Publicado em 23/05/2013 às 11:11

Quem recebeu os maiores cachês na Virada Cultural?

dani ok Quem recebeu os maiores cachês na Virada Cultural?

Daniela Mercury também teve cachê alto

Billy Cox recebeu o maior cachê.

Quem?
O ex-baixista de Jimi Hendrix. É, nos anos 70. Levou R$ 186.000,00.
A Virada custou R$ 10 milhões. Uns 60% foram gastos com os “cachês brutos” dos artistas. Isso inclui pagamento com passagens, custos de vistos, refeição, entre outros. É pouco, pelo orçamento da cidade. Talvez tenha sido muito. Você decide. O jornal Valor Econômico publicou os cachês abaixo, obtidos no Diário Oficial da Cidade de São Paulo:

- Jorge Drexler, R$ 126.943
- Daniela Mercury e Zimbo Trio, R$ 98 mil
- Gal Costa, R$ 90 mil
- Racionais, R$ 70 mil
- Gabi Amarantos, R$ 68 mil
- Sérgio Reis e Renato Teixeira - R$ 66.000
- Kleiton & Kledir - R$ 60.000
- Raça Negra - R$ 52.000
- Criolo, R$ 50 mil
- Jorge Aragão - R$ 45.000
- Luiz Caldas - R$ 43.300
- Tulipa Ruiz - R$ 41.000
- Lobão, R$ 30 mil
- Otto - R$ 28.000
- Angela Ro Ro - R$ 25.000
- Rappin Hood, 23,6 mil
- Céu e Banda - R$ 20.000
- Lucas Santtana - R$ 17.000

E mais:

Intervenção Artística do VJ Alexis Anastasio - R$ 160.000

Stand up Comedy (vários comediantes) - R$ 158.000

UFC - R$ 74.118

Achei que você gostaria de saber. Afinal, o dinheiro é seu.

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Publicado em 23/05/2013 às 10:58

Minhas cantoras favoritas (de sempre, de hoje)

Minha cantora favorita de todos os tempos não era uma gata e não cantava como um anjo. Era gordinha, troncuda, e mais para feiosa. Mas que voz, que dicção, que sensibilidade. Que sex-appeal. E que repertório.

Ella Fitzgerald é pop, da época que pop vira e mexe tinha letras inteligentes e melodias inesquecíveis. Foi popular. Ainda é, para um ou outro adulto. Será sempre relevante, e não por nostalgia, mas porque fez o que fez melhor que qualquer outra.

Passei minhas primeiras quatro décadas ouvindo macho. E som de macho: guitarra, baixo, bateria. Com o tempo me dedico mais e mais a buscar vozes femininas. E outros sons. Como Yasmine e Charli, que descobri ontem. Atrasado, sempre atrasado. Sem problemas. Sem pressa.

 forasta 2 Minhas cantoras favoritas (de sempre, de hoje)

A música do Oriente Médio hipnotiza. Yasmine Handam, 36, é libanesa radicada em Paris. Canta lindamente. Sobre o quê? Sobre o coração, o corpo, a alma. Como ela mesmo diz nesta entrevista, "eu não quero saber do que eles estão falando. Estão me fazendo sonhar."

Yasmine, minha cantora favorita de ontem, é eletrônica e acústica, vibrante, global. Charli XCX é uma inglesinha de vinte anos - uma filha de M.I.A., uma sobrinha de Lily Allen. Charli participa do hit mais grudento do ano, das contemporâneas Icona Pop - I Don't Care.

Icona Pop ok Minhas cantoras favoritas (de sempre, de hoje)

Charli faz música pra dançar? É música para ouvir meditabunda no quarto? É alegre, triste, o quê? É rock e mais.

forasta 3 ok Minhas cantoras favoritas (de sempre, de hoje)

A carreira de Charli tem anos. O primeiro álbum saiu em abril. Vou ouvir. Sou do tempo que se ouvia álbuns. Mas a música de Charli XCX que me encantou quando ouvi, ontem, não é dela. É a primeira vez que ela apresentou sua versão de um velho hit dos... Backstreet Boys. E por isso, por hoje, Charli é minha cantora favorita.

