Publicado em 06/08/2013 às 16:00

Uma pergunta e um convite para Pablo Capilé

rodaviva midianinja Uma pergunta e um convite para Pablo Capilé

O coletivo Mídia Ninja é a coisa mais interessante que apareceu no cenário jornalístico brasileiro nos últimos anos, sua cobertura dos protestos dos últimos meses é sem igual, seu modelo de financiamento coletivo é inovador, eles fazem o que a grande imprensa não sabe nem quer fazer, e são as únicas vozes nas ruas nas quais podemos confiar.

A Mídia Ninja é só o braço pseudojornalístico do Fora do Eixo, instituição que é ponta-de-lança do projeto de poder do PT para o segmento Cultura-e-Juventude, financiada majoritariamente por verbas públicas, gestada dentro do Ministério da Cultura na gestão Gil-Juca Ferreira, e organicamente integrada à uma inteligência popular-digital que trafega e trafica influência entre academia, ONGs, governo e - sim - a grande mídia.

A verdade está em algum lugar entre a visão rósea da vida e a teoria conspiratória da história. A verdade não veio à tona no programa Roda Viva de ontem, quando alguns baluartes da imprensa paulistana entrevistaram por duas horas as figuras mais importantes do Fora do Eixo e da Mídia Ninja, Pablo Capilé e Bruno Torturra. Nem virá de outras entrevistas, ou debates acalorados no Twitter. A verdade depende de uma informação que só o Fora do Eixo pode fornecer. A pergunta que não foi feita no Roda Viva, e precisa ser respondida, é: onde estão as prestações de contas do Fora do Eixo?

Pablo afirmou no programa que as verbas públicas são um percentual pequeno do orçamento do Fora do Eixo, menos de 7%. Se os documentos comprovarem isso, o Fora do Eixo é de fato independente. Você poderá questionar a qualidade das ações do FdE ou das coberturas da Mídia Ninja, mas não sua autonomia.

Se, diferente do que Pablo afirma, é dinheiro de governos municipais e estaduais, governo federal e empresas públicas que bancaram e bancam a maior parte do orçamento do Fora do Eixo, não há como o FdE, ou a Mídia Ninja, se autoproclamarem independentes ou manterem a credibilidade que conquistaram. Simples assim.

Uma pesquisadinha na internet revela prestações de contas em Cubo Cards, a moeda virtual criada pelo Fora do Eixo. Veja aqui. Nenhuma em reais, que é como os impostos são arrecadados, como verbas públicas são distribuídas, e como a rede FdE precisa, legalmente, fazer sua prestação de contas. Também revelou links com muitas pessoas elogiando o Fora do Eixo, e outras tantas criticando, principalmente músicos e produtores musicais. Há um link para o site do governo do Mato Grosso, em que Pablo Capilé é citado como suplente do Conselho Estadual de Cultura. Leia aqui.

Não tem nada errado em ser conselheiro de governo estadual, assim como não há pecado em uma empresa de comunicação ser financiada por verbas públicas. Aí está a TV Cultura, que inclusive merece orçamento e carinho bem maiores. Ou a BBC, ou a National Public Radio. Nos anos 80  as melhores revistas da França, Itália e Espanha eram parcialmente financiadas por fundos governamentais. E qual das grandes empresas brasileiras de comunicação não receberam financiamentos estatais, qual das grandes não embolsam grandes investimentos em publicidade governamental?

O problema é quando isso não é feito com transparência, para usar uma palavra cara ao Fora do Eixo. Há quem diga que o Fora do Eixo tem dezenas de CNPJs, e neste caso há que prestar conta de todos; e se for mentira, que se negue já, e vamos colocar um ponto final na boataria.

Semana passada publiquei aqui uma entrevista feita por e-mail com Bruno Torturra (você pode ler as respostas, publicadas na íntegra, aqui). Agora estendo o convite a Pablo Capilé. Que tal provar de vez a independência financeira, e apresentar todos os documentos que dêem conta das contas do Fora do Eixo, Pablo?

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Publicado em 02/08/2013 às 11:29

Wolverine: imortal e imoral

clint eastwood Wolverine: imortal e imoral

Clint lembra alguém?

Wolverine é herói da fronteira. Pistoleiro solitário e soturno, brigão e bocudo. Só não vive no velho oeste, no século 19. É relíquia de tempos duros, deslocado na modernidade. Como Clint Eastwood, o herói/anti-herói por excelência dos primeiros anos 70, quando o herói mutante foi criado. Clint é cowboy, seja de chapéu e poncho, ou vestindo terno e gravata. Logan é Dirty Harry com garras de adamantium.

Wolverine - Imortal assume completamente o legado western do herói mutante. Tem a exata estrutura de faroestes clássicos como Shane. Ou como o remix de Shane, Pale Rider, Cavaleiro Solitário, estrelado por... Clint Eastwood. Na ressaca de superproduções espetaculosas e solenes como O Homem de Aço, aposta no mito fundador do cinema americano. Em roteiro decente, orçamento pé-no-chão, combate urbano mano-a-mano. Surpresa: investe em romance e em personagens femininas fortes. Hugh Jackman é peça rara - um astro que os machos admiram e as mulheres desejam.

Aposta mais arriscada foi a integração com filmes anteriores e próximos dos X-Men. Quem não viu, ou não lembra, tem grande chance de ficar perdido. Porque Wolverine agora é um mendigo barbudo que mora isolado nas montanhas? Porque vive enchendo a cara? Porque desistiu de lutar? Quem é essa Jean que fica aparecendo nos sonhos dele? E quem são os dois velhinhos que surpreendem o herói na tradicional sequência pós-créditos?

Que se passe inteiramente no Japão, e que quase todos os personagens sejam japoneses, também foi opção improvável. Natural para leitores de quadrinhos. Foi em páginas dos anos 80 que Wolverine, o cowboy fora da lei, mostrou seu lado samurai. Revelou-se homem dedicado e delicado, apaixonou-se por uma linda e forte japonesinha, assumiu responsabilidades antes impensadas. Descubriu os prazeres da honra e deu novo sentido à sua vida.

O que pode ser dificuldade para o espectador normal é delícia para os especialistas, nós. A primeira história que li de Wolverine foi a primeira história que li dos novos X-Men, 1979, um confronto com um time de super-heróis canadenses, Alpha Flight. A revista não parecia com nada que eu já tivesse visto antes, roteiro zapt-zupt, arte com perfume de futuro. Os mutantes se tornaram instantaneamente minha super-equipe predileta; Vingadores e Liga da Justiça não davam para o cheiro.

Li tudo que me consegui dos X-Men, que absolutamente ninguém conhecia no Brasil, e foi grande surpresa quando as histórias começaram a ser publicadas aqui. De repente os X-Men eram populares. E depois eles ganharam um desenho animado e mais outro e outro, e Cíclope e Ororo e Noturno estavam em mochilas e lancheiras. E de repente todos os heróis dos gibis se tornaram durões e violentos e amargurados, inclusive meu eterno favorito Batman (e o que é "O Cavaleiro das Trevas" se não uma reinterpretação de Batman a la Wolverine?). E depois vieram os filmes, e hoje todo mundo sabe quem é Wolverine. Quando olho para trás, fico meio besta com tudo que aconteceu. Que futuro fantástico vivemos.

frank Wolverine: imortal e imoral

Wolverine mergulhado em ninjas, por Frank Miller

Igualmente besta fiquei de assistir Wolverine em uma sala 4DX. A cadeira parece que vai sair voando., Sobe e desce, cutuca costas e traseiro. Jatos de ar te pegam por todos os lados. Quando a vilã Viper cospe veneno, um jatinho de água respinga na sua cara! Experiência assim costumava ser privilégio de parque de diversões. A primeira vez que senti algo parecido foi uma década atrás, nos estúdios da Universal, em Los Angeles, na atração do Exterminador do Futuro. Hoje tem na minha cidade!

Salas como essa custam o dobro de uma sala 3D normal, e valem cada centavo. Estão se espalhando por todo lugar. Porque cinema, cada vez mais, é para isso, para vivermos emoções que a TV e a internet não são capazes de oferecer. É por isso que o futuro do cinema (e não da narrativa cinematográfica) pertence aos superpoderes, à fantasia, à ficção científica, aos monstros. E aliás se você quiser saber como será este futuro, já pode - custa uma passagem a Los Angeles e uma entrada na mesma Universal, mas para viver a aventura Transformers - The Ride. Prepare o coração.

quadrinho Wolverine: imortal e imoral

Os X-Men, por John Byrne

Como me explicou um velho amigo, depois de assistir o primeiro filme dos X-Men: "ganhamos". É. E esse novo Wolverine, com tantos acertos a mais que os erros, e tão fiel aos quadrinhos, é mais uma batalha vencida. Mas o resultado da guerra continua em aberto. Porque as pessoas que criaram Wolverine, Len Wein e Dave Cockrum, não estão entre os vencedores. Nem Chris Claremont, que fez do personagem o que é, e criou a história que dá base a Wolverine - Imortal (inclusive criando os personagens secundários, Mariko, Yukio, Harada, Yashida). Ou Frank Miller, que desenhou a minissérie-chave de Wolverine no Japão. Nem John Byrne, que mais que ninguém fez do herói, canadense como ele, um protagonista. Byrne também criou o argumento que embasa a próxima aventura cinematográfica dos X-Men, Dias do Futuro Passado.

