Posts com a categoria: Comportamento

Publicado em 03/02/2015 às 10:36

Pare de economizar água. Pare de chatear os outros. Vá tomar banho! E pode ficar meia hora no chuveiro (como eu)

kok Pare de economizar água. Pare de chatear os outros. Vá tomar banho! E pode ficar meia hora no chuveiro (como eu)

Continuo tomando banhos longos. Sem dor nenhuma na consciência. E molhando o quintal, regando o jardim, lavando o carro como sempre. Sou egoísta? Não, sou consciente, e sai pra lá, maleta.

Só tem uma coisa mais chata que falta de água. É a falta de noção dos chatos que fiscalizam como os outros estão usando a água. Nessas horas de crise sempre vem à tona o ditadorzinho que existe dentro das pessoas. É o clássico problemas dos regimes autoritários. O pior não é o ditador que manda no país, é o guardinha da esquina que quer mandar em você.

Milhões de anos de seleção natural criaram esse nosso ego monstruoso. Seu cérebro te garante que o universo gira em torno do seu umbigo. Que cada pequeno ato seu tem reverberações cósmicas. Que depende fundamentalmente de você tudo que te acontece, que acontece no mundo, no seu mundo. É uma armadilha que a evolução armou para a gente.

A mídia pega a onda. Agora é uma reportagem atrás da outra sobre como economizar água. Estrelando os malas que enchem a paciência do próximo. Sim, inclusive malas amigos. Você mesmo, mano. Você aí, querida. Tenho só uma coisa a dizer para você: vai tomar banho! E pode ficar uma hora no chuveiro. Não fará diferença nenhuma para a cidade, a sociedade, a humanidade. Só pra sua conta.

Egocentrismo é nossa natureza. Você não precisa se render a ela. Existem os seus problemas pessoais. E existem desafios coletivos. Que precisam ser enfrentados coletivamente. Perceba: isso é muito diferente de cada pessoa “fazer sua parte”. Soluções coletivas não são compostas de um monte de iniciativas individuais. É, como grupo, como sociedade, compreendermos a raiz do problema, articularmos como sociedade as soluções, e enfrentar os desafios de implementá-las.

Não percamos tempo listando aqui as barbaridades e bandalheiras várias que nos levaram a esta situação. O ponto principal é: sabemos o que fazer para garantir água farta e barata, talvez grátis, para todos.

Sabemos quais obras precisam ser feitas. Sabemos que precisamos despoluir os rios. Sabemos que é preciso acabar com o desperdício na distribuição (um terço da nossa água se perde aí).Sabemos que precisamos de saneamento básico universal. Sabemos que precisamos de uma economia que não exporte nossa água como commodity, na forma de soja e bife. Sabemos que precisamos parar de derrubar floresta e reflorestar a Amazônia. Sabemos de tudo.

Então por que não fazemos o que sabemos ser fundamental? Porque “sabemos” que não há dinheiro para isso. Quem diz? Os  caras que a gente botou lá para gerir o dinheiro dos nossos impostos. E um monte de sub-experts e jornalistas matraca-trica que macaqueiam esse discurso.

Os cofres públicos estão recheados. Municípios, estados e governo federal usam nossos recursos de maneira errada. Errada de três maneiras diferentes. Errada porque uma boa parte da grana é roubada. Errada porque outra boa parte é gasta com coisas que não são prioritárias, mas garantam visibilidade e reeleição.

E errada da maneira mais sem cabimento e menos visível para você. Que é pagando os juros mais altos do planeta. Sim: entre todos os países da Terra, o Brasil tem os juros mais altos. Todo empresário está comprando títulos públicos, em vez de investir na produção. Tudo que é investidor gringo está faturando altíssimo nessa.

Municípios, estados e governo federal estão sufocados com o pagamento dessa dívida, cada vez mais impagável. Para os investidores, é o melhor investimento do mundo. Para os brasileiros, é o pior investimento possível dos nossos impostos. Dilma acaba de subir os juros mais ainda. A Selic hoje está em 13%.

Chamam isso de responsabilidade fiscal. É uma irresponsabilidade social. Em 2014 o Brasil pagou R$ 249 bilhões de reais em juros da dívida. Esse ano pagará mais. Precisa pagar menos. Preferencialmente nada. Que pagasse um terço a menos. Seriam mais R$ 66 bilhões para investir, um oceano de grana. Sabe como se faz isso? Com uma canetada lá em Brasília. Agora, como forçamos dona Dilma a dar essa canetada? Coletivamente.

Para fazer tudo aquilo que sabemos que tem que ser feito, há que enfrentar a roubalheira dos políticos. Há que melhorar a gestão dos recursos públicos. Mas nossa pressa é grande. A solução mais rápida é pagar menos juros e já. Isso nada tem de radical. É uma proposta modesta para uma questão bem arroz com feijão. Se você, na sua casa, tiver que optar entre ter água na torneira ou pagar as dívidas, vai escolher o quê? Morrer de sede com o carnê em dia?

Os brasileiros precisam tomar esta decisão. Isso é que é "fazer a sua parte". Pense nisso quando entrar hoje no chuveiro. Sem pressa...

Publicado em 13/03/2013 às 14:45

As duas únicas coisas que faltam para resolver de vez o trânsito em São Paulo


Andar de bicicleta nas ruas de São Paulo é muito perigoso. Quem defende bicicleta como meio de transporte viável para a cidade estimula as pessoas a se arriscarem loucamente. Parece evidente. Aproveitei o gancho do pobre ciclista que foi atropelado e perdeu um braço. Fui pra cima, naquele estilo salto-no-vácuo-com-joelhada. O objetivo era mesmo causar impacto e gerar debate, que o tema merece. O título já dava o tom: Os motoristas têm mais direitos que os ciclistas.

Como sempre em temas polêmicos, a maior parte do barulho foi estática. Muitos entenderam, concordando ou não. Dois amigos entraram forte na discussão trânsito e direitos. Marcelo Soares ponderou a favor de linha dura, marronzinhos camuflados, e gradualismo. Alex Antunes só faltou defender o linchamento de todos os motorizados. Como eu disse para Alex: pra quem labuta todo dia, um carro é a diferença entre quatro horas de transporte público sofrendo de pé ou duas horas de comparativos conforto e paz. Ouvindo uma musiquinha, checando celular. Se você não vê a vantagem, precisa de oculista. O que é a primeira coisa que um paulistano faz assim que consegue um dinheirinho? Compra um carro.

O impressionante é como tem gente com problemas sérios de interpretação de texto por aí. Houve até quem entendesse que eu aplaudo que as coisas sejam como são, e defenda que elas assim permaneçam. Mas o pior é gente que não entende porque não quer entender, e muito menos debater. Quer, em uma palavra, aparecer. O objetivo é gritar bem alto: sou excepcional, moderno, do bem, contra a caretice, pró-ativo, e outros chavões. O único argumento deles é desqualificar o interlocutor.

A sub-inteligentsia politicamente correta paulistana é a coisa mais invertebrada e entediante do planeta. E sua característica mais vomitante é a certeza de que suas iniciativas e posições pessoais fazem toda a diferença. Não fazem diferença nenhuma. Se cada um fizer sua parte, e governos e empresas não fizerem as deles, ficamos exatamente no mesmo lugar. É o mesmo de sempre: socializam os problemas e privatizam as soluções.

O único plano que faz sentido para São Paulo ter menos trânsito é a cidade ter menos carros. Surpresa! Simples assim. Tem que estabelecer o objetivo e dizer: daqui dez anos SP vai ter metade do número de carros e um quarto do número de motos que tem hoje. E aí alinhar todos os esforços nessa direção. O resto é enxugar gelo.

O que falta para isso? Só duas coisas. Primeiro, vontade e visão políticas - pensar grande e a longo prazo, e focar no que é fundamental. Segundo, a quantidade certa de dinheiro. Só vontade é voluntarismo. Só jogar dinheiro no problema é jogar dinheiro fora.

Vamos usar nossa referência habitual, quando se trata de São Paulo? O departamento de transportes de Nova York tem orçamento anual de cinco bilhões de reais, e 4500 funcionários. A grana vem dos cofres da cidade, um tanto do estado e do governo federal, e um pouco de patrocínios da iniciativa privada. Considerando que são oito milhões de novaiorquinos e mais de onze milhões de paulistanos, um orçamento anual de dez bilhões de reais para a cidade de São Paulo é o mínimo.

Em 2013 o orçamento da Secretaria de Transportes Metropolitanos de São Paulo é de R$ 7,2 bilhões, 9% maior do que o de 2012. Está sob responsabilidade do petista Jilmar Tatto. Não é suficiente. Ainda mais se considerarmos que São Paulo é bem mais detonada que Nova York. E é obrigatório pensar em termos de Grande São Paulo - é tudo a mesma massa urbana. Somos quase vinte milhões de pessoas. Pra dar um jeito nos transportes da sexta maior área metropolitana do planeta, vou chutar aqui que precisamos de um orçamento total de... vinte bilhões de reais por ano, no mínimo. É muito dinheiro? Eike Batista pegou dez bilhões de reais de grana pública em empréstimos amigos nos últimos anos. É questão de prioridade.

Voltemos à Nova York, sempre uma boa idéia.  A secretária de transportes da cidade, Jenette Sadik-Khan, causa polêmica, pisando em calos diversos e rodando de bike pela cidade. Instalou 400 quilômetros de faixas para bicicletas. Fez muitos calçadões e calçadões temporários (só no final de semana, ou só no verão). Bancou um sistema de ônibus expressos, em que o usuário compra o ticket antes de entrar, mais ou menos no modelo de Curitiba. Instalou um sistema de compartilhamento gratuito de bicicletas. Botou um monte de bancos bem confortáveis nas ruas, para estimular as pessoas a caminhar mais, dando a elas um lugar para descansar. Está trocando a sinalização da cidade inteira, e incluindo mapas para pedestres. Também desviou tráfego pesado das zonas residenciais e construiu dezenas de novas praças. E por aí vai.

