrosio.

forasta 4 ok Magra, gorda ou gostosa?

Esta é Candice, com pouca roupa, mostrando as dobrinhas:

 forasta 5 ok Magra, gorda ou gostosa?

Candice trabalha como modelo plus size. As outras duas que a acompanham na capa da Vogue também. O tamanho de roupa que ela usa é o 14, justamente onde começa a categoria plus size, ou seja, tamanho acima do normal. Aqui, seria o 42.

Um parâmetro: o tamanho médio usado pelas mulheres americanas é o 14, e o das inglesas é o 16, no Brasil 44. Quanto ao Brasil, não encontrei pesquisa parecida. Olhando a bunda das brasileiras (não que eu ande por aí fazendo isso) desconfio que chutar 44 não é arriscar.

Candice anda aparecendo muito. A ditadura da magreza extrema no mundo da moda está em xeque. A poderosa editora Condé Nast decretou que nenhuma edição global da Vogue terá modelos menores de idade, ou esqueléticas. Veremos.

Agora: se o tamanho que a americana Candice usa é exatamente o tamanho médio usado pelas americanas, porque ela é plus size?

Em outras palavras: Candice é média, magra, gorda ou gostosa?

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Publicado em 24/04/2012 às 15:19

O veneno no seu suco de laranja

200253696 001 O veneno no seu suco de laranja

Seu suco favorito é o de laranja? Estás com a maioria, no Brasil e no mundo. Tem coisa melhor que um sucão de laranja espremida na hora, dois cubões de gelo, dois canudos, no balcão da padaria? No café da manhã comprido do domingão? Ressuscita qualquer espírito. Vitamina C, azedume e doçura na medida certa, sempre um sabor ligeiramente diferente do último, e carboidratos de montão.

O epicentro da indústria da laranja no planeta Terra é o estado de São Paulo. É uma máquina de fazer dinheiro. Os plantadores de laranja no Brasil receberam no ano passado de doze a quinze reais para cada caixa de 40,8 quilos. Seja no suco da padoca ou no suco no Tetrapack, a margem de lucro sempre foi imensa. E visto que nossa economia cresce, e mais gente pode gastar, estamos tomando mais suco de laranja que nunca.

Pra fazer em casa é baratinho, mas demanda tempo, faz molhação na pia, há que dar fim no bagaço depois, e gera um custo de energia, ou elétrica ou do braço mesmo. Tem lugar que cobra dois reais, tem lugar que cobra sete, oito, ou mais, dependendo do frescor ou frescura do ambiente. Margem de lucro daquelas.

Por que então este ano a caixa de laranjas que valia doze reais vai cair pela metade, ou até chegar a três reais, segundo alguns analistas? Por que a laranja está em crise? O que vai acontecer com as cidades paulistas e mineiras cujas economias giram em torno do suco? E, principal para gente como a gente, nosso suquinho de todo dia vai cair de preço também?

A explicação oficial: tem veneno no seu suco.

Na safra 2011/2012, tivemos produção recorde de laranja. Nesta nova, teremos de novo uma superprodução. As empresas de suco de laranja estão com os estoques bem fornidos. Como vem mais um monte de suco por aí, elas não precisam se preocupar em garantir o suprimento a preço bom.

E o mercado externo está em queda. A responsabilidade principal é do governo americano. Mais da metade do suco de laranja consumido nos EUA é produzido no Brasil. Mas os Estados Unidos decidiram barrar a entrada de cargas de suco com Carbendazim, um fungicida muito usado em outros países, inclusive no Brasil. Isso espantou o consumidor americano. As vendas de suco brasileiro nos EUA caíram. Os citricultores brasileiros pediram um ano e meio para se adaptarem a estas novas exigências. Basicamente, vão ter que trocar por agrotóxicos mais caros. Com os quais os americanos não encrencam. Por enquanto.

Ironia - os produtores brasileiros gastam uma boa grana em agrotóxico para aumentar a produtividade, e agora que ela cresceu muito, a super oferta jogou os preços lá embaixo. Que frescos esses gringos, hem?

