Publicado em 01/03/2013 às 17:00

Gang do Eletro: o primeiro álbum, na velocidade certa

Gangue do Eletro Gang do Eletro: o primeiro álbum, na velocidade certa

É só ver/ouvir a Gang do Eletro: tá na cara que que eles estão totalmente sincronizados com a música pra dançar global. E que a conexão Belém-Planeta não passa por São Paulo e Rio. E que aliás nem precisa. Como você pode comprovar neste novo vídeo, feito para promover o lançamento do primeiro disco deles. Está no iTunes, em pré-venda, por dez dólares. Esta música, Velocidade do Eletro, é single of the week na loja da Apple.

Ano passado, no Prêmio Multishow, fui dos que defendeu prêmio para eles, que veio, com toda justiça. Não é média. Gosto da Gang sem condescendência. Não é música pra mim - e eu lá vou sair pra dançar? Tanto quanto não são outros favoritos da casa, como M.I.A., Santigold ou Major Lazer, para ficar em uns poucos que correm na mesma raia da Gang do Eletro. Não importa que não seja para mim. É para nós. É música que é nossa e do mundo, é da rua e da selva.

É feita neste exato momento para atender uma necessidade eterna do ser humano: chacoalhar o esqueleto. Próxima parada, States. Este dia 15, eles vão mostrar do que o Pará é feito em um dos palcos mais importantes da música e da inovação: o festival South By Southwest, em Austin, Texas. Treme, Terra, treme.

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Publicado em 01/03/2013 às 12:12

Thor e Eike Batista são inocentes. Os culpados somos nós

thor eike Thor e Eike Batista são inocentes. Os culpados somos nós

Notícia de hoje: foi afastado o perito cujo laudo apontava que Thor Batista dirigia a 135 quilômetros por hora quando atropelou Wanderson Pereira dos Santos. A defesa de Thor alega que o laudo viola a imparcialidade. Os desembargadores já tinham votado a favor. Agora a juíza Daniela Barbosa Assumpção de Souza, de Caxias, determinou que o perito Hélio Martins Junior não deve mais se manifestar nos autos.

Como o perito teve contato direto com o Ministério Público, a juíza alega que isso poderia “suscitar dúvidas sobre a sua atuação como auxiliar da Justiça neste processo”. E que o contato com o Ministério Público “constitui ofensa aos princípios da igualdade processual, do contraditório e da ampla defesa e ao devido processo legal constitucional”. Reportagem completa aqui.

Foi há quase um ano, no dia 17 de março de 2012. O filho do bilionário Eike Batista, então o homem mais rico do Brasil, voltava de Petrópolis com um amigo. A Mercedes que dirigia atropelou e matou Wanderson, que atravessava a pista de bicicleta, em Duque de Caxias. Depois soubemos que Thor tinha 51 pontos na carteira, e já tinha atropelado uma pessoa antes.

Thor foi indiciado por homicídio culposo, sem intenção de matar. O tal laudo era uma das principais peças contra ele. Agora resta pedir uma nova perícia. Alternativamente, o veredito será dado com base apenas em provas testemunhais. Thor será ouvido dia 12 de março. Sairá livre.

Profeta de araque, cantei essa bola no dia 16 de abril de 2012. Escrevi:
"Fosse o contrário, um Wanderson com carteira estourada matando o filho de Eike Batista em circunstâncias idênticas, estaria livre? A única resposta honesta que um brasileiro pode dar: não. Thor simboliza o novo Brasil rico. Wanderson me faz pensar: pobre e velho Brasil."

Texto completo aqui.

Notícia de hoje no Valor Econômico: desde 2007, o BNDES colocou quase dez bilhões de reais nas empresas de Eike Batista. Quanto mais a coisa aperta, mais dinheiro público Eike capta. A radiografia do grupo de Eike, em excelente reportagem de duas páginas, é leitura obrigatória para compreender o capitalismo à brasileira. E com isso, o Brasil e seus filhos.

Neste ano desde o atropelamento, nada mudou de importante no nosso País. Talvez só a posição de Eike Batista no ranking dos bilionários, que caiu bastante. Seu grupo empresarial mais e mais se parece com um castelo de cartas. Mas sobrou bastante em caixa, e portanto Thor será inocentado.

A razão é que continuamos a viver no pobre e velho Brasil, que permite que Eike seja tão rico, e portanto intocável e automaticamente inocente, ele e sua prole. E Eike é tão rico porque nós, brasileiros, permitimos que dez bilhões de reais do nosso dinheiro vão para o seu bolso. Eles são e continuarão sendo inocentes. Os culpados somos nós.

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Publicado em 28/02/2013 às 13:21

A lei Garotinho: uma ótima oportunidade para mexer em vespeiro

Anthony Garotinho acaba de apresentar projeto de lei terminando com a obrigatoriedade da publicação de balanços de empresas em jornais. O deputado do PR é candidato a governador do Rio. Quer causar. E retaliar. Bate nas empresas de comunicação, que nunca lhe deram mole, onde dói, que é no bolso. Garotinho é isso e aquilo? Tenha a opinião que quiser sobre ele. Não vamos confundir mensageiro e mensagem.

Quem não é do ramo não sabe dessa obrigatoriedade. Toda empresa aberta tem que publicar seus balanços em um jornal impresso. É uma lei pré-histórica, cartorial. Claro que as empresas podem publicar em um jornalzinho. Mas pega mal. Preferem, como diz a campanha do Estadão, transformar seu custo em investimento. Publicar seu balanço em jornalzão, e aproveitar pra fazer um marketing caprichado, valorizar os resultados, contar vantagem e tal.

Folha, Globo e Estadão são bons veículos para publicar balanço, circulação grande, mas o que dá prestígio mesmo é publicar no Valor Econômico. O jornal é uma sociedade entre os grupos Globo e Folha. É um jornal muito bem-feito, o único que leio todo dia. Em economia e negócios, bate de longe qualquer outro. Tem muitas qualidades em cultura, consumo, carreira, política e outras temas que interessam a seu público: empresários, executivos, empreendedores.

Naturalmente, é bem caro publicar seu balanço no Valor. Quanto? Não sei. Não é informação pública. E é aí que a tal Lei Garotinho me interessa. Pelo começo: em princípio, não há como discordar do argumento do deputado. Em 2013, não há justificativa para essa obrigatoriedade, que não existe em outros países. É muito desperdício de papel e um custo desnecessário para as empresas. Elas que publiquem balanços, relatórios e fatos relevantes em seus sites. Vamos botar um fim nessa história? Espera um pouquinho.

Talvez exista sim uma justificativa de interesse público. É muito possível que sem essa obrigatoriedade, nossos maiores jornais não tenham como se sustentar. Ou talvez sobrevivam, mas precisem cortar muito seus gastos, afetando a qualidade do nosso jornalismo. E meus muitos amigos que trabalham em jornal, Valor incluso, vão ter seus empregos em risco. Afinal, é ou não é importante para a sociedade brasileira que nossos maiores jornais do País continuem existindo?

Sem um segundo de dúvida: sim. Nossos jornais e jornalistas podem ter muitos defeitos, e têm. Mas é melhor ter uma imprensa conservadora, morna e monocórdia do que não ter imprensa. Os stalinistas coxinhas que tentaram calar a boca de Yoani Sánchez não foram para Cuba, como eu fui, e procuraram bancas de jornal, como eu procurei. Em Cuba não existe jornalismo, nem jornal, nem revista. Sou bem feliz de existir uma Veja para fazer um escarcéu sobre a blogueira cubana. Mesmo que eu discorde bastante do que a Veja publique sobre a moça. Ou até opte por não ler, como foi o caso.

Outro ponto importante do debate: existem muitos outros estímulos e obrigatoriedades legais que beneficiam empresas e não têm justificativa razoável. Se você vasculhar, encontrará centenas de vantagens variadas para diferentes setores da economia. As empresas têm isenções de impostos disso e daquilo, dinheiro do BNDES assim e assado, estímulo à exportação, ao etanol, à montadora, empréstimo do governo para construir estádio etc.

