forasta 1 ok O problema do Brasil é o presentismo

Presentismo. É uma nova palavra. Significa uma cultura absolutamente focada no presente. Como a nossa, hoje, segundo o criador do termo, Douglas Rushkoff, para quem deixamos para trás o tempo em que olhávamos para o futuro. Tendo a concordar. Também tendo a concordar com várias outras coisas que Rushkoff diz nesta longa entrevista, ostensivamente sobre sua nova graphic novel, ADD. Leia aqui.

Quando fala de nossa cultura, Rushkoff fala como quem vive nos EUA. Ele é um Media Theorist, ou como se diz hoje, Media Ecologist. Escreve romances, artigos e gibis piradões tentando explicar o que se passa à sua volta. Apóia o Anonymous e Occupy e vende consultoria para big corporações. É típico novaiorquino.

Foi morar no interior, mas continua frequentando a esquerda descolada global (se bem que esquerda é um termo muito ruim para isso. O que é o contrário de capitalista careta?). Tem uma filhinha de sete anos, que não é gênio do iPad. Brinca de boneca. Todos os coleguinhas sofrem dessa ou daquela desordem psicológica. Ela, coitada, não tem diagnóstico.forasta 2 ok pequena O problema do Brasil é o presentismo

(clique na imagem para ampliar)

Rushkoff foi sempre interessante e confuso. Era mais ingênuo, socialismo Jornada Nas Estrelas modelito Wired, como assume. Está ficando velho e cético. Felizmente, é um quase desenganado bastante desencanado. Mantém o humor afiado. Leio sua não-ficção com interesse. Gosto muito de Back In The Box, um manifesto para que as pessoas se dediquem a fazer com capricho o que fazem bem.

Testament, gibi, tentei, mas não deu para encarar, pela verborragia. ADD comprei ontem mesmo. Grant Morrison diz que é o melhor gibi de super-heróis mutantes desde a era de ouro dos X-Men, e Morrison deve saber, considerando que sua fase com os mutantes da Marvel foi a última que prestou, uma década atrás. Rushkoff é letrado em cultura alta e baixa, e sempre tem o que dizer, mesmo que às vezes besteira.

Dá um pau na gamificação, e tem bom argumento. Mas não está dando a devida importância ao impacto que as mídias eletrônico-interativas terão nas salas de aula do futuro próximo. Aposto nos games como chave para a revolução educacional de que necessitamos. Larguei duas faculdades, mas de games eu entendo bastante.

Rushkoff acerta na mosca em um momento desta entrevista. Muitos críticos descartam os novos movimentos de protestos tipo Occupy dizendo que eles não têm pauta e não têm líderes. Douglas crava: eles não são leaderless, são leader-ful - são cheios de líderes, no sentido que muitos integrantes destes movimentos têm momentos de liderança, aspectos de liderança.

Uma campanha orgânica e em rede como essa não pode se articular em torno de um líder (até porque um líder inevitavelmente desapontará; ele cita Obama; eu citaria, em outro contexto, Lula; mas podia ser Kennedy ou Lênin).

Enfim: visite o site dele, leia a entrevista, se tiveres inglês para tanto, e se não, tá em tempo de aprender. Se discute no Brasil CPIs que terminarão em pizza. Esquenta o fla-flu tucano-petista habitual, todos mirando as eleições. O Brasil é muito presentista para mim. Tem outras pessoas falando de outras coisas pelo mundo afora. Pensando outros mundos. Enxergando o hoje, mas espiando o amanhã. Vou me concentrar nelas.

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Você vê a lista de dez livros bestseller da semana e se sente na obrigação de ler? A lista das dez canções que estão bombando, e acha que devia ouvir? As maiores bilheterias do momento te fazem correr para o cinema?

Como reagir, então, à lista dos dez livros mais vendidos? Do planeta? Nas últimas cinco décadas? Eu não li todos. Desconfio que pouquíssima gente leu todos. Você pode encontrar a lista original aqui.

Eu li a Bíblia, primeiríssimo lugar, 3.9 bilhões de exemplares vendidos! Foi entre a quarta e a sexta série, quando eu ainda ia na missa. Pulei uns pedaços. Mas alguns trechos reli várias vezes, da última vez já no século 21. Uns pelos outros, considero que li inteira.

É um livro longo, escrito por muitas pessoas diferentes, em um período de centenas de anos, e editado durante outro longo tempo por outras tantas pessoas. A versão definitiva ou quase é de 393 D.C., em grego, resultado do Sínodo de Hipona, África, Agostinho presente. Deu origem à posterior Vulgata, primeira Bíblia em latim, ainda a versão usada pela Igreja Católica, com uns aparinhos. Pouco menos de um terço dos seres humanos vivos acreditam que a Bíblia tem inspiração divina.