É imoral que Wolverine, um personagem criado há tão pouco tempo, por gente que está por aí, renda tanto dinheiro a seus donos e tão pouco a seus criadores. Não dá para declarar vitória antes que essa injustiça seja corrigida. O prazo é curto. Claremont, Byrne e a maioria das pessoas que tornaram Wolverine um ícone estão por volta dos 60 anos; Cockrum morreu passando dificuldades. Que os criadores recebam os créditos e royalties que merecem. A Marvel pode estar dentro dos limites jurídicos, ao negar os direitos dos criadores, mas está sendo aética. Trai os princípios que move seus personagens. O que é um herói de gibi, senão alguém que valoriza mais a justiça do que a lei?

Ainda mais Logan, eterno outsider. Ele o único super-herói dos quadrinhos criado nos últimos quarenta anos que rivaliza com os velhinhos Batman e Super Homem, Homem Aranha e Vingadores. Tem tudo viver além de Hugh Jackman e dos quadrinhos, viver para sempre, como esses heróis, e como o cowboy e o samurai, de quem é herdeiro. Wolverine pode ser de fato imortal. Mas precisa ser também moral.

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Publicado em 31/07/2013 às 18:57

Uma entrevista com Bruno Torturra, da Mídia Ninja

bruno torturra2 Uma entrevista com Bruno Torturra, da Mídia Ninja

Desde as manifestações de junho, a Mídia Ninja tem aparecido cada vez mais. É um coletivo jornalístico, que funciona de maneira diferente das redações tradicionais, e tem transmitido em vídeo, direto do meio dos protestos. Mereceu citações em órgãos internacionais, ganhou fãs, divide opiniões. A equipe tem muitos integrantes, mas a face mais conhecida certamente é a de Bruno Torturra, jornalista com longa passagem pela revista Trip. No dia 25 de julho, mandei este email para Bruno:

"Bruno,

negócio seguinte: tem muita gente batendo palma acriticamente para a Mídia Ninja, tem muita gente descendo o cacete.
Eu ia escrever um post... mas concluí que tem muita desinformação rolando, principalmente nos últimos dias.
E eu mesmo não sei quase nada de concreto sobre a Mídia Ninja. Por isso, prefiro dar a voz a quem criou a bagaça: você.
Prefiro te propôr uma entrevista, que contém perguntas, digamos, provocativas.
As perguntas são essas abaixo, publico tuas respostas. Edito se estiver longuíssimo, ou fora dos padrões do R7, e só.
Se quiseres sugerir alguma outra pergunta que gostarias de responder, fique à vontade. Não terá opinião nenhuma minha.
O título será: Uma conversa com Bruno Torturra, idealizador da Mídia Ninja.
Naturalmente, posso resolver fazer um post sobre a MN no futuro, mas não está nos planos.
Espero que você veja isso como uma oportunidade de esclarecer as pessoas sobre a MN.
Abraço!"

Bruno respondeu logo concordando. Só conseguiu responder hoje, pedindo perdões pelo atraso. Neste meio-tempo, outros artigos foram publicados sobre o Mídia Ninja, inclusive na Folha e no Valor. Nenhum respondeu a maior parte das minhas perguntas. Elas continuam valendo, e as respostas a elas estão abaixo.
Uma observação: no mais recente perfil de Bruno que encontrei na internet, ele diz que é um dos roteiristas do programa Esquenta, da TV Globo. Como explica abaixo, esta informação está defasada.

AF - A Mídia Ninja é uma empresa? Será no futuro? Tem fins lucrativos?
BT - Não é e nem será uma empresa. A ideia é nos tornarmos uma fundação, instituto... a figura jurídica não sabemos ainda, mas não terá fins lucrativos como uma empresa convencional de comunicação.
AF - Qual é o orçamento da Mídia Ninja?

BT - Não sei responder. Não fizemos essa conta, nem acho uma conta realista de ser feita nesse ponto, já que as despesas costumam ser pagas de acordo com a situação, colaborativamente, ou com alguma saída não monetária.
AF - Quantas pessoas têm a equipe? O que elas fazem? São contratadas? Recebem salário?

BT - A primeira pergunta também é difícil de responder, já que temos dezenas de pessoas colaborando em diferentes níveis de envolvimento. Um núcleo pequeno e crescente, de umas 15 pessoas, que trabalha em dedicação integral ao projeto. Outros estão bem próximos, colaborando com frequência, mas que ainda não estão disponíveis o dia todo. E há um número maior de pessoas que colaboraram vez ou outra, enviaram uma foto, deram uma pauta, emprestaram um equipamento, arriscaram uma transmissão. O mais importante é que temos mais de 1500 inscrições, de todos os estados do Brasil, mais de 150 cidades, de gente querendo se envolver no projeto. Com as mais diferentes propostas e expectativas.
O que elas fazem? Não há cargos por enquanto. Nem sabemos se haverá. As funções costumam ser definidas organicamente, de acordo com a situação e a demanda da hora. Desde dar uma carona para a equipe, até dar plantão ao vivo em uma delegacia, ficar em casa dando suporte de informação para quem está na rua... Ninguém é contratado nem recebe salrário. Nem há como nesse ponto. Como disse, não somos uma empresa.
AF - Existem planos para a Mídia Ninja gerar receitas no futuro? Quais são eles?

BT - Sim. No futuro bem próximo. Temos pensado em quatro diferentes modelos simultâneos de buscar financiamento para a Mídia Ninja. O primeiro é um crowdfunding inicial, para equipar melhor a MN, e bancar uma estrutura melhor de estúdios, e nosso site. Outro é, em seguida, lançar um sistema de assinatura mensal, de baixo valor, para gerar uma receita estável e previsível que viabilize os custos do dia-a-dia da MN, produção de reportagens, manutenção de equipamentos e, possivelmente, começar a gerar alguma receita para os que se dedicam integralmente ao projeto.
O terceiro são contas para doações para reportagens e temas específicos. Por exemplo: montar um time de 3 ou 4 pessoas, que pretendem reportar sobre questões indígenas no Mato Grosso, outra dupla dedicada a cobrir somente prefeitura de São Paulo, outro time quer investigar transportes... cada um terá um orçamento, cachês inclusos, específico. É uma forma não só de viabilizar jornalismo investigativo, mas engajar mais o público na produção de matérias.
O quarto é um sistema de microdoações, R$1, R$2... para peças específicas. Um texto, uma foto, um vídeo, um blog de autor. Essas pequenas doações não serão debitadas na hora. Funcionará mais como um botão de "like' no site. No final do mês o leitor recebe uma conta com o valor e a lista de tudo que ele "curtiu". Paga se quiser e quanto quiser. Essas doações vão direto para o autor do material em questão.
AF - Os integrantes do Mídia Ninja são na maioria jovens sem experiência, usando equipamento comum e tecnologia simples. Qualquer um pode fazer o que a Mídia Ninja faz? O que impede a mídia tradicional de botar jovens com câmeras nas ruas?

BT - A maioria é jovem, mas a falta de experiência é relativa. Muitos já trabalhavam com comunicação, tem mais familiaridade com redes e tecnologia do que a maioria dos jornalistas de carreira. E estão nas ruas há tempos, convivendo e articulando com os movimentos sociais. Conhecem bem o território onde estão. A tecnologia é relativamente simples. O principal é estar disponível e sem medo de dar a cara a tapa. Algo muito difícil de ser reproduzido pela mídia tradicional já que ela se pauta por cargos, cargas horárias, compromissos editoriais, interesses comerciais e um comprometimento de seus funcionários com o veículo cada vez menor.

AF - Ao se manifestarem, tomarem posições e serem presos, os repórteres da MN estão se tornando mais personagens que jornalistas?

BT - Tomar posição, expressar livremente e não vestir o manto da falsa imparcialidade é parte da nossa proposta jornalística. Há inclusive um relativo e intencional anonimato dos que produzem para a Mídia Ninja. Ser preso nunca foi nossa intenção... se estamos nos tornando personagens é porque a polícia, e a imprensa, está vendo a MN como uma pauta em si. Mas, insisto, nunca foi nosso plano. Estamos na rua para cobrir e passar a notícia. Não para ser a notícia.
AF - A Mídia Ninja é financiado em que medida pelo Fora do Eixo?

BT - A relação do Fora do Eixo com a Mídia Ninja é umbilical. Nasce dentro da rede do FdE, a partir de um acúmulo de experiências de comunicação que começaram junto com a própria rede. O FdE segue sendo a estrutura humana e física que mantém a MN funcionando e crescendo. O "financiamento" do FdE é, sobretudo a dedicação total, o investimento humano e a tecnologia social que viabiliza a organização e nossa cobertura. Os custos não mudam muito do que já era a despesa da própria estrutura do Fora do Eixo. A maioria das câmeras, telefones, computadores já estavam lá. E é o Fora do Eixo principalmente que ajuda a responder e organizar os novos colaboradores. São redes indissociáveis.
AF - O Fora do Eixo é parcialmente financiado pelo governo federal, assim como o Pós-TV, em que você tem um programa. A Mídia Ninja se considera independente?

