Publicado em 11/03/2013 às 10:15

Por que não ler romances no tablet

warren ellis blog Por que não ler romances no tablet

Eu não leio livros em tablet. Gosto dos objetos, capas, perfume. Gosto de fuçar em sebos, da surpresa, preço e perfume. Gosto principalmente de escolher o que vou ler com cuidado. E decidir se quero ler de verdade, antes de comprar. Livros físicos têm peso. Você pega na mão e matuta, hmm, pesadão, será que vou até o fim mesmo? Aos 47, tempo é mais que dinheiro.

Meses atrás, Warren Ellis publicou o que chamou de Minha Vergonhosa Lista dos Livros Não-Lidos. Só títulos que ele comprara, estava louco para ler, mas estavam intocados. A maioria, comprou em versão digital. É assim mesmo e comprovei com os amigos. No tablet, a gente compra as coisas no impulso, livros, música, games. Muito mais que no computador. Parece bom, a mão escorrega para o botão Comprar e pff, começa o download.

Ellis estava com 14 livros esperando por ele. O que já é de desanimar qualquer um. Mas todo dia sai coisa nova, e a cada dia a lista aumenta. O prazer vira incômodo. E até Ellis, que é escritor, se sentia submergindo nas leituras atrasadas. Olha a lista dele aqui:
* Jeff Noon’s CHANNEL SK1N

* TRIBAL PEOPLES FOR TOMORROW’S WORLD by Stephen Corry.

* ANGELMAKER, Nick Harkaway.

* HOW TO TEACH QUANTUM PHYSICS TO YOUR DOG, Chad Orzel

* BACKROOM BOYS, Francis Spufford

* DEAD WATER, Simon Ings

* HIGH LIFE, Matthew Stokoe (I think Frankie Boyle recommended me this)

* RATNER’S STAR, Don Delillo

* MURDER AS A FINE ART, David Morrell

* THE FORBIDDEN BOOK, Guido Mina di Sospiro & Joscelyn Godwin

* THE RELIGION OF THE SAMURAI, Kaiten Nukariya

* TOPLOADER, Ed O’Loughlin

* THE GIFT OF STONES, Jim Crace

* EMBASSYTOWN, China Mieville

Li esse mês o segundo romance de Ellis, Gun Machine. É o que os gringos chamam de police procedural, relato de uma investigação. É um tira solitário e dois peritos caçando um assassino serial. Descrição péssima. Faz o livro parecer previsível, quando é divertidíssimo, um policial high tech, ácido, cômico e violento.

Foi ótimo ficar carregando ele de um lado para outro. E foi bom encomendar com antecedência na Amazon, esperar chegar, e ver a frase do William Gibson garantindo que o livro é delicioso... Desconfio que vou priorizar cada vez mais os livros curtos, e nisso os tablets são bons; tem muita coisa boa de tamanho razoável saindo diretamente para tablet, ensaios, contos, noveletas.

Romance, biografia, coletânea de ensaios, qualquer coisa com mais de umas 100 páginas, eu quero pegar na mão, ler a primeira página, a orelha, a contracapa, pesar, cheirar. Não é saudosismo. É método.

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Publicado em 08/03/2013 às 12:27

Feliciano, Maggi, Chalita: quando a democracia não funciona

 Feliciano, Maggi, Chalita: quando a democracia não funciona

Causa revolta por aí a eleição de Marco Feliciano para a Comissão de Direitos Humanos. O deputado do PSC é pastor da Assembleia de Deus. Não é impedimento. A maioria dos brasileiros é cristã. Mas ele já deu declarações que, em princípio, o desqualificam para o cargo. Por que então ele foi candidato único, e eleito com apoio multipartidário? E o que fazer sobre isso, se é que há algo a fazer?

Feliciano já atribuiu o sofrimento na África à falta de fé cristã e ao misticismo. Em um país tão negro como o nosso, poderia só por isso levar um processo, que perderia. Ele tem direito de defender esta ideia, evidentemente abominável? Entendo que sim, mas tenho pouca companhia no nosso país. Direito de opinião deveria ser sagrado; no Brasil não é. Feliciano tem todo direito de ser contra o casamento entre homossexuais, aliás, e todas as outras posturas que escandalizaram os bem-pensantes do país esta semana.

Feliciano aparece em vídeos fazendo milagres, para escárnio dos céticos. Bem, a lei do Brasil permite a liberdade de credo, o que inclui acreditar em toda sorte de acontecimentos sobrenaturais, e causá-los também. Você pode não acreditar em patavina, mas a alternativa é proibir as religiões em território nacional. Feliciano é réu em processo por estelionato que já chegou ao STF. Infelizmente também não é impedimento legal para ser presidente de comissão. As reações contra o deputado variaram de gozação a revolta. Houve quem propusesse o cartunista-travesti Laerte para a Presidência da Comissão... Tem abaixo-assinado correndo a internet. Como se isso servisse para alguma coisa. Esta aí Renan Calheiros, bem sossegado no seu cargo, depois de mais de um milhão de assinaturas contra ele. Facebook não é lugar propício para revolução.

No meio da balbúrdia, passou meio batido que nesta mesma semana o fazendeiro Blairo Maggi foi eleito para Comissão do Meio Ambiente, e Gabriel Chalita para a Comissão da Educação. Maggi tem longo histórico de enfrentamento com ambientalistas. O Greenpeace lhe pregou o Troféu Motoserra de Ouro, em 2005. Chalita foi denunciado meros dias atrás por um ex-colaborador íntimo, que o acusa de sujeira muito da grossa. As eleições de ambos para as comissões parecem, como a Feliciano, descalabros de cair o queixo. Será possível que nosso Congresso esteja tão desconectado da realidade? O que podemos fazer fora ranhetar?

Podemos começar reconhecendo que o Congresso não está desligado da realidade não. Pelo contrário. Os deputados conhecem muito bem seu gado. Os líderes do PT, PMDB e PSDB, que deram sua anuência a estas escolhas, sabem das coisas. Sabem que o brasileiro não está nem aí para acusações de corrupção contra políticos, porque parte do princípio que é tudo ladrão mesmo. Sabem que o brasileiro se preocupa muito mais com o preço do frango e do feijão do que com a árvore em pé, e acha esse papo de ecologia neura de verdinho classe-média. Sabem que o brasileiro é religioso. Sabem que o brasileiro tem pé atrás com a união civil entre homossexuais, que dirá com o casamento.

As pesquisas repetem sempre os mesmos resultados. O brasileiro é contra o aborto, contra a descriminalização das drogas, a favor da pena de morte, contra invasões de terra e propriedades, pela liberdade de portar armas etc. Político pode não entender de nada, mas de pesquisa entende. O brasileiro é conservador, e quanto mais pobre e velho, mais conservador, dizem as estatísticas. José Feliciano representa melhor o pensamento médio brasileiro que Jean Wyllys.

Mas temos um ponto que faz toda a diferença, neste caso das Comissões. O legislativo não é o executivo. Um presidente precisa representar a maioria dos eleitores do país. Um deputado não precisa nem deve representar a opinião média do brasileiro. Ele precisa é representar as aspirações de seus eleitores. E um presidente de comissão deve ser capaz de abraçar a complexidade de seu setor. Explorar todos os aspectos que impactem na área. Administrar os inevitáveis conflitos entre as forças que compõem sua comissão. E identificar, cristalizar, encaminhar as soluções possíveis.

Chalita, sob acusação de ter sido corrompido por um grande grupo educacional, não terá autoridade moral para esta missão. Maggi e Feliciano, pior. Os dois não têm nenhuma condição de fazerem jus a seus cargos nas comissões de Meio-Ambiente e Direitos Humanos. Representam escancaradamente e radicalmente um só lado. Comissão da Câmara é espaço de diálogo, não monólogo. Mas lá estão os três, e não há o que fazermos de prático fora espernear. É nosso direito constitucional e desopila o fígado, mas só.

Nossa democracia mal nasceu e já está obsoleta. Melhor que ditadura, sim. Mas os recentes casos de Renan, Feliciano e cia. voltam a explicitar: nosso sistema de governo precisa de mudanças profundas, além do cosmético. Em muitos países se procura um bom substituto para a democracia representativa. O modelo clássico está em total descompasso com nosso tempo. Eleições a cada quatro anos, quando temos informação em tempo real? Centralização de dados, poder e recursos, em uma era de descentralização absoluta da informação? Temos um governo do século 19 no século 21. Todo dia fica mais explícito que o que temos não funciona. Ainda não conseguimos vislumbrar outro horizonte. Muito menos como chegar lá.

As leis só mudam quando mudarem os que as propõem e aprovam. Os políticos só mudam quando elegermos outros melhores. E para isso, precisamos mudar a nós mesmos. Democracia pressupõe debate informado e conflito de ideias. Democracia analfabeta, bem, a maior democracia do planeta é a Índia, um bilhão de habitantes, 900 milhões de miseráveis, a maioria jovens. Está mais que comprovado: quanto mais bem-educada a sociedade, menor a influência dos dogmas. Quem sabe dialogar não se rende a monólogos. Países assim são mais justos e igualitários que o nosso. O problema é que educação é tarefa para gerações. Não temos tempo. Nem alternativa clara à vista. Mas não temos missão mais importante do que procurar e encontrar uma.