Resultado: hoje um terço dos novaiorquinos vai para o trabalho de carro, um terço de transporte público, um terço a pé (e 2% do total vai de bicicleta). Desde quando Jenette comanda este esforço? Desde 2007. Só? Pois é. Cinco anos podem fazer toda diferença. É esse tipo de ataque por parte do poder público que muda as coisas. Não descoladinhos gritalhões exibindo as bikes, tatoos e suposta superioridade moral pelas alamedas dos Jardins.

Iniciativas como as comandadas por Michael Bloomberg e Sadik-Khan em Nova York são importantíssimas. Podemos e devemos imitá-las já. Mas não são suficientes para um país com tantos problemas de desigualdade e infraestrutura como o Brasil. Precisamos de muito mais. O Brasil precisa de um plano de ocupação de seu território. A maioria esmagadora dos brasileiros vive a no máximo 500 quilômetros da costa atlântica. Há que estimular de maneira inteligente e organizada a diminuição de nossas maiores metrópoles e o crescimento de nossas cidades menores a médias. Há que segurar o crescimento da população. Temos que ser menos. Temos que ir para o Oeste. Temos que olhar para o Oceano Pacífico. E não dá pra deixar isso ao acaso, ou botar a responsabilidade na mão do mercado.

Objetivo despropositado? Megalomania? Ambição alta foi acabar com a escravidão, curar a tuberculose e colocar o homem na lua. Resolver o trânsito em São Paulo é moleza. Basta um pouco mais de dinheiro. E muito mais ambição.

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Publicado em 03/01/2013 às 11:22

Pelo cancelamento da Redação do Enem 2012

enem protesto 2011 450 Pelo cancelamento da Redação do Enem 2012

Os estudantes que foram mal na prova de redação do Enem exigem revisão. O Exame Nacional do Ensino Médio de 2012 teve quatro milhões, centro e treze mil e quinhentas e cinquenta e oito redações avaliadas. Destas, cerca de 75 mil foram entregues em branco, e 72 mil foram anuladas por motivos diversos (como, por exemplo, escrever menos que as sete linhas exigidas).

Do total das redações, 76,32% foram avaliadas por dois corretores, 20,1% por três corretores, e destas, 2,43% por uma banca extra. Como é feita a avaliação das redações? Por 5.683 corretores, que passaram por dois treinamentos - um geral, e outro específico para ajudar na análise do tema da prova.

E mesmo assim, candidatos acionam o ministério público federal para terem direito de vista à redação. Uma petição com mais de nove mil assinaturas coletadas pela internet bancam a representação. E no Rio, uma estudante conseguiu da justiça o direito de ver a correção de sua redação. Há movimentos pelas ruas, passeatas, protestos em doze capitais. E um grupo no Facebook, chamado Ação Judicial - Redação Enem, já tem 27 mil membros.

Segundo o MEC, a avaliação leva em conta os seguintes itens: compreensão da proposta, domínio da norma padrão da língua escrita, e a capacidade de selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista. É evidente que a maioria dos jovens do mundo, e aliás dos adultos, não tem a menor condição de fazer isso. Muito menos os brasileiros, considerando o patamar quarto-mundista de nossa educação pública e particular.

O que o MEC exige é que ao final do terceiro ano do ensino médio nossos jovens tenham aprendido a pensar por si próprios, e defender o que pensam por escrito. É mais que pedir demais. É bobagem, porque a maioria das faculdades e dos empregos não exige pensamento independente, nem saber escrever. Sempre foi assim e assim continua sendo; quem sabe um dia muda; não vejo sinais no horizonte. Se algum insensato quiser aprender o beabá da redação, este blog, imodestamente, tem umas dicas (leia mais aqui).

Não sei quase nada na vida, mas vivo de escrever há quase um quarto de século, aprendi, e ensino grátis. Não tem segredo. É fácil escrever direito e é muito difícil escrever magnificamente. Como nossas escolas não ensinam nem um nem outro, esta exigência do MEC é um insulto. Por isso, os alunos têm mais que o direito de exigir a vista das correções; têm direito de pedir o cancelamento da prova.

Neste Enem de 2012, o MEC propôs como tema da redação um assunto que não está na imprensa, não preocupa ninguém, não faz parte do currículo escolar, e certamente jamais passou pela cabeça de 99,99% dos brasileiros: a imigração para o Brasil no Século 21. O tema deste ano foi defendido pelo ministro da educação, Aloísio Mercadante: "é um tema bastante contemporâneo, desafiador e não previsto." E é mesmo tudo isso. O ministro não percebe que a razão de seus elogios é justamente o motivo de tanta crítica. Nossa escola não é contemporânea, não desafia os alunos, e valoriza a decoreba, não a reflexão.

Uma professora de uma escola pública modelo, dessas que aparecem em propaganda no horário político, me contava esses dias: lá não tem e nunca teve papel higiênico para os alunos. A Associação de Pais e Mestres é que tem que bancar. O papel que o estado manda é só para os traseiros de professores e funcionários.

Já dinheiro para computador, há bastante. Mas a escola não precisa de mais PCs. A urgência é tirar os computadores entregues há um ano de suas caixas. Eles estão mofando. Precisa instalar, e treinar os professores para utilizá-los. Os professores também gostariam de poder escolher livros à altura de seus alunos. E não ter que encomendar algum do menu disponível, sempre pobre, sempre conservador, sempre das mesmas editoras e autores. Ah, e seria bom ter uma marmiteira, para que os alunos possam esquentar seus almoços, em vez de comer tudo frio. E por aí vai...

Isso é em uma escola modelo em São Paulo, imagine nos cafundós do Maranhão. E dos alunos assim formados se exige que saibam construir um ensaio com começo, meio e fim? É justo exigir de nossos jovens o que não demos a eles, e, pá de cal, o que o ensino superior e o mercado de trabalho não exigem? A única resposta justa é não.

http://r7.com/9BDZ

Publicado em 15/08/2012 às 10:20

Lego comemora 80 anos contando sua origem em desenho animado

Lego Color Bricks ok Lego comemora 80 anos contando sua origem em desenho animado
Quem não adora Lego? Bem, eu. Custa muito caro, em qualquer lugar do mundo, e no Brasil é infame; some-se a isso que já tem um bilhão de kits legais, a variedade é infinita, e está sempre saindo coisa nova! Problema para pais nos cinco continentes. A gente dá umas voltas e pega uns atalhos.

Por exemplo: um game de Lego (o mais recente, Lego Batman 2, é sensacional; eu gosto de jogar com o Flash) rende bem mais horas de diversão que uma caixinha, que custa o dobro. Depois não tem que arrumar lugar embaixo da cama dos filhos, nem passar raiva com a bagunça de pecinhas desparceiradas. Não tem jeito. O negócio é se render.

Menti aí acima: adoro Lego. Que não existia na minha infância, mas curti demais os similares que existiam no Brasil dos primeiros anos 70, Polly e depois Hering-Rasti - que vinha com motorzinho à pilha! O escritor Michael Chabon tem um ensaio iluminado sobre isso. Conta que no começo, ficava irritado de comprar para os filhos esses kits de Lego supersofisticados, complicados para montar, repletos de peças específicas.

Que tinha saudade de sua infância, quando os blocos eram mais genéricos, provocavam mais a imaginação. Com o tempo, percebeu que as crianças montam só da primeira vez o modelo daquela caixinha. Depois ele vai sendo desmontado, se une aos outros zilhões de blocos bagunçados... e todas essas peças serão novamente recombinadas, e recriadas, e a brincadeira reinventada à exaustão.

Pra celebrar seus 80 anos, a Lego produziu um desenho animado contando a origem da empresa, desde os primeiros brinquedos de madeira criados pelo carpinteiro Ole. No original, em inglês, abaixo. Versão Disney da realidade, adocicada, um teco simples - dinamarquesa, não americana. Mas te desafio a não se emocionar. Ainda mais se você tem gravadas na memória umas mãozinhas tentando encaixar os blocos e pedindo: ajuda, pai?

The LEGO Story por perolasblogs no Videolog.tv.

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Publicado em 20/06/2012 às 09:47

O Brasil precisa de menos crianças


E a Rio+20 acabou em fracasso total. Os governos do planeta se comprometeram a continuar conversando sobre o nada e desperdiçando nossa paciência. Era de se esperar. Ninguém sabe o que fazer. E de fato não há o que fazer - não há como termos uma sociedade global justa sem tocarmos no cerne da questão. Que William Gibson resumiu brilhantemente: o futuro já chegou, só está mal distribuído...

Trata-se, portanto, de um problema de distribuição dos recursos naturais e riquezas criadas pelo homem pelo número de pessoas do planeta. Mas quem tem muito não quer abrir mão. E quem tem nada só tem uma arma: a reprodução irrefletida. Os sete bilhões de humanos serão oito, nove, dez bilhões em poucos anos. Não precisa bola de cristal para cravar a previsão: tempos interessantes vêm aí.

Há que atacar o problema criativa e corajosamente em suas várias facetas, e uma bem importante nem foi tocada durante a Rio+20. Quem sabe o Brasil possa liderar o mundo nesta frente? Se eu fosse ditador do Brasil, minha prioridade número um seria evitar o nascimento de mais brasileiros. Instauraria a vasectomia obrigatória aos 14 anos, reversível (com parcimônia) aos 35.

Brasileiro adora filho, e tem filho na maior irresponsabilidade. Cansei de ver menina grávida menor de idade que, passado o susto e bronca dos pais, é aceita com todo o carinho, com aquele papinho de "filho é uma benção" etc., mesmo sem pai, mesmo sem um gato para puxar o rabo.

Tá, há que aceitar. Mas o fato é que a população do Brasil e mundo crescem explosivamente. Não há nem haverá empregos decentes para acomodar tanto jovem, e tanto jovem semianalfabeto. Que logo quer ter seus próprios analfinhas. Para lotar ainda mais nossas lotadas cidades. E nessa perpetuamos nossos problemas.

