Publicado em 01/09/2017 às 15:57

Restaurante proibido para criança é uma boa

chocolate Restaurante proibido para criança é uma boa
Restaurante proibido para criança é coisa comum em muitos lugares do mundo. Aqui no Brasil andou rendendo polêmica. Não há razão. É ótimo que alguns restaurantes sejam mesmo proibidos pra menores. Você está lá naquele jantarzinho romântico namorando, e um bebê fazendo aquela meleca com comida na mesa ao lado? Sai pra lá.
Eu tenho filho já meio grandinho, levei ele muito em restaurante desde bebê, e continuo levando. Mas não levei em bar. Se chego num bar e tem um monte de criancinha correndo, tenho vontade de ir embora. Chorinho de criança não combina com cachaça.
Uma vez fui entrar em um hotel em Cuba, para almoçar no restaurante. Meu filho era pequeno. Sentamos na mesa e o garçom delicadamente nos informou que o hotel era só para maiores. Sem problema. Adultos podem querer ficar em paz sem adolescente fazendo bagunça e crianças berrando.
Essa polêmica sobre restaurante proibido para criança só acontece só porque o brasileiro ainda tem muitas dúvidas sobre seus direitos e deveres, e sobre a diferença entre o público e o privado. Anos atrás, quando o fumo foi proibido nos bares de São Paulo, percebi essa confusão mental que acomete muitos dos nossos compatriotas.
O ideal seria que na placa de cada restaurante e bar de São Paulo tivesse uma plaquinha. Assim:
- aqui se fuma
- aqui se bebe pelado
- aqui não servimos carne
- aqui toca Djavan
- aqui é só para mulher
- aqui é só para homem
- aqui permitido cachorro
- aqui é LGBT
- aqui é pra todo mundo mas só servimos comida vegana
E por aí vai. E claro, deveríamos ter a plaquinha escrita: proibido entrar com criança.
Informação transparente. Na porta, em todos os guias de jornal e da internet.
Entra quem quer. Trabalha lá quem quer. Pode até ter uns alvarás diferentes, pagar impostos de maneira diferente.
É assim que funciona uma sociedade livre. Coisa que, sabemos, não existe. Mas podemos ser um pouco mais livres ou um pouco menos livres.
Porque, veja, não existem espaços públicos. Existem espaços mais públicos ou menos.
A rua é um espaço muito público. O metrô, menos. Da catraca para frente, só entra quem paga. Um hospital público, menos ainda. Só entra doente e acompanhante. E tem regras para tudo.
Um restaurante é muito, muito menos público. Tem dono. E só pode ficar lá quem estiver consumindo.
Outro dia um shopping paulistano passou vergonha porque expulsou um menino negro. Ele é filho de um jornalista branco, que denunciou o caso. Realmente muito feio.
Mas você já se perguntou porque não existem meninos negros fazendo malabarismo com bolinha dentro do shopping e pedindo trocados, mas tem na frente do shopping no cruzamento, na rua?
Porque os seguranças do shopping não deixam, e são pagos pelo shopping para só deixar entrar gente que pareça ter algum dinheiro para gastar. O shopping é privado, e privado mesmo - inclusive têm câmeras filmando a gente e tal.
A questão da liberdade nos espaços públicos e privados é muito importante. Podemos aceitar alguns limites, que são os limites da civilização. É muito errado um restaurante (ou um shopping) se negar a aceitar, por exemplo, negros.
Mas será que um bar só pra mulher é necessariamente discriminação contra homens? E um bar só pra homem é discriminação contra mulher?
Vale pensar a respeito e vale discutir. Eu, pessoalmente, não tenho muita certeza. Só tenho certeza que nesses casos de liberdade, sempre acho melhor errar para o lado de mais liberdade do que para o lado de menos. E de vez em quando, é muito bom ficar em um lugar livre de crianças.

http://r7.com/ms49

Publicado em 30/08/2017 às 16:38

Chico Buarque e o disco que não foi

chico Chico Buarque e o disco que não foi
O novo disco de Chico Buarque é igual todo disco do Chico Buarque. Ele é nosso letrista mais sofisticado e segue assim. As melodias escorregam pelo ouvido, os arranjos são pedestres, a voz é de taquara rachada. Como sempre.
Chico não tem que provar nada para ninguém, claro. Mas todo novo disco é um teste. Todo mundo que chega a esse ponto de uma carreira tão importante concorre consigo mesmo. E de fato, na hora da gente ouvir, não vai ouvir repetidamente um álbum novo só porque no passado o artista fez coisas geniais.
Chico sabe que daqui cem anos será lembrado pelo que fez nos anos 70, não no século 21. Parece em paz com o fato. Não deve satisfações ao público - nenhum artista de verdade deve; se achar que deve não é artista, é marketeiro. Faça o que quiser que será tudo da lei, dizia Raul (hei, teria sido legal uma parceria Chico-Raul, hem?).
Caravanas é o disco que Chico quis fazer, ótimo, mas não é o disco de Chico que eu queria ouvir nesse momento. Ninguém do mundo artístico brasileiro se expõe politicamente como Chico Buarque. Ele dá e sempre deu a cara para bater. Pagou por isso de muitas maneiras. Recentemente, com agressões públicas e mais. Você pode concordar ou discordar das opções políticas dele. Mas se for simplesmente com um "gênio!" ou "vai pra Cuba!", não faz jus à inteligência de Chico.
Chico Buarque tem mais de meio século observando, registrando, refletindo o Brasil. Com sua sensibilidade social e talento imenso, poderia ter nos dado não o disco romântico que queria fazer, mas o disco político que o Brasil 2017 precisa ouvir. Minha crítica a Caravanas não é musical, não é pelo disco que é. Mas pelo disco que poderia ter sido.

http://r7.com/2nBT

Publicado em 29/08/2017 às 12:15

Toda dona de casa deveria receber um salário mínimo

mi 5243210047453038 Toda dona de casa deveria receber um salário mínimo
"Ninguém trabalha em 15,2 milhões de lares". Essa é a manchete de hoje do jornal Valor Econômico. É estarrecedora. Considerando a média nacional de quatro pessoas por domicílio, são 60 milhões de pessoas sem trabalho.
Mas o número de desempregados não é 13,5 milhões?
O cálculo oficial do desemprego é baseado no número de pessoas que procura emprego. Não inclui o que se chama de "desalentados", que desanimaram de buscar ocupação, e nem aposentados.
O levantamento foi feito a pedido do Valor, pelos pesquisadores Samuel Franco e Suiani Febroni, do Instituto de Estudos de Trabalho e Sociedade (Iets), a partir de dados do próprio IBGE.
O mais triste é que as famílias mais pobres são as mais afetadas. Das casas em que o chefe da família cursou o ensino superior, 12% não tem nenhuma pessoa empregada. Quando o chefe de família não tem curso superior, o número sobe para 32% dos domicílios.
É uma tragédia humana sem precedentes no nosso país. Deveria, deve ser a prioridade zero de todos nós. O tema número um do debate político e econômico. Não pode haver pauta mais urgente. Não dá para esperar 2018, e nem dá para esperar que uma eleição resolva uma calamidade deste tamanho num passe de mágica.
O fundamental é começar pela compreensão de que não criaremos 60 milhões de empregos no Brasil. Nem em um, nem em dez, nem em 20 anos. Nem as empresas e muito menos o governo.
A tendência do mundo é o exato contrário: o extermínio crescente de empregos, porque desnecessários graças à crescente automação, globalização, inteligência artificial.
Caminhamos para um mundo de supermercados sem caixa, carros sem motorista, e substituição da maioria dos empregos de colarinho azul e colarinho branco por robôs e computadores. Tanto que em países que estão crescendo, e crescendo bastante, o desemprego continua aumentando.
Imagine no Brasil, com essa crise. Imagine no Brasil, em que metade da população tem menos de trinta anos e um dos piores níveis educacionais do planeta.
A transferência de renda para as camadas mais frágeis da sociedade não é favor, nem caridade. É bom aproveitamento dos nossos recursos, e fará um país melhor, mais saudável e produtivo, e com mais segurança para todos. O que precisamos é de Renda Básica Universal.
Temos um programa razoável de Renda Básica, que é o Bolsa Família. Precisamos de um programa muito mais ambicioso, 20, 50 vezes maior, que dê conta desses milhões e milhões de pessoas que não têm e nunca terão trabalho.
Como pagar? Os ganhos de produtividade trazidos pela tecnologia devem ser repartidos, e não concentrados na mão de uns poucos.
E temos que começar a cobrar impostos de quem tem muito dinheiro, como se faz em todos os países decentes. Hoje esses 60 milhões sem trabalho continuam pagando imposto na comida, no remédio, na luz - e o 0,1% mais ricos do país praticamente não pagam impostos. Essa mamata não é sustentável e tem que acabar. Como têm que acabar os super salários no setor público, e outras abominações que ainda permitimos no nosso país.
Se não dá ainda para o Brasil garantir renda para todos os brasileiros, que comecemos pelo básico.
Toda mulher que cuida da casa e da família, fazendo comida, cuidando de roupa, faxinando, acompanhando a educação dos filhos, muitas vezes cuidando de parentes idosos, merece um salário mensal.
Trabalha e trabalha muito. E seu trabalho tem muito valor. Se você fosse contratar profissionais para fazer esse trabalho, quanto custaria?
Minha proposta modesta - para já, para ontem: que o Brasil pague um salário mínimo para cada uma das mães de família brasileiras, mulheres que labutam em casa. Começando por esses 15,2 milhões de domicílios em que ninguém tem trabalho.
Porque de fato as donas de casa brasileiras estão trabalhando. E de fato, elas saberão muito bem como usar esse dinheiro da maneira mais proveitosa para esta família.
E se você acha essa minha proposta fantasiosa - muito bem, temos 60 milhões de brasileiros sem trabalho, você propõe o quê?

http://r7.com/1MrX

Publicado em 28/08/2017 às 14:26

Quando um artista lança uma campanha, sempre desconfie (do VMA a Caetano e Anitta)

caetano Quando um artista lança uma campanha, sempre desconfie (do VMA a Caetano e Anitta)

Caetano Veloso e Anitta aparecem juntos em vídeo

Agora toda hora tem artista dando lição de moral na gente. Em dia de premiação mais ainda. No Video Music Awards teve pregação de astros como Pink, Kesha, Jared Leto e o grande vencedor da noite, o rapper Kendrick Lamar.