Li o Livro Vermelho de Mao-Tsé-Tung, um segundo lugar distante, 820 milhões de exemplares. Incrivelmente, ele teve status quase divino enquanto reinou na China vermelha. Li na faculdade, e reli depois comparando com uma coletânea de ensinamentos de Confúcio. Pensando bem, vale outra releitura:  deve ser bem útil para entender a China moderna, o que todo mundo deveria tentar.

Harry Potter, fucei as primeiras 40 ou 50 páginas do primeiro livro. Deu para entender o apelo daquele primeiro estouro. Não deu para entender o tamanho ou permanência do sucesso: 400 milhões de exemplares vendidos (a série toda). O Senhor dos Anéis, para surpresa dos amigos, só encarei o primeiro trecho de O Retorno do Rei, o último da trilogia, edição porcalhona da Artenova, aos 17 anos. Não entendi nada e nunca me ocorreu ler a série completa.

O Alquimista (enfim, o Brasil chega ao pódio!) eu li ano passado. Foi o primeiro Paulo Coelho que terminei. É uma fábula, e se insere organicamente numa longa tradição, que vem de tempos ágrafos. Está no território das Mil e Uma Noites, de Jorge Luiz Borges e das historinhas que todo pai inventou para ninar seu filho. Por isso, não adianta se encher de orgulho nacionalista: O Alquimista não é brasileiro, é universal.

O Código Da Vinci detonei do começo ao fim em uma tarde. Parece um filme de Hollywood, ou seja, previsibilíssimo. Eu já sabia um monte de coisas sobre a lenda da linha sanguínea de Cristo, Templários, Sang Real etc., então as grandes surpresas não me surpreenderam em nada, e adivinhei quem era o vilão na página que ele apareceu.

top books Bíblia lidera a lista dos 10 livros mais lidos nos últimos 50 anos

A Saga Crepúsculo, bem, não sou menina e não tenho 12 anos, reais ou imaginários. E o Vento Levou, visto o filme, o que resta? Melhor que Clark Gable e Vivian Leigh, não será. Think and Grow Rich, de Napoleon Hill, eu nunca ouvi falar! Soa autoajuda pra americano. Quem pensa, não tem tempo para ficar rico... vou dispensar.

Finalmente, O Diário de Anne Frank: penso ter lido, mas só lembro das desgraças, e nada da história. Vi o filme? Tenho a sensação horrível de claustrofobia, Anne e a família se escondendo dos nazistas no sótão. É história real do começo ao fim, com pouco ou nenhum espaço para interpretação ou fantasia, e dolorosamente real. Felizmente esqueci todos os detalhes.

Leio dois, três livros por mês, fora as coisas de trabalho. É pouquíssimo perto do que já foi. É o que a vida e as prioridades permitem. Se cabeça e olhos permitirem, me resta tempo para ler mais uns mil livros nos próximos quarenta anos (não morro antes dos 87!). A perspectiva já me intimidou; seleção rigorosa parecia obrigatória. Logo relaxei e voltei a ler por prazer. Voltei a frequentar sebos. Leio livre. Ignoro canônes, buchichos, listas dos mais vendidos. É um dos meus maiores prazeres.

Temo por um futuro sem livros. Ou mesmo um futuro em que eles sejam pouco importantes. As novíssimas gerações não parecem ter paciência para atravessar centenas de páginas sem botões para premer, em especial os meninos. Bem, os livros chegaram às massas a menos de cem anos; a maioria das pessoas continua passando bem sem eles.

Meus poderes proféticos não são capazes de delinear um mundo em que livros serão só peças de colecionador. Mas minha bola de cristal garante: daqui a um século, no início do século 22, destes dez, só um continuará sendo lido e continuará influente. E você não precisa acreditar em Deus para acreditar em mim.

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Corre a internet uma carta do ator Wagner Moura, reclamando contra abusos da turma do programa Pânico. Ignoro porque voltou à baila. Teve quinze mil compartilhamentos nos últimos dias. Muita gente aplaudindo o ator. É de 2008. Continua boba.

O Pânico pegou Wagner na rua pra encher a paciência. Nada muito folgado, pelos padrões do programa. Confira por você mesmo:

Silveira e Silveirinha: Na madruga Wagner Moura Panico na TV por perolasblogs no Videolog.tv.

É argumentável que o Pânico é grosso. É mais argumentável ainda que um cara que vai fazer cover de Renato Russo, substituindo o cantor morto em um show com os sobreviventes da Legião Urbana, não dá assim para se levar muito a sério. Vai rolar mesmo essa história, juro. Eu não seria capaz de inventar isso.

