Publicado em 21/03/2013 às 13:39

A Hora do Planeta é parte do problema, não da solução

hora planeta 2 A Hora do Planeta é parte do problema, não da solução
Este sábado acontece a Hora do Planeta. É uma ação da organização World Wildlife Fund, WWF. É uma das ONGs mais famosas do mundo: o símbolo é um urso panda. Em resumo, convoca todas as pessoas do mundo a se desligarem da rede elétrica por uma hora. Segundo a própria WWF, "a Hora do Planeta é um ato simbólico, promovido no mundo todo pela Rede WWF, no qual governos, empresas e a população demonstram a sua preocupação com o aquecimento global, apagando as suas luzes durante sessenta minutos." A reflexão que a WWF propõe este ano: "o que você faria para salvar o planeta?"

Nada. O planeta não precisa de salvação. A Terra vai continuar existindo nos próximos bilhões de anos. Com qualidade melhor ou pior de vida para os seres que o habitam, claro. Mas nada que eu invidualmente faça faz diferença nenhuma, em termos de impacto ambiental. Críticos dizem que a Hora do Planeta, ou Earth Hour, é só marketing. É bem pior que isso. É nocivo. A Hora do Planeta é bobagem no conteúdo e na forma. E até na iconografia carola: um planeta Terra com uma vela acesa sugere contrição, submissão, oferenda. Não vamos misturar fé e ciência. Os opostos se repelem.

Famosos do mundo emprestam seus prestígios à Earth Hour. A trilha sonora oficial tem assinatura de astros, David Guetta e Usher. No Brasil, este ano a campanha conta com o apoio de artistas, a benção das instituições, e o aplauso dos bem-intencionados. Prefeituras vão apagar luzes de monumentos: o Cristo Redentor, a Ponte Estaiada de São Paulo. Este ano tem uma novidade, um desafio. Se você fizer isso e aquilo pela natureza, este e aquele famoso farão algo em contrapartida. Jessica Alba e Maria Fernanda Cândido estão todas lindas no site da WWF - quem não quer se juntar a elas?

A maioria de nós não quer. São 67 milhões de brasileiros no Facebook e 43 mil "curtiram" a Hora do Planeta. É muito improvável que meio por cento da eletricidade brasileira seja economizada nesta hora, mas esse nem é o ponto. O próprio WWF assume que o objetivo da Earth Hour, nome global da ação, é simbólico. É assim que seu sucesso tem que ser medido, pela repercussão. É é por isso que devemos nos esforçar pelo seu fracasso. É hora de menos simbolismo. E principalmente menos narcisismo e mais pragmatismo.

A crítica mais comum à Earth Hour se limita ao mensurável. Esta hora longe da eletricidade economiza pouquíssima energia. As evidências são neste sentido, como sugerem análises aprofundadas dos efeitos da Earth Hour na Inglaterra, Califórnia, e região de Ontário, três lugares ambientalmente avançados. A maioria das usinas continuará funcionando - e gerando CO2, se movidas a petróleo. Pior se forem desligadas, porque gastam mais energia para desligar e religar, do que para se manterem continuamente ligadas. Na hora escura, as pessoas vão usar lanternas a pilha, e acender velas de parafina.

Apoiadores da Hora do Planeta retrucam que não é isso que importa. A Hora do Planeta seria um instrumento poderoso de conscientização. Não se trata de quanta energia se economizou nesta hora. Garantem: o envolvimento das pessoas na Earth Hour faz com que elas adotem ações sustentáveis no restante das horas de cada ano. Só que a Earth Hour parte de um princípio insustentável: se cada um de nós fizer nossa parte, está tudo resolvido - e mais, fazer nossa parte é não só indolor, como divertido e descolado! Balela publicitária para aplacar a má consciência de desinformados.

Não conversemos sobre salvar o planeta, ou aquecimento global. Vamos discutir o que dá pra medir: energia. Economizar energia é inútil. A esmagadora maioria da população atual ainda nem tem acesso aos confortos básicos que a eletricidade proporciona. Luz, geladeira, TV, computador, máquina de lavar roupa e outras coisas que você, leitor, tem em casa. O aumento do poder de compra nos países emergentes aumenta brutalmente a demanda por energia. Ah, e a população da Terra vai crescer uns 40% nos próximos 40 anos, antes de (vamos torcer) se estabilizar por volta dos dez bilhões de pessoas.

Donde que a demanda energética não vai crescer nos anos vindouros - vai explodir. A estrutura atual já não dá conta do recado. Está implodindo. Como podemos perceber pelos apagões nas grandes cidades brasileiras, cada vez mais frequentes. Este mês tivemos mais apagões em São Paulo do que em qualquer época nos trinta anos que vivo aqui. O recorde aqui de casa: ficamos sem luz das três às dez da noite. Não temos que gastar menos energia. Temos que produzir muito mais, farta e acessível e sem impacto danoso ao meio-ambiente. Fácil falar, imperativo fazer.

O economista Ross Kittrick é um dos críticos mais eloquentes da Earth Hour. Diz em ensaio de 2009: a Hora do Planeta celebra a ignorância, a pobreza e o atraso. "A eletricidade abundante e barata foi a maior fonte de libertação da humanidade no século 20", começa em seu ensaio de 2009. "Repudiá-la por uma hora significa repudiar por uma hora o humanismo." Se você vê virtudes em viver sem eletricidade, desafia ele, faça isso não por uma hora, mas por um mês.

Para a repórter de ciência Maggie Koerth-Baker, o evento perpetua mitos sobre o meio-ambiente, e dá as pessoas uma noção errada de como enfrentar o desafio da energia. O principal defeito da Earth Hour é que ela faz parecer muito fácil resolver um problema muito complicado. É só não deixar a luz ligada à toa no dia-a-dia, e desligá-la uma hora por ano, e já fizemos nossa parte!

Maggie corrige: a mudança verdadeira é difícil e não acontece em casa. Como muitas campanhas de conscientização cuidadosamente planejadas pra fazer a gente se sentir bem, a Earth Hour engana. Dá a impressão de que nossas escolhas individuais, e pequenas mudanças no estilo de vida de cada um, são a maneira correta de lidar com problemas gigantescos - e não são.

Um estudo do MIT citado por Maggie ilustra maravilhosamente bem essa realidade. Os pesquisadores analisaram o consumo de energia de 18 tipos completamente diferentes de americanos, de um milionário e um senador a um mendigo e um monge budista. Os dois últimos gastaram pessoalmente muito menos que os dois primeiros, como prevista. Mas quando você analisa o gasto total coletivo de energia (a energia que faz com que funcionem as estradas, hospitais, escolas, bombeiros, delegacias etc.), e divide este gasto total, fica demonstrado que a diferença entre um mendigo e um milionário é mínima.

A jornalista completa: eventos como a Earth Hour passam a mensagem de que a solução depende fundamentalmente de escolhas individuais - de escolher não usar a infraestrutura energética que dividimos. Mas para os cientistas e especialistas que estudam como geramos e usamos energia, somente políticas públicas têm o poder de modificar este cenário radicalmente, e rapidamente, na velocidade que precisamos.

Vamos mais longe. Vamos onde é necessário ir. Precisamos é de políticas públicas que também influam fortemente na maneira como premiamos o capital, o trabalho, a inovação. E influam de maneira global. O capital recompensa muito quem cria um novo aplicativozinho pra iPhone e pune quem tenta investir em projetos ambiciosos em energia, saúde, educação. Bill Gates esses dias esbravejava: como pode a indústria farmacêutica investir mais dinheiro para curar a calvície do que a malária?

Ora, Bill, o investimento vai para onde o lucro é rápido, certo e maior. A tal mão invisível do mercado não dá conta de objetivos que não gerem bons lucros, muito menos metas de longo prazo. Os governos também não. Muitos países estão em crise brava e desviam seus recursos para garantir a saúde de instituições financeiras. Cortam investimentos sociais, em vez de aumentá-los proporcionalmente às demandas de suas populações. É o caso claro da Europa. Os EUA, que não estão mal, também cortam forte seu orçamento. Os governos atrapalham mais que ajudam, mas ainda ajudam mais que a maioria do setor privado. Soluções globais passam necessariamente por governança global.

Como cravou Millôr Fernandes, todo problema complexo tem uma solução simples - e errada. Quando a solução proposta avança mais lentamente que o problema, a solução é de mentira. É o caso da Earth Hour. Apela para o que nossa sociedade tem de mais narcisista: hei, você é muito importante, você pode fazer toda a diferença! Não pode não. A WWF mostra o que parece ser um problema, e logo oferece uma maneira mágica e prazerosa de resolvê-lo. É só marketing, no que o marketing tem de pior.

A WWF propõe que salvemos o planeta sem transformá-lo, sem metermos a mão no que é fundamental mudar. Sem esforço, nem conflito. Mas é a prioridade para os lucros dos bancos e os bônus de seus dirigentes que faz com que não tenhamos investimentos públicos. É a prioridade para os dividendos das empresas e os salários de seus CEOs que privilegia a novidade fácil sobre a inovação que importa. É a perpetuação de sistemas de governos obsoletos que chancela este estado de coisas, incompatível com as necessidades energéticas e ambientais da humanidade, hoje e ainda mais no futuro. Simples assim, complicado assim. Os desinformados que celebram a Hora do Planeta não sabem disso, ou não querem saber. São parte do problema, não da solução.

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Publicado em 20/03/2013 às 13:01

Budismo ao estilo South Park: educação não é jornada, é música

Alan Watts ok Budismo ao estilo <i>South Park</i>: educação não é jornada, é música

Ninguém fez mais para divulgar o budismo no Ocidente que Alan Watts. Ninguém fez mais para estraçalhar vacas sagradas do que Matt Stone e Trey Parker, os alucinados criadores do desenho South Park. O abismo entre a dupla e Watts parece intransponível. Mas basta acreditar e saltar.

Em 2007, eles animaram trechos de palestras do autor. Mantiveram o estilo toscão, tesoura-e-cola, para passar as mensagens simples e sofisticadas de Watts. Watts falava bem. Se definia como um entertainer. Divertia enquanto ensinava duas gerações, e as seguintes, o que significa zen. Teve uma vida muito interessante - conheceu de Carl Jung a Joseph Campbell a Aldous Huxley a Robert Anton Wilson, foi pastor e professor e guru da psicodelia.

Neste desenho, Watts diz que a educação hoje é uma correria, uma viagem com um destino determinado. A gente corre do jardim para a escola para a universidade para o mundo do trabalho, e, se tudo der certo, ao sucesso - um cargo de chefia e um bom salário. Compara com uma canção. O objetivo do maestro não pode ser chegar o mais rápido possível à última nota. O objetivo de uma música, diz Watts, é simplesmente aproveitar a música, curtir e cantar e dançar.

Explicando assim não tem tanta graça. Por isso que eles não escreveram - Watts falou, Stone e Parker animaram. Também, eu não sou um mestre zen, nem mestre da animação. Vou me mantendo aluno. E aproveitando.

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Publicado em 18/03/2013 às 12:26

“O cineasta mais famoso que você nunca ouviu falar”

forasta 1 ok O cineasta mais famoso que você nunca ouviu falar

O título acima é o slogan do documentário sobre John Milius. É meio verdade. Muita gente ouviu falar de John. Mas muito menos do que ele merece. E mesmo quem sabe de sua existência, provavelmente não tem noção da importância de sua obra. No trailer, Steven Spielberg diz que Milius sabe contar uma história melhor que ele - e melhor que George Lucas e Francis Ford Coppola. Suficiente pra você?