Chamando o espectador para enfrentar o racismo e o machismo. Alertando que existem telefones para ligar em caso de depressão. Pregando que a beleza está na diferença. Defendendo o direito dos transgêneros servirem nas forças armadas americanas. Bradando pra gente ACORDAR!.

Paris Jackson, filha do cara que levou esse discurso de bons sentimentos ao máximo de contradição, convocou: "se todos nos unirmos como um, nosso impacto será gigante... devemos ter zero tolerância com a violência, o ódio e a discriminação."

Tudo muito bonito. Mas esse negócio de todo mundo se unir como um é um convite ao pensamento acrítico, à submissão, ao totalitarismo. É todo mundo se unir atrás do líder iluminado, o gênio, o astro. Que é, claro, o que todo popstar quer: ele lá no palco, os fãs embaixo na platéia, aplaudindo na rede social, comprando sem questionar.

Uns anos atrás não era moda essa discurseira. Todo mundo ia ao VMA e ninguém falava de nada social não. Se defendesse alguma causa, era instantaneamente ridicularizado (Bono do U2 sempre melhor alvo). Mas agora é obrigatório, então todo mundo pica cartão com sua pregação.
Nos EUA os popstars ficam na retórica genérica. Aqui no Brasil também, e põem muito menos a mão no bolso para apoiar as causas. Nos EUA existem leis que estimulam a filantropia. Tipo "doe a grana pra sua ONG favorita ou pague o mesmo valor para o governo".

Mas aqui no Brasil nós temos um outro patamar de arrogância. Porque aqui tratamos nossos artistas como experts em tudo. Nove entre dez entrevistas com Caetano Veloso são sobre assuntos que não têm nenhuma ligação com sua carreira, e sobre as quais ele entende tanto quanto você. Ou menos.
Agora temos uma campanha #TudoPelaAmazonia. Caetano e Anitta juntos convocando todos nós a protestarmos contra a decisão do governo de abrir uma grande área da floresta para a mineração. Eu leio um bocado sobre meio-ambiente, mudança climática, desenvolvimento sustentável e essa parada toda.
Desde que essa decisão do governo foi anunciada, andei lendo especificamente sobre isso. Me parece que a melhor solução seria fazer uma análise caprichada de onde estão os principais recursos minerais da área. Fazer um planejamento detalhado de como explorá-los com o mínimo impacto na floresta e quem mora lá. Fazer tudo com muita transparência.E deixar uma boa parte da grana que esses minérios renderem ali na região mesmo. Em um fundo especial criado para isso, para investimento nas pessoas e no manejamento dos próprios recursos da floresta.

Complicado né? Que trabalheira. E que difícil fazer as coisas direito, nesse mundo tão errado. Mas que alternativa já?
A alternativa a lidar com problemas complexos em toda sua complexidade é dispensar a ação real pelo discurso irreal. É mais fácil simplesmente dizer "todos pela Amazônia". Todos, como prega Paris Jackson, todos obedecendo os iluminados líderes e causando nas redes sociais...

Os nossos maiores problemas são sempre complicados. Os popstars são muito bons em tornar os problemas pop, ou seja, simples de entender, simples de enfrentar com um simples refrão, uma hashtag, um discurso memorável no palco da premiação.

Em uma coisa concordo com os astros da música. Eles sempre mandam a gente resistir. É bom conselho. Resista a eles.

http://r7.com/uDmt

Publicado em 25/08/2017 às 16:47

O mundinho faz-de-conta de Liniker

arte3 O mundinho faz de conta de Liniker
Liniker se identifica como mulher, trans, negra. Em um show em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, desceu ao meio da platéia para cantar. Foi apalpada. Reclamou nas redes sociais:
"Outra vez objetificaram minha bunda, não quero ser objetificada por ninguém. É muito doido porque depois do que aconteceu eu me senti culpada por ter exposto as pessoas que fizeram isso. Mas não devemos nos sentir culpadas por isso, temos que falar mesmo. Não dá para fingir que está tudo bem. Chega! Isso tem que acabar!"
"Objetificar" é o tipo de linguagem que faz sucesso com o público de Liniker, mocinhas estudantes de humanas e companhia. Liniker é desses artistas prisioneiros do circuito Sesc, que a imprensa-curadora aplaude e ninguém fora desse mundinho ouve.
Eu ouvi quando ela apareceu, para saber do que as pessoas estavam falando, e não ouvirei nunca mais.
Mas qualidade não importa em música pop. Como gritar "Isso tem que acabar" no Instagram não importa. Como se arrogar direitos sem se dispôr a defendê-los não importa.
Liniker não foi apalpada porque trans ou negra. Vamos sair desse rarefeito mundinho da patrulha politicamente correta? Se Luan Santana for cantar no meio da platéia no seu show, não só será apalpado, como arrisca não sair vivo, as fãs devoram ele. Vale pra mulher também. Imagine que Anitta desce do palco e vai rebolar no meio da galera sem um cinturão de guarda-costas. É óbvio, evidente que vai ser "objetificada".
Mas isso lá é certo? Certo e errado não diminui risco. A mocinha tem todo o direito de ir de biquíni para o meio da geral no jogo do Flamengo, mas está se arriscando. O playboy tem todo o direito de passear de madrugada com o relógio de dez mil reais no pulso, mas tem grande risco de ser roubado. O ladrão tem direito de roubar? Não, mas depois que o relógio se foi, que adianta reclamar?
Na prática, todos nós sabemos que risco existe e nos portamos de acordo, ou pelo menos quem tem um mínimo de senso. Seres humanos sensatos sabem que o mundo real não é esse mundinho artifical de "espaços seguros", em que ninguém tem discurso fora das regrinhas, e você pode dizer o que quiser e fazer o que quiser sem riscos consequências.
Talvez você não goste desse mundo real e queira mudá-lo. Mas o primeiro passo para isso é aceitá-lo como ele é. E ter consciência de que se você der mole, o mundo vai passar a mão na sua bunda.

http://r7.com/mRpO

Publicado em 24/08/2017 às 15:38

Porque o Brasil adora George R. Martin (e porque não leio seus livros)