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Publicado em 06/03/2013 às 13:52

Chorão

chorão Chorão

Por vinte anos o Charlie Brown Jr. esteve nas FMs, rádios pop, rádios rock, nas TVs e festivais. Alguma coisa eles tinham. As canções eram rock ligue-os-pontos. Conectavam com muita gente. As letras de Chorão eram toscas e sinceras. Ganhavam ressonância e sentido em sua voz malaca. Diziam: sou só um garoto skatista e destrambelhado, procurando um lar e um amor. E nunca encontrarei, sugeriam.

Dá dó do cara morrer assim, 42 anos, firme e forte, dinheiro no banco, fãs à beça. Parece overdose. Surpresa, mas se for isso mesmo, surpresa nenhuma. Tem gente que vive como um acidente na bica de acontecer. Quando a banda apareceu, 1992, já ouvíamos causos sobre os excessos de Chorão. Depois só piorou. Uma coisa é ser rebelde e enfiar o pé na jaca aos 20. Depois dos quarenta, a vida é outra, e cobra.

O Charlie Brown não foi sempre essa autoparodia de hoje. Quando a banda apareceu, era única. Ninguém mais no Brasil captou essa vibração californiana, praiana-urbana, surf e também skate, relax e tensão, vida boa e vida lôca. Fora tínhamos Sublime, Red Hot Chili Peppers, Urban Dance Squad. Aqui, ninguém, e ninguém seguiu o Charlie Brown. Eles descobriram um mundo lá fora, recriaram esse mundo aqui dentro, e ali reinaram sem rivais. Era o som moderno da Califa via Santos, muito brasileiro, galinha, eshperto.

A onipresença da banda mexeu com o núcleo dos maiores rivais do Charlie Brown em sua geração, seus antípodas em popularidade e respeito da crítica: Los Hermanos. Charlie Brown era bermuda, tatoo, zoeira, somos do rock e vai encarar? Los Hermanos barbicha, cabecice, instrospecção e ânsia desesperada de aceitação na MPB empoeirada. Uma banda abraçava a praia, outra lhe dava as costas. Chorão tinha milhões de amigos, Marcelo Camelo e companhia sonhavam com poucos e bons discípulos. Um fez sucesso só de público, outro sucesso só de crítica.

Um dia a língua de Camelo foi mais longe que devia: "esse negócio de fazer comercial para Coca-Cola é um desdobramento da indústria, a gente rejeita esse negócio de vender atitude". E depois: "o Charlie Brown Jr. é uma banda da qual temos discordâncias estéticas... são precursores deste estilo que combatemos."

E foi aí que Chorão ganhou minha torcida. Porque foi tirar satisfações com Camelo. Deu-lhe um soco no nariz, o que não é bonito, mas fácil entender e, no meu caso, aplaudir. Camelo processou pela agressão, pedindo dinheiro, o que é menos bonito ainda, pra não dizer invertebrado. Perdeu. Comemorei com Chorão. Los Hermanos sempre pediram uns corretivos.

Mais triste que pensar que o Charlie Brown Jr. morre com Chorão, é reconhecer que a banda não deixa herdeiros, enquanto Los Hermanos têm um a cada esquina. Não é questão de celebrar as melodias, letras ou arranjos do Charlie Brown, tudo muito simples. Mesmo hoje, fundadores quarentões, era uma banda de moleque, bocuda e barulhenta. Isso tem seu valor, mesmo que seja espiritual e não musical, e mesmo que não seja para mim. Hoje até as bandinhas de moleque são pedantes, ensimesmadas, bananas. O jovem roqueiro de hoje quer ser bunda-mole. Chorão sai da área na hora. O rock brasileiro ficou proibido pra ele.

+ Acompanhe a cobertura da morte de Chorão no Portal R7

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Publicado em 06/03/2013 às 12:00

Não chores por Chávez

chavez afp Não chores por Chávez

Hugo Chávez concentrou todos os poderes que pôde em suas mãos. Esvaziou o congresso, calou a imprensa, encheu o supremo tribunal de capangas, jogou opositores na cadeia sem julgamento. Fez da crítica traição. Apoiou os regimes mais cruéis do mundo. Financiou a gerontocracia cubana. Defendeu Coreia do Norte e Miyamar na ONU. Concedeu a medalha mais importante da Venezuela a Kadhafi, da Líbia, Assad, da Síria, e Ahmadinejad, do Irã. Seu governo foi trapalhão e paranoico.

E também foi o governo em que os venezuelanos mais progrediram. Os pobres caíram de metade para 32% da população, graças a vários programas de transferência de renda. Chávez se fez pai dos pobres, sem nunca ser de fato socialista, ao contrário do que reza a maioria dos obituários. Todos os principais índices de qualidade de vida melhoraram: mortalidade infantil, desnutrição infantil, água potável, expectativa de vida, esgoto. Isso tudo aconteceu mesmo com a economia crescendo pouco. Foi redistribuição mesmo. Hoje a Venezuela é o país menos desigual da América Latina. E deve isso a Chávez.

O país é rico em petróleo, que representa 95% das exportações, e pobre em todo o resto. Mas a maior miséria da Venezuela é a miséria moral de sua elite. Meia dúzia de famílias sempre foram donas de tudo - da terra, das empresas e da imprensa. Sempre trataram a nação como sua hacienda particular. Os filhos, belos e bilíngues, estudavam nos EUA e mantinham distância da indiada. Corrupção endêmica, lei só para pobre, você conhece a lengalenga. É a tradicional América Latrina, quintal dos americanos, só que com ouro negro sob o solo.

Chávez peitou os seculares donos da Venezuela, sob aplausos de qualquer um com um coração. Inspirou e apoiou outros líderes populares, e às vezes populistas, pelo continente afora. Bravura e bravatas assustaram os milionários dos países vizinhos. Alguns escorregaram para a histeria, e no Brasil também. Aqui, Chávez foi pintado como diabo desde o começo, e mais ainda a partir de 2002, quando enfrentou e venceu uma tentativa de golpe. Muito papel foi gasto para colar os defeitos e fanfarronices de Chávez em Lula. Como se Chávez não fosse militar de formação, e Lula a vida inteira negociador. Como se a complexidade social do Brasil permitisse as soluções da Venezuela.

Com o tempo Chávez foi pisando em mais e mais calos. Tentaram derrubá-lo infinitas vezes, justificativa para ele ir mais e mais para a direita, sempre mantendo afiado o discurso anti-ianques, anti-imperialismo etc. Manteve o apoio do povo mais pobre, que hoje chora, e com razão. Nunca tiveram maior defensor.

Venezuelanos choram a morte de Hugo Chávez

Agora se foi, como vamos todos, e os poderosos e carismáticos também. O que resta aos venezuelanos? Defender as conquistas da era Chávez, enterrar seu entulho, e abraçar toda a frustrante complexidade da democracia. É o desafio que o futuro reserva também para Cuba. É o processo complexo e claudicante que vivemos no Brasil, um passo para frente, um para trás, três para os lados. Não se sabe de outro melhor.

O defunto não era flor que se cheirasse, nem vilão de opereta. É erro ungir Chávez herói, e erro rotulá-lo ditador. Foi eleito e reeleito por seus méritos. E na última fase, sim, se concedeu poderes próximos aos ditatoriais. Fez bem e fez mal. O pior que fez foi fazer da Venezuela um país cujo presente e futuro dependiam unicamente de uma pessoa. Merece seu lugar na história, por peitar a elite venezuelana, e por minorar a miséria da maioria mestiça de seu país. Merece repúdio, por fazer essas duas coisas de maneira personalista, autoritária e atabalhoada. Mas não merece lágrimas.

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Publicado em 05/03/2013 às 11:46

Napalm: berço do rock, espírito do punk

BANDA VOLUNTÁRIOS DA PÁTRIA 2 Napalm: berço do rock, espírito do punk

Voluntários da Pátria: MinhoK, Guiherme Isnard, Thomas Pappon e Miguel Barella

"As pessoas iam ao Napalm para conhecer coisas novas, não simplesmente para referendar o que já conheciam. Essa era a grande diferença. A pessoa que ia ao Napalm ia aberta para uma experiência numa noite. A noite era uma aventura."

Ricardo Lobo em Napalm, O Som da Cidade Industrial

O rock brasileiro dos anos 80 nasceu no Napalm. O rock que importa - o rock com DNA punk, fosse o som qual fosse. O Napalm tinha vídeos, discotecagem, cerveja e principalmente shows, mas era antes de tudo um posto avançado - um pé na porta do futuro.

O Napalm era ideológico e idealista. Foi inspirado nos inferninhos onde nasceu a melhor música nova-iorquina da época, o CBGB e o Max´s Kansas City, que seu criador Ricardo Lobo frequentava. E o rock que cristalizou no Napalm era outra coisa também. Não tinha nada que ver com a Blitz, que tinha acabado de estourar. Nem com vários outros grupos engraçadinhos que começavam a pintar no Chacrinha. O Napalm era eclético em seus gostos (tocava Clash e Blondie e Grandmaster Flash), mas ortodoxo em sua postura radicalmente underground.