No caso de jornal e revista, também existem benefícios fiscais para comprar papel. E o setor de mídia tem quimera maior: a Bonificação de Volume, que premia as agências de publicidade pela concentração da verba de publicidade nos grandes grupos. A obrigatoriedade de publicação de balanços não é nada de tão único ou estrambótico. A Lei Garotinho importa de duas maneiras. Primeiro, porque é um convite a uma maior transparência. Segundo, porque força a questão: porque estes grandes veículos têm esses benefícios, e outros não?

jornal forasta A lei Garotinho: uma ótima oportunidade para mexer em vespeiro

O deputado apresentou o projeto de lei ontem, quarta-feira. Só vi sites assumidamente governistas dando destaque ao assunto, em tom comemorativo, "vamos acabar com a mamata" e tal. A grande imprensa por enquanto cala. Vão acabar reportando, criticando em editoriais. Mas a artilharia pesada talvez não venha. Silêncio é a melhor estratégia para matar um problema no ninho.

Silêncio é o que não podemos aceitar. Os jornais não precisam bater muito na lei, porque sabem que a lei tem chance zero de ser aprovada, claro. Imagine se nossos valentes deputados vão querer arrumar encrenca com os jornais. Mas o projeto de lei cria uma ótima oportunidade de entendermos de onde vêm as receitas de nossos jornais. E discutir se não é justo que outros veículos de comunicação, menores e independentes, também tenham leis, ou pelo menos regras, que lhes garantam acesso a boas fontes de receita.

Quanto nossos grandes jornais faturaram em 2012 publicando balanços? Que fatia de suas receitas de publicidade isso significou? É importante mesmo manter essa obrigatoriedade, para garantir a sobrevivência da grande imprensa, ou dá para os jornais passarem bem sem? É uma discussão necessária, que deve ser feita da maneira mais transparente possível. É importante para o Brasil que os grandes grupos de comunicação continuem saudáveis.

É igualmente importante que não existam só grandes grupos. Se tem boi para Valor, Globo, Folha e Estadão, que são grandes e fortes, tem que ter boiada para outros jornais e outros jornalismos. Impressos, eletrônicos ou digitais. Micro, médios ou grandes. Mas diferentes. A verdadeira liberdade de expressão exige diversidade. É vespeiro? É. Vamos meter a mão sem medo.

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Publicado em 28/02/2013 às 08:22

Comercial de chocolate recria Audrey Hepburn em computador

audrey hepburn galaxy ok Comercial de chocolate recria Audrey Hepburn em computador

O astro virtual era inevitável. Em Avatar, os personagens criados por computador finalmente convenceram a gente - ainda eram uns bonecões, mas se emocionavam, e nos emocionaram. Em O Exterminador do Futuro - Salvação, os heróis enfrentavam um cyborg idêntico a um jovem Schwarzenegger. Mas esse comercial estrelando Audrey Hepburn vai além. Bem além.

Porque Audrey de robô nunca teve nada. Era uma gracinha, linda e expressiva. E o comercial funciona. Pela cyber-Audrey, e pela luz, ritmo, trilha - Moon River, claro. E o cenário é Amalfi. Amiga, assista ao comercial. Viu o castelinho no fim da rua? É uma torre sarracena convertida em hotel. Lá passei dias felizes da minha vida. Sugiro que faças o mesmo.

O reclame vende chocolate? Bem, a empresa que bancou o anúncio está sendo falada pelo mundo afora. Conectou sua imagem com a de Audrey Hepburn, ícone de elegância. Para um produto engordativo, que dá colesterol, espinhas etc., não tem preço.
Veremos no futuro filmes totalmente novos com John Wayne, Marilyn Monroe e Humphrey Bogart? Sim e não vai demorar.

Um novo James Bond estrelando um Sean Connery garotão? Na certa. Pena que não dá para recriar virtualmente os roteiristas e diretores de antigamente... Mas antes veremos comerciais aos montes. James Dean vendendo seguro? Elvis é um bom garoto-propaganda para remédio para emagrecer. E Kurt Cobain é tiro certo pra vender antidepressivo.

As possibilidades, e possibilidades de zoar com a memória de mortos célebres, são infinitas. Os direitos sobre a imagem pertencem aos herdeiros, que vão faturar firme com os antepassados. Sempre exploraram os parentes, via licenciamento de imagem, mas agora licenciam atuações. Os filhos de Audrey justificaram: ela sempre adorou chocolate. É, pelo corpo de bailarina que manteve a vida toda, com certeza a bela mandava ver nas calorias.

E veremos versões virtuais dos vivos. Ou você acha que uma Madonna, por exemplo, não vai querer aparecer com 25 anos num próximo videoclipe? E o próximo passo é ao vivo. Uma tour virtual dos jovens Beatles, quanto você paga pra ver? Hologramas de Lawrence Olivier interpretando Shakespeare aqui no Bexiga mesmo?

Cada dia o mundo mais se parece com ficção científica. Eu acho maravilhoso. E torço por uma reunião virtual dos Trapalhões.

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Publicado em 27/02/2013 às 13:18

Os mais vistos do YouTube, o Brasil do presente, e o futuro da TV

Os mais vistos do YouTube, o Brasil do presente, e o futuro da TV

bonde das maravilhas Os mais vistos do YouTube, o Brasil do presente, e o futuro da TV

O YouTube estreou esta semana no Brasil o canal Mais Vistos. Agora, nós temos como saber a cada dia quais os vídeos que estão sendo mais vistos no País, sejam brasileiros ou não. E o número de visualizações que vêm do Brasil.

Parece pouca coisa? Parece um dado técnico? Não: é uma radiografia diária do Brasil. Do que está fazendo sucesso no Brasil conectado à internet. Não tem interferência editorial do YouTube. A lista é gerada por algoritmos. Representa as aspirações audiovisuais de metade dos brasileiros, uns noventa milhões de internautas, por aí.

A lista de Mais Vistos do YouTube representa melhor do que qualquer outra coisa o que o brasileiro quer assistir neste minuto. Mais que as pontuações do Ibope. Mais que a programação dos horários nobres. Mais que a sabedoria dos gurus e a experiência dos acadêmicos. A prova dos nove é que um banco é o patrocinador exclusivo do canal Mais Vistos. Deve estar pagando rios de dinheiro, grana preta que antigamente só a TV aberta faturava.

A lista de Mais Vistos do YouTube vai passar a pautar não só a internet, mas também a TV aberta, e portanto vai pautar em grande parte nossa vida. E é por isso que no próximo domingo, imagino que algum programa com uma produtora bem esperta já vai ter convocado essas meninas abaixo para fazerem seu showzinho. Neste dia as meninas vão bombar ainda mais no Twitter e Facebook, e o vídeo delas descendo até o chão no Gugu ou Faustão ou Eliana vai explodir.

E será reproduzido no YouTube. E terá outro zilhão de visualizações. E fará este vídeo original render mais ainda. As garotas vão dar pano pra manga por uns dias. E depois? Quem se importa com depois? Os porquês dessa lista ser como é, e como será a cada dia, renderão análises sociológicas, psicológicas, culturais riquíssimas. Porque de fato são pistas preciosas para explicar o Brasil do presente, o Brasil de verdade. E para mapear o futuro do entretenimento em vídeo - da TV, se você quiser chamar assim.

Mas pensatas sólidas não se materializarão tão cedo. Porque a lista muda a cada dia. Vai demorar algum tempo para detectarmos padrões compreensíveis. No começo, será como aqueles borrões dos testes de Rorschach: cada um enxerga o que lhe dá na telha.
É particularmente contundente e provocante que este vídeo esteja em primeiro lugar, com 814.641 visualizações (isso foi ontem à noite, quando comecei a escrever este texto.

Neste minuto são 1.419.896. Este é um dos efeitos de ser o primeiro entre os mais vistos: mais e mais pessoas vão fazer questão de ver. A cobra morde o rabo...). Vejo este vídeo agora pela segunda vez. Não sei se meu coração se enche de ternura ou horror. Os mais valentes e sábios que se arrisquem a interpretações. Com vocês, o mais visto entre os Mais Vistos: o Bonde das Maravilhas.

 

 

Publicado em 26/02/2013 às 11:19

O precioso silêncio de David Bowie

bowie blog O precioso silêncio de David Bowie

David Bowie não lança um disco há dez anos. Não lança um que preste há trinta. Desde 1983: Let's Dance. Mas entre 1970 e 1983 escreveu e gravou 12 álbuns irrepreensíveis. Ninguém na história do rock fez igual. São clássicos, na mais precisa definição. Não porque fizeram sucesso que nos enternece a memória, ou porque viraram parte da paisagem. E sim por que resistem a novas audições e interpretações e por que mudaram o que veio depois.