BT - O Fora do Eixo é sustentado, essencialmente, por seus próprios recursos, vindos de centenas de festivais, eventos culturais e atividades produzidas pela rede em mais de 200 cidades do Brasil. E, sobretudo, por um caixa coletivo. Já que nenhum real se torna lucro ou salários pessoais, mas paga um sistema de compartilhamento, esse recurso rende muito mais do que o esperado.
Sim, há recursos públicos no Fora do Eixo. Todos editais, públicos e auditados, que qualquer indivíduo ou coletivo pode disputar. Isso não é "dinheiro do governo", "dinheiro do PT". Isso é política pública e se dá em nível federal, estadual e municipal, independente do partido. Nenhum desses editais foi direcionado para a Mídia Ninja. E sim, a Mídia Ninja se considera totalmente independente. Assim como a PósTV.
AF - Você é o idealizador da Mídia Ninja. Idealizou também o movimento Existe Amor em SP, que apoiou Fernando Haddad em São Paulo. Você é petista?

BT - Vamos lá. Eu sou UM DOS idealizadores da Mídia Ninja. E UM DOS idealizadores do Existe Amor em SP. Não, o Existe Amor em SP não apoiou Haddad. Nós defendíamos nas eleições uma mudança na visão de cidade proibida e careta da qual nos sentíamos reféns. E o direito de ocupar a rua, que havia sido criminalizada na gestão Serra-Kassab. A ideia do movimento é criar um contexto para os diferentes coletivos e ativistas de SP discutirem e pensarem em ações convergentes para, entre outras coisas, pressionar e influenciar a prefeitura.

Pessoalmente, votei no Haddad e fiz campanha para que fosse eleito. Também votei na Dilma, no Lula duas vezes. Assinei a ata de fundação da Rede Sustentabilidade da Marina Silva, faço parte de Rede Pense Livre, apadrinhada por FHC, acho o PSOL um partido cada vez mais interessante. E não, não sou petista, nem tucano, nem Marineiro... Não entendo a política como uma guerra de gangues.
AF - No Rio, os protestos influíram para queda de popularidade de Sérgio Cabral e viabilização da candidatura ao governo do estado do petista Lindbergh Farias. Você acha que a cobertura da Mídia Ninja contribuiu para isso?

BT - Eu acho que a cobertura da Mídia Ninja contribuiu para que mais pessoas soubessem do profundo sentimento de insatisfação do carioca em relação a Sérgio Cabral. Se isso beneficia Lindbergh, Garotinho, Crivela ou qualquer um não está, realmente, na nossa conta. Pessoalmente, não falo aqui em nome da todos da MN, acho que os cariocas estão em maus lençóis nas próximas eleições para governador.
AF - Alguns petistas no Twitter começam a fazer críticas à Mídia Ninja. A que você atribui isso?

BT - Depende da crítica. Se você se refere aos que acham que somos reacionários, tucanos disfarçados, atribuo ao tipo governismo tonto e paranóico que não faz mais nada a não ser tuitar. Um pessoal que acha que qualquer um que não diz amém a tudo que o PT faz é golpista, quinta coluna, etc. Nem perco meu tempo.
AF - O artigo sobre a MN na revista Piauí foi escrito por Ronaldo Bressane, seu colega na revista Trip. Você entende que o texto é imparcial?

BT - Bressane não é só ex-colega, mas um dos meus melhores amigos. Realmente, meio cabotino. Mas, amizade à parte, acho que o texto foi bem honesto.
AF - Você trabalha para a Rede Globo como roteirista do programa Esquenta. Vê alguma contradição entre este vínculo e seu trabalho com a Mídia Ninja?
BT - Não trabalho mais. Foi uma função que ocupei por menos de um ano, remotamente em São Paulo. E é bom que se diga: saí por total incompetência minha. Era uma equipe ótima, muito aberta a ideias. E nunca me cobraram ou questionaram meu envolvimento com a PosTV, Mídia Ninja ou com ativismo em SP. Eu que não consegui cumprir com as expectativas mínimas que depositaram em mim por estar absolutamente envolvido com os bastidores da Mídia Ninja, articulação do Existe Amor em SP. Lamento não trabalhar mais com Hermano, Ronaldo, Paula, Patrícia... turma boa. Mea culpa.

AF - Você acha que os manifestantes que gritam contra a Globo, e contra a presença de partidos nas manifestações, sabem da sua relação profissional com a Globo e da dependência financeira do Mídia Ninja de dinheiro do governo federal? Se houver reação negativa, como isso afeta o trabalho do MN na cobertura dos protestos?

BT - Acho que a pergunta está respondida anteriormente. Não trabalho mais para a Globo, muito menos a MN depende de dinheiro federal.
AF - A MN fará algo além do registro imediato dos protestos? Acabando os protestos, qual o papel do Mídia Ninja?

BT - Hoje estou mais dedicado em organizar uma rede de jornalistas e programadores do que cobrir a rua. A ideia é manter o plano sugerido antes dos protestos começarem. Montar uma rede de jornalismo independente, um site próprio, um sistema de financiamento direto do público e descobrir como vamos conseguir criar uma outra forma de produzir e distribuir informação. Agora... quem disse que os protestos vão acabar?
AF - Daqui um ano temos eleições. A Mídia Ninja vai apoiar candidatos? E você, pessoalmente?

BT - Não acredito que a Mídia Ninja vá apoiar candidatos. Não acho que pelo tamanho que rede terá, pela fauna ideológica que vamos juntar, seja possível apoiar alguém como veículo. Pessoalmente, por que não?

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Publicado em 30/07/2013 às 12:38

Tempo é mais que dinheiro (mas dinheiro já ajuda)

pg 46 radio Tempo é mais que dinheiro (mas dinheiro já ajuda)

Lucy Kellaway: quando vale a pena trabalhar de graça?

O estudante simpático, admirador do meu trabalho, me convida para participar da Semana de Jornalismo de sua faculdade. É no interiorzão de São Paulo. Eu teria que sair bem cedo de São Paulo, pegar avião mais duas horas de carro, participar da mesa e fazer o caminho de volta. Chegaria tarde da noite em casa. A universidade paga tranporte, alimentação e só. É escola particular.

A produtora do documentário pede para me entrevistar. A equipe é carioca e passará alguns dias em São Paulo gravando. Tem dois horários na agenda para me propôr, oito da manhã de quinta ou três da tarde de sábado. É para um canal pago.

O blogueiro me pede para eu escrever um post para o blog dele, com uma lista dos meus discos favoritos de todos os tempos. O músico me manda suas novas canções e pede que eu faça uma crítica pessoal para ele. Desconhecidos pedem que eu os recomende para esse e aquele emprego. E por aí vai, sem fim.

Um jornaleiro paulistano agora cobra para dar informações, manchete de ontem. Seu Palmeirense cansou de ser interrompido o dia todo por gente perguntando o endereço da Previdência, a rua tal, o ponto de ônibus. Pregou cartaz no lado da banca: Informações, R$ 8,00. Quando alguém pergunta onde fica isso e aquilo, responde: é oito reais a informação. Alguns se revoltam. Por enquanto ninguém pagou. Menos gente está perguntando, talvez?

Seu Palmeirense ontem virou símbolo do que há de errado com o ser humano, o Brasil, o mundo. Que falta de cordialidade, de educação, que visão mercantilista da existência! Veja por outro lado: ele está lá para trabalhar, para ganhar seu dinheiro. Se eu for à portaria da Coca-Cola e disser que quero perguntar onde fica a rua tal para o presidente da empresa, vão me deixar entrar? Então porque o jornaleiro tem que dedicar seu precioso tempo às demandas alheias? Porque está na rua? Não é boa razão.

Não fui à Semana de Jornalismo. Um dia meu é valioso. Pelo menos para mim. Se fosse valioso também para a faculdade, ela me pagaria para ir até lá. Não dei a entrevista pra moça. Tenho outras atividades às oito da manhã, e não trabalho aos sábados (dar entrevista sobre meu trabalho é trabalho, sim).

No exato dia que a Folha deu a história do jornaleiro, Lucy Kellaway tratava exatamente do mesmo assunto. Parecia de encomenda. A colunista de carreira do Financial Times, publicada no Valor Econômico, perguntava: vender seu tempo e opiniões não é tão justo quanto vender sabão em pó? Ela vê três situações para um profissional trabalhar de graça: por uma causa nobre, quando o trabalho é incrivelmente interessante, ou porque é excelente publicidade para você. Por isso ela não topa dar palestra em Oxford, participar de painéis, nem colaborar na faixa com o portal Huffington Post. Leia o texto todo, que vale a pena.