Milius é figura única. Judeu do Missouri, nascido em 1944, mas velho que o resto da sua turma. Cresceu fã de faroeste, Ernest Hemingway, Joseph Conrad, depois Jack Kerouac - aventuras pra macho. A família mudou pra Califórnia, virou surfista. Se alistou pra lutar no Vietnã, mas a asma não permitiu. Foi estudar cinema. Uma versão bem curta do seu currículo já é de cair o queixo. Como roteirista, meteu as mãos em Dirty Harry, Jeremiah Johnson e Apocalypse Now - e momentos chave de Tubarão e Salvando o Soldado Ryan. Como diretor, assinou Dillinger, O Vento e o Leão e Conan, o original. E Big Wednesday, um filme de surf, favorito das sessões Coruja, Jan Michael Vincent e William Katt e Gary Busey, alguém lembra desse?

Millius também produziu muitos outros filmes, criou muitos outros roteiros, foi ídolo e mentor de uma boa fornada de diretores que decolaram nos 70. Era, é um herói pra muitos deles. Era homem quando eles eram meninos. A ponto de ter sido transformado em personagem - em American Graffitti, Loucuras de Verão, de Lucas. Milius continuou dando tapas em roteiros por aí. Não está morrendo de fome, de jeito nenhum. Não teve a carreira que seu talento permitiria. Vive com reconhecimento limitado, em relativo ostracismo. A razão é política. Ele é de extrema direita. Não como esses republicanos rame-rame. Sem carolice. John criou para si mesmo um tipo de conservadorismo tão extremado e biruta que não permite companheiros ou paralelo. Costumava se descrever como zen-anarquista. Odeia todo tipo de governo. Dá consultoria para institutos reaça. Gosta de máquinas da pesada. Coleciona armas. Fundou uma gangue de motociclistas chamada Motor Strike Force Paranoia. Defende alucinadamente tudo que liberais abominam.

Além de um dos grandes criadores do cinema, John também é um grande personagem. E é favorito até de muitos que nunca ouviram seu nome. Se você faz parte do culto de The Big Lebowsky, o filme-seita dos irmãos Coen, lembrará de Walter Sobchak, o brucutu vivido por John Goodman. É inspirado em Milius. Veja abaixo esta seleção de grandes momentos de Sobchak. Mas antes, saiba que foi Milius quem convenceu a UFC a colocar uma jaula de metal cercando os lutadores. Uma ideia evidente e excelente. Que só poderia sair da cabeça única, brutal e sensível, trogla e gênia, de John Milius...
forasta 21 O cineasta mais famoso que você nunca ouviu falar

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Publicado em 15/03/2013 às 12:14

Os dois nomes de Francisco

papa francisco ok Os dois nomes de Francisco

Só um pateta faz pouco da igreja católica. Ela é rica e influente. Forma e informa. Atua politicamente. Se mexe para fazer e desfazer leis. Elege muitos de nossos representantes, educa muitos de nossos filhos. É uma relíquia, velha como os Césares, e moderna como qualquer outra instituição hoje, É transnacional, meritocrática, hierárquica, midiática - a cruz foi o primeiro logotipo. A igreja é uma caixa-preta, secreta como um banco; um exército que combate por poder e almas; um reino em que o rei é eleito. A igreja importa. O papa importa.

O novo ungido é tão safo quanto a imprensa global é ignorante. Jorge Bergoglio assumiu o nome de Francisco. Genuflexão automática de jornalistas mundo afora. Recuerdos da infância: Francisco é o jovem nobre que se transmuta em santo pobrezinho, doa tudo que tem, enfrenta ricos e poderosos, conversa com os bichinhos da floresta. Irmão Sol, irmã Lua, doce é sentir em seu coração etc. Teve apresentadora brasileira rezando o pai nosso junto com o papa, ao vivo. Jorge fez fama em Buenos Aires por ser um villero. Gosta de futebol, vai ao trabalho de metrô, é gente como a gente. E de fato impressionou bem no balcão, caloroso, sorridente. Foi bem recebido urbi et orbi. Já se esperam dele milagres: liquidar com os abusos contra crianças, dar transparência às finanças do Vaticano, permitir a ordenação de mulheres, a multiplicação do pão, dos peixes, do vinho.

As críticas são pontuais e previsíveis. Há quem diga que foi leniente com a cruenta ditadura argentina. Talvez, cúmplice. Teria entregado dois jesuítas ao regime militar. Há indícios, não evidências. Um dos dois já morreu, o outro cala. Ontem repórteres que o procuravam receberam a informação de que está viajando, e volta em três meses. O Vaticano não brinca em serviço. Isso é o que se tem de semi-concreto contra o novo papa. Há quem crucifique Bergoglio por ter dado a hóstia ao ditador Videla. A igreja sempre conviveu com governos de todo jeito, e pior, muitas vezes, a igreja bancou diretamente monstros no poder. Bergoglio, bem, há lição mais radical no Evangelho do que ame seus inimigos? Ofereça a outra face? Jesus andava com prostitutas e fariseus, não é o que o novo testamento conta? O lugar do evangelista é entre pecadores, não impolutos. Bergoglio não é Helder Câmara, sorridente flagelo da ditadura brasileira, mas também não é José Maria Escrivá, confessor do generalíssimo Franco e fundador da Opus Dei.

Há quem critique o novo papa por ser contra o casamento entre homossexuais, o aborto, o divórcio e a camisinha. É como repreender um soldado por obedecer a ordem de atirar. Dogma é dogma. Para a igreja, somente a igreja representa deus na terra, e o papa é infalível em questões de fé. Bergoglio não tem liberdade para pensar ou agir diferente. Nós, cidadãos comuns, felizmente temos liberdade para defender posições mais arejadas, sejamos ateus ou crentes, e inclusive católicos.

Francisco é o primeiro papa jesuíta. Este é o ponto mais importante deste conclave. A Companhia de Jesus é a tropa de elite ideológica e intelectual da Igreja Católica. São menos de vinte mil em todo o planeta, cultos e preparados. Tem esprit de corps, inspiração militar - daí o nome Companhia. É focada em educação e evangelização. Foi fundada em 1534 para combater os primeiros protestantes. Seus votos eram de pobreza, castidade, obediência, e pela conversão dos muçulmanos. O documento fundador da ordem estabelece sua missão: lutar pela propagação e defesa da fé.

A ordem tem DNA ibérico. Os jesuítas pensaram a colonização do mundo a partir da Europa, e o nosso canto do mundo em particular. Suas marcas estão em todo canto. Piratininga se transformou em São Paulo pelas mãos de dois jesuítas, José de Anchieta e Manoel da Nóbrega. Foram por séculos os principais educadores do mundo ocidental. Em 2013, quase três milhões de jovens estudam em escolas jesuítas espalhadas pelo mundo. Aqui perto, em uma das melhores da cidade, o Santa Cruz. Nenhum jesuíta foi mais longe que Francisco de Jasso Y Apilicueta, um dos fundadores da ordem. Foi o primeiro missionário da Companhia. Explorou a Ásia quando ninguém se arriscava. Era corajoso e convincente, enviado do rei de Portugal, enviado do papa. Foi ao Japão e China e Índia, Ceilão e Goa e Madras, batizando os pobres, impressionando ricos e reis. Ganhou fama como o homem que converteu mais pagãos desde São Paulo. Foi canonizado poucos anos depois de sua morte, junto com o fundador da Companhia de Jesus, Inácio de Loyola. Francisco passou a ser conhecido pela cidade onde nasceu, São Francisco Xavier.

forasta 2 Os dois nomes de Francisco

Xavier prega a exóticos nativos

Uma das regras da Companhia - e talvez a mais chocante para olhos modernos - é: "se a Igreja determinar que é negro algo que aos nossos olhos pareça branco, nós o pronunciaremos negro." É simbólica da atitude militante dos jesuítas. Mas que ninguém imagine que a ordem vê o mundo em preto e branco. Os jesuítas mudaram a Igreja e o mundo. E fizeram isso combatendo nas frentes mais importantes - nos corações e mentes, nos bancos de escolas e universidades. Os jesuítas são e foram conservadores? Sim. E são e foram modernizadores. Recentemente, foram parte fundamental da Teologia da Libertação, que fez a opção preferencial pelos pobres, e buscou harmonizar cristianismo e revolução. Teologia da Libertação que teve como seu inimigo mais ferrenho Joseph Ratzinger, Bento 16. Que bateu Bergoglio no conclave anterior.

Jorge Bergoglio, antes de ser papa, é jesuíta. Antes de ser do mundo, é um garoto portenho, um italianinho pobre e doente, que chegou onde está através da Companhia de Jesus. Por que, pela primeira vez na história, o conclave elegeu um jesuíta? O tempo dirá. À toa não foi. Seja por inspiração divina ou pelos milênios de experiência, papas não são escolhidos ao acaso. Bergoglio é formado em filosofia, ensinou literatura e psicologia. Está na elite da tropa de elite. Escolhe o nome Francisco em homenagem ao poverello de Assis, ou ao soldado de Xavier? Ambos. O novo papa estreia afiando os dois gumes da faca. Para fora da Igreja, fiéis ou não, o nome escolhido proclama: venho em paz, despido de ambições, em harmonia com a natureza, para refundar a Igreja, fazê-la mais humana e vital. Para dentro da Igreja, ou para qualquer um que conheça a história dos Jesuítas, o nome Francisco é alerta: venho pronto para o combate.

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Publicado em 13/03/2013 às 14:45

As duas únicas coisas que faltam para resolver de vez o trânsito em São Paulo


Andar de bicicleta nas ruas de São Paulo é muito perigoso. Quem defende bicicleta como meio de transporte viável para a cidade estimula as pessoas a se arriscarem loucamente. Parece evidente. Aproveitei o gancho do pobre ciclista que foi atropelado e perdeu um braço. Fui pra cima, naquele estilo salto-no-vácuo-com-joelhada. O objetivo era mesmo causar impacto e gerar debate, que o tema merece. O título já dava o tom: Os motoristas têm mais direitos que os ciclistas.

Como sempre em temas polêmicos, a maior parte do barulho foi estática. Muitos entenderam, concordando ou não. Dois amigos entraram forte na discussão trânsito e direitos. Marcelo Soares ponderou a favor de linha dura, marronzinhos camuflados, e gradualismo. Alex Antunes só faltou defender o linchamento de todos os motorizados. Como eu disse para Alex: pra quem labuta todo dia, um carro é a diferença entre quatro horas de transporte público sofrendo de pé ou duas horas de comparativos conforto e paz. Ouvindo uma musiquinha, checando celular. Se você não vê a vantagem, precisa de oculista. O que é a primeira coisa que um paulistano faz assim que consegue um dinheirinho? Compra um carro.

O impressionante é como tem gente com problemas sérios de interpretação de texto por aí. Houve até quem entendesse que eu aplaudo que as coisas sejam como são, e defenda que elas assim permaneçam. Mas o pior é gente que não entende porque não quer entender, e muito menos debater. Quer, em uma palavra, aparecer. O objetivo é gritar bem alto: sou excepcional, moderno, do bem, contra a caretice, pró-ativo, e outros chavões. O único argumento deles é desqualificar o interlocutor.

A sub-inteligentsia politicamente correta paulistana é a coisa mais invertebrada e entediante do planeta. E sua característica mais vomitante é a certeza de que suas iniciativas e posições pessoais fazem toda a diferença. Não fazem diferença nenhuma. Se cada um fizer sua parte, e governos e empresas não fizerem as deles, ficamos exatamente no mesmo lugar. É o mesmo de sempre: socializam os problemas e privatizam as soluções.