george rr martin bode na sala 1024x682 Porque o Brasil adora George R. Martin (e porque não leio seus livros)
Dos dez livros mais lidos do Brasil essa semana, cinco são de George R. Martin, incluindo os três primeiros. Todos fazem parte da série "Crônicas de Gelo e Fogo", que foram adaptadas para a televisão como "Game of Thrones", fenômeno de audiência e repercussão entre os fãs.
É fácil simpatizar com Martin, um tio gordinho e simpático, 68 anos, barbicha, sempre de boné, sempre vestido de qualquer-um, muitas vezes milionário. Cresceu lendo gibis da Marvel e jogando xadrez. Passou a escrever contos e romances de monstro, de ficção científica, de super-heróis, conforme o mercado comprasse. Um escritor profissional, dançando conforme as vendas, profissão que só nos Estados Unidos.
Nos anos 90 os leitores americanos se encantaram com grandes sagas, trilogias, tetralogias, séries compridas e cheias de personagens, principalmente de "fantasia". Termo que engloba muita coisa, mas dá pra resumir em uma expressão bem antiga, "sword and sorcery", espada-e-magia. Você sabe como é: cavaleiros e dragões, princesas e magos, castelos e encantos. Você sabe como é: "O Senhor dos Anéis".
Em 1996, Martin lançou o primeiro episódio de sua série de fantasia. Era justamente "A Song of Ice and Fire - Game of Thrones", aqui "Guerra dos Tronos", o livro mais vendido do Brasil essa semana. Fez sucesso desde o começo, mas nada comparável ao de hoje. Só dez anos depois virou série de TV através da HBO, e fenômeno global. Gerou um monte de livros paralelos, produtos licenciados, bugigangas diversas.
Não sou aficcionado por fantasia, mas também não tenho preconceito. Dei uma folheada de curioso profissional no primeiro livro. Prefiro fazer tratamento de canal que ler um desses inteiro.
Perguntei numa rede social: amigos leitores de George R. Martin, podem me explicar porque curtem tanto esses livros? Uma explicação comum é que seus personagens são ambíguos, não tem mocinho e bandido, bem e mal, maniqueísmo besta. Bem, isso é o mínimo que se aceita em literatura desde o século 19. É um avanço sobre, digamos, Harry Potter, mas não muito mais que isso.
Perguntei aqui pro amigo Tiago Alcântara, que curte a saga e a série, porque ele leu todos os livros e porque curte Martin. Suas respostas foram esclarecedoras. Sim, tem a ambiguidade moral. Mas também a maneira como Martin conta a história, com capítulos mostrando o ponto de vista de só um dos protagonistas. Sua falta de piedade com os personagens, que mata sem piedade; e o charme dos personagens principais, que é difícil abandonar. O próprio ambiente de vale-tudo dos reinos. Também confessou que depois de ter as duas mil páginas dos três primeiros livros, não teria coragem de não ler os seguintes.
Assuntei se os livros têm cenas de sexo como a série. Tiago confirma, mas mais suaves; de qualquer forma, raridade em livros de fantasia, tradicionalmente castos, leitura para todas as idades.
Entendi porque não assisto Game of Thrones. É uma novela. Não gosto de novela desde criança. Nunca assisti uma. Preconceito nenhum. Novela é um produto cultural tão válido quanto filme, videogame ou rap. Mas quando estou na casa dos outros e vejo uns minutos de qualquer novela, me sinto assistindo grama crescer.
O fato de Martin escrever telenovelas em formato de fantasia explica sua popularidade global. Novela é o formato de ficção favorito do planeta. O único lugar onde não era assim são os Estados Unidos. Mas no século 21 os americanos também se renderam à ficção multiepisódios, temporada após temporada desenrolando uma longa história. Brasileiro é doido por novela desde sempre, claro, e assim estão explicados os cinco livros de Martin entre os dez mais vendidos do Brasil.
Se não assisto novela, muito menos vou ler esses tijolaços, novela em papel. Abandonei romances gigantes tem mais de uma década. Sagas em vários volumes nem pensar. Jamais lerei Elena Ferrante etc. Devo estar perdendo muita coisa boa. Tem outras melhores, te prometo, te garanto.
Livro longo, só se for de contos, e o último que li, por acaso, é de fantasia: Cuentos Completos, de Jorge Luis Borges. Recomendadíssimo para você que adora George R. Martin. E para você que abomina, também. Um gostinho, aqui...

http://r7.com/NWLn

Publicado em 23/08/2017 às 16:04

Taylor Swift, uma estrela fabricada – por homens

taylor 1024x512 Taylor Swift, uma estrela fabricada   por homens
Taylor Swift acaba de anunciar seu próximo disco, Reputation. O anterior, 1989, vendeu mais de dez milhões de cópias e fez dela a mais popular estrela do planeta. Faturou um monte de Grammys também. Na cerimônia de premiação, Taylor terminou seu discurso dizendo: "quero dizer a todas as jovens: vão aparecer pessoas que tentarão sabotar o seu sucesso, ou levar o crédito pelas suas realizações ou por sua fama. Mas se você focar no seu trabalho e não deixar elas te atrapalharem, um dia você vai chegar ao seu objetivo. E então vai ver que foi você, e as pessoas que te amam, que fizeram você chegar lá. E essa é a melhor sensação do mundo."
Dias depois, Taylor anunciou a doação de 250 mil dólares para outra cantora, Kesha, para ajudar em um processo contra seu produtor e gravadora. A história é polêmica. Resumindo: Kesha foi descoberta aos 17 anos por um produtor chamado Dr. Luke. Na época, ela assinou um contrato exclusivo com o selo de Luke, que faz parte da gravadora Sony. Ele produziu e co-escreveu "Tik Tok" e outras que fizeram o sucesso da cantora.
O contrato era para cinco discos. Kesha por enquanto lançou dois. "Deve" mais três para a gravadora. No total, já foram vendidos mais de 60 milhões de gravações de Kesha em todo o mundo, entre mídia física e digital. Kesha fatura bem, mas tem que dividir a grana não só com a gravadora, mas com Luke.
Em 2014, Kesha entrou com um processo contra Luke pedindo o cancelamento do contrato. Foi bem mais longe: alegou que Luke abusou sexualmente dela, depois de lhe dar álcool e drogas, repetidas vezes, anos a fio.
Em fevereiro de 2016, a juíza que julgava o caso deu vitória a Luke. Disse o óbvio: é impossível provar que houve abuso sexual tantos anos depois, sem evidências físicas, nem testemunhas; Kesha era maior de idade quando assinou o contrato; o contrato é válido; e boa.
Uma revoada de estrelas saíram em defesa de Kesha. Lady Gaga, Kelly Clarkson, Ariana Grande, Iggy Azalea e outras. A parte divertida é que todas essas moças vivem justamente do trabalho de produtores como Luke, ou seu mentor Max Martin (o sueco que inventou Britney Spears e muitos outros).
São eles que bolam as canções, do começo ao fim, seguindo fórmulas quase "científicas" de sucesso. Elas se limitam a emprestar as vozes, devidamente melhoradas por computadores, e fazer as coreografias apropriadas em clipes e palcos. O pop moderno é karaokê puro.
A parte nada divertida do caso é o coro imbecil de aprovação a Taylor Swift por doar a dinheirama para Kesha e emprestar sua voz a esse discursinho anti-homem e desavergonhadamente marketeiro.
Dar 250 mil dólares, mais de um milhão de reais, para uma cantora famosa pagar custo de advogados, é cuspir na cara de tantas pessoas mundo afora que passam necessidade e podiam usar muito bem essa grana.
Taylor faz a feminista mas seu sucesso é resultado do trabalho de um bando de machos. Desde seu primeiro disco, Taylor Swift tem como parceiro invisível Glen Chapman, produtor e compositor. Sem Chapman ela não tinha carreira no country. "Shake it Off", seu grande sucesso de 2015, é produção de dois homens, Max Martin e Shellback. É a dupla que transformou Swift de estrelinha country em estrelona pop, desde o primeiro grande hit da cantora,
"We Are Never Ever Getting Back Together", em 2012. "Shake It Off" foi milimetricamente planejada. Alude diretamente a hits recentes, como "Happy" e "Let It Go", e antigos, como "Hey Ya", do Outkast.
O disco que ganhou o Grammy, 1989, é assinado por doze produtores, dos quais só dois são mulheres, Imogen Heap e a própria Taylor (que leva o crédito automaticamente. Superstars sempre podem se dar o crédito de co-produtores; é costumeiro).
Taylor Swift escreveu sozinha uma única canção do disco - o restante tem assinatura desses produtores. O vídeo de "Shake it Off" foi dirigido pelo especialista Mark Romanek. E por aí vai. Olha os créditos dos trabalhos de Swift e procura uma mulher lá.
Kesha, aliás, acaba de lançar seu novo álbum, "Rainbow", que emplacou direto em primeiro na parada americana. É assinado por dez produtores, fora a própria Kesha. Adivinhe: dos dez, nove são homens.
Taylor é estrela de proveta, pré-fabricada da cabeça aos pés. Inofensiva, boazinha, boa de patrocinar - "Nazi Barbie", segundo Camille Paglia. Tem dinheiro sobrando, fãs à beça e acrítico puxa-saquismo da imprensa, porque como criticar um ícone feminista que empodera as menininhas do jardim da infância?
Esses popstars todos acabam se achando gênios, e acima da crítica e da lei - assinei contrato? Dane-se, eu sou uma estrela, não preciso seguir a lei, não preciso de ninguém. Muito menos de homem nenhum! "Girl Power!", como cantavam as Spice Girls, grupo criado, claro, por um homem...
Não duvido que Taylor, Kesha e essas estrelas todas acreditem mesmo que é sua genialidade que as levou ao sucesso, e não que sejam resultado de uma linha de montagem. É compreensível que os fãs dessas moças aplaudam babando qualquer pum que elas soltem, que dirá lindos discursos de empoderamento feminino. Mas não dá pra engolir que elas sejam ungidas ao Olimpo do feminismo como grandes batalhadoras contra a opressão do patriarcado.
O feminismo de Taylor Swift é tão falso quanto seu talento. A real é que Taylor, como Kesha e tantas outras superstars, são esterlas fabricadas. E são fabricadas por homens.