Era embaixo do Minhocão, tão longe conceitualmente dos Jardins quanto fisicamente da periferia. Convidativo para punks, e a grande São Paulo era o único lugar onde existiam punks de verdade. E também para universitários entediados e excitados - a maioria da USP e da ECA. Boa parte eram trotskistas, garotos que rejeitavam igualmente a chatice da ditadura militar vigente, e a oposição oficial, stalinista. Meus amigos. Mas isso veio depois.

Eu nunca entrei no Napalm. Tinha 17 anos em 1983, recém-chegado na cidade. Cheguei em março, o bar durou de junho a novembro. Grana e vida curtas, mas não foi isso, e não sei o que foi. Uma entrada lá e minha vida teria sido bem diferente? Fui ao Carbono e Rose Bom Bom e Madame Satã e Via Berlim e Radar Tantã. Mas o Napalm era O lugar. Descobri em 1985, e saquei rápido que tinha perdido essa.

O Napalm era aglutinador. Foi criado para juntar pavio com dinamite. Nenhum dos lugares que o sucederam teve o mesmo espírito. E é claro que nada parecido com o Napalm seria possível hoje. Não só porque a informação corre muito mais solta no século 21. É que o espírito do Napalm amalgamava nova política, nova música, novo comportamento. Era espírito de aventura. De escárnio à caretice, da percepção de inimigos claros, e de possibilidades muito além do Brasil e do mundo.

Era punk. De espírito, não de jaqueta preta, moicano e alfinete. Espírito que vive pra muita gente, e pelo jeito também para Ricardo Lobo e para Ricardo Alexandre, que dirige seu primeiro documentário. Gostaria de rever o primeiro Ricardo, cara muito inteligente, bem-informado e intencionado, que não vejo há muitos anos. Seguiu carreira como homem de vídeo, sua vocação desde os tempos do Napalm, trabalhando pra ONU e se metendo em boas.

Sou amigo há duas décadas do segundo Ricardo, cujo currículo como jornalista e escritor dispensa meu confete. Basta dizer que o documentário entrevista todos os principais personagens da história, e revela preciosas imagens em vídeo do Napalm. O doc não explica a época, nem se propõe a isso. Mas é informativo, engraçado e... terno.

É muita forçação chamar qualquer um dos dois de punk. Mas Ricardo Alexandre sempre entendeu que jornalismo e paixão são indissociáveis, e criou e cria seu caminho. O Napalm não era um plano de negócios para Ricardo Lobo, era um projeto de vida. Seu sonho não era ficar rico - embaixo do Minhocão? Programando uma banda desconhecida por noite? Com um staff de punks? Claro que não queria ter fechado em seis meses. Mas seu objetivo era bem maior que grana.

Ser punk é querer ser livre, querer ser diferente, querer importar - contra todos os obstáculos e probabilidades. Ricardo Lobo resume na entrevista para o documentário:

"O Napalm era uma casa onde as pessoas eram livres. Era uma Zona Franca. E você precisa de coragem para ir a uma Zona Franca. Porque não é um lugar em que as regras estão estabelecidas."

É preciso mais coragem ainda para fazer você mesmo uma Zona Franca. Ou mesmo para revisitá-la... assista e inspire fundo. É o cheiro da cidade grande, safra 1983. É perfume da aventura.

SERVIÇO

Napalm: O som da cidade industrial
Direção: Ricardo Alexandre
Produção: David Barkan e Ricardo Alexandre
Direção de fotografia: David Barkan
Montagem: Fabiana Freitas
Estreia: segunda-feira 04 de março, às 19h30.
Reprises: quarta, 06/03 às 16h30, quinta 07/03 às 09h00, sexta 09/03 às 19h30, sábado 10/03 às 03h30, domingo 11/03 às 15h30 no canal BIS

NAPALM - O Som da Cidade Industrial from David Barkan on Vimeo.

Publicado em 01/03/2013 às 17:00

Gang do Eletro: o primeiro álbum, na velocidade certa

Gangue do Eletro Gang do Eletro: o primeiro álbum, na velocidade certa

É só ver/ouvir a Gang do Eletro: tá na cara que que eles estão totalmente sincronizados com a música pra dançar global. E que a conexão Belém-Planeta não passa por São Paulo e Rio. E que aliás nem precisa. Como você pode comprovar neste novo vídeo, feito para promover o lançamento do primeiro disco deles. Está no iTunes, em pré-venda, por dez dólares. Esta música, Velocidade do Eletro, é single of the week na loja da Apple.

Ano passado, no Prêmio Multishow, fui dos que defendeu prêmio para eles, que veio, com toda justiça. Não é média. Gosto da Gang sem condescendência. Não é música pra mim - e eu lá vou sair pra dançar? Tanto quanto não são outros favoritos da casa, como M.I.A., Santigold ou Major Lazer, para ficar em uns poucos que correm na mesma raia da Gang do Eletro. Não importa que não seja para mim. É para nós. É música que é nossa e do mundo, é da rua e da selva.

É feita neste exato momento para atender uma necessidade eterna do ser humano: chacoalhar o esqueleto. Próxima parada, States. Este dia 15, eles vão mostrar do que o Pará é feito em um dos palcos mais importantes da música e da inovação: o festival South By Southwest, em Austin, Texas. Treme, Terra, treme.

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Publicado em 01/03/2013 às 12:12

Thor e Eike Batista são inocentes. Os culpados somos nós

thor eike Thor e Eike Batista são inocentes. Os culpados somos nós

Notícia de hoje: foi afastado o perito cujo laudo apontava que Thor Batista dirigia a 135 quilômetros por hora quando atropelou Wanderson Pereira dos Santos. A defesa de Thor alega que o laudo viola a imparcialidade. Os desembargadores já tinham votado a favor. Agora a juíza Daniela Barbosa Assumpção de Souza, de Caxias, determinou que o perito Hélio Martins Junior não deve mais se manifestar nos autos.

Como o perito teve contato direto com o Ministério Público, a juíza alega que isso poderia “suscitar dúvidas sobre a sua atuação como auxiliar da Justiça neste processo”. E que o contato com o Ministério Público “constitui ofensa aos princípios da igualdade processual, do contraditório e da ampla defesa e ao devido processo legal constitucional”. Reportagem completa aqui.

Foi há quase um ano, no dia 17 de março de 2012. O filho do bilionário Eike Batista, então o homem mais rico do Brasil, voltava de Petrópolis com um amigo. A Mercedes que dirigia atropelou e matou Wanderson, que atravessava a pista de bicicleta, em Duque de Caxias. Depois soubemos que Thor tinha 51 pontos na carteira, e já tinha atropelado uma pessoa antes.

Thor foi indiciado por homicídio culposo, sem intenção de matar. O tal laudo era uma das principais peças contra ele. Agora resta pedir uma nova perícia. Alternativamente, o veredito será dado com base apenas em provas testemunhais. Thor será ouvido dia 12 de março. Sairá livre.

Profeta de araque, cantei essa bola no dia 16 de abril de 2012. Escrevi:
"Fosse o contrário, um Wanderson com carteira estourada matando o filho de Eike Batista em circunstâncias idênticas, estaria livre? A única resposta honesta que um brasileiro pode dar: não. Thor simboliza o novo Brasil rico. Wanderson me faz pensar: pobre e velho Brasil."

Texto completo aqui.

Notícia de hoje no Valor Econômico: desde 2007, o BNDES colocou quase dez bilhões de reais nas empresas de Eike Batista. Quanto mais a coisa aperta, mais dinheiro público Eike capta. A radiografia do grupo de Eike, em excelente reportagem de duas páginas, é leitura obrigatória para compreender o capitalismo à brasileira. E com isso, o Brasil e seus filhos.

Neste ano desde o atropelamento, nada mudou de importante no nosso País. Talvez só a posição de Eike Batista no ranking dos bilionários, que caiu bastante. Seu grupo empresarial mais e mais se parece com um castelo de cartas. Mas sobrou bastante em caixa, e portanto Thor será inocentado.

A razão é que continuamos a viver no pobre e velho Brasil, que permite que Eike seja tão rico, e portanto intocável e automaticamente inocente, ele e sua prole. E Eike é tão rico porque nós, brasileiros, permitimos que dez bilhões de reais do nosso dinheiro vão para o seu bolso. Eles são e continuarão sendo inocentes. Os culpados somos nós.

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Publicado em 28/02/2013 às 13:21

A lei Garotinho: uma ótima oportunidade para mexer em vespeiro

Anthony Garotinho acaba de apresentar projeto de lei terminando com a obrigatoriedade da publicação de balanços de empresas em jornais. O deputado do PR é candidato a governador do Rio. Quer causar. E retaliar. Bate nas empresas de comunicação, que nunca lhe deram mole, onde dói, que é no bolso. Garotinho é isso e aquilo? Tenha a opinião que quiser sobre ele. Não vamos confundir mensageiro e mensagem.

Quem não é do ramo não sabe dessa obrigatoriedade. Toda empresa aberta tem que publicar seus balanços em um jornal impresso. É uma lei pré-histórica, cartorial. Claro que as empresas podem publicar em um jornalzinho. Mas pega mal. Preferem, como diz a campanha do Estadão, transformar seu custo em investimento. Publicar seu balanço em jornalzão, e aproveitar pra fazer um marketing caprichado, valorizar os resultados, contar vantagem e tal.