Bowie sempre foi mais que sua música. Suas roupas, atitudes, afetações, colaboradores e entrevistas sempre contaram tanto - frequentemente mais - que suas canções. É tudo indissociável, é tudo parte da obra. Nunca foi o melhor melodista, letrista, instrumentista ou cantor. Mas ninguém foi tão popstar e tão rockstar ao mesmo tempo; tão rudimentar e ambicioso e apelativo e transgressor. É muito difícil ser simples e sofisticado simultaneamente... E mesmo quando sua música murchou, Bowie continuou tendo o que dizer.

Aos 40 anos, explicava que fazia rock para pessoas de sua geração, porque a garotada queria música eletrônica, e não rock, e isso era bom. Era 1987. Sua contribuição já tinha terminado. O silêncio de Bowie na última década vai além de não produzir; ele deixou de falar com a imprensa e fazer shows. David teve um ataque do coração em 2004 (é isso que dá fumar). Nada como uma angioplastia para forçar revisão das suas prioridades. Se recolheu.

Parou de gravar, tocar e se comunicar. Não precisa trabalhar. É rico. Tem um filho adulto, diretor de cinema talentoso, Duncan, uma filhinha que esconde dos paparazzi, Alexandria, 12, e uma mulher linda e companheira, Iman. Vive entre Nova York e Londres. Não precisa fazer turnês caça-níqueis reempacotando velhos sucessos para velhos fãs. Fez mais que a maioria de nós e merece a aposentadoria de luxo.

Mas seu silêncio incomodou. Nesta era em que todos falam sem parar, e um quer falar mais alto que o outro, e todos gritam aos ventos suas mínimas e míseras conquistas, David Bowie calar é incompreensível. Nos provoca e ofende. Que conforto, então, que Bowie mostre a cara agora. Mas que desperdício que o faça sem espalhafato! Cadê as entrevistas na TV? O David Letterman? A tour mundial? O dueto com Lady Gaga? O show no Rock in Rio?

Bowie quebrou o silêncio e mantém a caluda. Gravou na surdina e lança, com videoclipes, o álbum The Next Day. Continua não dando entrevistas. Ungiu o produtor e camarada de milênios, Tony Visconti, para falar sobre o disco. Que a música fale por si, é a mensagem principal. Críticos correm para ouvir o álbum e dar seu veredito. Não eu. Vi a primeira, Where Are We Now?, minúscula. Entrou nos top ten da Inglaterra. Silêncio cria lendas. Vi a segunda, The Stars (Are Out Tonight). Não faz feio, mas nada especial ou urgente. O vídeo é cínico-mitômano. Resiste a uma visualização.

Nos últimos meses, novas audições me levaram a novas descobertas em Low, seu disco de 1977. Bowie continua a me interessar e muito. Seus três álbuns entre 1999 e 2003 são os mais fracos de sua carreira. Para que tanta sede por nova música? Alguém imagina que vai nos encantar ou surpreender? Talvez não seja esta a razão da ansiedade pelo disco, nem da generosidade da recepção a ele. É impossível que The Next Day tenha a densidade de informação, sensibilidade e argúcia de seus álbuns clássicos. Bowie tem 66 anos. Roqueiros não melhoram com o tempo, e mais: são prisioneiros do seu tempo.

O álbum pode ter seus momentos de brilho, talvez cegantes, no contexto do rock atual, auto-referente, ensimesmado e publicitário. Mas Bowie ficará pelo que fez entre 70 e 83 e o resto não tem importância. A não ser para ele. Festejo The Next Day pelo bem que deve lhe fazer. E talvez seja por isso que queremos tanto ouvir e gostar de seu novo disco. Porque queremos seu bem, pelo bem que nos fez e faz.

Mas é mais precioso seu silêncio: antídoto poderoso à glossolalia que nos embevece e bestifica. Bowie não teve pressa para lançar The Next Day. Eu não terei pressa para ouvir.

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Publicado em 22/02/2013 às 14:49

Os ricos brasileiros, esses miseráveis

forasta dinheiro  Os ricos brasileiros, esses miseráveis

A filantropia é uma das tradições mais admiráveis dos Estados Unidos. Você pode argumentar que é o outro lado da moeda. No cravo os EUA idolatram e idealizam o esforço individual. Na ferradura os americanos doam generosamente seu tempo e dinheiro em favor dos que mais precisam.

É verdade. Mas os resultados também são muito verdadeiros. Chama atenção a presença de voluntários em tudo que é canto do País. São adolescentes, adultos, e muitos aposentados. Estão nas casas de repouso, nos centros para desabrigados, nos museus. Um amigo contava ontem que em Orlando, as ruas próximas às escolas estão cheias de velhinhos voluntários, ajudando a criançada a atravessar a rua.

E chama atenção mais ainda, pelo contraste com o Brasil, o quanto que se doa de dinheiro nos EUA, e como são jovens os doadores. Não tem essa de esperar morrer para doar a grana, não. Esses dias foi divulgada a lista das cinquenta pessoas que doaram mais dinheiro no ano, de acordo com a instituição The Chronicle of Philantropy. Em primeiro lugar está o bilionário Warren Buffett, como de costume.

Mas em segundo lugar está Mark Zuckerberg e sua esposa Priscilla Chan. O fundador do Facebook doou em 2012 quase meio bilhão de dólares, U$ 498.8 milhões, exatamente. Bill e Melinda Gates, U$ 469 milhões. Michael Bloomberg, U$ 350 milhões. Paul Allen, co-fundador da Microsoft, deu U$ 309 milhões. Sergey Brin e a esposa Anne Wojcicki doaram U$ 223 milhões. E por aí vai.

Sergey Brin tem 39 anos. Zuckerberg, 27. São jovens bilionários e estão doando fatias importantes da sua grana já. De novo, você pode perfeitamente argumentar que isso é uma outra maneira de angariar boa vontade com relação às suas empresas, e só uma outra maneira de aumentar seu status. E quem sabe aparece alguém pra garantir que esses ricaços são uns capitalistas desgraçados, que batem nossa carteira todo dia, e nos compensam com uns chequinhos de caridade só pra limpar a barra.

E, sim, os americanos têm mais grana que nós. E, sim, a legislação americana estimula a doação, e a brasileira não. Que seja, que seja. Mesmo assim, são exemplos a serem seguidos. E no Brasil, não são. De todas as coisas que nós, imitamos dos Estados Unidos, a filantropia, que é uma das mais bonitas, fazemos questão de ignorar.

É raro um brasileiro que doe dez reais. Que dirá milhões. Perto dos americanos, somos bem mesquinhos com nossa grana. E perto dos ricos americanos, os ricos brasileiros são uns miseráveis.

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Publicado em 20/02/2013 às 11:56

Por que escrever (ou: o escritor brasileiro, esse chato)

O escritor brasileiro é homem e branco. Tem diploma universitário, mora no eixo Rio-São Paulo, tem 50 anos. O protagonista de seu romance é homem, branco, tem diploma universitário, mora em metrópole etc. etc. Dos nossos autores, 36% trabalham como jornalistas. Pois as profissões mais comum dos protagonistas da literatura brasileira são, pela ordem, escritor, criminoso, artista, estudante e jornalista. E a maioria das histórias se passam no presente, ou no máximo dos anos 80 para cá.

Direto ao ponto: o assunto da literatura brasileira é o escritor brasileiro e seu mundinho. É um coroa diletante e seu tema é a própria juventude e meia-idade, reimaginadas dramaticamente. Este é o resumo curto e grosso da pesquisa feita pela professora Regina Dalcastagnè, da UNB. Ela analisou 258 romances de 165 escritores diferentes, dos últimos 15 anos, de editoras variadas. É mostra significativa. Rendeu um infográfico impactante.

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Regina conclui que não há na literatura nacional o que chama de "pluralidade de perspectivas sociais". Nossos livros não incluem brasileiros de várias cores, classes, religiões, idades. Bidu. É e sempre foi assim. Não há gays, velhos, deficientes, umbandistas e tal nos nossos livros. A ausência mais escandalosa em nossa literatura, personagens negros, tem razão bem concreta: não há negros nas redações, na academia, nas posições de comando do País. Mas há mais discriminação nos nossos livros que no Brasil não-ficcional. Em 56% dos romances, todos os personagens são brancos. Negro, quando aparece, é miserável, bandido e, principalmente, coadjuvante.