Vai ter um show em São Paulo com Dado Villa-Lobos, Marcelo Bonfá e Wagner Moura, tocando canções da Legião. Queria eu acreditar em vida após a morte, para imaginar o espectro de Renato Russo, puxando as pernas dos ex-companheiros no meio da noite. Será dia 29 de maio, meia R$ 100, inteira R$ 200. Tudo aqui no R7.

tributo legião urbana wagner moura O faniquito de Wagner Moura e o mico de Dado e Bonfá
Wagner é ator, mas não vive só de interpretar. Ganha bom dinheiro com publicidade. Faz propaganda de produtos. Empresa sua imagem, prestígio, simpatia, credibilidade, e inegável talento para vender automóvel, celular etc.

Quando os abusados do Pânico vão encher sua paciência, é justamente para filmar ele tendo faniquito. Quanto mais raivosa a reação melhor será para o Pânico. Repercute. Gera audiência. Quanto maior a audiência, maior a receita de publicidade do Pânico.

Quando Wagner Moura usa sua imagem pra faturar nos reclames, tudo bem. Mas quando o Pânico usa a imagem do Wagner Moura pra faturar nos reclames, estão errados? Não é assim que o mundo funciona.

Parece essas loiras que casam, descasam, abortam e amamentam na capa das revistas de fofocas, e depois reclamam quando um paparazzi flagra sua celulite na praia.

Figura pública é figura pública, garoto propaganda é bom pra vender de tudo. Não dá pra ser celebridade só quando te interessa, camarada.

Dito isso, perto do mico que é Dado e Bonfá se prestarem a esse papel, dezesseis anos depois de enterrarem Renato Russo, dezesseis anos em que eles produziram de pouco a nada...

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Frans Hofmeester filmou sua filha Lotte toda semana, do dia em que nasceu aos doze anos. Sempre na mesma posição, com o mesmo fundo.

Rindo, chorando, babando, vomitando, falando, posando. Montou tudo em dois minutos e quarenta e cinco segundos. Resultado: um bebê virando uma pessoinha virando uma adolescente.

Um projeto que qualquer um podia ter realizado e, aliás, outros já fizeram coisas parecidas. Basta buscar por Time Lapse, e você vai encontrar outros vídeos hipnotizantes.

Nenhum, que eu tenha visto, com resultado tão legal. Ajuda que Lotte é uma fofa, bonitinha e expressiva.

Eu adoraria ter um vídeo desses do meu filho. Mas alguns de nós sonham, outros fazem.

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Leio a milionésima megarreportagem vendendo as maravilhas da tal nova MPB. Há quem a chame de indie, música feita de maneira independente dos meios de comunicação de massa, das gravadoras e rádios e jabá e TV.

Esta matéria tem direito a fotos dos artistas posando como os artistas de décadas passadas, Rita Lee, Tim Maia, Cartola. A mais chamativa tem um time de caras novas imitando a pose da capa de Tropicália, o disco que lançou Gil, Caetano, Gal, e o movimento que até hoje dá assunto. É gente como Romulo Fróes, Márcia Castro, Naná Rizinni, Marcelo Jeneci e Emicida.

Quem? Não se avexe. Ninguém conhece, fora jornalistas, publicitários e similares. Ninguém ouve. Ninguém se importa. Eles não fazem MPB, Música Popular Brasileira. Fazem MIP: Música Impopular Brasileira.

No Valor Econômico, mesmo final de semana, o jornalista Tárik de Souza garante que os ídolos dos anos 60, tropicalistas à frente, é que continuam comandando a massa. Banca a afirmação com números: Caetano vendeu nove mil cópias de seu último disco. Isso é ser popular? E Paula Fernandes é o quê?

A nova geração da música brasileira, como a nova geração do nosso cinema, e a nova geração da nossa literatura, está confortável na sua eterna impopularidade e no seu eterno sucesso de crítica. Porque vive confortavelmente sendo impopular. E os elogios da crítica, além de acariciar o ego, garantem uns caraminguás no circuito que paga bem pelo perfume da descolância. Não discuto se tem livro bom aqui e canção maravilhosa acolá. Não é o ponto.

Minha explicação para esse estado de coisas é sociológica e psicológica, e rasinha e panorâmica. Ano passado resumi em uma frase. A publicação das duas reportagens no mesmo final de semana me cutuca.

