christopher hitchens Christopher Hitchens: nosso último ano
Christopher Hitchens teve três bons motivos para, contra seu passado, lenda pessoal e amigos, usar seu armamento mais pesado em defesa da invasão do Iraque. Sua solidariedade com a causa dos Curdos, minoria perseguida por Saddam Hussein.

A amizade fraterna com Salman Rushdie, que enfrentou sentença de morte por fundamentalistas islâmicos, pelo não-crime de escrever um romance, Os Versos Satânicos. E, catalisador letal: o alcoolismo. Hitchens era bêbado violento - não nos atos, mas nos julgamentos e palavras.

Hitchens, para os amigos Hitch, tinha uma visão épica e ácida de seu papel de jornalista, militante e intelectual público. Comprou moleque a mitologia das ratazanas da imprensa inglesa, espertalhões sacanas. Educação fina garantiu ao garoto de classe média verniz de literato e o abecê do trostkyismo - única formação política igualmente odiada por capitalistas e comunistas, com boas razões.

Sua turma na revista de esquerda New Statesman dominou a cena cultural-política da Inglaterra dos anos 70. Almoços intermináveis toda sexta-feira, regados a fofoca, tonéis de vinho e sonetos improvisados e safados.

O brilho da América o atraiu. Hitchens mudou para o império em 1982. Viajou meio mundo e se meteu em boas, reportando para The Nation e outras publicações de esquerda. Foi se afastando da militância, mas manteve a intransigência com autoritarismos e a visão internacionalista. Se descobriu descrente de utopias.

Seus melhores amigos já eram romancistas premiados e milionários - Martin Amis, Ian McEwan. O talento e ego de Hitch exigiam palco e holofotes à altura. Conquistou ambos com uma coluna na revista Vanity Fair em 1992, quando o li pela primeira vez. Morando em Washington, ninho de serpentes, Hitchens arrepiava. Escrevia à toda e sobre tudo. Cuspia opiniões instantâneas e definitivas.

Era ainda melhor ao vivo. Nos programas de debates na TV, virou figurinha carimbada, ogro hirsuto e rotundo, língua de lâmina. Assumiu sem culpas a vocação de entertainer, e aprontou à beça.

Ganhou status de popstar em 1995, denunciando em livro a intocável Madre Teresa de Calcutá como santinha do pau oco. Li um trecho e me rendi de vez. Hitchens era muito do que eu admiro em um jornalista.

Inteligente sem ser pernóstico; bocudo e preciso; engraçado e encrenqueiro; impiedoso com os poderosos; impaciente com a burrice; destemido ao defender posições impopulares. Mais importante que tudo: escrevia bem pra diabo. Também era chutão e fanfarrão. Pecados menores.

Christopher Hitchens para mim era isso: as colunetas da Vanity Fair sobre o Kosovo e o fellatio. Esbarrava com um novo artiguinho anarquizante dele pela internet, aqui e ali.  Tive preguiça de ler seus livros iniciais. Eram manifestos supérfluos na minha vida.

Um listava bons argumentos para a abolição da monarquia britânica, outro detonava Bill Clinton por picaretagem, um terceiro condenava Henry Kissinger como assassino de massa - e aí, cadê a novidade?

Depois veio o 11 de Setembro. Hitchens perdeu ali muita gente melhor que eu. O problema nem era sua defesa raivosa da Guerra do Iraque. Ou os ataques demolidores a antigos companheiros de viagem, gente como Noam Chomsky, Alexander Cockburn, Howard Zinn e Edward Said.

Ele bateu duro como apanhou - foi excomungado pela elite liberal bem-pensante dos cinco continentes, e retrucou com obituários vitriólicos. Inadmissível foi perceber Hitchens deslumbrado com crápulas maquiavélicos como Paul Wolfowitz, arquiteto do neo-conservadorismo, sub-secretário de defesa de George Bush. Ou, pior ainda, se perfilando com sub-humanos como Ann Coulter, ou palhaços da Fox News.

E assim passou a década. Mesmo Deus Não é Grande, de 2007, seu ataque às religiões como fonte primária do mal, não me seduziu. Hitchens se definia como "antiteísta". Sou só ateu, mas era pregação para convertido.

Fui tentado a comparecer a um jantar em homenagem a ele, em uma feira de literatura, 2006. Mas não ia a Parati só para pagar pau para escritor, né? Bom, o editor me contou depois que Hitch caminhou Parati inteira, sempre descalço, puxando papo com todo mundo, na boa companhia de uma garrafa de whisky. Perdi uma boa e foi minha última chance.

Hitch morreu sexta-feira passada aos 62 anos. Todos sabiam que estava condenado e ele também. Continuou na ativa até o final. Sua última coluna na Slate data 28 de novembro. Seu último ensaio, ainda inédito, é sobre Chesterton - Ian McEwan relata seus últimos dias em palavras emocionantes.

Foi muito homenageado no ano que passou. Os obituários dos últimos dias falam por si. Os amigos próximos o celebraram ao vivo, Christopher Buckley, James Fenton, Sean Penn, Stephen Fry e mais. Veja aqui.

O vídeo tira o fôlego.

Stephen Fry and Friends of Christopher Hitchens *MIRROR* por perolasblogs no Videolog.tv.

O espectro de sua morte próxima me inspirou a tirar o atraso. No meio de 2011 encomendei meus primeiros quatro livros de Hitchens. Comecei por seu delicioso volume de memórias, Hitch-22.

Letters to a Young Contrarian, be-a-bá do espírito do contra, inspirado pelas Cartas a um Jovem Poeta de Rainer Maria Rilke, deveria ser leitura obrigatória para adolescentes.

No Brasil, foi traduzido como Cartas a Um Jovem Contestador. Não se encontra em livrarias, indicativo do horror nacional à rebeldia.

Emendei Hitchens from A to Z, coletânea de epigramas metralhados vida afora. Bispei com proveito The Portable Atheist, seleta de textos organizada por Hitchens, contra religiões e pró-humanidade, de autores diversos, Bertrand Russel a Richard Dawkins.

Um dia depois de sua morte, anteontem, abri Arguably, seleção de ensaios, críticas, artigos.  Comecei pela resenha de uma biografia de Arthur Koestler. Na última linha, eu estava indeciso: abandono a profissão ou redobro meus esforços?