http://r7.com/cwHj

Publicado em 21/08/2017 às 10:12

O humor ficou pequeno para um talento do tamanho de Jerry Lewis

jerry lewis O humor ficou pequeno para um talento do tamanho de Jerry Lewis
Jerry Lewis morre sem deixar herdeiros nem legado. Só ótimas lembranças para uma turma que já vai ficando mais pra lá do que pra cá. Ninguém faz ou fará o que ele fez.
Jerry não é presença na TV desde os anos 70, quando minha geração o conheceu em festivais anuais da sessão da tarde, junto com Elvis e os Trapalhões. No cinema não dava as caras desde dez anos antes, metade dos 60. Sua obra não foi para o VHS nem o DVD.
Com a notícia da sua morte, fui procurar em quatro serviços online O Professor Aloprado etc. Nenhum tem nenhum filme de Jerry Lewis. É ilustre desconhecido das últimas duas gerações.
Jerry datou? Vou arriscar mostrar para uns adolescentes, para conferir a reação. Talvez riam, talvez nem consigam entender. E talvez fiquem com vergonha alheia, pela falta de vergonha de Jerry Lewis passar vergonha.
Jerry Lewis controlava seu corpo e rosto como ninguém. Era um remanescente do cinema mudo, nesse sentido. Seus filmes poderiam ser em russo ou latim e você iria rir do mesmo jeito. E tinha uma vitalidade inacreditável. Até porque fez sucesso muito jovem, dos vinte aos 35 anos. Energia máxima, sintonia fina, e sempre o mesmo personagem vulnerável, doce, infantil - mas não mexa com ele.
Jerry levou o humor físico muito além de Charlie Chaplin ou Buster Keaton, experimentando com posições de câmera, edição, som. Em algum momento seus filmes foram ficando abstratos, quase como os melhores desenhos animados da época. Não à toa Frank Tashlin, diretor de seis filmes da carreira solo de Jerry, um melhor que o outro, era um veterano dos Looney Tunes. Experimente "O Bagunceiro Arrumadinho".
O que matou o humor físico nos Estados Unidos foi a televisão. Nas séries impera a comédia de situação. Nos talk shows, os monólogos e papos roteirizados entre apresentador e convidado.
O último gênio do humor físico, quase ao nível de Jerry Lewis mas sem o mesmo espírito inovador, desafiador, foi Jim Carrey, por alguns anos. Rapidamente zarpou pra comédias familiares e chatice. Hoje todos os comediantes querem parecer cool e descolados, o exato contrário do que Jerry nos passava.
A decadência do humor físico seria menos triste se não viesse junto com a decadência do humor verbal. Ninguém é engraçado falando uma hora seguida, que é quanto esses standups falam. É muita gordura, muita enrolação.
O humor verbal sobrevive na internet, nos 140 toques do Twitter, em mini-sketches do YouTube. O físico menos - acho até que pelo tamanho da telinha. Que graça teria ver Jerry fazendo estrepolias com seu corpo em um celular? O humor ficou pequeno demais para um talento do tamanho de Jerry Lewis.

http://r7.com/6gSP

Publicado em 17/08/2017 às 15:24

Desespero dos derrotados não vencerá Barcelona

barcelona rutas turisticas alternativas 1024x628 Desespero dos derrotados não vencerá Barcelona
O mundo é um lugar cada vez mais seguro, mais aberto, mais tolerante, criativo e vibrante. Às vezes não parece, mas é o que apontam todas as evidências e estatísticas. Em poucos lugares você sente isso com tanta certeza e emoção quanto em Barcelona.
A cidade tem dois milênios de história. Já resistiu a visigodos e fascistas. É resolutamente rebelde, independente, alegre. Tem muito respeito por seu passado e muita fé, muito investimento no que vem por aí.
É um lugar para viver bem, com liberdade e confiança. Uma capital dos negócios que também é uma capital do prazer. Justamente por isso é alvo das forças do atraso. Representa como poucas cidades o triunfo do futuro.
Esses terroristas, como os supremacistas brancos que escandalizaram essa semana os Estados Unidos, não significam nada no longo prazo. Matam por desespero, o desespero dos derrotados.
Barcelona vive um dia muito triste. Mas Barcelona sobreviveu a muito pior, nosso mundo sobreviveu a muito pior. Seguirá linda, pujante, diversa, colorida, boa de bola. Esses fundamentalistas assassinos irão para a lata de lixo da história. Barcelona, e o que Barcelona representa, vive e triunfará.

http://r7.com/0L2A

Publicado em 15/08/2017 às 16:58

Os Defensores: uma novela escrita por robôs

The Defenders New Stills Portraits Marvel 1024x614 Os Defensores: uma novela escrita por robôs
Os Defensores eram meu grupo de super-heróis favorito quando eu tinha 11 anos. Foi a Editora Bloch que lançou em 1976. Eles eram Dr. Estranho, Hulk e Namor, de vez em quando o Surfista Prateado, depois Valquíria, Felina, Falcão Noturno e muitos outros.
Eram muito diferentes um do outro e viviam discutindo. As histórias eram muito doidas, cheias de ameaças sobrenaturais e extradimensionais. O time mudava toda hora. Muito mais divertido que os certinhos Vingadores ou a caretona Liga da Justiça. Uma surpresa a cada revista.
Li muito os Defensores, depois em edições americanas. Como o gibi nunca foi dos mais vendidos da Marvel, seus autores tinham muita liberdade para pirar geral. Suas histórias foram ficando cada vez mais birutas. Até que a venda foi caindo, caindo, e a revista mensal acabou em 1986. Tentaram ressuscitar algumas vezes, mas nunca deu em nada.
Agora tem essa nova série da Netflix com o Demolidor, Luke Cage, Punho de Ferro e Jessica Jones chamada... Os Defensores. Que não tem nada a ver com os Defensores psicodélicos dos anos 70. É uma história urbana, de combate ao crime. Não tem nada de embasbacante, espacial ou místico. Só por ter esse nome essa série já ganhou minha antipatia.
Essas séries todas da Netflix estão virando umas novelas. Novelas em que o roteiro é determinado por algoritmos. Por software que esquadrinha como assistimos cada episódio, onde pausamos, onde abandonamos, o que reassistimos, o que deu mais comentário. E baseado nessa análise dita o que acontecerá na parte dois, três, quatro da série.
No caso dos Defensores é pior, porque o novelão começou na primeira série do Demolidor, depois teve a segunda, e uma de cada um dos outros heróis. E agora tem mais oito episódios. E depois vai ter outra de cada um deles, e uma segunda dos Demolidores etc. e tal. É um falatório e um enrolol sem fim, escrito por robôs.
Vi as do Demolidor, com alguma má vontade. Abandonei as de Luke Cage e Punho de Ferro, e fiquei até o fim de Jessica Jones pelo charme chulo da heroína e do vilão.
Já passei dos cinquenta. Já tem mais areia na parte de baixo da ampulheta que na de cima. Meu tempo é precioso. Mas mesmo olhando impessoalmente, meu espírito de editor não perdoa. Dá pra cortar fácil pelo menos metade dos episódios de uma série dessas. Mas aí cadê o lucro pra Marvel e pro Netflix?
Essa dos Defensores, que estreia agora, dá preguiça. Só me dá saudade dos meus Defensores da infância, os verdadeiros, os doidões. Sou mais Twin Peaks. Uma série que é tão insana que já estamos no décimo episódio e o personagem principal, o Agente Cooper, ainda nem apareceu. Algoritmos têm suas utilidades. Mas surpreender a gente, eles ainda não são capazes.
Defensores Bloch 01 683x1024 Os Defensores: uma novela escrita por robôs

http://r7.com/NF5E

Publicado em 15/08/2017 às 09:41

Álvaro de Moya, o fã que fez o Brasil levar os quadrinhos a sério

Painel 22 1024x743 Álvaro de Moya, o fã que fez o Brasil levar os quadrinhos a sério
Álvaro de Moya chegou para dar palestra sobre quadrinhos na minha faculdade em um conversível branco, acompanhado de uma loira aerodinâmica uns 30 anos mais nova que ele. Contou história, contou piada, contou vantagem e zarpou, veloz e feliz.
Pensei opa, é assim que se faz... Não tive coragem de dizer para ele que Shazam, livro que editou, era um dos meus livros de cabeceira, lido e relido insistentemente durante meus anos de adolescente.
Eu levava HQ a sério, a única pessoa em meu círculo, que já tinha decidido em peso que gibi era coisa de criança. O livro, de 1970, reunia ensaístas que tratavam quadrinhos criticamente, com o mesmo amor e rigor que outros analisavam cinema ou literatura, relacionando com política e psicanálise.
Jô Soares era o mais famoso, escrevia sobre o Fantasma e o colonialismo (!). Sérgio Augusto, jornalista que eu conhecia do Pasquim. Os psiquiatras mais célebres da época, José Angelo Gaiarsa e Paulo Gaudêncio. Naumin Aizen, editor da Ebal. E o próprio Moya.
Poucos anos depois fui trabalhar na Folha. O Brasil e o mundo viviam uma explosão de criatividade nos quadrinhos, e o jornal começou a cobrir a área com mais destaque. Passei a acumular a função de repórter com a de colunista de quadrinhos, toda segunda na Ilustrada.
Minha inspiração era o Shazam. Eu não queria só noticiar os lançamentos, mas pensar aquelas páginas. Como outros na época, como muita gente hoje, quando temos uma crítica de HQ muito viva, e ninguém sério dispensa quadrinhos como "coisa de criança".
Álvaro fez muito mais que Shazam. Trabalhou na Abril, nas TVs Tupi e Bandeirantes, foi chargista, professor da USP. Seguiu escrevendo e divulgando HQ e principalmente Will Eisner, que popularizou no Brasil. Seguiu figuraça, sempre animado, sempre gozando de tudo e gozando a vida. Que curtiu até os 87 anos, ontem.
Vivi a vida lendo HQ e sempre um pouco ligado profissionalmente aos quadrinhos, como editor na Conrad, Pixel e Tambor. Encontrei Moya de vez em quando nas décadas desde aquela palestra. Nunca o agradeci como devia. Nunca conversei com ele a sério, pensando bem, a não ser quando ele ficou chateado porque estávamos fazendo a edição do Spirit para a Devir, e não convidamos ele para traduzir...
Adoraria perguntar para Moya porque ele levava quadrinhos a sério já nos anos 50, quando ninguém levava, nem os próprios artistas e editores de quadrinhos. Mais de meio século atrás, 1951, foi o principal organizador da Primeira Exposição Internacional de Histórias em Quadrinhos, em São Paulo.
Li vários livros dele, mas o lado simpático, fã, contador de causos de Álvaro nunca explicou direito como ele saltou da paixão infantil por heróis para essa relação mais madura com os quadrinhos.
Se não ficou explicado, ficou o legado. Alvaro de Moya fez muito pelos quadrinhos, inclusive o mais difícil: fez o Brasil levar quadrinhos a sério.