Educação sexual na pré-adolescência, campanhas de comunicação, máquina dando camisinha de graça nas escolas ajuda. Mas há farta evidência de que o aborto legalizado é o melhor remédio. Em Freakonomics, os autores explicam a queda no índice de criminalidade por Roe x Wade, a decisão jurídica que descriminalizou o aborto nos EUA.

Aborto legal no início dos 70, queda no índice de criminalidade no meio dos 90 - os futuros bandidos não chegaram a nascer. As meninas ricas já abortavam ilegalmente, tinham grana para isso, as pobres só depois que o estado passou a bancar.

E há farta evidência de que mesmo em países muito carolas, em que as autoridades religiosas prometem o fogo do inferno para a mulher que abortar, a legalização aumenta muito o número de abortos, sem risco de saúde para as mães. Em alguns países da Europa virou até um problema: não nasce criança... bem, problema em termos, porque os jovens lá estão todos desempregados.

Como Paulo Francis, não acho aborto bonito, mas necessário, pessoal e socialmente, porque as pessoas são estúpidas, não se cuidam, e em particular adolescentes, com os hormônios queimando nas entranhas.

O custo de ter um filho é alto. Quanto? Mais do que você pensa. Nos Estados Unidos, agora se sabe ao certo. O departamento de Agricultura fez a conta. O Washington Post divulgou:

- R$ 470 mil é quanto uma família americana de classe média gasta para criar um filho, até os17 anos (importante: cursando escola pública gratuita)

- o valor é R$ 800 mil, nas famílias de classe média alta para cima (rendimento familiar anual acima de cem mil dólares).

Esse preço subiu em média 23% desde 1960, segundo o governo americano. Notem que esses valores não incluem os anos de faculdade dos mancebos, depois dos dezoito.

No Brasil, aposto que é menos, para os mais pobres, e bem mais para os remediados. Os abonados americanos gastam em média pouco menos de R$ 4000 mensais com cada filho. Em São Paulo, qualquer escola particular custa de 500 reais mensais para cima; as melhores custam três, quatro mil. Mais o aparelho pros dentes, inglês, violão, roupa, game, cineminha, seguro saúde, vigia da rua e não sei o quê... e chegamos lá perto dos gringos.

Diferente de alguns ambientalistas radicais, malthusianos, não sou pessimista, nem paranoico com superpopulação. Esses verdes que dizem que o planeta tem gente demais, enquanto eles gastam os tubos com três cachorrões lindos em casa, são uns hipócritas. Cabem hipoteticamente 15, 20, 30 bilhões de seres humanos sobre a Terra, se soubermos gerir nossos recursos, se soubermos inovar na velocidade necessária, se soubermos modificar radicalmente a organização da economia global, três ses bem grandes, a julgar por essa patética Rio+20. O tempo urge.

Enquanto isso, há que ser realista. O mundo, e o Brasil, precisam de menos crianças, e mais bem tratadas. Eu acho ótimo ter filho e recomendo para todos. Na hora certa, com a cabeça no lugar, e algum dinheiro para segurar o tranco. Para entregar ao futuro crianças que não sejam velhos problemas - e, sim, novas soluções.

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Publicado em 16/04/2012 às 14:58

Thor Batista, um mês depois: o novo Brasil rico, o pobre e velho Brasil

Faz um mês que Thor Batista, o jovem filho do homem mais rico do Brasil, atropelou e matou um miserável ajudante de caminhão quando dirigia uma Mercedes SLR McLaren. Thor Batista não tinha álcool no sangue, Wanderson Pereira dos Santos tinha, diz a perícia. Thor guiava dentro da velocidade permitida, também disseram, mas tinha incríveis 51 pontos na carteira, aos 20 anos.

No dia 17 de março, todos pediam o couro de Thor. Ele é jovem, bonito e rico, e sendo assim, no Brasil é intocável. O outro era um pobre diabo. Thor, portanto, foi julgado à revelia no mesmo dia. Cortem-lhe a cabeça! Reação razoável mas desprovida de razão. Todo mundo deveria ser inocente até ser julgado culpado. Mesmo, especialmente, os que mais nos dão azia. Dias depois, a revelação: Thor já tinha atropelado uma pessoa antes. O velho não morreu. Foi ajudado. Subentendido: levou dinheiro. Ainda não é prova de culpa no caso de Wanderson.

Prejulgar um loirinho riquinho é tão imoral quanto prejulgar um pretinho pobrinho. Exigir justiça, nos dois casos, é obrigação e tarefa inglória. No Brasil os ricos jamais são julgados culpados. Nas raras vezes que sim, escapam sem punição. Deveríamos é ter feito do caso Thor um exemplo. Posso sonhar? Uma virada na história do Brasil: o momento em que dissemos ao mundo, e a nós mesmos, que aqui a lei vai valer para todos. Com apuração, perícia, presteza. Até chegarmos à verdade, doa a quem doer. Se Thor cometeu crime, que pagasse por ele. Se não cometeu, que fosse inocentado totalmente, e pudesse olhar a sociedade de cabeça erguida. Bonito, né?

ok Thor Batista, um mês depois: o novo Brasil rico, o pobre e velho Brasil

Brasil real: nem uma coisa nem outra. O processo provavelmente será arquivado, embora ninguém acredite na inocência de Thor. Porque é filho de bilionário. Pelo currículo de motorista que ignora as regras do trânsito. Porque o carro e a bicicleta foram removidos. Porque Eike disse desde o primeiro momento que seu filho era inocente (e o que deveria ter feito? Bem, Eliane Brum já discutiu brilhantemente a diferença entre ser pai e superpai). Porque a imprensa foi cheia de dedos com o caso, pelas razões previsíveis. Porque Lula ligou pra Eike pra prestar solidariedade. Porque Márcio Thomaz Bastos foi contratado para defender Thor.

Muitas razões, nenhuma prova contra Thor. Mas no que acredita a opinião pública? Bem, o advogado da família de Wanderson começou combativo, garantindo que ia exigir mundos e fundos de indenização. Thor garantiu que iria ajudar a família em tudo que pudesse. O que nós, brasileiros, entendemos: morto Wanderson, sua família realisticamente viu uma boa oportunidade de faturar. Embolsou seu cala-boca e tudo ficou por isso mesmo. Ora, comentou o meu amigo ali da banca de jornal, já que o cara morreu, pelo menos é uma chance para a família melhorar de vida...

Foi isso? Foi diferente? Jamais saberemos de fato, mas o martelo foi batido. Thor será inocentado, mas nunca será julgado inocente. Wanderson, segundo a polícia, é o ciclista bêbado que causou o acidente. Jamais terá justiça. Thor Batista também não - daqui trinta anos, ainda será o playboy irresponsável que matou o miserável e saiu na boa.

Fosse o contrário, um Wanderson com carteira estourada matando o filho de Eike Batista em circunstâncias idênticas, estaria livre? A única resposta honesta que um brasileiro pode dar: não. Thor simboliza o novo Brasil rico. Wanderson me faz pensar: pobre e velho Brasil.

http://r7.com/s93t

Publicado em 13/04/2012 às 06:00

A coisa mais importante que você precisa aprender: inglês

comu A coisa mais importante que você precisa aprender: inglês

Uma vez eu comecei uma palestra pra uma classe de estudantes de jornalismo assim: quem quer ser correspondente em Nova York? Metade levantou a mão. E quem aqui fala e escreve bem em inglês? Dois levantaram a mão. É a diferença entre ter um sonho e ter um objetivo.

Esses dias, num papo com gente já formada, na PUC, repeti a graça. O grupo tinha uns quinze, um terço levantou a mão. Melhorou bem a proporção. O que isso significa? Que inglês é cada vez menos um diferencial importante?

Aí perguntei: e quem aqui fala e escreve bem em mandarim ou cantonês?

Zero, como era de se imaginar. Mas a China não está cada vez mais importante? Será que não valia a pena aprender a língua dos caras? Um camarada lá me deu um bom cala-boca: mas os chineses falam inglês. É verdade, embora o sotaque pra gente complique bastante.

O ponto é que inglês é, de fato, o esperanto que esperávamos. Quem tem inglês bom tem muita vantagem na vida. Pra viajar, pra estudar, pra trabalhar, para entender e enfrentar apreciar o mundo.

Eu comecei a estudar inglês por causa do judô. Eu tinha seis anos e queria fazer judô, ignoro o porquê. Meu pai emprestou um kimono de alguém - um primo mais velho? - e me levou para uma aula de experiência.

No final da aula, lembro como se fosse hoje, meu pai perguntou o que eu tinha achado. Eu disse: acho que em vez de judô quero estudar inglês.

Resultado: sou ruim de briga mas bom de papo. Em duas línguas!

Foram sete anos, um e pouco de professora particular de conversação, uns seis meses mezzo abandonados de Alumni, já na faculdade. Me dediquei mais a aprender inglês do que qualquer outra coisa na vida. E mais muito gibi, muita música, livro, trabalho. Por isso tudo é que sempre fiz questão que meu filho tivesse um inglês de primeira. Esse ano ele começou em uma escola de inglês mesmo, independente da escola normal.

Duas vezes por semana. Esses dias a professora dele puxou papo comigo, em inglês. Depois de um pouco me elogiou: você morou nos States? Nunca.

Mas uso o tempo todo. Hoje tive um almoço de trabalho com dois russos.

De três horas. Em inglês. No problem.

Continuo fazendo erros idiotas de vez em quando, principalmente quando falo muito rápido. Não importa. Importa é que quando eu encontro algo como o Cosmo Learning - um site que simplesmente oferece 1800 documentários em inglês sob todo tipo de assunto, de graça, na internet - sinto que toda a informação do mundo está a um click pra mim, e sinto por todos que não terão acesso a esta maravilha, por só ter o português.

Tudo graças a meu pai, que me deixou trocar o judô pelo inglês, e à minha mãe, que me levou pro Yázigi durante todos aqueles primeiros anos.

