Publicado em 04/07/2014 às 00:05

A PM está sem comando, fora de controle (e agora, sob vigilância)

BrCexsDIIAAALrD.jpg large A PM está sem comando, fora de controle (e agora, sob vigilância)

O Brasil não tem problema maior que a violência. A polícia militar não é parte da solução. É um ente autônomo. Responde a ninguém. Se presta às necessidades da política conforme lhe interessa. Entende que a democracia deve estar submetida à hierarquia. Responde aos desafios da liberdade com os métodos da autoridade.

Quem manda na polícia militar? Na teoria, o governador de cada estado. Na prática, depende. Os comandos das PMs seguem ou solapam líderes eleitos conforme eles permitem que as coisas continuem como são. Quando uma mão lava a outra, tudo certo. Caso contrário a polícia militar toca sua vida e ignora os pitacos dos políticos.

Em São Paulo, PM e PSDB mais que alinhados, são aliados. Esses dias a PM se prestou a três serviços sujos para nosso governo. A PM reprimiu ato de professores, atirou gás lacrimogêneo em torcedores na Vila Madalena, e baixou o porrete em manifestantes na praça Roosevelt. Geraldo Alckmin, soltando a PM pra bater primeiro e perguntar depois, joga para sua plateia, dando de durão com os “baderneiros” e atiçando os instintos mais covardes do eleitorado.

Não se trata de questão partidária. A polícia faz o que quer em estados governados por qualquer partido. O próprio PT, o que fez no governo federal para mudar nossas polícias ou prisões? Nada. José Eduardo Cardozo é nosso ministro da justiça. A coisa mais memorável sobre ele foi sua declaração de que as prisões brasileiras são “medievais”, como se não fossem de sua alçada (escrevi sobre o caso, anos atrás).

A polícia tem suas preferências políticas, claro. Seus candidatos concorrem por partidos mais conservadores. Agora cada canto do Brasil tem sua “bancada da bala”.. Pelo país afora, se comenta de delegacias “captando” recursos para financiar campanhas – difícil de provar, fácil de imaginar. Imagine se a PM vai apoiar um eventual governo de Lindbergh Farias no Rio de Janeiro, Lindbergh que apresentou projeto de lei propondo o fim da polícia militar (a única atitude remotamente corajosa em seu currículo).

É idiota criminalizar o policial que está na rua. É um peão que atua sem treinamento, equipamento, recompensa. Nem expectativa de punição ou recompensa, se errar ou acertar. Portanto não apura, não investiga, não prende.

Se você defende que a polícia tem direito de matar qualquer suspeito, sem investigação nem julgamento, é um canalha e um idiota. Mas mesmo que permitíssemos isso, você continuaria sem argumentos para defender a performance da nossa polícia.

A maioria dos criminosos brasileiros é folgada porque sabe que jamais será punida. Estima-se que o índice de elucidação de crimes no Brasil varie entre 5% e 8%. O Brasil investiu ano passado R$ 61 bilhões em segurança. Para quê? Para ser o país campeão absoluto de assassinatos no planeta, 56.337 mil em um ano (a maioria negros, pobres, entre 15 e 24 anos).

A polícia brasileira mata cinco pessoas por dia (oficialmente). Mesmo que matasse cinquenta, e todos fossem criminosos perigosos, não faria cócegas no nosso problema de segurança. São Paulo, com o maior contingente da PM, teve aumento de 42% em roubos no mês de maio. É uma piada macabra.

Quem mata é o soldado, massa de manobra e bucha de canhão. Faz o que esperam que ele faça, com graus variados de consciência, da dedicação ao esculacho. Também vivem à beira do abismo. Também estão sendo assassinados.

Procurar solução para o crime matando ladrão de galinha é equivalente a procurar solução para a polícia crucificando o soldado. Não é por aí. A pergunta é a de sempre: quem se beneficia? Quem ganha com um Brasil violento, com uma população ignorante guardada por uma polícia ineficaz e truculenta? Como sair desse lodaçal, interromper o ciclo interminável de violência e impunidade?

Ganhamos uma chance de encontrar respostas. É a Ponte.org, um coletivo de jornalistas dedicados ao tema da Segurança Pública. O time reúne alguns dos melhores repórteres da área, todos com extensa passagem pela grande imprensa, que cobre o assunto menos e menos. É um espetacular cala-boca nos pseudoradicais de Facebook, ninjas e companhia, sempre batendo no jornalismo nacional, nunca levantando a bunda da frente do computador.

A Ponte reúne uma turma jovem e talentosa com um time muito experiente, como a amiga Laura Capriglione, com longa passagem pela Folha. Bruno Paes Manso, que mantém seu blog no Estadão. André Caramante, que peitou grupos de extermínio e pagou por isso (em breve estreando como repórter aqui no R7.com). E vários outros profissionais de primeira, atuando em parceria com a respeitada Agência Pública.

hideki meet A PM está sem comando, fora de controle (e agora, sob vigilância)

Hoje mesmo, Tatiana Merlino deu um belo furo, entrevistando o ativista preso no dia 23 de junho, na Praça Roosevelt. Fábio se define como nerd, mas também como “defensor dos direitos humanos e da democracia”. Um cara igualzinho a... você? Estuda jornalismo na ECA, depois de ter entrado na Poli. É funcionário concursado da USP. O secretário de segurança do Estado diz que é black bloc. Ele está na cadeia, em Tremembé, a 147 quilômetros de São Paulo. Leia a entrevista dele. E entre na campanha para que ele seja libertado.

Conheci anteontem William Cardoso, ex-Estadão e Agora.  Ele publicou no site da Ponte uma entrevista impressionante com o deputado Major Olímpio. O título diz tudo: “os jovens policiais estão desesperados.” Esse ano já são 58 PMs mortos em São Paulo, só quatro em serviço. Dia seguinte fez outra que já é obrigatória: “A Guerra Silenciosa na Zona Leste de São Paulo”. Ele afirma:

“Na linha de fogo ou acuada, o fato é que a PM bateu recorde de violência entre janeiro e abril deste ano. Segundo dados publicados pela própria corporação no Diário Oficial, 206 pessoas foram mortas no Estado de São Paulo por policiais militares em serviço no primeiro quadrimestre, maior número dos últimos 11 anos para o período. Em março, foram 63 mortos, o terceiro mês mais violento desde 2004 (atrás somente de maio de 2006, marcado pelos ataques do Primeiro Comando da Capital, e de novembro de 2012, auge da crise que terminou com a queda do então secretário da Segurança Pública, Antonio Ferreira Pinto).”

Bati um papo com William. Educativo e assustador. Eu jamais teria a coragem e desprendimento de ir onde esses jornalistas vão, de enfrentar as barras que enfrentam. Perguntei, “vale a pena? Você acredita que essa situação vai mudar?” A resposta veio confiante: “olha, nem penso em mudança radical. São muitos interesses em que tudo continue como está. Mas nosso trabalho aqui  não é dar tiro de canhão, é na base da mira telescópica”. Pequenas mudanças, pequenas vitórias, novos territórios conquistados.

A Ponte não tem fins lucrativos. Presta este serviço de graça, para quem quiser ler. Leia, por favor. Divulgue. Compartilhe nas redes sociais. Perguntei para Laura, isso é ONG, é o quê? Ela explicou, “não é nada, não somos empresa nem coisa nenhuma. Estamos fazendo isso porque todos os jornais que cobriam segurança pública diminuíram a cobertura e mandaram embora os melhores repórteres. Não querem saber da periferia”.

Os profissionais da Ponte dependem de você e eu repercutirmos seu trabalho, esse ato diário de bravura e entrega. Piegas? Com certeza os colegas me zoariam por usar essas palavras, “ninguém aqui é  herói”. Nem precisa. São bons jornalistas. É mais que suficiente.

Acesse agora: WWW.PONTE.ORG.

Publicado em 01/07/2014 às 17:31

Fábio Massari e Malcolm McLaren: quando dois caras únicos se encontram

CAPA Fábio Massari Fábio Massari e Malcolm McLaren: quando dois caras únicos se encontram

Conheci Mr. Massari, puxa, lá pra 1989? Trilhamos caminhos diferentes, com raros e significativos encontros no meio do caminho. Seja na Bizz, editando um longo entrevistão de Fábio com Frank Zappa. Depois, quando ele foi colunista da revista que ajudei a fundar, a General. Quando publicamos seu primeiro livro, sobre a cena roqueira da Islândia. Em shows aqui e acolá, eventuais cervejas, um outro banquete com outros amigos garageiros.

Camaradagem e simpatias à parte, sempre admirei Massari – não pelo famoso enciclopedismo, a curiosidade obsessiva, ou a saudada despretensão, embora todas sejam características do cara. É porque ele tem esse jeito de fazer as coisas que é  só dele, se lixando para o movimento óbvio e o faturamento certo. Mas sem nariz empinado ou pose de radical: sempre na maior naturalidade, na maior generosidade.

Esse primeiro livro da coleção Mondo Massari conta (em quadrinhos!) seu encontro com outra dessas figuras ímpares: Malcolm McLaren. Veja o vídeo, compre o livro.  O mundo fica mais interessante com gente como Malcolm - e Massari - na área.

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Publicado em 25/06/2014 às 16:21

Aprendendo a ser jornalista na Praça da Sé (com tempo livre, bucho cheio, Paulo Francis e George Orwell)

DSC03909 Aprendendo a ser jornalista na Praça da Sé (com tempo livre, bucho cheio, Paulo Francis e George Orwell)

Sexta de manhã no Poupatempo da Praça da Sé, uma semana atrás. Perdi faz dois meses minha carteira, cartões, grana, foto do filho, RG e carteira de motorista. A bobeada me valeu duas visitas ao centro de São Paulo, ambas - surpresa! - prazerosas.

Na primeira levei Tomás e juntos fizemos as identidades. Vai pra cá, pega uma fila, pega outra, toca piano - tudo fica mais leve e todo mundo fica mais simpático quando tem um moleque de cinco anos com você. Foi bem rápido. E ainda sobrou tempo para um turismo básico pelas redondezas. O moleque foi conhecer a Praça e a Sé. Eu não lembrava de nada, então foi como a primeira vez para mim.

Foi a primeira igreja em que ele entrou na vida. Achou bem interessante. Eu que já entrei em um monte não me impressionei tanto. Me perguntou o que o guerreiro medieval que ilustra uma parede em um mosaico esquisito, com barba de Rei Arthur e espada na mão, tem a ver com São Paulo, a cidade. Eu não soube responder.

Na segunda visita, uma semana atrás, fui sozinho e portanto preparado para uma empacada radical. Levei agenda, revista e livro. Um homem prevenido vale por dois e não se entedia fácil. Foi providencial. A visitinha durou três horas.