http://r7.com/DGKD

Publicado em 14/08/2017 às 14:56

Será que o Brasil precisa de Forças Armadas?

1407200967 Será que o Brasil precisa de Forças Armadas?
Em 2016, o Brasil gastou US$ 24.6 bilhões com nossas Forças Armadas. São quase 320 mil militares. É o décimo primeiro país com maiores gastos militares do planeta. Considerando que o Brasil nunca foi invadido por ninguém, tem boas relações com o planeta todo, e excelentes relações com o restante da América Latina, a pergunta é: para quê?
Não precisamos de exército, marinha ou aeronáutica. Deveriam ser abolidos. Faria grande diferença para o bem. Na América Latina, não há país mais civilizado que a Costa Rica. A principal razão é que a Costa Rica aboliu as forças armadas em sua constituição de 1949. Tem uma guarda civil e uma guarda rural e só.
Ninguém diga que aquele canto do mundo é tranquilo. A América Central já enfrentou de tudo. Ditadores, guerrilheiros, narcotraficantes, mafiosos, multinacionais que mandavam em países inteiros. A Costa Rica ali no olho do furacão e, em mais de seis décadas, sempre manteve seu rumo: nada de exército.
O que iam gastar com “defesa”, investiram onde mais importava — no ataque aos seus principais problemas. Hoje a Costa Rica tem alto índice de alfabetização, meio-ambiente superprotegido, pontua bem em todos os principais índices do bem viver planetário. Não é um país rico, nem de longe, mas em média vive-se com mais paz lá que em qualquer outro lugar da América Latina.
Se o Brasil abrisse mão de suas forças armadas, quem iria guardar nossas fronteiras? Missão impossível. São quase 17 mil quilômetros de fronteiras com dez países, a oeste, e mais de 7 mil quilômetros de litoral. Os EUA, com tanto esforço e investimento, não conseguem fechar nem sua pequena fronteira com o México.
A pergunta é outra: que país é capaz de invadir e ocupar um lugar do tamanho do Brasil, com 205 milhões de habitantes? Nenhum. No século 21, as nações se digladiam por outros meios. Cérebros valem mais que balas. Inovação mais que avião. O Brasil podia ter uma boa polícia federal, um timezinho de forças especiais bem treinadas, e um abraço.
O que vemos de ação militar nos últimos tempos é o uso de tropas em situações extremas como a greve da PM no Espírito Santo; no Rio, Amazonas, Rio Grande do Norte. OK, mas são coisas que nem deveriam acontecer se a polícia fosse devidamente treinada, remunerada e cobrada, e desse conta do recado. Militar policiando a sociedade civil não tem sentido nenhum.
Pense um pouco: num momento de aperto na saúde, na educação e outras áreas prioritárias, será que nosso país não tem uso melhor desses R$ 24.6 bilhões do que desperdiçar com as Forças Armadas?

http://r7.com/XSht

Publicado em 11/08/2017 às 10:30

O que aprendi sendo pai (e filho)

calvin 104 O que aprendi sendo pai (e filho)

Todo pai quer ser o melhor amigo do seu filho. Mas amigos se tratam de igual para igual. Nunca seremos iguais, meu pai e eu, eu e meu filho. Me dou muito bem com os dois. É amizade, sim, mas embolada em muitas outras coisas - autoridade, responsabilidade, contradição, confusão, história, amor.

Quando meu filho nasceu, meu pai, que é psiquiatra, me informou: "pai não serve para nada na primeira infância. A relação do nenê é com a mãe. O pai serve no máximo para ajudar a mãe." Não dei a mínima. Curti meu filho como se fosse mãe. Fiz tudo que mãe faz, menos produzir leite.
Tempos depois eu estava dando papinha para o meu filho, aquela meleca, e meu pai, do lado, mandou o seguinte comentário: "você sabe que eu nunca te dei papinha? Também nunca dei mamadeira, nunca troquei fralda, nunca dei banho... e você cresceu muito bem e está aí, um pai excelente!"
Fiquei feliz de ouvir isso, claro. Foi um desses momentos marcantes, o avô babão e o netinho babando, e me toquei que esse negócio de ser pai não tinha cartilha nem fôrma. A mulher quando dá a luz vira uma chave. O bebê lá todo sangrento e ela plim, se transforma em mãe de um segundo para outro.
Já pai não tem essa, não tem o clique, o momento da metamorfose. Ser Pai é uma coisa que o homem tem que ir inventando com o tempo. E nos dias de hoje, ser pai é explorar território desconhecido. Porque entre a geração do meu pai e a minha, o papel do pai mudou muito, e continua mudando, e o papel da mãe não mudou quase nada. A paternidade no século 21 é muito divertida, porque não tem regras claras.
Agora meu filho está adolescente. A relação de pai e filho muda. A autoridade automática do pai vai se esvanescendo. É o curso natural da vida. Você tem que criar uma nova relação, em novas bases. Aquela criança que você tanto curtia já era. Fica um tanto da personalidade, da criação, da doçura infantil. Mas quando os hormônios batem, batem forte.
Adolescentes são naturalmente insolentes, o que é ótimo e necessário. Mas prepare sua paciência para os comentários sarcásticos. E não adianta você retrucar, porque o moleque (ou moleca) está com o headphone no ouvido. Em outras épocas os reis mandavam jovens dessa idade pra guerra...
É um equilíbrio difícil. De um lado, você quer ser amigo do seu filho, uma pessoa em quem ele possa confiar e com quem possa conversar. De outro, não pode, não deve abdicar de ser pai, o que significa frequentemente ser chato e dizer não. Até o dia em que ele será adulto e independente, meus "nãos" passarão a ser meramente retóricos, e minha autoridade será exclusivamente moral, se é que a terei conquistado.
Quando seu filho vai crescendo é sinal que seu pai está envelhecendo. E você ali, entre um e outro. E quando os nossos pais vão envelhecendo, é tentador ter uma visão paternal deles. Tipo "eles cuidaram da gente, agora a gente é que vai cuidar deles".
Mas não é assim que funciona. Não dá para ser pai do seu pai, ou mãe da sua mãe. Não dá para força-los a fazer o que você quer, mesmo que seja "o melhor para eles". Também não dá pra lavar as mãos e deixar eles fazerem o que bem entenderem.
É muito mais complicado que isso, e é importante que seja mais complicado que isso. Depende muito da gente criar, com o tempo, uma autoridade moral de filho para pai. Exige tempo, dedicação, esforço, experiência. Como a nossa relação com os filhos, vai mudando com o tempo e nunca para de mudar.
Mas é para sempre, é contrato vitalício, é trabalho para todo dia. Ser pai dá trabalho, ser filho também. Mas nos dois casos é o melhor trabalho do mundo. Feliz dia dos pais, dos filhos - dos melhores amigos.

http://r7.com/hA57

Publicado em 09/08/2017 às 16:09

Porque o Brasil precisa de Pabblo Vittar rebolando na nossa cara

pabllo Porque o Brasil precisa de Pabblo Vittar rebolando na nossa cara

O cantor Pabllo Vittar em sua participação no Encontro nesta quarta (9)

É uma bicha! Rebola como bicha, se veste como bicha, tem voz de bicha - como é possível que uma bicha dessa faça tanto sucesso com os jovens? Quem, Pabblo Vitar? Não, Ney Matogrosso, mais de quarenta anos atrás. Lembro da primeira vez que vi os Secos & Molhados na tevê, uma bomba nuclear na nossa sala e na minha cabeça, vira homem vira vira lobisomem. Pra família brasileira, rock até então era Jovem Guarda. Eu tinha oito anos e me assustavam as "crianças cegas, telepáticas" da Rosa de Hiroshima.