A big thank you to João Carlos and Valderez!

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Publicado em 10/11/2011 às 11:27

Por que eu sou importante

22.845 pessoas leram meu texto sobre a militarização da administração pública em São Paulo, usando o gancho da invasão e desocupação à força da reitoria da USP.

O principal colunista do maior jornal do país não sabe quantas pessoas leram seu artigo de anteontem. Mas eu sei quantas me leem e sei que desta vez foi mais que o habitual.

Sei mais. Sei quantos acessaram meu texto através do Bubot, ferramenta que uso para compartilhar o link dos meus textos no Facebook e Twitter: 6581 pessoas.

Com o Bubot, consigo acompanhar a velocidade com que este compartilhamento acontece, minuto a minuto, se quiser, se for tão ansioso.

Sei também quem compartilhou o texto com seus próprios seguidores no Twitter. Quem comentou sobre ele nas redes sociais, quem pitacou o quê e, claro, quem comentou aqui no próprio blog.

Está tudo registrado e dei uma olhada panorâmica. Das pessoas que expressaram sua opinião sobre o que escrevi, sei quem aplaudiu, quem discordou com fortes ou fracos argumentos, e quem simplesmente é um idiota.

Como o texto chegou a tanta gente tão rápido? Parte pela força do R7, que destacou o texto em sua homepage, e twittou o link.

Parte pela minha própria importância. Porque, um pouco de propósito e um pouco por acaso, fui criando minha própria rede de relacionamentos na web.

Não segui nenhum manual de como influenciar pessoas na web. Não escolhi um tema pra ficar batendo. Não planejei estrategicamente ser um influenciador.

Tenho hoje 8.379 seguidores no Twitter e 1.774 amigos no Facebook, uma rede de mais de dez mil pessoas. Não é tanto quanto uma celebridade, não é a média das pessoas.

Razoável, porque não sou celebridade, e não estou na média. Como eu sei que não estou na média? Uma nova engenhoca chamada Schmap me contou.

Em segundos, ela analisa seu perfil no Twitter, e diz quem são seus seguidores. Como? Com algoritmos (uns endiabrados duendes digitais). O relatório abaixo fiz hoje, mas diz respeito ao dia 11 de novembro.

O Schmap é impressionante, mas não entrega os dados do dia. Tem limite pra tudo.

Os meus seguidores, em resumo:

91,2% estão no Brasil, 4,2% nos Estados Unidos 53,9% em São Paulo, 10,4% no Rio 57,8% homens 69,1% falam inglês 39,5% twitam de uma a cinco vezes por dia.

As profissões:

357 jornalistas
195 músicos
183 estudantes
95 executivos sênior
85 professores
82 executivos de marketing
71 consultores
67 escritores
50 desenvolvedores de internet
49 empreendedores
45 designers
45 designers gráficos
43 trabalham com produção de mídia
37 artistas
34 engenheiros
30 investidores
30 trabalham na área de saúde
29 atores
20 DJs
20 fotógrafos

E por aí vai, até chegar em cientistas e modelos (oito de cada!).

Faria sentido que no Facebook o perfil dos meus amigos seja semelhante, talvez com presença ainda maior de jornalistas e profissionais de comunicação em geral, porque, claro, é isso que eu faço.

E tem cabimento imaginar que os meus leitores fiéis do blog sejam até mais influenciadores.

Não sou colunista de fofocas da TV, futebol, inovação ou finanças pessoais. Ninguém sabe se no dia seguinte vou escrever sobre uma música, a padaria da esquina, ou a crise do capitalismo. Muito menos eu.

Fica difícil manter fidelidade a um cara que atira pra todo lado, dia sim dia não. Mas foi o que aconteceu. Talvez seja porque eu mantenho todo dia pelo menos uma coisa: a disposição de não escrever nada que você possa ler em outro lugar.

Minha situação ilustra perfeitamente a nova expressão chave dos teóricos da internet. O coração da nova vida digital não é o Facebook, o Twitter, o Flickr, o Linkedin, o Orkut, o YouTube, o seu blog ou suas mensagens de texto ou seus emails: VOCÊ é a plataforma.

Então, quando eu tenho algo a dizer, minha voz chega longe. Porque as pessoas com quem me relaciono na internet também têm algo a dizer, e juntas nossas vozes falam muito alto.

Tudo isso para defender uns moleques irresponsáveis? Não. Não me importa o que eles defendiam e eles não precisam da minha defesa. O outro lado é que precisa de ataque.

Governantes que usam cinicamente nossa falta de segurança, nossos preconceitos e nossa ignorância para posarem de machões, disciplinadores e protetores da população, precisam ser enfrentados ou, pelo menos, avacalhados.

O texto de Paulo Moreira Leite, ontem, no site da Época, revela que durante o dia, mudou a postura do governador Geraldo Alckmin quanto aos estudantes da USP.

De manhã cedo, na hora da reintegração, os delegados pegavam leve. Mais tarde, chegaram ordens para fazer dos meninos um exemplo, fianças altas, acusação de destruição de patrimônio público, formação de quadrilha etc.

Por quê? Porque a assessoria do governador percebeu que a população estava querendo ver a caveira da molecada. Onde? Nas redes sociais. Mais tarde, a polícia aliviou de novo.

Imagino que isso tenha sido ordenado porque no meio da tarde a maré na internet virou. Gosto de pensar que ajudei um pouco. Me engana que eu gosto!

Com todas essas novidades tecnológicas, algumas coisas permanecem bem iguais. Com todo este arsenal digital à minha disposição, no final contou bastante minha experiência de escrever algo diferente das outras pessoas, e publicar na hora que todo mundo estava falando deste assunto. Porque o arsenal digital todo mundo tem, ou pode ter.

Se eu fosse mais um xingando os estudantes da USP de baderneiros mimados, não teria um décimo da leitura e repercussão. A escassez gera valor. A temperatura também.

Publicasse o mesmo texto hoje, quando a rapaziada lá já foi presa e solta, e também não teria um décimo da leitura e repercussão.

E também contam para repercussão, a força e originalidade dos argumentos, apuração pelo menos aceitável, uma certa leveza para tratar de assuntos pesados, e uma boa dose de agressividade para lanhar quem merece umas lambadas.

Chega de tapinhas nas próprias costas, né? Não é isso. Me uso de exemplo para ilustrar o poder de influenciar, de impactar no debate público, de revelar novidades, de arregimentar aliados e incomodar inimigos, que todo mundo tem e pouca gente usa.

As ferramentas estão aí. Podemos usá-las para espalhar mais uma piadinha repercutindo o que vimos na TV ontem à noite. Para compartilhar uma linda canção ou uma preocupação, para desabafar ou protestar.

E - principal - para ser mais um, ou para ser único. Eu sou importante. Você é importante. Vamos agir de acordo.

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Publicado em 18/05/2011 às 13:30

Os mano do MEC

Tá todo mundo querendo o couro do Palocci. Menos a presidenta, a comissão de ética, o Senado, o PT e eu. Até tu, Forastus? Pois é.

Peleguei. Adolescente, eu era da linha paredão, enfileira os engravatados todos e passa fogo, sem misericórdia.

Ou, como defendia um mano skatista na época do general Figueiredo, a solução é jogar uma bomba de nêutrons em Brasília e transformar a cidade em uma pista, dropar do Congresso e descer a rampa do Planalto fazendo slalom.

Mas a maturidade traz junto a seletividade. Cabe priorizar. Caça às Bruxas tem que começar pelas mais horrorosas, nefastas, verruguentas.

Tenho comigo o original sentimento de que o principal problema da nação é a ignorância.

Como o ministro da educação ocupa o cargo faz muito tempo e continuamos na mesma pindaíba mental, eu deixaria Palocci e a ministra da cultura Ana de Holanda sossegadinhos nos seus cantos e prepararia a fogueira para Fernando Haddad.

Certo que temos na vizinhança gente do quilate de um Edson Lobão, cuja simples visão nos jornais televisivos já incute incredulidade e espasmos estomacais nos mais delicados. livro Os mano do MEC

Mas o ministro Haddad foi hoje para a pole position graças à sua defesa do livro Por Uma Vida Melhor, da coleção Viver e Aprender.

O livro, distribuído justamente pelo Ministério da Educação, foi distribuído a 4.236 escolas do país. Ele ensina a falar e escrever errado.

Na página 15, o texto pergunta ao aluno: "Mas você pode falar os livro? Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima do preconceito linguístico."

Uns chatos aí caíram de pau no livro, usando argumentos antigos. Por exemplo, que um livro de português deveria ensinar português.

Eu, que sou de Piracicaba e paulistano adotado,  solto "as mina" com frequência alarmante. Por isso me solidarizei momentaneamente com as novas vítimas do preconceito, que livros como esse certamente criarão.

Passou assim que li a explicação do MEC: o livro atende aos seus parâmetros,  a língua portuguesa tem muitas variedades, grupos sociais diferentes falam diferente!

Perseguir negros e gays, a lei felizmente já proíbe. Já judiar da língua e da nossa paciência continua liberado.

Os cara não são mole não, mano.

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Publicado em 07/04/2011 às 11:25

A tragédia permanente das escolas do Rio

Rio, o desenho animado, vem aí. Parece outro clássico instantâneo de nosso maior diretor de cinema, Carlos Saldanha. Quem tem filho viu os três A Era do Gelo mais de uma vez e sabe do que Carlos é capaz.

Rio é uma ode à cidade. Dá uma olhada no trailer.

Melhor propaganda às vésperas de Copa e Olimpíadas não pode haver. Não combina com o noticiário destes dias - o de sempre, mais um arrastão na Linha Vermelha, tiro para cá, vítima para lá. E o de nunca, 12 mortos por um atirador suicida, minutos atrás.

rio escola A tragédia permanente das escolas do Rio

Leia aqui: Homem atira em alunos no Rio de Janeiro

São Paulo e outras grandes cidades brasileiras também têm violência da pesada, claro. Mas é muito menor a discrepância entre realidade e imagem (e, principalmente, autoimagem). O Rio é tão deslumbrante quanto desesperador. Como pode um lugar estar tão perto do paraíso e do inferno ao mesmo tempo?