Bem, testes em laboratório indicam que altas doses de Carbendazim podem causar infertilidade. Os testículos dos ratinhos de laboratório basicamente explodiram. Na Austrália deu escândalo - tinha peixe nascendo com duas cabeças, todo tipo de deformidade. Altíssimas doses têm consequências seríssimas. Há caso de criança nos Estados Unidos que nasceu sem olhos, após a mãe ser exposta a uma dose alta de Benlate, parente do Carbendazim. Os países ricos decidiram que seu sucão de laranja, amigo, está envenenado.

É questão de política comercial? Os testes são precisos? Tem lobby na jogada? Que sei eu? Pelo sim pelo não, me garanto: aqui em casa só entra laranja orgânica. Não sou crente cego nas vantagens milagrosas da agricultura orgânica, mas uma é indiscutível: produto orgânico não tem agrotóxico. A desvantagem é que pago R$ 6,06 por um quilo de laranja pera - seis laranjas. É o preço de que será pago este ano por quarenta quilos de laranja ao agricultor!

Isso, para aqueles que conseguirem vender seu produto. Li hoje no jornal: especialistas dizem que um terço da produção total de laranjas do estado de São Paulo pode apodrecer no pé em 2012 - simplesmente porque, com estes preços tão baixos, não valerá a pena colher.

Tem algo muito errado com o mundo.

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Publicado em 16/04/2012 às 14:58

Thor Batista, um mês depois: o novo Brasil rico, o pobre e velho Brasil

Faz um mês que Thor Batista, o jovem filho do homem mais rico do Brasil, atropelou e matou um miserável ajudante de caminhão quando dirigia uma Mercedes SLR McLaren. Thor Batista não tinha álcool no sangue, Wanderson Pereira dos Santos tinha, diz a perícia. Thor guiava dentro da velocidade permitida, também disseram, mas tinha incríveis 51 pontos na carteira, aos 20 anos.

No dia 17 de março, todos pediam o couro de Thor. Ele é jovem, bonito e rico, e sendo assim, no Brasil é intocável. O outro era um pobre diabo. Thor, portanto, foi julgado à revelia no mesmo dia. Cortem-lhe a cabeça! Reação razoável mas desprovida de razão. Todo mundo deveria ser inocente até ser julgado culpado. Mesmo, especialmente, os que mais nos dão azia. Dias depois, a revelação: Thor já tinha atropelado uma pessoa antes. O velho não morreu. Foi ajudado. Subentendido: levou dinheiro. Ainda não é prova de culpa no caso de Wanderson.

Prejulgar um loirinho riquinho é tão imoral quanto prejulgar um pretinho pobrinho. Exigir justiça, nos dois casos, é obrigação e tarefa inglória. No Brasil os ricos jamais são julgados culpados. Nas raras vezes que sim, escapam sem punição. Deveríamos é ter feito do caso Thor um exemplo. Posso sonhar? Uma virada na história do Brasil: o momento em que dissemos ao mundo, e a nós mesmos, que aqui a lei vai valer para todos. Com apuração, perícia, presteza. Até chegarmos à verdade, doa a quem doer. Se Thor cometeu crime, que pagasse por ele. Se não cometeu, que fosse inocentado totalmente, e pudesse olhar a sociedade de cabeça erguida. Bonito, né?

ok Thor Batista, um mês depois: o novo Brasil rico, o pobre e velho Brasil

Brasil real: nem uma coisa nem outra. O processo provavelmente será arquivado, embora ninguém acredite na inocência de Thor. Porque é filho de bilionário. Pelo currículo de motorista que ignora as regras do trânsito. Porque o carro e a bicicleta foram removidos. Porque Eike disse desde o primeiro momento que seu filho era inocente (e o que deveria ter feito? Bem, Eliane Brum já discutiu brilhantemente a diferença entre ser pai e superpai). Porque a imprensa foi cheia de dedos com o caso, pelas razões previsíveis. Porque Lula ligou pra Eike pra prestar solidariedade. Porque Márcio Thomaz Bastos foi contratado para defender Thor.