Folha, Globo e Estadão são bons veículos para publicar balanço, circulação grande, mas o que dá prestígio mesmo é publicar no Valor Econômico. O jornal é uma sociedade entre os grupos Globo e Folha. É um jornal muito bem-feito, o único que leio todo dia. Em economia e negócios, bate de longe qualquer outro. Tem muitas qualidades em cultura, consumo, carreira, política e outras temas que interessam a seu público: empresários, executivos, empreendedores.

Naturalmente, é bem caro publicar seu balanço no Valor. Quanto? Não sei. Não é informação pública. E é aí que a tal Lei Garotinho me interessa. Pelo começo: em princípio, não há como discordar do argumento do deputado. Em 2013, não há justificativa para essa obrigatoriedade, que não existe em outros países. É muito desperdício de papel e um custo desnecessário para as empresas. Elas que publiquem balanços, relatórios e fatos relevantes em seus sites. Vamos botar um fim nessa história? Espera um pouquinho.

Talvez exista sim uma justificativa de interesse público. É muito possível que sem essa obrigatoriedade, nossos maiores jornais não tenham como se sustentar. Ou talvez sobrevivam, mas precisem cortar muito seus gastos, afetando a qualidade do nosso jornalismo. E meus muitos amigos que trabalham em jornal, Valor incluso, vão ter seus empregos em risco. Afinal, é ou não é importante para a sociedade brasileira que nossos maiores jornais do País continuem existindo?

Sem um segundo de dúvida: sim. Nossos jornais e jornalistas podem ter muitos defeitos, e têm. Mas é melhor ter uma imprensa conservadora, morna e monocórdia do que não ter imprensa. Os stalinistas coxinhas que tentaram calar a boca de Yoani Sánchez não foram para Cuba, como eu fui, e procuraram bancas de jornal, como eu procurei. Em Cuba não existe jornalismo, nem jornal, nem revista. Sou bem feliz de existir uma Veja para fazer um escarcéu sobre a blogueira cubana. Mesmo que eu discorde bastante do que a Veja publique sobre a moça. Ou até opte por não ler, como foi o caso.

Outro ponto importante do debate: existem muitos outros estímulos e obrigatoriedades legais que beneficiam empresas e não têm justificativa razoável. Se você vasculhar, encontrará centenas de vantagens variadas para diferentes setores da economia. As empresas têm isenções de impostos disso e daquilo, dinheiro do BNDES assim e assado, estímulo à exportação, ao etanol, à montadora, empréstimo do governo para construir estádio etc.

No caso de jornal e revista, também existem benefícios fiscais para comprar papel. E o setor de mídia tem quimera maior: a Bonificação de Volume, que premia as agências de publicidade pela concentração da verba de publicidade nos grandes grupos. A obrigatoriedade de publicação de balanços não é nada de tão único ou estrambótico. A Lei Garotinho importa de duas maneiras. Primeiro, porque é um convite a uma maior transparência. Segundo, porque força a questão: porque estes grandes veículos têm esses benefícios, e outros não?

jornal forasta A lei Garotinho: uma ótima oportunidade para mexer em vespeiro

O deputado apresentou o projeto de lei ontem, quarta-feira. Só vi sites assumidamente governistas dando destaque ao assunto, em tom comemorativo, "vamos acabar com a mamata" e tal. A grande imprensa por enquanto cala. Vão acabar reportando, criticando em editoriais. Mas a artilharia pesada talvez não venha. Silêncio é a melhor estratégia para matar um problema no ninho.

Silêncio é o que não podemos aceitar. Os jornais não precisam bater muito na lei, porque sabem que a lei tem chance zero de ser aprovada, claro. Imagine se nossos valentes deputados vão querer arrumar encrenca com os jornais. Mas o projeto de lei cria uma ótima oportunidade de entendermos de onde vêm as receitas de nossos jornais. E discutir se não é justo que outros veículos de comunicação, menores e independentes, também tenham leis, ou pelo menos regras, que lhes garantam acesso a boas fontes de receita.

Quanto nossos grandes jornais faturaram em 2012 publicando balanços? Que fatia de suas receitas de publicidade isso significou? É importante mesmo manter essa obrigatoriedade, para garantir a sobrevivência da grande imprensa, ou dá para os jornais passarem bem sem? É uma discussão necessária, que deve ser feita da maneira mais transparente possível. É importante para o Brasil que os grandes grupos de comunicação continuem saudáveis.

É igualmente importante que não existam só grandes grupos. Se tem boi para Valor, Globo, Folha e Estadão, que são grandes e fortes, tem que ter boiada para outros jornais e outros jornalismos. Impressos, eletrônicos ou digitais. Micro, médios ou grandes. Mas diferentes. A verdadeira liberdade de expressão exige diversidade. É vespeiro? É. Vamos meter a mão sem medo.

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Publicado em 28/02/2013 às 08:22

Comercial de chocolate recria Audrey Hepburn em computador

audrey hepburn galaxy ok Comercial de chocolate recria Audrey Hepburn em computador

O astro virtual era inevitável. Em Avatar, os personagens criados por computador finalmente convenceram a gente - ainda eram uns bonecões, mas se emocionavam, e nos emocionaram. Em O Exterminador do Futuro - Salvação, os heróis enfrentavam um cyborg idêntico a um jovem Schwarzenegger. Mas esse comercial estrelando Audrey Hepburn vai além. Bem além.

Porque Audrey de robô nunca teve nada. Era uma gracinha, linda e expressiva. E o comercial funciona. Pela cyber-Audrey, e pela luz, ritmo, trilha - Moon River, claro. E o cenário é Amalfi. Amiga, assista ao comercial. Viu o castelinho no fim da rua? É uma torre sarracena convertida em hotel. Lá passei dias felizes da minha vida. Sugiro que faças o mesmo.

O reclame vende chocolate? Bem, a empresa que bancou o anúncio está sendo falada pelo mundo afora. Conectou sua imagem com a de Audrey Hepburn, ícone de elegância. Para um produto engordativo, que dá colesterol, espinhas etc., não tem preço.
Veremos no futuro filmes totalmente novos com John Wayne, Marilyn Monroe e Humphrey Bogart? Sim e não vai demorar.

Um novo James Bond estrelando um Sean Connery garotão? Na certa. Pena que não dá para recriar virtualmente os roteiristas e diretores de antigamente... Mas antes veremos comerciais aos montes. James Dean vendendo seguro? Elvis é um bom garoto-propaganda para remédio para emagrecer. E Kurt Cobain é tiro certo pra vender antidepressivo.

As possibilidades, e possibilidades de zoar com a memória de mortos célebres, são infinitas. Os direitos sobre a imagem pertencem aos herdeiros, que vão faturar firme com os antepassados. Sempre exploraram os parentes, via licenciamento de imagem, mas agora licenciam atuações. Os filhos de Audrey justificaram: ela sempre adorou chocolate. É, pelo corpo de bailarina que manteve a vida toda, com certeza a bela mandava ver nas calorias.

E veremos versões virtuais dos vivos. Ou você acha que uma Madonna, por exemplo, não vai querer aparecer com 25 anos num próximo videoclipe? E o próximo passo é ao vivo. Uma tour virtual dos jovens Beatles, quanto você paga pra ver? Hologramas de Lawrence Olivier interpretando Shakespeare aqui no Bexiga mesmo?

Cada dia o mundo mais se parece com ficção científica. Eu acho maravilhoso. E torço por uma reunião virtual dos Trapalhões.

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Publicado em 27/02/2013 às 13:18

Os mais vistos do YouTube, o Brasil do presente, e o futuro da TV

Os mais vistos do YouTube, o Brasil do presente, e o futuro da TV

bonde das maravilhas Os mais vistos do YouTube, o Brasil do presente, e o futuro da TV

O YouTube estreou esta semana no Brasil o canal Mais Vistos. Agora, nós temos como saber a cada dia quais os vídeos que estão sendo mais vistos no País, sejam brasileiros ou não. E o número de visualizações que vêm do Brasil.

Parece pouca coisa? Parece um dado técnico? Não: é uma radiografia diária do Brasil. Do que está fazendo sucesso no Brasil conectado à internet. Não tem interferência editorial do YouTube. A lista é gerada por algoritmos. Representa as aspirações audiovisuais de metade dos brasileiros, uns noventa milhões de internautas, por aí.

A lista de Mais Vistos do YouTube representa melhor do que qualquer outra coisa o que o brasileiro quer assistir neste minuto. Mais que as pontuações do Ibope. Mais que a programação dos horários nobres. Mais que a sabedoria dos gurus e a experiência dos acadêmicos. A prova dos nove é que um banco é o patrocinador exclusivo do canal Mais Vistos. Deve estar pagando rios de dinheiro, grana preta que antigamente só a TV aberta faturava.

A lista de Mais Vistos do YouTube vai passar a pautar não só a internet, mas também a TV aberta, e portanto vai pautar em grande parte nossa vida. E é por isso que no próximo domingo, imagino que algum programa com uma produtora bem esperta já vai ter convocado essas meninas abaixo para fazerem seu showzinho. Neste dia as meninas vão bombar ainda mais no Twitter e Facebook, e o vídeo delas descendo até o chão no Gugu ou Faustão ou Eliana vai explodir.