Não tenho um A para reclamar dos funcionários do Poupatempo. O povo é rápido e eficiente. O processo é que é surreal. Para que preciso ir até lá para tirar a segunda via da carteira de motorista, considerando que não é preciso assinar nada nem tirar a impressão digital? Deveria ser possível fazer por carta. Até porque foi por Fedex que eu recebi ontem a minha nova. Graças à Valderez, que compartilha com minha mãe nome e gentileza.

Mas sabe que a demora acabou sendo boa?

Porque no tempo que passei lá, estava offline total. Então, consegui ler uma coisa que eu precisava ler, por razões de trabalho, e estava empurrando com a barriga. Foi útil. E porque quando acabou a peregrinação, decidi que estava merecendo um agradinho e acabei garimpando um agradão.

Na saída estava um sol gostoso de inverno, céu azul e brisa estimulante. Fui dar uma banda pela Rua do Carmo. É um prédio mais bonito que o outro - o da Escola Fazendária devia ser tombado, se já não é - e uma loja mais maluca que a outra - uma portinha só vende essências, outra só tem folhinhas e calendários…

A praça na frente da Igreja do Carmo estava cheia de barraquinhas. Tinha roupa, sapato, bibelôs estrambóticos, um peruano desafinando uns boleros, DVD pirata e badulaques evangélicos. Minha favorita se dedica a apontadores feitos de metal, em formas diversas - Torre Eiffel, Ópera de Sidney, veículos variados. Comprei um em formato de avião-radar Awac para dar de presente para o meu filho.

Desesperado de fome e a dois metrôs de distância do meu trabalho, chequei as opções mais rápidas em volta da Sé. Foi a primeira vez que entrei em um Giraffas. Comi um Tri Giraffão, cheese salada, batata frita e Coca Zero, treze reais, 1118 calorias segundo avisa o próprio  Giraffas, num aviso pregado na parede.

Demorou um pouco mais do que fast food normal - “é que é feito tudo na hora”, explicou a moreninha de aparelho. E por isso é mais gostoso, entoa o slogan da rede. É mesmo. Melhor que um Big Mac, que não como faz uns vinte anos e nunca mais comerei.

O Giraffas surpreende pela convivência pacífica entre fast food gringa e slow food brazuca. Porque, você sabe, um almoção brasileiro é demorado pra fazer e demorado pra digerir. As mocinhas vão educadamente enchendo as bandejas, essa tem filé de frango, arroz e feijão; essa hamburguer; essa bife; aquela nuggets.

Me deu idéia para uma rede de fast food diferente, chamada Padaria’s. Que seria como uma típica padaria paulistana. Onde você pode comer comida a quilo no almoço, mas também esfiha, pizza, cheese salada, pão com manteiga etc. Se algum empreendedor milionário quiser investir, mande meus royalties.

PauloFrancisJovem Aprendendo a ser jornalista na Praça da Sé (com tempo livre, bucho cheio, Paulo Francis e George Orwell)

Paulo Francis: retrato do jornalista quando jovem

Empanturrado com meu Tri Giraffão, fui atrás do meu agradinho. Livros, que mais? O sebo virando a esquina era pequerrucho. Encontrei edições originais de dois livros obrigatórios de Paulo Francis, O Afeto que se Encerra e Nu e Cru. O primeiro é de memórias e chave na minha vida. O segundo, uma coletânea de artigos preciosos. Comprei para dar de presente para uma jornalista amiga e jovem. Se fosse milionário, dava os dois para cada calouro de jornalismo do país.

Perguntei pro moço que espanava um livros velhos, tem livro em inglês aqui? Tem, subindo a escada. Cheio de batata frita e com hora para trabalhar, relutei uns segundinhos, mas encarei.

Era só uma estante. Livro sobre Ilhas do Pacífico, livros técnicos, Morris West. Lá embaixo, a surpresa: The Economist Style Guide, letras prateadas sobre a capa preta e dura.

O livro é uma versão expandida do manual que os profissionais da The Economist usavam em 1986. Minha versão é a atualizada, de 1993. Você pode e deve discordar do conservadorismo polido advogado pela revista. Mas não há nada parecido no planeta em termos de análise concisa e coloquial, semana após semana, desde priscas eras - 1843.

Não estrago o prazer de quem decidir comprar, entregando o ouro sobre os verbetes. Só digo que além de utilíssimo para quem queira escrever bem em inglês ou qualquer língua, é uma delícia de ler.

Deve ser porque eles seguem o conselho do autor de 1984, que citam de cara na introdução. Vão me perdoar a tradução tosca:

“As Seis Regras para escrever bem de George Orwell:

1. Nunca use uma metáfora ou qualquer figura de linguagem que você não está  habituado a ver impressa.

2. Nunca use uma palavra longa se a curta resolve.

3. Se for possível cortar uma palavra, corte sempre.

4. Nunca use o passivo se pode usar o ativo.

5. Nunca use uma frase estrangeira, palavra científica ou jargão se você conseguir imaginar um equivalente coloquial.

6. Quebre qualquer uma dessas regras se a alternativa for escrever algo pavoroso.”

O Economist Style Guide emenda a dica de Henry Hazlitt, lenda do jornalismo  americano: “escrever de maneira genuína é escrever como qualquer um fala - qualquer um que tenha perfeito comando das palavras, e que discurse com facilidade, força e perspicácia, abandonando qualquer floreio pedante”.

Alguma disposição de sair às ruas, alguma capacidade de observação, algum respeito pelas lições de quem fez antes e melhor - o que mais você precisa para se intitular jornalista?

(Publiquei essa croniqueta em setembro de 2009 no meu antigo blog. Hoje é aniversário do nascimento de George Orwell. Lembrei que nunca tinha republicada aqui no R7, e que tem gente que não conhece as regras dele para escrever decentemente, e portanto aqui está... e mantenho as outras recomendações: Francis, Economist, e vamo pra rua, que a vida tá lá fora!)

george orwell nsa Aprendendo a ser jornalista na Praça da Sé (com tempo livre, bucho cheio, Paulo Francis e George Orwell)

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Publicado em 25/06/2014 às 00:00

Quando Michael Jackson era nosso príncipe

michael jackson jacket corbis 460 85 Quando Michael Jackson era nosso príncipe

Michael Jackson tinha 24 anos quando gravou "Love Have Never Felt So Good". Era 1983. Demorou três décadas para podermos ouvir essa delícia. É um grande hit, e a única canção que merece ser hit no disco "Xscape". Mas lá  tem uma produção modernosa, e participação do insosso Justin Timberlake, a cópia da cópia da cópia de Michael.

Xscape cobre as piores décadas da carreira de Michael, sua transformação de um artista criativo e contagiante, em um vampiro vazio. Vale ouvir o original. Feliz, solar, com o frescor de um namoro novo. E Michael achou que não era grande coisa...

"Love Have Never Felt So Good" não é obra à altura do gênio de Jackson, certo. Mas nos obriga a imaginar um mundo em que Thriller não fez tanto sucesso assim. Nada que pirasse de vez o garoto com décadas de palco, e uma iniciante carreira solo. Quem sabe ele superasse uma infância insana. Talvez superasse  a contradição entre ser homossexual e testemunha de  jeová, entre buscar a liberdade criar e exigir o sucesso a qualquer preço. Um mundo lindo em que Michael Jackson estaria por aí, coroa, mulato, fazendo linda música. Era um príncipe, e que bom se nunca tivesse se tornado rei. Eu estava por aí em 1983, e lembro bem: Michael never felt so good.

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Publicado em 13/06/2014 às 19:01

Welcome gringos!

Eu detesto esportes em geral. Mas tenho uma grande dívida com o futebol brasileiro. E agora é a hora de pagar. Em cerveja!

Publicado em 10/06/2014 às 20:25

Rodolfo: abra mão das suas músicas, ou assuma seu passado com os Raimundos. As duas coisas ao mesmo tempo não dá

Rodolfo Rodolfo: abra mão das suas músicas, ou assuma seu passado com os Raimundos. As duas coisas ao mesmo tempo não dá

Cada um vive como bem entender e acredita no que preferir. Há que conviver com quem pensa outra coisa, sente, vive outra coisa. Há que procurar proveito nas diferenças. Porque as diferenças existem e existirão. Agora, há que ter coerência.

Rodolfo Abrantes foi meu letrista favorito. Nos anos em que esteve à frente dos Raimundos, não tinha para ninguém. Depois que se converteu,  suas letras não me dizem nada. Nenhum problema com música de louvação. Se você dispensa de cara todo o cancioneiro pop religioso, está jogando fora uma parte fundamental da música negra americana, pra começar. Sem falar de algumas das minhas canções favoritas de Johnny Cash. Rodolfo, não tem jeito: ouço ele agora, comparo com o humor e energia dos Raimundos, e me dá tristeza.

Agora ele dá entrevista à revista Trip dizendo que está "100% arrependido" das letras. Mas continua embolsando os royalties gerados por elas. Cada vez que toca uma música dos Raimundos no rádio, ou que os Raimundos tocam uma canção escrita por Rodolfo, ele recebe uma graninha.

Ele explica: "Arrependimento quer dizer: eu reconheço que eu estava errado e não faço mais isso. Jesus falava para as pessoas: vá e não peque mais. O que você fazia, não faça mais agora. Se você comparar minha vida hoje com a vida que eu tinha você vai saber do que eu me arrependi." A íntegra da entrevista está aqui.

Isso  não explica nada. Como era de se esperar, seus ex-companheiros reagiram. Digão pregou fogo no Facebook:

— Que pena que a base de sua vida seja a hipocrisia... 100% arrependido" mas usufruindo 100% da sua parte dos direitos autorais e que não é uma "merreca" que ele gosta de falar para os desinformados...

Digão está certo e Rodolfo está agindo errado. Deveria abrir mão dessa grana, em benefício do restante da banda. Ou uma outra hipótese: doar a receita integral para alguma instituição. Desgraçado precisando de ajuda nesse país é o que não falta.

Se Rodolfo realmente renega as letras que escreveu nos Raimundos, deveria também renegar a receita que elas geram. Me recuso a admitir que Rodolfo seja um sepulcro caiado. Mas a maneira como está agindo é hipócrita. Indigna da retidão religiosa que professa hoje. E, o que me importa mais, indigna do seu passado com uma das bandas mais legais - e honestas - que esse país já viu.

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Publicado em 10/06/2014 às 19:04

Xula: a revista mais chucra e engraçada do Brasil

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Não tenho adjetivos espaventosos suficiente para elogiar Xula. É uma revista em quadrinhos editada por Luciana Foraciepe e assinada por quatro jovens quadrinistas brasileiros: Ricardo Coimbra, Calote, Bruno di Chico e Bruno Maron.  Literalmente chorei de rir. É de passar mal.

A revista foi feita de maneira totalmente independente, e só está à venda pela internet. Assista meu vídeo, e depois entre nesse link, passe seu cartão e compre duas: uma pra você e outra para seu amigo mais espírito de porco. São 104 páginas, e não consigo imaginar uso melhor para trinta reais.

