Posts com a categoria: Comportamento

Publicado em 23/04/2015 às 20:10

Chega de preconceito contra o funk. Deixa MC Melody ser funkeira e rebolar – mesmo que tenha 8 anos de idade

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Funkeiro mata. Funkeira é assassinada. Funkeiro ostenta. Funkeira mirim sensualiza. Dois pesos, duas medidas. Se fosse sambista, sertanejo, roqueiro, o discurso era outro. Funk incomoda, os outros estilos não. Funk existe é mesmo para incomodar.

Quantas vezes você já viu na TV menininhas passistas? Sempre em reportagens simpáticas, olha como a garotinha samba no pé, incrível. Discurso completamente diferente do caso de MC Melody.

Ela tem oito aninhos. É uma criança. Brinca de ser grande, de ser funkeira, de ser Anitta. Rebola como criança. Como vinte anos atrás as menininhas dançavam na boquinha da garrafa ou queriam ser Paquitas.

A grita é que o pai está expondo a menina. Médio. O pai da menina é músico, não neurocirurgião. Era pagodeiro, virou MC Belinho, que funk é onde está a grana na periferia. Fatura com a garota? Mathew Knowles botou a filhinha para cantar e dançar aos oito anos também. Produtor musical, com nove Beyoncé já estava no Destiny´s Child. Logo era um grupo de teenagers, requebrando com pouca roupa. Qual a diferença?

Abra ouvidos e olhos. As letras que Melody canta podem ser adultas, não são pornográficas. Os movimentos são padrão em funk. Ela nem tem ainda hormônios para “sensualizar”. Se você vê Melody dançando e fica excitado, quem tem problema é você, não ela...

Tem até petição online pedindo para o pai perder a guarda da criança. Onze mil pessoas já assinaram. Um advogado do conselho da criança e do adolescente diz que o cara cometeu um crime, que poderia dar até dois anos de cadeia. Genial, a menina (e a irmã) arriscam ficar sem o pai, que as sustenta, para agradar os indignados da internet...

Pai roqueiro cria filho que faz o sinal do capeta com os dedos desde bebê. Fã de Sertanejo embala o churrascão da família com Fernando & Sorocaba. Pagodeiro ensina a garotada só no sapatinho. Criança vai na dos pais, pelo menos até a adolescência. Às vezes para sempre. Mais comum: encrenca um pouco na juventude e acaba se rendendo à sua criação.

Claro que puxar pelo lado do funk rende repercussão e dá cliques. Também sou jornalista e imprensa também é isso aí. É perfeitamente válida a reportagem do camarada Helder Maldonado que levantou essa lebre. A cobertura de TV foi equilibrada. Bem menos o artigo da Deborah Bresser, também aqui no R7, que foi pra cima de MC Belinho. Discordo totalmente de Deborah, que sabe muitíssimo de moda. Pergunto pra amiga: botar essas modelos de 14 anos pra fazer dieta de fome e desfilar na São Paulo Fashion Week não é exploração dos pais também? O tema rendeu um segundo texto no Blog da DB, com comentários dos leitores, que você pode ler aqui. Tem link para o primeiro artigo.

Em qualquer vizinhança você encontra pais e mães fazendo uma série de besteira com as filhas. Inclusive botando pra fora de casa porque engravidou, até hoje. Vamos fazer o quê? Jogar todos os pais de quem discordamos na cadeia? Tem pai mundo afora que cria filha com burca e proíbe de estudar, vamos invadir o Iêmen e mandar o Bope para a Arábia Saudita?

Mau gosto não é pecado e tosqueira não é crime. Botar sua filhinha para dançar funk não é pior que botar para sambar na Maracaí. É bem fácil argumentar que o funk brasileiro hoje influencia a música pop global muito mais que o samba, mas esse é outro texto para outro dia.

Vamos lembrar que vivemos em um país campeão da prostituição infantil, que está aí na cara de todos, e sob o nariz da polícia e autoridades. País campeão em homicídios e mortes decorrentes de abortos, sempre gente nova, sempre gente pobre. Qual a trilha sonora dessa juventude? O funk. Vamos criminalizar até a diversão deles?

Nós brasileiros já temos problemas de sobra, e bem mais sérios, para ficar pegando no pé do pai da Melody. Se você não gosta de funk – música, letras, roupas, ambiente – está no seu direito. Mas preconceito não é direito de ninguém.

Publicado em 06/02/2015 às 12:47

Prefiro enfiar arame farpado no ouvido que ouvir um CD do Bob Marley (ou: porque curtir reggae é unanimidade entre pessoas desentendidas)


es Prefiro enfiar arame farpado no ouvido que ouvir um CD do Bob Marley (ou: porque curtir reggae é unanimidade entre pessoas desentendidas)

Entre os muitos efeitos nefastos da publicidade, incluo a popularidade de reggae no Brasil. No primeiro anúncio daquela famosa série de esportes radicais que nos levariam ``ao sucesso", Peter Tosh cantava ``The Love I Need". Pronto: reggae ficou eternamente associado com surfe, sol, garotas de biquíni.

O que pouco fã de reggae deste país sabe é que só no Brasil o reggae é a trilha sonora oficial do surf. Fora daqui não tem a menor relação: som de surf é rock australiano e boa.

Pouco depois, Gilberto Gil cantou ``No woman no cry" e uns baianos decidiram que seu estado era parte da Jamaica (o que talvez seja mesmo: já disse alguém que de São Paulo para cima o Brasil é Caribe, de São Paulo para baixo é Mercosul).

Pule alguns anos e venha para São Paulo, onde um cara chamado Otávio Rodrigues começou uma noite jamaicana chamada AeroReggae. A noite paulistana (e pelo que sei a carioca também) ficou infestada de reggae, por uma ótima razão: as garotas, que não frequentavam muito show, frequentavam as noites de reggae. E onde mulher vai, homem vai atrás.

Aí a Folha faz uma pesquisa e os jovens de São Paulo elegem, por unanimidade, o reggae como seu ritmo preferido. Se você é um deles pare de ler imediatamente ou prepare-se para ficar bem irritado.

Acho reggae uma bobagem. Não posso nem ver esses reggaemen falando de Jah e chorando as pitangas pela repressão do homem branco em cima deles.
Para começar, o negócio todo é filosoficamente equivocado. Criado para ser música de resistência contra "o sistema", soa como uma choradeira de quem não tem proteína e nem calorias para resistir nem a uma brisa. Não foi à toa que todos os superstars do reggae assinaram rapidinho com as gravadoras da "Babilônia". E não é à toa que reggae virou um pastichão que só serve para atrair turista para a Jamaica.

Mas pelo menos o reggae teve alguma serventia - encher cofres dos hotéis da Jamaica e bolsos dos traficantes locais. Porque, como filosofia, o reggae não servia para nada. Esse papo de rastafari é uma estupidez. Os caras pregavam que um ditador africano podre, o Hailé Selassié, era Deus na terra. Veja bem, não era filho ou o representante de Deus, era o próprio mesmo.

E as meninas que gostam de reggae talvez gostem de saber que o papel da mulher em ambientes rastafari está só um pouco acima do papel do cachorro.
Possivelmente as novas gerações da Jamaica concordem comigo, porque caras como Shabba Ranks não querem nem saber dessa papagaiada de rastafari. O negócio deles é fazer um som bem acessível, que é para americano comprar.

Em vez de combater o sistema, eles querem é grana e sossego. Carro bacana, mulher bonita e (possivelmente) uma automática no bolso. Como a maioria de nós, aliás.

Já tem até uma Madonna jamaicana, a Patra, uma negra bonita, gostosa e com os peitos enormes, que faz clips bem rebolativos e pelados.

Eu até que engolia mais todo o besteirol conceitual que cerca o reggae se o som não fosse tão chato. Para mim, atravessar um CD do Bob Marley equivale a enfiar arame farpado no canal auricular.

Por isso tudo é que eu fico extremamente surpreso de ouvir alguma coisa que pareça com reggae e gostar. Ano passado, por exemplo, ouvi Apache Indian e gostei. Gosto dessas bandas de reggae brasileiras, que não são só reggae, tipo Skank e Nomad. Claro, adoro ska, mas é por associação com a new wave.

E esse ano, até agora, gostei desse ``Hotstepper" do Ini Kamoze. Mas essa não é muito reggae, é mais rap. Mas isso não justifica, porque rap também é duro de aturar...

Enfim. Detesto reggae. Um amigo me diz que reggae foi inventado para ouvir na praia fumando maconha. Ah, bom isso explica a unanimidade do reggae entre os desentendidos.

O problema é que moro em São Paulo e fumo (advinha) o cigarro que lançou o reggae para o Brasil. Fazer o quê?

(Esse meu texto tem quase vinte anos, é de 1995. Lembrei dele, e resolvi republicar, em "homenagem" aos 70 anos de Bob Marley...)

Publicado em 23/12/2014 às 00:05

E a música do ano é…

selfie mr E a música do ano é...

A música mais tocada no planeta Terra em 2014 foi "Happy". Diz muito sobre o ano que passou. O trecho mais esclarecedor  é “bata as palmas se você sente que a felicidade é a verdade”. Tem outra que diz mais.

Foi em 28 de janeiro que os Chainsmokers registraram o espírito de nossa época com "Selfie". Faz tanto tempo que, imagine só, "selfie" tinha acabado de ser eleita "a nova palavra de 2013". Tinha acabado de entrar no dicionário! Pré-história da civilização! Como podíamos viver antes de termos a incrível capacidade de tirarmos nossas próprias fotos e compartilhá-las nas redes sociais?

Os Chainsmokers são uma dupla de DJs de Nova York . Musicalmente, "Selfie" é mais uma dessas canções que parecem feitas por robôs e dominam as casas noturnas. Rótulo novo, EDM, Electronic Dance Music, para algo que está aí pelo menos desde o início dos 80, Yazoo, Depeche Mode etc.