Hoje Ney é o medalhão da nossa MPB, geração setentão, junto com os tropicalistas, Chico, Roberto Carlos e cia. Longa carreira para trás, segue lúcido, engajado. Seus shows seguem cheios de tiazinhas que acham Ney o máximo e cantam junto "se correr o bicho pega se ficar o bicho come."

Ney explodiu em um dos momentos mais sombrios da nossa história, o segundo recrudescimento da ditadura militar. Que não reprimia só a liberdade de expressão, de organização, de lutar por melhores salários. Era repressora também nos costumes. O ideal militar era cada cidadão ocupando seu devido lugar na sociedade, homem na rua e mulher em casa, Brasil Ame-o ou Deixe-o, e vamos cortar o cabelo aí, seu maconheiro. Ser bicha era ser fraco, e inaceitável no meu Brasil infantil, na minha escola pública onde toda sexta-feira celebrávamos o "Culto À Bandeira".

Mas naquele 1973 os ventos da liberdade já procuravam frestas para se infiltrar. E como sempre, o primeiro sopro vinha da Cultura, e não da política. No caso, da Contracultura. Quando as instituições se mantém imóveis, é necessário mudar a vida.

Em alguns anos a garotada que se espantou e se encantou com Ney teria imaginação e músculos para criar um Brasil diferente. Imperfeito, mas anos-luz à frente do regime militar. Seguimos tentando, alguns da nossa geração. Com cada vez menos empenho, mas essa é a ordem natural: coroas tocam o barco, jovens tocam o terror.

Hoje vivemos em um país muito melhor que o da minha juventude. E as mudanças não vêm como brisas, e sim com a força de um tufão, informação nova, digital, poderosa, provocante.

Uma mudança muito grande do século 21 é na área do discurso. Existe uma patrulha enorme sobre o que se fala e como se fala. Hoje as pessoas ainda usam termos como "bicha" e "viado" na rua, mas ai-ai-ai se você escrever. O problema é que nesse caso, como em muitos outros, essa mudança no palavreado não se reflete em mudança na vida real. A violência contra gays no Brasil continua extrema, e está piorando.

Segundo a Ordem dos Advogados do Brasil, nos primeiros quatro meses de 2017 houve um aumento de 20% nas agressões contra pessoas LGBT. Em 2016 houve 343 mortes violentas nesse grupo e 144 eram travestis e transsexuais. É quase um por dia. Fora os tantos que foram agredidos, que são agredidos, no dia-a-dia, e sobrevivem. Fora o tanto de preconceito que têm que enfrentar.

Há quem veja gente como Pabllo Vittar como parte do problema, porque "provoca". Nada disso. Ele é parte da solução. Pabllo se define como "drag queen". Mas não tem nada a ver com as Robertas Closes de outras épocas, homens que pretendiam passar por mulher. É sexy como homem e sexy como mulher, e não há como negar. Diz que gosta de "afeminada", de"ser o que quiser ser".

Pabllo é andrógino como os melhores popstars. Inimaginável hoje, mas Elvis era considerado muito feminino na sua época. E também os Beatles. E Bowie, Prince, Michael Jackson...

Pabllo Vittar vai ter uma carreira longa e proveitosa como Ney Matogrosso? Não importa. Importa o agora. E nesse momento, é evidente que Pabblo tem o mesmo potencial transformador de Ney.  Como Ney, Pabblo é agressivo nas performances, mas pura simpatia em entrevistas, articulado, engraçado e gente fina. E assim como Ney foi aceito pela família brasileira, Pabllo já começa a ser. Virando garoto-propaganda de cosméticos, cantando nos programas matutinos.

Não é que de repente todo mundo vai passar a aceitar os homossexuais, ou achar normal, ou aceitar tranquilamente se o seu fiho ser gay. "Todo mundo" é muita gente, e "de repente" é muito rápido.

Mas a presença de gente como Pabllo na nossa cena cultural vai fazer, com o tempo, que a gente vá aceitando a presença de gente como Pabllo na rua, no trabalho, na vida. É o caminho para que a gente pare de isolar, agredir, matar pessoas porque elas se relacionam com outras do mesmo sexo, se vestem de maneira estranha, ou têm atitudes das quais discordamos.

Você não precisa aplaudir Pabllo, mas precisa aplaudir um Brasil mais acolhedor e menos violento. Pabllo é importante, porque um perigo para o Brasil que ainda mata e persegue gays, esse Brasil nojento, que precisamos enterrar. Como fez Ney Matogrosso, Pabblo combate nosso atraso - rebolando bem na nossa cara.

http://r7.com/49oB

Publicado em 08/08/2017 às 13:47

Quem ainda se importa com Caetano Veloso?

cae 1024x682 Quem ainda se importa com Caetano Veloso?

Caetano Veloso completou 75 anos. Quando fez 70, a imprensa empinou ensaiadinha o rabicó, coreografia previsível, estilo abertura das Olimpíadas. Submissão abjeta à autoridade e ao consenso que compensa. Surpresa zero. Agora igual, mas no esquema internet, "relembre a trajetória". Nos dois casos, o tema das matérias era o passado do cantor, compositor, músico, muso, e ênfase é o presente. Pergunto: que presente? Caetano não importa há mais de três décadas.

Pior: importa em tudo que não importa. Segue influente onde sua influência é nefasta. Ninguém ouve o que Caetano diz, mas quem ouve é surdo à qualquer crítica ao guru. A vida é curta e os fãs de Caetano, à prova de argumentos. Já sei o que penso sobre sua bazófia, ansiedade e oportunismo. E ele é um senhor, ou, mais precisamente, um sinhozinho. Podia ser meu pai. Vamos respeitar o tio. Mas não vamos respeitar suas fanzocas baba-ovo.

Tenho prática. Jovenzinho, eu já costumava animar festinhas desanimadas zoando os zumbis-Caê. Jornalistaiada jovem e companhia, festinha no apê, turminha reunida em volta da geladeira, cerveja gelada, cheiro de maconha etc., discussões esquentando, eu jornalista culturets, suposto entendedor de música.

Bola quicando, eu chutava: a questão não é se Caetano Veloso já fez um monte de música boa. Claro que fez! (Qual? Minha resposta de arquivo é Leãozinho, que fãs de Caetano frequentemente odeiam, eu acho uma beleza de canção de ninar).

O problema, explicava eu espocando outra latinha, não é Caetano, é gente como vocês, que continuam babando por ele, batendo palmas sem pensar, quando ele não faz um disco que preste há muitos anos. Polêmica! Contestações raivosas: como assim? Tá maluco? E essa música, e aquela outra da novela ano passado, e o dueto com não sei quem?

E aí eu cravava a estaca: não estou falando de uma canção ou outra. Estou falando de um disco decente. Quer dizer, de dez músicas do álbum, pelo menos um terço tem que ser de bacanudas. Cite aí, amigo, três canções sensacionais de um disco recente de Caetano Veloso. Silêncio. Tentativas falhas.

Eu rebatia: não, essa é do Araçá Azul, essa é deste, essa não foi composta por ele, só vale composição própria etc. (quase tudo enrolação minha. Eu vou lá saber essas coisas?). O fato é que NINGUÉM jamais acertou três músicas decentes pertencentes ao mesmo álbum. Rendia uma meia hora de bate-boca, seguida de um satisfatório calaboca nos coleguinhas. Hoje seria mais fácil ainda. Caetano tem vários discos com pelo menos três canções de sua autoria inquestionavelmente decentes. São todos dos anos 70. Não é nem de longe suficiente para beatificação.

Caetano sobrevive da admiração acrítica de fãs bestas, da condescendência da imprensa e principalmente de suas relações. Que parecerista do Ministério da Cultura, diretor de marketing ou produtor de trilha de novela dirá não a Caê e Paulinha? Está sempre em evidência, sempre correndo para colar na nova modinha. Invariavelmente chega atrasado, mas sempre a tempo de passar por vanguardista junto aos desinformados, quem acredita ou se importa com vanguardinhas.

Em política, cala-te boca. Mas faça você de conta que o episódio Procure Saber não existiu. Caetano e os tropicalistas, e seus discípulos e apaniguados, são sempre Contracultura a favor. Estão perfeitamente integrados à veia principal da cultura e da política brasileiras,  fundamentadas na busca de benesses e na proximidade dos cofres públicos.

O falso rock da Tropicália inventou o adesismo antropofágico. Segundo os tropicalistas, nada é certo ou errado, tudo pode ser divino e maravilhoso. O novo, o velho, o brega, o chique, o intelectual e o ignorante. Você pode e deve transitar do morro à Barra, do samba no pé à mesa dos poderosos.

Nenhum juízo de valor é possível. O relativismo é o único mandamento. Qualquer um pode dizer: estou fazendo uma coisa radicalmente nova, e se você não entende é radicalmente careta. É a mensagem de Caetano, talvez a única. A estratégia tropicalista-de-mercado exige a apropriação de cada novidade que pintar. Nem é mais antropofagia, é glutonice. Quem nunca engoliu esses árbitros da cultura brasileira é perseguido, processado, e muitas vezes foi ostracizado - Raul Seixas é o caso mais chocante.