Faça isso já. Que a conta tem que fechar, para Luciana fazer a número 2, e depois a 3, e se der pra ter Xula mensalmente em todas as bancas do Brasil, é um salto na nossa qualidade de vida, de crítica, de riso desbragado.

Compre Xula aqui:

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Publicado em 06/06/2014 às 19:38

A Misandria de Malévola

maleficent by alina carrie d7cvb7n A Misandria de Malévola

Todo homem é um bruto traiçoeiro ou um idiota banana. Toda mulher é inocente, e se age mal, é por que um homem a levou a isso. Essa é a mensagem de Malévola. A nova versão da Bela Adormecida parece politicamente correta. É o contrário. O termo técnico é misandria.

O conceito está no dicionário há mais de meio século, mas ainda não faz parte do vocabulário de ninguém. Trabalho com palavras e também não conhecia. Trata-se do ódio ou desprezo ao sexo masculino. Como misoginia é o ódio contra o sexo feminino.

Se não conhecia o termo, fiz minha parte para popularizar o conceito. Publicamos na editora Conrad o livro da feminista radical Valerie Solanas, SCUM Manifesto. Um trecho: “o macho é completamente egocêntrico, aprisionado dentro de si mesmo, incapaz de empatia ou de se identificar com outros, incapaz de amor, amizade, afeto ou ternura. É uma unidade completamente isolada, incapaz de conexão com o outro. Suas atitudes são inteiramente viscerais, não cerebrais. Sua inteligência é só uma ferramenta a serviço de seus impulsos e necessidades. Ele é incapaz de paixão ou interação mentais. Não se relaciona com  nada que não seja suas sensações físicas. É uma massa amorfa, semi-morta, incapaz de dar ou receber prazer ou felicidade.”

O livro é boa provocação. Quase meio século após sua publicação, tem gente tratando Solanas como profeta, e o manifesto como se fosse as tábuas da lei. Quem sabe inspira Linda Woolverton. A roteirista de Malévola é móveis e utensílios na Disney. Assinou O Rei Leão, A Bela e a Fera, a versão recente de Alice no País das Maravilhas. Woolverton também adaptou para o teatro o romance O Vampiro Lestat, de Anne Rice. Malévola não faria feio ao lado dos dândis inumanos de Rice. Que, aliás, escreveu sob pseudônimo uma trilogia reimaginando A Bela Adormecida como uma epopéia sadomasoquista.

O filme nos apresenta a uma fada benfazeja. Tem poderes de fada, tem asas que a levam pelos céus. É uma menininha órfã, que vive em uma terra encantada com outros seres mágicos, em perfeita harmonia. O reino ao lado é habitado por humanos. Homens violentos, gananciosos. Seu rei cobiça conquistar o reino das fadas e tomar suas riquezas.

Um menino humano, Stefan, entra no reino da fadinha, Malévola. Ficam amigos, mas logo têm que se separar. Crescem sem se ver. O rei continua tentando invadir o reino mágico, mas nossa fadinha virou uma fadona poderosa e não deixa. Enfim o rei, à beira da morte, oferece: quem matar sua arqui-inimiga será seu herdeiro.

Stefan procura Malévola. Reencontro romântico, passam a noite juntos. Ele não tem coragem de matar a fada. Corta fora suas asas. Simbolicamente, é um estupro. Traída, Malévola busca vingança. Transforma seu país feliz em um império sombrio.  Anos depois, o que você já imagina: Malévola coloca um feitiço na filha recém-nascida do rei. Antes de Aurora completar 16 anos, vai picar seu dedo em uma agulha. Cairá num sono profundo, do qual só um beijo de verdadeiro amor poderá libertá-la. Malévola não acredita em amor verdadeiro. Hora de entrar em ação o príncipe, certo? Mas este príncipe é um efebo bobalhão. E agora?

Se você ainda não assistiu e pretende, pare por aqui. Se já viu, te pergunto: só eu que fiquei torcendo por um improvável beijo lésbico entre Malévola e Aurora? Não fosse uma superprodução Disney pra toda a família, seria a conclusão lógica de sua obsessão com a menina, que de maternal não tem nada.

518232980 Maleficent Clip Princess Aurora Mistakenly Thinks The Mistress A Misandria de Malévola

Angelina Jolie está ótima; certo que o papel é moleza. Também produtora do filme, capricha nos olhares concupiscentes. Está lá para quem quer ver: uma rainha dominadora, de couro negro, “adotando” uma princesinha púbere, para protegê-la do malvado mundo dos homens. E quando é Malévola que está em perigo, Aurora resgata suas asas, fazendo dela novamente uma mulher completa, “intocada” pelo homem, e portanto plena e poderosa. E agora, tá na hora do príncipe? Ele não serve para nada. Não é só que as mulheres podem se virar sem homens; homens são supérfluos, quando não perigosos.

Impossível imaginar um filme em 2014 em que todas as mulheres fossem seres inferiores, brutos e traiçoeiros; ou gays; ou negros. Preconceito e opressão, gritariam os injustiçados. Sou homem e não reclamo não. Podem bater que a gente aguenta. Claro que é simplismo e ignorância determinar que todos os homens são assim, todas as mulheres são assado. Cada pessoa é uma pessoa. Mas o mundo, afinal, ainda é um lugar onde os homens tem muito mais privilégios que as mulheres.

E cada um conte a história que quiser. Claro que dizer “é só uma história” é só estratagema de quem as conta. O significado está em todo lugar. As histórias nos encantam e moldam. Contos de fadas têm poder. É para isso que os inventamos. Eu via o filme e matutava: que mensagem, que visão dos homens, vão levar para casa e para a vida as menininhas ao meu lado comendo pipoca?

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Publicado em 05/06/2014 às 17:02

A quem beneficia o caos na Copa?

6ykxibl2n6 5wgwm8tkl9 file1 A quem beneficia o caos na Copa?

Fizemos hoje aqui no R7 uma enquete perguntando: você acha que o governo deveria ter autorizado a catraca livre para evitar a greve? Neste momento, tarde de quinta-feira, 85% das pessoas responderam sim.

Mas Geraldo Alckmin decretou que não. Então a cidade de São Paulo está toda zoada, a uma semana do primeiro jogo da Copa. A própria estação do Itaquerão foi depredada por um grupo de usuários. Repercussão nacional, internacional. Encrenca sem data para acabar.

A proposta de Alckmin é 8,2% de reajuste, relativo aos últimos doze meses. Os metroviários querem 16,5 %, mas já sinalizaram que fecham acordo por 10%. O governador bateu o pé. Diz que o motivo é “esfarrapado”. Que o sindicato quer “o caos e a bagunça”. Entrou com pedido para que o Tribunal Regional de Trabalho considere a greve “abusiva”.

Seu motivo para endurecer é bem claro. É ano eleitoral e Alckmin busca a reeleição, e eleição de Aécio Neves. E os motivos dos metroviários para a greve? A data do dissídio da categoria é primeiro de maio. O piso dos metroviários é R$ 1.325, 55. São 9.475 pessoas, das quais dois terços diretamente envolvidos nas operações. É um valor desproporcional à importância do metrô para os paulistanos, para o funcionamento da cidade e sua economia.

Mas o que importa é criar a convicção de que o Brasil não está preparado para a Copa. Que vai dar tudo errado. E quando a Copa começar de fato, quanto mais problemas, menos votos no PT. Esse é o cálculo. Política é a arte de conquistar e manter o poder . Por qualquer meio necessário, e de preferência pelos meios menos arriscados e mais lucrativos.

Lula inventou a Copa no Brasil. Objetivos políticos, como cada respiração de todo político. Circo pro povão, marketing internacional, bons negócios para as construtoras. Brasil ia de vento em popa, Cristo Redentor decolando na capa da Economist. Levamos, e as Olimpíadas do Rio de 2016, de lambuja.

Bom negócio? Péssimo, claro. Dinheirama jogada fora nos estádios, e do que foi prometido de obras de interesse público, quase nada foi feito. Onze dos aeroportos ainda tem obras inacabadas. É inacreditável, e totalmente previsível. André Barcinski listou as principais lorotas governamentais sobre a Copa. A mais cara de pau, a gente já sabia: “tudo será bancado pela iniciativa privada”. De, adivinha, Lula, em 2007.

Copa combina duas coisas que desprezo: esporte e nacionalismo. A Copa do Mundo é o momento maior da patriotada publicitária, todos-juntos-vamos, somos um só, como canta e não entoa aquela gente chata no tema do campeonato. Mas resistir é fútil e sempre me rendo. Vou assistir os principais jogos, como de costume, e parece divertido que a cidade vai estar cheia de gringos . A turistada está convidada para tomar umas nos botecos perto de casa. Já vi jogo do Brasil em vários cantos do mundo. Última vez na Austrália, copa de 2002, num pub em Sidney, contra a Inglaterra. Os australianos torciam para o Brasil, tratavam os ingleses de “limey bastards” pra baixo. Éramos os únicos brasileiros no bar, viramos “mates” instantâneos. Me sinto na obrigação de retribuir a hospitalidade.

É esquisito esse movimento “já que a Copa está aí, vamos ignorar tudo de errado que aconteceu e celebrar”, que inclusive inclui antigos críticos da Copa, recém-aderidos às hostes governistas. Também é besta esse papo de  “não vai ter Copa”. É natural que quem quer protestar, ou buscar seus interesses, aproveite os holofotes da Copa. A vida não tem dois times, um ganha e outro perde. Isso é no futebol. E nas eleições.

Se a Copa rolar suave, quem tem mais a ganhar é quem inventou essa história. Quem bancou, quem preparou o país para o torneio: Lula, Dilma, o PT, a base aliada. Se as cidades pararem, se os problemas empilharem, se assassinarem um turista, enfim, se der merda, quem fatura é a oposição.

O discurso já está pronto. Já até saiu da boca de Ronaldo, apoiador de Aécio: o governo não preparou o país, é uma vergonha de tanta incompetência, a Fifa nunca mais fará nada aqui. Num mundo ideal para os tucanos, tudo de ruim acontecerá nas próximas semanas. Se os protestos pegarem fogo, é boa oportunidade para acusar Dilma de leniente com os movimentos sociais, e os prefeitos aliados, Haddad e Paes, de moles com os black blocs.

Se Brasil forr desqualificado logo no começo, melhor ainda para a oposição. A única chance que eles têm de tirar a vitória de Dilma é com um grande fato novo, que renda imagens impactantes, e seja bom combustível para a campanha eleitoral na tevê.

As melhores profecias são as autorrealizáveis. Os metroviários paulistanos propuseram liberar as catracas. Alckmin endureceu. Posa de durão e garante que a greve aconteça. A população paga o pato. As imagens do povão quebrando a estação Corinthians-Itaquera rodam o mundo. Manchete deste minuto: ‘subway strike cause chaos a week from World Cup Kick-Off.”

É uma aposta eleitoral no “quanto pior, melhor.” A bola ainda não começou a rolar. Mas o jogo pesado já começou.