A graça é a "letra". É uma moça no banheiro de uma boate conversando com a amiga. Fala do carinha que paquera, da mina que está dando bola para ele, fofoca, toma umas biritas, tricota, toma mais umas, e entre cada atividade diz: "mas antes deixa eu tirar uma selfie".

A graça dois é o vídeo, com duas gatas fazendo exatamente isso sob tiroteio de zilhões de selfies. Dos Chainsmokers. De uns famosos como Snoop Dogg. De uma multidão de desconhecidos fazendo-se de famosos.

Somando a esperteza da letra, a sacada do vídeo e a batida massacrante, temos... uma nova versão de "Valley Girl", de Frank Zappa. Igualmente perfeita como instantâneo de uma explosão de vacuidade. Com a diferença que décadas fazem.

As adolescentes do vale de San Fernando eram um subgrupo muito específico num cantinho afluente da Califórnia de Reagan. A filha de Zappa, Moon Unit, captou perfeitamente o vocabulário abilolado das burguesinhas que passavam o dia no shopping. A música doidona virou hit de FM em 1982, o primeiro e único da longa carreira de Frank.

"Selfie" não tem a loucura de Zappa nem a moleca Moon. Ganha fácil em tosqueira, volume, pertinência global. É o grito do planeta, norte, sul, pobre, rico, aqui e acolá. Me olha, me nota, me enxerga. Me vê posando, estou arrumada, andei malhando, aqui estou mandando beijinho, bombando. Me assiste porque mereço, me aplaude que sou uma estrela, reza no meu altar. Vê como estou feliz, because I´m happy!

Publicado em 18/12/2014 às 16:42

E a música desse verão é…

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Uma viagem no tempo. Quando o balanço começou a ficar robotizado, quando o  black power tomou os sintetizadores dos roqueiros. Espontânea e planejadíssima, uma brisa fresca no suor de quem tá dançando sem parar.

Publicado em 16/12/2014 às 14:47

Discoteca Básica: conheça mil discos que você precisa ouvir

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Conta falsa. Tem muito disco repetido nesse livro de listas, com os dez álbuns favoritos de cem pessoas, organizado pelo jornalista Zé Antônio Algodoal. Leitura delícia, surpresas diversas, presentão de amigo secreto. E você, leitor, leitora, quais são seus 10 discos favoritos?

Publicado em 18/11/2014 às 07:00

Faça o que eu digo: ouça o disco que mais ouvi na vida

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Todo mundo tem um disco favorito. É o disco que você mais ouviu na vida. Esse é o meu. Qual é o seu?

Publicado em 28/08/2014 às 00:05

A insignificante MTV, a insípida Beyoncé, e a decisão de não ter nada a dizer

beyoncé A insignificante MTV, a insípida Beyoncé, e a decisão de não ter nada a dizer

Maior clichê dizer que a TV anda mais legal que o cinema. Meia verdade. Tá cheio de série ruim, tem filme bom saindo pelo ladrão. É uma comparação desequilibrada. Normalmente se compara o melhor da produção americana para TV paga com os blockbusters mais apelativos de Hollywood, esses filmões de verão 4D, Imax etc. pra vender os megacombos do colesterol.

Prefiro comparar a TV com a... música. A TV que faz sucesso e ganha prêmio, com a música que faz sucesso e ganha prêmio. Prefiro não, aconteceu essa semana. Calhou de termos o Video Music Awards e o Emmy com um dia de diferença. E semelhança zero.

O VMA elegeu vídeo do ano um da Miley Cyrus. Ela pode até ser a cantora que mais chamou atenção nos últimos doze meses. Mas a música, Wrecking Ball, revisita o repertório do Roxette de vinte anos atrás, tipo "It Must Have Been Love". E o vídeo é pedestre. Não fosse a primeira aparição da ex-Hannah Montana transmutada em messalina de mentirinha, passaria batido.

Outros vencedores? Katy Perry, Ariana Grande, 5Th Harmony, Beyoncé... umas bonitinhas em uns clipezinhos fofos, algodão doce pra ouvidos acríticos. A lista completa está aqui.

Vamos comparar com o Emmy? O grande vencedor foi Breaking Bad, série hardcore sobre um professor que vira traficante da pesada, inteligente e violenta. Outros vencedores: séries como Fargo, Veep, True Detective, American Horror Story. Roteiros sólidos, boas interpretações, olho na audiência, mas alguma disposição de correr riscos. O melhor programa de variedades foi o imbatível The Colbert Report. E sobraram três prêmios para Sherlock, que é um ótimo exemplo de como fazer uma série divertida  para todas as idades (a partir dos 10 anos de idade, vá lá). Cito fácil uns dez filmes deste ano bem melhores que tudo isso junto, mas a lista do Emmy não faz feio de jeito nenhum.

Breaking Bad cast SAG 2014 jpg A insignificante MTV, a insípida Beyoncé, e a decisão de não ter nada a dizer

O que essas séries têm em comum? Pressupõem um mínimo de QI por nossa parte. O que toda essa música tem em comum? Parte da premissa que não temos gosto, memória, repertório. Que não adianta dizer nada, porque ninguém está ouvindo, ninguém está prestando atenção, ninguém vai entender. O contrário é verdadeiro. E mais verdadeiro ainda entre a garotada adolescente, que passa o dia todo fuçando e compartilhando e produzindo seu próprio conteúdo na internet.

Mas para o que resta da indústria da música, e o que resta da mídia de massa pra jovem, nada disso importa ou existe. Os executivos estão mais preocupados com a nova foto de Rihanna no Instagram do que com o fato que a garotada está criando seus próprios ídolos no Twitch e no YouTube. Engraçado que ali ao lado no controle remoto, num Cartoon Network da vida, há espaço para coisas como Hora de Aventura, que pega de criança a adulto com aventuras surreais, assustadoras, ternas - porque se arrisca.

hora de aventura A insignificante MTV, a insípida Beyoncé, e a decisão de não ter nada a dizer

Mas se o rock morreu, o pop não morre - está congelado no tempo. Daí a perfeita lógica do VMA fazer uma homenagem especial a Beyoncé, entertainer eficiente e insípida, santa padroeira de todas essas meninas sem roupa e sem nada a dizer. Certo que o Emmy premia o melhor da TV, a votação é diferente, o corte é diferente do da MTV. Mas o VMA não foi sempre isso, porque a MTV não foi sempre isso, porque a própria música pop não foi sempre isso. VMA, MTV e música se renderam à insignificância, a um gueto cada vez menor e menor, que finge ser cada vez maior e maior.

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Publicado em 03/04/2014 às 18:26

Gaby Amarantos abre o coração – e dá pra ver o dinheiro lá dentro

photo Gaby Amarantos abre o coração   e dá pra ver o dinheiro lá dentro
Gaby Ostentação é autocomplacente, autoreferente, pseudopopular, marketeira, obcecada com a imagem, crivada de preconceito de classe, e principalmente boçal.

Claro que tinha que ser apresentada ao público pela primeira vez no episódio final de Big Brother Brasil. E apropriadíssimo que a música só alcance todo o potencial de sua escrotidão no videoclipe.

Gaby prometia mais. Deu nisso - virou "famosa", uma Preta Gil cover, modelo plástica-e-photoshop. Anda aparecendo muito na TV. Tem música na novela das sete. Vem aí o novo disco, produzido longe do Pará e do tecnobrega, com a missão de tocar na rádio. A "música de trabalho" é Todo Mundo, produzida pelo mesmo Mário Caldato dos Beastie Boys e de Marcelo D2. "É sobre a nossa felicidade em receber a Copa em casa e sobre o otimismo de que tudo dará certo", explica Gaby, sem ironia visível.

Artisticamente, o álbum nasce supérfluo. O vídeo de Gaby Ostentação é mais que suficiente. Reúne um bando de famosos dublando Gaby e afetando gracinhas e dancinhas. Gente como Luciano Huck, Daniela Mercury, Marcelo Adnet, Marcelo Serrado, Fábio Porchat, Valeska Popozuda, Sérgio Mallandro, Anitta, Dani Calabresa e por aí vai.

A letra passa pito no funk ostentação. Gaby está acima dessas questões materiais, agora que não é mais feia e tá na moda. Diz:

Sou rica
Tô ostentando alegria
Gostosa
Do tipo Maravilhosa
Me escuta
sente a pressão
A felicidade não se compra com cartão

O que aprendemos hoje, amiguinhos? Que "o dinheiro não traz a felicidade". Falou completar o bordão como aquele velho comercial de Benson & Hedges, "manda buscar". Porque o vídeo é um bando de ricos e famosos pregando à periferia. Gente que tem muito, cantando a maravilha da vida simples para quem não tem nada.

Gaby Amarantos só aparece no final, silenciosa, carregando cartazes com as mensagens:

Ostente felicidade
Ostente respeito
Ostente paz
Ostente humildade

O vídeo foi lançado no dia da mentira. Acaba com Gaby dizendo "claro que eu não virei funkeira, né galera… a gente reuniu todos esses famosos para falar que a gente pode ostentar muita coisa além do dinheiro, que tá aqui no coração!"

Ostentar muita coisa, além do dinheiro. Dinheiro que tá aqui no coração… Entendeu? Arte não é o que o artista mostra, é o que eu enxergo. Gaby abre o coração, e a gente vê direitinho a grana lá dentro.

Miranda, produtor do primeiro disco de Gaby, e o cara que fez a música do Pará acontecer nacionalmente, lamentou publicamente, postando no Facebook:

"Para a artista talentosíssima que é, que lançou um disco tão inovador e respeitado por todos mesmo que pouco ouvido pelo povo - e pode ser esse o motivo - retroagir para uma música tão fuleira, brega no sentido mais errado da palavra, ainda se valendo de uma quase crítica (oportunista?) a um dos generos mais autênticos do país, irmão gêmeo de sua Xirley… ainda por cima embevecida de personalidades globais! Resta-me perguntar: cade você, Gaby? Que nunca mais apareceu aqui… (citando o mestre Odair José)."