O Rio não tem jeito. Não é minha opinião. São os números, sempre eles, que não nos deixam em paz. O Rio de Janeiro tem a segunda pior educação do Brasil, atrás apenas do Piauí, embora o Rio seja o segundo Estado mais rico.

É o resultado do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). As escolas públicas cariocas são fábricas de burros.

O investimento anual por estudante do ensino médio fluminense é de R$ 2.061,95, acima de todos os Estados nordestinos. A média em São Paulo é R$ 2.776,85, e a do Brasil, R$ 2.088,02.

É muito pouco em todos os casos. No do Rio, muitíssimo mal utilizado desde sempre.

Não há Estado com pior resultado, considerando o nível de investimento. Meio milhão de alunos nos níveis médio e fundamental (quase 40% do total) têm defasagem de aprendizado entre sua idade e a série que cursa. A taxa média de reprovação é de 22%.

O novo secretário de educação do Rio é um economista, mas parece que não entende muito de dinheiro. Segundo disse ao jornal Valor Econômico, “as estatísticas indicam que não há relação entre salário alto (para professor) e desempenho escolar".

Bem, os números não mentem, mas como dizia outro economista, Roberto Campos, às vezes são como os biquínis - escondem o essencial.

O Estado tinha 79 mil professores em 2006. Hoje, menos de 51 mil. Quer ser professor no Rio? O salário-base é de R$ 765,00. Quem pode, naturalmente debanda. Quem não, tem que complementar a renda com o bico que for.

Salário alto pode não ter impacto no desempenho do aluno, mas salário baixo certamente tem, secretário. E as escolas? Um levantamento do governo carioca indica que 62% dos colégios têm condições péssimas, ruins ou regulares.

Existem muitas ações necessárias para melhorar a educação no Brasil. Eu, por exemplo, acho fundamental fabricar e distribuir tablets com jogos educacionais pra molecada. Outro pensa isso e aquele defende aquilo.

Mas chega de seminários. Basta de debate estéril. O ponto de partida são professores bem treinados e remunerados em escolas decentes, limpas e bem equipadas. Sem isso, é enxugar gelo.

O problema é que para os quase 1,2 milhão de alunos das escolas públicas do Rio de Janeiro, o que interessa é hoje, e hoje a maioria deles é de pobres, ignorantes e semianalfabetos, e estão destinados a isso para o resto de suas vidas.

É farto material humano para a perpetuação da violência no Rio. Não tem Bope ou UPPs que deem conta. O destino da Cidade Maravilhosa, pelo menos o dos próximos anos, talvez décadas, está escrito. E não é o de eterno cartão postal.

+ Atirador deixa crianças mortas em escola no Rio. Veja fotos

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Publicado em 11/02/2011 às 09:55

O verdadeiro preço do alto preço do material escolar


Trezentos e quarenta reais. Foi o preço dos livros que a escola exigiu, mais uns trinta reais de cadernos, e o resto de lápis e tal deu para aproveitar do ano passado. Meu filho tem sete anos, está no segundo ano. Um amigo diz que tive sorte, a conta dele saiu mais de seiscentos. Uma amiga diz que tive muita sorte: o material completo para o filho dela, treze anos, saiu por R$ 1500,00.

Dei uma olhada nos livros. Parecem bem bolados. Não me alivia. O esquema atual de compra de livros escolares é absurdo e uma roubalheira e difícil escapar. Você vai fazer o quê, se recusar a comprar os livros que sua escola exige?

A questão é que as escolas montam isso de uma maneira que isola os pais. Elas escolhem os livros, e têm que ser aqueles. Elas só informam quais os livros no início do ano, duas ou três semanas antes das aulas começarem. Elas fazem com que você vá até as livrarias indicadas e compre lá.

Seria muito simples comprar de uma vez todos os livros para as 70 ou 80 crianças que estão no segundo ano na mesma escola com o Tomás. Seria muito simples comprar diretamente da editora, o que faria os custos caírem imediatamente pela metade (o livro que você paga trinta reais na livraria, ela  pagou quinze para a editora, na média).

Seria muito simples negociar com a editora para reduzir os preços ainda mais - ora, se você está comprando um volume grande, tem mais poder de barganha. Fui editor de livros durante anos. Sei como funciona. E é como o governo faz ao comprar livros escolares - encomenda milhões, paga centavos.

Minha tentação é arregaçar as mangas e enfiar uma chave nessa engrenagem. Falar com os pais dos colegas do Tomás. Melhor, falar com todos os pais do Brasil. Pegar um desses sites de compras coletivas e botar na jogada, agora a compra é massiva. E por aí vai.

Na prática? Não vou fazer nada. Até porque, no fundo, sei que é muito difícil desatar a amarração entre professor, escola, livraria e editora. Mais no fundo ainda, sei que o verdadeiro problema é que o Brasil é um dos poucos países do mundo em que todo mundo se sente na obrigação de pagar para o filho estudar.

Quando leio que o Brasil não é mais subdesenvolvido, sempre penso: ah é? Quando tivermos escolas razoáveis e gratuitas, da primeira infância ao mestrado, vou me considerar vivendo no primeiro mundo.

O verdadeiro preço que pagamos não é só pelos livros e cadernos, ou a mensalidade, ou os cursos paralelos, inglês etc. O verdadeiro preço que todos os brasileiros pagam pela nossa educação cara e ruim (pública e privada) é a ignorância, a pobreza, a violência.

No fundo, tenho um pouco de vergonha de pagar para o meu filho estudar, sendo que tantas crianças estudam sem pagar. Mas também não vou arriscar, vou? Se as melhores escolas do Brasil são tão fracas para os padrões mundiais, que dirá as piores. Pago sem reclamar a mensalidade da típica escola classe média paulistana e torço pelo melhor.

Me conformo um pouco porque em poucos anos, essa conversa toda de livros escolares vai se acabar. Os tablets vieram para ficar. Em cinco anos, o típico tablet vai ser tão poderoso quanto um iPad de hoje, e dez vezes mais barato. Digamos uns setenta reais.

Se produzidos em massa, de encomenda para governos e escolas, pode cair muito, e cada vez mais a cada ano. Será simplesmente antieconômico, para não dizer antiecológico, continuar imprimindo milhões de livros para depois jogar fora, se um tablet pode conter centenas, milhares de livros digitais, permitindo interatividade e tudo mais.

As crianças vão continuar curtindo livros? Sim, se eles forem muito divertidos, meio com pinta de brinquedo, como tantos que já existem hoje (e caríssimos). Não, se for só para ler. As crianças vão continuar usando lápis, borracha e caderno nas escolas? Sim, mas cada vez menos. De todas as coisas inúteis que uma criança precisa aprender, caligrafia dever ser a número um.

O quanto você escreve à mão por dia? O quanto você digita? O computador é a segunda mais importante ferramenta de ensino que uma criança pode ter. A primeira é o professor. Se eu fosse presidente da República, limpava a mesa e me concentrava no que interessa: salário, formação e cobrança para professor, e tablets pra toda a meninada.

Mas sou só mais um pai ranzinza...

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Publicado em 10/12/2010 às 07:55

Vamos matar nossos meninos?

Vamos. Estamos indo bem. Se a taxa atual de assassinatos de jovens entre 12 e 18 anos for mantida, até 2013, 33 mil adolescentes serão mortos. Trinta e três mil adolescentes mortos - a partir de que número começa a contar como genocídio?

A morte violenta responde por quase metade das mortes nesta faixa etária. 2,67 em cada mil jovens entre 12 e 18 são assassinados a cada mês. Os dados são da Unicef, da Secretaria de Direitos Humanos e da ONG Observatório de Favelas. Foram divulgados ontem.

Quem são estes meninos? Para começar, são meninos - 12 homens para cada garota. São negros - quatro para cada branco, índio ou amarelo. E são mortos a bala, quase sempre.

No mesmo dia, saem os resultados do Pisa, Programa Internacional de Avaliação de Alunos. Ele compara a qualidade da educação em 65 países, focando em leitura, matemática e ciências. O Brasil está em 53º. A explicação é que o Brasil é um dos países que menos investem em educação no planeta. (Leia aqui)

A gente pode ficar empilhando números aqui por mais duas semanas. Dou só dois: um quinto dos brasileiros com mais de 15 anos é analfabeto funcional, sendo que 14,1 milhões de brasileiros não sabe ler nem escrever. O governo comemora que o analfabetismo caiu 7% entre 2004 e 2009. Parabéns aos responsáveis.

Português claro: o Brasil não investe nada em educação, cria um exército de ignorantes, e depois assassina os moleques em massa. 33 mil adolescentes dá uma montanha de defuntos de bom tamanho. Podíamos empilhar, embalsamar, transformar em uma nova atração turística. A Copa vem aí.

Uns poucos dos nossos garotos, afinal, sobrevivem e viram grandes jogadores de futebol. Encantarão o planeta nos estádios Brasileiros de 2014. Isso, claro, depois de R$ 30 bilhões de investimento público. O novo ministro do Turismo foi indicado por José Sarney. Faça as contas.

Li uma vez - onde? - que a evolução de um país se mede pelo tamanho dos salários dos professores e dos policiais. Parece um bom parâmetro. Se pagasse bem ser professor, nossos melhores cérebros iam dar aula. Se pagasse bem ser policial, idem, e a tentação da corrupção era bem menor.

Por que pagamos mal nossos professores e policiais? Não é falta de dinheiro - de cara, já sei onde encontrar R$ 30 bilhões. É falta de caráter de nossos governantes, e falta de vergonha nossa, minha.

E o PIB do Brasil? Não para de crescer. Vai fechar em 7,5%, talvez 8%, diz o Ministro Guido Mantega, que comemora estarmos atrás apenas da China em crescimento - passamos a Índia! A Rússia!

