Posts com a categoria: Comportamento

Publicado em 03/02/2015 às 10:36

Pare de economizar água. Pare de chatear os outros. Vá tomar banho! E pode ficar meia hora no chuveiro (como eu)

kok Pare de economizar água. Pare de chatear os outros. Vá tomar banho! E pode ficar meia hora no chuveiro (como eu)

Continuo tomando banhos longos. Sem dor nenhuma na consciência. E molhando o quintal, regando o jardim, lavando o carro como sempre. Sou egoísta? Não, sou consciente, e sai pra lá, maleta.

Só tem uma coisa mais chata que falta de água. É a falta de noção dos chatos que fiscalizam como os outros estão usando a água. Nessas horas de crise sempre vem à tona o ditadorzinho que existe dentro das pessoas. É o clássico problemas dos regimes autoritários. O pior não é o ditador que manda no país, é o guardinha da esquina que quer mandar em você.

Milhões de anos de seleção natural criaram esse nosso ego monstruoso. Seu cérebro te garante que o universo gira em torno do seu umbigo. Que cada pequeno ato seu tem reverberações cósmicas. Que depende fundamentalmente de você tudo que te acontece, que acontece no mundo, no seu mundo. É uma armadilha que a evolução armou para a gente.

A mídia pega a onda. Agora é uma reportagem atrás da outra sobre como economizar água. Estrelando os malas que enchem a paciência do próximo. Sim, inclusive malas amigos. Você mesmo, mano. Você aí, querida. Tenho só uma coisa a dizer para você: vai tomar banho! E pode ficar uma hora no chuveiro. Não fará diferença nenhuma para a cidade, a sociedade, a humanidade. Só pra sua conta.

Egocentrismo é nossa natureza. Você não precisa se render a ela. Existem os seus problemas pessoais. E existem desafios coletivos. Que precisam ser enfrentados coletivamente. Perceba: isso é muito diferente de cada pessoa “fazer sua parte”. Soluções coletivas não são compostas de um monte de iniciativas individuais. É, como grupo, como sociedade, compreendermos a raiz do problema, articularmos como sociedade as soluções, e enfrentar os desafios de implementá-las.

Não percamos tempo listando aqui as barbaridades e bandalheiras várias que nos levaram a esta situação. O ponto principal é: sabemos o que fazer para garantir água farta e barata, talvez grátis, para todos.

Sabemos quais obras precisam ser feitas. Sabemos que precisamos despoluir os rios. Sabemos que é preciso acabar com o desperdício na distribuição (um terço da nossa água se perde aí).Sabemos que precisamos de saneamento básico universal. Sabemos que precisamos de uma economia que não exporte nossa água como commodity, na forma de soja e bife. Sabemos que precisamos parar de derrubar floresta e reflorestar a Amazônia. Sabemos de tudo.

Então por que não fazemos o que sabemos ser fundamental? Porque “sabemos” que não há dinheiro para isso. Quem diz? Os  caras que a gente botou lá para gerir o dinheiro dos nossos impostos. E um monte de sub-experts e jornalistas matraca-trica que macaqueiam esse discurso.

Os cofres públicos estão recheados. Municípios, estados e governo federal usam nossos recursos de maneira errada. Errada de três maneiras diferentes. Errada porque uma boa parte da grana é roubada. Errada porque outra boa parte é gasta com coisas que não são prioritárias, mas garantam visibilidade e reeleição.

E errada da maneira mais sem cabimento e menos visível para você. Que é pagando os juros mais altos do planeta. Sim: entre todos os países da Terra, o Brasil tem os juros mais altos. Todo empresário está comprando títulos públicos, em vez de investir na produção. Tudo que é investidor gringo está faturando altíssimo nessa.

Municípios, estados e governo federal estão sufocados com o pagamento dessa dívida, cada vez mais impagável. Para os investidores, é o melhor investimento do mundo. Para os brasileiros, é o pior investimento possível dos nossos impostos. Dilma acaba de subir os juros mais ainda. A Selic hoje está em 13%.

Chamam isso de responsabilidade fiscal. É uma irresponsabilidade social. Em 2014 o Brasil pagou R$ 249 bilhões de reais em juros da dívida. Esse ano pagará mais. Precisa pagar menos. Preferencialmente nada. Que pagasse um terço a menos. Seriam mais R$ 66 bilhões para investir, um oceano de grana. Sabe como se faz isso? Com uma canetada lá em Brasília. Agora, como forçamos dona Dilma a dar essa canetada? Coletivamente.

Para fazer tudo aquilo que sabemos que tem que ser feito, há que enfrentar a roubalheira dos políticos. Há que melhorar a gestão dos recursos públicos. Mas nossa pressa é grande. A solução mais rápida é pagar menos juros e já. Isso nada tem de radical. É uma proposta modesta para uma questão bem arroz com feijão. Se você, na sua casa, tiver que optar entre ter água na torneira ou pagar as dívidas, vai escolher o quê? Morrer de sede com o carnê em dia?

Os brasileiros precisam tomar esta decisão. Isso é que é "fazer a sua parte". Pense nisso quando entrar hoje no chuveiro. Sem pressa...

Publicado em 06/11/2013 às 19:20

O jornalismo tem muito futuro (e aqui estão três provas)

NYT7 O jornalismo tem muito futuro (e aqui estão três provas)

Nos últimos tempos, um dos esportes favoritos dos jornalistas é prever o fim do jornalismo. Frequento um grupo de jornalistas no Facebook com uns 12.589 profissionais e estudantes da área. Cada vez menos. É um verdadeiro muro das lamentações. Parei um pouco de aparecer por lá. Botar o dedo na ferida é atividade jornalística por excelência, mas ficar cutucando a casquinha é masoquismo.

Resmungar é direito constitucional de todos, mas como dizia Millôr Fernandes, é a única coisa que temos certeza que não resolve. Para rebater esse baixo astral, ando planejando um livrinho, desses digitais. A ideia é reunir um monte de textos meus antigos sobre jornalismo e jornalistas, os menos ruins. E escrever alguns novos, sobre temas ligados a jornalismo e comunicação, que ando anotando no fundo da agenda. Umas 200 paginetas, pra distribuir de graça na web. Um manifestinho. A pegada principal será: não só o jornalismo vive seu melhor momento desde sempre, como o futuro é brilhante.
Enquanto não acho o tempo necessário, compartilho três evidências incontestáveis de que o jornalismo tem presente e tem futuro, no mundo e no Brasil.

Primeiro: veja aqui como o jornal britânico Guardian transformou um bolo de dados e entrevistas sobre o caso da espionagem do NSA em uma reportagem interativa, sedutora e educativa.

Segundo, viaje nessa reportagem interativa do New York Times sobre uma zona de conflito entre China e Filipinas. Para mim é o novo paradigma de reportagem: une fotos, vídeos, texto, som e mapas. E apuração in loco, reportagem, análise política.

Leia sobre como foi produzida essa matéria. Se você trabalha com comunicação, vale muito a pena.

Terceiro: segundo um novo estudo da PriceWaterhouseCoopers, o Brasil será o líder mundial no mercado brasileiro de mídia e entretenimento entre 2014 e 2018.
Os maiores crescimentos no setor de imprensa estão listados abaixo. O número ao lado é a taxa de crescimento anual de cada segmento.

Publicidade na Internet - 18%
Acesso à Internet - 14,7%
Publicidade na TV - 10,1%
Revistas - 6,9%
Rádio - 6,3%%
Jornais - 4,3%

(na área de entretenimento, fico feliz de saber e contar que o maior crescimento será no setor de videogames: 14,4% ao ano. Ainda bem que a Tambor é a única empresa brasileira especializada em comunicação com o segmento gamer. Momento de autopropaganda: veja o que a Tambor faz aqui).

Aqui tem mais detalhes sobre o estudo da Price.

Quer dizer: não vai faltar dinheiro para as empresas brasileiras de comunicação investir em bom jornalismo, e bons jornalistas. Seja na internet, TV, revista, rádio ou jornal. Considerando que o crescimento maior será na Internet, a melhor estratégia profissional é aprender a fazer o que a internet exige, não os jornais.

Veja bem: são dois jornais que fizeram essas matérias acima, não portais puro sangue, nem start-ups doidonas do Vale do Silício. Agora, quantas redações brasileiras fazem matérias como essas do Guardian e New York Times? Quantos jornalistas estão capacitados para criar experiências semelhantes? Os que investirem em aprender a fazer coisas como essas, e melhores, terão valor e emprego. Fazer diferente é brigar com a notícia.
O jornalismo, como se vê, tem um presente incrível. Mas o futuro não espera por ninguém.
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Publicado em 25/10/2013 às 19:23

Reinaldo Azevedo na Folha: apagando fogo com gasolina

reinaldo Reinaldo Azevedo na Folha: apagando fogo com gasolina

Reinaldo Azevedo espuma de raiva dia e noite. Era menos agressivo quando colunista da Veja. Quando passou a blogueiro, com oportunidade de interagir diretamente com seus muitos fãs e desafetos, aposentou a focinheira. Faz muito sucesso, o que irrita muita gente. Nunca vi razão para tanta bronca contra Reinaldo. Ele defende o que defende. Também nunca vi razão para ler seu blog. Já sei o que ele ataca.

Mas li sua coluna de hoje na Folha, na internet. O que me levou a visitar seu blog e ler uns trinta textos. Vários são bem engraçados, quase todos são muito violentos. Me peguei concordando com Reinaldo em vários temas e discordando em outros tantos. Não voltarei. O volume é muito alto, sempre onze. E ele grita sempre a mesma coisa: abaixo o PT.

É perfeitamente defensável, e útil para a democracia, que tenhamos cães de guarda das tradições de um país - conservadores, vamos chamá-los assim. E fundamental que tenhamos jornalistas que se disponham a morder as canelas dos poderosos. Mas Reinaldo jamais critica banqueiros, empresários, ruralistas, grandes empresas de comunicação, ou o alto tucanato. E vive no pé de ambientalistas, feministas, blogueiros, manifestantes, grevistas e petistas, grandes ou pequenos.

Como Reinaldo Azevedo só bate em um lado, o que faz é propaganda eleitoral, não jornalismo. O mesmo vale para outros porta-vozes disfarçados de imprensa, dos dois lados do fla-flu. E é por isso que, além de seu blog na Veja, agora ele tem uma coluna na Folha de S. Paulo.

Foi contratado, junto com Demétrio Magnoli, para bater no PT. E inevitavelmente no candidato petista ao governo do estado, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha.