Outro dia uma colega me pediu para bater um papo sobre sua carreira, dúvidas profissionais diversas etc. Ela tem cinco anos de carreira, eu 25, fui seu chefe, e ela respeita minha janela. Demorou um mês pra marcarmos, mas marcamos. A conversa durou três horas, paguei o chope, e não, não estava xavecando a moça. Foi no meu tempo pessoal, não profissional. Posso fazer isso com todos os jovens jornalistas do planeta? Pena, mas não.

A história do jornaleiro e a coluna de Lucy me atingiram na volta das minhas férias. Viajei, curti, aprendi, e agora me questiono: onde ando desperdiçando meu tempo, tão valioso? Minha resposta será a mesma de muita gente: nas redes sociais, e me distraindo com assuntos que não me divertem nem me remuneram. Como minhas férias de julho têm para mim o mesmo sentido simbólico do Ano Novo, faço aqui minha promessa: meu tempo na internet será menor, e mais dedicado a este blog, que é uma causa nobre (espero), é trabalho interessante (para mim), é boa publicidade (nem sempre) - e além de tudo, sou pago.

Lucy Kellaway diz que o dinheiro não é perfeito, mas é a melhor maneira que temos de racionalizar o esforço. A verdade é que tempo vale mais que dinheiro. Dinheiro dá pra você ganhar mais (ou quem sabe gastar menos). Tempo são essas 24 horas por dia, e ninguém sabe se estará vivo amanhã. Se esforçar para estender seu tempo, adiando o fim da vida, é objetivo honrado, e vale tudo, academia, dieta, check-up e paz de espírito. Mas é loteria, e contra a genética e o acaso se luta em vão. Tempo é hoje, agora. Cada um de nós tem que dar-lhe o devido valor, usar os dias que nos restam com sabedoria, e não há responsabilidade maior. Se isso às vezes significa dizer não, pagar de antipático, ou cobrar pela informação - bem, é um preço justo a pagar. O que vale a pena fazer, vale a pena fazer com amor...

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Publicado em 26/07/2013 às 15:39

O frio faz você mais inteligente – mas não no Brasil

Tá sofrendo com o frio? Eu estou. Meus genes majoritariamente mediterrâneos não me equipam para esse tempo cruel. Muito menos os 17 anos crescendo em Piracicaba,  sob temperatura média de 30 graus. Meu negócio é sol, chinelo e bermuda. Fantasio nunca mais vestir calça ou sapato. Segundo as mais recentes revelações científicas, isso faz de mim um cara meio burrinho.

Li no site da Fast Company, uma revista especializada em empreendedorismo e inovação. Citam estudos diversos que indicam que tempo ruim é melhor para a inteligência e para a produtividade. A melhor parte é essa: "quando a temperatura está alta, as pessoas estão menos inclinadas a ter o que os psicólogos chamam de pensamento heurístico - o tipo de pensamento superficial, impulsivo, que usa atalhos, o contrário do pensamento crítico." E citam longa reportagem na New Yorker, em que Maria Konikova completa que não só o calor, mas a humildade também reduz a concentração.

Outra pesquisa citada garante que somos mais felizes no verão que no inverno. E quanto mais a gente se sente feliz, menos crítico, menos atento, menos disposto a gastar fosfato com problemas ou detalhes. Faz sentido instantâneo, certo? Médio. Cheira a determinismo geográfico. É a velha teoria de que países com invernos rigorosos e estações bem demarcadas forçam seus povos a trabalharem mais e melhor, planejarem com cuidado sua produção e vida, e por isso é que os povos que vivem entre os trópicos seriam mais pobres (embora não automaticamente mais infelizes).

No final de Admirável Mundo Novo, os rebeldes contra o regime suavemente totalitário do futuro são condenados ao exílio. Não se preocupem, garante o oficial responsável, vocês serão exilados em uma agradável ilha do Pacífico. O líder dos presos retruca, nada feito, nos mande para uma ilha que tenha um tempo infernal. Temos muito trabalho a fazer e não queremos distrações. Li essa passagem quando adolescente e fiquei besta - só alguém com o espírito deformado pela autoridade pode ter um raciocínio tão alienígena, uma visão tão pobre e utilitária da existência. O herói da história era, no final, um bobão.

Pelos padrões da Fast Company, devo ser um latino vagabundo. Mas o fato é que o frio não me deixa relaxar, e isso me desestimula completamente a produtividade. Pelo contrário, passei a última semana obcecado com dois pensamentos: me enfiar debaixo do cobertor e consumir o máximo de calorias. Minha explicação é a seguinte: as pesquisas todas estão corretas, mas se aplicam só a países que realmente têm frio e calor. Em países como o Brasil, que têm tempo bom o ano inteiro (ou quase), a gente aprende a ser inteligente e feliz e produtivo ao mesmo tempo e o ano todo. Dito isso, produtividade não é o mais alto valor humano. Moro, felizmente, num país tropical...

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Publicado em 23/07/2013 às 18:08

O papa Francisco no Brasil: a luta pela luz continua

22 36 44 900 file O papa Francisco no Brasil: a luta pela luz continua

Vamos pular a parte em que reconhecemos os pecados milenares e contemporâneos da Igreja Católica, e ir rápido ao fato: o papa Francisco está sendo recebido como popstar, e não só pelos católicos. Bom de lábia, o hermano Bergoglio aterrissou garantindo que não tem ouro ou prata pra oferecer, mas muito amor etc. Tem sim, os cofres do Vaticano nunca esvaziam... mas a pergunta que não quer calar é: o que o argentino tem, tirando o charme, para fazer tamanho sucesso?

Na teoria, o poder de uma igreja se mede não só pelo número de fiéis, mas pela devoção destes a seus mandamentos. A Igreja Católica continua a maior do mundo em auto proclamados católicos. À luz do Evangelho, seria mais justo chamar a maioria de agnósticos. Na prática, em 2013, alguma fidelidade já é razão para comemoração. E portanto você pode desrespeitar uma bela parte das regras de conduta da Igreja Católica - usar camisinha, divorciar, abortar ou ter relações com outros do mesmo sexo - e comungar feliz no domingo. Podes ser espírita, rezar o padre-nosso e cantar seus mantras. Podes não crer na infabilidade do papa, na virgindade de Maria, e nem no inferno, e mesmo assim e ser católico. O que significa, então, ser católico? Tanta coisa que quase nada?

O cristianismo nasceu heresia judaica, se helenizou na primeira infância, cresceu imperial, adolesceu protestando e reinventou-se no século 20 como empreendedor all-american. Você pode analisar essas transformações dialeticamente. Pode intui-las como organicamente integradas à estratégia evolucionária da humanidade. Grandes acontecimentos não acontecem por acaso. Nem por desígnio superior, garanto, mas sou e serei minoria. Um mundo sem fé é improvável. Nos contentemos com a possibilidade de um mundo ecumênico, sob leis laicas, e aproveitemos o potencial único do Brasil na sua futura criação.

Essa nova flexibilidade não é exclusividade do catolicismo. Religião bandejão: cada um escolhe o que quer no bufê da fé. É a maneira moderna de lidar com o sagrado, como um café do Starbucks, ou como se a mocinha escolhesse aplicativos descolados para personalizar seu smartphone. Melhor isso que viver sob a sharia...

A possibilidade de customização da sua vida espiritual chama mais atenção no mundo católico porque é a Igreja mais antiga, a maior, e uma das mais amarradas por tradições empoeiradas. O que Francisco parece entender melhor que seus antecessores é essa nova realidade. Em que um líder religioso não pode contar com a submissão automática de súditos. Precisa conquistá-los e conquistá-los, dia após dia, vencer pela sedução, e relevar infidelidades e heterodoxias. É o exato oposto da postura de Bento 16.

Certo que a Igreja Católica sempre primou pela plasticidade. Não à toa foi a religião abraçada, e formatada, pelo império romano, que sabia ser oportunisticamente republicano. Roma é o coração do mediterrâneo, multicultural por geografia. O que era um cidadão romano? Qualquer um de qualquer origem, contanto que servisse Roma como ela exigia. O que era um cristão? Quem quisesse crer, fosse homem, mulher, branco e negro, nobre ou escravo. Conceitos revolucionários, dois milênios atrás. Com a conquista de novos territórios, a Igreja integrou divindades locais, crendices variadas, e criou uma Maria para cada cantinho do planeta, negra, latina, etc. Foi sempre uma instituição múltipla, conservadora e modernizadora.

Como é comum nas revoluções, o desvio para o totalitarismo é fácil. Mas autoridade convida resistência. Donde a Reforma, e o nascimento de muitos cristianismos, e o Concilio Vaticano 2º e a Teologia da Libertação. Donde adentrarmos este século com alguma liberdade de credo, conquistada com sangue, limitada, e ainda tateante em muitos cantos do planeta.