Todo mundo conhece a geração que decolou nos festivais, e eles continuam influindo nos criadores mais jovens. Continuam nas primeiras páginas dos cadernos de artes e nas capas das revistas de cultura. Os shows, 90% hits do século passado, lotam com nostálgicos de bolsos fundos. Mas Chico Buarque, Gil e Cia. não estão nas homepages dos portais, nem nos programas de auditório. Não dão clique, não atraem audiência, não fazem sucesso. Ninguém ouve. Ninguém se importa. Hoje também fazem MIP.

Jornalista tem que contar uma história. Geralmente conta a sua. Muitas vezes, em vez de abrirmos os olhos para o universo lá fora, nos deixamos hipnotizar pelas estrelinhas próximas, à nossa altura e ao alcance de nossas mãos. Daí é um passo para concluirmos: essa geração é minha turma, a minha turma é que fez ou faz história, e portanto eu, que registro a cena, e ajudo a construí-la, faço história também. Sou importante. I’m a star.

Tárik vê o mundo pelos olhos de seus contemporâneos. Quem não? Nunca fui crítico musical nem militante cultural, mas fiz minha partezinha para empurrar para os holofotes a turma que despontou no início dos 90, mangue beat, Raimundos, Planet Hemp etc. Foi uma espécie de new wave tupi atrasada, múltiplos gêneros e discursos, verdadeiramente internacionais, organicamente brasileiros. Nenhuma revolução, não, mas valeu. Eles falaram com os jovens da época de igual para igual. Arejaram o ambiente. Não tenho saudade.

A comparação da geração 2012 com a Tropicália é forçada. Em comum, só a obscuridade dos retratados hoje com os tropicalistas, no dia do lançamento de Tropicália. Esses novos nomes da música brasileira falam com pouquíssimos (assim como os velhos hoje). O camarada Maurício Ângelo resumiu bem no site Movin Up: O indie vai bem, falta falar com o público.

Antigamente, dinheiro de músico vinha de vender disco e ingresso pra show. É para isso que eles queriam aparecer (e para pegar mulher/homem, naturalmente). Famosos, as gravadoras pagavam propina para eles tocarem no rádio e aparecerem na TV. Hoje, há muitas outras maneiras, patrocínios daqui, leis de incentivo dacolá, usar o tênis tal no videoclipe e pronto. O sistema antigo era podrão, mas explícito, e criou astros.

O novo sistema é menos transparente e gerou, por enquanto, uma ceninha incestuosa onde todo mundo toca com todo mundo, todo mundo é amigo de todo mundo, e que importa para muito poucos. E nem sei se importa mesmo, ou se é só a coisa descolada a fazer e dizer. Numa certa idade e círculos, ser aceito como descolado é importante. O termo moderninho para se falar descolado é hipster. Hipsters querem falar com hipsters. Aparecer no Datena ou tocar na rádio Disney seria ostracismo certo.

Uma diferença grita entre os artistas que despontaram em 1968 e os que despontam em 2012. Os tropicalistas começaram a emplacar quando se renderam à TV, ao Chacrinha. Sugiro ler o manifesto antitropicalista de Augusto Boal, comunista da ala mal-humorada. Ele cravou na época: os tropicalistas não usaram os programas de auditório para seus próprios fins; é o contrário; eles é que se renderam à lógica da comunicação de massa. Os baihunos (ê, Millôr!) retrucaram: patrulha. E neste fla-flu continuam muitos.

Os novos artistas da MIP não parecem almejar seu momento no Gugu. O sucesso de massa seria um fracasso, e a expulsão do mundinho hipster. Nada de Teleton para esta turma. Nada de festa do peão, capa da Caras, big money. É uma turma de Tom Zés — ninguém com a ambição desmedida e falta de decoro de um Caetano ou Gil. E, claro, nenhum Torquato Neto ou Rogério Duprat à vista.

Existe música que faz muito sucesso no Brasil, hoje. Sucesso imenso, tanto quanto os Simonais e Wanderléas que dominavam as paradas quando os Tropicalistas faziam toda aquela força para fazer sucesso. É o que eu chamo de Música Super Popular Brasileira, e frequentemente me chapa a relação cama-e-mesa destes artistas com a mídia. Leonardo cantando no Faustão, enquanto o filho luta pela vida no hospital, vai além da minha capacidade de ficar boquiaberto.

A maior parte desta música superpopular existe para embalar festas e amores, e para encher os bolsos seus criadores. É funcional. A Música Impopular Brasileira nem uma coisa nem outra. Não equaciono popularidade e validade estética. A arte mais preciosa frequentemente foi e é privilégio de poucos. Observo o óbvio. Uma geração de Tom Zés terá o impacto limitado do seu patrono. Chamar isso de sucesso é fracassar.