Raul, já sabemos, permanece muitíssimo vivo quase trinta anos após sua morte. Em 2050, esqueleto de Caetano brilhando no caixão, ele será lembrado por Alegria, Alegria etc., suas canções mais populares e antigas, umas 15 ou 20, que ficarão como intrigante retrato de uma época distante. Não é pouco. Também não é grande coisa, porque sua melhor obra se perde em meio a tanta porcaria que fez depois, dentro dos estúdios e nas ruas, na nossa cultura e no nosso país.

Meio século atrás, 1968, Augusto Boal já previa o futuro de Caetano:

"O Tropicalismo pretende destruir a cafonice endossando a cafonice, pretende criticar Chacrinha participando de seus programas de auditório. A participação de um tropicalista num programa do Chacrinha obedece a todas as coordenadas do programa e não às do tropicalista – isto é, o cantor acata docilmente as regras do jogo do programa sem, em nenhum momento, modificá-las (...) O  Tropicalismo é inarticulado – justamente porque ataca as aparências e não a essência da sociedade, e, justamente porque essas aparências são efêmeras e transitórias, o Tropicalismo... apenas xinga a cor do camaleão."

http://r7.com/NaNk

Publicado em 07/08/2017 às 12:14

Hospital que dá lucro é prejuízo para o paciente

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Um hospital é uma linha de montagem. O produto final é a alta ou o óbito. O objetivo do hospital é gerenciar os recursos da maneira mais eficiente. Produtividade é a palavra-chave.

Esta é a razão porque o internado vive sendo interrompido. Agora é hora do antibiótico, daqui meia hora da fisioterapia. Mais uma hora e vamos tirar sangue; mais duas horas, checar a pressão e a oxigenação; agora o banho; em mais uma hora o almoço, o soro, a milésima picada. E segue o inferno da interrupção infinita, hora após hora, dia inteiro e noite adentro.

Isso exaspera o paciente (e o acompanhante). Porque, primeiro, não se dorme. Segundo, a simpatia das profissionais (e são sempre “as”) não esconde que o sorriso é obrigatório, o salário é sofrível e a responsabilidade, pesada. Seria simples organizar isso melhor, com o foco no paciente, e não no andamento militar da máquina hospitalar.

Isso tudo, veja bem, é hospital bom, pra quem tem recursos e seguro bacana. Estão acima das possibilidades de 90% dos brasileiros. Mas os outros  hospitais, que atendem as massas, têm a mesma lógica, com níveis bem superioridades de crueldade - não do pessoal. Pelo contrário:  do Impessoal.

“Produtividade” é palavra que devia ser riscada da discussão social.  Discute-se política o tempo todo no Brasil. Palavras ao vento, porque não se fala de Política com P maiúsculo: como forçar nosso país a aplicar seus imensos recursos em favor de seu povo, começando pelos que mais precisam. E ninguém precisa mais que uma pessoa doente.

Enfrentar uma doença grave podia ser mais suave. Devia ser mais suave. O caminho de volta à saúde deveria ser uma jornada da fraqueza para a vitalidade, que elevasse o espírito e fortalecesse o ânimo. Como, sei lá, em Delfos, banhos, beberagens e bençãos dos sacerdotes de Apolo. Só que com toda a tecnologia atual, claro.

Uma parte enorme do que hoje é feito em hospital poderia ser feito em casa, aliás, e já começa a ser assim em muitas partes do mundo. Outra parte grande de manter a saúde é prevenção, o que naturalmente não interessa para os grandes players da área, começando pela indústria farmacêutica.

As discussões brasileiras sobre o tema pararam no século 19, como aliás várias outras. Quando leio os pseudo-debates sobre investimento social em saúde, tipo “devemos botar mais dinheiro nas crianças ou nos velhos?”, ou "o importante não é o salário", sempre lembro daquelas plaquinhas antigas de hospital mandando a pessoa calar a boca, “Silêncio!”.

Por que são assim tão desagradáveis os hospitais? Já não basta a agressividade das doenças? Não poderíamos ser mais gentis com as pessoas, quando elas estão no seu estado mais frágil?

Não, porque a “lógica econômica” dita que o hospital pode ter no máximo três enfermeiras para cuidar de 15 leitos, a fisioterapeuta tem que dar conta de três andares, o médico só pode passar cinco minutinhos. Para “a conta fechar”.

O que significa sempre que recursos preciosos, que poderiam estar indo pra gente doente, estão indo para outros destinos menos nobres. Sejam dividendos no bolso dos acionistas, dos hospitais, seguradoras e companhia. Ou, e nesse caso é a ainda mais injusto, a grana que deveria ser da saúde pública vai parar em algum canto obscuro do orçamento público, para os usos obscuros que todos conhecemos.

"Produtividade", no jargão de hoje, é fazer mais com menos. Pra quê? Pra dar lucro. Lucro com o sofrimento alheio é feio, vamos concordar. Nosso objetivo tem que ser outro: fazer mais para quem precisa mais. Enquadrar pacientes de carne e osso dentro da prisão dessa pseudo-produtividade (ou, como faremos no Brasil a partir de 2018, dentro de um “teto de gastos”) é imoral. E improdutivo...

http://r7.com/ztPT

Publicado em 03/08/2017 às 16:42

Neymar tem obrigação de fazer mais pelo Brasil

neymars 1024x576 Neymar tem obrigação de fazer mais pelo Brasil

Neymar vai ganhar R$ 9.25 milhões por mês do PSG. Merece? Claro que não. Qualquer professora primária da periferia tem muito mais utilidade para a raça humana que um jogador de futebol. Mas merece, na lógica invertida que vivemos, porque vai trazer mais dinheiro para o PSG do que o time está investindo nele.

Num mundo com tanta desigualdade, o salário de Neymar agride. Temos meio milhão de famílias na fila para receber o Bolsa-Família, e o garoto tá lá comprando iate porque é bom de fazer gol. Pobre brasileiro ganha dinheiro e vira "rico", com o comportamento habitual da nossa elitem "não é problema meu".

O mundo é como é. Mas em alguns lugares é menos injusto que outros. Na França o imposto de renda mais alto é 45%. Se sua renda anual está acima de 150 mil euros (uns R$ 550 mil), você vai pagar quase metade disso para o governo. E não tem choro nem vela. No Brasil sabemos bem como é.

O que é muito chato de Neymar, e de todos esses super atletas, é que eles são tão moldados pelo marketing que viram uns seres anódinos. Pra garantir os patrocínios milionários e a simpatia das torcidas, todos têm que fazer o papel do bom moço, sem nenhuma aresta, nenhum defeito, nenhuma opinião sobre coisa nenhuma. Neymar é isso, o garoto alegre, família, sempre o sorrisinho na hora da foto.

Vender atleta como "ídolo" depende sempre de transformar o esporte em uma atividade muito edificante para o espírito, inspiradora, educativa, gloriosa. Ora, é só um bando de caras correndo atrás de uma bola. Ídolo é quem faz alguma coisa admirável de verdade - e as coisas admiráveis de verdade, a gente faz pelos outros. O que Neymar fez pelo Brasil?

De concreto, existe o Instituto Neymar Jr., que atende 2400 crianças em Praia Grande, cidade onde ele nasceu. Ótimo, parabéns. Mas perto do que ele poderia fazer, com seu dinheiro e influência, é pouquíssimo. Se é ídolo de muita gente - e é - tem responsabilidade de se posicionar sobre as barbaridades brasileiras. Fazer cara de paisagem, no Brasil de 2017, é fugir à raia.

O Brasil é uma fábrica de molequinhos miseráveis. Quando um deles consegue escapar de seu destino, e se tornar o brasileiro mais famoso do mundo, tem obrigação de fazer mais pelo Brasil. E nós temos obrigação de exigir mais dele.

http://r7.com/9kwB

Publicado em 28/07/2017 às 15:54

Os artistas do Brasil precisam ser mais Mick Jagger e menos Chico Buarque

jagger 81325a 616x427 Os artistas do Brasil precisam ser mais Mick Jagger e menos Chico Buarque

Mick Jagger lançou duas músicas novas. Ambas têm forte conteúdo político. Mick escreveu no passado algumas das letras mais radicais do rock. Hoje tem 74 anos. É rico e famoso. Continua incomodado com a estupidez e a injustiça.

As músicas são boas? Jagger se permite efeitos e eletrônica impensáveis dentro dos Stones, que afinal são os Stones, uma banda de blues. "England Lost" é escancaradamente sobre o crescente isolamento do Reino Unido, sua saída da União Européia. "I went to see England but England Lost... I went to see England but it wasn´t there", diz o narrador fã de futebol, mas está falando do Brexit, da crise de refugiados, do establishment careta, carola, mentiroso. Ganhou vários remixes. Meu favorito tem rap e lembra em trechos o Clash - "This is Radio Clash", "This Is England".

"Gotta Get a Grip" é menos interessante musicalmente, mas que letra. Não resisto a publicar inteira ali embaixo. Mas antes disso, te pergunto: porque no Brasil, com tantas razões para nossos músicos radicalizarem em suas letras, eles tão comportados? Não estou falando de denúncias genéricas contra violência policial, racismo, "o sistema" etc. Estou falando de ir pra cima dos nossos poderosos, de enfrentamento explícito.