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Publicado em 20/05/2013 às 12:38

A Virada Cultural é importante. A vida é mais

Todas as manchetes pós-Virada Cultural são sobre violência. Não são invenção. Um garoto de 19 anos morreu baleado. Outras três pessoas levaram tiros. Seis foram esfaqueados. Dezenas de roubos e por aí vai. Isso não é criação de jornalista nem armação de tucano. Isso tudo aconteceu de verdade. E mesmo assim, toda essa violência não é razão para que a Virada Cultural deixe de existir. A Virada precisa ser defendida. Mas não acriticamente. É preciso identificar o que é preciso mudar na Virada Cultural. As duas mudanças mais necessárias estão na cara.

Concentrar a cobertura no que aconteceu de ruim é mau jornalismo. Tá certo que notícia é notícia ruim, mas teve muita notícia boa na Virada. Não vou enumerar, que para isso existem as coletivas de imprensa do prefeito. Vamos cair na real: países violentos têm eventos de massa violentos. Não vamos cancelar a Copa por causa da violência entre torcedores, certo? Outro lado da moeda: comemorar que foi tudo uma beleza é mentalidade de press release. Cantar vitória absoluta por que não rolou violência durante o show dos Racionais, como em 2007? Pô, foi no meio da tarde...

 A Virada Cultural é importante. A vida é mais

Dá para escrever um tratado com tudo que há de errado com a Virada Cultural. Dá preguiça e, hoje, munição para chatos e carolas. Tem só um pecado que não perdoo: é o populismo bancado pelo sangue alheio. A Virada Cultural é violenta porque vira a noite. Depois das três da manhã, quem está de pé na rua está zoado, e o percentual de doidos e mal-intencionados aumenta automaticamente. E a Virada Cultural é violenta porque acontece principalmente em uma área violenta da cidade, o velho centro.

Minha crítica não-cultural à Virada Cultural se resume nisso. É populismo barato concentrar os eventos no centro, e sai bem caro para quem vai. Às vezes, custa a vida. O argumento é que o centro seria supostamente mais acessível, popular, democrático. Bem, se nós paulistanos vamos desembolsar dez milhões de reais para financiar acesso gratuito a uma programação cultural que habitualmente é paga, proponho darmos também acesso para o povão pisar no chão premium, sofistiquê e diferenciado da capital. Por que a Virada Cultural não acontece em lugares tradicionalmente seguros da cidade, como por exemplo... os Jardins? Itaim? Vila Olímpia? Morumbi? Os ricos da cidade gritariam de pavor, vendo seus bunkers invadidos por jovens populares multicoloridos. Mas seria bem divertido, e principalmente mais seguro.

palco A Virada Cultural é importante. A vida é mais

Não é em benefício próprio. Nunca fui nem irei à Virada Cultural. Já fui profissionalmente em muito show na vida, e meio que me aposentei, especialmente se há perigo de aglomeração. Não fui nem ver minha amada Joan Jett no Lollapalloza... Mas é claro que São Paulo deve ter uma programação cultural pública de ponta, na Virada e o ano inteiro. Só a falta de experiência internacional do brasileiro para São Paulo ser considerado um centro cultural importante. A cultura em São Paulo é pouca, cara, longe, irrelevante, em horários estrambóticos, ou alguma combinação disso tudo.

É prioritário mudar. Não se trata de frufru, lazer, mas de imperativo econômico estratégico. A maior cidade do Brasil tem obrigação de ser nossa ponta-de-lança para o Século 21, e capital da nossa economia criativa. A Virada Cultural deve ser uma de nossas melhores vitrines. Para isso, tem obrigação de ser mais ambiciosa esteticamente. Deixo já a encomenda por mais ousadia para 2014. Dos nove curadores, conheço três - Giselle Beiguelman, Pena Schmidt, Alê Youssef - e sou amigo de décadas de outro, Alex Antunes. A nenhum falta repertório. Mas o time dos nove é homogêneo demais, ainda mais considerando o contexto geral da Secretaria de Cultura, e o enfoque de Juca Ferreira em seus anos no MInistério da Cultura.