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The Avengers <i>Os Vingadores</i> x Jack Kirby: justiça na tela, injustiça na vida real

Os Vingadores foram criados em 1963 por Jack Kirby, desenhista, e Stan Lee, roteirista e editor. Thor, Hulk, Nick Fury e Homem de Ferro foram criados por Lee e Kirby, o último com participação do também desenhista Don Heck. O Capitão América foi criado em 1941 por Kirby e Joe Simon.

Gavião Arqueiro e Viúva Negra foram criados por Stan Lee e Don Heck.

Você não vai achar nenhuma destas informações no filme dos Vingadores.

Stan Lee está creditado como co-produtor. É parte de um acordo que ele fez com a Marvel, muitos anos atrás, resultado de um processo: todo filme Marvel tem seu nome como co-produtor, e ele recebe uma fatia (pequena e não-revelada) da receita. Kirby e Heck: nada. Perguntaram a Stan Lee se Kirby deveria ter algum crédito no filme. Resposta: não sou responsável por isso...

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don heck <i>Os Vingadores</i> x Jack Kirby: justiça na tela, injustiça na vida real

Don Heck

Kirby foi o maior criador de gibis de super-heróis. Não foi o primeiro, mas fez melhor que ninguém, e influenciou tudo que veio depois, de um jeito ou outro. Está para o gênero como John Ford para o faroeste e Elvis para o rock. Em dupla com Stan Lee, eram o Lennon/McCartney dos quadrinhos dos anos 60. Ninguém sabia onde começava um e terminava o outro. O divórcio foi igualmente feio.

Kirby nunca foi dono dos personagens que criou. Fazia de encomenda e ganhava por página. Era um garoto judeu durão que tinha uma família pra sustentar. Sempre foi este o esquema dos comics. Desde o início, anos 30, quando os gibis foram inventados por um bando de gângsters novaiorquinos (a história está muito bem contada no livro Homens do Amanhã, de Gerard Jones, que publiquei anos atrás - orgulho, orgulho).

paul mccartney e jack kirby <i>Os Vingadores</i> x Jack Kirby: justiça na tela, injustiça na vida real

Jack Kirby e Paul McCartney

Kirby morreu brigando com a Marvel. Por ótimas razões. A Marvel e a DC e todas as outras editoras tratavam seus frilas como lixo, inclusive os mais importantes. Nem as páginas que desenhavam eles podiam manter. A história é conhecidíssima nos meios dos quadrinhos.

Em 1976, por causa de uma nova lei de copyrights nos Estados Unidos, a Marvel teve que regularizar sua relação com os freelancers. Propôs um acordo com Jack Kirby, co-criador da maioria de seus personagens mais populares. Em troca de receber 88 páginas que ele mesmo tinha desenhado, Kirby deveria abrir mão de alguns direitos. Uma lista incompleta:

- Kirby concordaria que a Marvel era a única e exclusiva proprietária do copyright e da arte produzida por ele em todo o mundo

- Kirby não receberia royalties sobre o uso futuro de seu trabalho pela Marvel

- Kirby ficava proibido de auxiliar outros artistas a questionar o copyright da Marvel

- Marvel teria direito ao uso do nome Jack Kirby, de sua imagem e informação biográfica para uso de marketing ou em publicações

- Kirby não teria direito a copiar, expôr, ou mesmo doar sua arte

- e por aí vai.

Avengers001cover <i>Os Vingadores</i> x Jack Kirby: justiça na tela, injustiça na vida real

Capa da primeira edição de The Avengers, contra Loki, mesmo inimigo do filme

Kirby se negou a fazer o acordo. A briga virou causa célebre. Criadores famosos apoiaram Kirby. Ele morreu antes que as regras mudassem para melhor. Ainda estão muitíssimo distantes do ideal. É por isso que mais e mais criadores (de quadrinhos, mas também de música, de filmes, de livros e de tudo mais que você imaginar) buscam lançar suas criações com o máximo de independência. Ou, quando trabalham com megacorporações, se enchem de precauções.

Mas no caso de personagens licenciados, tipo Batman ou Vingadores, ou mesmo a Turma da Mônica, não tem muito jeito. Você ganha pra produzir aquilo e boa. Uns dão crédito, outros não; uns dão royalties, outros não; mas sempre é muito claro contratualmente que é um trabalho de encomenda, e que a propriedade do seu trabalho é da empresa que encomendou o frila.

E no caso de criações antigas, do tempo de Kirby, ou mesmo nem tão antigas, não há como voltar atrás. Neil Gaiman não escreve mais histórias de Sandman porque a DC não paga os royalties que ele quer (por novas histórias e pelas reedições do original). A disputa de Alan Moore com a mesma DC já deu muito pano para manga e continua dando, com a anunciada série Before Watchmen, que recicla os personagens criados na graphic novel de Moore e Dave Gibbons.