A dupla Reinaldo-Demétrio presta-se perfeitamente para a missão. Um é histriônico, o outro é articulado. Um briga, outro elabora. Os dois são ligados ao Instituto Millenium, entidade organizada por banqueiros e grandes empresários, inclusive de comunicação, com o objetivo de combater o PT. A Folha, que diz buscar o equilíbrio nesta renovação do time de jornalistas, chamou também Ricardo Melo. Ricardo é crânio, língua afiada, apartidário: bate em gregos e troianos (e Reinaldo já arrumou treta com ele, no passado). Mas são dois do lado da propaganda, e um do lado do jornalismo.

Críticos se surpreendem com uma suposta guinada à direita da Folha. É falta de perspectiva histórica. Lembro quando a Folha chamou José Sarney para colunista, logo que o gângster deixou a presidência, o país em frangalhos, Collor no poder. Perto de Sarney, que aliás agora é Lula desde criancinha, Reinaldo Azevedo é uma flor, ninguém há de negar. O jornal sempre deu uma no cravo e outra na ferradura. Veja o espaço que têm Jânio de Freitas e Clóvis Rossi, e o tanto de podridão que o jornal revelou de administrações do PSDB. A Folha não é imparcial, como nenhum veículo é. Também não é irresponsável.

Dilma está reeleita. O grande objetivo do PT em 2014 é roubar dos tucanos o segundo orçamento da união, quase 40% da economia brasileira.

O PSDB sem o governo de São Paulo perde a espinha. No cenário dos sonhos de Lula, que ungiu Padilha candidato, o PT governará sem oposição. Falta combinar com as ruas, que segundo Reinaldo na sua coluna na Folha, é "ente divinizado por covardes". Não vejo o divino em nada, nem vejo grandes diferenças entre PT e PSDB. Mas enxergo o seguinte: uma parte grande do que foi rejeitado nas manifestações de junho foi esse jeito raivoso de Azevedo e suas contrapartidas governistas verem o mundo, assim como essa polarização partidária fundamentalista e paralisante.

Não leio essa gente e recomendo que ninguém leia. A rapaziada nas ruas queimava bandeiras de partidos. Reinaldo e companhia querem apagar o fogo com gasolina.

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Publicado em 20/06/2013 às 17:04

Os protestos e a imprensa: porque a velha mídia continua importante (e qual a pauta que interessa agora)

13 05 45 599 file Os protestos e a imprensa: porque a velha mídia continua importante (e qual a pauta que interessa agora)
Se falou muita besteira sobre nossa mídia nos últimos dias. Também, muita besteira foi feita. A imprensa começou indo em uma direção, mudou para outra, escorregou para uma terceira, emendou uma quarta, acelerou para uma quinta e capotou espetacularmente. Deu até náusea, de tanto vai e vem.

Nesses últimos dias, materializou-se do nada uma cobertura absolutamente acrítica das manifestações. Como se fosse tudo uma dessas passeatas fru-fru pela paz. Os únicos puxões de orelha foi para "vândalos", quem quebrou, quem foi diretamente aos palácios apupar as autoridades. Mas os jornalistas deixaram muito claro, sempre, que era "uma minoria que não representa os manifestantes."

Normal até  certo ponto. Veículos de comunicação não hostilizam seus leitores, espectadores, usuários. Não é bom para os negócios. Muito menos encrencam com seus anunciantes, ou com autoridades. Custa caro ter um jornal, uma revista, um canal de televisão. Os donos dependem de muita grana para manter um veículo vivo. Donde que a regra geral é criticar, mas não muito, e investigar, de vez em quando. Sempre com parcimônia, responsabilidade, sem baderna etc. Isso é assim no Brasil e e todo lugar, alguns piores, outros melhores. Não estamos entre os piores jornalismos do mundo, de jeito nenhum. Nem entre os vinte ou trinta melhores.

Não compensa repisar todas as críticas justas e injustas que nosso jornalismo recebeu nos últimos dias. Digo só que, por mais que a gente não seja a sétima maravilha, os colegas lá trabalhando não merecem cusparadas, e muito menos que se incendeie o caminhão da reportagem. Vivemos esses dias o triunfo absoluto do Facebook, do Tumblr, do smartphone, e principalmente do Twitter. Claro que o besteirol na internet foi massivo. Mas dessas montanhas de joio, sobrou trigo para um banquete.

Agora entramos em outra fase. E nesta fase, bravos repórteres independentes munidos de coragem e celular não darão conta do jornalismo que precisamos. Muito menos twitteiros de línguas afiadas, ou, ai, blogueiros.  Há pautas além do momento, da adrenalina e do registro ocular da história.

21 27 18 129 file Os protestos e a imprensa: porque a velha mídia continua importante (e qual a pauta que interessa agora)
Reportagem investigativa requer tempo, expertise, fontes, recursos. É para profissionais tarimbados. É para organizações com grana. O que a imprensa nos deve agora é uma devassa impiedosa nas relações entre nossos governantes e as empresas de transporte.

Não basta publicar as planilhas de custos das concessionárias. Precisamos saber como elas se tornaram tão poderosas e influentes. Quem são seus donos. Quem eles ajudam a eleger. Qual a margem de lucro. Quanto dinheiro público é repassado, e pra quem, e por exatamente quais serviços. Precisamos reportagem, análise, sangue frio e nervos de aço, que os caras não são de brincadeira.

É muita grana, e não sei se você reparou, mas aqui em São Paulo a bolada dobrou ontem. Foi de R$ 600 milhões para R$ 1,25 bilhão, dinheiro público que é repassado para as empresas, como subsídio. Esses foram números foram os citados pelo prefeito Fernando Haddad, quando anunciou a tarifa de R$ 3,00.

Precisamos entender que alternativas temos a este modelo, sim. Para isso não precisa de imprensa. Bastam o Movimento Passe Livre, ONGs, ou blogueiros, o cidadão comum. Para botarmos outras muitas demandas em pauta, está aí o povo na rua.

Nossa imprensa tem tudo para fazer um grande raio X do transporte público, quem sabe uma biópsia. Até porque as concessionárias não fazem publicidade. Não é como se fossem construtoras, bancos, montadoras, grandes varejistas, enfim, os segmentos de que a nossa imprensa depende para buscar seu lucro e pagar seus custos, inclusive seus jornalistas. Então não há porque ficar cheio de dedos. Dá pra ir na voadora, com os dois pés no peito.

Sou totalmente a favor da mídia independente. Mas tem hora que precisamos da velha, e muitas vezes ainda boa, mídia dependente. E essa hora é agora.

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Publicado em 18/06/2013 às 17:54

Com grandes protestos vêm grandes responsabilidades

foto 13 Com grandes protestos vêm grandes responsabilidades

E de repente você se descobre com novos e estranhos poderes. E se encanta com o prazer de experimentá-los. De flexionar novos músculos, de ver muito mais longe e com visão de raio-X. De correr mais rápido, saltar mais alto, voar. E então compreende que os desafios, a partir deste momento, serão maiores. E tem que tomar a decisão entre fugir ou enfrentar, sabendo que as repercussões desta decisão serão dramáticas, e que as consequências desta decisão vão muito além de você mesmo. E é a decisão que você toma que faz de você um herói.

Este é o argumento dos maiores fenômenos narrativos do século 21. Harry Potter, X-Men, Homem-Aranha, Senhor dos Anéis, Batman, Crepúsculo, Jogos Mortais - e agora Superman, O Homem de Aço. Não é que a gente acredite nisso porque os filmes nos contaram. Esses filmes reverberam porque é isso que está acontecendo.

O tema fala ao espírito humano desde a Saga de Gilgamesh, a primeira história registrada, quarenta séculos atrás. Mas hoje é mais poderoso e importante que jamais foi. Esta é a nova realidade de dois bilhões de seres humanos, empoderados por tecnologia de informação e comunicação, quase indistinguível da mágica. Este é momento em que estamos sendo arrancados, aos milhões, do isolamento, da hipnose da sociedade de massas. Descobrindo nossos novos poderes. Alguns mais rápido que outros.

É chavão paterno repetir que nossos filhos já nasceram sabendo lidar com tecnologia melhor que a gente. Não é bem isso. Eles aprendem mais rápido. Essa rapaziada de vinte anos que tomou as ruas lida com tecnologias completamente diferentes do que quando nasceram, com a Web e o Plano Real. Quando eram crianças, não existia tela touch, 3G, YouTube, Twitter, Wikipedia, Instagram. As meninas e meninos nativos do século 21 são mais velozes ainda, mutantes.

Os aparelhos são cada vez mais poderosos e polivalentes. Mesma coisa os programas que os fazem pensar, os fazem mudar. Todo software aprende com a maneira como o usamos, que é medida, e esse aprendizado rapidamente embutido em uma nova versão, mais eficiente e sensacional.

E assim é a juventude, e assim é a nova política. Que a velha política, por definição, é incapaz de entender e acomodar. Os novos sabem mais sobre o que acontece no mundo, consigo mesmos, com seus iguais e diferentes. Sabem que podem mais e merecem mais. São mais abertos, mais vulneráveis, mais fortes. Era moleza ser senhor feudal quando ninguém sabia o que acontece dentro do castelo, só você sabia ler, só você tinha as armas. Esse mundo não morreu. O que acontece a portas fechadas continua nos impactando, e muito, demais. Só que em 2013 todos sabem que existem portas, e muitos estão descobrindo que podemos meter o pé nelas.

foto 11 Com grandes protestos vêm grandes responsabilidades
Manifestação em Seattle, 1999

Certo que os protestos descentralizados e alavancados pela internet não nasceram no Brasil semana passada. São criação do século 20. Antes de São Paulo houve Seattle, e Bolonha, e a primavera Árabe, e os indignados da Espanha, e o Occupy nos Estados Unidos, e a praça Taksim. Cada um com sua cara e coração, suas vitórias e derrotas. O que une a todos? O que eles querem, perguntam ansiosos os que temem ceder um milímetro que seja? O que queremos, nos questionamos embriagados de orgulho?

O que queremos é Mais. Mais e mais. Mais sempre. Fomos educados para querer Mais. Por infinitos comerciais de TV, pelas escolas que nos ensinam que o que seremos só depende de nós. Aprendemos desde bebês que podemos ter mais felicidade, mais juventude, mais sexo, mais beleza, mais relevância, mais inteligência, mais impacto, mais e mais. E agora querem que nos contentemos com menos? Uma escola besta, um emprego medíocre, um futuro babaca?

Imagine ter vinte anos. Duas décadas ouvindo o mesmo discurso: o Brasil é demais, é uma nova potência, é isso e aquilo, agora somos grandes, temos Copa e Olimpíada - nunca antes na história deste país fomos tão incríveis. Essa geração não vai aturar tanta violência e impunidade, essa escola medíocre e esse ônibus podre, essas promessas marketeiras, essa eterna desconversa.