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Publicado em 03/06/2014 às 18:05

O que falta a Fernanda Torres, oito mil assassinatos depois de DG: não é Buda

Lembra de DG? Não? Foi antes do menino morto pela madrasta, da moça linchada porque disseram que ela fazia magia negra, da manicure enterrada viva. Antes da chacina nossa de cada dia, ontem, hoje, sempre.

Foi há uns oito mil assassinatos atrás que uma bala perfurou as costas de Douglas Rafael da Silva Pereira, DG, no dia 22 de abril. O Brasil teve em 2013 passado uns 60 mil assassinatos, entre os “oficiais” e os que nem foram registrados. Está mantendo a média em 2014. Um décimo dos assassinatos do planeta acontecem no Brasil.

É duro lembrar de tanto morto. Ou ligar para mais um. Mas DG não era só mais um. Porque era dançarino em programa de TV. Sua morte rendeu protesto nas ruas do Rio. E o programa Esquenta, onde dançava, teve uma edição dedicada a ele, com presença e depoimento de globais. Carolina Dieckmann, Mariana Ximenes, Faustão, Luciano Huck, Preta Gil, por aí vai. E Fernanda Torres.

Agora DG volta ao noticiário. A perícia concluiu que a cena do crime não estava intacta. Alguém mexeu para dificultar as investigações. É mais um indício que a própria polícia está envolvida na morte de DG. Parece que uma moto de DG tinha sido roubada, e depois encontrada nas mãos da própria polícia de uma dessas Unidades Pacificadoras.

A mãe dele, técnica em enfermagem, viu o corpo e concluiu que seu Douglas foi torturado. Tinha escoriações no rosto, joelhos, cotovelos, punhos e tórax, segundo o próprio laudo do IML. Pode haver algo mais triste para uma mãe que constatar a tortura de seu filho?
Mas o que falta à polícia brasileira é… Buda.

mae douglas dancarino O que falta a Fernanda Torres, oito mil assassinatos depois de DG: não é Buda                                                                              Maria de Fátima mostra foto do filho morto, com a filha e a ex-esposa

Sério: alguém escreveu isso. Foi Fernanda Torres, quando usou o bailarino como tema para um artigo em sua coluna na Folha.

Falta ao policial brasileiro treinamento, equipamento e salário compatível com o risco. Falta educação, respeito ao próximo, limites. Se fizer seu trabalho direito, e sobreviver, se aposenta pobre. Se aprontar, não terá julgamento justo ou punição igual a de um civil qualquer. Falta, enfim, tudo.

Mas Fernanda Torres termina seu artigo dizendo que o que falta à polícia é "Buda". Foi demais para mim. A frase me inspirou a vomitar um dos textos mais brutais que já escrevi, atacando Fernanda.

Mas concluí que não tinha sentido bater em Fernanda "na física". Está completamente abaixo do meu radar. É a atriz de comédia de TV que  não vejo e colunista que não leio. Li a primeira página de seu livro de pé, na livraria, e já foi demais.

O bom senso me fez segurar para publicar no dia seguinte. Vantagens dos cabelos brancos. A raiva passou, ou a maior parte. Raridade. Publico aqui no blog tudo que escrevo, de bate-pronto. Isso foi há semanas. A nova evidência sobre o assassinato de DG me força a voltar ao tema.

O artigo de Fernanda começa elogiando a democracia social carioca. "A natureza do Rio é democrática, e a praia, - limite forçoso das urges -, o lugar onde as diferenças se anulam." Exemplifica citando o convívio amigável entre a amiga atriz, Andréa Beltrão, e Maria de Fátima, moradora do morro do Cantagalo. As duas são colegas de natação no Posto 6. Andréa é colega de Fernanda no seriado Tapas e Beijos. Maria de Fátima é a mãe de DG.

Fernanda está lendo o mangá "Buda", de Ozamu Tezuka, para seu filho pequeno. O livro explica bem o sistema de castas da sociedade indiana. "Buda vem questionar a ordem suprema, ao ensinar que todos os seres são semelhantes diante da morte e do sofrimento." Fernanda diz que a coragem e a capacidade de articulação de Maria de Fátima "rompem o sistema de castas que impera no Brasil".

Apesar disso tudo, Maria de Fátima está errada, nos educa Fernanda. A mãe de DG declarou que as UPPs são uma farsa, e que a população tem mais medo da polícia que dos bandidos. Fernanda retruca: as UPPs tem que ser defendidas! Porque são "o único plano concreto de reintegração de áreas esquecidas pelo poder público surgido desde que eu me conheço por gente… a estratégia de ocupação recém-implantada deve ser levada adiante."

A atriz defende a ocupação das favelas pela PM, enquanto diz que "a percepção de que um preto pobre é inferior a um branco rico nasceu com a escravidão e contaminou todo o tecido social. Um regimento armado deste ideal deve ser combatido."

Ou seja, o Rio é democrático mas dividido em castas. Maria de Fátima está certa de atacar as UPPs, mas elas são fundamentais. A PM deve ser combatida, mas a ocupação da favela pela PM deve ser defendida.

Difícil de entender tanta contradição. Quem sabe o Buda ilumine nossa compreensão de Fernanda Torres?

Conheço bem o mangá de Tezuka, gênio com G maiúsculo. Meu nome está no expediente. Um primo, amigo de um monge budista, nos recomendou uma década atrás. Publicamos a coleção completa pela Conrad, 14 volumes. Se Fernanda leu até o final, conhece o final melancólico que Tezuka impõe a Buda - derrotado, traído, sua tribo exterminada. O pai do mangá cantou a bola. A Índia continua sendo o país mais injusto do mundo, 2400 anos após Sidarta atingir o Nirvana.

Não que falte Buda à Índia . Deve ser a única coisa que não falta por lá, tirando gente. Um terço dos pobres do mundo vivem na Índia; dois quintos da população vivem abaixo da linha de pobreza. Os que vivem pior são os de castas mais baixas. Sim, o sistema de castas segue firme e forte, milênios após Sidarta atingir o Nirvana. Fernanda deve saber.

Nos últimos tempos, ouvimos falar muito da Índia por causa de casos de violência contra a mulher e estupros coletivos (notícia de hoje: um menino foi estuprado por oito homens em Nova Delhi).

O governo indiano promete combater os estupros construindo banheiros. No país, 600 milhões de pessoas defecam ao ar livre. É a melhor oportunidade para os muitos estupros - quando as mulheres vão ao matinho fazer suas necessidades. Estupro lá só é crime quando da sua casta pra cima. As dalits, intocáveis, podem ser abusadas, e são.

buddha2 O que falta a Fernanda Torres, oito mil assassinatos depois de DG: não é Buda
A Índia está muitíssimo longe de ser uma sociedade justa. O primeiro passo para mudar a Índia é reconhecer isso. Parar de idealizar seu povo. Parar de fetichizar a espiritualidade da Índia. Parar de aplaudir a resistência dos indianos miseráveis, de celebrar o sorriso banguela dos indianos analfabetos. Reconhecer quem se beneficia da manutenção da Índia neste estado. E agir de acordo.

No Brasil, a receita é a mesma. O que falta a Fernanda Torres é a coragem moral para encarar isso. Essa turminha quer ser elite e povão ao mesmo tempo. Ter segurança privada no condomínio e frequentar o pagodinho da "comunidade". Amazônica intocada e iPhone 5. Conexão Cantagalo-New York. Cybercapitalismo bancado pelo tesouro nacional.

É uma no cravo e outra na ferradura. Total solidariedade com os que sofrem, total subserviência aos que infligem o sofrimento. É a melhor maneira de manter as coisas exatamente como estão, mantendo privilégios e pose de protesto. É a falta de caráter habitual da elite brasileira, embalada em discurso de modernidade e multiculturalismo, lição que aprenderam bem com os tropicalistas.

É um primor de desconversa o discurso lacrimoso de Regina Casé sobre DG, no Esquenta. Consegue protestar contra a violência, sem protestar contra ninguém. “Temos que parar tudo e tomar consciência do tamanho da barbárie… a gente conseguiu parar e tomar consciência para que alguma coisa mude! Para que tragédias como essa não continuem acontecendo com milhares de jovens das periferias”.

Nem um pio contra a PM. As UPPs. O governador. O prefeito. O tráfico. As milícias. Nada contra ninguém. Nada sobre o eterno mal uso do dinheiro público, que vem de impostos que todos pagamos, os pobres muito mais que os ricos. Que sempre tem outras prioridades que não os meninos que crescerão para serem DGs, para serem PMs, para serem assassinados. Os números gritam: 93% dos assassinados no Brasil são homens; 74%, pretos e pardos; mais da metade, jovens. Mas vamos garantir o dinheiro da Lei Rouanet e da Petrobras pro novo projetinho dos famosos, a peça cabeça, o show do pagodeiro, o blog da Bethânia.

O que nos falta não é Buda. Nem à polícia, nem ao resto do Brasil. O que falta é peito para brigar. Postura de enfrentamento que deveria começar por quem "faz cultura", sem rapapés para os poderosos, e sem masturbação da miséria. Mas tomar posição pode custar amigos, patrocínios, padrinhos, boiadas, bocadas. Melhor deixar como está, né?

A morte de DG, segundo Regina e Fernanda, é um crime sem culpados. Choram revoltadas: neste Brasil, somos todos vítimas! Não somos não. Uns brasileiros cometem os crimes. Alguns reagem. E outros são cúmplices.

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Publicado em 28/05/2014 às 14:29

Roberto Carlos, o Rei da Mentira: pequena biografia de um ditador pequeno

foto 12 Roberto Carlos, o Rei da Mentira: pequena biografia de um ditador pequeno

Cumprimento Paola Correa pelo artigo com Paulo César de Araújo. A colega de R7 fez a entrevista mais completa com o biógrafo de Roberto Carlos. Detalha o que o cantor aprontou em 2008 para tirar de circulação a biografia que Paulo escreveu, Roberto Carlos Em Detalhes. E explica como Roberto agora pode tirar das livrarias seu novo livro, O Réu e o Rei, que conta os bastidores da elaboração de Em Detalhes, e o processo que Araújo enfrentou.

É mais nojento do que a gente sabia.  Paulo César revela como os advogados de Roberto Carlos adulteraram o conteúdo de passagens do livro no processo, para que o juiz aceitasse o argumento de que a obra feria a “honra e respeitabilidade” do cantor. Revela que o juiz foi totalmente parcial, sempre favorável a Roberto, e ameaçou fechar a editora. Que a editora decidiu retirar o livro de circulação. E nessa Araújo ficou sem advogado. Leia a entrevista. Mas antes prepare o estômago.