Miranda, amigão, grande coração, segue torcendo por Gaby, e explícitou isso em um segundo post. Eu não. Nem ela precisa da nossa torcida. Tem novos amigos e boa antena. Captou e ostenta com galhardia o ethos da cena cultural carioca. Impressionante como os poucos críticos desta velha máfia não são capazes de capturá-la com tanta precisão quanto Gaby.

Gaby Ostentação navega no veio principal da cultura que compensa. Rebola no bloco dos tropicalistas ministros, e de seu cordão de puxa-sacos na academia e mídia. É o bonde do elogio da ignorância, da fetichização da favela. Trata-se de passar a mão na cabeça dos escravos, para que eles jamais usem levantá-la. É tudo por dinheiro, sempre, sem fim, e quanto mais vier do tesouro nacional, melhor. Porque do público pagante, sabemos, não vem.
Gaby está prontinha para substituir Regina Casé no Esquenta. E o pior é que certamente consideraria isso um elogio.

Gaby Amarantos - Gaby Ostentação por thevideos no Videolog.tv.

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Publicado em 10/12/2013 às 15:53

Tudo que você precisa é amor (o dinheiro vem depois)

Beatles foi a 1ª banda que amei. Foi em 1975. De lá para cá já gastei muito dinheiro e tempo com eles... Continue lendo

the beatles 01 web Tudo que você precisa é amor (o dinheiro vem depois)

Os Beatles foram a primeira banda que eu amei. Foi em 1975. De lá para cá já gastei muito dinheiro e tempo com eles. É a marca mais valiosa da história do rock. A explicação é que eles tiveram impacto social maior e mais permanente que qualquer outro. Música não foi o ponto. Agora é.

Neste nove de setembro, os Beatles voltam à vida. Pela primeira vez, os velhos fãs terão os doze álbuns originais em versão remasterizada, em CD e DVD, repletos de extras, documentários etc. E pela primeira vez, a nova geração terá os Beatles disponíveis onde interessa, nos videogames. O jogo The Beatles: Rock Band vem com 45 músicas para você tocar. As outras você comprará, futuramente, direto no site do game. Você toca os instrumentos, canta, faz harmonia, enquanto assiste versões animadas da banda em diferentes fases e cenários.

Vi ao vivo dia 2 de junho na E3, em Los Angeles, em cabine fechada para a imprensa. Um colega testou com Here Comes the Sun. Quase subi e mandei Taxman, mas fiquei meio constrangido. Para anunciar a parada, Paul, Ringo, Yoko e Olivia, viúva de George, subiram ao palco da E3. Giles Martin, filho de George, é o produtor do game. É coisa fina.

É surpreendente. Porque a marca Beatles nunca foi bem gerenciada. A Apple Corps, que gerencia os negócios dos Beatles, é uma burocracia sem fim. Nunca atende os fãs. É apavorada com o mundo digital. E não aprova nada que não tenha o OK dos quatro Beatles ou seus herdeiros.

A coisa só andou porque Dhani Harrison, fiho de George, é fã de games musicais, e vendeu o peixe para Paul, Ringo e Yoko. Não foi um business deal. Foi família.

Tudo virá embalada em uma megablitz de marketing, naturalmente. O timing é bizarro. Michael Jackson era dono de 50% dos direitos sobre as canções dos Beatles. Comprou porque era ótimo negócio. O negócio lhe valeu a amizade com Paul McCartney.

Jackson ia faturar bonito agora. Não deu tempo, porque morreu de overdose. Enquanto isso, da banda que mais promoveu as drogas para o mundo, dois estão contando dinheiro, John morreu baleado e George de câncer.
O grande professor de Michael foi Berry Gordy, fundador da Motown e compositor do primeiro hit da gravadora. Money (That’s What I Want) é mais conhecida na versão dos Beatles, de 1963. “Seu amor me dá arrepios/ mas não paga minhas contas… o dinheiro não traz tudo / para o que ele não traz, não tenho uso”.

Quatro anos depois, os fab four mudariam o papo para All You Need is Love. Que estará entre as primeiras canções disponíveis para download pago no game The Beatles: Rock Band. Com a receita doada para os Médicos Sem Fronteiras.

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Amor ou dinheiro? A letra de All You Need is Love dá a pista: “nothing you can say but you can learn how to play the game – it’s easy”.

Porque o século 21 deixa mais claro que nunca: se você faz com amor, as pessoas percebem. Se faz só pela grana, idem. Eu já tinha aprendido isso com Julius Schwarz.

Julius co-criou o primeiro fanzine do mundo, Time Traveller, em 1932.

Foi agente literário de lendas como H.P. Lovecraft e Ray Bradbury. De 1944 a 1986, trabalhou na DC Comics. Foi responsável por sucessivas modernizações do conceito de super-herói nos anos 50, 60, 70, 80.

Vi uma vez de longe em San Diego, 96. Nem fui lá agradecer por tantas memórias boas. Que pateta que eu era.

Se os gibis de super-herói têm um pai, mais do que Siegel & Shuster ou Bob Kane ou Stan Lee ou Jack Kirby ou quem você quiser, ele é Julius. Que não escrevia nem desenhava. Era editor. Ele nunca terá sua importância reconhecida. Julie mesmo dizia: “ninguém sabe direito o que faz um editor”.

Sem ele não existiria muito do que você reconhece hoje como cultura pop. E eu seria uma pessoa muito diferente do que sou e não estaria escrevendo isso e você não estaria lendo.

Confio muito num lema que Julie revelou em sua autobiografia, Man of Two Worlds:

“Pegue uma coisa que você ama e conte para todo mundo sobre ela. Encontre outras pessoas que tem a  mesma paixão, e juntos se dediquem a tornar essa coisa ainda melhor. No final, você vai ter muito mais do que você ama, para você e para poder compartilhar com o mundo.”

All You Need is Love. Pode até te render um dinheirinho, no final…

(Escrevi esse texto em 2009, para o jornal Meio & Mensagem. Lembrei dele porque os Beatles estão sendo novamente revividos, com um disco de gravações inéditas na BBC, e com uma história em quadrinhos sobre Brian Epstein, empresário da banda, e segundo Paul, "O Quinto Beatle". O álbum estreou na lista dos quadrinhos mais vendidos do New York Times. Imediatamente foi vendido para o cinema, já até anunciaram o diretor. E eu comprei hoje! Beatles Forever... e das coisas que escrevi, esse texto virou um dos favoritos de uma amiga querida. Não estava no blog, então...).

The Fifth Beatle: The Graphic Novel Movie Trailer por thevideos no Videolog.tv.

Publicado em 26/11/2013 às 10:24

Quando pirataria é legal – e quando é imoral (estrelando M.I.A., Batman e Gene Kelly)


dourado Quando pirataria é legal   e quando é imoral (estrelando M.I.A., Batman e Gene Kelly)

M.I.A lançou um novo disco. Eu comprei. Custou 19,99 dólares, uns 46 reais. Baixei legalmente via iTunes. Posso ouvir no computador, tablet, celular. Caro paca. Eu podia ter baixado de graça. Porque paguei?

Não vamos discutir legalidade. Lei regendo conteúdo digital é assim em um país, assado em outro, e difícil de fazer valer em qualquer lugar. E a discussão jurídica neste caso parece que só tem dois lados: a indústria do conteúdo querendo fazer valer leis de copyright impossíveis. E o partido pirata querendo que todo mundo dê o conteúdo sem cobrar.

Estou exatamente nesta encruzilhada. Como cara que consome muito jornalismo, livro, filme, música etc., grátis me parece o preço ideal. Como cara que produz conteúdo profissionalmente desde 1988, o preço ideal é o mais alto possível. Se eu pudesse, lançaria um livro por ano, mil exemplares, mil reais o exemplar. Se você topasse pagar… Vamos cortar o nó górdio. Você que crie seu critério, ou aja sem critérios. Tem que valer para filme, livro, quadrinho, qualquer coisa digitalizável que a gente tenha opção de pagar ou baixar sem pagar. Inclusive software, aplicativos, games.

Difícil encontrar algo imoral  em baixar da internet o novo disco de Paul McCartney, o elogiado New. Muito menos o CD dos Beatles na BBC. Paul tem uma fortuna de mais de um bilhão de dólares. Sean e Julian Lennon também não precisam da sua grana. David Bowie também é riquíssimo, mas comprei o disco dele, antes de ouvir, inclusive, e é bem ruim, nunca mais ouvi. Joguei o dinheiro fora? Fiquei feliz de Bowie voltar a compôr e gravar. Queria que ele soubesse disso.

Vamos ao cinema, assistir ao melhor musical de todos os tempos, Cantando na Chuva. Diretor, atores, compositores morreram há décadas. O filme já se pagou trocentas vezes. Comprei o filme, como comprei, porque a edição é em Blu-ray, tem imagem e sons incríveis, e um monte de conteúdo adicional. Mesma coisa com Pacific Rim, Círculo de Fogo. Curti com meu filho no cinema. Admiro o diretor, Guillermo Del Toro. Escolhemos a edição que tem nove horas de extras. Estamos curtindo devagar. Paguei pela conveniência e pacotão recheado.

gene Quando pirataria é legal   e quando é imoral (estrelando M.I.A., Batman e Gene Kelly)

Gene Kelly, happy again

Acontece  que os estúdios de cinema estão fazendo acordos que permitem que a gente, em vez de pagar pelo filme, pague uma mensalidade e tenha acesso a milhares de filmes. Ao mesmo tempo, cobram caro pelo DVD e Blu-ray de megaproduções de 200 milhões de dólares. No lançamento; um ano depois, valem cinco reais no saldões. Há quem pague o preço cheio, espere para pagar pouco, ou simplesmente não pague. Os que não pagarão já estão na planilha de custos dos grandes conglomerados de entretenimento. Vimos O Homem de Aço este fim de semana, em HD, na Now. Custou R$ 4,90. No cinema, meses atrás, quarenta reais.