shows A Virada Cultural é importante. A vida é mais

Mais importante ainda é que a Virada seja segura. É baixa política fazer da violência nesta Virada Cultural argumento para que ela seja menor, ou desapareça. Já é um patrimônio de São Paulo, com todos os seus defeitos, como tantos outros patrimônios nossos. Mas duas mudanças simples, por parte da prefeitura, tornariam o evento melhor, mais humano e pertinente. A Virada é importante. A vida é mais. Vamos reconhecer que a cidade não é capaz de cuidar de seus cidadãos. Especialmente no centro. Especialmente de madrugada. Insistir no formato atual é garantia de morte para outros garotos de 19 anos em 2014.

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Publicado em 20/05/2013 às 06:00

Angelina Jolie, o post-mortem

Mais de 500 comentários aqui, acho que uns dois mil no Facebook... e, embora possa não parecer, uns 70% são contra, deslizando para o xingamento tosco frequentemente. O que significa que uns 30% são a favor, pelo menos do meu argumento, senão das minhas, digamos assim, ênfases.

Não escrevo para agradar, claro. Mas nesse caso tive prazer em carregar nas tintas, porque o ato de Angelina Jolie foi de uma estupidez única, e há de influenciar negativamente muitas mulheres mundo afora. E, parece, enriquecer algumas empresas... A maioria das críticas foram para o lado pessoal mesmo, alguns me desejando câncer, me acusando de machismo (?) etc. Mas enfim, valeu a pena jogar um holofote no assunto.
Minha maior alegria foi esse comentário publicado no blog pela Maria Paula, que não conheço, mas que fala com propriedade e sensibilidade sobre o câncer que enfrentou. Ela é que é corajosa, não Angelina Jolie. Como estava entre os 588 comentários, perigava passar meio desapercebido. Merece leitura. E eu não mereço tanta gente bacana me lendo...

Maria Paula Pacheco - 17/05/2013 - 00:20
Valesca,
Siga então seu próprio conselho e não escreva uma besteira sobre o que não sabe...Eu tive um câncer (carcinoma colóide) de mama diagnosticado quando tinha apenas 27 anos. Como tenho histórico familiar, sempre me cuidei, desde menina faço o auto exame e eu mesma descobri o nódulo. Diferentemente do que você disse, havia muito a ser feito e não, minha vida não foi apenas 'prolongada' um pouco. Como foi detectado em estágio inicial - graças a cuidado constante - , fiz apenas uma quadrantectomia (tira-se o quarto/quadrante da mama afetado) e radioterapia, além de tomar tamoxifeno por 2 anos - é uma quimioterapia 'leve', digamos assim. Comprimidos via oral, nada de queda de cabelo e afim.
Foi duro? Sem dúvida. Difícil mesmo. Mas perfeitamente superável. Eu sinceramente não faria o que ela fez assim, à toa, estando saudável e com todas as condições de se prevenir e tratar.
E antes que você caia no erro de achar que estou me enganando achando que me curei: estou totalmente curada - dentro dos mais rígidos padrões da medicina - há mais de 12 anos e tive uma vida plena desde então, com direito a duas gestações inclusive AMAMENTANDO duas filhas. Completarei 44 anos esse mês. Abraços.

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Publicado em 16/05/2013 às 13:38

Angelina Jolie: a heroína cretina


Jovem, Angelina Jolie se cortava com navalhas e chafurdava em drogas. Adulta, paga picaretas para anestesiá-la e cortá-la com bisturis. Estrela, em uma década se transmutou de anabólica Mulher Maravilha em Mater Dolorosa. Se arrasta esquálida por tapetes vermelhos e aeroportos, carregando a pobre humanidade, versão multicor de chupeta, embaixatriz da ONU, metade do casal mais famoso do mundo.