Robert Kennedy Jr. tem uma boa frase: “Os Estados Unidos têm o maior PIB do mundo - mas ele inclui propaganda de cigarro, poluição do ar, dinheiro que vem do tráfico, cadeados para proteger nossas casas, prisões para nos proteger dos criminosos, e ambulâncias para lidar com a carnificina que acontece cotidianamente em nossas estradas”.

[r7video http://videos.r7.com/nblogs-discute-a-violencia-nas-escolas/idmedia/b1ac7461c1ef8fea3f179d021fba01da-1.html]

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Publicado em 06/12/2010 às 10:36

O gibi que todo brasileirinho deveria ler


Os quadrinhos finalmente entraram nas listas de compras para bibliotecas, escolas, governos. Muitos são especialmente publicados com este objetivo. Bato palmas. Um probleminha: a maioria do que governos e escolas compram são livros de criadores brasileiros. Compreendo que é bom apoiar o criador nacional e tal, mas é caipirice. Não precisa publicar qualquer porcaria gringa aqui só porque é mais barato.

Mas alguns títulos estrangeiros são obrigatórios e não têm equivalente nacional. Sou todo pelo apoio ao Brasil brasileiro, mas se não tem aqui, não tem. Tipo iPad - porque o imposto é tão alto, visto que nenhuma empresa produz concorrente made in Brazil? E videogames? Divagou ele.

Se eu fosse o ministro da Educação, dava de presente para cada brasileirinho aos 12 anos a coleção completa de The Cartoon History of the Universe / The Cartoon Guide do the Modern World, e mais o voluminho de The Cartoon Guide to Sex. Traduzido para o portuga, naturalmente. Os dois primeiros volumes foram lançados no Brasil pela Editora Jaboticaba em 2004, mas estão indisponíveis - talvez você ache em algum sebo. Recomendo em inglês.

Ninguém consegue unir física, biologia, história, geografia, literatura, antropologia e o escambau científico como Larry Gonick. Imagine fazer tudo isso com humor agudo e sensibilidade moderna - e em quadrinhos. Imagine começar no Big Bang e terminar nos nossos dias, 2008.

Gonick conseguiu. Levou trinta anos. Os três volumes do The Cartoon History of the Universe são educativos e apaixonantes. Os dois volumes do The Cartoon Guide do The Modern World fazem a ponte do que é “histórico” para nossa década.

Quando você começa a ler, não consegue largar; quando termina, quer voltar a determinados trechos, porque a densidade de informação é altíssima, e a releitura divertida. A bibliografia de obras que Gonick usa para referência, no final de cada volume, renderá anos de leituras valiosas aos interessados.

Gonick levou décadas para fazer essa série, mas fez muito mais. Em paralelo, criou guias em quadrinhos de assuntos como física, estatística, meio ambiente. Fez uma tira para a revista Science. Produziu muito, sempre na mesma pegada.

Dê uma passeada pelo site dele (clique aqui) e você vai perceber o tanto que Gonick realizou. A explicação, ele mesmo dá: é um cartunista com excesso de educação. Começou se formando em matemática em Harvard, em 1967, que tal?

Quanto ao guia sobre sexo, bem, li este final de semana e aprendi várias coisas. Considerando que tenho 45 anos... Dei boas risadas, também. Gonick não se leva a sério, mas leva a seríssimo sua missão: “desde 1972, crio quadrinhos que explicam história, ciência e outros assuntos sérios. Por que pegar tão pesado?

Porque decidi que minha missão é levar às pessoas a informação que elas precisam para tomarem decisões sábias sobre o futuro da comunidade humana. Hei, estou só tentando salvar o mundo!”

Faz muito mais para isso do que a maioria de nós. E faz uns gibis sensacionais, também.

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Publicado em 11/11/2010 às 09:37

Vamos abolir o Enem

Tem um único momento do ano em que todos os olhos estão voltados para o Ministério da Educação.

Pois justamente nessa hora, os gênios lá conseguem fazer duas trapalhadas, nos gabaritos e na montagem dos cadernos de provas. Questões repetidas? Perguntas ausentes? Cabeçalhos trocados?

Você levaria a sério uma instituição responsável pela educação dos brasileiros que não consegue nem dar conta do arroz com feijão?

ministro Vamos abolir o Enem

Fernando Haddad, ministro da Educação, e o presidente do Inep, Joaquim Soares Neto, em entrevista sobre o Enem 2010/ABr

Acidentes acontecem. Mas alguns acidentes são mais que previsíveis, são inevitáveis. Você não botaria a menor fé no Ministério da Educação se entrasse no site oficial do Enem.

Passeei por lá 15 minutos e encontrei toletes de palavrório politicamente correto significando nada. Quer exemplos? Mesmo? Pula essa parte, vai.

MATRIZ DE REFERÊNCIA PARA O ENEM 2009

Linguagem, Códigos e suas Tecnologias

Dilma, que disse que nossa educação está “encaminhada”, certamente não leu o horror acima. É o que meu compadre Ronnie costumava chamar carinhosamente de “groselha”, em português corrente, bullshit.

Mas é significativo do universo mental pantanoso dos burocratas da pedagogia, que nem ambicionam explodir os cérebros dos jovens com mil e uma possibilidades, nem sabem treiná-los para, mediocremente, ganhar o pão de cada dia. O que resta?

O ENEM foi criado em 1988 para medir a qualidade do ensino médio em todo o Brasil, com o suposto objetivo de melhorar nosso ensino. Doze anos depois, a educação aqui continua de dar dó.

Na prática, o ENEM hoje serve para contar pontos para o ProUni ou para o novo “vestibular” no Sistema de Seleção Unificada. Tanto que tem um monte de cursinho e cursão ensinando a molecada a se dar bem no Enem.

Bom, qualquer coisa que ajude qualquer um a estudar para melhorar seu salário tem seu mérito.

Mas o ProUni é fundamentalmente um sistema de transmissão da responsabilidade pública para a privada e dos recursos públicos para os donos das faculdades - que frequentemente estão pouco se lixando para a qualidade da educação.

Por que você acha que os formandos das universidades públicas continuam com mais prestígio e salário maior? Eu tenho asco do ENEM, por duas razões. Uma pessoal, outra profissional.

A pessoal é: um texto meu foi publicado na prova do Enem em 2002! Nem me pediram autorização! Se cada aluninho me pagasse dez centavos, eu estava R$ 400 mil mais rico. Baita sacanagem, e a prova está aqui.

Mas tem uma razão mais consequente para abolir o Enem. É que ele é uma cortina de fumaça. Uma maneira de fazer as pessoas pensarem que o governo está atento para a educação, está investindo na formação e usando métodos científicos para mensurar tudo e agir. Enrolação.

O brasileiro é burro e continua burro. Leia aqui. A razão é uma só: falta de investimento. Os números não mentem. Todas as pesquisas internacionais explicitam.

O Brasil investe 4,2% do PIB em educação - na lista dos 100 países que mais investem, somos o 78º. Na lista dos maiores investimentos públicos em educação, o Brasil é 114º.

Temos 12% de analfabetos acima dos 15 anos. A média de anos em que um adulto brasileiro frequentou a escola é 4,9. Só 3,9% dos brasileiros são professores, somos os 19% da lista.

Claro: na lista dos 50 países que pagam melhor os professores, o Brasil não aparece. E das 100 melhores universidades do mundo, o Brasil não tem nenhuma.

Quando você lê que o Brasil gasta muito com universitários e pouco no ensino primário; que o problema é a gestão, que não coloca metas e premiações para o professor; que a saída é a meritocracia, a eficiência, a melhor administração dos (parcos) recursos, lembre: é tudo bobagem.

O Brasil é burro porque eles querem. E porque nós deixamos.

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Publicado em 18/08/2010 às 08:20

Deficiente: você ainda vai ser

Dia deficiente Deficiente: você ainda vai ser 

O Ministério do Desenvolvimento Social fez uma pesquisa com 190 mil famílias que recebem o Benefício de Prestação Continuada, porque têm em casa criança ou jovem com deficiência intelectual ou física.

Ele só é pago a famílias com renda per capita inferior a um quarto do salário mínimo, ou R$ 127,50. Descobriram que quase um terço dos meninos, 32%, não frequenta escola.

Razões alegadas: 53% dos pais consideram que o filho não tem condições de aprender, 10% temem que ele seja discriminado, 9% temem violência, 13% não têm quem leve ou acompanhe o filho até a escola.

Muita gente não sabe que é direito de todos os deficientes a matrícula em escola regular. É a posição do Ministério da Educação e de muitas entidades representativas.

Claro que o governo defende a inclusão, mas não viabiliza o cumprimento da regra, como de costume.

Parece esquisito em princípio, você botar um moleque cego, surdo ou com paralisia cerebral na classe com crianças “normais”. E é mesmo.

Como o professor vai dar a atenção necessária para quem tem necessidades especiais, sem descuidar das necessidades dos outros?

E se tiver surdo na sala, precisa sempre ter um intérprete que conheça LIBRAS, a linguagem brasileira de sinais? E se for cego, lê livro em braille?

Meu tio Joaquim é paraplégico, acidente de trabalho, desde 1983. Era engenheiro, virou professor, vocação que sempre teve - me ensinou na adolescência a jogar truco e ler o Pasquim, entre outras coisas úteis.

Se acha um privilegiado, porque convive todo dia com gente que sofre ainda mais. Já ouvi dele histórias apavorantes sobre deficientes extremamente carentes.

Cara que ficou paraplégico e nunca mais saiu de casa, porque mora na favela, e não tem como descer os degraus, e daí para pior.

Se você pensa que é dureza ser pobre, ou deficiente, não faz ideia do que é ser deficiente pobre.

Joaquim é militante dos direitos dos deficientes, sem perder o humor.

Tem uma boa do meu tio que foi pegar uma classe da Unicamp e explicar os problemas da inclusão botando venda em um, silicone na orelha do outro, amarrando braço ou perna, colocando vários em cadeira de roda - depois ordenou, “agora todo mundo para a lanchonete tomar um café”.