Muitas razões, nenhuma prova contra Thor. Mas no que acredita a opinião pública? Bem, o advogado da família de Wanderson começou combativo, garantindo que ia exigir mundos e fundos de indenização. Thor garantiu que iria ajudar a família em tudo que pudesse. O que nós, brasileiros, entendemos: morto Wanderson, sua família realisticamente viu uma boa oportunidade de faturar. Embolsou seu cala-boca e tudo ficou por isso mesmo. Ora, comentou o meu amigo ali da banca de jornal, já que o cara morreu, pelo menos é uma chance para a família melhorar de vida...

Foi isso? Foi diferente? Jamais saberemos de fato, mas o martelo foi batido. Thor será inocentado, mas nunca será julgado inocente. Wanderson, segundo a polícia, é o ciclista bêbado que causou o acidente. Jamais terá justiça. Thor Batista também não - daqui trinta anos, ainda será o playboy irresponsável que matou o miserável e saiu na boa.

Fosse o contrário, um Wanderson com carteira estourada matando o filho de Eike Batista em circunstâncias idênticas, estaria livre? A única resposta honesta que um brasileiro pode dar: não. Thor simboliza o novo Brasil rico. Wanderson me faz pensar: pobre e velho Brasil.

 

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Publicado em 13/04/2012 às 06:00

A coisa mais importante que você precisa aprender: inglês

comu A coisa mais importante que você precisa aprender: inglês

Uma vez eu comecei uma palestra pra uma classe de estudantes de jornalismo assim: quem quer ser correspondente em Nova York? Metade levantou a mão. E quem aqui fala e escreve bem em inglês? Dois levantaram a mão. É a diferença entre ter um sonho e ter um objetivo.

Esses dias, num papo com gente já formada, na PUC, repeti a graça. O grupo tinha uns quinze, um terço levantou a mão. Melhorou bem a proporção. O que isso significa? Que inglês é cada vez menos um diferencial importante?

Aí perguntei: e quem aqui fala e escreve bem em mandarim ou cantonês?

Zero, como era de se imaginar. Mas a China não está cada vez mais importante? Será que não valia a pena aprender a língua dos caras? Um camarada lá me deu um bom cala-boca: mas os chineses falam inglês. É verdade, embora o sotaque pra gente complique bastante.

O ponto é que inglês é, de fato, o esperanto que esperávamos. Quem tem inglês bom tem muita vantagem na vida. Pra viajar, pra estudar, pra trabalhar, para entender e enfrentar apreciar o mundo.

Eu comecei a estudar inglês por causa do judô. Eu tinha seis anos e queria fazer judô, ignoro o porquê. Meu pai emprestou um kimono de alguém - um primo mais velho? - e me levou para uma aula de experiência.

No final da aula, lembro como se fosse hoje, meu pai perguntou o que eu tinha achado. Eu disse: acho que em vez de judô quero estudar inglês.

Resultado: sou ruim de briga mas bom de papo. Em duas línguas!

Foram sete anos, um e pouco de professora particular de conversação, uns seis meses mezzo abandonados de Alumni, já na faculdade. Me dediquei mais a aprender inglês do que qualquer outra coisa na vida. E mais muito gibi, muita música, livro, trabalho. Por isso tudo é que sempre fiz questão que meu filho tivesse um inglês de primeira. Esse ano ele começou em uma escola de inglês mesmo, independente da escola normal.

Duas vezes por semana. Esses dias a professora dele puxou papo comigo, em inglês. Depois de um pouco me elogiou: você morou nos States? Nunca.

Mas uso o tempo todo. Hoje tive um almoço de trabalho com dois russos.

De três horas. Em inglês. No problem.

Continuo fazendo erros idiotas de vez em quando, principalmente quando falo muito rápido. Não importa. Importa é que quando eu encontro algo como o Cosmo Learning - um site que simplesmente oferece 1800 documentários em inglês sob todo tipo de assunto, de graça, na internet - sinto que toda a informação do mundo está a um click pra mim, e sinto por todos que não terão acesso a esta maravilha, por só ter o português.

Tudo graças a meu pai, que me deixou trocar o judô pelo inglês, e à minha mãe, que me levou pro Yázigi durante todos aqueles primeiros anos.

A big thank you to João Carlos and Valderez!