O único plano que faz sentido para São Paulo ter menos trânsito é a cidade ter menos carros. Surpresa! Simples assim. Tem que estabelecer o objetivo e dizer: daqui dez anos SP vai ter metade do número de carros e um quarto do número de motos que tem hoje. E aí alinhar todos os esforços nessa direção. O resto é enxugar gelo.

O que falta para isso? Só duas coisas. Primeiro, vontade e visão políticas - pensar grande e a longo prazo, e focar no que é fundamental. Segundo, a quantidade certa de dinheiro. Só vontade é voluntarismo. Só jogar dinheiro no problema é jogar dinheiro fora.

Vamos usar nossa referência habitual, quando se trata de São Paulo? O departamento de transportes de Nova York tem orçamento anual de cinco bilhões de reais, e 4500 funcionários. A grana vem dos cofres da cidade, um tanto do estado e do governo federal, e um pouco de patrocínios da iniciativa privada. Considerando que são oito milhões de novaiorquinos e mais de onze milhões de paulistanos, um orçamento anual de dez bilhões de reais para a cidade de São Paulo é o mínimo.

Em 2013 o orçamento da Secretaria de Transportes Metropolitanos de São Paulo é de R$ 7,2 bilhões, 9% maior do que o de 2012. Está sob responsabilidade do petista Jilmar Tatto. Não é suficiente. Ainda mais se considerarmos que São Paulo é bem mais detonada que Nova York. E é obrigatório pensar em termos de Grande São Paulo - é tudo a mesma massa urbana. Somos quase vinte milhões de pessoas. Pra dar um jeito nos transportes da sexta maior área metropolitana do planeta, vou chutar aqui que precisamos de um orçamento total de... vinte bilhões de reais por ano, no mínimo. É muito dinheiro? Eike Batista pegou dez bilhões de reais de grana pública em empréstimos amigos nos últimos anos. É questão de prioridade.

Voltemos à Nova York, sempre uma boa idéia.  A secretária de transportes da cidade, Jenette Sadik-Khan, causa polêmica, pisando em calos diversos e rodando de bike pela cidade. Instalou 400 quilômetros de faixas para bicicletas. Fez muitos calçadões e calçadões temporários (só no final de semana, ou só no verão). Bancou um sistema de ônibus expressos, em que o usuário compra o ticket antes de entrar, mais ou menos no modelo de Curitiba. Instalou um sistema de compartilhamento gratuito de bicicletas. Botou um monte de bancos bem confortáveis nas ruas, para estimular as pessoas a caminhar mais, dando a elas um lugar para descansar. Está trocando a sinalização da cidade inteira, e incluindo mapas para pedestres. Também desviou tráfego pesado das zonas residenciais e construiu dezenas de novas praças. E por aí vai.

Resultado: hoje um terço dos novaiorquinos vai para o trabalho de carro, um terço de transporte público, um terço a pé (e 2% do total vai de bicicleta). Desde quando Jenette comanda este esforço? Desde 2007. Só? Pois é. Cinco anos podem fazer toda diferença. É esse tipo de ataque por parte do poder público que muda as coisas. Não descoladinhos gritalhões exibindo as bikes, tatoos e suposta superioridade moral pelas alamedas dos Jardins.

Iniciativas como as comandadas por Michael Bloomberg e Sadik-Khan em Nova York são importantíssimas. Podemos e devemos imitá-las já. Mas não são suficientes para um país com tantos problemas de desigualdade e infraestrutura como o Brasil. Precisamos de muito mais. O Brasil precisa de um plano de ocupação de seu território. A maioria esmagadora dos brasileiros vive a no máximo 500 quilômetros da costa atlântica. Há que estimular de maneira inteligente e organizada a diminuição de nossas maiores metrópoles e o crescimento de nossas cidades menores a médias. Há que segurar o crescimento da população. Temos que ser menos. Temos que ir para o Oeste. Temos que olhar para o Oceano Pacífico. E não dá pra deixar isso ao acaso, ou botar a responsabilidade na mão do mercado.

Objetivo despropositado? Megalomania? Ambição alta foi acabar com a escravidão, curar a tuberculose e colocar o homem na lua. Resolver o trânsito em São Paulo é moleza. Basta um pouco mais de dinheiro. E muito mais ambição.

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Publicado em 12/03/2013 às 12:38

Os ciclistas têm menos direitos que os motoristas


A história macabra do ciclista que perdeu o braço explicita: São Paulo é um lugar perigoso para pedalar. Mesmo numa manhã de domingo. O motorista é uma besta-fera? Não, só mais um bêbado de sábado à noite. Que cometeu crimes horríveis, como tantos cachaçados, e vai ter que responder por eles.

Você duvida que o motorista só percebeu bem depois que tinha um braço pendurado no carro? Imagine o horror de perceber a barbaridade que fez. Você acha imperdoável ele jogar o braço em um córrego? Bem, o que você faria? Levaria ao hospital mais próximo? O cara tem 22 anos e estava bebadaço. Tenho pena dele.

Tenho bem mais pena do ciclista. Mas é a milésima vez que ouvimos a mesma história - esta com detalhes mais sangrentos.Este ciclista está vivo; muitos outros não sobreviveram. Até quando vai essa carnificina? Ou, pergunta melhor: até quando gente sensata vai defender o uso de bicicleta como alternativa de transporte em São Paulo?

Morrem motociclistas às pencas diariamente na nossa cidade. A razão é que existem muito mais motos que bicicletas em circulação. Se fossem em número parecido, os atropelamentos de ciclistas seriam cotidianos, e deixariam de ser notícia. Mesmo os mais horripilantes. Os argumentos pelo direito de pedalar são indignados. Como assim? Os ciclistas não têm Direito de circular de bicicleta por São Paulo? Por que os carros têm mais Direito sob as ruas que as bicicletas? Os argumentos são furados. As pessoas não entendem direito o que é um Direito.

Sim, amigo ciclista, você tem direito de pedalar na marginal Tietê na hora do rush. Você, querida, tem todo direito de assistir o futebol no estádio, usando um biquíni fio dental, no meio da geral. O casal de amigos gays tem, sim, todo direito de namorar na porta da academia de jiu-jitsu.

E por aí vai. As crianças da periferia têm direito a creche, e todos têm direito a uma boa educação, e os presos da cadeia à reabilitação, e os doentes a remédio... e seguimos em direção ao infinito. Temos direitos a roldão. Mas eles só importam à medida que conseguimos defendê-los.

Vamos à prova definitiva de que ter direitos na teoria não quer dizer nada na prática:

Artigo I

Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade.

Artigo II

Toda pessoa tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição.

Artigo III

Toda pessoa tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.

Artigo IV

Ninguém será mantido em escravidão ou servidão, a escravidão e o tráfico de escravos serão proibidos em todas as suas formas.

Artigo V

Ninguém será submetido à tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante.

Artigo VI

Toda pessoa tem o direito de ser, em todos os lugares, reconhecida como pessoa perante a lei.

Artigo VII

Todos são iguais perante a lei e têm direito, sem qualquer distinção, a igual proteção da lei. Todos têm direito a igual proteção contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação.

Artigo VIII

Toda pessoa tem direito a receber dos tributos nacionais competentes remédio efetivo para os atos que violem os direitos fundamentais que lhe sejam reconhecidos pela constituição ou pela lei.

Artigo IX

Ninguém será arbitrariamente preso, detido ou exilado.

Artigo X

Toda pessoa tem direito, em plena igualdade, a uma audiência justa e pública por parte de um tribunal independente e imparcial, para decidir de seus direitos e deveres ou do fundamento de qualquer acusação criminal contra ele.

Artigo XI

1. Toda pessoa acusada de um ato delituoso tem o direito de ser presumida inocente até que a sua culpabilidade tenha sido provada de acordo com a lei, em julgamento público no qual lhe tenham sido asseguradas todas as garantias necessárias à sua defesa.
2. Ninguém poderá ser culpado por qualquer ação ou omissão que, no momento, não constituíam delito perante o direito nacional ou internacional. Tampouco será imposta pena mais forte do que aquela que, no momento da prática, era aplicável ao ato delituoso.

Artigo XII

Ninguém será sujeito a interferências na sua vida privada, na sua família, no seu lar ou na sua correspondência, nem a ataques à sua honra e reputação. Toda pessoa tem direito à proteção da lei contra tais interferências ou ataques.

Artigo XIII

1. Toda pessoa tem direito à liberdade de locomoção e residência dentro das fronteiras de cada Estado.
2. Toda pessoa tem o direito de deixar qualquer país, inclusive o próprio, e a este regressar.

Artigo XIV

1.Toda pessoa, vítima de perseguição, tem o direito de procurar e de gozar asilo em outros países.
2. Este direito não pode ser invocado em caso de perseguição legitimamente motivada por crimes de direito comum ou por atos contrários aos propósitos e princípios das Nações Unidas.

Artigo XV

1. Toda pessoa tem direito a uma nacionalidade.
2. Ninguém será arbitrariamente privado de sua nacionalidade, nem do direito de mudar de nacionalidade.

Artigo XVI

1. Os homens e mulheres de maior idade, sem qualquer retrição de raça, nacionalidade ou religião, têm o direito de contrair matrimônio e fundar uma família. Gozam de iguais direitos em relação ao casamento, sua duração e sua dissolução.
2. O casamento não será válido senão com o livre e pleno consentimento dos nubentes.

Artigo XVII

1. Toda pessoa tem direito à propriedade, só ou em sociedade com outros.
2.Ninguém será arbitrariamente privado de sua propriedade.

Artigo XVIII

Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou em particular.

Artigo XIX

Toda pessoa tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e idéias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras.

Artigo XX

1. Toda pessoa tem direito à liberdade de reunião e associação pacíficas.
2. Ninguém pode ser obrigado a fazer parte de uma associação..

Artigo XXI

1. Toda pessoa tem o direito de tomar parte no governo de seu país, diretamente ou por intermédio de representantes livremente escolhidos.
2. Toda pessoa tem igual direito de acesso ao serviço público do seu país.
3. A vontade do povo será a base da autoridade do governo; esta vontade será expressa em eleições periódicas e legítimas, por sufrágio universal, por voto secreto ou processo equivalente que assegure a liberdade de voto.

Artigo XXII

Toda pessoa, como membro da sociedade, tem direito à segurança social e à realização, pelo esforço nacional, pela cooperação internacional e de acordo com a organização e recursos de cada Estado, dos direitos econômicos, sociais e culturais indispensáveis à sua dignidade e ao livre desenvolvimento da sua personalidade.

Artigo XXIII

1.Toda pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego.
2. Toda pessoa, sem qualquer distinção, tem direito a igual remuneração por igual trabalho.
3. Toda pessoa que trabalhe tem direito a uma remuneração justa e satisfatória, que lhe assegure, assim como à sua família, uma existência compatível com a dignidade humana, e a que se acrescentarão, se necessário, outros meios de proteção social.
4. Toda pessoa tem direito a organizar sindicatos e neles ingressar para proteção de seus interesses.

Artigo XXIV

Toda pessoa tem direito a repouso e lazer, inclusive a limitação razoável das horas de trabalho e férias periódicas remuneradas.

Artigo XXV

1. Toda pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência fora de seu controle.
2. A maternidade e a infância têm direito a cuidados e assistência especiais. Todas as crianças nascidas dentro ou fora do matrimônio, gozarão da mesma proteção social.

Artigo XXVI

1. Toda pessoa tem direito à instrução. A instrução será gratuita, pelo menos nos graus elementares e fundamentais. A instrução elementar será obrigatória. A instrução técnico-profissional será acessível a todos, bem como a instrução superior, esta baseada no mérito.