E será reproduzido no YouTube. E terá outro zilhão de visualizações. E fará este vídeo original render mais ainda. As garotas vão dar pano pra manga por uns dias. E depois? Quem se importa com depois? Os porquês dessa lista ser como é, e como será a cada dia, renderão análises sociológicas, psicológicas, culturais riquíssimas. Porque de fato são pistas preciosas para explicar o Brasil do presente, o Brasil de verdade. E para mapear o futuro do entretenimento em vídeo - da TV, se você quiser chamar assim.

Mas pensatas sólidas não se materializarão tão cedo. Porque a lista muda a cada dia. Vai demorar algum tempo para detectarmos padrões compreensíveis. No começo, será como aqueles borrões dos testes de Rorschach: cada um enxerga o que lhe dá na telha.
É particularmente contundente e provocante que este vídeo esteja em primeiro lugar, com 814.641 visualizações (isso foi ontem à noite, quando comecei a escrever este texto.

Neste minuto são 1.419.896. Este é um dos efeitos de ser o primeiro entre os mais vistos: mais e mais pessoas vão fazer questão de ver. A cobra morde o rabo...). Vejo este vídeo agora pela segunda vez. Não sei se meu coração se enche de ternura ou horror. Os mais valentes e sábios que se arrisquem a interpretações. Com vocês, o mais visto entre os Mais Vistos: o Bonde das Maravilhas.

Publicado em 26/02/2013 às 11:19

O precioso silêncio de David Bowie

bowie blog O precioso silêncio de David Bowie

David Bowie não lança um disco há dez anos. Não lança um que preste há trinta. Desde 1983: Let's Dance. Mas entre 1970 e 1983 escreveu e gravou 12 álbuns irrepreensíveis. Ninguém na história do rock fez igual. São clássicos, na mais precisa definição. Não porque fizeram sucesso que nos enternece a memória, ou porque viraram parte da paisagem. E sim por que resistem a novas audições e interpretações e por que mudaram o que veio depois.

Bowie sempre foi mais que sua música. Suas roupas, atitudes, afetações, colaboradores e entrevistas sempre contaram tanto - frequentemente mais - que suas canções. É tudo indissociável, é tudo parte da obra. Nunca foi o melhor melodista, letrista, instrumentista ou cantor. Mas ninguém foi tão popstar e tão rockstar ao mesmo tempo; tão rudimentar e ambicioso e apelativo e transgressor. É muito difícil ser simples e sofisticado simultaneamente... E mesmo quando sua música murchou, Bowie continuou tendo o que dizer.

Aos 40 anos, explicava que fazia rock para pessoas de sua geração, porque a garotada queria música eletrônica, e não rock, e isso era bom. Era 1987. Sua contribuição já tinha terminado. O silêncio de Bowie na última década vai além de não produzir; ele deixou de falar com a imprensa e fazer shows. David teve um ataque do coração em 2004 (é isso que dá fumar). Nada como uma angioplastia para forçar revisão das suas prioridades. Se recolheu.

Parou de gravar, tocar e se comunicar. Não precisa trabalhar. É rico. Tem um filho adulto, diretor de cinema talentoso, Duncan, uma filhinha que esconde dos paparazzi, Alexandria, 12, e uma mulher linda e companheira, Iman. Vive entre Nova York e Londres. Não precisa fazer turnês caça-níqueis reempacotando velhos sucessos para velhos fãs. Fez mais que a maioria de nós e merece a aposentadoria de luxo.

Mas seu silêncio incomodou. Nesta era em que todos falam sem parar, e um quer falar mais alto que o outro, e todos gritam aos ventos suas mínimas e míseras conquistas, David Bowie calar é incompreensível. Nos provoca e ofende. Que conforto, então, que Bowie mostre a cara agora. Mas que desperdício que o faça sem espalhafato! Cadê as entrevistas na TV? O David Letterman? A tour mundial? O dueto com Lady Gaga? O show no Rock in Rio?

Bowie quebrou o silêncio e mantém a caluda. Gravou na surdina e lança, com videoclipes, o álbum The Next Day. Continua não dando entrevistas. Ungiu o produtor e camarada de milênios, Tony Visconti, para falar sobre o disco. Que a música fale por si, é a mensagem principal. Críticos correm para ouvir o álbum e dar seu veredito. Não eu. Vi a primeira, Where Are We Now?, minúscula. Entrou nos top ten da Inglaterra. Silêncio cria lendas. Vi a segunda, The Stars (Are Out Tonight). Não faz feio, mas nada especial ou urgente. O vídeo é cínico-mitômano. Resiste a uma visualização.

Nos últimos meses, novas audições me levaram a novas descobertas em Low, seu disco de 1977. Bowie continua a me interessar e muito. Seus três álbuns entre 1999 e 2003 são os mais fracos de sua carreira. Para que tanta sede por nova música? Alguém imagina que vai nos encantar ou surpreender? Talvez não seja esta a razão da ansiedade pelo disco, nem da generosidade da recepção a ele. É impossível que The Next Day tenha a densidade de informação, sensibilidade e argúcia de seus álbuns clássicos. Bowie tem 66 anos. Roqueiros não melhoram com o tempo, e mais: são prisioneiros do seu tempo.

O álbum pode ter seus momentos de brilho, talvez cegantes, no contexto do rock atual, auto-referente, ensimesmado e publicitário. Mas Bowie ficará pelo que fez entre 70 e 83 e o resto não tem importância. A não ser para ele. Festejo The Next Day pelo bem que deve lhe fazer. E talvez seja por isso que queremos tanto ouvir e gostar de seu novo disco. Porque queremos seu bem, pelo bem que nos fez e faz.

Mas é mais precioso seu silêncio: antídoto poderoso à glossolalia que nos embevece e bestifica. Bowie não teve pressa para lançar The Next Day. Eu não terei pressa para ouvir.

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Publicado em 22/02/2013 às 14:49

Os ricos brasileiros, esses miseráveis

forasta dinheiro  Os ricos brasileiros, esses miseráveis

A filantropia é uma das tradições mais admiráveis dos Estados Unidos. Você pode argumentar que é o outro lado da moeda. No cravo os EUA idolatram e idealizam o esforço individual. Na ferradura os americanos doam generosamente seu tempo e dinheiro em favor dos que mais precisam.

É verdade. Mas os resultados também são muito verdadeiros. Chama atenção a presença de voluntários em tudo que é canto do País. São adolescentes, adultos, e muitos aposentados. Estão nas casas de repouso, nos centros para desabrigados, nos museus. Um amigo contava ontem que em Orlando, as ruas próximas às escolas estão cheias de velhinhos voluntários, ajudando a criançada a atravessar a rua.

E chama atenção mais ainda, pelo contraste com o Brasil, o quanto que se doa de dinheiro nos EUA, e como são jovens os doadores. Não tem essa de esperar morrer para doar a grana, não. Esses dias foi divulgada a lista das cinquenta pessoas que doaram mais dinheiro no ano, de acordo com a instituição The Chronicle of Philantropy. Em primeiro lugar está o bilionário Warren Buffett, como de costume.

Mas em segundo lugar está Mark Zuckerberg e sua esposa Priscilla Chan. O fundador do Facebook doou em 2012 quase meio bilhão de dólares, U$ 498.8 milhões, exatamente. Bill e Melinda Gates, U$ 469 milhões. Michael Bloomberg, U$ 350 milhões. Paul Allen, co-fundador da Microsoft, deu U$ 309 milhões. Sergey Brin e a esposa Anne Wojcicki doaram U$ 223 milhões. E por aí vai.

Sergey Brin tem 39 anos. Zuckerberg, 27. São jovens bilionários e estão doando fatias importantes da sua grana já. De novo, você pode perfeitamente argumentar que isso é uma outra maneira de angariar boa vontade com relação às suas empresas, e só uma outra maneira de aumentar seu status. E quem sabe aparece alguém pra garantir que esses ricaços são uns capitalistas desgraçados, que batem nossa carteira todo dia, e nos compensam com uns chequinhos de caridade só pra limpar a barra.

E, sim, os americanos têm mais grana que nós. E, sim, a legislação americana estimula a doação, e a brasileira não. Que seja, que seja. Mesmo assim, são exemplos a serem seguidos. E no Brasil, não são. De todas as coisas que nós, imitamos dos Estados Unidos, a filantropia, que é uma das mais bonitas, fazemos questão de ignorar.

É raro um brasileiro que doe dez reais. Que dirá milhões. Perto dos americanos, somos bem mesquinhos com nossa grana. E perto dos ricos americanos, os ricos brasileiros são uns miseráveis.

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Publicado em 20/02/2013 às 11:56

Por que escrever (ou: o escritor brasileiro, esse chato)

O escritor brasileiro é homem e branco. Tem diploma universitário, mora no eixo Rio-São Paulo, tem 50 anos. O protagonista de seu romance é homem, branco, tem diploma universitário, mora em metrópole etc. etc. Dos nossos autores, 36% trabalham como jornalistas. Pois as profissões mais comum dos protagonistas da literatura brasileira são, pela ordem, escritor, criminoso, artista, estudante e jornalista. E a maioria das histórias se passam no presente, ou no máximo dos anos 80 para cá.