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Publicado em 10/04/2012 às 16:11

Meu escritor favorito finalmente pisou na bola (por dinheiro)

Elmore Leonard Raylan Meu escritor favorito finalmente pisou na bola (por dinheiro)

Elmore Leonard, meu escritor favorito, não faz continuações. Um ou outro personagem seu reparece aqui ou ali, geralmente em pontas. A exceção escandalosa é Get Shorty e Be Cool, ambos adaptados para o cinema, com John Travolta perfeito como o picareta Chili Palmer, um jóia, outro morno.

Raridade no universo do romance policial, movido a intermináveis sequências, sempre mais do mesmo. Leonard não precisa. Não lhe faltam criatividade - prolífico, produz um novo livro por ano, chova ou faça sol - ou dinheiro. O primeiro livro seu que li, City Primeval, 1984, traz lá na capa: the best thriller writer in America. Segue invicto.

Vende como pãozinho quente, ou bagelzinho nas ruas frias de Detroit. Mas é um working writer, um escritor comercial, e escritores comerciais escrevem por grana.

Finalmente Leonard cedeu e fez uma continuação. Pronto tem quase vinte anos, 1993. Primeira aparição de Raylan Givens, um tira cowboy, ex-marine. É coadjuvante. O protagonista é um Harry, um bookie, agenciador de apostas ilegais, que fez sua grana e só quer sossêgo.

Riding the Rap, dois anos depois, é a continuação. Raylan agora é quase um mocinho-padrão. Harry continua bem mais carismático. Os personagens principais são outros, bandidos.

Leonard e Olyphant

dsda Meu escritor favorito finalmente pisou na bola (por dinheiro)

Pronto e Riding The Rap compartilham personagens e só. Raylan, o novo romance de Leonard, é outro animal: seu primeiro livro cem por cento caça-níquel, com um herói convencional. A razão é o seriado Justified, que tem Raylan como personagem principal. É vivido por um galã, Timothy Oliphant. Nunca vi nem verei. Trombei o anúncio e deu. É de mentira demais: socos e tiros pra distrair macho digerindo o jantar, olhares calientes de amante rústico para colírio do mulherio.

A série vai bem. Muita gente tem mau gosto, ou nenhum. Leonard viu chance de faturar e pariu este livrinho, porque não? Fez com alguma classe, até.

Raylan, o herói, está ainda mais insípido que antes, mas Raylan, o romance, tem surpresinhas na estrutura, os diálogos rascantes de sempre, e alguns personagens bons de lembrar. Dá pra engolir, mas deixou um gosto estranho na língua - um whisky sour. Tudo bem: ele continua autor das dez regras fundamentais para escrever um romance (leia aqui).

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Publicado em 12/03/2012 às 13:28

O múltiplo legado de Moebius

forasta 1 ok O múltiplo legado de Moebius

Pirei de batatinha a primeira vez que vi um gibi desenhado por Moebius. Eu e o planeta. A linha mágica do desenhista francês encapsulava à perfeição as principais pulsações que viraram o mundo de cabeça pra baixo na virada dos 60 para os 70 - a tal contracultura.

Anos depois descobri que na verdade eu já conhecia Moebius de criança. Seu verdadeiro nome era Jean Giraud. Ele é quem tinha feito aquele álbum de faroeste que eu tinha em casa, Fort Navajo, com um pistoleiro de nariz torto, o Tenente Blueberry. Como você evolui de um western bacaninha para Moebius? De onde pode vir uma imaginação tão poderosa?

moebius1 ok O múltiplo legado de Moebius

As histórias de Moebius foram chegando na minha vida a conta-gotas. Difícil encontrar no Brasil na época. Algumas tenho a versão pirata, até hoje. Passavam de mão em mão, como drogas psicodélicas, perigosas, proibidas.

Não faço ideia se o poder narrativo e o charme onírico sobreviveram. Moebius foi muito influente, o que também quer dizer que versões aguadas de seu trabalho hoje fazem parte da paisagem. Sua morte me cutuca para uma nova visita ao Incal, uma verdadeira saga, coassinada com Alejandro Jodorowsky. À Garagem Hermética e Arzach. Aos continhos, meus prediletos.