2. A instrução será orientada no sentido do pleno desenvolvimento da personalidade humana e do fortalecimento do respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais. A instrução promoverá a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e grupos raciais ou religiosos, e coadjuvará as atividades das Nações Unidas em prol da manutenção da paz.
3. Os pais têm prioridade de direito n escolha do gênero de instrução que será ministrada a seus filhos.

Artigo XXVII

1. Toda pessoa tem o direito de participar livremente da vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de participar do processo científico e de seus benefícios.
2. Toda pessoa tem direito à proteção dos interesses morais e materiais decorrentes de qualquer produção científica, literária ou artística da qual seja autor.

Artigo XVIII

Toda pessoa tem direito a uma ordem social e internacional em que os direitos e liberdades estabelecidos na presente Declaração possam ser plenamente realizados.

Artigo XXIV

1. Toda pessoa tem deveres para com a comunidade, em que o livre e pleno desenvolvimento de sua personalidade é possível.
2. No exercício de seus direitos e liberdades, toda pessoa estará sujeita apenas às limitações determinadas pela lei, exclusivamente com o fim de assegurar o devido reconhecimento e respeito dos direitos e liberdades de outrem e de satisfazer às justas exigências da moral, da ordem pública e do bem-estar de uma sociedade democrática.
3. Esses direitos e liberdades não podem, em hipótese alguma, ser exercidos contrariamente aos propósitos e princípios das Nações Unidas.

Artigo XXX

Nenhuma disposição da presente Declaração pode ser interpretada como o reconhecimento a qualquer Estado, grupo ou pessoa, do direito de exercer qualquer atividade ou praticar qualquer ato destinado à destruição de quaisquer dos direitos e liberdades aqui estabelecidos.

Bonito. Emocionante. É a Declaração Universal dos Direitos Humanos, proclamada pela ONU em 1948. É um rascunho de constituição para o planeta Terra. Na realidade, não passa de um manifesto de boas intenções. Por quê? Porque direito não é uma coisa que você tem e pronto. Ou que alguém pode te dar num estalar de dedos. Nem a lei, nem a ONU. Direito você conquista e defende.

Para isso, ele precisa ser primeiro, conquistável, e depois, defensável. A mocinha lá que foi de biquíni ao Morumbi sai incólume, se cercada por karatecas. E um ciclista pode perfeitamente pedalar pelas ruas paulistanas. Se elas não forem estreitas, não estiverem esburaqueadas, e entupidas de motos e carros e ônibus, dirigidas por motoristas estressados que levam duas horas para ir e mais duas para voltar de qualquer lugar. Mas as ruas são objetivamente assim. Na prática, a cidade é totalmente planejada e administrada priorizando o transporte motorizado. Na prática, o motorista tem mais direitos que o ciclista.

O ciclista deve ter o desafio de conquistar e defender uma cidade pedalável, não o de pedalar em uma cidade que lhe impõe risco de vida permanente. Mais seguro primeiro civilizar nossas vias públicas, e depois tirar as magrelas da garagem. Do jeito que São Paulo é hoje, usar a bicicleta como meio de transporte é quase tão perigoso quanto... dirigir bêbado.

O filme A Vida de Brian é a mais concentrada aula de como funciona nosso espírito de horda. Devia ser currículo obrigatório no ensino fundamental. Uma cena ilumina magnificamente a confusão que fazemos com direitos. É durante um encontro da radical Frente dos Povos da Judeia - um grupelho com meia dúzia de militantes que adoram discutir, e sempre arrumam uma razão pra não se arriscar. Um deles de repente vira para os colegas e declara: "eu quero ser mulher. Daqui pra frente, me chamem de Loretta. E mais, quero ter um bebê." Os outros questionam - mas você é homem! Isso é impossível! E ele argumenta: mas eu tenho direito de ser mulher! Quem vai me dizer que não? No final, eles votam e aprovam que Stan se torne mulher e tenha seu bebê. Porque afinal, o cara - Loretta - tem direito.

Direto é assim. Fácil de definir e decretar. Difícil de garantir.

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Publicado em 11/03/2013 às 10:15

Por que não ler romances no tablet

warren ellis blog Por que não ler romances no tablet

Eu não leio livros em tablet. Gosto dos objetos, capas, perfume. Gosto de fuçar em sebos, da surpresa, preço e perfume. Gosto principalmente de escolher o que vou ler com cuidado. E decidir se quero ler de verdade, antes de comprar. Livros físicos têm peso. Você pega na mão e matuta, hmm, pesadão, será que vou até o fim mesmo? Aos 47, tempo é mais que dinheiro.

Meses atrás, Warren Ellis publicou o que chamou de Minha Vergonhosa Lista dos Livros Não-Lidos. Só títulos que ele comprara, estava louco para ler, mas estavam intocados. A maioria, comprou em versão digital. É assim mesmo e comprovei com os amigos. No tablet, a gente compra as coisas no impulso, livros, música, games. Muito mais que no computador. Parece bom, a mão escorrega para o botão Comprar e pff, começa o download.

Ellis estava com 14 livros esperando por ele. O que já é de desanimar qualquer um. Mas todo dia sai coisa nova, e a cada dia a lista aumenta. O prazer vira incômodo. E até Ellis, que é escritor, se sentia submergindo nas leituras atrasadas. Olha a lista dele aqui:
* Jeff Noon’s CHANNEL SK1N

* TRIBAL PEOPLES FOR TOMORROW’S WORLD by Stephen Corry.

* ANGELMAKER, Nick Harkaway.

* HOW TO TEACH QUANTUM PHYSICS TO YOUR DOG, Chad Orzel

* BACKROOM BOYS, Francis Spufford

* DEAD WATER, Simon Ings

* HIGH LIFE, Matthew Stokoe (I think Frankie Boyle recommended me this)

* RATNER’S STAR, Don Delillo

* MURDER AS A FINE ART, David Morrell

* THE FORBIDDEN BOOK, Guido Mina di Sospiro & Joscelyn Godwin

* THE RELIGION OF THE SAMURAI, Kaiten Nukariya

* TOPLOADER, Ed O’Loughlin

* THE GIFT OF STONES, Jim Crace

* EMBASSYTOWN, China Mieville

Li esse mês o segundo romance de Ellis, Gun Machine. É o que os gringos chamam de police procedural, relato de uma investigação. É um tira solitário e dois peritos caçando um assassino serial. Descrição péssima. Faz o livro parecer previsível, quando é divertidíssimo, um policial high tech, ácido, cômico e violento.

Foi ótimo ficar carregando ele de um lado para outro. E foi bom encomendar com antecedência na Amazon, esperar chegar, e ver a frase do William Gibson garantindo que o livro é delicioso... Desconfio que vou priorizar cada vez mais os livros curtos, e nisso os tablets são bons; tem muita coisa boa de tamanho razoável saindo diretamente para tablet, ensaios, contos, noveletas.

Romance, biografia, coletânea de ensaios, qualquer coisa com mais de umas 100 páginas, eu quero pegar na mão, ler a primeira página, a orelha, a contracapa, pesar, cheirar. Não é saudosismo. É método.

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Publicado em 08/03/2013 às 12:27

Feliciano, Maggi, Chalita: quando a democracia não funciona

 Feliciano, Maggi, Chalita: quando a democracia não funciona

Causa revolta por aí a eleição de Marco Feliciano para a Comissão de Direitos Humanos. O deputado do PSC é pastor da Assembleia de Deus. Não é impedimento. A maioria dos brasileiros é cristã. Mas ele já deu declarações que, em princípio, o desqualificam para o cargo. Por que então ele foi candidato único, e eleito com apoio multipartidário? E o que fazer sobre isso, se é que há algo a fazer?

Feliciano já atribuiu o sofrimento na África à falta de fé cristã e ao misticismo. Em um país tão negro como o nosso, poderia só por isso levar um processo, que perderia. Ele tem direito de defender esta ideia, evidentemente abominável? Entendo que sim, mas tenho pouca companhia no nosso país. Direito de opinião deveria ser sagrado; no Brasil não é. Feliciano tem todo direito de ser contra o casamento entre homossexuais, aliás, e todas as outras posturas que escandalizaram os bem-pensantes do país esta semana.

Feliciano aparece em vídeos fazendo milagres, para escárnio dos céticos. Bem, a lei do Brasil permite a liberdade de credo, o que inclui acreditar em toda sorte de acontecimentos sobrenaturais, e causá-los também. Você pode não acreditar em patavina, mas a alternativa é proibir as religiões em território nacional. Feliciano é réu em processo por estelionato que já chegou ao STF. Infelizmente também não é impedimento legal para ser presidente de comissão. As reações contra o deputado variaram de gozação a revolta. Houve quem propusesse o cartunista-travesti Laerte para a Presidência da Comissão... Tem abaixo-assinado correndo a internet. Como se isso servisse para alguma coisa. Esta aí Renan Calheiros, bem sossegado no seu cargo, depois de mais de um milhão de assinaturas contra ele. Facebook não é lugar propício para revolução.

No meio da balbúrdia, passou meio batido que nesta mesma semana o fazendeiro Blairo Maggi foi eleito para Comissão do Meio Ambiente, e Gabriel Chalita para a Comissão da Educação. Maggi tem longo histórico de enfrentamento com ambientalistas. O Greenpeace lhe pregou o Troféu Motoserra de Ouro, em 2005. Chalita foi denunciado meros dias atrás por um ex-colaborador íntimo, que o acusa de sujeira muito da grossa. As eleições de ambos para as comissões parecem, como a Feliciano, descalabros de cair o queixo. Será possível que nosso Congresso esteja tão desconectado da realidade? O que podemos fazer fora ranhetar?

Podemos começar reconhecendo que o Congresso não está desligado da realidade não. Pelo contrário. Os deputados conhecem muito bem seu gado. Os líderes do PT, PMDB e PSDB, que deram sua anuência a estas escolhas, sabem das coisas. Sabem que o brasileiro não está nem aí para acusações de corrupção contra políticos, porque parte do princípio que é tudo ladrão mesmo. Sabem que o brasileiro se preocupa muito mais com o preço do frango e do feijão do que com a árvore em pé, e acha esse papo de ecologia neura de verdinho classe-média. Sabem que o brasileiro é religioso. Sabem que o brasileiro tem pé atrás com a união civil entre homossexuais, que dirá com o casamento.

As pesquisas repetem sempre os mesmos resultados. O brasileiro é contra o aborto, contra a descriminalização das drogas, a favor da pena de morte, contra invasões de terra e propriedades, pela liberdade de portar armas etc. Político pode não entender de nada, mas de pesquisa entende. O brasileiro é conservador, e quanto mais pobre e velho, mais conservador, dizem as estatísticas. José Feliciano representa melhor o pensamento médio brasileiro que Jean Wyllys.

Mas temos um ponto que faz toda a diferença, neste caso das Comissões. O legislativo não é o executivo. Um presidente precisa representar a maioria dos eleitores do país. Um deputado não precisa nem deve representar a opinião média do brasileiro. Ele precisa é representar as aspirações de seus eleitores. E um presidente de comissão deve ser capaz de abraçar a complexidade de seu setor. Explorar todos os aspectos que impactem na área. Administrar os inevitáveis conflitos entre as forças que compõem sua comissão. E identificar, cristalizar, encaminhar as soluções possíveis.