As gravadoras seguem o mesmo caminho, cobrar por assinatura. Esses dias ouvi (no rádio!) uma propaganda de um novo serviço que cobra R$ 7,90 por mês, e te dá acesso a 20 milhões de músicas, de artistas brasileiros e internacionais, para ouvir no celular, computador, tablet. 20 milhões de músicas por R$ 7,90! Se as gravadoras topam esse valor microscópico por canção licenciada, ficam com poucos argumentos para esbravejar quando um garoto baixa grátis um CD. Porque pagar R$ 25 por quinze músicas?

Esses acordos por enquanto estão beneficiando mais as empresas que os criadores. Para o consumidor é uma mão na roda, claro. A tendência lógica é o preço cair, cair, e daqui a pouco a gente está pagando um dólar por mês por todos os filmes, livros, gibis e músicas do mundo. E logo depois será de graça. E daí quem vai querer fazer filmes, livros etc.? Vivendo do quê? Arte será hobby, ou movida a mecenato, e vaquinhas dos amigos? Sinuca de bico.

O caso dos quadrinhos é interessante. A maioria dos gibis produzidos no século 20 não rendeu um centavo de royalties para quem os escreveu e desenhou. Era linha de montagem. Quando você baixa da internet as páginas de um gibi do Batman dos anos 70, escrito por Denny O'Neil e desenhado por Neal Adams, está escapando de pagar a Warner, que é dona da DC. A empresa já ganhou muito com Batman, e especificamente com o trabalho de O'Neil e Adams (a recente trilogia cinematográfica tem muitos elementos inspirados em histórias da dupla).

batman Quando pirataria é legal   e quando é imoral (estrelando M.I.A., Batman e Gene Kelly)

Batman beija Talia. Essa imagem zoou com o meu cérebro em 1974

A DC, hoje, tem uma política de pagar participação aos criadores, quando lança encadernados de várias histórias, os Trade Paperbacks. É tipo 10% do preço de capa (que geralmente é 15 dólares). Seria moleza baixar na faixa o primeiro encontro de Bruce Wayne com R'as Al Ghul e sua filha Talia. Optei por comprar um álbum, impresso com papel bacana, e contribuir com a semi-aposentadoria de O'Neil e Adams. Pelo que eles me deram de alegria, foi barato. Vale para R. Crumb ou Enki Bilal. Se você pirateia quadrinhos autorais, está tirando dinheiro diretamente do bolso de um artista que admira, e que raramente está nadando em dinheiro.

Antes de baixar algo grátis da internet, há que prestar atenção em duas questões importantes. Primeira, o criador está vivo? Se o criador morreu há 50 anos, não me sinto tão na obrigação de colaborar para as finanças de seus netos. Segunda, é um criador que me fala à espinha, que corre riscos estéticos, que não está só entregando um produto comercialmente viável? Se é um mercenário fazendo um produto genérico, minha consciência não pesa tanto. Se admiro criador ou obra, se faz um trabalho interessante ou importante, porque não apoiá-lo com meus suados tostões?

Um contra-argumento furado é que só uma parte pequena da grana que desembolsamos vai para o criador. Dos meus US$ 19,99 dólares, M.I.A. embolsou algo como US$ 1,88. A Apple fica com 30% do que pagamos, gravadora e editora outros tantos, e tem muito imposto em cima.

Mas isso vale para tudo. Para a camiseta de sua banda de rock favorita, o boneco do Homem de Ferro, a reprodução de Egon Schiele e a entrada para a Ópera. Vale para cinema, onde você paga para entrar, e ainda paga dez vezes mais do que custaram a pipoca e refri. Se você curte games, imagine: se o primeiro jogo do Mario fosse livre de copyrights, Shigeru Miyamoto não teria nenhum estímulo para criar todos os games incríveis que fez nas últimas décadas.

Sei, você é um durango, não tem como recompensar seus artistas favoritos, e por isso baixa tudo deles pirata. Se é assim mesmo, não te culpo. Algumas coisas estão acima do dinheiro - paixão, por exemplo. Mas será que é assim mesmo? A ocasião faz o ladrão. Na maioria dos casos, não pagamos pelo que está na internet porque é fácilimo baixar de graça. Ponto.

Eu também baixo algumas coisas. Jornalista que disser que não baixa nada está mentindo. Principalmente porque parte do meu trabalho é fuçar. E muito do que me interessa não está  disponível no Brasil quando eu quero ou preciso. É muito legal este acesso a todo o conteúdo do planeta. E tem gente que não tem como pagar de verdade, e é excelente que a população mais carente, uns 80% do planeta, tenha acesso à mesma arte e entretenimento e jornalismo que os 20% mais abonados.

Espero que as leis de copyright avancem. Que criemos modelos novos e melhores de remuneração para toda a cadeia envolvida, do criador ao software ao varejista etc. Veremos. Enquanto isso, não baixo cópia pirata de criadores que admiro, e que estão em atividade hoje. É minha posição moral sobre o assunto. O resto é conveniência, e caso a caso.

Não se trata de obedecer a lei, mas meu próprio senso de justiça. E de defender meu próprio interesse. Fiz minha pequena contribuição para que M.I.A. continue compondo, gravando, provocando. Não quero que sua carreira renda tão pouco que ela decida trocar por outra mais lucrativa. O mundo é mais divertido com ela por perto.

Você pode achar M.I.A., Batman ou Cantando na Chuva três porres. Mas certamente tem seus cantores, diretores, escritores ou game designers favoritos, criadores que fazem o mundo mais bacana para você. Eles não merecem seu apoio e sua grana? Vamos colocar de outra maneira: se o cantor fosse teu irmão, ou escritor seu avô, você comprava ou baixava pirata?


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Publicado em 28/10/2013 às 14:51

Lou Reed colhe o que plantou

earlylou Lou Reed colhe o que plantou

Lou Reed cantava o prazer das drogas injetáveis em 1966. Morreu em 2013, fígado detonado. Viveu mais que o provável, pelo mal que fez a si mesmo. Talvez tenha vivido mais que moralmente aceitável, considerando os muitos que inspirou a fazer merda também.

Garoto judeu, bissexual e durango, aos 17 anos foi tratado com terapia de choque. O tratamento eletrificou seus pesadelos? Descobriu um caminho na arte de vanguarda, e na arte de vanguarda que qualquer um podia fazer, o rock. Não rock qualquer: rock além do limite do bem e do mal. Ninguém se esforçou tanto para encontrar no perigo, glamour - e um bom refrão. Para fazer barra pesada um ideal de vida, sedutor e inevitável. Esse era Lou, e essa era sua banda, o Velvet Underground, de que ele era o coração. Velvet, que na época poucos ouviram, e cada um que ouviu montou sua própria banda. Velvet que hoje poucos ouvem, porque organicamente integrado ao que entendemos como "rock" e "risco".

O Velvet inspirou 99% dos roqueiros posteriores que, como Lou, tinham algo a gritar - Bowie ou Sid Vicious, Patti Smith ou o Jesus & Mary Chain ou, bem, a lista jamais terá fim. Com o fim da banda, seguiu encrencando. Fez discos que eram só distorção de guitarra. Seus primeiros álbuns solo passeiam chapados pelo lado negro da força - vício, putaria, miséria, revolta. "Walk on the Wild Side", seu único hit, descreve a via crucis de jovens drogados e prostituídos que orbitavam a cena artística de Nova York.

Seu único bom disco mais alegrinho, Coney Island Baby, foi inspirado, segundo o jornalista Lester Bangs, por uma figura de "longo cabelo negro, barbada, grotesca, abjeta... como algo que poderia ter se arrastado implorando para dentro da casa, quando Lou abriu a porta pra pegar o jornal ou o leite, pela manhã." Era Rachel, ou Tommy, travesti e amante de Lou, que explicou: "Rachel não tinha o menor interesse em quem eu era ou o que eu fazia. Nada impressionava ela. Pouco tinha ouvido minha música, e quando ouviu também não deu a mínima".

lourachel Lou Reed colhe o que plantou

Mais sobre Lou e Rachel aqui.

Lou envelheceu sem amadurecer, nem fazer sucesso. Batia nos quarenta quando viu que os punks faturavam firme, vomitando o que ele fazia 15 anos antes. Se metamorfoseou em rocker machão e malhado. Tirou Rachel da biografia, virou garoto-propaganda de motocicleta, fez duetos com qualquer um, tocou para o papa, por Mandela, pela Anistia Internacional. Ressuscitou o Velvet para excursionar com o U2. Ganhou uma graninha e atestado de ícone no Rock'n'Roll Hall of Fame.

Vovô ranzinza, tornou-se figurinha fácil nos saraus vanguardistas de Nova York, casado com a também artista, tiazinha e inofensiva, Laurie Anderson.  O Lou de outros tempos ainda mostraria dentes afiados em dois discos: o jornalístico New York, em 1989, e o belo Songs for Drella, de 1990, sobre Andy Warhol, co-assinado com o parceiro no Velvet, John Cale. As últimas duas décadas, bem, que artista sobrevive pelos últimos anos de sua obra?

Lou merecia mais fama, mais dinheiro, um verbete maior nas enciclopédias do futuro? Merecia ter vivido mais que 71 anos? O melhor de Lou Reed permanecerá, doce e assustador como sangue na calçada: algumas canções, muitos herdeiros, e o disco de estreia do Velvet Underground, imortal, atemporal. Lou morreu cedo, não fará mais falta, e viverá para sempre. Recebe tanta justiça quanto podemos aspirar: colheu o que plantou.

houstonlou Lou Reed colhe o que plantou

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Publicado em 15/08/2013 às 13:43

Uma luz na escuridão: Peter Murphy ao vivo em São Paulo

peter murphy2 Uma luz na escuridão: Peter Murphy ao vivo em São Paulo

"A paixão dos amantes é pela morte", cantou Peter Murphy, e nunca mais fomos os mesmos. Sua banda, o Bauhaus, foi tão influente que a gente nem percebe mais como foi única. Há 35 anos de distância de sua fundação da banda, filhotes e bisnetos se multiplicam, na música e em todo lugar. Quem nem sabe o que é rock direito sabe o que é "dark" e "gótico". É estranho pensar que nenhuma das duas palavras tinham sido aplicadas ao rock antes do Bauhaus. Mas é assim que é, mesmo que o próprio Bauhaus tenha sido frequentemente nem dark nem gótico.