Os jovens não sabem tudo. Tudo é muita coisa. O importante é que aprendem super rápido. E já vão aprendendo que o fundamental não é o fim da história, quando o bem vence, os maus são punidos e os bons, recompensados. Depois que você vive um certo tempo, aprende que há sempre a próxima história, um novo desafio. O "final boss" nunca chega. O crucial é estar sempre pronto para levantar e lutar de novo. "The never-ending battle for justice", a batalha sem fim pela justiça, como Kal El e Clark Kent. Até que morremos, e se vivemos de verdade, deixamos pelo menos uma inspiração.

As conquistas claras, mesmo quando parecem impossíveis, estão sempre mais perto do que parece. Tanto faz se é derrubar um ditador, ou abaixar vinte centavos do preço do ônibus. É humano buscar as vitórias próximas. É divino lembrar as distantes. Os objetivos mais elusivos exigem muita imaginação, e mais importante, união. E só os atingimos quando nos unimos por causas que são maiores que nossas diferenças.

Não se trata de procurar consensos. Natureza é guerra e sociedade é conflito. Acreditamos em coisas diversas, somos homens, mulheres, brancos, negros, abonados e desgraçados, jovens e coroas e crianças e velhinhos. Os que nos governam e exploram se apóiam em nossas diferenças, que estimulam para nos dividir. E eles também têm em seu arsenal tecnologia de informação, que tanto nos liberta quanto pode nos aprisionar. Como explica o primeiro dessa grande leva de filmes sobre o século 21, Matrix - não por acaso, de 1999.

foto 12 Com grandes protestos vêm grandes responsabilidades

Mais poderoso que o consenso é a compreensão, como demonstra o filme definitivo desta geração. Os Vingadores fecham o ciclo inciado por Matrix. São o ápice desta sequência de sagas inspiradas nos novos poderes de seus espectadores. As anteriores eram sobre como um jovem aprende a usar seus poderes. Vingadores é sobre pessoas completamente diferentes descubrindo novos e estranhos poderes - mas só a partir do momento que se unem. Um playboy, um CDF, um nerdão, um fortão e uma gata sexy e dissimulada. Uma espécie de Clube dos Cinco, que precisam trabalhar juntos, superar suas diferenças, coordenar seus esforços por um objetivo comum (e transitório).

Os Vingadores são um projeto colaborativo. São uma rede social. Discordam em muita coisa. Consenso impossível, compreendem que a vitória só é possível pela união. Aceitam, por um precioso momento, deixar suas encrencas de lado. Menos ego, muito trabalho de equipe. Para defender os que não podem se defender, para enfrentar o que só coletivamente pode ser enfrentado.

Tudo no filme gira em torno da posse do Tesseract, um objeto que dá a quem o possuir poder ilimitado, energia sem fim - o poder do Mais. Os inimigos são múltiplos: um exército alienígena, o deus da mentira, um conselho dos países e empresas mais poderosas da Terra.

E também um super-espião, talvez aliado, talvez não, que manipula todos os lados para conseguir o que precisa. Ao final, missão cumprida, se separam, e isso é natural. O poder infinito é grande demais para o mundo. Ninguém o merece - nem os heróis, por decisão deles mesmos.

Os Vingadores são esses meninos que combinam suas criatividades para criar novas fases para games como Minecraft. É a gente, quando discutimos calorosamente um post polêmico em um blog qualquer. Quando nos unimos por uma causa, ou financiamos coletivamente um projeto, ou apoiamos o Wikileaks, ou caímos de pau em quem merece.

A união vai além das plataformas digitais. Juntos ganhamos super-poderes, reflete o cinema que é a cara da nova geração. Agora, ela é que nos ensina nas ruas. E aprendemos todos que com grandes protestos, e grandes poderes, recebemos grandes responsabilidades.
É do espião Nick Fury, malaco das ruas, a frase que fecha Vingadores. E que me acordou hoje, nesse Brasil que ontem fez o impensável.

Lembrei da Catalunha e de Paris, de Seattle e do Cairo, de São Paulo e Rio e Belém e Belo Horizonte. E depois de tantos protestos, vem o quê? Desafios mais impossíveis? E quando acabar essa excitação, cumprida a primeira missão, terminada a união, e cada um dos heróis for para o seu lado?

Quando chegar a hora, eles voltarão, garante Nick - porque precisaremos deles.

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Publicado em 23/04/2013 às 13:35

Boston, uma semana depois: não é o fim nem o começo

Tsarnaev brothers 010 Boston, uma semana depois: não é o fim nem o começo

O ataque à maratona de Boston vai chegando ao seu epílogo. Dominou - exageradamente - as atenções do mundo, durante uma semana. Agora um dos responsáveis está morto, outro ferido e preso. Restam os detalhes dos porquês. Como nenhum porquê é suficiente para explicar tamanha maldade, o assunto vai sumindo do noticiário. Fim.

Ou não? Talvez seja o começo de algo novo e diferente. Talvez não hajam mais começos e fins. Os posfácios têm sido os momentos mais iluminadores da história. Durante uma semana, Boston rendeu entretenimento minuto a minuto, caçada aos assassinos de inocentes, a população em fuga, soldados nas ruas da metrópole - Hollywood perde. Agora chegou a hora de discutir o que o filme significa.

Foi exagero. A televisão americana exibia incríveis modelos 3D em computação gráfica dos bairros de Boston, e onde o fugitivo poderia estar. Mas talvez estivesse mais pra lá. Ou acolá. E talvez estivesse armado, e talvez não. E talvez fosse muçulmano, ou não. Na falta do que dizer, e na obrigação de continuar dizendo qualquer coisa, vieram chutes e barbeiragens veio aos borbotões. A internet reciclou tudo, e abriu as comportas para maremoto ainda maior de besteirol.

No minuto que eu soube do ataque, profetizei no Twitter: aposto dez dólares que é obra de um americano psicopata. O FBI concorda. Um diretor declarou anteontem que o ataque de Boston teve mais a ver com as ações alucinadas, como a de Columbine, do que com um ato político. Está mais para dois garotos americanos revoltados com os colegas, do que com dez milhões de garotos do mundo islâmico revoltados com a América.

Tamerlan Tsarnaev

Mas o que importa o que diz o FBI? A agência está sendo questionada de todos os lados. Por que não previu o ataque? Por que não prendeu os irmãos antes? E será que é isso mesmo que aconteceu, ou será que o FBI está acobertando outras razões para o ataque, e outros culpados?

Disse o que tinha a dizer logo no início, e depois mantive a máxima distância possível da história. O mal contamina, a burrice contagia. Se manter informado sobre o que te importa é prazer, sobre o que deve te importar é obrigação. Mergulhar na cascata de desinformação é masoquismo, catucar a feridinha pra ver se infecciona.

Hoje interneto à procura de uma compreensão maior do ataque. Chafurdo em lagoas de análise e palpitol. A história de Boston não domina mais as homepages, mas rende em dobro nas colunas de opinião e nas redes sociais, como o Aleph da lenda, infinitas histórias convergindo no mesmo buraco negro. Alguns reflexos:

- Amanda Palmer, cantora e compositora, escreveu um poema assumindo o ponto de vista do irmão que sobreviveu.  Amanda se propõe provocadora e perigosa. É o que era no início da carreira: cabaré, agora mais famosa, porque casada com o astro da fantasia e quadrinhos, Neil Gaiman. A Poem for Dzhokhar revolta os americanos, com exceções no campo ultraliberal.

Há quem peça a cabeça de Amanda, por escrever coisas como "você não sabe mais em que acreditar... você não sabe ajustar o espelho retrovisor." Ela aproveita o barulho e publica outro texto em seu blog, agora explicando como criou o poema. Queria escandalizar. Conseguiu.

David Sirotta causou logo no início do caso, escrevendo um artigo cujo título era "Espero que o assassino de Boston seja branco." Seu argumento é: se forem árabes, isso seria mais um degrau na escalada de incompreensão e violência entre muçulmanos e cristãos e judeus, e argumento para leis de imigração mais duras nos EUA. David diz: se o culpado for ítalo-americano, não bombardearemos Roma...

Sirotta deve ter imaginado que ia ouvir bastante por seu texto. Não podia esperar que ia levar dura apesar de estar certo. Assim que os culpados foram identificados, foram pintados como estrangeiros, não-americanos, não brancos. Mas nos Estados Unidos, imigrantes de origem russa, chechênia, cazaque são considerados brancos pelo governo federal. Os irmãos eram americanos, se vestiam como americanos, viviam como americanos. E eram mais que brancos que eu - eram literalmente caucasianos.

- Há quem garanta que os irmãos não têm nada a ver com o peixe. Seria tudo uma grande conspiração. Os culpados seriam outra dupla, e aliás ligados a uma empresa de segurança muito suspeita. Viagem de doidão? O autor da acusação montou uma peça bem convincente. Alguns compraram. Os vídeos têm milhões de visualizações no YouTube. Decida por você mesmo se é balela, ou suficiente para te colocar uma pulga atrás da orelha. Veja mais aqui.

Ou se preferir, em vídeo:

Boston Marathon Bombing is Staged Terror Attack por perolasblogs no Videolog.tv.

- Por um dia ou dois, a imprensa bateu na tecla dos videogames, como previsto no roteiro: "Há relatos de que Dzhokhar costumava jogar games violentos". O melhor cala-boca veio no Twitter: "é a mesma coisa que dizer que ele era um cara de 19 anos e morava no planeta Terra em 2013".

- Quando as explicações se dividem entre uma teoria conspiratória toda complicada, ou a simples incompetência e lambança, a segunda é sempre mais provável. A mídia americana ajudou a encobertar os verdadeiros culpados? Ou simplesmente enfiou os pés pelas mãos, desesperada por audiência e relevância, mais espectadores, mais cliques? Aposte no óbvio. O Huffington Post até criou um vídeo com os momentos mais constrangedores da cobertura de Boston.

- Os Tsarnaev pelo jeito eram mesmo radicais islâmicos. Muita gente politicamente correta demais diz que é injustiça caracterizá-los assim. Mas Tamerlan, o mais velho, vem sendo descrito por membros da própria comunidade muçulmana de Boston como radical e agressivo, e pela própria família como irascível e truculento. Quer apostar que tinha grande influência sobre o irmão adolescente e o levou no embrulho? Leia aqui.

Sou obrigado a discordar do FBI e da minha primeira impressão. Não é Columbine. Os irmãos não mataram só para causar o caos. Tem uma causa em algum lugar aí. Mas eles não se martirizaram, como os do 9/11, ou os homens-bomba da Intifada. É algo novo e diferente.