Decidiu realizar uma dupla mastectomia preventiva. Explicou os porquês em um artigo para o New York Times. Não existem porquês. Tirar as duas mamas saudáveis é loucura varrida. O texto rescende a sensatez. É macabro. Ela diz que revelou o segredo para inspirar outras mulheres. É irresponsável. O New York Times se rebaixa a pasquim, publicando o texto. Que, como tudo em Hollywood, parece produto de especialistas em relações públicas. E é. Mesmo que o press release seja mesmo de autoria de Jolie.

15 Angelina Jolie Angelina Jolie: a heroína cretina

 Angelina Jolie: a heroína cretina

Angelina conta que carrega mutações no gen BRCA1, que a predispõe ao câncer de mama e ovário. Explica que médicos deram 87% de chance de ter câncer de mama, e 50% de câncer no ovário, em algum momento de sua vida. Um câncer de ovário matou sua mãe, que tinha a mesma tendência genética, aos 56 anos. Para diminuir radicalmente seu risco de ter câncer, Angelina tirou os dois peitos completamente e botou implantes no local.

Entre ricos e famosos cirurgia é o arroz com feijão de cada dia. A própria Angelina já fez várias, mudou de rosto etc. Nasceu com muito a seu favor, mas ninguém nasce perfeito. Tinha narizinho achatado, cara redondinha, uma perfeita polinésia. A busca da perfeição leva à loucura. Que é a única explicação razoável para a decisão da atriz. Seu médico topou fazer? Tem médico que topa qualquer coisa. Médicos de Hollywood transformaram Michael Jackson naquele monstro...

Angelina tem 37 anos e saúde perfeita. Tem 100% de chance de morrer de alguma coisa algum dia. Todos nós carregamos este e aquele gen que nos predispõem a isso e aquilo. Hoje muitos de nós têm acesso a exames que podem detectar essas doenças em seu início, e podemos tratá-las a tempo. Seria desejável que toda a humanidade tivesse acesso a medicina preventiva gratuita. Jolie, milionária, pode pagar os melhores exames e médicos do mundo. Qual a medida racional, em casos como o seu? A maioria dos especialistas recomenda mamografia e ressonância magnética anuais, simples assim. Se o câncer der sinal, dá pra matar no ninho. Jolie decidiu pelo que havia de mais agressivo e invasivo e explosivo.

Câncer de mama é o câncer mais comum entre mulheres. Como evitar? Não há garantias, mas os maiores especialistas em câncer repetem sempre as mesmas recomendações: dieta balanceada, alguma atividade física, pouco álcool, peso adequado à altura e idade, autoexame, mamografia anual. Segundo o Instituto Nacional do Câncer, dos EUA, 98% dos cânceres de mama não têm nenhuma relação com mutação do gen BRCA-1. O exame para detectar o problema custa, lá, três mil dólares. Entre cinco e dez por cento dos casos são hereditários, conforme o grupo étnico (é mais comum entre mulheres nórdicas do que asiáticas, por exemplo). O resto é consequência da vida que a mulher leva. Uma mulher qualquer - você - tem em média 12% de chance de ter câncer de mama em algum momento da sua vida.

Repetem que Jolie tomou sua decisão baseada nos melhores dados científicos. Em seu artigo ela diz: "reconheço que existem muitos médicos holísticos maravilhosos trabalhando em alternativas à cirurgia." Faz parecer que a terapia normal é a mastectomia dupla preventiva, quando é uma aberração, e que as alternativas é que são o resto. E não existe medicina holística. É bruxaria, charlatanismo, e se Jolie reconhece sua eficácia, não tem a menor noção do que é ciência. 

Garantem que temos que respeitar e aplaudir sua coragem, leio. Não e não. O que ela fez e escreveu pode e deve ser discutido e contestado. É figura pública, a mulher mais pública do mundo, e usou sua celebridade para influenciar a opinião das mulheres mundo afora. Quantas mulheres com a mesma mutação de Jolie não se sentirão tentadas, ou pressionadas, a seguir o seu exemplo?

angelina ok Angelina Jolie: a heroína cretina

angelinathin1 Angelina Jolie: a heroína cretina

Angelina Jolie não tem que ser beatificada. Como toda santa, não existe. É uma construção de relações públicas, é uma atriz. Interpretava o papel da supermulher, Lara Croft, gata valente. Hoje posa como exemplo de mulher perfeita - excelente profissional, mãe dedicada, elegância personificada, desprendimento absoluto, casamento perfeito com o homem perfeito, Brad Pitt. Ah, e agora corajosa combatente do câncer.