Como seu herói George Orwell, Christopher Hitchens se via como cavaleiro sem exército. Procurava uma causa inequívoca, uma batalha definitiva. Encontrou, na luta sem tréguas contra o fundamentalismo islâmico, filho bastardo de seus maiores inimigos, o fascismo e a religião. O Onze de Setembro foi para ele Pearl Harbor e Hiroshima.

Por imperativo ético, Hitchens teve a coragem de trair seu passado. Não anteviu um futuro de desapontamento e desterro. A justificativa para a Guerra do Iraque se revelou uma mentira; seu objetivo maior, reeleger George Bush e enricar seus comparsas; os novos companheiros reacionários de Hitchens não eram amigos, só aliados; sua atitude foi moral, mas seu papel foi de fantoche.

Ninguém está a salvo do autoengano. Cachaceiros, pior ainda. Hitchens morreu de câncer no esôfago. Hectolitros de Johnny Walker Red Label e quinze mil Rothmans por ano, durante quatro décadas, têm consequências.

A década com a direita foi o catalisador. Impossível ele não ter enxergado a futilidade de sua traição.  Mal-estar que encontrou ambiente pestilento, e apodreceu suas entranhas?

Hitchens viveu vertiginosamente. Acertou e errou. Fez mais e melhor que você e eu. Morreu celebrado pelas pessoas que mais respeitava. Sua produção prodigiosa estará sempre à nossa disposição, leitura provocativa e prazeirosa.

Ler Cristopher Hitchens no ano de sua morte foi, para mim, uma injeção de adrenalina. Agora, é um sopro de vida.

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Fim de ano, lista pra todo gosto: melhores livros, filmes, discos. Bato o olho em algumas. Os 50 melhores discos do ano, e não ouvi nenhum. Os 25 livros imperdíveis de 2011, idem.

Novos autores recomendados por velhos autores, não conheço nem uns nem outros. Descompasso total.  Mesmo assim vou te dar de presente a lista das melhores coisas que li este ano. Não necessariamente lançadas em 2011.

Que te importa o ano do lançamento?

Em número de títulos e páginas, ninguém me ocupou mais em 2011 que Warren Ellis. Foram umas 2500 páginas. Leva vantagem porque escreve primariamente quadrinhos. Também romances, crônicas, games, animação e cinema.

É um inglês que sabe juntar ficção-científica, horror, sordidez e humor, e observador arguto das misérias e glórias humanas. Muito ativo online, e bom colunista também, do site Suicide Girls, depois da edição britânica da revista Wired.

Costumam defini-lo como um cyberpunk tardio. Está mais para splatter-sci-fi (inventei agora). Faz literatura de ideias, com pulso pop e vísceras à mostra. Inventou o moderno gibi de super-herói em 1999, com a série The Authority - narrativa cinematográfica widescreen, diálogos esparsos, ação em tempo real, pouca explicação.

warren ellis Os melhores do (meu) ano: o escritor que mais li em 2011

Eu já tinha lido toda a principal obra de Ellis - os quadrinhos Planetary, Transmetropolitan, Global Frequency e uma pá de gibis soltos; seu único romance, o demoníaco e hilário Crooked Little Vein; a antologia de colunas Come In Alone.

Até editei um no Brasil - Batman/Planetary, pela Pixel, obrigatório para fãs do velho morcego. Este ano resolvi passar a régua.

O que li de Warren Ellis em 2011:

- Shivering Sands, coletânea de ensaios, historinhas, xingamentos, divertida e inteligente - Seven Years of Stories, Drinking and the World, é o subtítulo

- Os três volumes de Gravel, sobre um soldado mágico na Inglaterra de hoje - arte meio pra tosca e protagonista proletário genérico, mas embalei

- Wolfskin, a versão de Ellis para heróis bárbaros taciturnos, tipo Conan, mais explícito e sanguinolento

- No Hero é sobre super-heróis e drogas, mas principalmente sobre super-vilões

- Ignition City uma aventura de aviação retrô, com perfume de Flash Gordon

- Anna Mercury, super-espionagem sexy e futurista

- Crecy, sobre a mais importante batalha da Guerra dos Cem Anos, entre ingleses e franceses, 1346

- Black Summer tem um Super-Homem que decide mudar as coisas - e começa assassinando o maior bandido que conhece, o presidente dos Estados Unidos

- Freak Angels, aventura teen distópica, publicada como webcomic, só depois em papel.

ignition city ok Os melhores do (meu) ano: o escritor que mais li em 2011

Ainda falta uma ou outra coisa pra fechar a obra do cara. Ellis sempre foi um "working writer", um cara que vive de escrever. Por isso escreve muito. Cada vez menos para grandes editoras. Bolar outra aventura do Hulk ajuda a pagar as contas, mas nada como ser dono das suas criações.

Pode vender pouco, mas é um percentual maior no seu bolso, e se você emplaca uma superprodução em Hollywood, tá feito. Foi o que aconteceu com Ellis. Red, sobre agentes secretos aposentados, foi adaptado para um divertido filme com Bruce Willis e Morgan Freeman. Ellis está riquinho e com visibilidade maior que nunca. Em 2012, ganha um documentário sobre a sua obra.

Warren Ellis - Captured Ghosts Release Trailer por perolasblogs no Videolog.tv.

Uns são bons, outros ótimos, todos têm seus defeitos, todos têm personalidade. Em cada um você encontra a mesma tensão - entre transformação e permanência, entre novas e velhas tecnologias e o uso que damos para elas.

Ellis não é um bobão inocente do Vale do Silício, nem um apocalíptico. Se define como "um otimista constantemente desapontado". Acredita na possibilidade de mudança para melhor.

Não da natureza humana; esta caminha no ritmo da evolução, coisa para milhares de anos. Mas mudança das sociedades humanas. Porque somos animaizinhos muito engenhosos, capazes das maiores burrices e maldades, mas também de criar soluções para grandes problemas.

Porque um cara com um cérebro desses dedica a maior parte do seu tempo a escrever gibis? Em Shivering Sands, Ellis dá sua explicação:

"Qualquer outro tipo de narrativa visual é comprometida por comitês, executivos, pesquisas e imposições. Nos quadrinhos, é apenas o escritor, o ilustrador e o editor. No máximo outras duas pessoas além de você, e na mesma sintonia que você.