- O escritor Douglas Rushkoff honrou seu papel de teórico da mídia. Também viu novidade e diferença, mas de outro gênero. No calor dos acontecimentos, foi crítico, sem abrir mão de ser compassivo. Traduzo alguns destaques de sua coluna na CNN.com, com o título "Terror em Tempo Real":

"Não é uma questão de como reagir a uma crise, ameaça ou tragédia em particular, mas de como lidarmos com o próprio fluxo persistente de urgência... interruptiva ou crônica, a ansiedade continua vindo e vindo... vivemos em um Estado de Choque Presente".

"Nenhuma das narrativas usuais se aplicam. Não vivemos mais em um mundo com começos, meios e fins. Esta estrutura obsoleta foi para o lixo com a Era Industrial... Não planejamos mais nossas carreiras, não investimos mais no futuro. Nós ocupamos, frilamos, negociamos derivativos. Tudo acontece no Agora. Mesmo o Terror."

"Não enfrentaremos mais inimigos no sentido normal. Não podemos começar uma guerra ao terror e declarar vitória quando acabarmos... os desafios da sociedade pós-industrial é menos conquistar e mais administrar preocupações permanentes. O óleo está derramando, o clima está mudando, terroristas estão planejando. Crises não são solucionadas para o futuro, são gerenciadas no presente."

"Só nos libertando das narrativas antiquadas em que nos apoiamos, podemos começar a reconhecer os padrões no aparente caos. Podemos não encontrar respostas que nos mobilizem, nem finais dramáticos e satisfatórios. Mas também não precisaremos inventar histórias emocionantes e falsas para nos motivar a agir."

"Em um mundo em que as crises são constantes e perpétuas, é melhor começar a desenvolver abordagens mais sustentáveis para solucionar os problemas em tempo real, do que pensar em resolvê-los definitivamente. A vida continua."

É.

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Publicado em 14/12/2012 às 18:45

Veríssimo vive

(Me ligaram do R7 duas semanas atrás: Veríssimo está muito mal. Pode morrer. Você quer escrever sobre ele? Era sexta à tarde. Sábado  caí da cama com o texto pronto, derramado, pessoal. Despachei para o R7 com a encomenda: "para só ser publicado caso ele morra. Espero que saia daqui uns dez anos." Exatamente duas semanas depois, Veríssimo deixa o hospital, ufa. Não vou aguardar dez anos. Vais ler teu obituário vivinho, mestre. E podes esperar por um telefonema...)

A verdade de Veríssimo

 Veríssimo vive

Luiz Fernando Veríssimo escreveu demais. Nos cercava: em jornais, artigos em infinitas revistas, roteirizando tantos programas de televisão, desenhando cartuns e tiras, tradução disso e daquilo, toda hora um novo título nas livrarias, mais de sessenta. Escrevia como Fred Astaire dançava. Da maneira mais difícil: fazendo parecer fácil.

Sua produção prodigiosa fez dele parte previsível do cenário. Veríssimo, que passou a juventude nos Estados Unidos, e era louco por jazz, foi raridade no nosso país: um working writer, um cara que vive de escrever. Era parte do nosso dia, como um pôr do sol, que, precioso, não nos encanta, por sua entediante regularidade. Li Veríssimo a vida inteira, intermitentemente. Escrevesse ele a cada dois anos um romance, e nada mais, talvez o valorizássemos mais. Teria na certa status literário diferente. Quem sabe se sentiria desafiado a mergulhar mais fundo?

Não. Sua matéria prima era o cotidiano, os momentinhos de que o caleidoscópio da vida é feito. Escrever um romance demanda arrogância. Ele os escreveu, como escreveu todo tipo de coisa. Mas só na última temporada, a maioria de encomenda, para coleções temáticas. Não era de sua natureza, nem o melhor uso de seu talento sofisticado e acessível, se dedicar a uma coisa só.

Era caminho já percorrido por outro Veríssimo. Seu pai, Érico, foi obrigatório na minha geração, tanto quanto Jorge Amado ou Graciliano Ramos. Contemporâneos dos nossos avós, nos transmitiam a imagem de um país rural, brutal, encantador, perdido; Érico, de um sul épico, mítico, másculo. Imagine o peso de se tornar um escritor e assinar Veríssimo, sendo filho de quem foi. De novo: Veríssimo fez parecer fácil.

Incrivelmente, além do Veríssimo dos romances, das crônicas e causos, tivemos o privilégio de conviver com o Veríssimo cartunista. O Veríssimo das tiras das Cobras. O Veríssimo da televisão, das Comédias da Vida Privada. O criador do Ed Mort, do Analista de Bagé e da Velhinha de Taubaté. O personagem Veríssimo, que expunha suas fragilidades e angústias, sem grosseria nem exibicionismo. E o Veríssimo jornalista, observador agudo e cético, mas sempre otimista, do Brasil e do mundo. E sempre transparente em suas posições.

No meio, era conhecido pela generosidade. Principalmente com os colegas mais jovens, de jornalismo, literatura e cartum. Um exemplo só: já muito famoso, escrevia de graça todo mês para a revista Caros Amigos, quando foi lançada, meio dos 90. Projeto independente, de esquerda, não tinha verba para os colaboradores. Tenho o orgulho de ter meu nome ao lado do seu, no sumário da revista, naqueles primeiros anos. Me arrependo de nunca tê-lo procurado. Estava ao alcance de um telefonema. Ele era tímido, eu também fui.

A vida passou. Perdi a chance. E o que eu ia dizer a Luiz Fernando Veríssimo?  Que seu trabalho me faz questionar o meu trabalho? Que ele era uma referência única de escritor profissional no Brasil? Um compasso ético pelo qual o melhor Brasil se guiou? Que era admirável como enfrentava as certezas de sua dúvida? Que usava pontos e vírgulas melhor que ninguém?

Veríssimo não deixa obra-prima. Nos deu mais: sua verdade. Uma visão pungente, irônica, compromissada e muito pessoal de quem fomos e somos. E marca do gênio: de quem sempre seremos.

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Publicado em 09/08/2012 às 10:52

Pela exigência do diploma de jornalista para os blogueiros brasileiros

Gostou da campanha que lancei? Sugiro que seja a próxima da Federação Nacional dos Jornalistas. Ela, e todos os sindicatos de jornalistas, fazem campanha brava pelo diploma obrigatório para exercer a profissão.

A decisão está no Supremo. Acho que será mantida a obrigatoriedade, que hoje já não existe. É lei de mentirinha, como a famosa Lei Seca, que é absolutamente ignorada em todo bar que vou.

Os jornalistas mais famosos do Brasil, desses que aparecem na TV, são PJ, dão nota. Os iniciantes topam trabalhar de qualquer jeito, nem que seja para fazer cafezinho, ou deviam.

Com diploma e trabalhando registrado, tem gente em algumas grande empresas e assessorias. Só.

Causo: tenho um chapa que concorreu na chapa (opa!) que ganhou o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. Em 1992, eu era redator-chefe de Bizz e Set. Ele concorria na época, foi fazer campanha na nossa redação.

Falei cara, adoraria votar em você, mas embora eu tenha o imposto sindical descontado todo mês do meu salário, não me formei, e o povo aqui também não.

Meu amigo não se conformou: mas ninguém aqui é formado? O Miranda levantou o braço, eu sou! Pela PUC de Porto Alegre! Era o único.

Eu já falei mil vezes: acho a exigência do diploma de jornalismo uma excrescência criada pela ditadura militar.

Sou contra mesmo que as escolas fossem boas, o que não são, o que comprovo cotidianamente convivendo com recém-formados que não sabem nada de coisa nenhuma.

Mas o que eu acho é pouco importante. A história está enterrando o jornalista profissional. Qualquer um com um blog é, na prática, jornalista, ou pelo menos autor publicado; e um veículo de comunicação, simultaneamente.

Está sujeito à lei, tem possibilidade de ganhar dinheiro com publicidade. Vão cobrar diploma de todos os blogueiros do Brasil?

Mas o jornalismo vai acabar? Não vai ter gente no futuro que saiba apurar, entrevistar, organizar informação de maneira coerente e sedutora?

Com um ponto de vista único e capacidade de eletrizar o leitor / ouvinte / espectador?

Claro. Já está cheio desses hoje na internet. Mas ter feito faculdade de jornalismo não tem nada a ver com isso.

(Postei esse texto em 2009. Infelizmente, continua válido, com a decisão de ontem de que o diploma é obrigatório, mais uma. Certos zumbis insistem em mostrar a cara periodicamente...).

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Publicado em 04/07/2012 às 06:00

Dez livros de jornalismo que fizeram minha cabeça

Nas próximas semanas, este blog trará dia sim, dia não, dez vídeos sobre livros que fizeram minha cabeça. Livros de jornalismo, ou quase. São antologias, grandes reportagens, micro-ensaios, jornalismo descambando para a invenção, ficção com apuração rigorosa, e outras variações sobre o mesmo tema.

Os autores vão de Ivan Lessa e Décio Pignatari a Norman Mailer e Truman Capote. Os vídeos não são assim muito atraentes - basicamente, eu falando para a câmera e mostrando minhas edições velhinhas e empoeiradas. Todos são edições brasileiras, dos anos 70 e 80.

Li a maioria entre os 15 e 20 anos. Foram muito importantes na minha compreensão do que é jornalismo, e o que é jornalismo cultural. Acho que continuam todos válidos, seja para um leitor que se interessa por cultura e jornalismo, seja para profissionais.

Fiz questão de não incluir ficção pura e simples, mesmo que com forte perfume jornalístico, nem livros em inglês, nem outros que li depois que já era profissional. Os selecionados são obras que tiveram grande importância pessoal para mim, numa fase muito importante. Quando eu decidi ser jornalista, quando depois des-decidi, e quando finalmente escorreguei para a profissão.

Lá se vão 24 anos, e desde então entrei e saí várias vezes, fui ser editor, empreendedor, sei lá quantas coisas. Voltei aos pouquinhos ao jornalismo quando este blog começou. Ando pensando no meu futuro como jornalista, o que tem a ver com o futuro deste blog, que em breve mostra nova cara.

Inevitável voltar às minhas raízes como profissional, o que ainda não me considero exatamente - sempre acho que uma hora dessas alguém vai perceber o blefe. Desta vez acho voltei para ficar.

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Publicado em 31/05/2012 às 09:42

Dilma, a ruralista

Há anos eu não via mobilização igual. A mudança do Código Florestal mobilizou muita gente boa. Uma certa opinião pública esclarecida, que tem pouca ou nenhuma disposição para o rame-rame partidário-eleitoral. E viu nas mudanças propostas pela agronegócio um achaque e um assalto contra o nosso futuro.