Direto ao ponto: o assunto da literatura brasileira é o escritor brasileiro e seu mundinho. É um coroa diletante e seu tema é a própria juventude e meia-idade, reimaginadas dramaticamente. Este é o resumo curto e grosso da pesquisa feita pela professora Regina Dalcastagnè, da UNB. Ela analisou 258 romances de 165 escritores diferentes, dos últimos 15 anos, de editoras variadas. É mostra significativa. Rendeu um infográfico impactante.

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Regina conclui que não há na literatura nacional o que chama de "pluralidade de perspectivas sociais". Nossos livros não incluem brasileiros de várias cores, classes, religiões, idades. Bidu. É e sempre foi assim. Não há gays, velhos, deficientes, umbandistas e tal nos nossos livros. A ausência mais escandalosa em nossa literatura, personagens negros, tem razão bem concreta: não há negros nas redações, na academia, nas posições de comando do País. Mas há mais discriminação nos nossos livros que no Brasil não-ficcional. Em 56% dos romances, todos os personagens são brancos. Negro, quando aparece, é miserável, bandido e, principalmente, coadjuvante.

A pesquisa crava: 36% dos escritores são jornalistas. Natural. Tirando jornalista, poucos brasileiros têm português legível. Jornalista não sabe grande coisa, mas aprende a encaixar uma frase na outra, respeitar concordâncias, economizar nas vírgulas. Dashiell Hammett recomendou: escreva sobre o que você conhece. Donde que temos jornalistas escrevendo sobre jornalistas. Um bando de rato de redação se imaginando como herói: uma vez na vida, a notícia sou eu! Bem, eu sou exatamente o perfil do romancista brasileiro, jornalista, quase cinquenta, branco etc., e passo muito bem sem ler sobre mim, nem em versão romantizada, e muito menos realista...

Nem todos os nossos autores são jornalistas, mas o fato é que os temas e abordagens na nossa ficção se repetem. A pesquisa de Regina explica a desconexão de muitos, e a minha, com a literatura brasileira atual. Me recomendam este e aquele autor nacional. Compro, leio quinze páginas e despacho pro sebo, raras exceções. O problema não é o País de origem dos autores. É o universo ficcional e existencial dos autores e personagens. Não queremos saber dos problemas dos senhores letrados de classe média e meia-idade, suas neurinhas, fantasias e infidelidades. Simplesmente não é tão interessante assim.

E pior ainda quando vira policial noir de butique, com direito a uma garota de programa e um milionário assassinado. Sai pra lá, neurótico professor de literatura em Boston! Vade retro, safo repórter de jornal popular! Ficção exige imaginação e encantamento; um tanto de história, outro de jornalismo; e variedade, hoje festins pantagruélicos, amanhã snacks para devorar aos nacos. Em todo lugar o gênero "problemas sexuais-existenciais da classe média intelectualizada" tem longa tradição. É um gênero, como livros de vampiro ou histórias de detetive.

Nos Estados Unidos, é o que garante prêmios, convites para lecionar e confete em festivais literários. É o favorito de escritores que não vivem de escrever. Ganham a vida como professores, quase sempre. Quem sabe faz, quem não sabe ensina... não, sacanagem: tá cheio de professor por aí que manda muito bem. O problema é quando os escritores começam a escrever para impressionar outros escritores (e aliás isso vale para músicos, pintores, arquitetos e qualquer atividade criativa).

Escrever em tempo parcial não precisa ser problema. Muitos usam bem as conexões acadêmicas e mesadinhas variadas, de fundações, esse e aquele programa governamental etc. Falta de tempo e dinheiro para escrever frequentemente foi bem estimulante. James Joyce, para pegar o mais celebrado autor do século passado, criou Ulysses num miserê de dar gosto, exilado mundo afora, com uma mulher que zoava suas veleidades de artista e dois filhos pequenos pra criar. Na outra ponta, a fábrica de best-sellers Stephen King pariu Carrie, seu primeiro sucesso, quando labutava como zelador, datilografando até altas horas, os nenês chorando.

No Brasil literatura também é segunda profissão ou hobby. Faça as contas: um autor ganha uns três reais por exemplar vendido, e as tiragens aqui raramente passam de 3.000 exemplares. Pouco importa sobre o que o escritor brasileiro vai escrever, e muito menos se vai escrever bem. Meia dúzia vai ler. Dito isso, podemos e devemos fazer melhor. Escrever bem é técnica, e escrever divinamente é talento e suor. Mas a prova dos nove é escrever sobre a realidade. Ainda que no formato de um romance histórico, ficção científica, horror ou humor ou o que for.

Escrever sobre a realidade não é escrever sobre a minha vida. E muito menos um livro é melhor ou pior porque se passa na São Paulo de hoje, e não em Saturno no século 30. O que existem são livros mais e menos ambiciosos, e mais e menos bem-sucedidos, em relação ao tema, à trama, à linguagem, ou na criação de ambientes e personagens. Alta e baixa literatura é papo de crítico cretino.

A pesquisa de Regina explicita que o assunto central da ficção brasileira é o umbigo do seu autor. Não é problema localizado. Em todo lugar, cada vez mais os escritores estão caraminholando sobre seu mundinho particular, reciclando fantasias de aventura e consumo, revisitando seus livros e filmes e ícones culturais prediletos. A possibilidade de celebridade propiciada pelas redes sociais acentua a tendência. Vivemos escrevendo e lendo devaneios narcisistas. Boa parte do que passa por literatura é tão verdadeira quanto essas fotos supostamente displicentes, mas cuidadosamente planejadas e retocadas, que colocamos em nossos perfis no Facebook.

A ambição da ficção, e da ficção brasileira, pode e deve ser maior. Hammett estava errado. A literatura que importa não é sobre o autor, é sobre o leitor. Quero, exijo, um livro que me hipnotize, e me leve para outro lugar, e para dentro de mim mesmo. O que importa em ficção é fitar o desconhecido. E não conseguir desviar o olhar.

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Publicado em 19/02/2013 às 16:36

Kyle Baker: os gibis pra ler de graça, e os gibis que você precisa comprar já

kingdavid extract Kyle Baker: os gibis pra ler de graça, e os gibis que você precisa comprar já
Kyle Baker sempre merece atenção. Pelo seu traço, sua perspicácia, sua ternura, seu destemor. É cartunista, quadrinista, animador de mão cheia. Quando lançou o livro How to Draw Stupid!, compartilhei suas boas dicas para quem quer aprender a desenhar. E viver.

Kyle ousa de novo. Acaba de colocar alguns de seus álbuns mais importantes de graça, no seu site. Claro que já existiam scans pirata por aí. Mas agora você pode ler Why I Hate Saturn, You are Here, Cowboy Wally e King David sem desembolsar um centavo, porque o dono dessas obras assim decidiu. Não é igual a ler em papel cuchê brilhante e formato grande... mas sugiro que você leia esses álbuns online, e depois compre os outros.

Se você não liga para quadrinhos, mas tem família, compre The Bakers, uma graça de cartum sobre a família de Kyle. Se seu negócio é política, compre Special Forces, a maior sacanagem sobre a guerra do Iraque e as bazófias militaristas americanas. Se está preparado para ficar com o coração apertado, compre Nat Turner, a história de um escravo que se tornou herói.

Compre porque é bom para você. E porque é bom para Kyle. Ele faz um trabalho único e independente. Seus quadrinhos são sua paixão. Quando precisa faturar, faz uns freelances para Marvel e DC, ou trabalha com animação - mais recentemente, no sensacional Phineas & Ferb. Mas é visível o amor que coloca em seu trabalho autoral.

Agora, ele compartilha de graça com o mundo obras em que colocou coração, mente e muque. Merece nosso apoio financeiro. E, egoisticamente, nos interessa que ele continue ganhando seus trocados. Continue desenhando. Continue sendo Kyle Baker.

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Publicado em 18/02/2013 às 04:00

A cura (quase) definitiva para a ressaca

ressaca homer  A cura (quase) definitiva para a ressaca

Todo carnaval ouço a mesma mentira: ressaca não tem cura. Se eu ganhasse um real pra cada reportagem reciclada sobre esse assunto que já vi na vida, em revista, TV, site e jornal, já tinha montado minha adega. Em Bordeaux. Semana passada, igual. Um exército de jornalistas, doutores e especialistas basicamente garantindo que não há o que fazer. Que o importante é não exagerar. Sempre tomar um copo de água junto com cada dose. Jamais beber de barriga vazia. Exatamente tudo que ninguém vai seguir no carnaval.

DNA ajuda bem mais. Quase todos meus antepassados vieram do sul da Europa, região com milênios de experiência na produção e consumo de biritas variadas, vinho, grappa, bagaceira. Meu bisavô João Sajovic fabricava cerveja. Aqui no Brasil, os Silveira Moraes têm quatro séculos de experiência com cachaça. E a lenda familiar garante que sou descendente do cacique Tibiriçá, então até cauim meus cromossomos já enfrentaram.

Isso me garante alguma resistência, que mais jovem fiz questão de forçar. Os amigos já me viram misturar de tudo. E como jamais vomito, os líquidos infernais fermentavam mesmo era dentro de mim. Já lidei com ressacas paralisantes, resumindo, e sei exatamente como curar. O melhor amigo do bebedor é a... Neosaldina.