Três décadas e meia é muito tempo, e nesses anos as tendências dominantes da música pop pendularam pra lá e pra cá. Subterrâneos se mantiveram cantando a escuridão, múltiplos - existe a música sombria e eletrônica, sombria e rocker, sombria e melódica, e tantas outras. Boas bandas, como Nine Inch Nails e Interpol. Uma cena de new metal nos EUA, Korn e companhia. Uns anos atrás, surpresa - nasceu o heavy metal gótico, sombrio, melódico, com perfumes sinfônicos. Nightwish e companhia: as cantoras esbranquiçadas, cabelos negros e rendas nos longos, me lembram capas de romances pra moças da minha infância. Bandinhas para garotas adolescentes, como Seven Seconds to Mars e My Chemical Romance, se apropriaram da cartilha do Bauhaus para faturar forte. Crepúsculo, febre dos últimos anos? Só existe por causa do Bauhaus - e aliás Peter Murphy fez uma ponta em "Eclipse".

Claro que o Bauhaus não veio de outra dimensão. Eram quatro adolescentes que cresceram com a música mais estranha dos 70, em uma cidadezinha, mas  milenar e esotérica, Northampton, que dividiram com um jovem Alan Moore. Era a virada da década, e o mais influente astro de rock da Inglaterra parecia se multiplicar em cada quarteirão - verdadeiros exércitos de David Bowies, um mais eletrônico, outro mais roqueiro, ou mais feio, ou mais fútil ou experimental ou, Peter Murphy, sombrio. Mas os quatro do Bauhaus nunca foram clones. Pareciam personagens de algum estranho conto de ficção científica, aranhas de marte, roqueiros vampiros, o cantor à frente como um Dorian Gray burlesco, sem medo do exagero e do ridículo. Peter Murphy, a matriz do mestre dos sonhos dos quadrinhos, Sandman, diz seu criador, Neil Gaiman.

bauhaus Uma luz na escuridão: Peter Murphy ao vivo em São Paulo

O Bauhaus continua mais insólito que qualquer de seus herdeiros, como pudemos comprovar ontem, os felizardos que vimos Peter Murphy tocar em São Paulo. Noite londrina, chuva fina e frio de aço. Uns dois mil quarentões metidos em capotões negros. Nenhum jovem à vista, muito menos os celebrados integrantes da cena paulistana contemporânea, esses transgressores de araque. Roqueiro, só os da minha geração - Clemente, Calegari, Gastão Moreira. Thomas Pappon! Boa turma, boa companhia.

Música é composição e interpretação. Rock é ao vivo, é repertório e público - donde a eterna popularidade das bandas cover. Qualquer show com o set list de ontem e uma banda que desse pro gasto já entra com meio jogo banho. Mas no palco está Peter Murphy, "uma LENDA, cara!", como grita sem parar o maluco à minha frente na fila do banheiro. E o mestre continua muito bem, 56 aninhos bem-vividos, anguloso, voz já no meio-mastro, mas quem se importa? E ele não estava lá só interpretando as melhores canções do Bauhaus. Ele é o criador, com Daniel Ash, David J e Kevin Haskins.

Então eu vi pela primeira vez ao vivo Kick in The Eye (linha de baixo roubada de Last Train To London, como eu nunca tinha percebido?), Bela Lugosi's Dead, Hollow Hills e tantas outras. E quando já estava mais que bom, Peter chamou ao palco outro monumento do rock inglês dos anos 80, paulistano transplantado, Wayne Hussey, do Sisters of Mercy e do Mission, e felizes como garotos cantaram em dueto as canções que quando garotos amavam - Telegram Sam, do T-Rex, e Ziggy Stardust, Bowie. E a celebração sombria explodiu em alegria e palmas e gargalhadas, e no final ninguém queria ir embora, e continuamos encontrando outros amigos, de outras décadas, felizes na calçada gelada.

Nos últimos momentos um cara me disse que eu era o herói jornalístico dele e me pediu pra tirar uma foto juntos; no caminho do estacionamento, uma garota me falou: "te sigo no Twitter, leio teu blog, continue assim, escrevendo sobre as coisas que ficam entaladas na nossa garganta". E aí foi a minha garganta que deu um nó, mas o coração estava desatado, e é por essas e outras que para mim o rock é e será sempre uma luz na escuridão.

Peter Murphy - The Passion of Lovers por perolasblogs no Videolog.tv.

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Publicado em 09/08/2013 às 10:09

Algumas perguntas para Pablo Capilé, o Fora do Eixo e a Mídia Ninja

A semana foi uma montanha-russa para a rede Fora do Eixo, e um de seus braços midiáticos, a Mídia Ninja. Pablo Capilé, gestor do Fora do Eixo, e Bruno Torturra, coordenador de comunicação do FDE, e face da Mídia Ninja, começaram dando baile em baluartes da imprensa no programa Roda Viva, na segunda (5). E chegaram à quinta sob ataque cerrado, enfrentando denúncias, e principalmente depoimentos impactantes de ex-integrantes do Fora do Eixo.

Eu já tinha publicado uma entrevista com Bruno. Na terça (9), comentei o Roda Viva. Na quarta (10), convidei Pablo para uma entrevista aqui no blog, e ele aceitou. Na quinta, enviei as perguntas abaixo. No mesmo dia, Capilé as publicou em seu perfil no Facebook.

Eu não pretendia publicar as perguntas sem resposta. Mas já que ele tomou a iniciativa, e disse que vai respondê-las nos próximos dias, deixo aqui registradas também.

O "algumas" do título é brincadeira. São um monte. E muitas outras não incluí. O Fora do Eixo é complexo. Não foi nenhum grande esforço de reportagem. Minha pesquisa levou algumas horas, três telefonemas, e
tive a sorte de contar com algumas fontes muito bem informadas.

O mais estranho não é que eu tenha elaborado tantas perguntas. O mais estranho é que eu, que tenho um simples blog, e outro emprego, tenha feito isso tão fácil e tão rápido. E a imprensa - tradicional ou independente - jamais tenha se dado ao trabalho.

Abaixo, a íntegra do email que mandei para Pablo Capilé e Bruno Torturra.

Oi Pablo,

aí está. Um questionário e tanto!
E olha que ainda cortei muitas perguntas.
Como você sabe, o Fora do Eixo tem muitos críticos.
E todo mundo resolveu me procurar, quando anunciei que preparava uma entrevista contigo...
Dei uma boa peneirada. Mesmo assim sobrou um tanto de perguntas provocativas.
E outras que são bem pragmáticas mesmo.
As regras são as mesmas da entrevista que fiz com o Bruno Torturra: as suas respostas serão publicadas na íntegra e nesta mesma ordem. Só editarei se for realmente necessário, e somente por questões de espaço e de padronização de texto do R7.
Confirma se recebeu, OK?
Obrigado, abraço

capile  Algumas perguntas para Pablo Capilé, o Fora do Eixo e a Mídia Ninja

André

título: Uma entrevista com Pablo Capilé, gestor do Fora do Eixo

Quantas organizações compõem a rede Fora do Eixo?

O que elas são - empresas, ONGs Oscips?

Quantos CNPJs?

Cada uma tem autonomia para captar recursos e participar de editais independentemente, ou há uma coordenação nacional?

Existe um caixa único?

O que é o Banco Fora do Eixo?

Existe uma prestação de contas unificada, ou cada organização presta contas separadamente?

Qual é o total de recursos que a rede Fora do Eixo recebeu em 2012?

Quanto destes recursos veio de editais, quando de patrocínios e apoios, quanto de festivais, e quanto de outras fontes?

Quanto veio de recursos públicos, seja via editais, patrocínios, publicidade ou qualquer outra modalidade de apoio?

O Fora do Eixo defende a transparência e afirma que suas contas e planilhas estão à disposição de quem quiser. Onde estão disponíveis planilhas que dêem conta de todas as movimentações do FDE?

A área de "empreendimentos" do site do FDE está em manutenção pelo menos desde fevereiro passado. Por quê?

Esta planilha de prestação de contas é difícil de analisar. Às vezes os valores aparecem em número, às vezes por extenso, o que dificulta a soma direta. Por quê?

A cada ano, nesta planilha, há projetos que não incluem resultados. A gente sabe que às vezes fica para outro ano. De todos os projetos apresentados pelo FdE, qual a proporção que é aprovada e qual a proporção rejeitada?

O FDE já afirmou que 7% do total de seu orçamento vem de dinheiro público. No Roda Viva, você falou em 5%. Isso indica que o FDE tem um orçamento consolidado. Tem ou não tem? Se tem, você pode divulgar?

E onde estão as informações sobre os investimentos de empresas privadas e receitas de outras atividades, que somam esses 95%? Esta planilha divulgada pelo FDE não contém valores nesse montante.

O que é a Universidade Fora do Eixo?

Quantos estudantes e quantos professores estão na Universidade Fora do Eixo?

Os estudantes pagam? Quanto?

O site da Universidade Fora do Eixo lista dezenas de docentes. Eles recebem? Quanto?

Alguém já se formou nessa Universidade?

Qual é o orçamento da Universidade FDE, e quem gere este orçamento?

No site da Universidade Fora do Eixo, há um crédito: "Realização: Ministério da Cultura, Petrobras, Fora do Eixo", com os logotipos. Qual a participação, e o investimento financeiro, do Ministerio da Cultura e da Petrobras na Universidade Fora do Eixo?

A Petrobras vem sendo um grande apoiador das iniciativas do Fora do Eixo. O FDE já indicou alguém para participar das instâncias que decidem os patrocínios da Petrobras?