E assim você consegue se comunicar sem filtros, em um meio de massa, em que as vendas são pelo menos um pouco melhores que em literatura, ou música independente. Você tem a chance de dizer o que quer dizer."

"E assim se eu for bom e tiver sorte, posso mudar a maneira como você pensa, só um pouquinho. Posso te contar meus segredos e te revelar coisas, e te embebedar com idéias, e dramatizar o mundo em que você vive, só por um tempinho. É para isso que servem as histórias, é para isso que estou aqui. Muito obrigado."

Obrigado você, Warren.

warrenellis okoko Os melhores do (meu) ano: o escritor que mais li em 2011

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Nada fede mais que preconceito. Qualquer sugestão de preconceito contra negro, homossexual, nordestino, mulher ou qualquer outra "minoria", te prepara que vem chumbo. Não sou racista. Até porque não existe diferença racial entre indivíduos da espécie homo sapiens.

Somos todos muito iguais, nas qualidades e fragilidades. Mas questionei a acusação de racismo (leia aqui), formulada por uma jovem estagiária negra contra a empresa em que trabalha, e choveu estrume pro meu lado.

Respeito o direito de todos opinarem, tirando os que não leram e não gostaram, e os que me questionaram pelo que não estava escrito. Na maior parte dos casos, trata-se de deficiência educacional, problemas com interpretação de texto.

Sei a origem de toda essa indignação e de por que preconceito é o pecado mortal de nossos dias. Se chama Identity Politics. Mais uma invenção americana que conquistou o mundo, como o hot dog e o refrigerante.

É política baseada em quem você é, não no que você faz. É a defesa dos direitos das pessoas com aquela cor, ou que vem dessa região, ou que tem esse tipo aqui de atividade sexual, ou que reza para aquela divindade em particular.

Você, e outros parecidos com você, se organizam para enfrentar a o preconceito ou perseguição específica do seu grupo. Não tem tradução em português. Generalizando, é a política das minorias, termo pra lá de inexato, porque muitas vezes gigantes. Então chamarei de - a-ha! - "Política para Minorias".

Deu certo algumas vezes. O caso mais espetacular foi o movimento pelo direito dos negros nos anos 60, Estados Unidos. Mortos Martin Luther King e Malcolm X, seguiu-se a instauração de uma série de políticas dedicadas a tirar os negros americanos do subdesenvolvimento.

Ação afirmativa: ajuda financeira e outras para os negros comerem, estudarem, trabalharem; cotas e tudo mais. Foi e é copiado internacionalmente. No Brasil também.

Política para Minorias é tão comum que passa batido como é criação recente. A esquerda tradicional sempre foi contra o conceito: era a classe opressora lá em cima, a classe trabalhadora revolucionária aqui embaixo, e acabou o assunto.

malcolm martin blog Pessoas que pensam com sua pele, genitália ou clã são o problema, não a solução

Martin Luther King e Malcolm X

A razão porque nenhum tema dá mais pano pra manga do que Política para Minorias: a política institucional hoje é jogo para profissionais bem adestrados, financiados por lobbies poderosíssimos.

A queda da União Soviética gerou um mundo multipolar, mas ele tem uma única obsessão: dinheiro. Identity Politics se tornou o único tipo de política ao alcance das pessoas comuns.

Subsegmentou-se. É a luta pelo direito do velho, do gordo, do transsexual, desta e daquela minoria étnica ou religiosa. Pelo direito do pequeno lavrador, do sem teto, do ciclista, dos cachorros e seus donos, das crianças com Síndrome de Down e suas famílias.

Virou capital de negociação eleitoral. Deputado tal faz lei protegendo tal grupo, leva os votos do grupo. Virou também uma maneira de gritarmos ao mundo nosso narcisismo, e a internet amplia o ruído à surdez.

Não é reducionismo demais? Ser mulher é a característica fundamental de 3,6 bilhões de mulheres sobre o planeta Terra? O elemento que define os milhões e milhões de negros do mundo é a cor da pele? O elemento determinante sobre quem eu sou é o fato de eu ser homem e branco?

Não há um quê de egoísmo, quando você coloca seus problemas acima dos problemas dos outros? Quanto da nossa tendência a procurar os parecidos conosco é DNA de primata feroz, e quanto é uma construção social? Não tenho respostar prontas, o que em alguns círculos já me caracteriza como conservador, racista, sexista etc.

Evidente que grupos específicos têm problemas específicos, além dos gerais. Foco concentrado na solução customizada de problemas específicos frequentemente funciona. Vagas suficientes em creches públicas boas beneficiam toda a sociedade, mas só é demanda urgente para mães.

Se elas não brigarem por isso, será mais uma das 2057 "prioridades" do governante do momento. Só crápulas impõem tratamento igual aos diferentes. Uma sociedade que não protege quem precisa de proteção é uma selva disfarçada - olhe pela janela.

eric hobsbawm 002 Pessoas que pensam com sua pele, genitália ou clã são o problema, não a solução
Eric Hobsbawm

O historiador Eric Hobsbawn defende que Política para Minorias é uma espécie de nacionalismo. Uma distração do problema principal: a famosa dominância da burguesia, esta sim mola propulsora das agruras que afligiriam todas as latitudes.

E que dizer da suposta superioridade moral das minorias, da sua incompreensão das demandas de massa, da cooptação destes movimentos pelo big business?

Soa sólido, e ninguém acusaria de conservador Hobsbawn, lenda do marxismo. Mas sou mais Emma Goldman. Cento e tantos anos atrás, a líder anarquista repreendeu um grupo de operários americanos que lutava pela redução da jornada de trabalho.

Deveriam estar lutando é pela revolução! Levou o retruque de um peão lá, mas eu vou ter que esperar todos os capitalistas estarem mortos para poder ler meus livrinhos, ter uma meia hora de folga por dia? Emma nunca mais minimizou a importância da batalha pelo aqui e o agora.

Mas - e nisto o Século 21 pode aprender muito com Emma - nossa heroína anarco nunca deixou de pensar no longo prazo, na conquista do difícil e na materialização do insensato.