A pesquisa crava: 36% dos escritores são jornalistas. Natural. Tirando jornalista, poucos brasileiros têm português legível. Jornalista não sabe grande coisa, mas aprende a encaixar uma frase na outra, respeitar concordâncias, economizar nas vírgulas. Dashiell Hammett recomendou: escreva sobre o que você conhece. Donde que temos jornalistas escrevendo sobre jornalistas. Um bando de rato de redação se imaginando como herói: uma vez na vida, a notícia sou eu! Bem, eu sou exatamente o perfil do romancista brasileiro, jornalista, quase cinquenta, branco etc., e passo muito bem sem ler sobre mim, nem em versão romantizada, e muito menos realista...

Nem todos os nossos autores são jornalistas, mas o fato é que os temas e abordagens na nossa ficção se repetem. A pesquisa de Regina explica a desconexão de muitos, e a minha, com a literatura brasileira atual. Me recomendam este e aquele autor nacional. Compro, leio quinze páginas e despacho pro sebo, raras exceções. O problema não é o País de origem dos autores. É o universo ficcional e existencial dos autores e personagens. Não queremos saber dos problemas dos senhores letrados de classe média e meia-idade, suas neurinhas, fantasias e infidelidades. Simplesmente não é tão interessante assim.

E pior ainda quando vira policial noir de butique, com direito a uma garota de programa e um milionário assassinado. Sai pra lá, neurótico professor de literatura em Boston! Vade retro, safo repórter de jornal popular! Ficção exige imaginação e encantamento; um tanto de história, outro de jornalismo; e variedade, hoje festins pantagruélicos, amanhã snacks para devorar aos nacos. Em todo lugar o gênero "problemas sexuais-existenciais da classe média intelectualizada" tem longa tradição. É um gênero, como livros de vampiro ou histórias de detetive.

Nos Estados Unidos, é o que garante prêmios, convites para lecionar e confete em festivais literários. É o favorito de escritores que não vivem de escrever. Ganham a vida como professores, quase sempre. Quem sabe faz, quem não sabe ensina... não, sacanagem: tá cheio de professor por aí que manda muito bem. O problema é quando os escritores começam a escrever para impressionar outros escritores (e aliás isso vale para músicos, pintores, arquitetos e qualquer atividade criativa).

Escrever em tempo parcial não precisa ser problema. Muitos usam bem as conexões acadêmicas e mesadinhas variadas, de fundações, esse e aquele programa governamental etc. Falta de tempo e dinheiro para escrever frequentemente foi bem estimulante. James Joyce, para pegar o mais celebrado autor do século passado, criou Ulysses num miserê de dar gosto, exilado mundo afora, com uma mulher que zoava suas veleidades de artista e dois filhos pequenos pra criar. Na outra ponta, a fábrica de best-sellers Stephen King pariu Carrie, seu primeiro sucesso, quando labutava como zelador, datilografando até altas horas, os nenês chorando.

No Brasil literatura também é segunda profissão ou hobby. Faça as contas: um autor ganha uns três reais por exemplar vendido, e as tiragens aqui raramente passam de 3.000 exemplares. Pouco importa sobre o que o escritor brasileiro vai escrever, e muito menos se vai escrever bem. Meia dúzia vai ler. Dito isso, podemos e devemos fazer melhor. Escrever bem é técnica, e escrever divinamente é talento e suor. Mas a prova dos nove é escrever sobre a realidade. Ainda que no formato de um romance histórico, ficção científica, horror ou humor ou o que for.

Escrever sobre a realidade não é escrever sobre a minha vida. E muito menos um livro é melhor ou pior porque se passa na São Paulo de hoje, e não em Saturno no século 30. O que existem são livros mais e menos ambiciosos, e mais e menos bem-sucedidos, em relação ao tema, à trama, à linguagem, ou na criação de ambientes e personagens. Alta e baixa literatura é papo de crítico cretino.

A pesquisa de Regina explicita que o assunto central da ficção brasileira é o umbigo do seu autor. Não é problema localizado. Em todo lugar, cada vez mais os escritores estão caraminholando sobre seu mundinho particular, reciclando fantasias de aventura e consumo, revisitando seus livros e filmes e ícones culturais prediletos. A possibilidade de celebridade propiciada pelas redes sociais acentua a tendência. Vivemos escrevendo e lendo devaneios narcisistas. Boa parte do que passa por literatura é tão verdadeira quanto essas fotos supostamente displicentes, mas cuidadosamente planejadas e retocadas, que colocamos em nossos perfis no Facebook.

A ambição da ficção, e da ficção brasileira, pode e deve ser maior. Hammett estava errado. A literatura que importa não é sobre o autor, é sobre o leitor. Quero, exijo, um livro que me hipnotize, e me leve para outro lugar, e para dentro de mim mesmo. O que importa em ficção é fitar o desconhecido. E não conseguir desviar o olhar.

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Publicado em 19/02/2013 às 16:36

Kyle Baker: os gibis pra ler de graça, e os gibis que você precisa comprar já

kingdavid extract Kyle Baker: os gibis pra ler de graça, e os gibis que você precisa comprar já
Kyle Baker sempre merece atenção. Pelo seu traço, sua perspicácia, sua ternura, seu destemor. É cartunista, quadrinista, animador de mão cheia. Quando lançou o livro How to Draw Stupid!, compartilhei suas boas dicas para quem quer aprender a desenhar. E viver.

Kyle ousa de novo. Acaba de colocar alguns de seus álbuns mais importantes de graça, no seu site. Claro que já existiam scans pirata por aí. Mas agora você pode ler Why I Hate Saturn, You are Here, Cowboy Wally e King David sem desembolsar um centavo, porque o dono dessas obras assim decidiu. Não é igual a ler em papel cuchê brilhante e formato grande... mas sugiro que você leia esses álbuns online, e depois compre os outros.

Se você não liga para quadrinhos, mas tem família, compre The Bakers, uma graça de cartum sobre a família de Kyle. Se seu negócio é política, compre Special Forces, a maior sacanagem sobre a guerra do Iraque e as bazófias militaristas americanas. Se está preparado para ficar com o coração apertado, compre Nat Turner, a história de um escravo que se tornou herói.

Compre porque é bom para você. E porque é bom para Kyle. Ele faz um trabalho único e independente. Seus quadrinhos são sua paixão. Quando precisa faturar, faz uns freelances para Marvel e DC, ou trabalha com animação - mais recentemente, no sensacional Phineas & Ferb. Mas é visível o amor que coloca em seu trabalho autoral.

Agora, ele compartilha de graça com o mundo obras em que colocou coração, mente e muque. Merece nosso apoio financeiro. E, egoisticamente, nos interessa que ele continue ganhando seus trocados. Continue desenhando. Continue sendo Kyle Baker.

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Publicado em 18/02/2013 às 04:00

A cura (quase) definitiva para a ressaca

ressaca homer  A cura (quase) definitiva para a ressaca

Todo carnaval ouço a mesma mentira: ressaca não tem cura. Se eu ganhasse um real pra cada reportagem reciclada sobre esse assunto que já vi na vida, em revista, TV, site e jornal, já tinha montado minha adega. Em Bordeaux. Semana passada, igual. Um exército de jornalistas, doutores e especialistas basicamente garantindo que não há o que fazer. Que o importante é não exagerar. Sempre tomar um copo de água junto com cada dose. Jamais beber de barriga vazia. Exatamente tudo que ninguém vai seguir no carnaval.

DNA ajuda bem mais. Quase todos meus antepassados vieram do sul da Europa, região com milênios de experiência na produção e consumo de biritas variadas, vinho, grappa, bagaceira. Meu bisavô João Sajovic fabricava cerveja. Aqui no Brasil, os Silveira Moraes têm quatro séculos de experiência com cachaça. E a lenda familiar garante que sou descendente do cacique Tibiriçá, então até cauim meus cromossomos já enfrentaram.

Isso me garante alguma resistência, que mais jovem fiz questão de forçar. Os amigos já me viram misturar de tudo. E como jamais vomito, os líquidos infernais fermentavam mesmo era dentro de mim. Já lidei com ressacas paralisantes, resumindo, e sei exatamente como curar. O melhor amigo do bebedor é a... Neosaldina.

Também recomendo acordar no dia seguinte sem despertador, tomar baldes de água, devorar um café da manhã ogro, meia hora sentado no chuveiro quentinho, e morgar pelo resto do dia. Recomendo especialmente fazer como eu faço hoje, tiozinho, e maneirar. Mas de vez em quando a cobra fuma, e aí tem que apelar pra Neosaldina.