Bem, não vou dizer que a grita não deu em nada. Não fosse o esperneio geral antes, durante e depois da votação na Câmara, e o coro de Veta Dilma, e os vetos da presidente teriam sido ainda mais modestos.

No final, deu a lógica, o de sempre: um no cravo, cinco na ferradura. Os fazendeiros conseguiram praticamente tudo que queriam. Dilma bancou 12 vetos. Assentiu com algumas concessões, um cala-boca para os ambientalistas e os pequenos produtores. E tudo normal em Pindorama.

A razão para o arrego da presidenta é muito simples. Dilma é ruralista. Como qualquer um que senta na sua cadeira. Os produtos da agricultura e criação são pedaço pequeno do PIB, mas respondem por naco respeitável da mão de obra empregada no Brasil, e das exportações. O governo é sócio, diretamente ou via empréstimos, das principais empresas do setor, as grandes e as enormes.

Via BNDES e via Banco do Brasil. A mais famosa é a JBS, que recebeu dez bilhões de reais do BNDES, tem extenso histórico de tratar seus funcionários como gado - assunto para outro texto, outro dia - e levou de graça esses dias a tal Delta, a construtora líder do PAC, envolvidíssima no escândalo Demóstenes-Cachoeira. Nem precisa lembrar que os grandes do agronegócio são grandes financiadores de campanhas, para dizer o mínimo.

Claro que os dois lados vão continuar batendo. Hoje está lá aquela criatura, Ronaldo Caiado, gritando e ameaçando com 50 emendas, outro xingando que a Medida Provisória é inconstitucional etc. Vão ocupar todo o espaço possível, até o último milímetro, posseiros da legislação. A votação no Senado vem aí.

Ainda há espaço para ajustes finos. Se você intui que eles não defendem nossos interesses de longo prazo, e pretende fazer algo a respeito, a primeira coisa é entender direito em que ponto estamos.

Fazer uma lei que preste neste assunto não é tarefa simples, e muito menos garantir seu cumprimento. Os interesses do agronegócio estão perfeitamente alinhados com os interesses do governo federal (e estaduais e municipais). Isso não faz de todos fazendeiros e pecuaristas vilões. Neste campo há justos e injustos, e todos defendem aguerridamente o que é seu. São naturalmente conservadores, não conservacionistas.

O outro lado está repleto de ongueiro mala, do tipo que tem faniquito se vê uma bisteca mal-passada.Esses continuam aguerridos na briga. Me dão azia, mas têm sua utilidade. A turma de verdes mais, digamos, civilizada, parece que desanimou.

Bem, esperávamos o quê? A candidata ambientalista era Marina Silva, cujo movimento fez marola na eleição e naufragou na sequência. Mas tivesse eleita presidente, Marina estaria tão refém do agronegócio e da bancada ruralista quanto qualquer outro.

Dilma, tecnocrata e pragmática, aprendeu com o mestre: governar democraticamente é agradar pouco aos que pouco pedem e ceder muito aos que tudo exigem.

O resto é conversa pra boi dormir.

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Publicado em 20/04/2012 às 06:00

Meu dia de repórter de TV

Eu jamais quis trabalhar em televisão. Nunca passou pela minha cabeça.

Me lembro de Astrid Fontenelle sugerindo que eu fizesse teste para a primeira turma de VJs da MTV, 1991? Agradeci mas no, thanks. Fiz algumas aparições, como comentarista disso e daquilo, ou em painéis. Um ano e pouco atrás, passei uma temporada participando semanalmente do NBlogs, na Record News.

Não é desinteresse. TV é poder. Não é vergonha. Sou o cara mais sem vergonha do mundo na frente de uma câmera. Também não tenho a menor idéia do que vou fazendo. Vou falando, até demais, e vamo que vamo. Foi falta de convite que fizesse sentido para mim, e falta de energia da minha parte para correr atrás. Não tenho nada contra aparecer, mas não tenho vocação de repórter, boniteza de apresentador, e no final gosto mesmo é de escrever. Em breve, quando este blog estrear seu novo design, vou fazer mais vídeos. Pelo menos um por semana. Naquele esquema deixa que eu chuto.

Minha estréia como repórter de vídeo foi no ano passado. Na cobertura da E3, o maior evento de games do mundo, em Los Angeles. Eu já tinha feito muito vídeo de lá. Mas em 2011 foram mais de trinta, sempre eu falando, eu mostrando, eu entrevistando esse e aquele. No final dos quatro dias estava rouquinho da silva. Tudo para nosso site.

Mas nunca tinha feito algo como isso aí embaixo. Foi duas semanas atrás, no GameWorld 2012, evento promovido pela empresa que dirijo, a Tambor.

Comecei dando uma de repórter pro R7. Vê a cara de pau do picareta vendendo seu peixe, depois dos nossos comerciais:

[r7video]

Tivemos no GameWorld um convidado especialíssimo, Yoshitaka Amano.

Admiro Amano e fiz questão de fazer a entrevista pessoalmente. Foram 34 minutos de papo, intermediados pela tradutora, e bravamente registrados pelo colega Renato Almeida. Uma versão com introdução, começo, meio, fim e resumida será publicada na próxima edição da revista EGW. A íntegra está aqui. Prometo nunca mais fazer um vídeo de meia hora, mas neste caso não pude resistir, e não resisto a compartilhar.

GameWorld 2012 - Entrevista com Yoshitaka Amano por perolasblogs no Videolog.tv.

Publicado em 28/03/2012 às 11:48

Millôr

millor 1 Millôr

Nunca houve neste país, nem haverá, gênio do tamanho e coragem de Millôr Fernandes. Jornalista, tradutor, ilustrador, cartunista, artista plástico, dramaturgo, editor, mentor, líder, exemplo - de quantas maneiras diferentes devemos tanto a Millôr?

maq millor e1332946013943 Millôr

Seu amigo Paulo Francis dizia que se sua língua materna fosse inglês, seria um astro mundial; outro amigo, Fausto Cunha, que era dos poucos escritores universais que o Brasil criou; mas como imaginá-lo longe do seu amado Rio, da praia, da tiração de sarro, do frescobol? Millôr era do mundo e da gente, internacional e brasileiríssimo, cosmopolita e bairrista.

Seu talento múltiplo estava além da nossa compreensão. Bastaria. Mas sua valentia fez do ótimo, admirável. Millôr sempre esteve do lado certo: do contra. Independente a todo custo e até o fim, sem marras nem amarras, Millôr foi o nosso melhor.

millor3 Millôr

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Publicado em 27/03/2012 às 10:41

Por um jornalismo mais crítico

O jornalismo cultural que eu tento exercer desde 1988 é o jornalismo crítico. Ele tem uma única premissa: compromisso total com o leitor e nenhum com a criação ou seu criador.

Fã é fã, jornalista é jornalista. Fã perdoa tudo. Jornalista não perdoa nada, ou não deveria.

As perguntas que o jornalista cultural têm de responder são só duas: primeiro, o objetivo da obra tem algum mérito? Segundo, o objetivo foi alcançado? Só. O resto é perfumaria.

Vale para o impresso, vale mais ainda para a Web.

Até porque na rede, não é preciso descrever a música; qualquer um baixa. Não é preciso listar a filmografia do diretor, ou sua história etc.

Basta lincar para as melhores fontes de informação. E contribuir com o que interessa: uma visão pessoal, única, e implacável. Jornalismo crítico do século XXI: sem fronteiras, sem piedade.

É uma atitude radical. Exemplo: implica arrasar com a mais recente (e ruim) obra de um artista velhinho, respeitado e amado. Não interessa seu currículo. Interessa a obra.

O jornalismo crítico pode ser exercido na grande imprensa ou num blog lido por cinco pessoas. Não requer muito mais que saber escrever, curiosidade, uma cultura geral razoável.

Não precisa saber tocar piano para escrever sobre música. É uma maneira de ver as coisas e se posicionar.

Copiar o que a assessoria de imprensa mandou não é jornalismo. Ecoar o consenso que compensa não é jornalismo. Se esconder no que pega bem não é jornalismo. Copy-paste não é jornalismo.

Álvaro Pereira Jr., comentando o livro Pós-Tudo (uma espécie de almanaque sobre a história da "Ilustrada", da Folha de S.Paulo, o mais influente caderno cultural da história da imprensa nacional, que cresci lendo e onde trabalhei entre 88 e 90), cutuca a preponderância do “jornalismo amigo e construtivo, participante de cena que cobre.”

Este mestiço jornalista-fã frequentemente tem papel catalisador em novos movimentos culturais. O problema é que esta postura se tornou a característica dominante do nosso jornalismo cultural. Em outros países não é assim.

O que me fez querer ser jornalista é o jornalismo crítico. Ele estava presente na "Ilustrada" nas entrelinhas do “jornalismo amigo e construtivo” da fase Matinas Suzuki Jr./ Marcos Augusto Gonçalves (que queriam construir a obra junto com o artista, construir a política cultural junto com o governo etc.; “você era crítico e participante ao mesmo tempo”, Matinas, pág. 118 de Pós-Tudo) e sua continuação, que veio dos anos 90 pra frente.

A não-"Ilustrada" era, em uma palavra, crítica. Uma meia dúzia de gatos pingados por década. Às vezes fazia barulho suficiente para estourar os tímpanos de quem estivesse de ouvidos abertos. Na minha adolescência, Paulo Francis e Pepe Escobar.

Mas a imprensa cultural dominante é e sempre foi a dos jornalistas artistas, ou jornalistas que são amigos de artistas ou sonham ser. Alguns poucos são brilhantes e catalisadores.

No mesmo texto, Álvaro cita Erika Palomino, cronista da noite e da moda, uma militante engajada na construção da cena, dos personagens e do negócio. Lúcio Ribeiro é o outro grande exemplo desta abordagem, em música, e muito forte na internet, com seu Popload.

Nossas cenas de moda e música seriam menos interessantes sem estes dois, que considero amigos. São certamente os jornalistas mais influentes da geração 90 da "Ilustrada". É uma pena que em vez de se espelhar no talento admirável de Lúcio e Erika, muita gente ignore a parte “jornalismo” de “jornalismo amigo e construtivo”.

Muitos blogs estão cheios de postspagos, o crítico ganha uma grana extra como curador, a editora faz frila para a assessoria, todo mundo pega o seu com o governo, todo mundo se virando etc.

O Brasil precisa de mais jornalismo crítico, e não só na área cultural. Tem gente boa pintando, principalmente na internet, e tenho esperança que apareça mais.