O enfrentamento da ignorância, da violência, da ganância, é tarefa pra todo dia, pra se encarar sozinho ou com sua turma. A vitória possível sobre estes eternos inimigos da humanidade são missão de massa, para muitas vidas.

A Política para Minorias podem se articular com o que eu chamaria de Grande Política, como duas frentes da mesma batalha. Podem se somar - ou não. Veremos o destino do Occupy, dos Indignados esapnhóis e de outros movimentos que tentam hoje construir esta ponte.

Homem, branco, remediado etc., me importa mais o que nos iguala do que o que nos separa. O Brasil e o mundo têm muitos grupos com problemas específicos, e que bom que todos eles se organizem para tomar o que é seu.

Melhor ainda se for sem miopia triunfalista ou arroubos de excepcionalismo. Faço minha a irretocável lápide que Christopher Hichens depositou sobre a Identity Politics:

"Quase sempre são os ignorantes e chatos e egoístas que vêem na Política de Minorias sua grande chance... Pessoas que pensam com sua epiderme ou sua genitália ou seu clã são o problema, para começar.

Impossível banir este espectro através de sua invocação. Eu jamais votaria contra alguém baseado somente na sua "raça" ou "gênero". E jamais votaria a favor, pela mesmíssima razão."

forasta blogs Pessoas que pensam com sua pele, genitália ou clã são o problema, não a solução
Christopher Hitchens

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Ester tem dezenove anos e um mês de emprego. Começou dia primeiro de novembro. A estudante de pedagogia é estagiária de marketing em uma escola particular.

Parte da sua função era receber os pais interessados em matricular os filhos, responder suas perguntas, mostrar o colégio.

Mas teve problemas logo no primeiro dia. Segundo Ester, a diretora da escola reclamou de uma flor presa em seu cabelo. Pediu para prender os cachos.

Dias depois, reclamou de novo do cabelo de Ester. Disse que ia comprar camisas mais longas, para que Ester escondesse seus quadris.

Como você pode representar nosso colégio com esse cabelo crespo, perguntou a diretora?

Ester é negra. Foi à polícia. Registrou BO na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância.

"A discriminação me afetou de tal forma que eu não consigo mais me olhar no espelho e mexer no meu cabelo.A diretora mexeu com meu emocional. Estou triste e choro a todo instante", disse aos jornais.

Esta semana, Ester divulgou o caso na internet. Pegou fogo. Muita gente indignada. Acusações de racismo. Absurdo.

Ester foi transferida para o arquivo, em uma sala em frente à direção. “Agora só arquivo documentos e carimbo carteiras dos alunos”, reclama a moça. A direção do colégio diz que ela não mudou de função.

É chato para Ester? Certamente. É raro? Claro que não. É injusto? Bem, quem trabalha representa a empresa onde trabalha. Mais ainda se é a face pública da empresa, lida com atuais ou potenciais clientes.

Butique fina de shopping tem vendedoras magrinhas e elegantes. Recepcionista de academia não pode ser gordeta. Médico usa branco. Advogado usa gravata. Executivo americano usa camisa azul e calça cáqui de sexta-feira, dia casual.

Principal: é racismo da diretora do colégio? De longe, não me parece. Estivesse Ester dentro dos padrões estéticos que a tal diretora considera os ideais para fazer os pais abrirem a carteira e matricularem os filhos, não seria problema nenhum ela ser negra.

Os padrões estéticos são idiotas? Bem, empresas de cosméticos ganham rios de dinheiro vendendo alisador para negras.

Cirurgiões plásticos no mundo todo faturam forte corrigindo narizes, peitos, bundas e tudo mais de mulheres de todas as cores, todas procurando se aproximar do padrão hollywoodiano. Se os padrões são bobos, somos todos.

Soube esses dias de um jovem recém-formado em jornalismo. Estagiava em um grande jornal. Foi convocado para fazer uma entrevista em vídeo com um executivo. Foi e fez - de jeans, tênis e camiseta.

A direção do jornal decidiu não colocar o vídeo no site. O jovem jornalista espumou. Mandou email coletivo, indignado, como o jornal podia fazer uma coisa dessas com ele? Que importa se estava de jeans? Ele fez seu trabalho ou não?

Não fez não. E dançou, merecidamente. Meu trabalho não é o que eu acho que é. É o que a empresa onde eu trabalho diz que é. Se o jornal exige que os profissionais que aparecem no vídeo usem terno, parte do trabalho é usar terno.

Ester está no final da adolescência. Como o cara do caso acima, deve se sentir no direito de vestir o que quer, ter o cabelo que quer, orquídea no cabelo - ué, contanto que eu faça meu trabalho, por que não?

Porque não, querida. O mundo não funciona assim. Triste? Verdadeiro. Coisa mais útil que você poderia aprender em um estágio.

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guitar ok Por que os jovens brasileiros não gostam mais de rock, em uma frase (bem longa)

Os jovens brasileiros não gostam mais de rock porque o rock brasileiro sempre foi meio MPB, mais dependente da sofisticação literária e da relevância ideológica do que suas contrapartes anglófonas, sempre foi prioritariamente produzido e consumido pela classe média de escola particular, e este grupo perdeu o protagonismo histórico que possuía, político, cultural e econômico (foi espremido entre a ascensão massiva das ágrafas classes C e D, cuja experiência musical fundamental é a celebração coletiva da vida melhor, pululante e ao vivo, e a decolagem de uma superclasse de super-ricos acríticos cuja expressão cultural se dá por meio do consumo e do exibicionismo, e que vai tomar champanhe nos espaços VIPs dos megafestivais como quem vai a Aspen ou Nova York), donde o que se chama hoje de rock brasileiro pouco varia entre as ruínas emo-tatuadas do esquemão jabá-gravadora-Faustão e os indies dependentes, seja de patrocínio estatal, do circuito publicitário-Sesc ou de um cooperativismo anarco-grilo, e nem uns nem outros se conectam espiritualmente com nossa juventude, porque os jovens que tradicionalmente se apaixonariam pelo ideal platônico do Rock - provocação 360 graus - vomitam o rock de hoje, porque teen precocemente senil, banguela e broxa, e fogem para onde está a ação, seja em movimentos como o Occupy, no rap mal- encarado e no funk boca-suja, correndo atrás do dindin ou simplesmente boquejando infinitamente nas redes sociais; bandas boas sempre existiram e existem, as exceções comprovam a regra; o rock brasileiro não é contra nem a favor de nada, e por isso não é.