É certo que o artista brasileiro se acostumou a depender das leis de incentivo e da simpatia dos diretores de marketing para financiar seus projetos, e não só na música. É uma das razões porque nossos grandes nomes são tão invertebrados. Não querem correr o risco de ofender ninguém, jamais.

Mas não estou falando da música que faz sucesso. Pode ser música que não faz sucesso nenhum, não está na TV, na FM, nem bombando no YouTube. Cadê nossa música de combate?

Botei hoje essa pergunta no Facebook, me recomendaram uma banda chamada Merda. Que tem uma música chamada "Roqueiro Reaça". Beleza, mas queria entender porque não há músicas contra Temer, 95% de desaprovação. Ou mesmo Dilma, quando ela era o vilão do momento. Quando Collor era presidente, os Garotos Podres bateram nele com uma música chamada "Fernandinho Viadinho". Politicamente incorreto - mas politicamente correto, uma porrada juvenil em um poderoso que ferrava o país.

No mesmo dia Chico Buarque, contemporâneo de Mick Jagger, lançou sua nova música. "Tua cantiga" é uma canção de amor, na linha que tantas que já fez, e não faz bonito na sua obra. Chico, o melhor letrista que o país já teve, dá cotidianamente a cara a bater, e já teve que aturar muita malcriação pela sua explícita rejeição do impeachment, da Lava-Jato etc. É injusto cobrar mais participação política de Chico. Mas impressiona a dissonância entre sua atuação pública e sua produção artística.

Palmas para os dois, pela sua disposição de continuarem arrumando tretas. São razão para esperança: você não precisa virar um bundão só porque está velho, enrugado e bem-de-vida. Mas se é para os artistas do Brasil se espelharem em alguém, torço que seja em Mick Jagger - um cara que sabe que o rock é sempre do contra, e que o melhor rock´n´roll nunca é só rock´n´roll.

Gotta get a grip

Beat it with a stick
Gotta get a grip
She goin' for the hit
THe world is upside down
Everybody lunatics and clowns
No one speaks the truth
And madhouse runs the town
Well you gotta get a grip
Beat it with a stick
You gotta get a grip

Everybody's stuffing their pockets
Everybody's on the take
The news is all fake
Let 'em eat chicken and let 'em eat steak
Let 'em eat shit, let 'em eat cake
You gotta get a grip
You gotta get a grip
You gotta keep it zipped
And shoot 'em from the hip
Yeah, yeah, you gotta get a grip
Beat it with a stick

I tried diversion and I tried coercion
Mediation and medication
LA culture and aquapuncture
Overeating and sex in meetings
Induced insanity, Christianity
Long walks and fast drives
And wild clubs and low dives
I pushed and I strived
But I can't get you, can't get you
Can't get you out of my mind
Gotta get a grip

Oh you, oh you
Oh you, beat it with a stick
Immigrants are pouring in
Refugees under your skin
Keep 'em under, keep 'em out
Intellectual, shut your mouth
Beat 'em with a stick
Oh you
Gotta get a grip
Gotta get a grip
Chaos crisis instability, ISIS
Lies and scandals, wars and vandals
Metadata scams and policy shams
Put 'em in a slammer
Gotta get a grip
Gotta get a grip
Come on

http://r7.com/Xw_S

Publicado em 26/07/2017 às 19:20

O Brasil mata seus filhos

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Crianças lendo em um lixão em Olinda

Notícia: 40% dos brasileiros até 14 anos vivem em situação de pobreza. São 17 milhões de crianças e adolescentes. E 13,5% vivem em situação de pobreza extrema. São famílias que têm até um quarto do salário mínimo como renda per capita. O estudo da Fundação Abrinq analisa dados de 2015. Em 2017, pode apostar que o Brasil está mais pobre, mais injusto, mais cruel com esse milhões de brasileirinhos.
Não é de hoje que o Brasil trata com crueldade seus filhos. Todo ano é isso, todo ano será assim, um pouco mais, um pouco menos. Alimentar e educar nossos filhos deveria ser a prioridade zero do país, como é a dos pais. Acima de todas. Mas nunca foi, não é e não será tão cedo.
Temos um instrumento para isso, eficiente e elogiado internacionalmente, que é o Bolsa-Família. Que é muito pequeno. Precisava chegar a muito mais gente, ter um valor muito maior, e ser reajustado acima da inflação todo ano. E que não é obra de Lula, não só; sua origem está em programas lançados no governo Fernando Henrique. Então não vamos fazer disso mais uma partida no eterno e estéril Fla-Flu eleitoral.
Notícia no Valor Econômico: o ministro do planejamento, Dyogo Oliveira, informa que não haverá reajuste do Bolsa-Família no ano que vem, porque "não há espaço" no orçamento. A reportagem informa isso lá no fim, depois de citar uma série de coisas para as quais há espaço no orçamento.

Não vamos botar isso na conta de Dyogo. Ele é uma peça da engrenagem, você é outra, eu também. Estamos apáticos, anestesiados. Distraídos com a fofoca, a engenhoca, o cotidiano. Encapsulados por uma bolha de consenso criminoso. Nossa elite escravocrata convenceu nossa classe média apavorada que o problema são os pobres. Essa gente escura, supérflua, cheia de filhos.

Vamos então lembrar que o Bolsa-Família é o que o Brasil tem de mais moderno. Um começo de Renda Básica Universal, a melhor maneira de enfrentar o fim do emprego que nos impõe o avanço da tecnologia. De quebra, tem impacto direto na educação, na saúde, na violência. Negros, mulheres, idosos, deficientes e, claro, jovens.

Não reajustar o Bolsa-Família, neste ambiente de recessão sem fim, é condenar esses milhões de jovens miseráveis a uma vida ainda mais injusta, mais dolorida, mais frágil. Em muitos casos, à morte, por desnutrição, doença, falta de abrigo, remédio, esgoto, esperança.
O Brasil mata seus filhos. Que dramático, que patético.  Aceitamos calados, carneiros. Não adianta a gente botar a culpa no político do momento, na mídia, na corrupção, na nossa História. O sangue desses inocentes está nas minhas, nas suas mãos. E não sai. Não sai.

http://r7.com/dvTE

Publicado em 21/07/2017 às 16:16

O sentido da morte é a vida

6994e99a5a2c98eb6c168604de17b623 O sentido da morte é a vida

Morreu Selene, prima da minha prima Eliane, que me conta no WhatsApp. "Como assim", retruco surpreso, lembrando da mulher linda, inteligente, engraçada, que me embasbacava adolescente, eu 14 anos, ela 21, numa temporada em Ubatuba, a casa cheia de parentes, 1980.
Câncer, explica Eliane. Matou em um ano. "Ela sofreu pra caramba, tadinha, daquele jeito animado dela". A notícia materializa a jovem Selene na minha memória. Nos vimos uma vez por década desde então, mas nesse momento, para mim, aquele verão foi ontem.
"Que coisa sem sentido", respondo, e emendo, "bem, sentido não tem muito na vida". Eliane provoca, "Melhor para quem tem... fé." Sabe que não tenho nenhuma, e ela tem de sobra, minha prima também linda, inteligente, engraçada - e católica fervorosa, catequista. Respondo "Com certeza".
Médio. Na teoria a fé ajuda muito quando uma pessoa querida se vai. Porque você acredita que a pessoa foi para um lugar melhor, e um belo dia vocês vão se reencontrar pela eternidade. Na prática, todo velório vejo pessoas de muita fé chorando como se aquela morte fosse para sempre. Não entendo isso. Não entendo muita coisa.
Não entendo porque quando morreu um grande amigo anos atrás, Mauro Martinez dos Prazeres, também homem de fé, presbiteriano, desejei que ele estivesse certo e eu, errado, mesmo sabendo que não. Torci por uns minutos para que ele estivesse em alguma dimensão paralela, incompreensível, sobrenatural. Um mundo de sonho.
Mauro, aliás, me apresentou Neil Gaiman, na primeira vez que ele veio ao Brasil. Me lembro de dizer para Mauro que a Morte, personagem dos gibis de Gaiman, fazia muito mais sentido para mim que qualquer conceito de vida eterna. "Prefiro bater as botas e ter uma gata gótica me esperando do que alguém para me julgar".
O tempo fez Mauro voltar a ser presente na minha vida. De vez em quando leio uma frase, vejo um filme (o novo do Homem-Aranha!), e parece que vejo Mauro do meu lado, ouço sua voz, sei exatamente o que ele diria. Meu pai, cuja fé é muito pessoal e um pouco misteriosa, costuma dizer que sua vida é cheia de fantasmas queridos, gente que se foi mas continua presente no seu cotidiano. Os anos vão me ensinando o que ele quer dizer.
O destino de Selene e a troca de mensagens com Eliane me lembrou que para quem tem fé, o sentido da vida é a morte. O que fazemos na Terra é só um prólogo, uma preparação, quem sabe um teste para o que vem depois da morte. Para nós que não temos fé, o sentido da morte é a vida. É minha convicção profunda de que o fim será definitivo que torna a vida tão preciosa, sua fruição premente, seu significado sagrado.

http://r7.com/CZGY

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