Eu tomo desde que era novidade, e aliás bem antes de começar a beber. Ordens do doutor. Meu pai, médico, sempre tratou minhas dores de cabeça com Neosaldina, que era o tratamento mais moderno então. Foi lançado em 1972, quando eu tinha sete anos. Não inventaram nada melhor pra dor de cabeça, e testei muitos. É o terceiro remédio mais vendido do Brasil.

O problema é que nossa Neosa, assim com Buscopan, Novalgina, Anador, Benegripe e outros remédios, contêm dipirona. O uso de dipirona foi relacionado à agranulocitose e à aplasia da medula óssea, doenças horrorosas. Por isso, a dipirona não tem mais venda livre no mundo civilizado: EUA, Austrália, Japão e quase todos os países da União Europeia.

Há estudos sólidos que indicam que a dipirona não seria problema para o brasileiro, e latinos em geral, por questões genéticas. O anglo-saxão é bem mais sensível. Um estudo demonstra que no Brasil a relação entre dipirona e agranulocitose é irrelevante. As marronzinhas continuam à nossa disposição, baratinhas, na farmácia da esquina. Veja aqui.

Enquanto posso, faço minha propaganda da Neosaldina. Descobri hoje fuçando na internet que a Neosa agora é fabricada pela Takeda, a maior companhia farmacêutica do Japão! Aguardo ansioso um agradinho dos honoráveis fabricantes. Pode ser em espécie mesmo, para eu fazer uma reservinha para o futuro.

Porque quando se trata de leis, o Brasil opta sempre pelas mais draconianas. É complexo de inferioridade. Uma maneira de se exibir para o planeta: olha só, continuamos enfrentando inundações, secas, corrupção e tal, como todo país do terceiro mundo, mas quando se trata de leis, somos mais avançados que os países ricos! Daí que se você tomar um chope e guiar, é crime. Se oferecer um copo de cerveja ao seu filho de dezessete anos, é crime. Eles vão criminalizando nossa vida, e nós vamos deixando.

Portanto, uma hora dessas virá a inevitável lei que vetará o consumo de Neosaldina. Afinal, como é cada vez mais censurável beber, para quê remédio pra ressaca? A proibição virá, tão certa quanto a enxaqueca da quarta-feira de cinzas. A cura definitiva da ressaca tem data de validade.

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Publicado em 07/02/2013 às 09:03

Pra matar as saudades de Calvin e Haroldo

calvin harold ok Pra matar as saudades de <i>Calvin e Haroldo</i>

Bill Watterson não desenha Calvin desde 1995. As tiras de jornal são repetidas desde então. Foi o último gênio das tiras. E peça rara. Proibiu todo tipo de merchandising, porque sentia que isso desvalorizava os personagens. Rasgou dinheiro, no curto prazo. Mas garantiu a popularidade eterna de seus álbuns. Se você quer ter um pedacinho do menino e seu tigre, a única coisa a comprar são os livros, poucos, que estão por aí e são obrigatórios.

Bill parou quando quis, depois de dez anos fazendo Calvin e Hobbes, aqui Haroldo. E nunca mais mostrou as caras ou deu entrevistas. Vive tranquilo, no interior, pintando e, imagino, matutando. Tudo isso gera um prazer especial quando a gente vê a homenagem abaixo. Foi feita por dois grandes talentos dos quadrinhos. O escritor Brian Azzarello e o ilustrador Lee Bermejo, que não brincam em serviço quando fazem séries provocativas e violentas (100 Balas!), acertaram exatamente no ponto ao recriar Calvin e Hobbes como Lex Luthor e Coringa.

A história foi feita para um gibi da DC Comics, por enquanto publicado só nos EUA. Milagrosamente, Brian consegue capturar os espíritos do menino e seu tigre, e também os dos arquiinimigos de Batman e Super-Homem. E Lee, bem, se Bill quiser passar o nanquim para alguém, já achou herdeiro... mas não vai. E é melhor que seja assim.

forasta pequeno Pra matar as saudades de <i>Calvin e Haroldo</i>

(clique na imagem para ampliar)

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Publicado em 07/02/2013 às 00:30

Alalaô! Quem gosta de música é crítico, moleque gosta é de zoeira!

Major Lazer 2013 Alalaô! Quem gosta de música é crítico, moleque gosta é de zoeira!

Amigos na faixa dos quarenta e pouco lamentam o pouco sucesso do rock entre as novas gerações. Não tem Lollapaloozas, Sónares e megashows que espantem a nuvem negra. Só tem véio nesses shows, diz um camarada. São os mesmos caras que viram o Nirvana no Hollywood Rock, vinte anos atrás! Só tem dinossauro tocando nesses festivais e nas rádios rock, zomba outro. E banda brasileira, resmunga um terceiro, essa garotada agora só quer saber de funk e sertanejo!

Bem, quem gosta de música é crítico. Moleque gosta de zoeira. E tiozinho gosta do que era zoeira quando ele era garoto, aventureiro, solteiro e tal. Os jovens do mundo não estão nem aí pro rock porque rock é a música de seus pais e avós. No Brasil, jovem superpop adotou cego a balada sertaneja e variações. Quem quer questionar ouve vinil do Quinteto Violado, Elomar e Clube da Esquina. Rock não é mais som de festa. Fim.

Mas sempre tem um mas. Nas várias listas de apostas para 2013 que circularam nas últimas semanas, um nome que me chamou a atenção foi o Major Lazer. Nem é um grupo novo, mas tem disco novo saindo em fevereiro, e a visibilidade está aumentando. É projeto de Diplo, DJ e produtor de mão cheia, interessado na música do gueto e sua conexão com as grandes massas.

Dá uma olhada no vídeo do show. Não é muito mais animado que qualquer show de rock contemporâneo? Sim. E portanto é rock. Mesmo que sem guitarras à vista. É anarquia, zoeira, tesão - carnaval.

Major Lazer - Jah No Partial por perolasblogs no Videolog.tv.

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Publicado em 05/02/2013 às 11:27

Conte sua história com Neil Gaiman

neil gaiman ok Conte sua história com Neil Gaiman

É marketing. Parte da campanha para levar o Blackberry a um novo patamar de descolância e relevância, além do segmento executivo, e da molecada viciada em mensagens de texto. É uma pequena parte de uma grande ação para fortalecer a marca, entre tantas opções de smartphones.

Não faço ideia se é marketing do bom - se vai vender mais telefones ou não. Mas não é manipulativo ou grotesco. Não oferece mais por menos, refrescante sensação, nem o gosto da vitória. O projeto Calendar of Tales nos convida a uma experiência única, além dos preços. Não todos nós; só os que percebem o privilégio de colaborar com Neil Gaiman, um dos grandes contadores de histórias de nossa época.

Usando o Blackberry - mas não só, outras tecnologias estão disponíveis - qualquer um poderá interagir com Neil para a criação de um Calendário de Contos. A ideia é que os leitores inspirem, e ilustrem, doze histórias, que serão escritas e publicadas por Neil a cada mês. Mas não serão dele. Serão de todos que colaboraram.

Neil, idolatrado por Sandman, abandonou os gibis pelos livros para todas as idades. Sabe falar como adulto quando quer, como demonstram a antologia Fragile Things, Coisas Frágeis, e o romance Deuses Americanos, que tive a sorte de publicar no Brasil. Lida com temas adultos mesmo em seus livros infantis. Não é nerd e não tem vergonha de escrever sobre o fantástico. Não faz qualquer coisa por dinheiro, nem tem pudor de ser fofo com os fãs.

Desta vez, ele está sendo bem pago para ser mr. simpatia. A Blackberry deve estar desembolsando os tubos para amarrar ele por um ano. E também o diretor e figuraça Robert Rodriguez, e a cantora Alicia Keys, em projetos semelhantes, dentro da iniciativa Keep Moving. Robert tem o que dizer. Alicia não, mas tem um vozeirão e é bonita paca... Mais detalhes aqui.

Imagino que não é isso que vai fazer os novos telefones da marca explodirem em vendas, e nem sei se eles merecem, mas não importa. A empresa canadense já merece a gratidão dos fãs de Neil. Escrever, diz ele abaixo no vídeo de apresentação do projeto, é uma boa maneira de você lembrar que outras pessoas existem. Só por essa, o projeto Calendar of Tales já se justificou...