Cresci no maior país católico do mundo. Qualquer outra igreja ou fé era vista com desconfiança e reprovação. Meu filho cresce em um país em que você pode ser católico, evangélico, budista, espírita, judeu, umbandista, xintoísta, qualquer mistura que quiseres inventar, sem consequências negativas. Ou mesmo cem por cento ateu. É um país melhor que o da minha infância. Não é nenhum paraíso, mas está no caminho certo. Os países com melhor qualidade de vida são os mais laicos; os países mais fundamentalistas são os mais pobres e bárbaros. Palavra da ONU, não minha. Não é só que somos menos católicos que antigamente, e somos. Os católicos são menos católicos, menos carolas, menos fechados. A Igreja Católica ainda influi muito, mas muito menos. Vivo em um Brasil mais tolerante, mais generoso, mais diverso que o dos anos 60. Avançamos.

A trajetória humana é no sentido de mais justiça e mais liberdade, mais vida. Não é preciso um posto de observação no final dos tempos para enxergar isso. Nos meus 47 anos, já deu tempo de ver o mundo melhorar muito. E diferente dos que receberam o papa aos xingamentos no Rio (e que bom que possam fazer isso, e que ruim que tenham sido tratados na porrada), admito a contribuição fundamental de muitas pessoas de fé e muitos católicos. Ateu irredutível, me orgulho de ter sido batizado por dom Angélico Sândalo Bernardino, herói da resistência à ditadura militar, que assisti por acaso no Roda Viva, ontem à noite, oitenta anos nas costas, articulado e firme como sempre.

Sinto chatear meus irmãos na descrença, mas liberdade de pensamento inclui a liberdade de credo. Vamos celebrar a crescente maturidade da humanidade, camaradas, provada pela crescente liberdade de acreditarmos no que quisermos, ou em nada. A convivência entre diferentes, e entre fés diferentes, tem que ser proveitosa, porque jamais seremos todos muçulmanos, ou evangélicos, ou ateus. Isso requer a construção de uma sociedade que abraça a defesa radical da liberdade. Trata-se de criar um estado que trate todas as crenças - das maiorias, das minorias, do indivíduo - de maneira equânime, e portanto, equidistante, sejam elas de fundo religioso ou materialista. Com intolerância reservada somente aos intolerantes.

Estamos longe disso. Mas cada vez menos longe. Entre tantos povos, o brasileiro é dos menos fundamentalistas. Temos paixão pelas coisas do espírito e horror por cruzadas. É motivo para alegria, e desafio para redobrarmos esforços, ainda que às vezes reprimidos a gás lacrimogênio e balas de borracha. O futuro a nós pertence. A luta pela luz continua...

O que ganhamos com a queda das torres: informação

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Publicado em 10/07/2013 às 04:00

Homem de Aço, pés de barro, coração de ouro

super man Homem de Aço, pés de barro, coração de ouro

Tarefa hercúlea mapear aqui todas as crateras no roteiro de O Homem de Aço. A nova versão cinematográfica do Super Homem é mais um desses filmes em que efeitos especiais no volume 11 massacram os nossos sentidos. Nada contra espetáculos visuais incríveis, mas é um problema quando eles vêm em primeiro e nada vem depois. É o Superman para a geração UFC: a porrada pela porrada. Mark Waid, escritor ele mesmo de bons quadrinhos do herói, cravou a estaca: utterly joyless, absolutamente desprovido de sentimento.

Mark ficou chateado. Leva a sério o Super Homem. Eu também. Mas já esperava isso mesmo. É obra da mesma dupla da mais recente trilogia de Batman, o diretor Cristopher Nolan e o roteirista David Goyer. Lá, criaram um Batman preguiçoso, burronaldo e coxinha, que não investiga nada, não planeja coisa nenhuma, e se aposenta na primeira oportunidade - o anti-Batman. Aqui, inovaram com um Super Homem que não protege os inocentes. Os últimos quarenta minutos do filme se resumem ao herói e seus inimigos kriptonianos destruindo uma cidadezinha, e depois uma cidadezona. Em nenhum momento Super Homem se preocupa com os milhares, milhões de inocentes morrendo. Salva a namorada Lois Lane repetidamente, e só.

Nolan assume aqui a cadeira de produtor. Terceirizou a direção para Zach Snyder, que já mostrara a que veio com 300, Watchmen e Sucker Punch, os dois primeiros também baseados em quadrinhos. São shows de derreter a retina, mas incapazes de nos acelerar o pulso, muito menos nos tocar o coração. Zach, americano, nos vende emoções baratas de parque temático, excitação de clube de strip. Nolan, inglês, com pretensões artísticas, encharca de solenidade tudo que faz. Esse Homem de Aço carrega dupla cruz.

Mas vamos pôr na conta de Goyer os pecados mortais destes filmes. Lendas precisam de, bem, lendas, histórias épicas e inesquecíveis. Vale para Ulisses, Hércules etc. Não lembramos de Robin Hood só porque ele é o bamba do arco e flecha. Tudo começa com a história, em cinema, com o roteiro. Goyer é quadrinheiro. Ninguém escreveu ou produziu mais filmes baseados em super-heróis - Blade, Motoqueiro Fantasma, Nick Fury, em breve outro Homem de Aço e a Liga da Justiça. Escreveu quadrinhos também. Conhece os personagens e as diferenças entre eles.

Se você está chegando agora: Batman é detetive, Superman é bombeiro. Um existe para punir os criminosos, o outro para nos proteger. Um deus das trevas, um deus solar. São arquétipos eternos, cartunizados por garotos nos anos 30, e desde então revisados sem parar por milhares de criadores, em gibis, filmes, desenhos animados, videogames. Sobrevivem porque são importantes e úteis, geração após geração. E porque dão rios de dinheiro, umas gotas para esses tantos criadores, oceanos seus mestres corporativos.

Goyer, como um vilão de gibi, optou por trair nossos heróis. Colocou ambos a serviço de sua própria pauta, existencial e, sim, política. À flor da pele, O Homem de Aço é só outro remix da saga que já vimos tantas vezes, sobre um jovem descobrindo seus estranhos e novos poderes (como todos os fenômenos pop do século 21). Esta é a parte do filme que funciona. Seu primeiro terço, que vai até a primeira vez que o herói veste o uniforme, e voa. Leia aqui.

 Homem de Aço, pés de barro, coração de ouro

Henry Cavill como o Superman no novo filme

Mas em suas entranhas, o filme trata de um homem aceitando que é superior aos outros, e impondo sua individualidade sobre inimigos coletivistas. Ele enfrenta os remanescentes do planeta Krypton, uma sociedade tecnologicamente avançada, em que a liberdade individual é restrita desde antes do nascimento. Lá cada indivíduo é geneticamente programado para se tornar o que o futuro precisa - soldado, cientista, operário, governante. O bebê Kal El é diferente: não foi programado. Foi concebido pelas vias normais, parido pela mãe. Krypton era uma sociedade expansionista. Conquistou muitos outros planetas. Mas com o tempo, sem desafios à sua altura, sua economia foi definhando. Abandonaram as colônias à sua própria sorte, e exauriram os recursos naturais de seu planeta. Que está para explodir a qualquer momento! , Kal é enviado para a Terra bebê. Trama de seu pai, o cientista, individualista e renegado, Jor El.

Aqui é batizado de Clark Kent, criado no Kansas por pais caipiras, sal da Terra. Seu pai o proíbe de usar os poderes. Tenta fazer dele um humano qualquer. Clark cresce relutando em assumir seu status de mais-que-homem. Vaga pelo mundo sem destino, ajudando secretamente as pessoas, procurando descobrir quem é, e para quê está aqui. É pressionado pela chegada dos alienígenas, que pretendem matar toda a humanidade, mudar o ecossistema da Terra, e repovoar nosso planeta com kriptonianos. Agora ele assume o uniforme que conhecemos - o S no peito é o símbolo kryptoniano da família dos El, que significa Esperança, e principalmente a esperança de ser livre.

O Homem de Aço de Goyer e Nolan é um personagem típico de Ayn Rand. Como John Galt, de Atlas Shrugged. Como Leônidas em 300, aliás. Sua bandeira é a liberdade do indivíduo, mais importante que qualquer acordo coletivo. Seu inimigo é a imposição de regras pela turba. Rand é influente em muitos círculos, principalmente econômicos. No Brasil, inspira muita gente do sistema financeiro. Seus livros têm sido publicados aqui com apoio do Instituto Millenium, organização que reúne grandes empresários, poderosos da imprensa etc. Leia mais.

Traição imperdoável ao primeiro dos super-heróis. O Super Homem nasceu para enfrentar os poderosos, não se tornar o maior deles. É o herói do New Deal, criação de dois garotos judeus de Cleveland, protetor dos fracos e oprimidos. Sua missão é nos segurar quando caímos, seja você quem fôr, tenha feito o que fôr. É raridade, um herói com coração de ouro, sem drama, sem rancor. É nosso melhor, mas é nosso. "Super Homem" não significa que ele é superior aos outros homens. Significa que ele é incrivelmente, absurdamente, heroicamente humano. Que este roteiro tente transformá-lo em ícone do individualismo e da brutalidade é um embuste. Leia mais.