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pinguim ok Adeus aos livros (ou: por que a Companhia das Letras precisa da Penguin)

Não há grife no mundo dos livros maior que Penguin. Não há editora mais respeitada no Brasil que a Companhia das Letras. Se "associaram", isto é, o Penguin Group comprou 45% da empresa brasileira.

Casamento de conveniência, e quase de sangue azul. Só não, porque a Penguin sempre teve os dois pés profundamente fincados na classe média média, e "a Companhia", como todos a chamam, não tem estirpe - nasceu quando eu estava na faculdade. Faz 25 anos.

Li a notinha no jornal: o editor Luis Schwarz deixa a Editora Brasiliense e vai fundar sua própria empresa. A Brasiliense era a única editora que importava nos anos 80. Provocava os jovens e impunha as pautas culturais do país.

Luis era seu editor-chefe. Saiu por cima e na hora certa; a Brasiliense desboroou pouco depois. Eu andava desanimado com minha futura profissão e pensando em mudar para editoração.

Meu pai falou, escreve para o Luis! Quem sabe você não vai trabalhar com ele? Ou quem sabe ele não quer um sócio minoritário?

Nunca soube se brincou ou falou sério - meu pai, médico, ia lá botar algum dinheiro em uma editora iniciante de um cara que ele nem conhecia, só para arrumar um emprego para o filho de 21 anos indeciso com a vida?

Duvide-o-dó. Mas enviei a carta. Recebi resposta? Não lembro, e se sim, foi como se não. Pouco depois nascia a Companhia das Letras. O sócio da empresa era uma editora e gráfica de cartões (desses de Aniversário e Boas Festas), da família Schwarz.

Comprei, como todo mundo, Rumo à Estação Finlândia, de Edmund Wilson, primeiro livro da editora, e como a maioria não cheguei ao final. Cadê os beatniks, o rock'n'roll, os primeiros passos, as cantadas, a ousadia? Bye-bye.

A Companhia apostou no prestígio. No pop, só depois, e comedidamente, tênis com paletó.

Rumo a Estação Finlandia Adeus aos livros (ou: por que a Companhia das Letras precisa da Penguin)

Um ano depois fiz teste para tradutor na Companhia. Peguei um livro de John D. McDonald, mais um da série estrelada pelo investigador Travis McGee. Eu já tinha lido uns 15 McGees até então. Não passei.

Hoje entendo - estava traduzindo muito duro, muito literal. Na época fiquei uma vara! Mais um ano, arrumei meu primeiro emprego, de jornalista. Seria eu mesmo editor de livros depois, na Conrad, mas estratégico, sem meter a mão na massa. Tenho vocação para catálogo e negociação, nenhum para a ourivesaria do acabamento, ou para relacionamento com autores.

Um quarto de século depois da minha cartinha, a Companhia tem mais de três mil livros lançados, prestígio junto aos leitores e formadores de opinião, amor (até excessivo e condescendente) da imprensa especializada.

Deve ter boas vendas governamentais, como todas as grandes editoras, porque é o que dá dinheiro de verdade no mercado editorial brasileiro. Onde entrou, fez bonito ou não fez feio, da literatura estrangeira e nacional a livros de bolso, infantis e quadrinhos.

Ganha a Penguin como sócia. O restante ficou com os três sócios principais, Luiz, sua esposa Lilia Moritz Schwarz (boa escritora, de As Barbas do Imperador) e Fernando Moreira Salles, da família bilionária e extremamente ativa na cultura brasileira.

O dote deve ter sido convidativo, talvez menos pela grana no bolso que pelo futuro. O casamento é melhor pelas diferenças entre os noivos que pela semelhança. A Companhia ganhou uma chance de sobreviver, coisa que a maioria das editoras brasileiras não têm.

A Penguin nasceu em 1935 com o intuito de levar livros de boa qualidade às massas, a preços acessíveis. Usava para isso o formato paperback, antes exclusivo de pulps estrelados por monstros espaciais, tiras durões e melindrosas de decotes generosos.

A definição de bons livros do fundador da Penguin, Allen Lane era ampla: os primeiros dez títulos publicados pela Penguin incluíam de Ernest Hemingway a Agatha Christie a Vita Sackville-West. Eles eram vendidos em magazines a preço de banana. Pagavam royalties menores que edições normais.

sir Adeus aos livros (ou: por que a Companhia das Letras precisa da Penguin)

Sir Allan Lane, criador da editora Penguin

Com o tempo, provaram que havia público de massa para livros contemporâneos, para não-ficção, livros de viagem, biografias, todo tipo de livro, de poesia a polêmica  (O Amante de Lady Chatterley, Os Versos Satânicos).

E principalmente para clássicos, linha iniciada em 1945, que ainda é dominada pelo selo, portfolio irresistível. Cada linha com sua borda de cor diferente.

Pagar barato pelo biscoito fino e revendê-lo barato para as massas que não frequentavam livrarias foi boa estratégia, hoje turbinada no mundo digital. Padronizar a apresentação coroou a estratégia.

Os livros da Penguin desde o início foram facilmente reconhecíveis, pelas bordas, pelo formato e tipografia, pelo pinguinzinho.

Para entender porque a associação é estratégica, o importante é ir além de catálogos ou ativos das duas empresas e chegar ao grupo britânico Pearson, multinacional que é dona da Penguin.

A Pearson tem 37 mil empregados e faturou 5,6 bilhões de libras em 2010. Através do Penguin Group, controla dezenas de editoras de primeira como Dorling Kindersley, Putnam, Viking, os guias Rough Guide e outras.

Tem negócios gigantescos em educação. A Pearson é dona de duas grifes globais de mídia, sinônimos de qualidade em jornalismo, de sotaque tão britânico quanto Penguin: o venerando jornal Financial Times e The Economist, a única publicação que se dá bem de verdade no mundo digital.

revista the economist 27 Adeus aos livros (ou: por que a Companhia das Letras precisa da Penguin)

Em 2010, a Pearson comprou os sistemas brasileiros de ensino do Pueri Domus, COC e Dom Bosco. São seis mil escolas particulares e 500 mil professores no Brasil.