O Fora do Eixo já apoiou candidatos a cargos públicos? Quem?

O Fora do Eixo já indicou alguém para participar de governos? Quem?

Embora o FDE tenha entrado de cabeça no movimento Existe Amor em SP, contra Russomano e pró-Haddad, a secretaria de cultura de São Paulo está com Juca Ferreira, e com o chefe de gabinete Rodrigo Savazoni. Savazoni é da Casa de Cultura Digital e independente do Fora do Eixo. Você acha que o FDE mereceria mais espaço na gestão Haddad?

Quantas pessoas trabalham em período integral na rede Fora do Eixo?

É obrigatório para quem trabalha em período integral no FDE morar nas Casas Fora do Eixo?

Qual é a faixa etária dessas pessoas?

Três pessoas diferentes me disseram que os integrantes do Fora do Eixo são pressionados a se relacionar amorosamente somente com outros integrantes do FDE. Quem quiser namorar com alguém de fora é convidado a sair do FDE. É verdade ou mentira?

Há relatos de que uma criança mora em uma Casa Fora do Eixo, apelidada "Bebê 2.0". Seria filho de dois militantes do FDE, mas seria criada coletivamente, por vários "pais" e "mães". O pai e mãe biológicos não teriam poder paterno sobre a criança. É verdade?

O Fora do Eixo criou diversas moedas virtuais: Cubo Card, Goma Card, Marcianos, Lumoeda, Palafita Card e Patativa. Como elas são utilizadas?

Por quê criar diversas moedas, e não uma só?

Essas moedas virtuais podem ser trocadas por reais? Se sim, qual o câmbio? Se não, por quê não?

Quem trabalha para o Fora do Eixo recebe em moedas virtuais. Se sair do FDE, o que vai fazer com suas moedas virtuais?

No site da Casa Fora do Eixo, há, em destaque, um logotipo da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Qual o valor do apoio da Secretaria à Casa Fora do Eixo?

O Estado de São Paulo é governado pelo PSDB. O Fora do Eixo aceita apoio de governos de qualquer partido?

O governador Geraldo Alckmin foi o principal alvo das manifestações em São Paulo. Você vê alguma contradição em receber apoio de um governo e militar contra ele?

A homepage do Portal Fora do Eixo traz três patrocínios federais: Ministério da Cultura, programa Cultura Viva e Programa Mais Cultura. Isso não provoca no leitor uma ideia imediata de vinculação entre o FDE e o governo federal?

O que é o Partido da Cultura? É ligado ao Fora do Eixo?

No site do Partido da Cultura, o último post é de janeiro de 2012. No twitter, de março de 2012. Ele está ativo? Pretende se constituir como partido regular e disputar eleições?

O FDE vem se aproximando de Marina Silva e seu projeto de partido, a Rede, inclusive colaborando na campanha de assinaturas. Há alguém indicado pelo FDE na executiva da Rede?

Se Marina Silva vencer a eleição para presidente, o FDE pretende indicar o ministro da cultura?

O Fora do Eixo costumava proclamar a política do "pós-rancor". O termo "pós-rancor" é criação de Claudio Prado, chefe do programas de cultura digital do Ministério da Cultura na época de Gilberto Gil e Juca Ferreira. Segundo a teoria do pós-rancor, as tensões entre capital e trabalho estão superadas, o conflito agora é entre quem tem informações e quem não tem. Cláudio Prazo é muito próximo do FDE, tem até programa na Pós TV. Mas nas manifestações de rua, o que não falta é rancor e polarização, ainda mais nos últimos protestos. O "pós-rancor" morreu?

Uma fonte me disse que o Fora do Eixo costuma apoiar determinados candidatos em eleições municipais e estaduais, com os militantes trabalhando diretamente nas campanhas. Se o candidato vence, o Fora do Eixo indica gente para a secretaria de cultura, geralmente pessoas que não são do FDE, mas próximas. Seriam mais de dez secretários da cultura no Brasil. É verdade?

A Mídia Ninja, como a Pós-TV, é do Fora do Eixo. O FDE recebe verbas de grandes corporações, como Vale e Petrobras. O Fora do Eixo financia a Mídia Ninja, que critica o grande capital, e principalmente a grande mídia. Afinal, FDE e a Mídia Ninja são contra o grande capital ou a favor?

Diversos apoiadores do FDE trabalham ou trabalharam na grande imprensa. A principal figura da Mídia Ninja, Bruno Torturra, trabalhou anos na Editora Trip, chegando a diretor de Redação. Contratou, demitiu, controlou orçamentos. Além da Trip, a editora faz revistas pra grandes corporações, como Gol, Pão de Açúcar e Audi. Seu emprego mais recente foi na TV Globo, como redator do programa Esquenta, com Hermano Vianna e Regina Casé. Você vê alguma contradição nisso?

Você acha que quem participa dos protestos tem consciência de que a Mídia Ninja e o FDE recebem apoio financeiro de grandes empresas, e governos de diversos partidos?

O Fora do Eixo costumava ser muito ativo nas redes sociais. Mas no auge das manifestações em S. Paulo, você abandonou o Twitter. Entre 11 e 18 de junho, não publicou nada, sendo que a manifestação em que a repórter da Folha foi ferida no olho aconteceu no dia 13. Coincidentemente, o twitter do Fora do Eixo tb não publicou nada entre 13 e 22 de junho. Vc só voltou ao twitter pra divulgar as transmissões da Mídia Ninja e pra anunciar que o prefeito Haddad ia baixar as tarifas. Por quê?

No começo deste ano, o Fora do Eixo publicou na internet o glossário do FDE: termos que devem ser conhecidos e usados por todos os militantes. Outros coletivos fizeram críticas, o FdE tirou o texto do ar, depois republicou, mas com alterações. A principal: eliminou o verbete "choque pesadelo". O verbete era assim:  "Choque pesadelo: Embate conveniente direcionado a alguém que vem conflitando ideias através de críticas não propositivas que desestimulem uma pessoa, ou grupo. O choque pesadelo serve como uma fala direcionada que busca esclarecer situações através do "papo reto". Ex. Tivemos uma conversa franca que serviu como choque pesadelo para ele. Ler também "papo reto". Pode explicar?

Muitos críticos do FDE dizem que o Fora do Eixo é uma seita, com regras rígidas para todas as ocasiões. O fato de existir um glossário tão detalhado não dá razão aos que criticam o FDE por ser uma espécie de seita?

O que é "catar e cooptar?"

Embora o FDE se apresente como uma rede, ex-integrantes do FDE dizem que a estrutura é totalmente verticalizada, e que você é como um guru na organização - jamais é questionado por ninguém. Quais outros integrantes do FDE têm influência próxima à sua?

Muitos coletivos de esquerda e movimentos populares não se dão com o Fora do Eixo. É o caso do Movimento Passe Livre, do MST, Movimento Hip Hop, Ocupa São Paulo e vários outros. A que você atribui essa rejeição?

Um conhecido jornalista de esquerda, José Arbex, escreveu um texto com críticas pesadas ao Fora do Eixo, em 2011, na revista Caros Amigos: "Lulismo Fora do Eixo". Ele conta que durante a preparação da Marcha pela Liberdade, em maio de 2011, você mencionou a possibilidade de a Coca-Cola patrocinar a marcha, e que a Coca nem fazia questão de sua  marca aparecer --era só pra ficar bem com os movimetos progressistas. Outros coletivos rejeitaram o patrocínio. Várias pessoas contaram a mesma versão dessa história. Isso é verdade? Se não é, exatamente o que você disse nessa reunião? Se isso não é verdade, o que foi que você disse nessa reunião?

O coletivo de esquerda chamado Passa Palavra se destaca nas críticas ao Fora do Eixo. Em um texto muito alentado, de 2011, eles afirmam que: a) o Fora do Eixo tem 57 CNPJs diferentes; b) o FDE é uma máquina de ganhar editais, que floresceu nas gestões de Gilberto Gil e Juca Ferreira no MinC, por meio do programa Cultura Viva, dirigido pro Claudio Prado. Segundo o Passa Palavra, o FDE participava da elaboração de editais da área digital do Minc, editais esses que eram vencidos pelo próprio FDE. Como você responde a essas acusações?

O Fora do Eixo começou em Cuiabá, com o Festival Calango. Esse festival não existe mais, apesar do crescimento do FDE. Por quê?

Você já disse defendeu várias vezes de que os artistas que tocam em festivais não deveriam receber cachês. Por quê?

Se os artistas não ganham para tocar, não ganham para divulgar música na internet, e o mercado de discos está em baixa, do que os artistas devem viver?

O FDE agencia shows? De que artistas? Como o FDE é remunerado por agenciar shows?

Os festivais independentes de rock brasileiros eram reunidos, desde 2005, numa entidade chamada Abrafin. Qual a relação atual entre a Abrafin e o Fora do Eixo?

Em 2011, treze festivais independentes, incluindo alguns dos mais importantes do Brasil, como o Goiânia Noise e o Abril Pro Rock (de Recife), abandonaram a Abrafin. Alegaram que o FDE tentava impor um paradigma único a todos os festivais. E que os festivais se viam obrigados a chamar sempre os mesmo artistas ligado ao FdE. O que aconteceu de fato na Abrafin?

Você tem a informação de que festivais que abandonaram a Abrafin passaram a receber menos patrocínios? A que atribui isso?

Vários artistas - o cantor China, o Daniel Peixoto (do Montage) e o Márvio dos Anjos (do Cabaret), entre muitos outros - relatam que os festivais do Fora do Eixo têm como características a infraestrutura muito simples e o não-pagamento de cachê, exceto em casos muito excepcionais. Se a infraestrutura é básica, não tem cachê, e os festivais são feitos com dinheiro de editais, para onde vai o dinheiro que sobra? Ou não sobra?