Este Homem de Aço tem indisfarçáveis pés de barro. Mas é inútil tentar derrotar Superman. Tanto que, no momento que escrevo, lembro dos momentos ternos do filme, de Henry Cavill e Amy Adams sensíveis como Clark e Lois, das cenas ensolaradas do Kansas. Me sinto tentado a amenizar na crítica, ficar do lado do herói. Super Homem é assim: sempre vence, é sua razão de existir. Para quem bate Lex Luthor e Brainiac mensalmente, Goyer, Nolan e Snyder são fichinha.

Um de seus melhores intérpretes, Grant Morrison, escreve no livro Super Deuses (Super Gods). "O Super Homem foi criado para ser mais forte, rápido e durável que qualquer ser humano. Ele é mais real que nós. Escritores vêm e vão, gerações de artistas o interpretam, e ainda assim algo persiste, algo que é sempre Superman. Nós temos que nos adaptar às regras dele, se quisermos adentrar seu mundo. Nunca podemos mudá-lo demais, ou perdemos o que ele é. Há um grupo persistente de caraterísticas que definem o Super Homem, através de décadas de vozes criativas. O personagem possui essa qualidade essencial e imutável, em qualquer de suas encarnações. E isso tem nome: divindade."

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Publicado em 20/06/2013 às 17:04

Os protestos e a imprensa: porque a velha mídia continua importante (e qual a pauta que interessa agora)

13 05 45 599 file Os protestos e a imprensa: porque a velha mídia continua importante (e qual a pauta que interessa agora)
Se falou muita besteira sobre nossa mídia nos últimos dias. Também, muita besteira foi feita. A imprensa começou indo em uma direção, mudou para outra, escorregou para uma terceira, emendou uma quarta, acelerou para uma quinta e capotou espetacularmente. Deu até náusea, de tanto vai e vem.

Nesses últimos dias, materializou-se do nada uma cobertura absolutamente acrítica das manifestações. Como se fosse tudo uma dessas passeatas fru-fru pela paz. Os únicos puxões de orelha foi para "vândalos", quem quebrou, quem foi diretamente aos palácios apupar as autoridades. Mas os jornalistas deixaram muito claro, sempre, que era "uma minoria que não representa os manifestantes."

Normal até  certo ponto. Veículos de comunicação não hostilizam seus leitores, espectadores, usuários. Não é bom para os negócios. Muito menos encrencam com seus anunciantes, ou com autoridades. Custa caro ter um jornal, uma revista, um canal de televisão. Os donos dependem de muita grana para manter um veículo vivo. Donde que a regra geral é criticar, mas não muito, e investigar, de vez em quando. Sempre com parcimônia, responsabilidade, sem baderna etc. Isso é assim no Brasil e e todo lugar, alguns piores, outros melhores. Não estamos entre os piores jornalismos do mundo, de jeito nenhum. Nem entre os vinte ou trinta melhores.

Não compensa repisar todas as críticas justas e injustas que nosso jornalismo recebeu nos últimos dias. Digo só que, por mais que a gente não seja a sétima maravilha, os colegas lá trabalhando não merecem cusparadas, e muito menos que se incendeie o caminhão da reportagem. Vivemos esses dias o triunfo absoluto do Facebook, do Tumblr, do smartphone, e principalmente do Twitter. Claro que o besteirol na internet foi massivo. Mas dessas montanhas de joio, sobrou trigo para um banquete.

Agora entramos em outra fase. E nesta fase, bravos repórteres independentes munidos de coragem e celular não darão conta do jornalismo que precisamos. Muito menos twitteiros de línguas afiadas, ou, ai, blogueiros.  Há pautas além do momento, da adrenalina e do registro ocular da história.

21 27 18 129 file Os protestos e a imprensa: porque a velha mídia continua importante (e qual a pauta que interessa agora)
Reportagem investigativa requer tempo, expertise, fontes, recursos. É para profissionais tarimbados. É para organizações com grana. O que a imprensa nos deve agora é uma devassa impiedosa nas relações entre nossos governantes e as empresas de transporte.

Não basta publicar as planilhas de custos das concessionárias. Precisamos saber como elas se tornaram tão poderosas e influentes. Quem são seus donos. Quem eles ajudam a eleger. Qual a margem de lucro. Quanto dinheiro público é repassado, e pra quem, e por exatamente quais serviços. Precisamos reportagem, análise, sangue frio e nervos de aço, que os caras não são de brincadeira.

É muita grana, e não sei se você reparou, mas aqui em São Paulo a bolada dobrou ontem. Foi de R$ 600 milhões para R$ 1,25 bilhão, dinheiro público que é repassado para as empresas, como subsídio. Esses foram números foram os citados pelo prefeito Fernando Haddad, quando anunciou a tarifa de R$ 3,00.

Precisamos entender que alternativas temos a este modelo, sim. Para isso não precisa de imprensa. Bastam o Movimento Passe Livre, ONGs, ou blogueiros, o cidadão comum. Para botarmos outras muitas demandas em pauta, está aí o povo na rua.

Nossa imprensa tem tudo para fazer um grande raio X do transporte público, quem sabe uma biópsia. Até porque as concessionárias não fazem publicidade. Não é como se fossem construtoras, bancos, montadoras, grandes varejistas, enfim, os segmentos de que a nossa imprensa depende para buscar seu lucro e pagar seus custos, inclusive seus jornalistas. Então não há porque ficar cheio de dedos. Dá pra ir na voadora, com os dois pés no peito.

Sou totalmente a favor da mídia independente. Mas tem hora que precisamos da velha, e muitas vezes ainda boa, mídia dependente. E essa hora é agora.

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Publicado em 19/06/2013 às 13:00

Homeopatia não existe

Recebi um folhetinho chamado “Ciência da Homeopatia - Jornal Informativo da Associação Nacional dos Terapeutas Holísticos e Energéticos.” Juro. Eu não seria capaz de inventar uma asneira dessas.

O português é de analfabeto, mas as chamadas de capa são geniais, como “Drenadores Miasmáticos”. Uma delas entrega o jogo: “Homeopatia se comprova pelos resultados.”

É exatamente o contrário. Nada se comprova pelos resultados. As coisas se comprovam ou não a partir de utilização de uma coisa chamada método científico.

O método científico não é perfeito, mas está em constante aperfeiçoamento. É pouco, mas é a melhor coisa que o ser humano inventou. Sua casa está de pé, seu carro anda e seu computador funciona graças à aplicação prática do método científico. Não dá pra questionar que ele funciona razoavelmente bem.

Alguns cientistas se irritam com besteirol pseudocientífico. Uma turma composta de nomes muito respeitados - gente como Richard Dawkins e Jared Diamond - faz parte de uma sociedade dedicada a promover a ciência e desmistificar essas enganações medievais que ainda emporcalham o século 21. Você pode conhecer mais sobre o trabalho da Skeptics Sociey aqui.

Agora, “resultado”, o que exatamente é isso? A tosse da sobrinha passou porque ela tomou homeopatia? A rinite da vovó? A dor de estômago do vizinho?

Meu pai é médico. Desde criança ouço ele falar que a maioria das doenças passa sozinha. Porque o corpo reage. Se nesse período a pessoa vai numa benzedeira, faz uma simpatia, toma homeopatia, florais, vai ao massagista etc., vai atribuir sua “cura” ao tratamento. Se vai ao médico, mesma coisa. Alguns tratamentos aceleram a cura. Alguns atrapalham. A maioria não faz nada, ou faz tão pouco que tanto faz.

Homeopatia atrapalha pouco, mas me irrita bastante. O jornalzinho aí me tirou do sério. Tirando o besteirol, traz textos como “Vacinas prejudicam a imunidade dos animais” - obscurantismo é pouco (isso me tira muito mesmo do sério: argumentos pseudos contra vacinação).

Mas não acredite em mim. Pense por si mesmo.

Você sabe quais os princípios da homeopatia?

Vamos lá na Wikipedia:

“O tratamento homeopático consiste em fornecer a um paciente sintomático doses extremamente pequenas dos agentes que produzem os mesmos sintomas em pessoas saudáveis, quando expostas a quantidades maiores. A droga homeopática é preparada em um processo chamado dinamização, consistindo na diluição e sucussão da substância em uma série de passos.

Os altos níveis de diluição (variando de acordo com o medicamento), aliados ao grande número de estudos científicos com resultados negativos, fazem com que haja bastante controvérsia em torno do funcionamento da homeopatia.“

O post apresenta uma bela coleção de argumentos científicos contra a homeopatia. Nada a favor. Porque não existe nada científico a favor.

Você tem idéia do nível de diluição da homeopatia?

Começa com uma parte por cem. E depois avança bastante.

A tabelinha, também do Wikipedia, está aqui:

Potência Diluição Concentração Expoentes
1ª dinamização centesimal hahnemanniana = 1CH 1/100 1 para 100 10-2
2ª dinamização centesimal hahnemanniana = 2CH 1/10000 0,01 para 100 10-4
3ª dinamização centesimal hahnemanniana = 3CH 1/1000000 0,0001 para 100 10-6
4ª dinamização centesimal hahnemanniana = 4CH 1/100000000 0,000001 para 100 10-8
12ª dinamização centesimal hahnemanniana = 12CH 1/1 x 1023 0,(21 zeros) para 100 10-24
É mais ou menos como pingar uma gota de mertiolate em uma piscina, misturar bem e passar no seu joelho machucado, esperando que desinfete.