Chalita, sob acusação de ter sido corrompido por um grande grupo educacional, não terá autoridade moral para esta missão. Maggi e Feliciano, pior. Os dois não têm nenhuma condição de fazerem jus a seus cargos nas comissões de Meio-Ambiente e Direitos Humanos. Representam escancaradamente e radicalmente um só lado. Comissão da Câmara é espaço de diálogo, não monólogo. Mas lá estão os três, e não há o que fazermos de prático fora espernear. É nosso direito constitucional e desopila o fígado, mas só.

Nossa democracia mal nasceu e já está obsoleta. Melhor que ditadura, sim. Mas os recentes casos de Renan, Feliciano e cia. voltam a explicitar: nosso sistema de governo precisa de mudanças profundas, além do cosmético. Em muitos países se procura um bom substituto para a democracia representativa. O modelo clássico está em total descompasso com nosso tempo. Eleições a cada quatro anos, quando temos informação em tempo real? Centralização de dados, poder e recursos, em uma era de descentralização absoluta da informação? Temos um governo do século 19 no século 21. Todo dia fica mais explícito que o que temos não funciona. Ainda não conseguimos vislumbrar outro horizonte. Muito menos como chegar lá.

As leis só mudam quando mudarem os que as propõem e aprovam. Os políticos só mudam quando elegermos outros melhores. E para isso, precisamos mudar a nós mesmos. Democracia pressupõe debate informado e conflito de ideias. Democracia analfabeta, bem, a maior democracia do planeta é a Índia, um bilhão de habitantes, 900 milhões de miseráveis, a maioria jovens. Está mais que comprovado: quanto mais bem-educada a sociedade, menor a influência dos dogmas. Quem sabe dialogar não se rende a monólogos. Países assim são mais justos e igualitários que o nosso. O problema é que educação é tarefa para gerações. Não temos tempo. Nem alternativa clara à vista. Mas não temos missão mais importante do que procurar e encontrar uma.

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Publicado em 06/03/2013 às 13:52

Chorão

chorão Chorão

Por vinte anos o Charlie Brown Jr. esteve nas FMs, rádios pop, rádios rock, nas TVs e festivais. Alguma coisa eles tinham. As canções eram rock ligue-os-pontos. Conectavam com muita gente. As letras de Chorão eram toscas e sinceras. Ganhavam ressonância e sentido em sua voz malaca. Diziam: sou só um garoto skatista e destrambelhado, procurando um lar e um amor. E nunca encontrarei, sugeriam.

Dá dó do cara morrer assim, 42 anos, firme e forte, dinheiro no banco, fãs à beça. Parece overdose. Surpresa, mas se for isso mesmo, surpresa nenhuma. Tem gente que vive como um acidente na bica de acontecer. Quando a banda apareceu, 1992, já ouvíamos causos sobre os excessos de Chorão. Depois só piorou. Uma coisa é ser rebelde e enfiar o pé na jaca aos 20. Depois dos quarenta, a vida é outra, e cobra.

O Charlie Brown não foi sempre essa autoparodia de hoje. Quando a banda apareceu, era única. Ninguém mais no Brasil captou essa vibração californiana, praiana-urbana, surf e também skate, relax e tensão, vida boa e vida lôca. Fora tínhamos Sublime, Red Hot Chili Peppers, Urban Dance Squad. Aqui, ninguém, e ninguém seguiu o Charlie Brown. Eles descobriram um mundo lá fora, recriaram esse mundo aqui dentro, e ali reinaram sem rivais. Era o som moderno da Califa via Santos, muito brasileiro, galinha, eshperto.

A onipresença da banda mexeu com o núcleo dos maiores rivais do Charlie Brown em sua geração, seus antípodas em popularidade e respeito da crítica: Los Hermanos. Charlie Brown era bermuda, tatoo, zoeira, somos do rock e vai encarar? Los Hermanos barbicha, cabecice, instrospecção e ânsia desesperada de aceitação na MPB empoeirada. Uma banda abraçava a praia, outra lhe dava as costas. Chorão tinha milhões de amigos, Marcelo Camelo e companhia sonhavam com poucos e bons discípulos. Um fez sucesso só de público, outro sucesso só de crítica.

Um dia a língua de Camelo foi mais longe que devia: "esse negócio de fazer comercial para Coca-Cola é um desdobramento da indústria, a gente rejeita esse negócio de vender atitude". E depois: "o Charlie Brown Jr. é uma banda da qual temos discordâncias estéticas... são precursores deste estilo que combatemos."

E foi aí que Chorão ganhou minha torcida. Porque foi tirar satisfações com Camelo. Deu-lhe um soco no nariz, o que não é bonito, mas fácil entender e, no meu caso, aplaudir. Camelo processou pela agressão, pedindo dinheiro, o que é menos bonito ainda, pra não dizer invertebrado. Perdeu. Comemorei com Chorão. Los Hermanos sempre pediram uns corretivos.

Mais triste que pensar que o Charlie Brown Jr. morre com Chorão, é reconhecer que a banda não deixa herdeiros, enquanto Los Hermanos têm um a cada esquina. Não é questão de celebrar as melodias, letras ou arranjos do Charlie Brown, tudo muito simples. Mesmo hoje, fundadores quarentões, era uma banda de moleque, bocuda e barulhenta. Isso tem seu valor, mesmo que seja espiritual e não musical, e mesmo que não seja para mim. Hoje até as bandinhas de moleque são pedantes, ensimesmadas, bananas. O jovem roqueiro de hoje quer ser bunda-mole. Chorão sai da área na hora. O rock brasileiro ficou proibido pra ele.

+ Acompanhe a cobertura da morte de Chorão no Portal R7

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Publicado em 06/03/2013 às 12:00

Não chores por Chávez

chavez afp Não chores por Chávez

Hugo Chávez concentrou todos os poderes que pôde em suas mãos. Esvaziou o congresso, calou a imprensa, encheu o supremo tribunal de capangas, jogou opositores na cadeia sem julgamento. Fez da crítica traição. Apoiou os regimes mais cruéis do mundo. Financiou a gerontocracia cubana. Defendeu Coreia do Norte e Miyamar na ONU. Concedeu a medalha mais importante da Venezuela a Kadhafi, da Líbia, Assad, da Síria, e Ahmadinejad, do Irã. Seu governo foi trapalhão e paranoico.

E também foi o governo em que os venezuelanos mais progrediram. Os pobres caíram de metade para 32% da população, graças a vários programas de transferência de renda. Chávez se fez pai dos pobres, sem nunca ser de fato socialista, ao contrário do que reza a maioria dos obituários. Todos os principais índices de qualidade de vida melhoraram: mortalidade infantil, desnutrição infantil, água potável, expectativa de vida, esgoto. Isso tudo aconteceu mesmo com a economia crescendo pouco. Foi redistribuição mesmo. Hoje a Venezuela é o país menos desigual da América Latina. E deve isso a Chávez.

O país é rico em petróleo, que representa 95% das exportações, e pobre em todo o resto. Mas a maior miséria da Venezuela é a miséria moral de sua elite. Meia dúzia de famílias sempre foram donas de tudo - da terra, das empresas e da imprensa. Sempre trataram a nação como sua hacienda particular. Os filhos, belos e bilíngues, estudavam nos EUA e mantinham distância da indiada. Corrupção endêmica, lei só para pobre, você conhece a lengalenga. É a tradicional América Latrina, quintal dos americanos, só que com ouro negro sob o solo.

Chávez peitou os seculares donos da Venezuela, sob aplausos de qualquer um com um coração. Inspirou e apoiou outros líderes populares, e às vezes populistas, pelo continente afora. Bravura e bravatas assustaram os milionários dos países vizinhos. Alguns escorregaram para a histeria, e no Brasil também. Aqui, Chávez foi pintado como diabo desde o começo, e mais ainda a partir de 2002, quando enfrentou e venceu uma tentativa de golpe. Muito papel foi gasto para colar os defeitos e fanfarronices de Chávez em Lula. Como se Chávez não fosse militar de formação, e Lula a vida inteira negociador. Como se a complexidade social do Brasil permitisse as soluções da Venezuela.

Com o tempo Chávez foi pisando em mais e mais calos. Tentaram derrubá-lo infinitas vezes, justificativa para ele ir mais e mais para a direita, sempre mantendo afiado o discurso anti-ianques, anti-imperialismo etc. Manteve o apoio do povo mais pobre, que hoje chora, e com razão. Nunca tiveram maior defensor.

Venezuelanos choram a morte de Hugo Chávez

Agora se foi, como vamos todos, e os poderosos e carismáticos também. O que resta aos venezuelanos? Defender as conquistas da era Chávez, enterrar seu entulho, e abraçar toda a frustrante complexidade da democracia. É o desafio que o futuro reserva também para Cuba. É o processo complexo e claudicante que vivemos no Brasil, um passo para frente, um para trás, três para os lados. Não se sabe de outro melhor.

O defunto não era flor que se cheirasse, nem vilão de opereta. É erro ungir Chávez herói, e erro rotulá-lo ditador. Foi eleito e reeleito por seus méritos. E na última fase, sim, se concedeu poderes próximos aos ditatoriais. Fez bem e fez mal. O pior que fez foi fazer da Venezuela um país cujo presente e futuro dependiam unicamente de uma pessoa. Merece seu lugar na história, por peitar a elite venezuelana, e por minorar a miséria da maioria mestiça de seu país. Merece repúdio, por fazer essas duas coisas de maneira personalista, autoritária e atabalhoada. Mas não merece lágrimas.

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Publicado em 05/03/2013 às 11:46

Napalm: berço do rock, espírito do punk

BANDA VOLUNTÁRIOS DA PÁTRIA 2 Napalm: berço do rock, espírito do punk

Voluntários da Pátria: MinhoK, Guiherme Isnard, Thomas Pappon e Miguel Barella

"As pessoas iam ao Napalm para conhecer coisas novas, não simplesmente para referendar o que já conheciam. Essa era a grande diferença. A pessoa que ia ao Napalm ia aberta para uma experiência numa noite. A noite era uma aventura."

Ricardo Lobo em Napalm, O Som da Cidade Industrial

O rock brasileiro dos anos 80 nasceu no Napalm. O rock que importa - o rock com DNA punk, fosse o som qual fosse. O Napalm tinha vídeos, discotecagem, cerveja e principalmente shows, mas era antes de tudo um posto avançado - um pé na porta do futuro.

O Napalm era ideológico e idealista. Foi inspirado nos inferninhos onde nasceu a melhor música nova-iorquina da época, o CBGB e o Max´s Kansas City, que seu criador Ricardo Lobo frequentava. E o rock que cristalizou no Napalm era outra coisa também. Não tinha nada que ver com a Blitz, que tinha acabado de estourar. Nem com vários outros grupos engraçadinhos que começavam a pintar no Chacrinha. O Napalm era eclético em seus gostos (tocava Clash e Blondie e Grandmaster Flash), mas ortodoxo em sua postura radicalmente underground.

Era embaixo do Minhocão, tão longe conceitualmente dos Jardins quanto fisicamente da periferia. Convidativo para punks, e a grande São Paulo era o único lugar onde existiam punks de verdade. E também para universitários entediados e excitados - a maioria da USP e da ECA. Boa parte eram trotskistas, garotos que rejeitavam igualmente a chatice da ditadura militar vigente, e a oposição oficial, stalinista. Meus amigos. Mas isso veio depois.

Eu nunca entrei no Napalm. Tinha 17 anos em 1983, recém-chegado na cidade. Cheguei em março, o bar durou de junho a novembro. Grana e vida curtas, mas não foi isso, e não sei o que foi. Uma entrada lá e minha vida teria sido bem diferente? Fui ao Carbono e Rose Bom Bom e Madame Satã e Via Berlim e Radar Tantã. Mas o Napalm era O lugar. Descobri em 1985, e saquei rápido que tinha perdido essa.