Outra inesquecível foi apoiar a organização de um cursinho para vestibulandos carentes - e despachar um deficiente visual para ter aula lá.

No final, todo mundo vira deficiente. Vai apagando velinha, vai ficando surdinho, cegueta, manquitola, e vai que vai. Para escapar, só morrendo jovem.

E bem antes do final, a gente já começa a conviver com as deficiências conforme nossos avós e pais vão envelhecendo.

Desde o ano passado, meu filho compartilha a classe com Diandra, uma garotinha que tem Síndrome de Down. No começo estranhou um pouco.

Depois aprendeu o que é Down e veio me explicar, “não tem por que eu ficar bravo, é que ela tem a mesma idade que eu, mas o cérebro dela é de criança menor”. Diferente não precisa ser pior.

Comentei com Joaquim, ele mandou: “pois é. A grande coisa das salas de aula compartilhadas nem é só o que os deficientes aprendem... mas o que o resto dos alunos aprende, convivendo com o deficiente.”

O Twitter do Joaquim.

O blog.

No Facebook.

E aqui, o tio fazendo sucesso com a molecada, deficiente ou não.

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Publicado em 25/05/2010 às 08:44

O longo adeus dos livros

É o tira-teima da futurologia: em que exato momento o futuro vira presente? Quando o porvir vira já foi? Em que exato momento entre os burburinhos de esquisitões e a capa da revista, o que era boato se transmuta em fato?

Entre a roupa louca que ninguém usa e sua versão aguada na loja de departamentos? Entre o que ninguém faz e o que é obrigação de todos? Para a maioria das pessoas, imaginar um mundo sem livros é difícil.

Impensável. Inútil. Fantasia de maluco.

Mas The Wall Street Journal avisa: na gigantesca vitrine da livraria Barnes & Noble, em Nova York, o destaque agora é para cobertor para bebê, relógios chiques, jogos de gamão.

Mas: o presidente e maior acionista da Barnes & Noble, maior rede americana de livrarias, Leonard Riggion, diz: “o modelo das livrarias está sob pressão”.

Mas: a Barnes & Noble tem hoje menos lojas que em 1997.

Mas: as vendas da rede são hoje menores que em 2005, incluindo a receita de vendas online. Os livros eletrônicos são hoje 4% do mercado americano.

Os livros eletrônicos serão pelo menos 20% do mercado americano em 2012, segundo a consultoria especializada Idea Logical. Mercado formal. Quem quiser pegar seu livro de graça na internet - bem, tem pra todos os gostos.

O iPad e a chegada da nova geração de computadores superleves, parrudos e baratos vai turbinar a mudança. Previsão do MIT: o típico computador pessoal de 2020 será 32 vezes mais poderoso que o PC atual.

A encruzilhada é: a indústria da comunicação e do entretenimento do século 20 era baseada em propriedade intelectual e grandes audiências. As grandes audiências se fragmentam na velocidade da banda larga.

Quanto à propriedade intelectual (e o copyright, e a lei de patentes), as grandes empresas querem leis mais rigorosas, mas é muito difícil - impossível? - garantir seu cumprimento.

Em direção contrária, o cidadão do século 21 exige praticidade infinita e preços em declínio permanente, chegando ao preço zero o mais rápido possível.

Tem muita gente inteligente querendo encontrar o meio-termo. Nada de concreto à vista. As velhas mídias viverão até o enterro de seu último fã. Temos décadas de jornais, livros e álbuns pela frente.

O livro não morreu. O disco não morreu. A revista, o jornal - não morreram. Que papel terão no novo ecossistema de comunicação? Bem diferente. Menor.

O livro eletrônico vai substituir rapidinho o livro físico substituível - não colecionável, não lindo, não fofo.

mouse book O longo adeus dos livros
Tem gênio para todo lado garantindo que o livro físico é para sempre. Umberto Eco, esses dias. É autoengano. É prever o futuro projetando o passado. Não funciona.

Fato: há maneiras mais irresistíveis de se distrair, se distração é o que desejas; e há muletas mais sólidas, se autoajuda (no amor ou na carreira ou onde for) é seu vício.

Distração e autoajuda é 99% do mercado mundial de livros.

Fato 2: a molecada não lê livros. Razão central: livro é chato. Comparado com Facebook, videogame, cinema 3D. E tomado isoladamente também. Livro é longo. Livro demora. Livro enrola.

Livro tinha que ter pelo menos 300 páginas para fazer sentido no ponto de venda, a livraria.

Se a livraria fechou, por que livro longo? Dá pra ser mais rápido? Cadê o resumo? Cadê o suquinho? Cadê a droga concentrada na veia?

No Japão e Coreia, romances em formato de SMS fazem sucesso. Poucos caracteres a cada dia. Romance no Twitter, por que não? 140 caracteres diários para contar o folhetim.

A internet não matou a palavra escrita, muito pelo contrário - o que as pessoas mais fazem na frente de um computador é ler e escrever.

 Tem um novo tipo de ficção / de reportagem / de memórias sendo inventado: o texto construído por anos de participações privadas & públicas na internet.

Não é porque as pessoas leem e escrevem muito que a velha ficção, o livro-reportagem, a trilogia, o romance para moças devem sobreviver.

Vão. Vão tarde. Como a pastorela e o rondó. Como os pulps e os 25 volumes da Enciclopédia Mirador.

Ler livros jamais foi hábito de maiorias. No futuro imediato está o dia em que será reduto de excêntricos - como os que ainda insistem no vinil e na vitrola. Estarei entre eles. Preferia não.

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Publicado em 01/04/2010 às 12:58

Meus livros, um sofá e nada mais

Marcos Chaim me liga de Campinas. Amigo de infância, vizinho, fomos mais ou menos criados juntos. Continuamos tão amigos como sempre – só que agora nos falamos uma vez por semestre. Conta que andou enfrentado Proust, e continua esperando aquela prometida noveleta do Salinger. E me cobra: eu devia escrever sobre livros, os livros que a gente gosta.

Já tem bastante gente fazendo estes textos-lista, name dropping puro, na linha “sou culto e cool”. Mas o Chaim recomendou e, afinal, felicidade é um livro e um sofá.

Tive sorte. Minha mãe me ensinou a ler antes do pré. E meu pai nunca regulou dinheiro para livros. Que eu lembre, a primeira coisa que li regularmente foram os gibis do Batman (leio até hoje). Livro, foi As Caçadas de Pedrinho, numa edição da infância do meu pai.

Levou àquela coleção de capa vermelha do Monteiro Lobato, que ganhei quando fiz sete anos. Aí a Abril estava lançando uma coleção de fascículos chamada Mitologia, sobre a greco-romana. Li com leves censuras maternas – afinal, é meio difícil explicar incesto e patricídio para um moleque de nove anos.

Lembro de passar o primário e boa parte do ginásio lendo livros de aventuras, policiais e ficção científica – Hercule Poirot, Sherlock Holmes, Júlio Verne, H.G. Wells, Tarzan, os livrinhos da Ediouro (Turma do Posto 4, Coleção Monitor). De nacional, lembro bem de Francisco Marins e de O Gênio do Crime. Ficção científica também – Asimov.

No fim da sétima série, aconteceram três coisas fundamentais. Me formei no Yázigi. Começou a chegar gibi americano em Piracicaba. Eu queria muito ler X-Men, Avengers. O inglês começou a deslanchar. E comecei a ler o Paulo Francis.

O Francis me fez. Toda quinta e sábado eu anotava os livros citados por ele na Ilustrada, corria atrás. Percebi o tamanho da minha ignorância. O mundo se abriu, a tempo para a adolescência.

O que eu achava e acho sensacional do Francis é que ele ia da sardinha ao caviar, sem preconceitos e sem compostura. Me apresentou a literatura americana do século 20 – de Hemingway e Fitzgerald a duas de minhas escritoras prediletas, Lilian Hellman e Mary McCarthy, a Gore Vidal e Norman Mailer. Me apresentou Arthur Koestler, Camus, Aldous Huxley, Bertrand Russell, Bernard Shaw (leio Santa Joana todo ano), Anthony Burgess. Mas também adorava policiais e thrillers (Ed McBain, Patrícia Higshmith, Raymond Chandler).

Acompanhei o Francis de 1978 a 1997. Em quase vinte anos, devo ter lido centenas de livros recomendados por ele. Que levaram a outras centenas.

O serviço que ele me prestou não tem preço. As coisas que o Francis desprezava, a Heavy Metal cobria – especificamente, contracultura e ficção-científica. Na primeira metade dos 80, a HM era uma revista de quadrinhos adultos ótima. Tinha uma seção de texto chamada Dossier, punk sem preconceitos, editada por uma figura, Lou Stathis, que morreu este ano.

Lá descobri clássicos da FC (Michael Moorcock, Alfred Bester, Robert Sheckley, Ballard, Philip K. Dick., Duna), hippies malucos (Terry Southern) e então novíssimos talentos (William Gibson, Gregory McDonald, Bruce Sterling).

No colegial trombei com Jorge Luís Borges e Herman Hesse, não sei onde, e com a literatura de esquerda que começava a aparecer no Brasil, principalmente os anarquistas. Li tudo que a Brasiliense lançou no período.

E todos os livros que tinha na minha casa – inclusive aqueles best-sellers legais tipo Morris West e Irwing Wallace. Percebi que era preciso prestar atenção em tudo. Você nunca sabe de onde vai aparecer uma informação fundamental.

Por exemplo: uma revista de arte que meu pai recebia de cortesia tinha um texto sobre Marcel Duchamp e Man Ray que me levou ao livro Dada & Surrealism. Ganhei novos ídolos, aprendi que a sabedoria está onde você a encontra, e nunca esqueci disso.