Se você acredita que isso funciona, não acredita no café que toma. Porque o princípio do café, do chá, e de tudo que ingerimos é exatamente o contrário. Quanto mais pó de café por xícara, maior o pega de cafeína. Quanto mais açúcar na goiabada, maior a pança.

Se você acredita em homeopatia, não acredita em medicina tradicional, milenar, ervas medicinais etc. Quanto mais boldo no chá, mais rápido passa a ressaca. Quanto mais folhas de coca o índio masca, mais suave a subida da montanha. Isso é medicina tradicional. Homeopatia é o contrário: quanto menos você consome da substância, mais ela funciona. What?

A homeopatia foi inventada do nada por um alemão no século 19 e não tem nada que ver com tradição nenhuma, fora a tradição de autoengano do ser humano. É mágica. É fantasia. É bruxaria. É tudo que você quiser, menos racional.

Como é de mentirinha, não dá para provar. Anos atrás, Sir John Maddox, editor da revista científica mais respeitada do mundo, a “Nature”, aceitou publicar um artigo de um francês chamado Jacques Benveniste, que “explicava” como a homeopatia funciona: a água teria “memória”, e portanto guardaria as propriedades das substâncias diluídas nela.

Maddox só estabeleceu uma condição: Benveniste deveria abrir seu laboratório, para que uma equipe de especialistas designados pela “Nature” avaliasse as condições em que o francês realizou seu experimento. Obviamente o experimento era furado. Benveniste não conseguiu provar nada.

Entre os especialistas, estava o cético profissional, mágico, investigador do paranormal e meu ídolo, James Randi. A James Randi Educational Foundation oferece um prêmio de um milhão de dólares para qualquer um que prove que qualquer coisa paranormal exista. Randi fez um desafio: daria essa grana toda para qualquer um que provasse que homeopatia funciona. Por enquanto, nada. Você talvez lembre: a matéria passou no Fantástico.

Não resisto a copiar da Skeptic.com o texto sobre homeopatia, da minha querida doutora Harriet Hall, a “skepdoc.” Leia aqui.

Antes, compartilho o lema da Skeptics Society:

“All our science, measured against reality, is primitive and childlike — and yet it is the most precious thing we have“.

Albert Einstein

Melhor não sei dizer.

(Texto originalmente publicado em 14/05/2009)

Publicado em 19/06/2013 às 09:55

Vândalos são eles

forasta 1 Vândalos são eles

Se dependesse das autoridades, protesto seria sempre ordeiro. Uma turminha bem comportada, carregando cartazes bem-feitinhos, dando voltas sem fim em algum lugar que não atrapalhe o trânsito - num Sambódromo, ou quem sabe em um autódromo. Para participar, seria preciso se inscrever, apresentar RG, CPF, serviço militar quitado, Imposto de Renda, atestado de bom comportamento, e não ter antecedentes criminais. Vamos ser bem claros: protesto pacífico não serve pra muita coisa. A polícia não bate. A imprensa não dá espaço. Os governantes não dão bola. Protesto não é pra ser pacífico. Protesto é pra incomodar. Protesto é para questionar a ordem. Nada questiona tão bem quanto um soco, um incêndio, uma pedrada na vidraça.

Em protestos como vêm acontecendo no Brasil, uma minoria bem ínfima é que está quebrando, e agora saqueando. É essa minoria que ocupa muito espaço na cobertura televisiva. Por uma ótima razão: rende boa TV. Televisão é imagem, e imagem de gente brigando, correndo, botando fogo e enfrentando a polícia é mais emocionante que imagem de gente caminhando calmamente (por isso é que tem tanto seriado policial, e nenhum sobre gente que gosta de caminhar). E essa minoria aumenta muito o poder de fogo do conjunto dos manifestantes - queiram os pacifistas do movimento ou não.

Vamos separar, por um minuto, as depredações dos saques. Vimos grupos, e não tão ínfimos assim, que se dedicaram a apedrejar, pichar, quebrar as frentes da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, o Palácio dos Bandeirantes e a prefeitura em São Paulo, e outros prédios públicos. São alvos absolutamente legítimos. A massa dos manifestantes, e praticamente todo mundo que acompanha o movimento, identifica governadores, prefeitos e a classe política como parte do problema, não da solução. São, nesse sentido, o inimigo. Estão sempre protegidos pela polícia, porque sabem que são alvos, e que merecem ser alvos. No limite, o governo sai matando de um lado, e os revoltosos saem matando do outro - vide Síria.

Vamos seguir o mesmo raciocínio. Vimos outros alvos ontem, não-públicos. Quebraram agências de bancos. Os bancos são amigos ou inimigos da população? Quebraram McDonald's. De que lado você colocaria a rede de fast food? Não deixaram Caco Barcellos trabalhar, botaram fogo em uma carro da reportagem da TV Record. De que lado você põe a mídia, a seu lado ou contra você? A decisão é de cada um, e de cada um que está nos protestos. Uns são muito radicais, outros muito moderados. Quem decidir ir pro pau, vai sabendo que pode levar porrada e talvez, ir para a cadeia.

forasta 2 Vândalos são eles

Nos últimos dias, ficou mais complicado decidir a quem você se opõe. Agora toda a imprensa está simpática (se bem que cobrindo muitíssimo mal, em geral), a PM está bem contida, os políticos aplaudem, tá todo mundo vendo "beleza" nos protestos, como disse o governador do Rio. Da boca pra fora, claro - ninguém se mexeu um milímetro para atender as reivindicações dos manifestantes, pelo menos nas grandes cidades. Mas o bloco do a favor está crescendo, inchando até. Virou obrigação aplaudir. Todos os famosos apóiam, e se os famosos apóiam deve ser boa coisa, né?

Mas todo esse a favor para quando começa o pau. Todos aplaudem os protestos, e todos são unânimes em satanizar os baderneiros, os infiltrados, os vândalos. E mais ainda os que roubam. Saquear lojas atravessa uma fronteira muito importante. Na linha acima, é fácil entender porque alguns manifestantes muito radicalizados veem esses grandes magazines como templos do consumo, símbolos do capitalismo, e portanto alvos válidos. Mas na hora que você sai correndo com uma TV, um celular ou um microondas, que vai levar pra sua casa e usufruir, passa a ser visto como um ladrão comum.

Em um contexto de desobediência civil, é estratégia sólida dar um chega-pra-lá nas regras cotidianas do consumo, e dar uma banana para a lei. Na época da ditadura militar, guerrilheiros roubavam bancos e ricaços e, com o dinheiro, financiavam ações contra o regime. Não era roubo, era "expropriação", diziam. A presidente da república, Dilma Rousseff, colaborou em ações do gênero. Vi um senador na televisão dizendo que manifestações violentas são incompatíveis com o regime democrático. Os militares também garantiam que vivíamos em uma democracia nos anos 70. Democracia não é o que senador diz, é o que o povo sente.

O exemplo mais evidente de desobediência civil seria, nesse momento, um grupo grande se recusar a pagar passagem de ônibus. Simplesmente usar o ônibus, e descer por onde entrou. E estimular toda a população a fazer o mesmo. Não há como vigiar todos os ônibus das cidades todo o tempo, não há como reprimir eficientemente. Os usuários de ônibus entenderiam instantaneamente os benefícios - busão grátis! - e muitos iriam aderir. E claro que ia doer no bolso dos donos das empresas de transporte. Esse é um caso em que o manifestante está "roubando", mas de uma maneira que colabora diretamente para o sucesso da empreitada.

forasta 3 Vândalos são eles

O Brasil não vive um cenário de transformação radical. Mas nosso País é muito violento, o tempo todo, e particularmente com os mais pobres. Violência do crime, e violência do Estado, que nos leva o dinheiro e nos dá tão pouco em troca. Não se trata de defender quem depreda e saqueia. Se trata de ter consciência de que nossa paz é diariamente quebrada, que muitas empresas depredam o País cotidianamente, e que o poder público não nos protege. Donde que é ser muito ingênuo achar que todo protesto vai ser sempre pacífico e polido. É fácil pra classe média alta boazinha, que vive em condomínio, paga seguro saúde e escola, põe insulfilm no carro e depende muito menos do Estado, cobrar que todo mundo se comporte...

É preciso, também, descobrir outras maneiras de protestar. Não podemos ficar entre o quebra-quebra e esses passeios sem fim pela cidade, gritando palavras de ordem e "violência não". Desobediência civil - e criativa - é um dos melhores caminhos. Ainda mais se beneficiar diretamente a população que hoje não está nas ruas. Sugeri alguns, meio humoristicamente, semana passada. Ficam de contribuição pra rapaziada. Leia aqui.