Torço por uma explosão de seguidores de Kenneth Tynan, que Paulo Francis me apresentou na "Ilustrada". Tynan uma vez esculhambou um filme de Michelangelo Antonioni assim: “Nove décimos do trabalho do crítico é demolir o ruim para abrir caminho para o bom. Antonioni está bloqueando a rua”.

Nada a acrescentar.

(Publicado originalmente na revista Continente)

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Publicado em 23/03/2012 às 06:00

Por que o TV Folha não precisa de audiência

A estreia do TV Folha, programa produzido pelo jornal e exibido na TV Cultura, provocou verdadeiro Fla-Flu, com malhos de lá, defesas apaixonadas de cá, alguma razão e muita emoção.

Assisti aos dois programas do TV Folha exibidos até agora. Aos pedaços. Pulando as partes que me interessavam menos. Na internet. Que é onde faz mais sentido assistir ao TV Folha. O que, desconfio, a Folha sabe muito bem.

Eu me diverti vendo vários trechos do TV Folha. Teria críticas e elogios a fazer, de linguagem, pegada e pauta. Não farei. Conheço vários jornalistas ali há décadas; alguns são camaradas das antigas; um é amigo chegado.

Você que assista e forme sua opinião. De qualquer forma, meu ponto é outro. Jornal em 2012 tem que ser pensado como conteúdo multiplataforma. Isso é notícia velha. Executar a missão é dificílimo.

Organizações, indivíduos e equipes condicionadas a pensar conteúdo em termos de texto e imagens impressas, com ciclo de produção diário, processo fabril e logístico caro e complexo, e abordagem monodirecional, apanham com meios digitais.

É a velha história: nenhuma grande empresa de transporte ferroviário virou companhia aérea. Eles pensavam que estavam no negócio de colocar trilho no chão e queimar carvão, não no negócio de transportes.

Mesmo assim, todos os jornais e revistas que valem seu sal, mundo afora, estão tentando dar o salto. Não há alternativa, ainda que 90% do faturamento continue vindo das versões impressas.

E mesmo que o mundo digital esteja roendo sua margem. É como aquele filme do alpinista que ficou entalado na rocha: se você não cortar seu próprio braço, com canivete cego, a morte por hemorragia é lenta e certa.

O TV Folha não tem nada que vá me levar para a frente da TV em um domingo à noite. Acho que o veredito vale para os meus amigos mais viciados em informação e opinião.

Embora o TV Folha seja diferente de seus concorrentes nos canais abertos, o formato é bem normalzinho comparando com os canais pagos. E pra que ver junto com todo mundo se posso ver quando me der na telha, e só o que me interessa?

Pretendo pinçar na internet o que me seduzir e assistir, sem pressa, nos dias seguintes à exibição na Cultura. Imagino que as visualizações na web de segunda a sexta serão bem maiores que o ibope do domingo.  Natural, e pouco importa se a audiência do TV Folha na TV não dá audiência.

A Cultura sempre deu traço mesmo. O Roda Viva existe há décadas com baixíssima audiência, porque dá muito prestígio. Se você está engajando meia dúzia de gatos pingados, mas todos têm algum dinheiro e influência, é bom investimento; aliás, esta é a exata descrição do que é um jornal.

E com a obrigação da produção semanal do programa, a tendência é que, com o tempo, a Folha domine mais e mais a linguagem do vídeo - seja para TV, web, tablet ou o que for.

Na prática, a Folha encontrou uma maneira muitíssimo inteligente de promover o conteúdo em vídeo que produz para a internet. Em vez de simplesmente colocar um bom time de jornalistas e colunistas para aparecer em vídeos e jogar no seu site, embalou tudo em um programa, e colocou no horário nobre na TV Cultura.

Promove os valores que fizeram a fama do jornal, inovação, pluralidade e tal, numa vitrine de primeira classe. É uma ação de marketing. Muito mais barata e eficiente do que fazer uma campanha de TV.

Repercutiram críticas contra o arrendamento de horários da TV Cultura para a Folha; o canal negocia acordos similares com o Estadão e a Abril. Concordo.

Se era para lotear a programação, muito melhor seria emprestar horários para veículos independentes, blogs, cooperativas, rádios comunitárias, o melhor do YouTube, bizarrias, vozes únicas. Já que não há grana nem necessidade de audiência, vamos botar fogo no circo! Para que dar mais espaço para os mesmos de sempre?

A Cultura é uma emissora pública que ao longo de sua história frequentemente foi joguete político na mão do governo do Estado, que é quem paga as contas e dá as cartas. Li argumentos que com esta mudança, pelo menos o jornalismo da Cultura seria agora menos chapa-branca.

Bem, que tal fazermos uma forcinha e estabelecermos mecanismos independentes de financiamento e de governança, que garantam a autonomia econômica e editorial da TV Cultura? Dá mais trabalho, mas não é física quântica. É saída medíocre demitir seus próprios funcionários e lotear a programação entre os grandes grupos de comunicação do Estado.

Mas aí o erro não é da Folha de S.Paulo. É da Cultura e do governo - mais um de muitos que vão para conta de Geraldo Alckmin. A Folha viu uma oportunidade e aproveitou. Se a TV Cultura quiser me dar meia horinha semanal para eu fazer minhas estrepolias, também topo...

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Publicado em 05/03/2012 às 06:00

Para entender o jornalismo do presente

Alguns meios de comunicação estão no século 20. Outros estão experimentando com as ferramentas que fazem mais sentido no presente.

Na vanguarda destes, sem afetação, está o Guardian. Assista este anúncio do jornal britânico. E entenda por que 2012 não será igual a 1984.

The Guardian advert 2012: 3 little pigs and the big bad wolf por perolasblogs no Videolog.tv.

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Publicado em 23/02/2012 às 16:00

Uma jornalista, uma heroína

marie colvin Uma jornalista, uma heroína

Marie Colvin na praça Tarhir, durante a rebelião no Egito

Marie Colvin era nova-iorquina, formada bióloga marinha, ex-repórter policial, duas vezes divorciada, jornalista há três décadas e chegada numa vodca.

Morreu ontem, aos 56 anos, bombardeada pelo governo da Síria, quando se arriscava novamente para dar testemunho de mais uma guerra de um governo contra seu povo.

Marie era a única correspondente internacional que se manteve em Homs, sitiada pela ditadura de Assad há 19 dias.

A casa onde estava, com o fotógrafo francês Remi Ochlik, foi bombardeada. Eles tentaram escapar. Foram abatidos por uma bazuca.

Era, para usar um chavão pouco jornalístico, uma lenda viva, a mais famosa correspondente de guerra de nossos tempos. Outros escreveram melhor.

Mas Marie era personagem sem igual, língua afiada, valente que ela só. Via e refletia a guerra do ponto de vista dos civis, dos inocentes, e não do hardware, dos políticos, do pseudo-heroísmo militar.

Só se enfiava em roubada - Chechênia, Líbia, Zimbábue, Kosovo, Iraque, Egito e o diabo. Custou-lhe uma visão no Sri Lanka em 2001 - e quer medalha mais perfeita para uma correspondente de guerra que um tapa-olho?

Ganhou todos os prêmios, mas serviu muito além do dever de um correspondente de guerra.

Arriscou-se para salvar inocentes - pelo menos uma vez, com heroísmo, quando ficou ao lado de uma força da ONU desarmada, e mais 1500 mulheres e crianças, cercados de soldados indonésios por todos os lados.

Vinte e dois jornalistas foram embora. Ela ficou e continuou mandando reportagens para o Sunday Times.

A opinião pública internacional gritou. Depois de quatro dias, foram todos evacuados. Sua morte enterra qualquer possibilidade de justificativa de manutenção da ditadura de Assad.

Como sua vida, não foi em vão.

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Publicado em 10/01/2012 às 08:31

Como fazer um jornal de sucesso em 2012: muito além da receita de bolo

Papo recorrente entre jornalista: pra onde vai esse negócio? É corte de profissional para cá, fechamento de jornal pra lá, é um portal cortando, é tudo que é empresa de mídia despencando de valor pro mundo afora.

Sempre repito o mesmo: trabalho produzindo conteúdo não há de faltar, que agora toda empresa quer ter sua revista customizada, seu site pra falar com o consumidor final, a newsletter, o twitter, o videozinho.

As maiores empresas de relações públicas já têm equipes do tamanho de um grande jornal ou revista. Pô. Assessoria de imprensa, e geração de buchicho, é cada vez mais importante. A gente sabe fazer essas paradas. Vai ter trabalho pros véio e pros moço. Relax, man.

Dá pra chamar conteudista de jornalista? E página no Facebook de mídia? Outra história. Desconfio que os formatos que vão prosperar nos próximos anos serão tão diferentes do que chamamos hoje de jornalismo, que nem sei se dá pra gente, da velha guarda, ficar muito otimista.

Dito isso, continuo fuçando, que uma hora o ovo para em pé, e se quebrar, fazemos uma omelete. Nesta virada do ano, esbarrei com duas notícias que dão um alento para os preocupados com o futuro do jornalismo.

A primeira é uma receita de bolo, de um dos poucos caras que tem conseguido virar o jogo e fazer seus jornais crescerem em audiência e lucro. É John Paton, 54, diretor da segunda maior cadeia de jornais regionais dos Estados Unidos, a JRC.

Veja Paton em vídeo aqui

Para quem está com preguiça, e quem não está?, o resuminho:

1. Priorize o conteúdo digital, não o jornal impresso.

2. Terceirize tudo que não for criar conteúdo, e vender a audiência para os anunciantes.

3. Pare de ouvir os velhos profissionais do jornal. Bote tudo na mão da turma digital. E deixe eles mandarem em você.

4. Se os jornalistas não aceitam a mudança, se livre deles.

5. Jamais dê anúncio no site como bônus dos anúncios no jornal impresso. Aprenda a espremer cada centavo da operação digital.

6. Corte redundância - não deixe ninguém reescrever press release, ou cozinhar matéria comprada de outra fonte. Bote sua equipe na rua, para gerar conteúdo original. Os jornais de Paton têm 40% conteúdo local original, 60% licenciados de outras fontes e publicados sem modificação.

7. Converta seu público em parceiros, publicando conteúdo gerado pelos usuários.

8. Use ferramentas grátis da web.

9. Comunique direito o que você está querendo fazer. Use as ferramentas da web. Se o diretor do jornal não tem tempo para twittar, não está fazendo seu trabalho direito.

Todos são conselhos ponderados e razoáveis, e estão tendo efeito na empresa que Paton dirige. É bom e pouco. Nosso consumo de conteúdo em 2012 já é bem bagunçado, e o futuro parece bem doidão para estas iniciativas darem conta.