A primeira parte, sobre Roberto Carlos Em Detalhes, aqui:

A segunda parte, sobre o novo livro, aqui:

Comento com Paola que repercutiu. Vi a entrevista citada em vários lugares na internet. E provoco: você ainda foi boazinha. Paola questiona, o que você teria feito diferente? Digo que iria com os dois pés no peito de Roberto. Mas isso sou eu. E talvez um blog fosse o lugar mais apropriado para dar o cacete que ele merece. Protestos dos colegas de R7: ah, mas ele é o Rei! Ele é demais! Adoro Roberto Carlos!

Pois eu detesto Roberto Carlos. É o Rei da Mentira. Um censorzinho patético. Só aceita uma verdade, a sua, e usa sua fortuna e fama para calar quem lhe apetece. Nem precisa ser uma crítica a Roberto. É o caso de Paulo César, fã confesso do cantor, que simplesmente se propôs a contar sua história, nada mais.

A leniência dos jovens colegas com os arroubos autoritários de Roberto me força a mão. Porque é um momento importante na discussão sobre a liberdade de expressão no Brasil. O Réu e o Rei chega em ótima hora. A Câmara aprovou há duas semanas um projeto de lei que libera a publicação de biografias não autorizadas. Derruba a necessidade de licença prévia para obras sobre figuras públicas, seja um artista ou um político. Mas o texto ainda precisa ser aprovado pelo Senado, um risco.

Risco maior: o Supremo Tribunal Federal é que decidirá se é constitucional a publicação de uma obra sem a autorização dos biografados. Os juízes vão bater o martelo: preservar a intimidade de uma pessoa pública pode é mais importante que a liberdade de expressão e de informação? A única resposta aceitável é um grande “NÃO”. Mas considerando o histórico de bobagens que o Supremo decidiu, melhor fazer tudo para botar esse tema nos pratos mais limpos que pudermos.

A biografia de Roberto Carlos escrita por Paulo César de Araújo precisa ser liberada. E outras devem ser escritas. A minha resumo aqui: Roberto Carlos é um inimigo da verdade. Mentira por omissão também é mentira. Nunca abriu o jogo sobre o acidente que tirou sua perna. É o deficiente físico mais famoso do Brasil. Até hoje esconde o que não deveria ser vergonha pra ninguém. Está no seu direito, mas não cumpre seu dever. Poderia ter feito muito pela causa dos deficientes. Calou.

Desde que ficou famoso, esconde tudo que pode sua vida pessoal, seus casos, seu dinheiro. Como a biografia de Paulo César revelaria, se você pudesse lê-la, o que Roberto impede na marra. Enrola até sobre o que come, se o dinheiro for bom. Trocou décadas de pseudo vegetarianismo por um bife sangrento - que não colocou na boca.

A veia autoritária de Roberto Carlos é antiga. Ele estourou no início da ditadura militar, que jamais questionou. Quando a situação política fechou de vez, escondeu-se em romantismo açucarado e hinos carolas. Roberto Carlos não enfrenta, não critica, não contesta, e não entende porque alguém faria isso. Um brasileiro igualzinho a muitos. Talvez igual à maioria de nós. E aí reside nosso problema. Quinhentos anos de quase ininterrupta escravidão deram nisso. O brasileiro não sabe o que é liberdade, muito menos como lidar com ela, e menos ainda porque é importante defendê-la.

E isso inclui nossos artistas. Ninguém teria mais obrigação de defender a liberdade. Alguns dos mais famosos fazem o exato contrário, e Roberto Carlos de maneira acintosa. Se fosse simplesmente um banana (e é), eu não tinha nojo dele. Só que o artista mais amado do Brasil faz questão de sempre apoiar a censura, o silêncio e a mentira, atitude ditatorial que apequena sua obra.

Em 1986, o então presidente José Sarney proibiu a exibição do filme Je Vous Salue, Marie. O filme de Jean-Luc Godard era uma parábola sobre Maria, mãe de Jesus (bem chato, por sinal). Sarney vetar o filme combina perfeitamente com seu currículo de puxa-saco da ditadura. Pois Roberto Carlos apoiou a censura. Mandou até um telegrama repulsivo para Sarney: “Cumprimento Vossa Excelência por impedir a exibição do filme Je Vous Saue Marie, que não é obra de arte ou expressão cultural que mereça a liberdade de atingir a tradição religiosa de nosso povo e o sentimento cristão da humanidade. Deus abençoe vossa Excelência. Roberto Carlos Braga”.

Era obsessão compulsiva? Não, ele continua se arrogando o direito de decidir que obras de arte merecem existir. Em 2013, era a face mais visível entre os artistas que criaram o Procure Saber, entidade que buscava proibir as biografias não-autorizadas. Depois rompeu com o Procure Saber, em uma entrevista ao Fantástico. Se declarou mais ou menos, vamos ver, dependendo do caso, a analisar, da maneira mais ambígua possível, a favor da liberdade para as biografias.

Caetano, pusilânime, criticou Roberto, e depois esmolou desculpas: “mesmo que ele nunca mais queira me ver, continuarei amando quem fez Fera Ferida e Esse Cara Sou Eu”.  Isso, pouco depois de Roberto entrar com uma ação contra a publicação de um livro sobre a moda na Jovem Guarda, tese de mestrado (!) de Maíra Zimmermann. E agora ele bota os advogados atrás de Araújo de novo, por causa de O Réu e o Rei. É de vomitar.

Mas Roberto Carlos não é o cantor mais amado do Brasil? É. Não compôs e cantou grandes canções? Claro. E você não gosta de Roberto Carlos? Não. Adoro muitas de suas músicas, trilha sonora da minha infância. Vomito Roberto Carlos, o ser humano. Popularidade e talento não são desculpa para ele se portar como um pequeno ditador, ditando o que podemos ler ou não. A obra é a obra, seu criador é seu criador.

É essa clareza que precisamos ter. Nós, brasileiros que temos carinho pelas canções de Roberto Carlos. E principalmente nós, os jornalistas. Nossa missão é enxergar suas canções pelo que são, sem permitir que nossa história com elas turve nosso olhar crítico. E, jamais, jamais permitir que nosso afeto pela obra disfarce a verdade sobre o ser humano, sobre Roberto Carlos, o rei da mentira.

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Publicado em 22/05/2014 às 16:06

O X da Questão: os X-Men e a revolução do futuro

x men days of future past wide O X da Questão: os X Men e a revolução do futuro

X-Men é uma metáfora sobre o preconceito. Os mutantes representam toda minoria incompreendida, e por isso temida e oprimida. Charles Xavier é pela mudança pacífica, negociada. Um Martin Luther King, defendendo a negociação entre perseguidos e perseguidores. Magneto é Malcolm X, revolucionário. Defende os seus por qualquer meio necessário.

É a interpretação mais famosa das aventuras dos mutantes. É simplista. Múltiplos autores criam histórias dos heróis desde 1963. Emprestaram sensibilidades diversas, em períodos históricos completamente diversos, aos personagens criados por Stan Lee e Jack Kirby. Criaram outros X-Men, novos e diferentes. Chris Claremont, um inglês hippie, e John Byrne, um caretão canadense, criaram as histórias mais importantes. Inspiraram os filmes, e também este novo.

Foi sob Claremont e Byrne que os X-Men se tornaram o gibi mais popular do planeta, e Wolverine, Tempestade, Cíclope, Noturno, Vampira e companhia viraram marcas registradas. Jean Grey é a Gwen Stacy da minha geração, a namorada que nosso herói não podia perder, a perda que jamais iria sobrepujar.

Eu, aos 14, tinha uma quedinha por Kitty Pryde, 13. Fiquei besta aos 15 ao abrir Uncanny X-Men número 141 e conhecer Kate, sua versão adulta e sofrida, marcada pela perseguição e a perda. Era a primeira página de Days of Future Past, a saga que mostrou que a luta dos X-Men teria final infeliz. Um futuro distópico, inumano. Com humanos oprimidos e mutantes lado a lado em campos de concentração, marcados e abatidos como gado.

Neste futuro o arqui-inimigo Magneto se faz aliado. Claremont, liberal, fez de Erik Lensherr um sobrevivente do holocausto nazista. Um homem com uma causa, e radical de estofo, não um vilão genérico. Demarcou os lados da batalha entre mutantes reformistas e revolucionários. Mas Dias de Um Futuro Esquecido é sobre outro embate ideológico.

days of future past O X da Questão: os X Men e a revolução do futuro

Reforma ou revolução valia discussão nos anos 70. Soa obsoleta em 2014, salvo para as fronteiras do capitalismo. Nem tanto, como gritam as periferias do mundo e das nossas cidades. Mas o século 21 impõe novos enfrentamentos. Vivemos no futuro de Lee e Claremont, dos X-Men, no meu próprio futuro. É um tempo de maravilhas. A marca principal de nossa época é a discrepância crescente entre o avanço e o atraso.

Dá vertigem a velocidade das mudanças nos costumes, na conexão, na tecnologia. São, para todos efeitos, revolução, como admitiu a contragosto o marxista Eric Hobsbawn. Por isso choca mais o contraste com um mundo ainda sem água e luz, sem direitos mínimos ou representação, iletrado, ilógico.

A Terra é um paraíso e um inferno. Transforma-se e resiste a mínimas tentativas de transformação. Até nas nossas sociedades mais avançadas confundimos liberdade de ter e de ser. E na era da comunicação instantânea, continuamos a eleger e delegar poder a representantes a cada quatro anos, como no século 18.

A distância não para de aumentar. Vivemos, como nunca na história, uma batalha entre o futuro e o passado. É o mito fundador dos mutantes, em 1963, recuperado e resumido por Grant Morrison quando escreveu o gibi no século 21: "os X-Men são a juventude enfrentando os adultos".

Tá na cara. O quartel general dos X-Men é uma escola. O time original era puro drama de colegiais: um playboy, um crânio, um molecão, um CDF inseguro, e a menina maravilhosa pela qual todos estão apaixonados. Anjo, Fera, Homem de Gelo, Cíclope e Jean Grey foram reunidos por um veterano da segunda guerra mundial, e portanto com mais que o dobro da idade deles, Charles Xavier. A missão deles é aperfeiçoar os poderes recém-recebidos e usá-los para combater mutantes criminosos, proteger a humanidade, e construir um futuro em que mutantes e humanos convivam em paz.

Os poderes mutantes só afloram na adolescência. Entendeu? Os X-Men são tesão. Jovens, atirados, de todos os países, cores, origens. São sexo à flor da pele, hormônios jorrando, músculos e barba e peitos crescendo, instinto tribal e individuação, confusão e certeza nos volumes máximos. Missão e urgência de mudar o mundo e mudar agora. Porque o mundo é seu, o futuro é seu, e não de seus pais ou avós.