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Publicado em 04/02/2013 às 08:14

BBB, uma estrela pornô, e uma revista chamada General

bbb <i>BBB</i>, uma estrela pornô, e uma revista chamada General

Era uma vez uma revista chamada General. Foi para criá-la que pedi demissão da Bizz dia primeiro de agosto de 1993. É dela que falo abaixo. Durou 17 edições. Pouca gente leu, quem leu lembra. Eu só lembro dos erros que cometi. Um dos piores foi justamente não dar capas de música fortes em todas as edições. Consequência de abrir mão da função de editor-chefe da revista, a maior marcada de todas.

Se arrependimento matasse, era um esqueleto teclando aqui agora. Mas o assunto principal é a cultura reality show. Antes, claro, que existissem reality shows, porque o texto é de 94. Errei feio com a Traci Lords, mas no atacado a intuição estava correta. Pô, até que eu mandava bem de profeta.

Bem-vindo à próxima fase com O. J. Simpson e Traci Lords

Ficamos batendo cabeça duas semanas. Queríamos porque queríamos botar uma capa de música na nossa revista. E quem diz que achamos? Procura no presente, não tem, procura no passado, não se justifica. Pintou a clássica saída de jornalista: “pô, vamos fazer uma capa sobre a ausência de ídolos no pop moderno!”

Mais ou menos. Não é exatamente que não tenhamos ídolos disponíveis, é que parece que eles não representam muita coisa. Se bem que esse negócio de ídolo com permanência é bem recente, coisa dos anos 80, talvez. Não existe precedentes para o que aconteceu com Madonna e Michael Jackson, nem mesmo nos Beatles e nos Stones.

Enfim: era, é, uma sinuca de bico. O “star system” foi criado para encher os cinemas na recessão americana dos anos 30. Basicamente, consistia em inventar um monte de mentiras consistentes com a imagem cinematográfica do astro, e depois propagandear as mentiras ao máximo.

Depois, chegou o refinamento. Não basta o roqueiro fazer cara de drogado: ele tem que se detonar ao máximo, ir trocar de sangue na Suíça etc. Nada queima mais o filme do que se fazer de marginal e ser bonzinho. Como diria o Sonic, bem-vindo à próxima fase: a fase O. J. Simpson. Como um astro pode competir com o drama real do negão boa praça, astro do esporte, sendo julgado por esfaquear sua mulher mais-americana-impossível e seu possível amante?

Até eu acordo e vou direto ver a CNN. É de uma chatice hipnotizante. É vida real transformada em entretenimento, sem edição nem efeitos especiais. Talvez neste novo momento da cultura popular mundial, a celebridade não tenha significado, a não ser que esteja ancorada numa vida pessoal tão eletrizante como a persona pop do artista.

Se for assim, desconfio que sei quem será a grande estrela da próxima fase. O nome da moça é Traci Lords. A maioria dos leitores homens sabem de quem estou falando. Se você não sabe, lá vai. Traci Lords é um ícone da masturbação em cinco continentes. Na primeira metade dos anos 80, era a maior estrela do vídeo pornô, por causa de sua safadeza e sua carinha de ninfeta.

O que ninguém sabia é que ela era ninfeta mesmo. Tinha 16 anos quando começou a fazer pornô, o que é absolutamente criminoso nos Estados Unidos. Descobriram isso, apreenderam todas as fitas em que ela aparecia, processaram os produtores. Traci, a essa altura com 19 anos, fez mais um filme na França e depois saiu do pornô. Virou atriz “séria” em seriados e em algumas produções classe Z, ficções-científicas e policiais vagabundos. Trabalhou com o diretor John Waters em Cry-Baby e Mamãe É de Morte.

Agora, Traci vai lançar um disco. O primeiro single foi mandado para DJs da Inglaterra e Estados Unidos, sem identificação do artista. Colou. Paul Oakenfold, DJ britânico e produtor de gente como Primal Scream e Stone Roses, vai fazer um remix. E para completar, rola o boato de que Traci vai fazer uma série de participações especiais no seriado Melrose. Madonna pode fazer de conta que é uma piranha muito louca e rebelde. Mas como vai competir com uma menina que tomou todas as drogas, fez todas as besteiras e transou com algumas centenas de homens na frente das câmeras —antes dos 18 anos?

Axl Rose pode fazer de conta que é um bad boy daqueles, jogar cadeira em jornalista etc. Como vai competir com um cara que deu sei lá quantas facadas no pescoço da mãe de seus filhos (ou está sendo acusado disso)? A resposta é: não tem como. Os acadêmicos que estudem o assunto e venham falando de “simulacros”, “artefatos”, “fake” etc. O nosso negócio é vida real e não tem mais volta.

(General, 94)

traci lords ok <i>BBB</i>, uma estrela pornô, e uma revista chamada General

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Publicado em 01/02/2013 às 20:39

Renan e Santa Maria: como mudar o Brasil para melhor, mantendo o que temos de pior

A eleição de Renan Calheiros para presidente do Senado causa revolta.

Não há porquê tanto choque. Não é pior que Sarney, Maluf, Collor, outantos outros políticos que dão sustentação para o governo de Dilma, e deram para o de Lula. Também não é pior que Antonio Carlos Magalhães ou outros do mesmo quilate, que viabilizaram os mandatos de Fernando Henrique Cardoso.

Em brincadeira de gente grande não tem santo. Você vai pra guerra com as armas e os aliados que consegue. Churchill tinha quase mais nojo de Stálin, seu aliado, do que de Hitler, seu arquiinimigo. Vale também para empresas, aliás. Business is war.

Agora, quem vai negar que tivemos avanços nos últimos vinte anos?Controlamos a inflação. A mortalidade infantil caiu. Mais gente tem acesso sapato, xampu, iogurte e um diploma universitário. O Brasil se tornou um ator global. A consultoria Price Waterhouse garantiu neste começo do ano: nosso país é o terceiro melhor do mundo para as empresas investirem, atrás só dos Estados Unidos e China.

Deveríamos ter avançado mais neste período, claro. Mas não tem como tapar o sol com a peneira. O Brasil melhorou muito nestas duas décadas de políticas de alianças. Desde o final da ditadura, todos os governos juntaram alhos com bugalhos num grande balaio, amorfo e amoral. O PSDB, partido de oposição, fundado por políticos com histórico de resistência ao regime militar, atravessou o rubicão quando selou a aliança com o PFL, herdeiro político da Arena.

Essa política, que permite e recompensa os Renans, mudou o Brasil para melhor. A questão, e é uma questão dramática e urgente, é que é essa política não muda o principal, que é a cultura do país. Pelo contrário, é gasolina na fogueira. Se nossos eleitos aceitam bandidos como companheiros de cama e mesa, porque não você ou eu? Se as regras não valem pra quem tem dinheiro e influência, a única atitude racional é fazer qualquer coisa pra enricar.

Também é um modelo concentrador de riqueza. O Brasil tem pobres menos pobres que há vinte anos, mas tem ricos muitíssimo mais ricos. Se a maior fatia da riqueza está nas mãos do governo, e de empresas beneficiadas pelo governo, a impunidade é certeza e a injustiça é cotidiana. Pode prender os músicos e os donos da boate. Outros incêndios virão.

Aqui ou em qualquer canto do planeta, os melhores países para viver, onde o governo funciona melhor, são os países em que as riquezas são melhor distribuídas. Em que um número maior de empresas pequenas representam o coração da economia, e são o motor de geração de empregos.

Em que a distância entre a base e o topo da pirâmide é uma estilingada. No sistema dominante no planeta - vamos chamar de capitalismo? - a única liberdade de fato vem da riqueza. Não só para o indivíduo, mas para a comunidade, e a nação. Quanto mais pobres tem um país, menos poder e menos poder de pressão tem seu povo, como um todo. E menor a liberdade de expressão, porque a imprensa é sustentada por poucos. Vale para Estados e regiões. Compare São Paulo com o Maranhão, ou o Leblon com a Favela da Maré.

Não estamos sós. Os BRICS estão cada vez mais ricos. Mas só os ricos apitam nestes países. Está sendo criada uma nova aristocracia empresarial-governamental, a cobra comendo o rabo. Há quem diga que a saída é a educação. Os russos tem alto nível educacional. A Rússia está há anos nas mãos de um brucutu da KGB e de uma elite plutocrata.

Educação não é o que você diz, é o que você faz. Só se educa por exemplo. Não adianta um povo com mestrado, e todas as apostilas garantirem que o crime não compensa, se os Renans continuam se dando bem.