O Napalm era aglutinador. Foi criado para juntar pavio com dinamite. Nenhum dos lugares que o sucederam teve o mesmo espírito. E é claro que nada parecido com o Napalm seria possível hoje. Não só porque a informação corre muito mais solta no século 21. É que o espírito do Napalm amalgamava nova política, nova música, novo comportamento. Era espírito de aventura. De escárnio à caretice, da percepção de inimigos claros, e de possibilidades muito além do Brasil e do mundo.

Era punk. De espírito, não de jaqueta preta, moicano e alfinete. Espírito que vive pra muita gente, e pelo jeito também para Ricardo Lobo e para Ricardo Alexandre, que dirige seu primeiro documentário. Gostaria de rever o primeiro Ricardo, cara muito inteligente, bem-informado e intencionado, que não vejo há muitos anos. Seguiu carreira como homem de vídeo, sua vocação desde os tempos do Napalm, trabalhando pra ONU e se metendo em boas.

Sou amigo há duas décadas do segundo Ricardo, cujo currículo como jornalista e escritor dispensa meu confete. Basta dizer que o documentário entrevista todos os principais personagens da história, e revela preciosas imagens em vídeo do Napalm. O doc não explica a época, nem se propõe a isso. Mas é informativo, engraçado e... terno.

É muita forçação chamar qualquer um dos dois de punk. Mas Ricardo Alexandre sempre entendeu que jornalismo e paixão são indissociáveis, e criou e cria seu caminho. O Napalm não era um plano de negócios para Ricardo Lobo, era um projeto de vida. Seu sonho não era ficar rico - embaixo do Minhocão? Programando uma banda desconhecida por noite? Com um staff de punks? Claro que não queria ter fechado em seis meses. Mas seu objetivo era bem maior que grana.

Ser punk é querer ser livre, querer ser diferente, querer importar - contra todos os obstáculos e probabilidades. Ricardo Lobo resume na entrevista para o documentário:

"O Napalm era uma casa onde as pessoas eram livres. Era uma Zona Franca. E você precisa de coragem para ir a uma Zona Franca. Porque não é um lugar em que as regras estão estabelecidas."

É preciso mais coragem ainda para fazer você mesmo uma Zona Franca. Ou mesmo para revisitá-la... assista e inspire fundo. É o cheiro da cidade grande, safra 1983. É perfume da aventura.

SERVIÇO

Napalm: O som da cidade industrial
Direção: Ricardo Alexandre
Produção: David Barkan e Ricardo Alexandre
Direção de fotografia: David Barkan
Montagem: Fabiana Freitas
Estreia: segunda-feira 04 de março, às 19h30.
Reprises: quarta, 06/03 às 16h30, quinta 07/03 às 09h00, sexta 09/03 às 19h30, sábado 10/03 às 03h30, domingo 11/03 às 15h30 no canal BIS

NAPALM - O Som da Cidade Industrial from David Barkan on Vimeo.

Publicado em 01/03/2013 às 17:00

Gang do Eletro: o primeiro álbum, na velocidade certa

Gangue do Eletro Gang do Eletro: o primeiro álbum, na velocidade certa

É só ver/ouvir a Gang do Eletro: tá na cara que que eles estão totalmente sincronizados com a música pra dançar global. E que a conexão Belém-Planeta não passa por São Paulo e Rio. E que aliás nem precisa. Como você pode comprovar neste novo vídeo, feito para promover o lançamento do primeiro disco deles. Está no iTunes, em pré-venda, por dez dólares. Esta música, Velocidade do Eletro, é single of the week na loja da Apple.

Ano passado, no Prêmio Multishow, fui dos que defendeu prêmio para eles, que veio, com toda justiça. Não é média. Gosto da Gang sem condescendência. Não é música pra mim - e eu lá vou sair pra dançar? Tanto quanto não são outros favoritos da casa, como M.I.A., Santigold ou Major Lazer, para ficar em uns poucos que correm na mesma raia da Gang do Eletro. Não importa que não seja para mim. É para nós. É música que é nossa e do mundo, é da rua e da selva.

É feita neste exato momento para atender uma necessidade eterna do ser humano: chacoalhar o esqueleto. Próxima parada, States. Este dia 15, eles vão mostrar do que o Pará é feito em um dos palcos mais importantes da música e da inovação: o festival South By Southwest, em Austin, Texas. Treme, Terra, treme.

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Publicado em 01/03/2013 às 12:12

Thor e Eike Batista são inocentes. Os culpados somos nós

thor eike Thor e Eike Batista são inocentes. Os culpados somos nós

Notícia de hoje: foi afastado o perito cujo laudo apontava que Thor Batista dirigia a 135 quilômetros por hora quando atropelou Wanderson Pereira dos Santos. A defesa de Thor alega que o laudo viola a imparcialidade. Os desembargadores já tinham votado a favor. Agora a juíza Daniela Barbosa Assumpção de Souza, de Caxias, determinou que o perito Hélio Martins Junior não deve mais se manifestar nos autos.

Como o perito teve contato direto com o Ministério Público, a juíza alega que isso poderia “suscitar dúvidas sobre a sua atuação como auxiliar da Justiça neste processo”. E que o contato com o Ministério Público “constitui ofensa aos princípios da igualdade processual, do contraditório e da ampla defesa e ao devido processo legal constitucional”. Reportagem completa aqui.

Foi há quase um ano, no dia 17 de março de 2012. O filho do bilionário Eike Batista, então o homem mais rico do Brasil, voltava de Petrópolis com um amigo. A Mercedes que dirigia atropelou e matou Wanderson, que atravessava a pista de bicicleta, em Duque de Caxias. Depois soubemos que Thor tinha 51 pontos na carteira, e já tinha atropelado uma pessoa antes.

Thor foi indiciado por homicídio culposo, sem intenção de matar. O tal laudo era uma das principais peças contra ele. Agora resta pedir uma nova perícia. Alternativamente, o veredito será dado com base apenas em provas testemunhais. Thor será ouvido dia 12 de março. Sairá livre.

Profeta de araque, cantei essa bola no dia 16 de abril de 2012. Escrevi:
"Fosse o contrário, um Wanderson com carteira estourada matando o filho de Eike Batista em circunstâncias idênticas, estaria livre? A única resposta honesta que um brasileiro pode dar: não. Thor simboliza o novo Brasil rico. Wanderson me faz pensar: pobre e velho Brasil."

Texto completo aqui.

Notícia de hoje no Valor Econômico: desde 2007, o BNDES colocou quase dez bilhões de reais nas empresas de Eike Batista. Quanto mais a coisa aperta, mais dinheiro público Eike capta. A radiografia do grupo de Eike, em excelente reportagem de duas páginas, é leitura obrigatória para compreender o capitalismo à brasileira. E com isso, o Brasil e seus filhos.

Neste ano desde o atropelamento, nada mudou de importante no nosso País. Talvez só a posição de Eike Batista no ranking dos bilionários, que caiu bastante. Seu grupo empresarial mais e mais se parece com um castelo de cartas. Mas sobrou bastante em caixa, e portanto Thor será inocentado.

A razão é que continuamos a viver no pobre e velho Brasil, que permite que Eike seja tão rico, e portanto intocável e automaticamente inocente, ele e sua prole. E Eike é tão rico porque nós, brasileiros, permitimos que dez bilhões de reais do nosso dinheiro vão para o seu bolso. Eles são e continuarão sendo inocentes. Os culpados somos nós.

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Publicado em 28/02/2013 às 13:21

A lei Garotinho: uma ótima oportunidade para mexer em vespeiro

Anthony Garotinho acaba de apresentar projeto de lei terminando com a obrigatoriedade da publicação de balanços de empresas em jornais. O deputado do PR é candidato a governador do Rio. Quer causar. E retaliar. Bate nas empresas de comunicação, que nunca lhe deram mole, onde dói, que é no bolso. Garotinho é isso e aquilo? Tenha a opinião que quiser sobre ele. Não vamos confundir mensageiro e mensagem.

Quem não é do ramo não sabe dessa obrigatoriedade. Toda empresa aberta tem que publicar seus balanços em um jornal impresso. É uma lei pré-histórica, cartorial. Claro que as empresas podem publicar em um jornalzinho. Mas pega mal. Preferem, como diz a campanha do Estadão, transformar seu custo em investimento. Publicar seu balanço em jornalzão, e aproveitar pra fazer um marketing caprichado, valorizar os resultados, contar vantagem e tal.

Folha, Globo e Estadão são bons veículos para publicar balanço, circulação grande, mas o que dá prestígio mesmo é publicar no Valor Econômico. O jornal é uma sociedade entre os grupos Globo e Folha. É um jornal muito bem-feito, o único que leio todo dia. Em economia e negócios, bate de longe qualquer outro. Tem muitas qualidades em cultura, consumo, carreira, política e outras temas que interessam a seu público: empresários, executivos, empreendedores.

Naturalmente, é bem caro publicar seu balanço no Valor. Quanto? Não sei. Não é informação pública. E é aí que a tal Lei Garotinho me interessa. Pelo começo: em princípio, não há como discordar do argumento do deputado. Em 2013, não há justificativa para essa obrigatoriedade, que não existe em outros países. É muito desperdício de papel e um custo desnecessário para as empresas. Elas que publiquem balanços, relatórios e fatos relevantes em seus sites. Vamos botar um fim nessa história? Espera um pouquinho.

Talvez exista sim uma justificativa de interesse público. É muito possível que sem essa obrigatoriedade, nossos maiores jornais não tenham como se sustentar. Ou talvez sobrevivam, mas precisem cortar muito seus gastos, afetando a qualidade do nosso jornalismo. E meus muitos amigos que trabalham em jornal, Valor incluso, vão ter seus empregos em risco. Afinal, é ou não é importante para a sociedade brasileira que nossos maiores jornais do País continuem existindo?

Sem um segundo de dúvida: sim. Nossos jornais e jornalistas podem ter muitos defeitos, e têm. Mas é melhor ter uma imprensa conservadora, morna e monocórdia do que não ter imprensa. Os stalinistas coxinhas que tentaram calar a boca de Yoani Sánchez não foram para Cuba, como eu fui, e procuraram bancas de jornal, como eu procurei. Em Cuba não existe jornalismo, nem jornal, nem revista. Sou bem feliz de existir uma Veja para fazer um escarcéu sobre a blogueira cubana. Mesmo que eu discorde bastante do que a Veja publique sobre a moça. Ou até opte por não ler, como foi o caso.

Outro ponto importante do debate: existem muitos outros estímulos e obrigatoriedades legais que beneficiam empresas e não têm justificativa razoável. Se você vasculhar, encontrará centenas de vantagens variadas para diferentes setores da economia. As empresas têm isenções de impostos disso e daquilo, dinheiro do BNDES assim e assado, estímulo à exportação, ao etanol, à montadora, empréstimo do governo para construir estádio etc.

No caso de jornal e revista, também existem benefícios fiscais para comprar papel. E o setor de mídia tem quimera maior: a Bonificação de Volume, que premia as agências de publicidade pela concentração da verba de publicidade nos grandes grupos. A obrigatoriedade de publicação de balanços não é nada de tão único ou estrambótico. A Lei Garotinho importa de duas maneiras. Primeiro, porque é um convite a uma maior transparência. Segundo, porque força a questão: porque estes grandes veículos têm esses benefícios, e outros não?

jornal forasta A lei Garotinho: uma ótima oportunidade para mexer em vespeiro

O deputado apresentou o projeto de lei ontem, quarta-feira. Só vi sites assumidamente governistas dando destaque ao assunto, em tom comemorativo, "vamos acabar com a mamata" e tal. A grande imprensa por enquanto cala. Vão acabar reportando, criticando em editoriais. Mas a artilharia pesada talvez não venha. Silêncio é a melhor estratégia para matar um problema no ninho.