Como no recente Capitão América, e em Godzilla, no novo filme dos X-Men o establishment é desprezível, e tratado aos pontapés. Líderes são protoditadores venais – Magneto ameaça matar Richard Nixon, presidente corrupto, brutal.  A Shield não é sua amiguinha, é o inimigo. A estratégia militar para matar o monstro o fará mais forte. É isso que está sendo ensinado aos jovens, em 3D multimilionário. Surpresa nenhuma que a rapaziada acredite. E aja de acordo. Os próximos anos prometem.

foto 11 O X da Questão: os X Men e a revolução do futuro

Neste combate cinematográfico entre o futuro e o passado, alguns sinais estão trocados. Wolverine é sempre puro instinto animal, moleque marrento. Xavier, o adulto cheio de certezas.  A premissa do filme é que os humanos, assustados com os mutantes, criaram robôs superpoderosos para combatê-los, e estas máquinas sentinelas tomaram o poder no planeta, exterminando quase todos os mutantes.

Wolverine viaja no tempo. Volta do futuro amadurecido. Tem que mudar o passado para que esse futuro de horror nunca esqueça. Para isso, precisa botar juízo e esperança na cabeça vazia do jovem Charles Xavier, riquinho, amargo, viciado em drogas. Logan, o eterno outsider, precisa ensinar Charles o que é um líder. O planeta nunca teve tantos jovens quanto em 2014. Nunca terá tantos velhos quanto em 2050. Grande mudança, grande oportunidade.

Numa cena chave, Wolverine e o professor Xavier do futuro se comunicam com o jovem Xavier. É a experiência aconselhando a juventude. Experiência de quem lutou, perdeu e sobrevive para lutar mais uma vez, a última vez. O que eles dizem é: mantenha a esperança. O futuro é seu, e depende das decisões e ações de hoje. A batalha pela alma de Raven, Mística, é a batalha pela alma do futuro.

O que faz um líder? Perguntei na entrevista coletiva para Patrick Stewart. Não se vive Charles Xavier impunemente. Nem o capitão Jean-Luc Picard, comandante da Enterprise, nativo do século 24. Stewart é ator inglês, formação de teatro, Shakespeare etc. Imaginei que tivesse refletido um pouquinho sobre a natureza da liderança. Nunca esquecerei sua resposta: é a capacidade de se colocar no lugar do outro. O maior dos poderes, quem diria, é a empatia. Disse mais. O vídeo está aqui.

O filme termina com uma mensagem de otimismo que ultrapassa o limite da utopia. Não só o futuro é nosso para moldar, mas até os erros do passado podem, devem ser deletados. Cada ação é uma nova chance. Equilíbrio impossível entre experiência de coroa e arroubo juvenil? Pois é para isso que existem super-heróis, para nos convencer do impossível. Por isso este é o filme dos X-Men mais verdadeiro. O filme dos X-Men necessário para aqui e agora.

Filosofia demais para uma matinê? A sabedoria está onde você a encontra e a ideologia está em todo lugar. Vejo o filme não como o conjunto de seus muitos acertos e variados deslizes cinematográficos. Li X-Men ininterruptamente entre 1979 e 2004. Conheço os mutantes como as rugas na minha cara.

Entendo este filme como a imposição de uma escolha. Entre um futuro multiétnico, multipolar, multigeracional. Anárquico, porque sem a hegemonia de autoridades inquestionáveis, moral, religiosa, econômica, militar. Heterogêneo, e portanto fundamentado na tolerância e colaboração entre desiguais, e portanto reformista, e estabelecido sobre regras claras e consensadas. Mas muito mais homogêneo na distribuição de oportunidades - e portanto revolucionário na quebra de privilégios. Um futuro com muito de caos e imperfeição, mas um futuro de esperança e tolerância.

A alternativa é um futuro passado, pretérito, esquecido.

Escolher nosso caminho - este é o X da questão.

X Men Days Of Future Past Poster Wallpaper 1366x768 O X da Questão: os X Men e a revolução do futuro

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Publicado em 21/05/2014 às 17:27

Aprendendo a ser líder (e pai) com os X-Men

x men days of future mcavoy patrick stewart 636 370 Aprendendo a ser líder (e pai) com os X Men

Filho, os atores que fazem o jovem e o velho professor Xavier no novo filme dos X-Men vem para o Brasil. Quer me ajudar a fazer a entrevista? Quero, disse Tomás, 10 anos. Mas é ao vivo. Temos que ir lá na coletiva. E você vai ter que pesquisar, ler  o gibi que inspirou o filme, bolar suas próprias perguntas, e fazer pra eles - em inglês!

O menino engoliu em seco. Mas uma semana depois estava lá comigo, para sua primeira coletiva, e internacional, e com os X-Men, pra completar. Não é grande leitor de gibi, mas leu o Days of Future Past que baixei da Amazon no tablet, viu os trailers, me perguntou umas coisas, e bolou suas perguntas.

Eu não vou em coletiva. Coletiva é a anti-notícia. Se todo mundo sabe de tudo ao mesmo tempo, cadê o jornalismo? Mas coletiva também é farra, ainda mais em um caso desses. E eu tenho um longo histórico com os X-Men... e contei a história anos atrás.

Hora H, estávamos lá pra ver o filme (sobre o qual escrevo amanhã!) e depois a postos para a coletiva. No sorteio da ordem das perguntas, ficamos em segundo. Justo em segundo! É, Tomás, tá ótimo, assim temos garantia que vamos fazer nossas perguntas, não arrisca ninguém fazer nossas perguntas antes...  e não somos o primeiro!

Ator britânico sabe ler,  falar, pensar. Mas Patrick Stewart e James McAvoy foram além do cumprimento do dever. Patrick falou muito de futebol, esbanjou simpatia, e queria eu chegar aos 74 anos nessa forma. Ainda relembrou sua única visita anterior ao Brasil, 1962, na companhia de Vivien Leigh, quando se apresentou no municipal. E James, garotão, chamou meu filho de "dude", tipo e aí, carinha?

Longe de mim estimular meu filho a ser jornalista. Ele será o que quiser, e aprenderá a respeitar e valorizar as diferenças, a lição mais importante de todas essas décadas de aventuras mutantes. Mas decidi que era importante ele perder aula e ir na coletiva comigo, porque uma parte fundamental de ser pai tem sido expor Tomás a experiências, responsabilidades e diversões diferentes. É um aprendizado sem fim, aprender a tratar seu filho como uma pessoa, não um brinquedinho, uma marionete, uma projeção de mim mesmo. Claro que todo pai às vezes fantasia ter os poderes mentais de Charles Xavier: controlar a vida dos filhos telepaticamente, em vez de argumentar, convencer, explicar porquês...

Valeu. Ver os X-Men, meu gibi favorito e obscuro de  1979, se tornar esse fenômeno mundial, já tem sido uma experiência surreal. Perguntar para Stewart, Xavier e Picard, o que faz um bom líder, foi educativo. E ter meu filho me acompanhando na coletiva e fazendo uma boa pergunta, que mereceu uma boa resposta de James McAvoy: não tem preço. Em vídeo, com legendas, com carinho.

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Publicado em 18/05/2014 às 05:00

As 4 coisas da internet que não vivo sem

Cada dia aparece um aplicativo novo criativo e sensacional. Cada segundo alguém posta algo imperdível internet afora. Beleza, mas o que eu preciso mesmo é que alguém crie coisas que me ajudem a organizar essa bagaça toda!

Alguém criou. Estes são quatro coisas que fazem toda a diferença na minha vida digital, tanto do ponto de vista profissional como pessoal. Use, abuse, e depois me conte se foi bom pra você...

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Publicado em 15/05/2014 às 12:40

Porque lançar e como comprar um livro (com Neil Gaiman e um cara de 17 anos)

neil gaiman lantern 0 Porque lançar e como comprar um livro (com Neil Gaiman e um cara de 17 anos)

Hoje é a noite de autógrafos do meu primeiro livro. Já está nas principais livrarias do Brasil tem alguns dias, vende online e tal. Várias pessoas me perguntam: já tem a versão digital, para ler no tablet? Nada contra. Eu mesmo leio, principalmente quadrinhos. Mas a resposta é não. E não haverá tão cedo.

Uns 90% do conteúdo do meu livro já está disponível na web, a maior parte no meu blog. É uma antologia, uma reunião de artigos escritos em mais de vinte anos, mais alguns inéditos, costurados por um fio conceitual: como o rock deixou de ser o sangue nas veias da cultura popular global, e se tornou essa coisa impotente, decorativa, desimportante.

O Dia Em Que o Rock Morreu foi pensado para ser um livro, e um livro direto e reto. Como o ideal platônico do rock: três acordes, três minutos, ataque, entrega, emoção. Pensei o livro da capa à epígrafe aos capítulos ao papel do miolo. Fiquei satisfeito com o resultado. Inicialmente pedi ao editor da Arquipélago, Tito Montenegro, para fazermos versões digitais. Mudei de opinião. Não ficaria igualmente satisfeito com uma versão eletrônica. Não é conservadorismo, é constatação.

Ué, mas não é o mesmo conteúdo? Não. Conteúdo não é só o que as palavras querem dizer, é como você interage com elas, o peso, o cheiro, o visual, a experiência toda. Inclusive a experiência de sair de casa e ir à livraria buscar o livro que você quer. Ou até trombar com um livro que você nem sabia que existe, se encantar com ele, e levá-lo para casa. E depois comentar o livro. E comprar o livro para dar uma pessoa querida. Ou emprestar o livro para um amigo que pede. Ou jamais emprestar pra ninguém, e ter um prazerzinho cada vez que você vê a espinha do livro na estante.

O papel tem poder. O Capital No Século 21, catatau de 700 páginas do economista francês Thomas Piketty, é o livro mais discutido pelos poderosos, intelectuais e economistas do planeta. Pode mudar políticas, e certamente já mudou o debate sobre a desigualdade no mundo e nas sociedades ricas. Existisse apenas em versão digital, desconfio que seria menos discutido, e certamente menos lido. A presença física de um tijolo desse no criado mudo desafia à leitura.

E a livraria tem poder. Talvez não para as novas gerações. Para mim sempre foram lugares mágicos. Em 1983, quando mudei para São Paulo, passava horas na Livraria Paulista do Conjunto Nacional. Fuçando, lendo em pé, fazendo amizade com os vendedores, que eram bem mais que isso, e até comprando uns livrinhos de vez em quando.

Essa semana, André Barcinski escreveu com paixão sobre seu compromisso com livrarias independentes. Se você ama livros, tem que ler. E se tem planos de ir à Califórnia, André recomenda algumas livrarias preciosas em San Francisco. Conheço uma, a Borderlands, especializada em fantasia, horror e ficção científica. Só ela já vale a viagem.

No futuro próximo é muito possível que o livro de papel não exista, ou seja artefato de luxo. Mais uma razão para eu fazer o meu agora, ou quem sabe os meus, nos próximos anos. E também é muito possível que o livro digital do futuro próximo seja muito diferente do de hoje, e mais atraente.

O problema é que se você coloca vídeo, áudio, animações e tal em um livro, a tendência é que ele se torne menos hipnótico. Interação e imersão não caminham sempre juntas, como sabem os designers de videogames, cujo maior desafio continua sendo fazer um jogo que leve as pessoas a sentir e refletir.