Olha, eu sou o cara mais pacífico do mundo. Mas vamos botar a mão na consciência. O País atravessa uma turbulência que não tem precedentes na campanha pelo impeachment de Collor, ou pelas Diretas. É outro Brasil, outro mundo, são outros descontentamentos e anseios, são outros governantes e manifestantes. Quem protesta não enxerga hoje na tal sociedade civil quem o represente. Nem partidos, nem instituições. Os políticos que marcharam pelas diretas, e contra Collor, hoje estão no poder, e são amiguinhos dos herdeiros da ditadura, e do próprio Collor. É de se estranhar que tenha gente que quer quebrar tudo?

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Publicado em 18/06/2013 às 17:54

Com grandes protestos vêm grandes responsabilidades

foto 13 Com grandes protestos vêm grandes responsabilidades

E de repente você se descobre com novos e estranhos poderes. E se encanta com o prazer de experimentá-los. De flexionar novos músculos, de ver muito mais longe e com visão de raio-X. De correr mais rápido, saltar mais alto, voar. E então compreende que os desafios, a partir deste momento, serão maiores. E tem que tomar a decisão entre fugir ou enfrentar, sabendo que as repercussões desta decisão serão dramáticas, e que as consequências desta decisão vão muito além de você mesmo. E é a decisão que você toma que faz de você um herói.

Este é o argumento dos maiores fenômenos narrativos do século 21. Harry Potter, X-Men, Homem-Aranha, Senhor dos Anéis, Batman, Crepúsculo, Jogos Mortais - e agora Superman, O Homem de Aço. Não é que a gente acredite nisso porque os filmes nos contaram. Esses filmes reverberam porque é isso que está acontecendo.

O tema fala ao espírito humano desde a Saga de Gilgamesh, a primeira história registrada, quarenta séculos atrás. Mas hoje é mais poderoso e importante que jamais foi. Esta é a nova realidade de dois bilhões de seres humanos, empoderados por tecnologia de informação e comunicação, quase indistinguível da mágica. Este é momento em que estamos sendo arrancados, aos milhões, do isolamento, da hipnose da sociedade de massas. Descobrindo nossos novos poderes. Alguns mais rápido que outros.

É chavão paterno repetir que nossos filhos já nasceram sabendo lidar com tecnologia melhor que a gente. Não é bem isso. Eles aprendem mais rápido. Essa rapaziada de vinte anos que tomou as ruas lida com tecnologias completamente diferentes do que quando nasceram, com a Web e o Plano Real. Quando eram crianças, não existia tela touch, 3G, YouTube, Twitter, Wikipedia, Instagram. As meninas e meninos nativos do século 21 são mais velozes ainda, mutantes.

Os aparelhos são cada vez mais poderosos e polivalentes. Mesma coisa os programas que os fazem pensar, os fazem mudar. Todo software aprende com a maneira como o usamos, que é medida, e esse aprendizado rapidamente embutido em uma nova versão, mais eficiente e sensacional.

E assim é a juventude, e assim é a nova política. Que a velha política, por definição, é incapaz de entender e acomodar. Os novos sabem mais sobre o que acontece no mundo, consigo mesmos, com seus iguais e diferentes. Sabem que podem mais e merecem mais. São mais abertos, mais vulneráveis, mais fortes. Era moleza ser senhor feudal quando ninguém sabia o que acontece dentro do castelo, só você sabia ler, só você tinha as armas. Esse mundo não morreu. O que acontece a portas fechadas continua nos impactando, e muito, demais. Só que em 2013 todos sabem que existem portas, e muitos estão descobrindo que podemos meter o pé nelas.

foto 11 Com grandes protestos vêm grandes responsabilidades
Manifestação em Seattle, 1999

Certo que os protestos descentralizados e alavancados pela internet não nasceram no Brasil semana passada. São criação do século 20. Antes de São Paulo houve Seattle, e Bolonha, e a primavera Árabe, e os indignados da Espanha, e o Occupy nos Estados Unidos, e a praça Taksim. Cada um com sua cara e coração, suas vitórias e derrotas. O que une a todos? O que eles querem, perguntam ansiosos os que temem ceder um milímetro que seja? O que queremos, nos questionamos embriagados de orgulho?

O que queremos é Mais. Mais e mais. Mais sempre. Fomos educados para querer Mais. Por infinitos comerciais de TV, pelas escolas que nos ensinam que o que seremos só depende de nós. Aprendemos desde bebês que podemos ter mais felicidade, mais juventude, mais sexo, mais beleza, mais relevância, mais inteligência, mais impacto, mais e mais. E agora querem que nos contentemos com menos? Uma escola besta, um emprego medíocre, um futuro babaca?

Imagine ter vinte anos. Duas décadas ouvindo o mesmo discurso: o Brasil é demais, é uma nova potência, é isso e aquilo, agora somos grandes, temos Copa e Olimpíada - nunca antes na história deste país fomos tão incríveis. Essa geração não vai aturar tanta violência e impunidade, essa escola medíocre e esse ônibus podre, essas promessas marketeiras, essa eterna desconversa.

Os jovens não sabem tudo. Tudo é muita coisa. O importante é que aprendem super rápido. E já vão aprendendo que o fundamental não é o fim da história, quando o bem vence, os maus são punidos e os bons, recompensados. Depois que você vive um certo tempo, aprende que há sempre a próxima história, um novo desafio. O "final boss" nunca chega. O crucial é estar sempre pronto para levantar e lutar de novo. "The never-ending battle for justice", a batalha sem fim pela justiça, como Kal El e Clark Kent. Até que morremos, e se vivemos de verdade, deixamos pelo menos uma inspiração.

As conquistas claras, mesmo quando parecem impossíveis, estão sempre mais perto do que parece. Tanto faz se é derrubar um ditador, ou abaixar vinte centavos do preço do ônibus. É humano buscar as vitórias próximas. É divino lembrar as distantes. Os objetivos mais elusivos exigem muita imaginação, e mais importante, união. E só os atingimos quando nos unimos por causas que são maiores que nossas diferenças.

Não se trata de procurar consensos. Natureza é guerra e sociedade é conflito. Acreditamos em coisas diversas, somos homens, mulheres, brancos, negros, abonados e desgraçados, jovens e coroas e crianças e velhinhos. Os que nos governam e exploram se apóiam em nossas diferenças, que estimulam para nos dividir. E eles também têm em seu arsenal tecnologia de informação, que tanto nos liberta quanto pode nos aprisionar. Como explica o primeiro dessa grande leva de filmes sobre o século 21, Matrix - não por acaso, de 1999.

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Mais poderoso que o consenso é a compreensão, como demonstra o filme definitivo desta geração. Os Vingadores fecham o ciclo inciado por Matrix. São o ápice desta sequência de sagas inspiradas nos novos poderes de seus espectadores. As anteriores eram sobre como um jovem aprende a usar seus poderes. Vingadores é sobre pessoas completamente diferentes descubrindo novos e estranhos poderes - mas só a partir do momento que se unem. Um playboy, um CDF, um nerdão, um fortão e uma gata sexy e dissimulada. Uma espécie de Clube dos Cinco, que precisam trabalhar juntos, superar suas diferenças, coordenar seus esforços por um objetivo comum (e transitório).

Os Vingadores são um projeto colaborativo. São uma rede social. Discordam em muita coisa. Consenso impossível, compreendem que a vitória só é possível pela união. Aceitam, por um precioso momento, deixar suas encrencas de lado. Menos ego, muito trabalho de equipe. Para defender os que não podem se defender, para enfrentar o que só coletivamente pode ser enfrentado.

Tudo no filme gira em torno da posse do Tesseract, um objeto que dá a quem o possuir poder ilimitado, energia sem fim - o poder do Mais. Os inimigos são múltiplos: um exército alienígena, o deus da mentira, um conselho dos países e empresas mais poderosas da Terra.

E também um super-espião, talvez aliado, talvez não, que manipula todos os lados para conseguir o que precisa. Ao final, missão cumprida, se separam, e isso é natural. O poder infinito é grande demais para o mundo. Ninguém o merece - nem os heróis, por decisão deles mesmos.

Os Vingadores são esses meninos que combinam suas criatividades para criar novas fases para games como Minecraft. É a gente, quando discutimos calorosamente um post polêmico em um blog qualquer. Quando nos unimos por uma causa, ou financiamos coletivamente um projeto, ou apoiamos o Wikileaks, ou caímos de pau em quem merece.

A união vai além das plataformas digitais. Juntos ganhamos super-poderes, reflete o cinema que é a cara da nova geração. Agora, ela é que nos ensina nas ruas. E aprendemos todos que com grandes protestos, e grandes poderes, recebemos grandes responsabilidades.
É do espião Nick Fury, malaco das ruas, a frase que fecha Vingadores. E que me acordou hoje, nesse Brasil que ontem fez o impensável.

Lembrei da Catalunha e de Paris, de Seattle e do Cairo, de São Paulo e Rio e Belém e Belo Horizonte. E depois de tantos protestos, vem o quê? Desafios mais impossíveis? E quando acabar essa excitação, cumprida a primeira missão, terminada a união, e cada um dos heróis for para o seu lado?

Quando chegar a hora, eles voltarão, garante Nick - porque precisaremos deles.

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