Em São Paulo, virei rato da Cultura e da Siciliano (quando tinha grana; quando não tinha, sebos). Surpresa: livros importados eram mais baratos que os nacionais. Tracei a coleção Argonauta, John D. McDonald (Travis McGee é o meu herói), Elmore Leonard (o melhor escritor de diálogos vivo), mais Koestler (O Fantasma da Máquina, doidão), mais Burgess, mais Truman Capote, e Salinger, e Norman Mailer, mais de todos os caras que eu já tinha lido. Hunter S. Thompson apareceu num texto do Sérgio Augusto. Muita ficção, algumas biografias (Kim Philby, Timothy Leary).

Tudo que as revistas gringas citavam como legal chequei. Não me formei na ECA, mas devorei sua biblioteca. Só não topo mesmo filosofices (sociologices etc.) e literatura brasileira. Existem alguns caras muito bons (Millôr!), mas o tom geral ou é roceiro (papo de boi com vaca, tô fora) ou é muito metido a intelectual e “artístico”.

Na última década só piorou. Trabalhar me garantiu receita suficiente para comprar todos os livros que der na telha – sempre mais prioritários que comprar roupa, trocar de carro, pagar o condomínio ou almoçar.

Até esse negócio de começar uma editora nasceu um pouco da obsessão pela leitura. Que bateu, claro, nos livros de business. Recomendo o Tom Peters.

Em casa tem pilhas de coisas pra ler no quarto, banheiro, sala, escritório e às vezes até cozinha. No momento enfrento Against The Gods: the Remarkable History of Risk, de Peter L. Bernstein. Mais os suspeitos habituais: Jim Harrison, Guy Kawasaki, James Ellroy, Jonh D. McDonald, Terry Pratchett. Tudo ao mesmo tempo.

Depois da Amazon Books, que vende livros pela Internet, estou perdido. Entro toda semana pra ver se o livro do Salinger já saiu. Mais, claro, os gibis e revistas – outras duas obsessões, mas deixa pra lá.

Espero ficar velhinho logo. Para me aposentar em algum lugar perto do mar e do meu amor, cercado de livros por todos os lados.

(Caros Amigos, setembro de 1997)

Veja mais:

+ Ame o que você faz, trabalhe muito e respeite a inteligência do próximo
+ Um gibi de 600 páginas que todo adolescente deveria ler
+ Todos os blogueiros do R7

Publicado em 26/03/2010 às 08:41

Eu sou uma flor

Quando este blog se mudou de mala e cuia para o R7, alguns leitores da antiga ficaram com um pézinho atrás: será que o cara vai ter que aliviar?

Vai se autocensurar? Afinal, blogueiro oficial, em portal da Record, e não sei o quê.

Mais recentemente, andei sendo zoado - merecidamente! Todo sarro é merecido! - porque me mostrei, hmm, sensível. Escrevendo sobre pinturas renascentistas, babação de ovo com meu filhinho, elogiando a beleza angelical do Morten do A-Ha e não sei que mais frescurites.

Esclarecimento 1: me autocensuro sim. Pouco. Como fazia antes. Blogueiro que diz que não se autocensura está mentindo. E, inclusive, parte da autocensura (e autoinflingida) é não comentar nada sobre o portal e seus concorrentes diretos. Não elogio e não critico. Não fazia no UOL, não faço no R7.

Esclarecimento 2: sou mais que sensível. Sou um docinho de coco. Gosto de umas tosqueiras, mas sou apaixonado por musicais da Metro, pré-rafaelitas, Mary McCarthy. Sei de cor as canções dos Backyardigans, tenho uns 50 livros de receitas e levo o moleque para cortar o cabelo.

Tá bom de mariquinha?

Quando eu escrevia de vez em quando, mostrava mais o lado, digamos, polêmico, porque era editor e achava que fazia falta no mix daquele veículo específico. Agora que escrevo todo dia, acabo liberando (epa) a frufruzice.

Neste momento lindo de sinceridade entre amigos, compartilho com vocês os criadores das delicadas Satanarchist e Between Shit and Piss We are Born: Anaal Nathrakh! Porque, como eles mesmo dizem, submission is for the weak...

Veja mais:

+ O poder da Primavera
+ A impossível perfeição do A-ha
+ Todos os blogueiros do R7

Publicado em 15/03/2010 às 08:42

Vanderlei

Terça, nove da noite, bar do Sacha, tomo uma caipirinha na mesa da rua enquanto espero um amigo - e sou interrompido. O mulatinho é simpático, mas não presta muita atenção em mim. Erro.

Vendedor tem que se concentrar na presa. O garoto não tem vocação pra empurrar paninhos. Vai de mesa em mesa, vendendo umas toalhinhas “para ajudar”.

- Quanto é?

- Três reais.

- Como é o seu nome?

- Vanderlei.

- Você estuda, Vanderlei?

- De manhã. Compra pra me ajudar a comprar o material?

- E você está aqui sozinho vendendo as toalhinhas?

- Não, é minha mãe que sempre vende, mas ela tá com a nenê.

- Onde? Em casa?

- Não, ali no outro quarteirão, dando de mamar.

- Então me vê uma.

- Pode escolher a cor.

(São todas igualmente horríveis.)

- Verde, me vê a verde. Taí, cincão, pode ficar com o troco.

- Leva duas, moço!

Não, pode ficar com o troco.

- Leva duas para acabar logo!

- Certeza? Então vou levar as duas verdes.

O moleque finalmente abre o sorriso - vejo a banguelinha. Faltam os mesmos dois dentes que no meu filho.

- Quantos anos você tem, Vanderlei?

- Sete.

Veja mais:

+ O brasileiro é um povo com os pés no chão e as mãos também
+ Dinheiro é o que não falta para o Brasil
+ Todos os blogueiros do R7

Publicado em 10/03/2010 às 13:44

Vamos liberar as drogas

Crime sem vítima. Ouviu falar?

É o ato ilegal que não machuca ninguém, a não ser a pessoa que o pratica. Tomar drogas, por exemplo. Você pode argumentar que o fato de um cara cheirar cocaína acaba atrapalhando a vida familiar dele.

Mas você também pode argumentar que o fato de um cara sair de casa cinco da manhã e voltar às nove da noite, que é a jornada normal de pelo menos metade dos paulistanos, também atrapalha a vida familiar.

Vamos tornar o trabalho ilegal? Por mim tudo bem. Na minha geração e grupo, o uso de drogas foi e é comum. Com o tempo, a maioria de nós foi sossegando o facho. Estamos todos vivos e ilesos, ou a maioria.

Então, tenho três razões para defender que o uso de drogas deve ser descriminalizado.

Primeiro: todo crime sem vítima deveria ser descriminalizado.

Segundo: as drogas ilegais fazem muito menos mal do que se diz.

Terceiro: o custo social de mantê-las ilegal é muito mais alto do que o custo social de legalizar tudo.

Em momentos diferentes da história, produtos que hoje têm consumo legal como café, álcool e fumo foram ilegais. Você acha que o zé maneba na rua sabe disso?

Hoje, este trio movimenta bilhões e têm sua produção e consumo liberados e /ou regulamentados. O Brasil, por exemplo, é o quarto maior produtor de tabaco do mundo.

Faz mal pra saúde? Bem? Não é o ponto. O ponto é que se eu tomar dois litros de café por dia e tiver uma baita gastrite a vítima sou eu. Estou no meu direito. Ninguém tem direito de se meter.

Por que maconha deveria ser diferente?

O site Floating Sheep criou este mapa que mostra o consumo destas três drogas legais. Se fizerem um mapa semelhante medindo o consumo de drogas ilegais, acho que dá algo bem parecido.

Repare que o país que 80 anos atrás tinha uma lei que proibia o consumo de álcool, hoje bebe mais que todos os outros juntos... Veja aqui.

Tem que liberar tudo mesmo. Maconha, cocaína, heroína e ecstasy são produtos como outro qualquer. E o crack? É do mal mesmo... mas se o pó estiver baratinho ninguém vai fumar essa porcaria de crack.

As pessoas querem e pagam caro por drogas. A ilegalidade só alimenta o crime. Vamos vender droga no supermercado com embalagem bacana, na farmácia, na balada, cobra imposto e tudo bem.

Bota anúncio na novela, merchandising no programa de auditório, tipo cogumelo do sol. Dá para cobrar mais barato que hoje e ainda encher os cofres públicos – podemos botar todo esse imposto para construir hospitais e creches, que tal?

Pó na cantina da firma? O patronato ia ficar feliz com o aumento da produtividade. Maconha liberada em hospital? Os pacientes iam dar bem menos trabalho...

Naturalmente, você, que é careta, mantém o direito de manter distância de drogados, o que recomendo. Quem já tentou conversar sóbrio com um cara cheirado sabe a maletice que é.

Hoje, a maior parte dos presos lotando as cadeias brasileiras foram presos como traficantes de pequenas quantidades de narcóticos. Isso é uma estupidez e queima recursos do país.

Até o Fernando Henrique Cardoso, que ninguém há de acusar de liberal ou esquerdista, defende a descriminalização das drogas! Não tem mais o que discutir. Tem que ver como é que se faz.

A população é contra? A população não sabe do que estamos falando. A população vê esses programas idiotas na TV com neguinho fazendo terrorismo sobre drogas. A população era contra divórcio e camisinha. A população é permeável a educação, a debate esclarecido, a mudanças.

Sem liberação das drogas não há como diminuir a violência, o crime e tal. Quem diz o contrário é mentiroso ou mal informado. Combater as drogas é como querer combater o café, a cerveja, o chocolate ou o sexo.

As pessoas tomam drogas, legais e ilegais, porque como dizia Lisa Suckdog, Drugs are Nice. E quem tem que fazer campanha pela descriminalização das drogas são os caretas, como eu, porque os chapados não conseguem se organizar e têm outras coisas para fazer com seu tempo e dinheiro.

E agora licença que vou tomar um café.

Veja mais:

+ Especialista defende que Brasil lidere movimento para descriminalizar a maconha
+ Policiais cercam Masp para impedir manifestação a favor da descriminalização da maconha
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