Renan é só uma engrenagem na máquina. ACM, por exemplo, era bem mais importante. Morre um, nasce outro. Sempre vai ter alguém lá no alto para dizer ele é bandido, mas é o nosso bandido. E assim esses picaretas continuam ganhando carta branca para aprontar, porque fundamentais para o projeto de poder do momento. E é isso que o Brasil ensina para seus filhos.

Não dá pra mudar tudo do dia para noite. Mas as mudanças que buscamos tem que ser de verdade. Há que meter a mão no vespeiro. Não basta boquejar contra Renan. Nem brigar para tirar Renan, e pôr outro igual no lugar. Os beneficiados por este estado das coisas vão lutar para que as coisas permaneçam como são.

Em um País em que a presidente tem 80% de aprovação da população, não precisava ser assim. Dilma tem cacife para liderar dando o exemplo. Bancou Renan lá. É a política de sempre, que está mudando o país para melhor, mantendo o que há de pior no País.

Mudar de verdade requer intransigência, radicalismo, coragem moral. Renan só é importante de uma maneira: sua eleição é um perfeito exemplo de tudo que há de errado no nosso país. Enquanto as regras não valerem para todos, a compra de votos, eleições, pareceres, benesses, fortunas, monopólios e alvarás é inevitável. Novas Santas Marias são inevitáveis.

Permitir o mal em prol de um suposto bem maior é mais que imoral: é garantia de desgraça. Os meios modificam os fins...

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Publicado em 30/01/2013 às 18:02

Santa Maria

O que dizer sobre uma atrocidade como a de Santa Maria?

Como romper o silêncio?

Com cuidado.

Com respeito.

Com vergonha.

Sem santificar uns ou demonizar outros.

Sem explorar os imolados.

Sem o choro fácil em frente às câmeras de tevê.

Santa Maria invoca compaixão - atributo primordial da mãe.

E impõe ação.

Não o discurso histérico, a medida demagógica, a punição extrema.

Antes de agir, julgar, e antes enxergar.

Compreender - horror - que são só mais algumas centenas, de tantos milhares de brasileiros inocentes caídos a cada ano. De diarreia e à bala, no acidente e na enchente.

Reconhecer que neste País cada vez mais rico e poderoso, as regras continuam à venda, e ninguém vigia os vigias.

Enquanto aceitarmos este Brasil, tragédias evitáveis, como a de Santa Maria, permanecerão inevitáveis. Esqueceremos esta no próximo desabamento, no próximo incêndio na favela.

Outras virão. É certo. Todo dia. Toda hora.

Sem alívio para os vivos. E sem justiça para os mortos.

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Publicado em 24/01/2013 às 16:00

São Paulo: daqui ninguém me tira

foto 11 São Paulo: daqui ninguém me tira

Nasci em Ribeirão Preto, me criei em Piracicaba, vivo em São Paulo desde 1983. Escolhi, escolho todos os dias, viver aqui. É onde está a ação, os amigos e o amor. A cidade foi boa para mim. Em 1999, retribuí por escrito, na revista Caros Amigos. Hoje é um bom dia para revisar e lembrar...

Toda grande cidade merece um portal, um ícone, uma mensagem subliminar do que espera o imigrante e o filho que à casa torna. Uma estátua da Liberdade, a Torre Eiffel, a Basílica de São Pedro. Em São Paulo é a Marginal. As duas – na minha cabeça, uma. Como São Paulo, não acaba nunca. Estão ali torres futuristas e favelão, engarrafamento e outdoors, garças, ratos, vendedores de coca-cola, caminhão, conversível, lixão e luxúria.

Sempre que chego guiando de fora e caio na Marginal lembro porque decidi viver aqui. Porque só prestei vestibular para estudar aqui e como queria, como sonhava morar em São Paulo!

São Paulo é a minha casa. Em 1999 são 17 anos que moro aqui – muito mais que minha vida em Piracicaba, onde fui criado. Volto pra lá e não entendo nada, não reconheço os quarteirões que explorava passo a passo, as fronteiras que corajosamente atravessei. Lembro de pela primeira vez atravessar a avenida proibida que me separava do Santo Graal dos meus oito anos, a banca da rodoviária…

Sou caipira e sempre serei. Até hoje solto “os cara são legal”. Mas sou paulistano também. Todo mundo nessa cidade é mesmo caipira, nortista, imigrante. Se não é, foi seu pai ou seu avô.

E viver em São Paulo bota esse negócio de ser caipira ou cosmopolita no seu devido lugar. Depois de viver em SP, que lugar mete medo? A capital do planeta, Nova York? Adoro – uma cidadezinha charmosa, segura, aconchegante e jeitosa de andar a pé.

Ninguém duvida que São Paulo é um lugar infernal, injusto e incompreensível. Sua área urbana é um país de quase 18 milhões de pessoas, dos quais pelo menos metade vive em uma merda de dar gosto. Para cada concessionária de importados tem um Capão Redondo.

A cidade não tem plano diretor, não tem explicação e, muita gente garante, não tem jeito. A última bizarria é a construção de uma das torres mais altas do mundo no centro velho.

É obviamente injusto expulsar o morador durango do centro para revitalizar (e encarecer) a área. Construir uma megatorre numa metrópole com tantos problemas, para quê? Para dar dinheiro a construtoras e políticos? Mas também não é absurdo abandonar o centro ao destino de cortição movido a crack?

Nenhuma solução é simples. E, mesmo assim, não entendo morar em outro lugar do país. Se bem que, como todo paulistano, também fantasio morar a um passo da areia, a 20 metros do mar – algum dia.

Posso mudar de opinião. O Brasil fica mais parecido com São Paulo a cada dia. Percebi assistindo ao Vídeo Show. Um novo grupo de pagode mineiro tinha aulas de ginga e samba no pé numa academia, com uma professora de balé moderno.

Não dá pra ficar mais claro. Sai de cena o jeito moreno de ser, entra a profissionalização custe o que custar. Está se escafedendo a fantasia do Brasil malemolente, “espontâneo”, das conexões da sociedade sem classes nem preconceitos.

Agora a ideologia é outra: ganha quem estiver melhor preparado (conectado, capitalizado, armado) para fazer a oportunidade render. É a meritocracia da padaria paulistana: preto, baiano ou gringo, quem tem competência e persistência se estabelece. Não é à toa que ACM só passou a mandar de verdade quando deixou de ser puro peixe da Globo para operar junto com a máfia tucana paulistana.

Como sempre, a cultura pop é o radar da transformação. O sucesso de sertanejos, pagodeiros, forrozeiros não é a armação das gravadoras, que ainda habitam o mesmo ambiente incestuoso e jabazeiro de festinhas descoladas. Pelo contrário. Tudo que executivo de gravadora não quer é ouvir sotaque caipira.

O que está acontecendo é a aplicação de valores administrativos modernos ao velho “charme e veneno” brasileiros. Jorge Benjor abriu as festividades quando foi ressuscitado por um jingle de agência de publicidade. O case da hora é a Tiazinha: uma gostosa (como tantas) vira de uma vez capa campeã da Playboy, super-heroína de televisão, hit das paradas e fenômeno de licenciamento.

Ou, como notou meu camarada Pereira, a nova loira do Tchan é loira por talento marqueteiro de Beto Jamaica e Compadre Washington. Pontaria certeira: só no maior mercado de discos, o Estado de São Paulo, se diz “loira” e não “loura”.

Você pode questionar a originalidade da Banda Eva e pode duvidar de que a receita de sucesso acima seja útil pro favelado escapar da enchente. Mas você não pode negar a força de São Paulo nem seu novo papel na maneira como o brasileiro entende seu país.

Embora daqui pra baixo a ética profissa seja igualmente forte, os sulistas perdem ponto na variedade. É quase tudo branco imigrante (e no Paraná, japonês também). Fazem falta a convivência e o conflito de taxista carcamano, executiva mulata, playboy paraíba, tira libanês e feirante coreano.

E onde estão eles? Na padaria, de terno e de havaiana, lugar do papo, da birita, dos negócios, da paquera e do moleque esmolando um sanduba – tudo rolando de pé que estou numa puta correria, velho.

Na vitrine quentinha tem esfiha com pizza, coxinha versus cheese-salada, pão de queijo, pão sírio e ciabatta. Peço antes uma meia cerveja pra tomar de barranco e garanto pro santo: dessa cidade do diabo não saio, daqui ninguém me tira.