A cineasta Beatriz Seigner divulgou ontem um longo depoimento no Facebook. Cita um jantar na casa da diretora de marketing da Vale, onde ela e você estavam. Segundo o texto dela, você disse que "era contra pagar cachês aos artistas, pois se pagasse valorizaria a atividade dos mesmos e incentivaria a pessoa ‘lá na ponta’ da rede, como eles dizem, a serem artistas e não ‘DUTO’ como ele precisava. Eu perguntei o que ele queria dizer com “duto”, ele falou sem a menor cerimônia: “duto, os canos por onde passam o esgoto”. Esse diálogo aconteceu?

Beatriz também diz que seu filme Bollywood Dream - O Sonho Bollywoodiano foi exibido em sessões que contavam com patrocinadores, mas que o dinheiro ficou sempre com o Fora do Eixo; ela não recebeu nada pela exibição durante os festivais Grito do Rock, e só conseguiu receber o dinheiro do SESC depois de muito insistir com o FDE. Isso é verdade?

Diz que lhe foi pedido que seu filme tivesse o crédito "Realização Fora do Eixo", embora o filme não tenha sido produzido pelo FDE. Isso é uma prática comum? Você considera isso um pedido normal?

Todo o depoimento de Beatriz é muito crítico ao FDE e a você pessoalmente. Como você responde a ele?

"Fora do Eixo" é marca registrada. O registro no INPI é da Globo Comunicação e Participações. Pode explicar? Aqui está o registro:

NCL(8) 3582861623009/08/2006FORA DO EIXORegistroGLOBO COMUNICAÇÃO E PARTICIPAÇÕES S.A.NCL(8) 41

O Fora do Eixo vem recebendo mais e mais críticas. Agora, também de ex-integrantes do FDE. Alguns preparam publicações de novos depoimentos contra o FDE. Certamente, a imprensa vai investigar ainda mais.

Com tanta publicidade negativa, dificilmente o FDE continuará recebendo apoios e patrocínios na mesma escala - afinal, empresas não querem risco na hora de escolher quem patrocinam. E necessariamente todas as contas do FDE serão examinadas com cada vez mais rigor. O Fora do Eixo - e portanto Mídia Ninja, Abrafin, Pós TV, Casas FDE, Universidade FDE etc. - está em risco de desmoronar de repente?

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Publicado em 10/05/2013 às 14:10

Por que a indústria fonográfica vai muito bem (e por que não acreditar nas notícias)

daft punk get lucky pharrell nile rodgers 600x337 Por que a indústria fonográfica vai muito bem (e por que não acreditar nas notícias)

Ninguém mais compra discos. A indústria fonográfica faliu. Todo mundo baixa música de graça. Certo? Errado. Cuidado com o que você lê. E com o que repete. Às vezes até existem fatos nas notícias. Mas quase sempre o que há por trás das notícias são intenções.

O maior mercado de música do mundo é o americano. Caiu em um terço desde seu pico, há dez anos atrás. Nesta década, diminuiu de US$ 11,8 bilhões para US$ 7,1 bilhões. Queda dramática. Mas sete bilhões de dólares estão bem longe de ser nada. Desses sete bilhões, 58% são venda em formato digital, o que obviamente não existia dez anos atrás. Mais de quatro bilhões de dólares de venda de, basicamente, nada, uns bits carregando música.

Não é exatamente ninguém comprando. Considerando que os americanos têm conexões bem melhores que as nossas, e poderiam baixar tudo na pirataria, a venda de música digital é enorme. E esses valores não incluem a receita que as gravadoras conseguem de empresas, é só a venda direta ao consumidor. Com mais desses serviços legalizados ganhando o consumidor - coisas como Rdio etc. - mais fontes de receita vão se somando.

E no Brasil? Segundo a Segundo a Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI), estamos em oitavo no ranking mundial. A receita total da venda de música foi de R$ 504 milhões em 2012 - 8,9% maior que em 2011. A venda digital foi 27% das vendas. Cresceu 81%. A venda física caiu 10%. Surpresa: o brasileiro paga por música digital. Todos? Não, mas muitos.

A história é a mesma se você for pesquisar todas as outras áreas tradicionais da cultura e da comunicação que estão sendo afetadas diretamente pelos ventos digitais. A mudança é profunda e em aceleração. Quem fingir que vivemos como no século 20 está morto. Mas quem acreditar que tudo mudou, e que os velhos gigantes corporativos estão tão extintos quanto brontossauros, está comprando gato por lebre.

Quando um segmento da economia começa a murchar, a coisa eficiente a fazer não é enfiar uma estaca em seu coração. É adiar ao máximo a decadência, e ir tirando tanto leite da pedreira quanto possível, até o final. Por isso é que o governo americano está investindo em... gravadoras independentes. Segundo o Wall Street Journal, a Administração de Comércio Internacional (ITA) investiu 300 mil dólares em 2012 em subsídios para a indústria americana de música. É pouquinho, mas suficiente para bancar viagens de donos de selos independentes à China, Coréia, Brasil.

Tem dois detalhezinhos fundamentais nessa história toda. Primeiro: os países mais espertos sabem que economia criativa é o nome do jogo no século 21. O ecossistema em volta de desenvolvimento de aplicativos para celulares e tablets Apple - o que os gringos batizaram de App Economy - já gerou mais de 200 mil empregos nos Estados Unidos. É aí, e não em fábrica de automóveis, que está o crescimento. Segundo: as versões digitais de canções, livros, filmes etc. custam praticamente zero para reproduzir. E custam um pouco menos do que as versões físicas, que têm que bancar manufatura, distribuição, varejo e tal. Donde que é perfeitamente possível vender muito menos música que há uma década, e ter uma margem de lucro muito maior. Donde que - para pegar um exemplo desta semana - as 363.000 cópias digitais vendidas na Inglaterra do novo-nostálgico single do Daft Punk, "Get Lucky", deram muito mais dinheiro à gravadora e grupo do que se fossem 363.000 compactos vendidos em lojas. A indústria fonográfica ainda faz muitíssimo sentido. E é por isso que o Daft Punk, tão moderninho, não botou a música de graça na internet.

As empresas de mídia e entretenimento têm interesses, assim como as de internet e tecnologia. E os defendem, via lobbies, marketing, e suas assessorias de imprensa. Muito jornalista cai, que dirá o leitor casual. Quem cair nesse papo vai acreditar que a indústria fonográfica, cinematográfica, editorial estão mortas. Que as empresas tradicionais de games estão mortas. Que ninguém mais verá televisão. Que a grande imprensa já era. As mudanças são cataclísmicas, mas tem muito tiranossauro que continua a devorar nacos bem grandes da nossa grana. Muitas vezes, usando justamente o ferramental digital. O discurso de "tudo acabou" é cortina de fumaça para interesses bem específicos. Quando você ler o milionésimo artigo repetindo essas balelas, lembre: não é jornalismo, é propaganda.

DAFT PUNK - Get Lucky (feat. Pharrell Williams) por perolasblogs no Videolog.tv.

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Publicado em 03/05/2013 às 16:33

Contra Lobão, Contra Mano Brown

lobao 1 Contra Lobão, Contra Mano Brown

Lobão falou um monte sobre Dilma para promover seu novo livro. Defendeu a ditadura militar. Atacou a Comissão da Verdade. Comparou seus dias de cana por drogas com a tortura de guerrilheiros. Isso tudo que ele disse não é de direita nem de esquerda. É propaganda para seu novo livro. Propaganda não tem posição política. É neutra como um fuzil.

Você não precisa ser conservador para criticar o governo de Dilma Rousseff. Nem todo mundo que critica seu governo é reacionário. Parece dispensável botar isso em palavras. Não é. Lobão não é conservador. É inteligente, e como outros assim, contraditório. Sempre soube fazer barulho em causa própria e se posicionar como o rebelde independente contra os gigantes da opressão. Sempre foi um franco-atirador.

Entrevistei Lobão em 1989. Explicava a ausência da bateria de escola de samba em seu show dizendo que o promotor de shows, Manoel Poladian, era racista. Botei na matéria. Poladian processou. Lá fui eu com meu bloquinho de anotações e o advogado da Folha, explicar que jornalista não cria declaração, jornalista publica. O juiz me tirou do processo. Lobão nem apareceu.

Desta vez elegeu alvos retumbantes. Dilma e o PT, a cultura que sobrevive de dinheiro público, o rap militante de Racionais MCs, Criolo e Emicida, e por aí vai.  Todos são alvos perfeitamente razoáveis. Alguns tiros de Lobão são exagerados no limite da alucinação. Alguns sim, outros não. Criticar Gilberto Gil por ter sido um ministro da Cultura que gestou em causa própria e dos amigos não é exagero, é obrigação.

Mano Brown, dos Racionais, retrucou forte. Disse que Lobão se comportou como puta para vender seu livro. E desafiou Lobão pra resolver isso na porrada. Mano Brown manja de marketing tanto quanto Lobão, uma das principais razões do impacto e permanência dos Racionais. Estava sendo Mano Brown quando chamou Lobão pro pau. É o que seus fãs esperam dele.

Existem muitas razões para criticar o governo - qualquer governo. Não são as que mais circulam por aí. Muita gente (e inclusive muita gente esperta), quando vai criticar o governo federal, meio que automaticamente desliza para clichês caretas e truculentos. E outra tanta gente (e inclusive muita gente esperta), quando vai criticar governos mais conservadores e grande imprensa, apela para cacoetes politicamente corretos, autovitimizantes, tolinhos.

Tenho implicância com governo, qualquer governo. Mas resumir toda nossa possibilidade de crítica em preto-ou-branco é pobreza mental. E ainda pior é limitar nosso arsenal de críticas só a nossos representantes eleitos, sem incluir empresas e empresários, cardeais da cultura, imprensa, ONGs etc.

Alguns tiros de Lobão talvez tenham sido no pé? As vendas do novo livro dirão. Você, minha amiga, não precisa escolher entre quem fala muita besteira e quem fala alguma besteira. Porque é pra lá de desperdício - é antiético. Não se renda à tentação de optar por Lobão ou Mano Brown. Lobão disse o que quis, e o que vai adiantar o lado de Lobão. Mano Brown disse o que quis (e só disse, não bateu em ninguém), e sempre o que vai adiantar o lado dos Racionais.