Também recomendo acordar no dia seguinte sem despertador, tomar baldes de água, devorar um café da manhã ogro, meia hora sentado no chuveiro quentinho, e morgar pelo resto do dia. Recomendo especialmente fazer como eu faço hoje, tiozinho, e maneirar. Mas de vez em quando a cobra fuma, e aí tem que apelar pra Neosaldina.

Eu tomo desde que era novidade, e aliás bem antes de começar a beber. Ordens do doutor. Meu pai, médico, sempre tratou minhas dores de cabeça com Neosaldina, que era o tratamento mais moderno então. Foi lançado em 1972, quando eu tinha sete anos. Não inventaram nada melhor pra dor de cabeça, e testei muitos. É o terceiro remédio mais vendido do Brasil.

O problema é que nossa Neosa, assim com Buscopan, Novalgina, Anador, Benegripe e outros remédios, contêm dipirona. O uso de dipirona foi relacionado à agranulocitose e à aplasia da medula óssea, doenças horrorosas. Por isso, a dipirona não tem mais venda livre no mundo civilizado: EUA, Austrália, Japão e quase todos os países da União Europeia.

Há estudos sólidos que indicam que a dipirona não seria problema para o brasileiro, e latinos em geral, por questões genéticas. O anglo-saxão é bem mais sensível. Um estudo demonstra que no Brasil a relação entre dipirona e agranulocitose é irrelevante. As marronzinhas continuam à nossa disposição, baratinhas, na farmácia da esquina. Veja aqui.

Enquanto posso, faço minha propaganda da Neosaldina. Descobri hoje fuçando na internet que a Neosa agora é fabricada pela Takeda, a maior companhia farmacêutica do Japão! Aguardo ansioso um agradinho dos honoráveis fabricantes. Pode ser em espécie mesmo, para eu fazer uma reservinha para o futuro.

Porque quando se trata de leis, o Brasil opta sempre pelas mais draconianas. É complexo de inferioridade. Uma maneira de se exibir para o planeta: olha só, continuamos enfrentando inundações, secas, corrupção e tal, como todo país do terceiro mundo, mas quando se trata de leis, somos mais avançados que os países ricos! Daí que se você tomar um chope e guiar, é crime. Se oferecer um copo de cerveja ao seu filho de dezessete anos, é crime. Eles vão criminalizando nossa vida, e nós vamos deixando.

Portanto, uma hora dessas virá a inevitável lei que vetará o consumo de Neosaldina. Afinal, como é cada vez mais censurável beber, para quê remédio pra ressaca? A proibição virá, tão certa quanto a enxaqueca da quarta-feira de cinzas. A cura definitiva da ressaca tem data de validade.

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Publicado em 07/02/2013 às 09:03

Pra matar as saudades de Calvin e Haroldo

calvin harold ok Pra matar as saudades de <i>Calvin e Haroldo</i>

Bill Watterson não desenha Calvin desde 1995. As tiras de jornal são repetidas desde então. Foi o último gênio das tiras. E peça rara. Proibiu todo tipo de merchandising, porque sentia que isso desvalorizava os personagens. Rasgou dinheiro, no curto prazo. Mas garantiu a popularidade eterna de seus álbuns. Se você quer ter um pedacinho do menino e seu tigre, a única coisa a comprar são os livros, poucos, que estão por aí e são obrigatórios.

Bill parou quando quis, depois de dez anos fazendo Calvin e Hobbes, aqui Haroldo. E nunca mais mostrou as caras ou deu entrevistas. Vive tranquilo, no interior, pintando e, imagino, matutando. Tudo isso gera um prazer especial quando a gente vê a homenagem abaixo. Foi feita por dois grandes talentos dos quadrinhos. O escritor Brian Azzarello e o ilustrador Lee Bermejo, que não brincam em serviço quando fazem séries provocativas e violentas (100 Balas!), acertaram exatamente no ponto ao recriar Calvin e Hobbes como Lex Luthor e Coringa.

A história foi feita para um gibi da DC Comics, por enquanto publicado só nos EUA. Milagrosamente, Brian consegue capturar os espíritos do menino e seu tigre, e também os dos arquiinimigos de Batman e Super-Homem. E Lee, bem, se Bill quiser passar o nanquim para alguém, já achou herdeiro... mas não vai. E é melhor que seja assim.

forasta pequeno Pra matar as saudades de <i>Calvin e Haroldo</i>

(clique na imagem para ampliar)

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Publicado em 07/02/2013 às 00:30

Alalaô! Quem gosta de música é crítico, moleque gosta é de zoeira!

Major Lazer 2013 Alalaô! Quem gosta de música é crítico, moleque gosta é de zoeira!

Amigos na faixa dos quarenta e pouco lamentam o pouco sucesso do rock entre as novas gerações. Não tem Lollapaloozas, Sónares e megashows que espantem a nuvem negra. Só tem véio nesses shows, diz um camarada. São os mesmos caras que viram o Nirvana no Hollywood Rock, vinte anos atrás! Só tem dinossauro tocando nesses festivais e nas rádios rock, zomba outro. E banda brasileira, resmunga um terceiro, essa garotada agora só quer saber de funk e sertanejo!

Bem, quem gosta de música é crítico. Moleque gosta de zoeira. E tiozinho gosta do que era zoeira quando ele era garoto, aventureiro, solteiro e tal. Os jovens do mundo não estão nem aí pro rock porque rock é a música de seus pais e avós. No Brasil, jovem superpop adotou cego a balada sertaneja e variações. Quem quer questionar ouve vinil do Quinteto Violado, Elomar e Clube da Esquina. Rock não é mais som de festa. Fim.

Mas sempre tem um mas. Nas várias listas de apostas para 2013 que circularam nas últimas semanas, um nome que me chamou a atenção foi o Major Lazer. Nem é um grupo novo, mas tem disco novo saindo em fevereiro, e a visibilidade está aumentando. É projeto de Diplo, DJ e produtor de mão cheia, interessado na música do gueto e sua conexão com as grandes massas.

Dá uma olhada no vídeo do show. Não é muito mais animado que qualquer show de rock contemporâneo? Sim. E portanto é rock. Mesmo que sem guitarras à vista. É anarquia, zoeira, tesão - carnaval.

Major Lazer - Jah No Partial por perolasblogs no Videolog.tv.

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Publicado em 05/02/2013 às 11:27

Conte sua história com Neil Gaiman

neil gaiman ok Conte sua história com Neil Gaiman

É marketing. Parte da campanha para levar o Blackberry a um novo patamar de descolância e relevância, além do segmento executivo, e da molecada viciada em mensagens de texto. É uma pequena parte de uma grande ação para fortalecer a marca, entre tantas opções de smartphones.

Não faço ideia se é marketing do bom - se vai vender mais telefones ou não. Mas não é manipulativo ou grotesco. Não oferece mais por menos, refrescante sensação, nem o gosto da vitória. O projeto Calendar of Tales nos convida a uma experiência única, além dos preços. Não todos nós; só os que percebem o privilégio de colaborar com Neil Gaiman, um dos grandes contadores de histórias de nossa época.

Usando o Blackberry - mas não só, outras tecnologias estão disponíveis - qualquer um poderá interagir com Neil para a criação de um Calendário de Contos. A ideia é que os leitores inspirem, e ilustrem, doze histórias, que serão escritas e publicadas por Neil a cada mês. Mas não serão dele. Serão de todos que colaboraram.

Neil, idolatrado por Sandman, abandonou os gibis pelos livros para todas as idades. Sabe falar como adulto quando quer, como demonstram a antologia Fragile Things, Coisas Frágeis, e o romance Deuses Americanos, que tive a sorte de publicar no Brasil. Lida com temas adultos mesmo em seus livros infantis. Não é nerd e não tem vergonha de escrever sobre o fantástico. Não faz qualquer coisa por dinheiro, nem tem pudor de ser fofo com os fãs.

Desta vez, ele está sendo bem pago para ser mr. simpatia. A Blackberry deve estar desembolsando os tubos para amarrar ele por um ano. E também o diretor e figuraça Robert Rodriguez, e a cantora Alicia Keys, em projetos semelhantes, dentro da iniciativa Keep Moving. Robert tem o que dizer. Alicia não, mas tem um vozeirão e é bonita paca... Mais detalhes aqui.

Imagino que não é isso que vai fazer os novos telefones da marca explodirem em vendas, e nem sei se eles merecem, mas não importa. A empresa canadense já merece a gratidão dos fãs de Neil. Escrever, diz ele abaixo no vídeo de apresentação do projeto, é uma boa maneira de você lembrar que outras pessoas existem. Só por essa, o projeto Calendar of Tales já se justificou...

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Publicado em 04/02/2013 às 08:14

BBB, uma estrela pornô, e uma revista chamada General

bbb <i>BBB</i>, uma estrela pornô, e uma revista chamada General

Era uma vez uma revista chamada General. Foi para criá-la que pedi demissão da Bizz dia primeiro de agosto de 1993. É dela que falo abaixo. Durou 17 edições. Pouca gente leu, quem leu lembra. Eu só lembro dos erros que cometi. Um dos piores foi justamente não dar capas de música fortes em todas as edições. Consequência de abrir mão da função de editor-chefe da revista, a maior marcada de todas.