Minha aposta é na desintermediação. Acredito que cada um de nós determinará a cada minuto o que fará parte de seu cardápio de conteúdo, seja de entretenimento, jornalismo, ou serviço. E acredito na multiplicação das formas como este conteúdo chegará até nós. Relógio de Dick Tracy, microtela direto na retina, chip no cérebro, aí vou eu!

Mas as soluções não precisam necessariamente ser super high tech. Veja um exemplo legal e fofo, a Little Printer. É uma impressorinha simpática que imprime na sua casa um jornalzinho, só com informação que interessa para você.

Vai ser um megasucesso? Vai ser um frouxo fracasso? Saberemos este ano, mas isso não é o mais importante. O fundamental sobre a Little Printer é que ela abre nossa cabeça.

2012 é um bom ano para pensar em soluções autenticamente novas, em vez de tentar tirar ainda mais leite de cada vez menos pedra.

Hello Little Printer available 2012 by BERG por perolasblogs no Videolog.tv.

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Publicado em 22/11/2011 às 06:00

Bye-bye, Folhateen

formulario folhateen 635x390 Bye bye, Folhateen

Aos vinte anos, o Folhateen morreu. Era o caderno dedicado a adolescentes da Folha de São Paulo. A última edição saiu esta segunda-feira. A ombudsman da Folha escreveu sobre o tema em sua coluna de domingo, e não conseguiu esconder a tristeza. Ela também estava lá no parto do Folhateen. Leia aqui.

É Suzana Singer, e foi ela quem me contratou para ser o primeiro editor do caderno em 1991. Com o fim do caderno, achei que era boa hora de republicar meu texto de 2009 sobre como o Folhateen nasceu, e meu projeto-rabisco para o caderno.  O Folhateen foi tarde. Faz tempo que lugar de adolescente é na internet, não lendo jornal. Me deu uma dorzinha no coração mesmo assim.

Passou rápido. Hoje a internet tem dez, cem, milhões de teens brasileiros se expressando e encontrando e namorando e brigando e defendendo causas impossíveis e impensáveis. Cadernos de jornal tem data de validade; plataformas mudam; mídias morrem. A excitação, confusão, tesão de ser adolescente é para sempre. Eu tinha 25 anos quando escrevi o projeto abaixo e editei o Folhateen. Estava recém-saindo da adolescência. Continuo com um pé dentro até hoje.

O Folhateen também foi onde eu tive a maior tristeza da minha vida profissional. Na época, a revista americana Spin tinha publicado uma edição totalmente pautada e editada por universitários. Nessa linha, propus fazer algo semelhante no Folhateen, com secundaristas. Algumas páginas de uma edição específica seriam produzidas por alunos do segundo colegial de diversos colégios paulistanos, públicos e privados. Era o Folhateen por Teens.
O projeto foi aprovado pela Folha, e amarrado com a direção desses colégios. Coordenadores pedagógicos e professores de português se engajaram na história. A equipe do Teen visitou as escolas, conversamos com os alunos, explicamos como se fazia jornal. Foi muito bacana.

E uma das alunas de um desses colégios morreu. Numa linha de trem. Durante uma visita do seu grupo, na realização de uma pauta para o caderno. Ninguém entendeu como nem a razão.

Isso aconteceu na minha última semana no Folhateen. Eu tinha sido convidado para voltar para a Bizz e tinha topado. O assunto repercutiu. O sindicato dos jornalistas, acho, soltou uma nota. Tive uma reunião com a advogada da família, acompanhada por advogados da Folha. Não houve processo. E o caderno saiu, e com homenagem à garota.

Mas tenho lembrança do enterro. Suzana Singer e eu comparecemos. Foi triste demais.

Só para estudantes de jornalismo: meu pré-projeto original para o Folhateen, 1991

Início de 1991, me liga Suzana Singer: quer mudar de emprego e vir inventar um caderno semanal para adolescentes aqui na Folha?

A ideia era completamente maluca. Não tinha nada parecido no Brasil, uma ou outra coisa do gênero na Inglaterra ou que o valha. Mas a Folhinha era pra criança, a Ilustrada tinha envelhecido e a “escadinha” de entrada de leitores na Folha estava com um degrau faltando. Que eu saiba o projeto inicial foi da Suzana, hoje Secretária de Redação da Folha, e amiga que não vejo faz anos.

Cutuquei meus chefes na Bizz, onde estava fazia um ano. Me levaram para almoçar, me amaciaram, prometeram muita coisa e cobrir a grana, nada. Queria ir, fui. Sempre troquei de emprego em busca de algo que nunca tinha feito antes.

Na prática fui o primeiro editor do caderno, que já estava batizado (uma homenagem-sacanagem de Álvaro Pereira Jr. com o caderno Folhetim, clássico suplemento literário-esquerdista da Folha) e meio que andando fazia umas semanas, com a turma que fazia a Fovest - Célia Almudena é amiga até hoje.

O Folhateen repercutiu. Quase todo jornal brasileiro abriu espaço para um caderno ou seção teen, ou pelo menos jovem, depois dele. E esses espaços se tornaram escola e refúgio de várias safras de jovens jornalistas bacanas, país afora.

Fiquei pouco tempo lá e tenho minhas alegrias e tristezas do período. Mas mantenho o orgulho de ter sido o primeiro editor do Teen. Ainda mais lembrando tanta gente talentosa que ocupou o mesmo cargo depois - Bia Abramo,  Noelly Russo, André Barcinski, Ivan Finotti, esqueço muitos. E gente que foi paciente comigo na minha volta ao caderno como colunista de música, como Nina Lemos, Larissa Purvinni e Gabriel Bastos.

Esses dias revirava minhas velharias e encontrei umas laudas com este fax abaixo. Não fazia idéia que tinha guardado e não lembrava de nada. É meu rascunho de projeto para o Folhateen, de 20 de fevereiro de 1991 - 18 anos atrás. Acho que mais legal do que o que realmente eu fiz.

Provavelmente não interessa para ninguém. Mas em comemoração à maioridade do Folhateen, aí está.

De: André Forastieri

Para: Suzana Singer

Assunto: Folhateen

22/02/91

Suzana, desde que pintou a proposta pra ir para aí que eu ando escarafunchando meu cérebro e pesquisando tantas revistas de adolescente quanto possível, de Surfer e Sky e Spin a Capricho, Carícia e Animal.

Acho que cheguei a um mix interessante para o Folhateen, uma combinação de artes, serviços e futilidades que periga dar samba, i.e., ter leitura. Isso, veja bem, não é o meu projeto para o Folhateen: é só um rascunho, que pode e deve ser discutido, repensado ou até mesmo jogado fora (em partes). Aceito sugestões e exijo sua opinião – afinal, foi você que me jogou nessa.

Antes de mais nada, acho que o Folhateen está com textos grandes demais, moleques de dezesseis anos não têm saco para ler muito a não ser que o texto seja uma delícia, e olhe lá. Até os dropes estão grandes! Acho que texto maior que quarenta linhas, só se Jesus voltar para a Terra.

O negócio do Folhateen é fazer o que o Estadão diz que a Folha faz (mas não faz ainda), jornalismo fast-food – porradas de boxes, tabelas, subs, artes, dropes por todos os lados, legendinhas espertas, frases espalhadas, o catso. Fast food news para a geração Big Mac, só que com carne de primeira e queijo Roquefort (baixou o poeta).

CAPA

Pouco a modificar estruturalmente. Minhas duas únicas sugestões são colocar sempre que possível uma enquete entre a molecada a respeito do tema da capa; e transformar a tirinha que fica no lugar do side numa espécie de miniagenda teen da semana, só com as coisas imperdíveis que vão rolar – um campeonato de asa delta, um programão na TV, um superfilme que estréia, o show do Living Colour, whatever.

Quanto a pautas, bem: existem as de serviço, as ousadas, as de comportamento e as de artes-esportes-futilidades. O ideal é misturar tudo. Por exemplo: uma capa sobre aborto deve citar números, dizer qual é a legislação no Brasil e no mundo, falar com gente que fez, ir a um aborteiro, citar os métodos mais seguros de contracepção, dar voz a especialistas e, ufa, falar de gente famosa que fez aborto (Whoopi Goldberg e Greta Garbo, entre outras) – além, claro, de ter um gancho quentinho, um número novo da OMS, por exemplo. Talvez até uma “Cronologia do Aborto”, desde os antigamentes até hoje. O negócio é sempre dar algo que está rolando. Pauta é o que não falta, afinal.

MIOLO

Aí é que a porca torce seu dileto rabinho, porque pensei em coisas demais e não sei se tem espaço para tudo, aliás, sei que não tem. Por isso, vou só te contar minhas idéias e depois um diagramador brilhante vê o que faz com o que restar depois de você limar metade e me falar que eu estou alucinando.

* “Folhateen Recomenda”: três livros, três discos, três filmes e três vídeos que a redação recomenda. Só o nome, seguido de uma frase. Vai mudando conforme saem os novos lançamentos. Exemplos:

Remasters, Led Zeppelin. O álbum triplo traz o melhor da maior banda de heavy metal de todos os tempos, especialmente remixado pelo guitarrista do Led, Jimmy Page.

* “Monitor”: uma espécie de “Painel” do Folhateen. Inclui:

Um flash rápido de notícias mais hard (mas não menos próximas do público giovane) do “Brasil” e outro do mundo (rápido mesmo, tipo um módulo 100 cada um). Podem ser editadas como dropes;

Algumas frases da semana (sugiro “Pé de Ouvido”, ou será que é muito retrô?);

“Figura”, uma foto-perfilzinho de alguém que apareceu naquela semana por alguma razão;

“Bronca”, tradicional;

e “Gangorra”, uma listinha de gente ou coisas que subiram e desceram naquela semana.

Além disso, “Monitor” deve incluir (ou pode ser editado perto de) uma seção de opinião, um texto assinado cada semana por uma pessoa diferente sobre um tema quente ou simplesmente muito interessante. Sugiro o nome “Papo-Cabeça”. A seção deve ser editada com um boneco simpático do autor e, a-há! está aberto para os leitores.

Talvez a seção de cartas deva ficar perto do “Monitor”, o que criaria um problema em relação à atual localização das “Parabólicas”. Sei lá. Discutamos a respeito.

* “Via Satélite” ou “Mondo Mídia”: a versão Folhateen do “Multimídia”. Os principais assuntos da mídia jovem do primeiro mundo. Subseção: “Vem Aí”, com os discos e projetos e filmes que estão sendo planejados, tipo “Robin Williams será Peter Pan no novo filme de Spielberg, Hook, uma superprodução de US$ 45 milhões”. Sacou? Vários dropezinhos do gênero mais gringos, tirados da mídia internationale.