Ao negócio de apostilas, fica fácil acoplar livros do catálogo da Companhia, através de um selo chamado Boa Companhia.

E a Pearson já tem um negócio razoável de livros digitais, chamado Biblioteca Virtual Universitária, mais de dois mil títulos digitalizados de editoras como Ática e Martins Fontes, e, agora, os livros da Companhia.

A venda para estudantes, via compra governamental ou imposição da apostila adotada, é a mais garantida que há.

Hoje, qualquer um pode publicar seu livro digitalmente, vender ou doar ao mundo, divulgar de graça nas redes sociais. O custo caiu para zero ou perto disso.

As editoras são crescentemente desnecessárias, como estão percebendo rápida e dramaticamente - quando, por exemplo, a gigante do varejo eletrônico Amazon.com começa a publicar seus próprios títulos.

Com a popularização dos tablets, o livro de papel vai pelo caminho do disco de vinil. Está com os dias contados como produto, salvo exceções pontuais tipo edições de luxo e fac-similes.

Facílimo ser autor, dificílimo ganhar dinheiro com livro, que a oferta é infinita - quem tem tempo para ao menos saber tudo que existe para ler?

A venda de livros digitais diretamente para o tablet ou computador do consumidor é operação que existe tecnologia de ponta e constantemente atualizada - não é negócio em que uma editora de papel, sozinha, faça verão.

Quando você quer vender seu livro em bits, está concorrendo com todos os livros de graça do planeta Terra, com os piratas, e com a Amazon, o Google, o Facebook e a Apple. Encrenca indigesta.

Dentro da Penguin - dentro da Pearson - a Companhia das Letras tem alguma chance de estar viva daqui a outros 25 anos.

Espero que sim, mas minha colaboração será muito eventual. O que preciso ler já, por razões profissionais, vem via web, grátis ou muito barato. O que quero ler para mim, posso esperar. Não compro mais lançamentos.

Meu consumo de livro é em sebo físico ou virtual, ou na Amazon, velharia com descontão. Não tenho pressa para ler nada. Eu tinha pressa era de deixar de publicar livros, o que fiz alguns anos atrás.

Pressentia o dia em que nem a mais importante editora do Brasil teria sua sobrevivência garantida, imagine minha editorinha independente. O dia chegou.

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jandira forasta As famílias mais ricas do Brasil (e por que está na hora de elas abrirem os cofres)

As cinco mil famílias mais ricas do Brasil possuem um patrimônio equivalente a 40% do PIB do país. Em números de 2010, equivale a R$ 1,65 TRILHÕES de reais. É uma média de R$ 294 milhões por família.

O estudo foi realizado em 2004 pelo economista Márcio Pochmann, atual presidente do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), e atualizado este ano.

É a base para um novo projeto de  taxar grandes fortunas. A proposta é a da deputada Jandira Feghali, do PC do B do Rio de Janeiro. Foi encampada como bandeira pela CUT, que já a apresentou à Dilma Rousseff.

O texto prevê a criação de nove faixas de riqueza em que os contribuintes ficariam obrigados a pagar esta contribuição. Só paga quem tiver patrimônio acima de R$ 4 milhões.

Começa pagando anualmente 0,4% sobre o patrimônio, vai subindo até 2,1% para fortunas de R$ 150 milhões ou mais. Tem muita gente com tanta grana?

Em 2008, eram 997 contribuintes do Imposto de Renda com patrimônio superior a R$ 100 milhões.

Considerando-se que quanto mais dinheiro, mais fácil escondê-lo, fica transparente que muita gente tem dinheiro de sobra no Brasil.

E na velocidade em que estamos criando milionários, a cada dia o bolo aumenta. Está na hora de dividir.

A questão é: vai tirar esse dinheiro dos ricaços para fazer o quê? Para o governo distribuir para outros ricaços, amigos dos amigos? É aí que está o coração do projeto da deputada.

Por que não seria um novo imposto - que vai para o cofre geral do governo - e sim uma contribuição, que tem destino específico. A ideia é que toda a grana arrecadada vá, integralmente, para a Saúde, para o SUS.

Segundo Jandira, a expectativa de arrecadação anual é de quase R$ 14 bilhões.

É muitíssimo mais justo que a CPMF, que para bancar a saúde tirava dinheiro igualmente de bilionários e proletários. Quem tem muito que ajude quem tem pouco. Para mim ainda é pouco.

Porque segundo a Organização Mundial da Saúde, o gasto público do Brasil com saúde é de US$ 385 por ano; a média do mundo é US$ 524 por ano (dados de 2008).

Diferença grande - está explicada a desgraceira na nossa saúde? Está. Um estudo da Dieese conclui que para o Brasil chegar à média mundial (que já não é aquela beleza), teríamos que investir quase R$ 50 bilhões A MAIS por ano.

Isso que dá ter população grande. Uma família que tem R$ 294 milhões de patrimônio pode abrir mão de bem mais que 2,1% disso ao ano. Não é pedir muito - aliás, não é pedir; nos cabe é exigir.

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É o assunto do momento nos EUA: pizza é um vegetal? O Congresso diz que é.

No dia 17 de novembro foi aprovado o orçamento do novo National School Lunch Program, programa governamental que alimenta 31 milhões de crianças em mais de 101 mil escolas públicas ou sem fins lucrativos.

O programa garante comida grátis ou muito barata nas cantinas escolares, para as crianças que mais precisam. O governo federal paga a conta: US$ 10,8 bilhões em 2010.

Antes da aprovação rolaram debates e mais debates, milhares de emails, departamentos governamentais influindo, ONGs palpitando. E a indústria alimentícia, que tem grana de sobra pra fazer lobby, investindo forte.

Resultado: o Congresso não só decidiu que Pizza conta como "vegetal", porque contém duas colheres de molho de tomate, e aprovou a inclusão de batata frita no cardápio - todo dia. Virou piada pronta nos talk shows e tema quente nas redes sociais.

Bizarro? Mais ainda se você considerar a) a obsessão ianque com a perfeição física e b) a epidemia de obesidade entre os gringos, que não sai de pauta.

Tanto que um dos programas de maior repercussão na TV americana é do inglês Jamie Oliver, o cozinheiro-gato que faz sucesso mundo afora, pregando que é moleza cozinhar bem e combatendo a ingestão de porcarias.