Mas não é simples a vida do leitor neste ano de 2014. Descobri esta semana a existência de um livro chamado Faça Grande Arte. É o texto de um discurso inspirador feito por Neil Gaiman para os formandos do curso de artes na Universidade da Filadélfia. Já vi o vídeo com Neil encantando a garotada. Mas nunca li o texto. Tenho grande simpatia por Neil, contemporâneo, trabalhador, gente como a gente. Fora que o livro tem design do craque Chip Kidd. Decido comprar o livro.

MGA Mistakes square Porque lançar e como comprar um livro (com Neil Gaiman e um cara de 17 anos)

Agora, vamos tomar uma decisão? A edição americana, e naturalmente prefiro ler no original, custa R$ 123,00 e vai demorar até 40 dias para chegar. Capa dura, claro… mas que caro, e que demora!

A edição digital custa R$ 20,00 e chega em minutos. Mas não curtirei tanto. O design caprichado perde quase toda a graça. Não dá para compartilhar o livro com outras pessoas. E não dá para colocar na estante ao lado de todos os meus livros e gibis de Neil Gaiman.

Também posso optar pela edição em português que acaba de chegar às livrarias. Custa R$ 24,90 (por 80 páginas!), mas é em português. E claro que posso ler a íntegra do texto na internet sem pagar nada. Está à uma busca de distância.

Excesso de opções às vezes paralisa. Mas melhor essa riqueza de alternativas que só uma opção, um preço, um formato. Mesmo que eu tenha decidido exatamente por isso, agora que fiz meu próprio livro…como reza minha assinatura no Twitter: faça o que eu digo, não faça o que eu faço.

A opção mais tentadora é gastar mais, esperar mais, e curtir mais. Mas não aceito pagar R$ 123,00 pelo livro de Neil, mesmo que lindão.  Talvez compre a edição brazuca hoje à noite, quando estarei de novo na Livraria Cultura. Teria um significado especial.

Porque a mensagem do discurso e livro de Neil é: aconteça o que acontecer, Faça Boa Arte. Eu não chamaria o que faço de arte, de jeito nenhum. Mas posso substituir para algo como "se a coisa estiver boa ou se a coisa estiver ruim, ESCREVA". E o subtítulo é "Fantastic Mistakes". Neil ordena: cometa erros fantásticos. Bem, há décadas venho cometendo erros estúpidos. Vou me esforçar para que eles passem a ser erros espetaculares.

Talvez fazer meu livro só em papel seja um erro estúpido, mas do it yourself também significa faça para você mesmo, faça da maneira que te dá tesão. Algum dia, meu livrinho terá versões digitais, certamente mais baratas que os R$ 29,00 que custa hoje. Mas eu não farei uma dedicatória eletrônica para você.

Isso, só em papel, e só hoje. O André que tinha 17 anos em 1983 ficaria bem besta, e bem orgulhoso, de ver sua versão 2014 autografando na Cultura do Conjunto Nacional… a gente nunca tem a vida que sonha. Mas tem dia que é melhor do que você jamais sonhou.

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Publicado em 09/05/2014 às 17:24

Aécio tem 20% do voto do povo e 70% dos votos dos executivos – e isso é ótimo para o Brasil de 2015

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Nova pesquisa: 37% de intenção de voto para Dilma, 20% para Aécio, 10% para Eduardo Campos. Mil análises. Mas vamos falar do que interessa: dinheiro. Todo ano o jornal Valor Econômico reúne os empresários e executivos mais poderosos do país, para a entrega do prêmio "Executivo de Valor". É um Oscar do big business brasileiro. Esta semana, o jornal aproveitou o convescote para fazer uma pesquisa de intenção de voto. O resultado é sugestivo. E positivo.

Dos 249 convidados presentes, 103 toparam votar. Aécio Neves ficou com 72 votos, Eduardo Campos com 17, e Dilma com três votos. Se depender do capital, Aécio está eleito com 70% dos votos. O Valor também pediu que os convidados dessem nota de zero a dez para o governo Dilma. Uma pessoa deu nota dez; 16,7% deram nota zero; 88,5% deram nota de zero a cinco.

Esses caras mandam em empresas que empregam milhões de funcionários. Financiam campanhas de políticos em todos os níveis. São bem informados. Muitos são eles próprios milionários, ou bilionários. O que eles querem? O que eles vêem que o povão não vê?

Porque lá na rua, com tudo que a maior parte da imprensa bate em Dilma, o povo crava 37% de intenção de votos para a presidente atual. É quase tanto quanto a soma de todos os outros candidatos seguidos.

Os grandes empresários são humanos. Como todos nós seguem a linha do faça o que eu digo, não faça o que eu faço. Eles são por um estado enxuto, mas querem infraestrutura e educação de primeiro mundo. Exigem simultaneamente menos funcionários públicos e serviços classe A. Não querem que o governo se meta nos negócios, mas querem que o governo os defenda dos concorrentes estrangeiros, que o BNDES os financie, e que o Refis perdoe suas dívidas.

O sonho dos grandes empresários é um presidente que tenha compromisso total com o capital e compromisso zero com o resto. Que esteja lá exclusivamente porque eles, empresários, pagaram para ele estar lá,  e que não tenha nenhuma base que não tenha sido comprada pelo dinheiro deles. Como o velho causo sobre Nelson Rockefeller, banqueiro, que foi contar para a mãe que pensava em se candidatar a governador, e ouviu “imagine, essas coisas a gente deixa para os empregados, meu filho...”

É fantasia. Nem na ditadura militar o capital dava as cartas, não totalmente. Com Lula dava mais jogo que com Dilma, claro. Empresas e bancos nunca ganharam tanto quanto durante seus dois mandatos, como reconheceu o próprio. Já Dilma é uma tecnocrata ríspida, sem capital eleitoral próprio, ex-guerrilheira e mulher – tudo que um grande empresário não quer ver mandando nele. Esses senhores desconfiam que aos 19 anos Dilma decidiu que só se mudava o Brasil na porrada, e não mudou tanto assim de lá para cá. Ela dá munição. Na canetada quebrou a indústria do etanol, segurando o preço da gasolina e a inflação, o que explica o ódio a ela no interior de São Paulo.

Se Dilma vence agora de lavada, pode se sentir mais segura, e tentada a alçar vôos independentes. Por isso o capital brasileiro vai botar muita grana em Aécio e Eduardo. Vai que um deles decola? E se Dilma vencer por pouco, e sem maioria garantida no congresso, não é tão mal assim. O pior cenário seria Dilma levar no primeiro turno e se animar para novos e maiores arroubos autocráticos. Uma nova Cristina Kirchner, ou, cenário apocalíptico, um novo Hugo Chávez. Exagero? É, mas o papo nas altas esferas é esse.

foto 1 Aécio tem 20% do voto do povo e 70% dos votos dos executivos – e isso é ótimo para o Brasil de 2015

Os homens mais poderosos do país (e são mesmo uns 90% homens) têm que relaxar. Afinal, tirando um ou outro segmento (como cana), o Brasil não está quebrando. Avança devagar, devagar demais, mas nenhum cenário apocalíptico, atravessamos a crise financeira global, e tamos aí. Os vips da festa do Valor têm que se tocar que Dilma é o que temos para hoje, e para os próximos quatro anos, talvez mais.

Por mais dinheiro que se bote em Aécio Neves e Eduardo Campos, a verdade é que os dois discursam há meses e ninguém ouviu uma palavra original, motivadora, eletrizante. Os próximos meses serão de celebração nacionalista, olê-olê-olá Brasil, verde e amarelo pra todo canto. Quando chegar a hora de votar, a coligação de Dilma terá 14 minutos na televisão, mais que o triplo de Aécio, e metade do tempo vai ser Lula discursando. O brasileiro pobre sabe muito bem a quem deve o Bolsa Família, o ProUni, Minha Casa Minha Vida e companhia.

Profecia do pai Forasta: Dilma está reeleita, e depois dela, volta Lula para mais oito anos, se tiver saúde para isso. Empresas e governo continuarão fazendo bons negócios, convivendo como cunhados que não se bicam, mas todo domingo se suportam, porque não querem deixar seu lugar à mesa. E esse cenário não é nenhuma beleza, mas poderia ser bem pior.

Em todo o mundo, os executivos e os governantes têm muito poder. No Brasil, mais ainda. O governo federal tem muito poder, e estados e municípios muito pouco. E os executivos aqui muitas vezes são os próprios donos das empresas, riquíssimos, absurdamente influentes.

É mais saudável que governo e capital se estranhem, pelo menos um pouco. O perigo é quando são parceiros de cama e mesa. Vide Rússia e China, onde um autocrata e sua turminha controlam com mão de ferro as grandes empresas de seus países, das quais são sócios por baixo dos panos. E nessa controlam o legislativo, o  judiciário e a imprensa. Nossos colegas de Bric não são modelos a serem seguidos.

O  modelo brasileiro é mais anárquico, muito irritante, e insuficiente para nossas muitas necessidades. No meio dessa bagunça e balbúrdia, vamos nos afastando dos perigos do autoritarismo, e aprendendo a conviver, e nos informar, e nos mobilizar, e pressionar. Ótimo que o poder no Brasil seja cada vez mais multipolar. O Brasil de 2015 não será nenhuma maravilha com Dilma na presidência, capitalistas torcendo contra (e correndo atrás do seu), Aécio líder da oposição, e uma renca de nomes novos no Congresso, puxados pela votação de Eduardo Campos e Marina. Mas será mais humano que uma China ou Rússia.

Agora falta nós, que não somos nem governo nem capital, fazer nossa parte para que um e outro sejam menos poderosos, e nós sejamos mais. Como disse Thomas Jefferson, tirania é quando o povo teme o governo; e liberdade é quando o governo teme o povo...

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Publicado em 08/05/2014 às 12:02

Jair Rodrigues: o palhaço que fazia chorar

jair disco Jair Rodrigues: o palhaço que fazia chorar

A alegria de Jair Rodrigues foi sua grande força e seu maior inimigo. Era uma força da natureza - sempre pra cima, sempre sorrindo, sempre palhaço. Bem vindo por onde chegasse, virou convidado constante de programas de TV. A música ficou em segundo plano. Comédias não ganham Oscar; humor não é coisa de artista sério.

Fez um par e tanto com Elis Regina. Talvez tenha criado aí sua persona brincalhona. Foi o primeiro par interracial da TV, em O Fino da Bossa. Ninguém nunca olhou para Jair como galã - e olha que jovem, era muito bonito. Não que sua música fosse pra rir. Jair sabia quebrar um coração como ninguém, do samba ao sertanejo à MPB. Mas depois a música acabava, e ela abria aquele sorrisão. "Tristeza aqui não tem lugar, pra que chorar amor?"