Todos estes desenhistas e roteiristas que fizeram nossa alegria durante décadas ganhavam por página, às vezes com alguma quirelinha a mais. Esta semana mesmo, apareceu na web um pedido de socorro para o desenhista filipino Tony de Zuñiga, em estado terminal em Manilla, sem dinheiro para pagar o hospital. É co-criador do pistoleiro Jonah Hex, da DC, que teve seu próprio filme ano passado. Ganhou zero com o filme. É de cortar o coração.

Tony DeZuniga <i>Os Vingadores</i> x Jack Kirby: justiça na tela, injustiça na vida real

Tony de Zuñiga

O processo e a pendenga Kirby x Marvel continuam até hoje, em um formato ou outro. Mas ano passado, a Marvel ganhou o principal processo dos herdeiros de Kirby. O juiz decidiu: o trabalho era work for hire, ou seja, trabalho feito por encomenda, e é isso aí.

O juiz está certo. O contrato realmente dizia que Kirby não tinha direito a ser dono de nada. Mas contratos no século 19 estipulavam a legalidade da escravidão, e nem por isso eram justos. Existe a lei e a justiça. Esse é o tema de muitos gibis de super-herói. Se a lei fosse sempre suficiente, superseres com roupas esquisitas agindo à margem da lei seriam desnecessários.

É injusto que um filme que custou US$ 220 milhões como Os Vingadores, e dará muita grana, não traga o crédito devido para os criadores que originaram estes personagens, nem os recompense financeiramente, ou a seus herdeiros. Estamos em 2012, não nos anos 30. Entendo a posição de Marvel, DC e cia. Se abrirem precedentes, arrisca aparecer uma enxurrada de criadores pedindo o que julgam ser seus direitos.

Mas vale o risco e é a coisa certa a fazer. É possível que a Disney, hoje dona da Marvel, dê os passos na direção certa em anos vindouros - particularmente quando temos gente como John Lasseter na alta direção da empresa. A Pixar, sob sua direção, fez uma verdadeira carta de amor a Jack Kirby, um desenho chamado Os Incríveis. Quem sabe os herdeiros de Kirby receberão o que Kirby fez por merecer, se bastante gente disser que é importante.

É particularmente injusta essa situação porque, pelo que os amigos garantem, o filme é um megaépico recheado de conflitos interpessoais e humor, marcas registradas do original de Lee e Kirby. Li minha primeira aventura dos Os Vingadores em 1974. Tenho pilhas de gibis dos maiores heróis da Terra. Claro que estarei no cinema este fim-de-semana, filho a tiracolo. Mas explicarei para Tomás: o que está na tela pode fazer justiça aos Vingadores. Mas o que está por trás, não.

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Drew Garrett e Lauren Willy tem só dezessete anos, mas já são as garotas mais odiadas do mundo. Estão no equivalente do terceiro colegial nos Estados Unidos. Fizeram, na piada, uma dupla, e se intitularam Double Take.

Compuseram uma música chamada Hot Problems. Ela fala dos problemas de ser jovem e linda e popular.

A letra provoca, e mais ainda pelas duas serem loirinhas com caras de riquinhas, cantando dentro de uma limousine. Vai na linha não nos odeie, gatas gostosas tem problemas como você, a diferença é que somos gostosas; não somos perfeitas, de vez em quando mentimos um pouco.

O vídeo foi postado no YouTube no dia 15 de abril, dez dias atrás. Bombou - para o mal. Gente influente na internet disse que a música era idiota, elas eram péssimas, o clipe era ridículo. O lidíssimo Huffington Post cravou: pode ser o pior videoclip de todos os tempos.

Hot Problems ganhou um monte de covers tirando sarro, e muita gente zoando com as duas. Foi motivo de entrevistas pra todo canto, inclusive no popularíssimo programa Good Morning America.

Hot Problems - Double Take por perolasblogs no Videolog.tv.

No momento em que escrevo isso, o vídeo original foi visto no YouTube quase oito milhões de vezes (7.973.088, pra ser exato). A taxa de rejeição é insana. As meninas são odiadas. O vídeo ganhou 383.671 Dislikes. Isso quer dizer que uns vinte por cento de quem viu achou um lixo, contra 23.041 Likes, praticamente nada de fãs.

Eu gostei. Principalmente porque a música é tosca, elas não cantam nada, e, principal, não são gostosas. São umas gatinhas genéricas americanas com cabelo alisado e pintado. A letra e cara de pau é tudo. A entrevista das duas é genial. Começa com a menina dizendo: a gente sabia que não sabia cantar.