Silêncio é o que não podemos aceitar. Os jornais não precisam bater muito na lei, porque sabem que a lei tem chance zero de ser aprovada, claro. Imagine se nossos valentes deputados vão querer arrumar encrenca com os jornais. Mas o projeto de lei cria uma ótima oportunidade de entendermos de onde vêm as receitas de nossos jornais. E discutir se não é justo que outros veículos de comunicação, menores e independentes, também tenham leis, ou pelo menos regras, que lhes garantam acesso a boas fontes de receita.

Quanto nossos grandes jornais faturaram em 2012 publicando balanços? Que fatia de suas receitas de publicidade isso significou? É importante mesmo manter essa obrigatoriedade, para garantir a sobrevivência da grande imprensa, ou dá para os jornais passarem bem sem? É uma discussão necessária, que deve ser feita da maneira mais transparente possível. É importante para o Brasil que os grandes grupos de comunicação continuem saudáveis.

É igualmente importante que não existam só grandes grupos. Se tem boi para Valor, Globo, Folha e Estadão, que são grandes e fortes, tem que ter boiada para outros jornais e outros jornalismos. Impressos, eletrônicos ou digitais. Micro, médios ou grandes. Mas diferentes. A verdadeira liberdade de expressão exige diversidade. É vespeiro? É. Vamos meter a mão sem medo.

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Publicado em 28/02/2013 às 08:22

Comercial de chocolate recria Audrey Hepburn em computador

audrey hepburn galaxy ok Comercial de chocolate recria Audrey Hepburn em computador

O astro virtual era inevitável. Em Avatar, os personagens criados por computador finalmente convenceram a gente - ainda eram uns bonecões, mas se emocionavam, e nos emocionaram. Em O Exterminador do Futuro - Salvação, os heróis enfrentavam um cyborg idêntico a um jovem Schwarzenegger. Mas esse comercial estrelando Audrey Hepburn vai além. Bem além.

Porque Audrey de robô nunca teve nada. Era uma gracinha, linda e expressiva. E o comercial funciona. Pela cyber-Audrey, e pela luz, ritmo, trilha - Moon River, claro. E o cenário é Amalfi. Amiga, assista ao comercial. Viu o castelinho no fim da rua? É uma torre sarracena convertida em hotel. Lá passei dias felizes da minha vida. Sugiro que faças o mesmo.

O reclame vende chocolate? Bem, a empresa que bancou o anúncio está sendo falada pelo mundo afora. Conectou sua imagem com a de Audrey Hepburn, ícone de elegância. Para um produto engordativo, que dá colesterol, espinhas etc., não tem preço.
Veremos no futuro filmes totalmente novos com John Wayne, Marilyn Monroe e Humphrey Bogart? Sim e não vai demorar.

Um novo James Bond estrelando um Sean Connery garotão? Na certa. Pena que não dá para recriar virtualmente os roteiristas e diretores de antigamente... Mas antes veremos comerciais aos montes. James Dean vendendo seguro? Elvis é um bom garoto-propaganda para remédio para emagrecer. E Kurt Cobain é tiro certo pra vender antidepressivo.

As possibilidades, e possibilidades de zoar com a memória de mortos célebres, são infinitas. Os direitos sobre a imagem pertencem aos herdeiros, que vão faturar firme com os antepassados. Sempre exploraram os parentes, via licenciamento de imagem, mas agora licenciam atuações. Os filhos de Audrey justificaram: ela sempre adorou chocolate. É, pelo corpo de bailarina que manteve a vida toda, com certeza a bela mandava ver nas calorias.

E veremos versões virtuais dos vivos. Ou você acha que uma Madonna, por exemplo, não vai querer aparecer com 25 anos num próximo videoclipe? E o próximo passo é ao vivo. Uma tour virtual dos jovens Beatles, quanto você paga pra ver? Hologramas de Lawrence Olivier interpretando Shakespeare aqui no Bexiga mesmo?

Cada dia o mundo mais se parece com ficção científica. Eu acho maravilhoso. E torço por uma reunião virtual dos Trapalhões.

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Publicado em 27/02/2013 às 13:18

Os mais vistos do YouTube, o Brasil do presente, e o futuro da TV

Os mais vistos do YouTube, o Brasil do presente, e o futuro da TV

bonde das maravilhas Os mais vistos do YouTube, o Brasil do presente, e o futuro da TV

O YouTube estreou esta semana no Brasil o canal Mais Vistos. Agora, nós temos como saber a cada dia quais os vídeos que estão sendo mais vistos no País, sejam brasileiros ou não. E o número de visualizações que vêm do Brasil.

Parece pouca coisa? Parece um dado técnico? Não: é uma radiografia diária do Brasil. Do que está fazendo sucesso no Brasil conectado à internet. Não tem interferência editorial do YouTube. A lista é gerada por algoritmos. Representa as aspirações audiovisuais de metade dos brasileiros, uns noventa milhões de internautas, por aí.

A lista de Mais Vistos do YouTube representa melhor do que qualquer outra coisa o que o brasileiro quer assistir neste minuto. Mais que as pontuações do Ibope. Mais que a programação dos horários nobres. Mais que a sabedoria dos gurus e a experiência dos acadêmicos. A prova dos nove é que um banco é o patrocinador exclusivo do canal Mais Vistos. Deve estar pagando rios de dinheiro, grana preta que antigamente só a TV aberta faturava.

A lista de Mais Vistos do YouTube vai passar a pautar não só a internet, mas também a TV aberta, e portanto vai pautar em grande parte nossa vida. E é por isso que no próximo domingo, imagino que algum programa com uma produtora bem esperta já vai ter convocado essas meninas abaixo para fazerem seu showzinho. Neste dia as meninas vão bombar ainda mais no Twitter e Facebook, e o vídeo delas descendo até o chão no Gugu ou Faustão ou Eliana vai explodir.

E será reproduzido no YouTube. E terá outro zilhão de visualizações. E fará este vídeo original render mais ainda. As garotas vão dar pano pra manga por uns dias. E depois? Quem se importa com depois? Os porquês dessa lista ser como é, e como será a cada dia, renderão análises sociológicas, psicológicas, culturais riquíssimas. Porque de fato são pistas preciosas para explicar o Brasil do presente, o Brasil de verdade. E para mapear o futuro do entretenimento em vídeo - da TV, se você quiser chamar assim.

Mas pensatas sólidas não se materializarão tão cedo. Porque a lista muda a cada dia. Vai demorar algum tempo para detectarmos padrões compreensíveis. No começo, será como aqueles borrões dos testes de Rorschach: cada um enxerga o que lhe dá na telha.
É particularmente contundente e provocante que este vídeo esteja em primeiro lugar, com 814.641 visualizações (isso foi ontem à noite, quando comecei a escrever este texto.

Neste minuto são 1.419.896. Este é um dos efeitos de ser o primeiro entre os mais vistos: mais e mais pessoas vão fazer questão de ver. A cobra morde o rabo...). Vejo este vídeo agora pela segunda vez. Não sei se meu coração se enche de ternura ou horror. Os mais valentes e sábios que se arrisquem a interpretações. Com vocês, o mais visto entre os Mais Vistos: o Bonde das Maravilhas.

Publicado em 26/02/2013 às 11:19

O precioso silêncio de David Bowie

bowie blog O precioso silêncio de David Bowie

David Bowie não lança um disco há dez anos. Não lança um que preste há trinta. Desde 1983: Let's Dance. Mas entre 1970 e 1983 escreveu e gravou 12 álbuns irrepreensíveis. Ninguém na história do rock fez igual. São clássicos, na mais precisa definição. Não porque fizeram sucesso que nos enternece a memória, ou porque viraram parte da paisagem. E sim por que resistem a novas audições e interpretações e por que mudaram o que veio depois.

Bowie sempre foi mais que sua música. Suas roupas, atitudes, afetações, colaboradores e entrevistas sempre contaram tanto - frequentemente mais - que suas canções. É tudo indissociável, é tudo parte da obra. Nunca foi o melhor melodista, letrista, instrumentista ou cantor. Mas ninguém foi tão popstar e tão rockstar ao mesmo tempo; tão rudimentar e ambicioso e apelativo e transgressor. É muito difícil ser simples e sofisticado simultaneamente... E mesmo quando sua música murchou, Bowie continuou tendo o que dizer.

Aos 40 anos, explicava que fazia rock para pessoas de sua geração, porque a garotada queria música eletrônica, e não rock, e isso era bom. Era 1987. Sua contribuição já tinha terminado. O silêncio de Bowie na última década vai além de não produzir; ele deixou de falar com a imprensa e fazer shows. David teve um ataque do coração em 2004 (é isso que dá fumar). Nada como uma angioplastia para forçar revisão das suas prioridades. Se recolheu.

Parou de gravar, tocar e se comunicar. Não precisa trabalhar. É rico. Tem um filho adulto, diretor de cinema talentoso, Duncan, uma filhinha que esconde dos paparazzi, Alexandria, 12, e uma mulher linda e companheira, Iman. Vive entre Nova York e Londres. Não precisa fazer turnês caça-níqueis reempacotando velhos sucessos para velhos fãs. Fez mais que a maioria de nós e merece a aposentadoria de luxo.

Mas seu silêncio incomodou. Nesta era em que todos falam sem parar, e um quer falar mais alto que o outro, e todos gritam aos ventos suas mínimas e míseras conquistas, David Bowie calar é incompreensível. Nos provoca e ofende. Que conforto, então, que Bowie mostre a cara agora. Mas que desperdício que o faça sem espalhafato! Cadê as entrevistas na TV? O David Letterman? A tour mundial? O dueto com Lady Gaga? O show no Rock in Rio?

Bowie quebrou o silêncio e mantém a caluda. Gravou na surdina e lança, com videoclipes, o álbum The Next Day. Continua não dando entrevistas. Ungiu o produtor e camarada de milênios, Tony Visconti, para falar sobre o disco. Que a música fale por si, é a mensagem principal. Críticos correm para ouvir o álbum e dar seu veredito. Não eu. Vi a primeira, Where Are We Now?, minúscula. Entrou nos top ten da Inglaterra. Silêncio cria lendas. Vi a segunda, The Stars (Are Out Tonight). Não faz feio, mas nada especial ou urgente. O vídeo é cínico-mitômano. Resiste a uma visualização.

Nos últimos meses, novas audições me levaram a novas descobertas em Low, seu disco de 1977. Bowie continua a me interessar e muito. Seus três álbuns entre 1999 e 2003 são os mais fracos de sua carreira. Para que tanta sede por nova música? Alguém imagina que vai nos encantar ou surpreender? Talvez não seja esta a razão da ansiedade pelo disco, nem da generosidade da recepção a ele. É impossível que The Next Day tenha a densidade de informação, sensibilidade e argúcia de seus álbuns clássicos. Bowie tem 66 anos. Roqueiros não melhoram com o tempo, e mais: são prisioneiros do seu tempo.

O álbum pode ter seus momentos de brilho, talvez cegantes, no contexto do rock atual, auto-referente, ensimesmado e publicitário. Mas Bowie ficará pelo que fez entre 70 e 83 e o resto não tem importância. A não ser para ele. Festejo The Next Day pelo bem que deve lhe fazer. E talvez seja por isso que queremos tanto ouvir e gostar de seu novo disco. Porque queremos seu bem, pelo bem que nos fez e faz.