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Publicado em 23/01/2013 às 16:47

Jean-Yves de Neufville

forasta Jean Yves de Neufville

Jean-Yves de Neufville nos deixou. Fomos contemporâneos na Ilustrada, 1989-1990, e ele foi colaborador constante da Bizz quando editei a revista. Era gentil e generoso e detalhista e atrapalhado e apaixonado por música. Alexandre Matias homenageia aqui o profissional. Eu lembro da nossa amizade (leia mais aqui).

Choque e nostalgia - como se 25 anos atrás fosse ontem. Só a arrogância insana dos 23 anos me permitia pretender escrever sobre música, em uma equipe que tinha Carlos Rennó, Carlos Calado e Jean-Yves, e em breve Luís Antonio Giron, fora os editores e subs (Márion Strecker, Mário César Carvalho, Zeca Camargo, Thales de Menezes, Marcos Smirkoff) e colegas que cobriam outras áreas, e mesmo assim manjavam muito mais de música que eu (Teté Martinho, Vitor Paolozzi, Ana Carmem Foschini, Israel do Vale...).

Eu, foca, não sabia nada, atirava pra todo lado e era pau pra toda obra. Jean-Yves era especializado, desesperado por música. Se preparava cuidadosamente para entrevistar os artistas. Ouvia álbuns repetidamente para preparar as resenhas. Aporrinhava editores com questiúnculas para ele da maior relevância, sempre com português preciso e aquele sotaque frrancês, Andrrê, Forrasta etc. Ouvia rock e jazz e MPB e música clássica com idêntica ausência de preconceitos. Eu, fundamentalista dos três minutos, não conseguia entender. Discutíamos música sem fim, traçando x-saladas e rabadas ao molho ferrugem nos botecos dos Campos Elíseos.

Parir uma crítica era trabalho de ourivesaria. Sofria, suava, levava século e meio. Uma vez, fechamento da Ilustrada atrasado, só faltava seu artigo. O secretário de redação veio cobrar aos gritos: desce como tá, vamos fechar já! Corta pelo pé (é como jornalista chama o fim da matéria, o pedaço mais dispensável). Jean-Yves deu o contra: é melhor cortar aqui - e começou a aparar as primeiras linhas do texto, onde, na teoria, deveria estar o mais importante... e a gente ao lado passando mal com a cena.

Uma vez veio pedir, todo educado: você já escreveu este ano sobre os novos discos da Legião Urbana e Titãs, não se incomoda se eu fizer os Paralamas? São as três bandas mais importantes do Brasil. Respondi que sim, lógico, besta com delicadeza do colega experiente, quase dez anos mais velho.

Vendi para ele meu primeiro computador, primeiro dele também, com impressora e uma mesa metálica trambolhenta pra acomodar tudo. Eu tinha dito que era um 386, me confundi, ignorante. Levei na casa dele, instalei, a máquina liga, é um 286. Ele tudo bem, sem problemas, vou usar é para escrever mesmo. E aí abriu uma cerveja, e passei horas explorando sua enciclopédica coleção de discos. Me apresentou sua mulher, Valéria, linda e inteligente. Pensei: Jean é um homem de sorte.

Não via Jean-Yves há anos. Por quê? Porque a vida é assim. Ele se foi ontem, caminhando pelas ruas do meu bairro. Hoje troquei a primeira mensagem com sua filha, que vi da última vez bebê. Que guardes as melhores memórias de teu pai, Naima, e que a melhor música te conforte e encante e inspire...

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Publicado em 23/01/2013 às 07:58

Trailer: o novo desenho do criador de Akira

Akira foi a porta de entrada do Japão para alguns milhões de fãs de quadrinhos ocidentais nos anos 80. O mangá, e o desenho animado, eram de cair para trás, e fizeram muito para estabelecer o Japão como sinônimo de futuro. Seu criador, Katsuhiro Otomo, produziu muito depois.

Inevitavelmente, na comparação sua obra posterior sempre saiu perdendo. Agora, troca o futuro pelo passado com um novo longa animado, Combustible, combustível. Otomo pode nunca mais repetir o sucesso de Akira. Continua um talento único.

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Publicado em 21/01/2013 às 13:58

Walmor Chagas e o último ato

walmor chagas ok Walmor Chagas e o último ato
Inútil se preocupar com a morte. A natureza dá tranquilamente conta do recado. Inevitável se preocupar com o caminho até lá. Os últimos passos são os mais difíceis. A modernidade inventou a morte à prestação. Arsenais de remédios, exames, engenhocas empurram a expectativa de vida pra frente. Ótimo até certo ponto. O custo é alto demais além de um limite. Onde fica a fronteira?

Decisão pessoal. Frequentemente não estamos aptos a tomar. Mesmo tomada, não damos o próximo passo lógico. Se agarrar a vida a qualquer custo é atávico, da natureza dos animais. Bicho que não deu seus pulinhos morreu antes de passar seu DNA para os descendentes. Somos todos herdeiros de gente que fez o diabo para se manter viva.

Walmor Chagas foi um dos atores mais importantes do Brasil, e o mais elegante. Era mais que um intérprete. Tinha um cérebro e usava, transparente em suas entrevistas. Estudou filosofia na USP. Integrou a maior companhia de teatro de sua época, o TBC. Foi casado com a uma estrela sem par, Cacilda Becker. Fez muita TV e cinema, e estrela o mais impressionante filme sobre nossa maior cidade, São Paulo S.A. Foi belo, famoso, amado.

Vivia há anos escondido em um sítio em Guaratinguetá, com a coleção de problemas de saúde que um homem de 82 anos tem. Hipertensão, mobilidade reduzida, dificuldade para se alimentar. Fisioterapia, fonoaudióloga, acompanhante. Nos últimos quatro anos, tomava injeções no olho para enfrentar a cegueira. Que piorava, inclemente. Pena pesada para um leitor e cinéfilo apaixonado. Morreu com um tiro na cabeça. Tudo indica que puxou o gatilho.

Como morrer? Sábios da antiguidade se dedicaram muito ao inexorável tema. Ninguém fez melhor que Petrônio, supremo árbitro do bom gosto e do bom viver, nos tempos de Nero. Acusado de traição, e com prisão ou morte a lhe esperar, celebrou sua partida com estilo inimitável. Convocou os amigos próximos para um banquete, cortou suas veias, e imediatamente as atou. Enquanto papeavam, abria ou fechava o torniquete, permitindo que o sangue fluísse lentamente, ou aos borbotões.

Sobre o que conversaram? Sobre o que conversam os amigos? Nada de muito solene. Deleitaram-se: riram, falaram mal dos outros, improvisaram gracejos em verso. Petrônio ridicularizou os excessos dos poderosos e suas próprias veleidades. A alguns escravos deu belos presentes, a outros puniu. Por fim partiu em pedaços seu anel de sinete, para que nunca mais alguém assinasse Petrônio. E assim o autor do Satyricon deixou a vida e entrou para o rol das melhores mortes da história. A não ser por um detalhe: tinha 39 anos.

Os únicos tipos de suicídio que estão além das críticas são, como este, para escapar de um destino pior que a morte. É um princípio que vem dos Estóicos. Os filósofos gregos pregavam que suicídio é a fuga de uma responsabilidade moral, social, espiritual. Só é permissível em casos extremos. Talvez fosse o caso de Aaron Swartz, jovem gênio do mundo digital, que se enforcou semana passada para escapar de uma possível condenação à prisão. Talvez seja o caso de Wilko Johnson, guitarrista de 65 anos que, com câncer terminal, em vez de se tratar vai se despedir no palco. São? Leia sobre Aaron e Wilko e decida.

Suicídio, com boa explicação ou não, é sempre um mistério. Religiões posteriores foram além e o transformaram em pecado: suicidas não merecem os sagrados solos dos cemitérios. Sêneca, contemporâneo de Petrônio, se matou por ordem de Nero. Era morrer pelas próprias mãos, ou na mão do carrasco. Dante Alighieri o condenou ao seu Inferno, na Divina Comédia.

Como morrer, e, vamos encarar de frente, como se matar se for o caso? Melhor não pensar nisso por enquanto. O mesmo Sêneca determina: nada é tão danoso como antecipar desgraças. É humano amar a vida acima de tudo, desfrutá-la com paixão até o último ato e torcer para que o pano caia rápido. Se não, é torcer para ter a elegância e coragem de Walmor Chagas. Grande ator, soube a hora de sair de cena. Sai sob aplausos.

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