Não digo que você não deva ter posição. Mas debater quem faz o melhor marketing, defender posição sobre factóides publicitários, é jogar preciosos neurônios e minutos fora. Só existe uma posição possível sobre quem fala besteira, maior ou menor: contra.

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Publicado em 25/04/2013 às 13:52

Storm Thorgerson: quando o rock viajou até o sol

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Ninguém levou o rock mais longe que Storm Thorgerson. Não precisou aprender a tocar guitarra. Seu impacto é em órgão mais poderoso que o tímpano.
Sua obra queima intensa na retina, ontem e sempre. Storm foi um designer, um diretor de arte. Co-fundador da maior assinatura da história das capas do rock, o estúdio Hipgnosis.

O Hipgnosis reprogramou o que o planeta entendia como rock, quando o próprio rock expandia suas fronteiras alucinadamente em todas as direções. Até o final dos 60, música tinha três minutos e refrão. Capa de disco era fotografia da banda. O Hipgnosis, fundado em 1968, fez das capas e encartes portais para outras dimensões. Conectando conceito visual e musical, e mais: recontextualizando a própria música contida no bolachão de plástico.

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Foi uma época em que o rock frequentemente tropeçou em ambições estéticas desproporcionais a suas humildes possibilidades rítmicas e melódicas. Se desconfigurou e reconfigurou até ser não-rock, ou simplesmente chato.

Muito era só música para músicos, ou piração para doidões, e muito foi merecidamente pra lata de lixo da história. Mas as conquistas da era psicodélica-progressiva-art-rock são preciosas e imortais.

Das mais marcantes, a maioria veio embalada pela Hipgnosis. E muitos outros álbuns inesquecíveis, assinados por outros designers, também carregam a influência clara da Hipgnosis. Gnosis: conhecimento profundo. Hip: ousado, moderno, experimental.

Storm, amigo de juventude do guitarrista David Gilmour, colega de Syd Barrett e Roger Waters, foi e é a nossa imagem mental do Pink Floyd. Ele fez direção de arte de todas as capas.

Só por isso já seria tão importante quanto Dave ou Syd ou Roger ou Nick Mason ou Rick Wright... Mas também criou capas de discos para Led Zeppelin, Peter Gabriel, Genesis, Alan Parsons, 10cc, e muitos mais. É o espírito experimental dos 70 em um quadrado de papelão. Viaje pela obra de Storm.

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Depois ele fez outras coisas, e outras capas. E vídeos: Owner of a Lonely Heart, do Yes, e Big Log, do Robert Plant, e outros memoráveis. Você pode ver o que ele andou aprontando recentemente, muita coisa boa, no seu site pessoal.

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Storm morreu. Sua arte morreu bem antes, com o vinil. Foi-se por causa do formato pequeno dos CDs, e das caixinhas a cada ano mais descartáveis.

Foi-se de vez com a vitória da música digital. Mas não é só uma questão de embalagem.

O próprio rock abandonou seu papel na expansão de fronteiras estéticas, existenciais e, porque não, espirituais. Hoje sobrevive de nostalgia e pragmatismo.

O rock feito no século 21 tem os dois pés plantados no chão. Quando o rock foi Dédalo e Ícaro, ninguém fez nossa imaginação voar mais alto que Storm Thorgerson.

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Publicado em 18/04/2013 às 09:23

Novo vídeo de Psy é proibido pela maior TV da Coreia

PSY Gentleman video Novo vídeo de Psy é proibido pela maior TV da Coreia

O novo vídeo de PSY está bombando na internet, como previsto. Já são mais de 142 milhões de visualizações. É mais rápido do que o estouro de Gangnam Style, como previsto. Não vai ser a febre que foi Gangnam Style, como previsto. Um raio cai duas ou mais vezes no mesmo lugar, mas geralmente com poder menor e menor.

O único imprevisto é que o "Gentlemen" não está sendo exibido pelo maior canal de televisão da Coreia. Foi banido pela KBS. Assista o vídeo (de novo?) e tente descobrir o porquê.

PSY - GENTLEMAN por perolasblogs no Videolog.tv.

Descobriu o que há de tão polêmico? Quer arriscar? Será a sacanagem com as moças? Ou talvez o esforço meio constrangedor para tentar repetir o irrepetível impacto de Gangnam Style? Não. A KBS se recusa a exibir o clipe porque concluiu que Psy estimula o vandalismo. Viu essa parte?

Eu não tinha visto. É o momento em que Psy chuta um cone de plástico, esses de trânsito. O cone é propriedade pública. Para a KBS seria uma irresponsabilidade o mais tradicional e poderoso canal de TV aceitar como entretenimento um astro chutando um cone de trânsito. Influenciar negativamente a sociedade. Os chefões da emissora vetam.

Ali pertinho tem outra Coreia, a do Norte. Eles não têm Psy, mas têm armas nucleares, ou pelo menos o ditador tem. Na prática, os norte-coreanos não têm nada, a não ser algemas e viseiras e fome e ignorância. A KBS é tão extremada no seu governismo, caretice, e busca pela correção-política, que quase parece TV da Coreia do Norte, não do Sul. A cobra come o próprio rabo; os opostos se encontram.

Mas a Coreia do Sul é infinitamente mais livre que a do Norte, e mais saudável e inteligente e forte. Seus habitantes têm a melhor e mais barata internet móvel do mundo: carregam supercomputadores nos bolsos. Têm dinheiro, tem educação, não há crise econômica à vista, e têm a mais pujante cultura pop da Ásia.

Não precisam de canais de televisão, ou da KBS, ou de um ditador que lhes diga o que pensar. Se quiserem ver cem vezes por dia o novo vídeo de Psy, podem fazer isso e de graça. E podem fazer muito mais, e fazem. Os sul-coreanos têm problemas, como todos os países, mas têm mais soluções que a maioria. É por isso que as ameaças militares da Coreia do Norte são patéticas e inócuas, e por isso que o futuro da Coréia está no sul, não no norte.  O celular é mais poderoso que a bomba nuclear.

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Publicado em 23/01/2013 às 16:47

Jean-Yves de Neufville

forasta Jean Yves de Neufville

Jean-Yves de Neufville nos deixou. Fomos contemporâneos na Ilustrada, 1989-1990, e ele foi colaborador constante da Bizz quando editei a revista. Era gentil e generoso e detalhista e atrapalhado e apaixonado por música. Alexandre Matias homenageia aqui o profissional. Eu lembro da nossa amizade (leia mais aqui).

Choque e nostalgia - como se 25 anos atrás fosse ontem. Só a arrogância insana dos 23 anos me permitia pretender escrever sobre música, em uma equipe que tinha Carlos Rennó, Carlos Calado e Jean-Yves, e em breve Luís Antonio Giron, fora os editores e subs (Márion Strecker, Mário César Carvalho, Zeca Camargo, Thales de Menezes, Marcos Smirkoff) e colegas que cobriam outras áreas, e mesmo assim manjavam muito mais de música que eu (Teté Martinho, Vitor Paolozzi, Ana Carmem Foschini, Israel do Vale...).

Eu, foca, não sabia nada, atirava pra todo lado e era pau pra toda obra. Jean-Yves era especializado, desesperado por música. Se preparava cuidadosamente para entrevistar os artistas. Ouvia álbuns repetidamente para preparar as resenhas. Aporrinhava editores com questiúnculas para ele da maior relevância, sempre com português preciso e aquele sotaque frrancês, Andrrê, Forrasta etc. Ouvia rock e jazz e MPB e música clássica com idêntica ausência de preconceitos. Eu, fundamentalista dos três minutos, não conseguia entender. Discutíamos música sem fim, traçando x-saladas e rabadas ao molho ferrugem nos botecos dos Campos Elíseos.

Parir uma crítica era trabalho de ourivesaria. Sofria, suava, levava século e meio. Uma vez, fechamento da Ilustrada atrasado, só faltava seu artigo. O secretário de redação veio cobrar aos gritos: desce como tá, vamos fechar já! Corta pelo pé (é como jornalista chama o fim da matéria, o pedaço mais dispensável). Jean-Yves deu o contra: é melhor cortar aqui - e começou a aparar as primeiras linhas do texto, onde, na teoria, deveria estar o mais importante... e a gente ao lado passando mal com a cena.

Uma vez veio pedir, todo educado: você já escreveu este ano sobre os novos discos da Legião Urbana e Titãs, não se incomoda se eu fizer os Paralamas? São as três bandas mais importantes do Brasil. Respondi que sim, lógico, besta com delicadeza do colega experiente, quase dez anos mais velho.

Vendi para ele meu primeiro computador, primeiro dele também, com impressora e uma mesa metálica trambolhenta pra acomodar tudo. Eu tinha dito que era um 386, me confundi, ignorante. Levei na casa dele, instalei, a máquina liga, é um 286. Ele tudo bem, sem problemas, vou usar é para escrever mesmo. E aí abriu uma cerveja, e passei horas explorando sua enciclopédica coleção de discos. Me apresentou sua mulher, Valéria, linda e inteligente. Pensei: Jean é um homem de sorte.

Não via Jean-Yves há anos. Por quê? Porque a vida é assim. Ele se foi ontem, caminhando pelas ruas do meu bairro. Hoje troquei a primeira mensagem com sua filha, que vi da última vez bebê. Que guardes as melhores memórias de teu pai, Naima, e que a melhor música te conforte e encante e inspire...

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Publicado em 11/10/2012 às 06:00

Ouça agora Gangnam Style com tempero amazônico

É o hit-fenômeno do ano. Remixado por um dos caras mais criativos da música brasileira: o DJ Waldo Squash, da Gang do Eletro, revelação do ano no Prêmio Multishow, estrelas do programa A Liga de ontem, sobre tecnobrega, e preferidos aqui da casa. Pra misturar a dancinha do cavalo com o treme, o break dos paraenses!

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