Mas é mais precioso seu silêncio: antídoto poderoso à glossolalia que nos embevece e bestifica. Bowie não teve pressa para lançar The Next Day. Eu não terei pressa para ouvir.

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Publicado em 22/02/2013 às 14:49

Os ricos brasileiros, esses miseráveis

forasta dinheiro  Os ricos brasileiros, esses miseráveis

A filantropia é uma das tradições mais admiráveis dos Estados Unidos. Você pode argumentar que é o outro lado da moeda. No cravo os EUA idolatram e idealizam o esforço individual. Na ferradura os americanos doam generosamente seu tempo e dinheiro em favor dos que mais precisam.

É verdade. Mas os resultados também são muito verdadeiros. Chama atenção a presença de voluntários em tudo que é canto do País. São adolescentes, adultos, e muitos aposentados. Estão nas casas de repouso, nos centros para desabrigados, nos museus. Um amigo contava ontem que em Orlando, as ruas próximas às escolas estão cheias de velhinhos voluntários, ajudando a criançada a atravessar a rua.

E chama atenção mais ainda, pelo contraste com o Brasil, o quanto que se doa de dinheiro nos EUA, e como são jovens os doadores. Não tem essa de esperar morrer para doar a grana, não. Esses dias foi divulgada a lista das cinquenta pessoas que doaram mais dinheiro no ano, de acordo com a instituição The Chronicle of Philantropy. Em primeiro lugar está o bilionário Warren Buffett, como de costume.

Mas em segundo lugar está Mark Zuckerberg e sua esposa Priscilla Chan. O fundador do Facebook doou em 2012 quase meio bilhão de dólares, U$ 498.8 milhões, exatamente. Bill e Melinda Gates, U$ 469 milhões. Michael Bloomberg, U$ 350 milhões. Paul Allen, co-fundador da Microsoft, deu U$ 309 milhões. Sergey Brin e a esposa Anne Wojcicki doaram U$ 223 milhões. E por aí vai.

Sergey Brin tem 39 anos. Zuckerberg, 27. São jovens bilionários e estão doando fatias importantes da sua grana já. De novo, você pode perfeitamente argumentar que isso é uma outra maneira de angariar boa vontade com relação às suas empresas, e só uma outra maneira de aumentar seu status. E quem sabe aparece alguém pra garantir que esses ricaços são uns capitalistas desgraçados, que batem nossa carteira todo dia, e nos compensam com uns chequinhos de caridade só pra limpar a barra.

E, sim, os americanos têm mais grana que nós. E, sim, a legislação americana estimula a doação, e a brasileira não. Que seja, que seja. Mesmo assim, são exemplos a serem seguidos. E no Brasil, não são. De todas as coisas que nós, imitamos dos Estados Unidos, a filantropia, que é uma das mais bonitas, fazemos questão de ignorar.

É raro um brasileiro que doe dez reais. Que dirá milhões. Perto dos americanos, somos bem mesquinhos com nossa grana. E perto dos ricos americanos, os ricos brasileiros são uns miseráveis.

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Publicado em 20/02/2013 às 11:56

Por que escrever (ou: o escritor brasileiro, esse chato)

O escritor brasileiro é homem e branco. Tem diploma universitário, mora no eixo Rio-São Paulo, tem 50 anos. O protagonista de seu romance é homem, branco, tem diploma universitário, mora em metrópole etc. etc. Dos nossos autores, 36% trabalham como jornalistas. Pois as profissões mais comum dos protagonistas da literatura brasileira são, pela ordem, escritor, criminoso, artista, estudante e jornalista. E a maioria das histórias se passam no presente, ou no máximo dos anos 80 para cá.

Direto ao ponto: o assunto da literatura brasileira é o escritor brasileiro e seu mundinho. É um coroa diletante e seu tema é a própria juventude e meia-idade, reimaginadas dramaticamente. Este é o resumo curto e grosso da pesquisa feita pela professora Regina Dalcastagnè, da UNB. Ela analisou 258 romances de 165 escritores diferentes, dos últimos 15 anos, de editoras variadas. É mostra significativa. Rendeu um infográfico impactante.

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Regina conclui que não há na literatura nacional o que chama de "pluralidade de perspectivas sociais". Nossos livros não incluem brasileiros de várias cores, classes, religiões, idades. Bidu. É e sempre foi assim. Não há gays, velhos, deficientes, umbandistas e tal nos nossos livros. A ausência mais escandalosa em nossa literatura, personagens negros, tem razão bem concreta: não há negros nas redações, na academia, nas posições de comando do País. Mas há mais discriminação nos nossos livros que no Brasil não-ficcional. Em 56% dos romances, todos os personagens são brancos. Negro, quando aparece, é miserável, bandido e, principalmente, coadjuvante.

A pesquisa crava: 36% dos escritores são jornalistas. Natural. Tirando jornalista, poucos brasileiros têm português legível. Jornalista não sabe grande coisa, mas aprende a encaixar uma frase na outra, respeitar concordâncias, economizar nas vírgulas. Dashiell Hammett recomendou: escreva sobre o que você conhece. Donde que temos jornalistas escrevendo sobre jornalistas. Um bando de rato de redação se imaginando como herói: uma vez na vida, a notícia sou eu! Bem, eu sou exatamente o perfil do romancista brasileiro, jornalista, quase cinquenta, branco etc., e passo muito bem sem ler sobre mim, nem em versão romantizada, e muito menos realista...

Nem todos os nossos autores são jornalistas, mas o fato é que os temas e abordagens na nossa ficção se repetem. A pesquisa de Regina explica a desconexão de muitos, e a minha, com a literatura brasileira atual. Me recomendam este e aquele autor nacional. Compro, leio quinze páginas e despacho pro sebo, raras exceções. O problema não é o País de origem dos autores. É o universo ficcional e existencial dos autores e personagens. Não queremos saber dos problemas dos senhores letrados de classe média e meia-idade, suas neurinhas, fantasias e infidelidades. Simplesmente não é tão interessante assim.

E pior ainda quando vira policial noir de butique, com direito a uma garota de programa e um milionário assassinado. Sai pra lá, neurótico professor de literatura em Boston! Vade retro, safo repórter de jornal popular! Ficção exige imaginação e encantamento; um tanto de história, outro de jornalismo; e variedade, hoje festins pantagruélicos, amanhã snacks para devorar aos nacos. Em todo lugar o gênero "problemas sexuais-existenciais da classe média intelectualizada" tem longa tradição. É um gênero, como livros de vampiro ou histórias de detetive.

Nos Estados Unidos, é o que garante prêmios, convites para lecionar e confete em festivais literários. É o favorito de escritores que não vivem de escrever. Ganham a vida como professores, quase sempre. Quem sabe faz, quem não sabe ensina... não, sacanagem: tá cheio de professor por aí que manda muito bem. O problema é quando os escritores começam a escrever para impressionar outros escritores (e aliás isso vale para músicos, pintores, arquitetos e qualquer atividade criativa).

Escrever em tempo parcial não precisa ser problema. Muitos usam bem as conexões acadêmicas e mesadinhas variadas, de fundações, esse e aquele programa governamental etc. Falta de tempo e dinheiro para escrever frequentemente foi bem estimulante. James Joyce, para pegar o mais celebrado autor do século passado, criou Ulysses num miserê de dar gosto, exilado mundo afora, com uma mulher que zoava suas veleidades de artista e dois filhos pequenos pra criar. Na outra ponta, a fábrica de best-sellers Stephen King pariu Carrie, seu primeiro sucesso, quando labutava como zelador, datilografando até altas horas, os nenês chorando.

No Brasil literatura também é segunda profissão ou hobby. Faça as contas: um autor ganha uns três reais por exemplar vendido, e as tiragens aqui raramente passam de 3.000 exemplares. Pouco importa sobre o que o escritor brasileiro vai escrever, e muito menos se vai escrever bem. Meia dúzia vai ler. Dito isso, podemos e devemos fazer melhor. Escrever bem é técnica, e escrever divinamente é talento e suor. Mas a prova dos nove é escrever sobre a realidade. Ainda que no formato de um romance histórico, ficção científica, horror ou humor ou o que for.

Escrever sobre a realidade não é escrever sobre a minha vida. E muito menos um livro é melhor ou pior porque se passa na São Paulo de hoje, e não em Saturno no século 30. O que existem são livros mais e menos ambiciosos, e mais e menos bem-sucedidos, em relação ao tema, à trama, à linguagem, ou na criação de ambientes e personagens. Alta e baixa literatura é papo de crítico cretino.

A pesquisa de Regina explicita que o assunto central da ficção brasileira é o umbigo do seu autor. Não é problema localizado. Em todo lugar, cada vez mais os escritores estão caraminholando sobre seu mundinho particular, reciclando fantasias de aventura e consumo, revisitando seus livros e filmes e ícones culturais prediletos. A possibilidade de celebridade propiciada pelas redes sociais acentua a tendência. Vivemos escrevendo e lendo devaneios narcisistas. Boa parte do que passa por literatura é tão verdadeira quanto essas fotos supostamente displicentes, mas cuidadosamente planejadas e retocadas, que colocamos em nossos perfis no Facebook.

A ambição da ficção, e da ficção brasileira, pode e deve ser maior. Hammett estava errado. A literatura que importa não é sobre o autor, é sobre o leitor. Quero, exijo, um livro que me hipnotize, e me leve para outro lugar, e para dentro de mim mesmo. O que importa em ficção é fitar o desconhecido. E não conseguir desviar o olhar.

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Publicado em 19/02/2013 às 16:36

Kyle Baker: os gibis pra ler de graça, e os gibis que você precisa comprar já

kingdavid extract Kyle Baker: os gibis pra ler de graça, e os gibis que você precisa comprar já
Kyle Baker sempre merece atenção. Pelo seu traço, sua perspicácia, sua ternura, seu destemor. É cartunista, quadrinista, animador de mão cheia. Quando lançou o livro How to Draw Stupid!, compartilhei suas boas dicas para quem quer aprender a desenhar. E viver.

Kyle ousa de novo. Acaba de colocar alguns de seus álbuns mais importantes de graça, no seu site. Claro que já existiam scans pirata por aí. Mas agora você pode ler Why I Hate Saturn, You are Here, Cowboy Wally e King David sem desembolsar um centavo, porque o dono dessas obras assim decidiu. Não é igual a ler em papel cuchê brilhante e formato grande... mas sugiro que você leia esses álbuns online, e depois compre os outros.

Se você não liga para quadrinhos, mas tem família, compre The Bakers, uma graça de cartum sobre a família de Kyle. Se seu negócio é política, compre Special Forces, a maior sacanagem sobre a guerra do Iraque e as bazófias militaristas americanas. Se está preparado para ficar com o coração apertado, compre Nat Turner, a história de um escravo que se tornou herói.

Compre porque é bom para você. E porque é bom para Kyle. Ele faz um trabalho único e independente. Seus quadrinhos são sua paixão. Quando precisa faturar, faz uns freelances para Marvel e DC, ou trabalha com animação - mais recentemente, no sensacional Phineas & Ferb. Mas é visível o amor que coloca em seu trabalho autoral.

Agora, ele compartilha de graça com o mundo obras em que colocou coração, mente e muque. Merece nosso apoio financeiro. E, egoisticamente, nos interessa que ele continue ganhando seus trocados. Continue desenhando. Continue sendo Kyle Baker.

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