Anos atrás, o colega Luiz Pimentel encomendou a amigos e artistas uma lista das canções que gostaríamos que nossos filhos conhecessem, que reuniu no livro "Você Tem Que Ouvir Isso". Sentando em um bar, fiz a minha, e cravei uma de Jair, ao lado de punks e esquisitos. Foi na "Na Beira do Mangue". Poderia ter sido "Deixa Isso Pra Lá". Ou "Disparada." Ou…

Jair Rodrigues - Disparada - Festival Record 1966 por thevideos no Videolog.tv.

Como Louis Armstrong, amado em vida mas só respeitado como grande artista após sua morte, Jair Rodrigues entra agora na história de nossa melhor música. Jair Rodrigues deixa uma coleção de clássicos - e outra maior ainda de boas lembranças.

Jair Rodrigues : Na Beira do Mangue por thevideos no Videolog.tv.

http://r7.com/Nblt

Publicado em 07/05/2014 às 17:46

Salamaleque para Toninho Mendes

29 CarolSachs ToninhoMendes ViceBrasil Salamaleque para Toninho Mendes

"Manelão era um negro alto e forte. Em sua barraca, vendia, comprava e revendia revistas e gibis usados. Os gibis eram de suprema importância para a molecada da Casa Verde em 1966. Quase ninguém tinha televisor e as brincadeiras eram nas ruas de terra ou nadando em pequenas lagoas perto do rio Tietê, hoje escondidas pelo asfalto… como o capim do Tietê não era dinheiro, Toninho criou uma estratégia para aumentar sua coleção. Ficou amigo do Manelão e se tornou seu ajudante."

Essas palavras de Ivan Finotti já dão a pegada da origem secreta de nosso herói: Toninho Mendes. Humor Paulistano: A Experiência da Circo Editorial, organizado por Toninho, conta a história de sua editora, responsável pelas revistas Chiclete com Banana, Circo, Geraldão e Piratas do Tietê.

Humor Paulistano capa ALTA 782x1024 Salamaleque para Toninho Mendes

É um livrão obrigatório de 432 páginas, cuchê fosco, artigos sobre sua vida e obra, incríveis fotos de época, reproduções das revistas, e quadrinhos, quadrinhos, quadrinhos. De brinde, um "poemarevista" de Toninho, "A Confissão para o Tietê", ilustrada por Jaca. Compre já!

Nenhum editor de quadrinhos brasileiros teve maior impacto na cultura nacional. Daqui cinco séculos, quem quiser entender o Brasil da redemocratização vai ter que mergulhar na obra de Toninho Mendes. E é obra dele, sim, tanto - ou mais? – quanto de de Angeli, Glauco, Laerte, Paulo e Chico Caruso, Luiz Gê. Não fosse tudo que já fez, continua fazendo, na editora Peixe Grande, onde lançou livros preciosos de Gonçalo Júnior (Maria Erótica e A Morte do Grilo, mergulhos na história recente do país pelo viés dos quadrinhos) e a antologia definitiva de Mariza Dias Costa (Mariza: Depois a Louca sou Eu!).

Temos muitos amigos em comum. Por essas razões estranhas da vida, nunca trabalhamos juntos e pouco nos trombamos. Perda minha. A vantagem é que de longe fico mais à vontade pra assumir que sou seu fã. Salamaleque mestre!

Publicado em 29/04/2014 às 09:53

“Inocência” de Collor é cuspe do STF na nossa cara

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De todos os criminosos que já se elegeram nesse país, nenhum é maior que Fernando Collor de Mello. Roubou a eleição de Lula. Roubou a poupança dos brasileiros. Roubou nossa fé na democracia. Primeiro presidente eleito em um quarto de século, usou o cargo da maneira mais porca possível. Foi escorraçado em menos de mil dias.

Agora o Supremo Tribunal Federal inocentou Collor por falta de provas. Bem, se ele não cometeu corrupção nenhuma, talvez a gente devesse devolver a presidência para ele. Dá pra chamar Zélia pra ser ministra e afanar nossa grana de novo, que tal? PC Farias não vai dar, porque o tesoureiro de Collor está sete palmos abaixo, boca bem fechada.

Com isso, o senador por Alagoas pode se apresentar ao eleitor como um inocente, injustamente perseguido, mas oficialmente limpo. Fez discurso indignado no Senado. Daqui a pouco se candidata de novo a presidente. Vai ter cretino pra votar nele. Pois não tem cretino para eleger ele em Alagoas?

Na tribuna, Collor revisitou os anos dourados de gritalhão psicopata: “Estou inocentados de todas a delações, repito: inocentados de todas as delações! A ninguém mais dado o direito de dizer o contrário ou fazer meras ilações... o tempo é o senhor da razão! A verdade tudo vence!".

É fato que o larápio já respondeu a 14 processos no STF e foi absolvido em todos. Isso não é prova de sua inocência, é prova de crime da justiça brasileira, e do Supremo Tribunal Federal. A balança do STF  usa dois pesos e duas medidas. Com tucanato, empreiteiros e banqueiros, é uma mãe. Com os petistas, madrasta. O Mensalão foi julgado em tempo recorde. As trambicagens que Collor aprontou entre 91 e 92 só foram julgadas em 2014, 22 anos depois.

Lula anda atirando contra o STF. Diz que a decisão foi 80% política e 20% jurídica. Concordo discordando. Sim, a decisão foi política. Trata-se de processos contra políticos, certo? Mas nem por isso o STF deveria ter sido tão leniente com os mensaleiros como é com o resto dos poderosos que julga. Muito pelo contrário. Tem que ser rigoroso com todos, por igual, e duríssimo com quem assalta o tesouro nacional. A justiça não é cega. Ela  usa uma venda. É para tratar a todos com o mesmo rigor, sem olhar a quem.

No Brasil abundam leis. Que adianta tanta lei? Do primeiro ao último brasileiro, sabemos todos que aqui só se enquadra ladrão de galinha. O STF decretar a inocência de Collor é só mais um cuspe na nossa cara.

Passou da hora de mudar isso. Vamos descobrir como outros países melhores que o nosso fazem, vamos pesquisar, vamos inventar, mas vamos mudar. Ninguém aguenta mais tanta esculhambação e impunidade. Para fazer Justiça com maiúscula, precisamos de outra polícia, outro judiciário – e outro Supremo Tribunal Federal.

http://r7.com/g4xE

Publicado em 25/04/2014 às 06:05

12 razões porque Lupita foi eleita a mulher mais bonita do mundo (e uma razão porque o Brasil não tem negra em capa de revista)


lupita nyongo facts including boyfriend rumors oscar buzz and new movies 2014 12 razões porque Lupita foi eleita a mulher mais bonita do mundo (e uma razão porque o Brasil não tem negra em capa de revista)

A mais importante revista de famosos do mundo elege todo ano  os mais belos do planeta. Esse ano, a People ungiu Lupita Nyong´o, estrela de 12 Anos de Escravidão. Por quê?

1. Lupita faz propaganda para diversas marcas importantes do mundo da moda. Já apareceu em tudo que é capa de revista feminina mundo afora. Acaba de ser escolhida como a face dos cosméticos Lancome. São justamente os anunciantes que mais importam para uma revista com público feminino - como a People.

2. Lupita é moça fina. Pai professor universitário, alto funcionário do governo de seu país. Sua irmã, executiva de tecnologia, foi eleita pela revista Forbes parte dos 20 jovens mais podeross da África.

3. Lupita tem nome e origem exóticos. É queniana, nascida no México, donde o nome, diminutivo de Guadalupe. Se fosse nascida no Arkansas e chamasse LaShawna Washington, seria bem menos interessante. Mas é exótica no tempero, no recheio é bem americana – foi criada nos EUA.

4. Lupita está sempre bem vestida, e sem extravagâncias e cafonices, nos tapetes vermelhos mundo afora.

5. Lupita é um hyphenate. Sabe o que é? É uma pessoa que tem várias profissões, tantas que você precisa juntar com um hífen. Lupita é atriz, mas já dirigiu documentário e videoclipe, trabalhou em produção de filme, é modelo, é formada em teatro etc. Digamos que é uma atriz-produtora-diretora-ícone fashion.

6. Com 26 anos escreveu, dirigiu e produziu um documentário sobre a população albina do Quênia. Mais precoce e mais politicamente correta, não dá.

7. Lupita é formada em Teatro na prestigiosa Yale. Já encenou Shakespeare, Chekhov etc.

8. Não é teen. Tem 31 anos. É uma mulher.

9. E, claro, sofreu o diabo na mão dos brancos, como a Patsey em 12 Anos de Escravidão, seu primeiro filme.

10. Papel pelo qual ganhou um monte de prêmios, inclusive o principal, o Oscar.

11. Lupita é negra. E negra retinta. A primeira a ser escolhida como a pessoa mais bonita pela People. É uma tomada de posição por parte da revista. Tem significado. Pega bem.

12. Lupita é bonita.

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Agora, Lupita é a  mulher mais bonita do mundo? Não. Encontro umas trinta mulheres mais bonitas no terminal de ônibus aqui ao lado, às seis horas da tarde. Lupita levou o título pelo conjunto de sua obra. É a Mulher Maravilha que veio da África.

Hoje não basta ser linda. Há que ser perfeita por dentro e por fora. E para ser perfeita é preciso ser mais que uma pessoa. É preciso ser multiperfeito. Tem que ser artista polivalente, mártir na telona, boa vendedora de perfume, exótica mas civilizada e anglófona, preocupada com o social. Como... Angelina Jolie. Que está instantaneamente obsoleta com a ascenção de Lupita.

E principalmente não basta ser linda se você é uma negra com traços negros. Trabalhei na revista Bizz entre 1990 e 1993. Era proibido pôr negro na capa. O argumento da direção era que “negro não vende”. Nem Jimi Hendrix e Bob Marley? Nada feito. De lá para cá, muito mudou no Brasil. E muito quase não mudou.

Fosse Lupita só a bonitinha que é, sem tantos atributos intelectuais, artísticos e fashionistas, seria escolhida pela People, sendo a negra retinta que é? Desconfio que não. A última negra que ganhou esse troféu foi Halle Berry, clarinha, narizinho delicado.

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Mesmo assim, ponto para People, e ponto para os americanos. O Brasil, que tem muitíssimo mais descendentes de africanos que os EUA, ainda não coloca Lupitas nas capas das revistas de moda. Não temos nenhuma superstar tão escura quanto Lupita. Nem protagonista de novela. O mais próximo que chegamos, e está bem longe, é Thaís Araújo. Que quando aparece em capa de revista, está sempre vários tons mais clara que na vida real.

Uma Lupita continua impossível no Brasil. Não porque não hajam negras muito mais lindas que ela, ou atrizes negras tão talentosas quanto. É que aqui é muito mais difícil uma jovem negra se formar em teatro em uma universidade de elite, encenar grandes autores, escrever e dirigir seu próprio documentário aos 26 anos, viajar pelo mundo etc.

Não é que falte beleza às negras brasileiras. É que a feiúra do Brasil é mais forte.

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