Se arrependimento matasse, era um esqueleto teclando aqui agora. Mas o assunto principal é a cultura reality show. Antes, claro, que existissem reality shows, porque o texto é de 94. Errei feio com a Traci Lords, mas no atacado a intuição estava correta. Pô, até que eu mandava bem de profeta.

Bem-vindo à próxima fase com O. J. Simpson e Traci Lords

Ficamos batendo cabeça duas semanas. Queríamos porque queríamos botar uma capa de música na nossa revista. E quem diz que achamos? Procura no presente, não tem, procura no passado, não se justifica. Pintou a clássica saída de jornalista: “pô, vamos fazer uma capa sobre a ausência de ídolos no pop moderno!”

Mais ou menos. Não é exatamente que não tenhamos ídolos disponíveis, é que parece que eles não representam muita coisa. Se bem que esse negócio de ídolo com permanência é bem recente, coisa dos anos 80, talvez. Não existe precedentes para o que aconteceu com Madonna e Michael Jackson, nem mesmo nos Beatles e nos Stones.

Enfim: era, é, uma sinuca de bico. O “star system” foi criado para encher os cinemas na recessão americana dos anos 30. Basicamente, consistia em inventar um monte de mentiras consistentes com a imagem cinematográfica do astro, e depois propagandear as mentiras ao máximo.

Depois, chegou o refinamento. Não basta o roqueiro fazer cara de drogado: ele tem que se detonar ao máximo, ir trocar de sangue na Suíça etc. Nada queima mais o filme do que se fazer de marginal e ser bonzinho. Como diria o Sonic, bem-vindo à próxima fase: a fase O. J. Simpson. Como um astro pode competir com o drama real do negão boa praça, astro do esporte, sendo julgado por esfaquear sua mulher mais-americana-impossível e seu possível amante?

Até eu acordo e vou direto ver a CNN. É de uma chatice hipnotizante. É vida real transformada em entretenimento, sem edição nem efeitos especiais. Talvez neste novo momento da cultura popular mundial, a celebridade não tenha significado, a não ser que esteja ancorada numa vida pessoal tão eletrizante como a persona pop do artista.

Se for assim, desconfio que sei quem será a grande estrela da próxima fase. O nome da moça é Traci Lords. A maioria dos leitores homens sabem de quem estou falando. Se você não sabe, lá vai. Traci Lords é um ícone da masturbação em cinco continentes. Na primeira metade dos anos 80, era a maior estrela do vídeo pornô, por causa de sua safadeza e sua carinha de ninfeta.

O que ninguém sabia é que ela era ninfeta mesmo. Tinha 16 anos quando começou a fazer pornô, o que é absolutamente criminoso nos Estados Unidos. Descobriram isso, apreenderam todas as fitas em que ela aparecia, processaram os produtores. Traci, a essa altura com 19 anos, fez mais um filme na França e depois saiu do pornô. Virou atriz “séria” em seriados e em algumas produções classe Z, ficções-científicas e policiais vagabundos. Trabalhou com o diretor John Waters em Cry-Baby e Mamãe É de Morte.

Agora, Traci vai lançar um disco. O primeiro single foi mandado para DJs da Inglaterra e Estados Unidos, sem identificação do artista. Colou. Paul Oakenfold, DJ britânico e produtor de gente como Primal Scream e Stone Roses, vai fazer um remix. E para completar, rola o boato de que Traci vai fazer uma série de participações especiais no seriado Melrose. Madonna pode fazer de conta que é uma piranha muito louca e rebelde. Mas como vai competir com uma menina que tomou todas as drogas, fez todas as besteiras e transou com algumas centenas de homens na frente das câmeras —antes dos 18 anos?

Axl Rose pode fazer de conta que é um bad boy daqueles, jogar cadeira em jornalista etc. Como vai competir com um cara que deu sei lá quantas facadas no pescoço da mãe de seus filhos (ou está sendo acusado disso)? A resposta é: não tem como. Os acadêmicos que estudem o assunto e venham falando de “simulacros”, “artefatos”, “fake” etc. O nosso negócio é vida real e não tem mais volta.

(General, 94)

traci lords ok <i>BBB</i>, uma estrela pornô, e uma revista chamada General

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Publicado em 01/02/2013 às 20:39

Renan e Santa Maria: como mudar o Brasil para melhor, mantendo o que temos de pior

A eleição de Renan Calheiros para presidente do Senado causa revolta.

Não há porquê tanto choque. Não é pior que Sarney, Maluf, Collor, outantos outros políticos que dão sustentação para o governo de Dilma, e deram para o de Lula. Também não é pior que Antonio Carlos Magalhães ou outros do mesmo quilate, que viabilizaram os mandatos de Fernando Henrique Cardoso.

Em brincadeira de gente grande não tem santo. Você vai pra guerra com as armas e os aliados que consegue. Churchill tinha quase mais nojo de Stálin, seu aliado, do que de Hitler, seu arquiinimigo. Vale também para empresas, aliás. Business is war.

Agora, quem vai negar que tivemos avanços nos últimos vinte anos?Controlamos a inflação. A mortalidade infantil caiu. Mais gente tem acesso sapato, xampu, iogurte e um diploma universitário. O Brasil se tornou um ator global. A consultoria Price Waterhouse garantiu neste começo do ano: nosso país é o terceiro melhor do mundo para as empresas investirem, atrás só dos Estados Unidos e China.

Deveríamos ter avançado mais neste período, claro. Mas não tem como tapar o sol com a peneira. O Brasil melhorou muito nestas duas décadas de políticas de alianças. Desde o final da ditadura, todos os governos juntaram alhos com bugalhos num grande balaio, amorfo e amoral. O PSDB, partido de oposição, fundado por políticos com histórico de resistência ao regime militar, atravessou o rubicão quando selou a aliança com o PFL, herdeiro político da Arena.

Essa política, que permite e recompensa os Renans, mudou o Brasil para melhor. A questão, e é uma questão dramática e urgente, é que é essa política não muda o principal, que é a cultura do país. Pelo contrário, é gasolina na fogueira. Se nossos eleitos aceitam bandidos como companheiros de cama e mesa, porque não você ou eu? Se as regras não valem pra quem tem dinheiro e influência, a única atitude racional é fazer qualquer coisa pra enricar.

Também é um modelo concentrador de riqueza. O Brasil tem pobres menos pobres que há vinte anos, mas tem ricos muitíssimo mais ricos. Se a maior fatia da riqueza está nas mãos do governo, e de empresas beneficiadas pelo governo, a impunidade é certeza e a injustiça é cotidiana. Pode prender os músicos e os donos da boate. Outros incêndios virão.

Aqui ou em qualquer canto do planeta, os melhores países para viver, onde o governo funciona melhor, são os países em que as riquezas são melhor distribuídas. Em que um número maior de empresas pequenas representam o coração da economia, e são o motor de geração de empregos.

Em que a distância entre a base e o topo da pirâmide é uma estilingada. No sistema dominante no planeta - vamos chamar de capitalismo? - a única liberdade de fato vem da riqueza. Não só para o indivíduo, mas para a comunidade, e a nação. Quanto mais pobres tem um país, menos poder e menos poder de pressão tem seu povo, como um todo. E menor a liberdade de expressão, porque a imprensa é sustentada por poucos. Vale para Estados e regiões. Compare São Paulo com o Maranhão, ou o Leblon com a Favela da Maré.

Não estamos sós. Os BRICS estão cada vez mais ricos. Mas só os ricos apitam nestes países. Está sendo criada uma nova aristocracia empresarial-governamental, a cobra comendo o rabo. Há quem diga que a saída é a educação. Os russos tem alto nível educacional. A Rússia está há anos nas mãos de um brucutu da KGB e de uma elite plutocrata.

Educação não é o que você diz, é o que você faz. Só se educa por exemplo. Não adianta um povo com mestrado, e todas as apostilas garantirem que o crime não compensa, se os Renans continuam se dando bem.

Renan é só uma engrenagem na máquina. ACM, por exemplo, era bem mais importante. Morre um, nasce outro. Sempre vai ter alguém lá no alto para dizer ele é bandido, mas é o nosso bandido. E assim esses picaretas continuam ganhando carta branca para aprontar, porque fundamentais para o projeto de poder do momento. E é isso que o Brasil ensina para seus filhos.

Não dá pra mudar tudo do dia para noite. Mas as mudanças que buscamos tem que ser de verdade. Há que meter a mão no vespeiro. Não basta boquejar contra Renan. Nem brigar para tirar Renan, e pôr outro igual no lugar. Os beneficiados por este estado das coisas vão lutar para que as coisas permaneçam como são.

Em um País em que a presidente tem 80% de aprovação da população, não precisava ser assim. Dilma tem cacife para liderar dando o exemplo. Bancou Renan lá. É a política de sempre, que está mudando o país para melhor, mantendo o que há de pior no País.

Mudar de verdade requer intransigência, radicalismo, coragem moral. Renan só é importante de uma maneira: sua eleição é um perfeito exemplo de tudo que há de errado no nosso país. Enquanto as regras não valerem para todos, a compra de votos, eleições, pareceres, benesses, fortunas, monopólios e alvarás é inevitável. Novas Santas Marias são inevitáveis.

Permitir o mal em prol de um suposto bem maior é mais que imoral: é garantia de desgraça. Os meios modificam os fins...

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