Podemos pensar em acompanhar essa seção de uma carta internacional, talvez em rodízio; Ana Maria Bahiana e Fernando Gabeira cairiam como uma luva no caderno, e acho que eles topariam.

* Novas retrancas. É preciso bolar um esquema rotativo destas seções, porque o espaço é limitado. Algumas iriam nas “Parabólicas”, outras não. “Rádio” é obrigatória, o público das FMs é cem por cento teen. Novidades etc. Acho que “Noite” também é obrigatória. Ela abordaria os melhores lugares para ir, novas casas noturnas com algum diferencial x ou y etc.

Caso a retranca fosse se tornar periódica – mensal, digamos – tenho duas idéias para ela ficar mais completa. Primeiro, duas pessoas, uma famosa e outra não, dizem onde vão à noite e por quê. Secondo, a seção poderia vir acompanhada da parada do DMC-Brasil, ou seja, as músicas mais tocadas nas casas noturnas do país, de barzinhos a discoteconas.

“Esportes”. Chamar de esportes de ação periga cair mal, muita gente não gosta do termo. Mas o assunto é esse, skate-surf-aeróbica-kart-mergulho-etc. Não sei se tem alguém na equipe do Folhateen que saque destas coisas; se não, conheço uma garota na Trip que seguraria a onda como frila.

“Games”. Ainda saem coisas sobre videogames na “Informática”? Se não, a Folhateen deve dar – lançamentos, estratégias etc. Cobre também máquinas legais e/ou diferentes de fliperamas, jogos clássicos (Space Invaders etc.).

“Eco”: Ecologia e meio-ambiente, como reciclar, avanços da ciência, movimentos verdes em geral (como participar) etc.

“Em Forma”: Tudo que disser respeito à saúde e fitness, o que eu pessoalmente acho um saco, mas é uma das neuras centrais da garotada de hoje. Pode ser sub de “Esportes”.

“Túnel do Tempo”. Alguém famoso numa foto de quando era adolescente, talvez comentada pelo próprio. Não semanal, para não ocupar muito espaço.

* Na seção de Educação, não tenho muito o que acrescentar. Minhas principais sugestões são técnicas – menos texto, mais boxes-quadros-listas-artes.

Acho “Redação” joia, pode ter mais dicas de como escrever bem, que escritores servem como bons mestres etc.

“Poesia” acho um pouco limitante, porque coloca de lado prosistas (proseadores? Checar Aurélio). Sugiro “Poesia & Prosa”, e já tenho uma listinha legal que vai de Shakespeare e Erasmo de Rotterdam a Walt Whitman e Stephen Spender, mais Melville, Chandler, Lilian Hellmann, Oscar Wilde – todos na linha individualista-rebelde.

“Frila” é uma grande sacada. Pode incluir a seção-irmã “Grana”, dando um toque do que fazer para gastar bem ou até investir a grana do frila.

“Século 21”: novidades da ciência, com ênfase para aquelas que se ligam ao cotidiano.

CONTRACAPA

Gostaria de ligar a seção de consumo ao perfil, quando possível. Exemplo: vou fazer um perfil do Jim Morrison, enganchado no filme The Doors de Oliver Stone. “Consumo” poderia ter discos dos Doors, pôsteres, vídeos, mais botinhas-roupas-colarzinhos-sunglasses como os do Morrison.

“Perfil”, é claro, tem que estar tão ligada quanto possível ao que está rolando, e se meter ao máximo na vida do entrevistado (quando for entrevista, o que espero que seja comum). Além do Morrison, pensei em Stan Lee (a Marvel faz 30 anos em agosto), Danny Elfman (do Oingo Boingo), Axl Rose (no LP novo), Renato Russo, Humberto Gessinger (fazer o quê?), Bono Vox, Roger Corman, Kevin Costner, Frank Miller, Boris Becker, Maurício Gugielmin, William Shakespeare (quando estrear o Hamlet do Mel Gibson), Roberto Carlos (pela ótica da Jovem Guarda), Vanilla Ice (gancho para o estouro do rap), Naomi Campbell, Edgar Allan Poe, Johnny Depp, Annette Funnicello (da “Turma da Praia”), Isaac Asimov, Rita Lee, Zeca Camargo (que está virando popstar, e acho que não é porque ele é colaborador e ex-funcionário da Folha que isso deve ser ignorado) – qualquer herói do momento ou figurão do passado que esteja com um pé no presente naquele momento. Talvez seja o caso de pegar também políticos tipo Suplicy, Walter Feldmann e verdes-liberalóides quetais. Pô, gente é o que não falta.

Por enquanto é só. Assim que pensar em mais bobagens, te aviso. Beijo

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Publicado em 11/10/2011 às 11:12

Por que não faço posts pagos (e muito menos gratuitos)

Sexta à tarde: André, telefone para você: é da FAMOSA MARCA DE WHISKY. Atendo, a voz simpática e desconhecida do outro lado da linha se apresenta e diz: André, hoje vai ser divulgado o primeiro comercial de FAMOSA MARCA DE WHISKY produzido no Brasil.

É parte daquela campanha global, mas pela primeira vez foi feito aqui, no Rio de Janeiro, eu queria convidar você para assistir, às 18h30, na internet. Eu grunho, hmr, grm, e... o que vocês querem de mim?

Só estamos convidando alguns blogueiros para assistir, diz a moça, direta e simples. Hrm, grffs, a ideia é que eu escreva alguma coisa sobre FAMOSA MARCA DE WHISKY? Como é que vocês me escolheram? Me viram bebendo FAMOSA MARCA DE WHISKY em algum boteco?

Não, explicou a moça, é que eu gosto do seu blog... Me desarmou total, eu sem graça, ha, é que eu gosto, principalmente do rótulo Verde, é um dos meus favoritos. Ah, diz ela, mas então eu vou te convidar a próxima vez que houver uma degustação. Obrigado, me despeço, e  damos tchau.

Naturalmente, não assisti a estreia do comercial. Nem escrevi sobre FAMOSA MARCA DE WHISKY no Twitter ou no Facebook imediatamente depois de ver o anúncio. Sou totalmente capaz de escrever sobre essa FAMOSA MARCA DE WHISKY.

Tenho várias coisas a dizer sobre seu consumo, por outros e por mim. Poderia matutar sobre single malte e blended, sobre os clãs da Escócia, lembrar de minhas ressacas com Whiskies made in Brasil, lembrar meu avô pingando adoçante pra batizar o arranca-toco que ele curtia. Eu poderia fazer tudo isso, se não houvesse nem ao menos um resquício de encomenda. Mas houve. E não estão me pagando para isso.

Você pode e deve fazer duas perguntas. A primeira: por que você não escreve sobre o novo anúncio da FAMOSA MARCA DE WHISKY? Afinal, a moça só fazia o trabalho dela, de divulgar a marca, vai ver o comercial é realmente bem-bolado. Ela não te pediu para escrever nada, muito menos para elogiar. Você tinha toda a liberdade de escrever o que bem entendesse. Custa?

Minha resposta curta é: custa. Como jornalista, escrevendo meu blog, não topo ser pautado pelas necessidades de divulgação de empresa nenhuma. Salvo se eu realmente decidir que é notícia que pode interessar para os leitores, ou fofoca / comentário que pode entreter os amigos nas redes sociais. E me reservo o direito de morder ou assoprar (ou ambos simultaneamente).

A segunda pergunta é: Forasta, e se você estivesse sendo pago? E se FAMOSA MARCA DE WHISKY encomendasse um Curtir no Facebook, 140 caracteres casualmente elogiosos no Twitter, ou um post neste mesmo blog que você lê neste minuto?

Bem, na semana passada pela primeira vez fui sondado para fazer um texto pago para este blog. Foi uma empresa bem conhecida de Mídia Social. Sem contar o cliente, me perguntaram: quanto cobras pra fazer um texto pago para o seu blog? Eu disse: nunca fiz, não faço ideia de quanto vale, e em princípio não quero - dito isso, quanto vocês pagam? Pela sua audiência, influência, qualificação de seus leitores etc., pagamos R$ 1.100.

É uma boa grana. É muito, pelo trabalho que dá escrever um textinho. Mas é muito pouco, pelo quando vai corroer a imagem que faço de mim mesmo.

Como editor de revista, como diretor de empresa de comunicação, já tive que fazer médias em diversos níveis. Aliviar aqui, negociar acolá, acomodar a necessidade deste ou daquele cliente, ou mesmo do dono da empresa onde eu trabalhava. Faz parte da vida de qualquer um nesta posição; quem disser que não, está mentindo. Engoli seco muitas vezes. Tenho baixa resistência estomacal para sapos...

Mas uma coisa é, como gestor, você administrar um relacionamento com uma empresa. Outra bem diferente é fingir que acha o que estão te pagando para achar, e assinar embaixo. A nova geração de twitteiros e blogueiros trata na boa; não engulo.

Eu poderia perfeitamente escrever um texto de encomenda, e aliás já fiz isso, em épocas de vacas magras, sem assinar. E não teria problema nenhum de parir um longo artigo assinado, rememorando alegrias e tristezas que vivi sorvendo o néctar escocês.

Até poderia citar, entre outras e en passant, a FAMOSA MARCA DE WHISKY, porque eu realmente bebo a tal de vez em quando. MAS somente se meu texto fosse publicado no blog da fabricante da birita, ou em qualquer lugar em que estivesse bem explícito para o leitor que aquilo era um trabalho de encomenda. E, claro, se me pagassem uma grana animal. Improvável.

Artigos, como destilados, deveriam envelhecer um pouco antes de expostos ao mundo. Infelizmente, a corrida vida digital não permite aos meus posts oito, que dirá doze anos de maturação. Na meia hora em que deixei repousando este textinho que lês, antes da última revisão para publicar, veio a mensagem de uma outra moça simpática, via Facebook.

André, será que eu não poderia fazer uma notinha sobre um festival de documentários superlegal, apoiado por este e aquele? Ela ficaria super agradecida.

Não posso não. Quem quiser que faça. Minha profissão é opinar. Por isso, não me permito fazer merchandising, qualquer que seja a tentação. Nem se me pagarem, e muitíssimo menos não me pagando...

Já citei muitas vezes essa e aquela empresa ou marca ou pessoa neste blog, ou em matérias para veículos diversos. Nunca recebendo para simpático ou leniente. Posso alugar meus parcos talentos, e alugo, se não enxergar razão para vergonha nem brecha para futuros arrependimentos.

Mas minha assinatura não tem preço. Este blog tem nome e dono, e os dois são André Forastieri. Não é muito, mas é meu.

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