E à graphic novel do Surfista Prateado, sua parceria com Stan Lee. Escrevi sobre o álbum, lá se vão quase 23 anos. Se quiser ler, está aqui.

silver surfer and galactus by moebius 1 ok O múltiplo legado de Moebius

Quem nunca leu Moebius também lhe deve bastante. Suas digitais estão em filmes como Tron, Blade Runner, Alien, Willow, O Quinto Elemento. Minha maior dívida com Moebius não é nada que ele escreveu e desenhou. É a revista que ajudou a criar em 1974, Métal Hurlant, e a editora, Humanoids Associés, com Druillet, Dionnet e Farkas.

Ela foi publicada nos Estados Unidos, com outro nome, Heavy Metal. Trazia muitos dos trabalhos originais europeus, e mais uma pá de jovens criadores americanos. É minha revista em quadrinhos favorita de todos os tempos. Li, reli e decorei cada página das poucas em que botei a mão, entre 80 e 82, meus anos de colegial. Depois continuei lendo. O estrago já estava feito.

A Heavy Metal mudou minha concepção do que os quadrinhos eram capazes, e do que eu deveria ser capaz. Me apresentou a uma visão de mundo densa e barulhente, gráfica e jornalística, com sangue nas veias e olho no futuro. Ali nasceu o cyberpunk, e muitas outras coisas.

Moebius DoubleEscape 2 100 ok O múltiplo legado de Moebius

O detalhe é que muito do que a Métal Hurlant e a Heavy Metal publicaram, com a benção de Moebius, não tinha nada a ver com sua visão de mundo, crescentemente mística e riponga, com o passar dos anos.

As revistas eram um choque de pontos de vista, estilos, manifestos. Giraud foi se tornando um velhinho new age. Morreu aos 73 anos depois de enfrentar o câncer por anos.

O secretário da cultura da França disse que a França perde dois grandes artistas, Jean Giraud e Moebius. Mandou bem, mas pensou pequeno. Moebius morre e vive: seu legado é múltiplo.

jean giraud moebius ok O múltiplo legado de Moebius

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Publicado em 17/02/2012 às 08:30

Eu sempre e nunca gostei de Carnaval

Eu não entro num salão pra pular Carnaval desde 1984 - 1985 foi na Bahia, inesquecível, mas outra vibração, axé nascendo, Luiz Caldas, trio elétrico. Na minha adolescência continuavam tocando aquelas maravilhas dos anos 30, 40, 50. Continuam? Era a maioria esmagadora da trilha sonora.

Eu sempre gostei de Carnaval, mas eu nunca gostei de Carnaval. Gostava pra zoar e adoro conceitualmente - uns dias com passe livre pro país inteiro bagunçar? Sensacional. Mas jamais me passou pela cabeça voltar a pular carnaval depois de adulto, casado etc., muito menos assistir ao desfile, looongo demais, nem na TV suporto. Fui uma vez em um ensaio na quadra da Portela, foi o bicho, mas tá bom pra mim.

Mas, enfim, simpatizo, e sei um pouco de onde veio essa esbórnia toda.

Essa semana eu fiquei pensando em escrever um texto todo cabeçudo sobre a origem do Carnaval, os mistérios dionisíacos, o barco de ísis e não sei mais o quê. Mas quem quer ler um alfarrábio empoeirado, crivado de nomes difíceis e citações de Apuleius, quando sol brilha seus últimos raios de verão? Muito menos escrever.

Vai pela sombra então, tiozinho aposentado das folias momescas, faz como eu e faz que o Carnaval nem existe.

Ou, leitor amigo, vai pelo sol e bota fogo em tudo. Flana feliz pelo Carnaval do Brasil, que em algum lugar te espera uma linda morena, o olhar brilhando mais que a lua cheia. Ou, caríssima, se tiveres sorte, um moreno com a inteligência de Lamartine Babo e o charme de Mário Reis.

Vejo vocês quarta-feira de cinzas...

Mario Reis & Lamartine Babo: Linda morena por perolasblogs no Videolog.tv.

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