Muito provocativo, muito sassy, muito rock'n'roll. Com vocês, as adolescentes mais odiadas da internet no dia 25 de abril de 2012: Drew e Lauren, o palco hoje é de vocês, garotas.

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O Supremo Tribunal Federal julga hoje as cotas raciais, que reservam vagas em universidades públicas para negros e pardos. São constitucionais ou não? É justo reservar vagas baseando-se apenas na cor, e não na situação econômica? Aliás, é justo reservar vaga para alguém? Não seria melhor que as universidades admitissem estudantes baseando-se apenas no próprio mérito? Isso não vai piorar a qualidade dos profissionais?

Parece discussão complexa. Não é. É límpida e transparente como nascente na montanha. A universidade pública é pública de duas maneiras. Primeiro, é do público, de todos nós. Segunda, é para o público, para todos. O objetivo é que ela possa oferecer ensino da melhor qualidade para o maior número de pessoas possível. E mais: controlada pela sociedade. Não é sonho. É meta a ser alcançada.

O Brasil foi por outro caminho, historicamente, e recentemente também. Nossa universidade gratuita ainda é, sim, principalmente para quem pagou antes, quem estudou em escola particular. Difícil entrar, caros os anos estudando sem poder trabalhar. Mas a verdade é que muitos uspianos vêm da classe média, e outros tantos de escola pública. A imagem de playboyzinho de Mercedes não fecha com a realidade.

O que aconteceu nos últimos anos foi o de sempre: a privatização dos problemas. Já que a escola pública é muito ruim, e não temos vagas em volume nas universidades públicas, vamos dar um dinheiro para os pobres estudarem em universidades particulares. É subsídio ao estudante, e principalmente subsídio às instituições particulares de ensino.

O ProUni é uso medíocre e populista do dinheiro dos impostos. Eu preferia que sua verba fosse integralmente investida nas universidades públicas. Mas existem coisas muitíssimo piores, e faz diferença real na vida de muitos. Não tenho como ser contra.

Igualmente me sinto na obrigação de defender a lei de cotas raciais - e, aliás, sua ampliação. Negros e pardos merecem cotas. Pobres das sete cores do arco-íris merecem cotas. Portadores de necessidades especiais diversas merecem cotas. E, se marcar, as várias sexualidades diferentes merecem cotas. A piada pronta é que vai ter picareta se fingindo de travesti mulato e cego pra entrar na USP.

Bem, que seja assim. O Brasil é pátria de injustiças seculares, e fez feio sendo um dos últimos a abolir a escravidão, se é que. A diferença de direitos entre as cores segue firme e forte. A gente, os brancos, não enxergamos, como nota todo amigo gringo que aterrissa aqui, observando as cores das patroas e das babás. Qualquer avanço contra as velhas forças do mal precisa de defesa (não de aplauso automático). Não à toa, quem entrou com ação contra as cotas raciais foi o DEM, partido da ditadura, e Demóstenes Torres, este exemplo de retidão e senso cívico, foi dos que mais esbravejou.

Por mim as cotas serão estendidas para as escolas particulares, e, aliás, desde o jardim da infância. Mas a universidade pública é o lugar onde as cotas são mais importantes, porque espaço civilizatório, formador e multiplicador. De lá sairão os melhores profissionais, os melhores gestores, os pesquisadores de ponta - pessoas que vão influir muito, para o bem ou para o mal.

As cotas são especialmente importantes para os universitários brancos e bem de vida. Porque além do simples valor de mercado dos diplomados, está o valor de cada um como ser humano, o que somos todos, mais semelhantes que diferentes. O mundo melhor que queremos, o Brasil do futuro que chega a cada dia, tem que ser calcado na tolerância, na inteligência, e na convivência crítica com as contradições. O universitário que compartilha sala de aula com negro - e gay e cadeirante e anão e rico e pobre - ganha bem mais que um diploma. Sai formado na universidade da vida.

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200253696 001 O veneno no seu suco de laranja

Seu suco favorito é o de laranja? Estás com a maioria, no Brasil e no mundo. Tem coisa melhor que um sucão de laranja espremida na hora, dois cubões de gelo, dois canudos, no balcão da padaria? No café da manhã comprido do domingão? Ressuscita qualquer espírito. Vitamina C, azedume e doçura na medida certa, sempre um sabor ligeiramente diferente do último, e carboidratos de montão.

O epicentro da indústria da laranja no planeta Terra é o estado de São Paulo. É uma máquina de fazer dinheiro. Os plantadores de laranja no Brasil receberam no ano passado de doze a quinze reais para cada caixa de 40,8 quilos. Seja no suco da padoca ou no suco no Tetrapack, a margem de lucro sempre foi imensa. E visto que nossa economia cresce, e mais gente pode gastar, estamos tomando mais suco de laranja que nunca.