Jamie Oliver's Food Revolution se passa em Huntington, a cidade menos saudável da América. Metade dos adultos são obesos. As crianças comem pizza no café da manhã - faz parte da merenda escolar.

Jamie se desdobra para a molecada encarar um espaguete, mas não emplaca. Com dez anos, muitos não aprenderam a usar garfo. Só comem com a mão, hamburguer, pizza, nuggets, tanto em casa como na escola.

O programa é hipnotizante. Jamie mostra tomates para uma classe e pergunta, quem sabe dizer o que é isso? Ninguém. Um arrisca: batata.

"Jamie Oliver's Food Revolution" The unhealthiest city in America por perolasblogs no Videolog.tv.

Até a primeira-dama, Michele Obama, está engajadíssima na campanha contra a obesidade. Tanto que foi ela que apresentou o novo gráfico que ensina as crianças a comer direito.

Lembra da velha pirâmide alimentar, com carboidratos na base larga da pirâmidade, verduras e frutas, subindo até carnes e laticínios? Foi aposentada.

piramide ok Americanos: cada vez mais gordos e burros

O governo americano acaba de apresentar um novo gráfico para explicar pra molecada o que elas devem comer. É esse aqui embaixo:

forasta ok Americanos: cada vez mais gordos e burros

O objetivo, disse Michele, é simplificar a vida das mães. Em vez de ler rótulos e tal, basta olhar o prato dos filhos e ver se está parecido com este gráfico. Como se pode ver, é um gráfico tosco pra gente tosca.

O governo americano está pressupondo - talvez acertadamente - que o público é preguiçoso, desatento e incapaz de se informar minimamente sobre o que come.

O novo gráfico veio acompanhado de um novo site explicando direitinho tudo que o americano deve comer. Do jeito que a coisa vai, disse lá um político, não vamos ter gente para lutar nas guerras.

Como servir no exército se você está banhento? Segundo o secretário da Agricultura dos Estados Unidos, 75% dos jovens americanos entre 17 e 24 anos não estão em forma suficiente para servir nas forças armadas. Leia aqui.

Muito especialista reclamou. Disseram que laticínios e proteínas estão com uma representação muito maior do que deveria realmente ser.

Outros implicaram porque não deixa claro que existem muitas proteínas não-animal. Propuseram alternativas, como esta:

forasta 2 ok Americanos: cada vez mais gordos e burros

O mais embasbacante é a razão porque a velha pirâmide foi aposentada. Uma pesquisa do Center for Ecoliteracy, de San Francisco, com alunos da sexta série, indicou que a maioria não entendia a pirâmide.

Achavam que por que gordura e açúcar ficavam lá no alto, eram mais importantes que os alimentos que estavam embaixo. Parece boa prova de que a dieta americana típica realmente emburrece.

O mundo está ficando mais pobre e mais rico. Mais inteligente e mais burro. Mais forte e mais fraco. Nunca teve tanto milionário e tanta barriga tanquinho. Nunca teve tanto miserável e tanto obeso.

É tudo simultâneo e rápido. Às vezes fica bem difícil entender o que se passa.

Desta vez é bem fácil: as grandes empresas que vendem comida congelada mega-engordativa para a merenda escolar engraxaram o Congresso Americano, que, como dizia Mark Twain, é o melhor Congresso que o dinheiro pode comprar.

É de pequenino que se torce o pepino. Viciar a meninada na primeira infância é bom pros negócios. Quem cresceu se empanturrando de gordura trans e açúcar vai seguir na mesma toada até morrer - jovem, de diabetes. Mas sempre tem um novo consumidor chegando, nos EUA e aqui também.

Completando as surpresas, vem o valor que o governo americano pagou para desenvolver este novo gráfico. Foram dois milhões de dólares! Conheço uns vinte ilustradores que fariam melhor em meia hora ou menos.

A molecada americana pode estar emburrecendo, mas seu governo continua cheio de espertinhos.

Essas campanhas institucionais não têm poder nenhum, perto do bombardeio de publicidade vendendo salgadinho de pacote e tudo que é comida-lixo pra criançada.

Ou você proíbe as redes de fast-food de dar brinquedo, usar palhacinho de mascote, e de anunciar pros moleques, ou babau. Não proibimos anúncio de cigarro e álcool? Pois então.

Aí sim, dá para entrar com campanhas espertas nos intervalor dos desenhos animados. Tipo "Brócolis! Todo garoto irado come um montão e detona!".

Ou "As menininhas fashion comem frutas três vezes por dia!". "Lixitos dá bafo de chulé!". "Refrigerante é pra nerd gordão! Tome suco e concorra a milhares de prêmios!"

michelle ok Americanos: cada vez mais gordos e burros
Para enfrentar lavagem cerebral, só usando as armas do inimigo. E usando ao máximo nossos poderes de esculhambação e avacalhação. Não se leva faca pra tiroteio...

Pizza Is A Vegetable por perolasblogs no Videolog.tv.

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"Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas existe, e nada mais."

Paris, 1900: cinco garrafas de conhaque por semana constituem sua principal alimentação a esta altura. Fora elegante, aplaudido, glorioso. Caiu em desgraça.

Está um trapo, arrebentado pela rejeição, a pobreza, os anos na cadeia. Fraco, magro, com uma infecção permanente no ouvido. O tratamento é arsênico e estricnina.

Foi abandonado por quase todos. Sobra um companheiro, Maurice, e um antigo amante, ainda amigo dedicado, Robert Ross.

"Estou morrendo acima das minhas possibilidades", diz a ele. "Não tenho dinheiro nem para morrer."

É seu último companheiro de bar. Tomam absinto. "Que razão tenho para continuar vivendo?" Dia seguinte o ouvido supura. A meningite se instala.

Logo morfina para de funcionar para aliviar as dores de cabeça horríveis. Troca por ópio. E champanhe.

Dia 27 de novembro começam os delírios. Dia 29 está cadavérico e ofegante. A mente afiada como uma adaga dissolve. Eterno pagão recebe a extrema-unção.

Na madrugada de 30 de novembro, a boca começa a espumar. Ele vomita sangue. O coração para pouco antes das duas da tarde. O gênio implode - fluidos jorram de seu corpo por todos os orifícios.

