
Presentismo. É uma nova palavra. Significa uma cultura absolutamente focada no presente. Como a nossa, hoje, segundo o criador do termo, Douglas Rushkoff, para quem deixamos para trás o tempo em que olhávamos para o futuro. Tendo a concordar. Também tendo a concordar com várias outras coisas que Rushkoff diz nesta longa entrevista, ostensivamente sobre sua nova graphic novel, ADD. Leia aqui.
Quando fala de nossa cultura, Rushkoff fala como quem vive nos EUA. Ele é um Media Theorist, ou como se diz hoje, Media Ecologist. Escreve romances, artigos e gibis piradões tentando explicar o que se passa à sua volta. Apóia o Anonymous e Occupy e vende consultoria para big corporações. É típico novaiorquino.
Foi morar no interior, mas continua frequentando a esquerda descolada global (se bem que esquerda é um termo muito ruim para isso. O que é o contrário de capitalista careta?). Tem uma filhinha de sete anos, que não é gênio do iPad. Brinca de boneca. Todos os coleguinhas sofrem dessa ou daquela desordem psicológica. Ela, coitada, não tem diagnóstico.
(clique na imagem para ampliar)
Rushkoff foi sempre interessante e confuso. Era mais ingênuo, socialismo Jornada Nas Estrelas modelito Wired, como assume. Está ficando velho e cético. Felizmente, é um quase desenganado bastante desencanado. Mantém o humor afiado. Leio sua não-ficção com interesse. Gosto muito de Back In The Box, um manifesto para que as pessoas se dediquem a fazer com capricho o que fazem bem.
Testament, gibi, tentei, mas não deu para encarar, pela verborragia. ADD comprei ontem mesmo. Grant Morrison diz que é o melhor gibi de super-heróis mutantes desde a era de ouro dos X-Men, e Morrison deve saber, considerando que sua fase com os mutantes da Marvel foi a última que prestou, uma década atrás. Rushkoff é letrado em cultura alta e baixa, e sempre tem o que dizer, mesmo que às vezes besteira.
Dá um pau na gamificação, e tem bom argumento. Mas não está dando a devida importância ao impacto que as mídias eletrônico-interativas terão nas salas de aula do futuro próximo. Aposto nos games como chave para a revolução educacional de que necessitamos. Larguei duas faculdades, mas de games eu entendo bastante.
Rushkoff acerta na mosca em um momento desta entrevista. Muitos críticos descartam os novos movimentos de protestos tipo Occupy dizendo que eles não têm pauta e não têm líderes. Douglas crava: eles não são leaderless, são leader-ful - são cheios de líderes, no sentido que muitos integrantes destes movimentos têm momentos de liderança, aspectos de liderança.
Uma campanha orgânica e em rede como essa não pode se articular em torno de um líder (até porque um líder inevitavelmente desapontará; ele cita Obama; eu citaria, em outro contexto, Lula; mas podia ser Kennedy ou Lênin).
Enfim: visite o site dele, leia a entrevista, se tiveres inglês para tanto, e se não, tá em tempo de aprender. Se discute no Brasil CPIs que terminarão em pizza. Esquenta o fla-flu tucano-petista habitual, todos mirando as eleições. O Brasil é muito presentista para mim. Tem outras pessoas falando de outras coisas pelo mundo afora. Pensando outros mundos. Enxergando o hoje, mas espiando o amanhã. Vou me concentrar nelas.
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