Pra fazer em casa é baratinho, mas demanda tempo, faz molhação na pia, há que dar fim no bagaço depois, e gera um custo de energia, ou elétrica ou do braço mesmo. Tem lugar que cobra dois reais, tem lugar que cobra sete, oito, ou mais, dependendo do frescor ou frescura do ambiente. Margem de lucro daquelas.

Por que então este ano a caixa de laranjas que valia doze reais vai cair pela metade, ou até chegar a três reais, segundo alguns analistas? Por que a laranja está em crise? O que vai acontecer com as cidades paulistas e mineiras cujas economias giram em torno do suco? E, principal para gente como a gente, nosso suquinho de todo dia vai cair de preço também?

A explicação oficial: tem veneno no seu suco.

Na safra 2011/2012, tivemos produção recorde de laranja. Nesta nova, teremos de novo uma superprodução. As empresas de suco de laranja estão com os estoques bem fornidos. Como vem mais um monte de suco por aí, elas não precisam se preocupar em garantir o suprimento a preço bom.

E o mercado externo está em queda. A responsabilidade principal é do governo americano. Mais da metade do suco de laranja consumido nos EUA é produzido no Brasil. Mas os Estados Unidos decidiram barrar a entrada de cargas de suco com Carbendazim, um fungicida muito usado em outros países, inclusive no Brasil. Isso espantou o consumidor americano. As vendas de suco brasileiro nos EUA caíram. Os citricultores brasileiros pediram um ano e meio para se adaptarem a estas novas exigências. Basicamente, vão ter que trocar por agrotóxicos mais caros. Com os quais os americanos não encrencam. Por enquanto.

Ironia - os produtores brasileiros gastam uma boa grana em agrotóxico para aumentar a produtividade, e agora que ela cresceu muito, a super oferta jogou os preços lá embaixo. Que frescos esses gringos, hem?

Bem, testes em laboratório indicam que altas doses de Carbendazim podem causar infertilidade. Os testículos dos ratinhos de laboratório basicamente explodiram. Na Austrália deu escândalo - tinha peixe nascendo com duas cabeças, todo tipo de deformidade. Altíssimas doses têm consequências seríssimas. Há caso de criança nos Estados Unidos que nasceu sem olhos, após a mãe ser exposta a uma dose alta de Benlate, parente do Carbendazim. Os países ricos decidiram que seu sucão de laranja, amigo, está envenenado.

É questão de política comercial? Os testes são precisos? Tem lobby na jogada? Que sei eu? Pelo sim pelo não, me garanto: aqui em casa só entra laranja orgânica. Não sou crente cego nas vantagens milagrosas da agricultura orgânica, mas uma é indiscutível: produto orgânico não tem agrotóxico. A desvantagem é que pago R$ 6,06 por um quilo de laranja pera - seis laranjas. É o preço de que será pago este ano por quarenta quilos de laranja ao agricultor!

Isso, para aqueles que conseguirem vender seu produto. Li hoje no jornal: especialistas dizem que um terço da produção total de laranjas do estado de São Paulo pode apodrecer no pé em 2012 - simplesmente porque, com estes preços tão baixos, não valerá a pena colher.

Tem algo muito errado com o mundo.

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Já viajei um tanto pelo planeta. Se pudesse, viajava pra fora todo mês.

Só de ouvir outra língua já fico feliz. Cada lugar tem seus charmes, cheiros, sabores, sons. Mas todo lugar que eu fui fora do mundo anglófono tem pelo menos um som em comum.

São os hits de cantoras gostosudas, para estourar em boate/FM, com videoclipes exagerados e coreografias ensaiadinhas. Não discuto supostas qualidades ou não do gênero (cujo único objetivo é entreter e fazer dançar, o que não é pouco). Mas sua onipresença é estonteante.

É um tipo de som internacional, um genérico de balada, que você jamais saberia dizer de onde vem, originalmente. Sem pesquisar nada, lembro de Paulina Rubio (que conheci no México em 1996) e Hatice (Turquia, 2000), e não vou saber repetir os nomes das que vi na Grécia, Tailândia, Nova Zelândia e por aí vai. Ficaram na minha memória, e sempre que encontrei uma gringa nova, minhocava: porque o Brasil não tem divas dance modelo internacional?

Agora tem. Pneumática, carnuda, letra chicletona, clip conceitual bem sacado, quase meio milhão de visualizações e nome de diva dance modelo internacional: com vocês, Erikka Supernova.

Erikka Supernova - BANDIDA - Clipe Oficial em HD por perolasblogs no Videolog.tv.

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