O enterro barato é dia 3 de dezembro. Catorze pessoas, incluindo o grande amor de sua vida.

Na estante ao lado da mesa em que escrevo neste minuto tem um livro dele.

São 260 páginas de frases lapidares, retiradas de suas peças, ensaios, contos, cartas, ou simplesmente disparadas à queima-roupa em algum sarau elegante.

É um pedacinho precioso de sua obra completa, monumento que uma amiga querida se deu de presente neste Natal, e não consigo imaginar presente melhor.

As frases do livro estão divididas em 49 temas - Arte, Religião, Fumar, América, Inglaterra, Casamento, Amor, Jornalismo, Política, Beleza, Juventude e Velhice, Riqueza e Pobreza, e mais.

Não há um capítulo chamado Morte. Morte, confortável, indigna ou prematura, não é tema que interesse a quem disse "uso minha arte para viver, e só o meu talento para trabalhar".

O que importa é viver, e não só existir. "Acreditar é insosso. Duvidar é imensamente sedutor. Estar alerta é estar vivo. Sentir-se seguro é morrer."

Oscar Wilde morreu com 46 anos. Oscar Wilde vive.

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Minha casa está caindo aos pedaços, e ainda tenho vários anos de prestação pra pagar. Aqui não tem esgoto nem água encanada. Luz elétrica tem, mas a conta vive atrasada. Arroz e feijão eu garanto, mistura só no fim de semana.

Meu filho estuda em uma escola bem distante, em que falta tudo, de merenda a professor. Até que enfim dei sorte! Recebi uma herança da minha tia Tibúrcia.

Não é uma fortuna, mas dá pra começar a colocar a vida em ordem.

O que você acha que eu devo fazer?

a) pago as dívidas, quito e reformo a casa, abro uma poupança para garantir o futuro das crianças, ou

b) compro o terreno na favela aqui ao lado, construo um campo de futebol, e o resto que se dane?

O Brasil 2011 é isso: o desgraçado que de repente ascendeu a remediado. Quem nunca comeu melado, quando come se lambuza. O que importa é ficar bem na fita agora. Vale pra gente e para o nosso dinheiro.

Cada vez mais grana do meu e seu trabalho são drenados para os cofres públicos. De lá, parte polpuda vai direto para os grandes negócios dos grandes amigos de nossos ilustres representantes, com o devido pedágio.

A turba aqui no andar de baixo nem se toca, ou se percebe, bate palmas. Ainda mais se as negociatas vêm embaladas em um pacote convincente, luxuoso, e se juntar "emprego" e "esporte", sem polêmica.

estadio corinthians blog Pra Frente Brasil (e a criançada que pague a conta)
Então o paulistano está bem satisfeito com nossa nova "sports arena", o Itaquerão. Os cariocas batem palmas para a reforma do Maracanã.

E nas outras dez cidades que sediarão a Copa do Mundo de 2014 os torcedores comemoram seus moderníssimos estádios.

Esgoto e escola continuam artigos raros, e dinheiro pra assistir aos jogos da Copa o populacho não vai ter, mas os idiotas estão todos orgulhosos. Um estudo da consultoria Brunoro Sport Business, BSB, apresenta a conta.

As arenas esportivas que estão sendo reformadas ou construídas nestas doze cidades demorarão de onze a 198 anos para se pagar, considerando o nível atual de rentabilidade dos estádios.

Os doze estádios escolhidos para os jogos da Copa custarão bem mais e terão receita bem menor depois da Copa do que os que foram construídos para as últimas edições da Eurocopa.

Quanto pior? Bem, a arena com a pior rentabilidade é a de Manaus. Seu faturamento anual depois da Copa deve ficar em torno de R$ 2,5 milhões. Quanto estamos investindo? O custo total está estimado em R$ 499,5 milhões.

A nova Arena da Amazônia demorará 198 anos para se pagar, segundo a BSB. Isso supondo que não houvessem neste período novos gastos em manutenção (o que em duzentos anos deve somar uma bolada).

Mas a receita deve dar uma melhorada com um estádio novo, né? A consultoria mexeu com os números pra cá, pra lá, considerou que a receita poderia subir para até R$ 11 milhões por ano.

Em pouco menos de cinquenta anos, tá pago o estádio amazonense. Mas vai ficar lindão, hem?

estadionovo2 Pra Frente Brasil (e a criançada que pague a conta)
Em Brasília, o estádio Mané Garrincha está recebendo investimento de R$ 671 milhões - em 167 anos estará paga a conta. Cuiabá: desembolsamos R$ 342 milhões. Em Natal, a conta é R$ 400 milhões. E por aí vai.

Total da esbórnia: R$ 6,71 bilhões. O gasto é 32% maior que foi investido na África do Sul, na última Copa.

Claro que quando o prazo for esvanescendo, o custo vai subir, sete bilhões de reais ou mais, dos quais vai saber lá que pedaço imenso vai diretinho pro bolso dos de sempre.

Todo esse investimento para preparar o Brasil para a Copa tem impacto positivo na vida da população, defendem alguns, principalmente os que têm algo a ganhar, ou nada na cachola. Isso é propaganda.

O que ficou dos Jogos Pan-Americanos no Rio? Dívidas.

Se você quer informação sobre o efeito negativo de megaeventos esportivos no Brasil e mundo afora, sugiro começar com uma entrevista do professor Gilmar Mascarenhas, estudioso do tema. Leia aqui.

O Brasil está fazendo esta besteira no meio da maior crise financeira desde a Segunda Guerra Mundial, com os Estados Unidos e o Japão fazendo água, a Europa submergindo, e até a China desacelerando.

Estamos tomando esta decisão em um país em que as necessidades básicas de parte imensa da população continuam desatendidas. E a minoria que vive menos mal tem que pagar tudo do bolso.

Socializamos os problemas e privatizamos as soluções.

O piso salarial de um professor brasileiro da rede pública é de R$ 1.187,00, para quarenta horas semanais. A lei tem três anos e não é cumprida em 17 das 27 unidades da federação, segundo reportagem da Folha do dia 16 de novembro.

Não temos dinheiro para investir no futuro da nossa criançada, mas temos sete bilhões para jogar no ralo, bancando o que não podemos, durante um mês de Copa do Mundo. Mas o que importa? É bola na rede.

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