O tratamento não era necessário, porque Angelina não estava doente. Sua decisão foi baseada em coisa nenhuma. Sua divulgação da maluquice é péssima influência sobre as mulheres do mundo, com câncer de mama ou não. A recepção da imprensa foi escandalosamente leniente e irresponsável. Angelina é cretina. Mais idiotas são os que a tomam por heroína.

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Publicado em 14/05/2013 às 14:48

Salve Jorge e a propaganda da prostituição

foto 1 <i>Salve Jorge</i>  e a propaganda da prostituição

Sábado à noite com a parentela, vi de cabo a rabo um capítulo de Salve Jorge. Vergonha alheia, de autores e atores e espectadores, como sempre acontece. Novela é sempre mistério pra mim. Me parecem todas monótonas e histéricas. Acontece de tudo mas nada importa. Ou nada acontece, mas em volume máximo... só a inércia e a entropia para explicar tanta audiência. O tédio seria igual assistindo Carrossel ou Dona Xepa, imagino. Mas meu único capítulo de Salve Jorge me deixou incomodado por outra razão.

Metade do tempo eram umas gostosinhas rebolando, tirando a pouca roupa, fazendo pole dance etc. Pareciam estar se divertindo, mesmo quando não estavam nos colinhos dos clientes. Riam cheias de dentes e dengo. A protagonista da novela virou prostituta por ser raptada, depois escapou, mas voltou depois pra rua pra se vingar, ajudar a capturar os traficantes de mulheres, entendi direito?

Os homens da novela não importam, pelo que deu para perceber, parecem saídos do museu de cera de Madame Tussaud. Já o elenco feminino vende todo a mesma coisa: sexo. As vilãs são mulheres bonitas, e as policiais também. Mais velhas, maquiadas demais, jóias e carão, Cláudia Raia, Giovanna Antonelli, Flávia Alessandra. Na Turquia de mentirinha, passam o tempo a bailar. Nas ruas do Rio de mentirinha, passeiam seminuas, mães e filhas. Duas gatas batiam papo em uma lanchonete, maravilhosas, imaginei que eram prostitutas também, pela pinta e peladice. Mas não eram. Só pareciam.

Não vou reclamar da escalação das moças não. Nem das não-tão-moças. Ver coxas bronzeadas ondulando ajuda muito a passar o tempo que não passa. É velho truque dos programas de auditório: programação para a esposa, mulherio para entreter o maridão.
Eu lá tentando me concentrar nas carninhas à vista quando me toquei: epa, a vida fácil não é tão fácil assim. Prostituição não é o trabalho mais duro do mundo, mas é barra-pesada. O ambiente é péssimo, tem bebida e droga pra todo lado, aproveitadores em todo canto, e a vida profissional dura menos que a de jogador de futebol. A maioria das moças é pobre e ignorante. As exceções vistosas são exceções. Esta ou aquela universitária que faz bicos e blogs, tipo Bruna Surfistinha. Ou essa garota do momento, Lola Benvenutti, nome ótimo, estudante de letras e suicide girl do interior, nenê total.

Beleza, é maior de idade, cada um faz com seu corpo o que quiser. Tráfico de mulheres é outra coisa: alguém te obrigando a transar por dinheiro, e te afanando a maior parte da grana. É comum e horrível, impenetrável por leveza ou humor. No Brasil também e por aqui ainda se vende virgindade. Foi isso que me embasbacou assistindo a novela: o tratamento light que a novela dá ao tráfico de seres humanos, e à prostituição.

foto 2 <i>Salve Jorge</i>  e a propaganda da prostituição
Parecia que ser prostituta é tipo ser balconista de shopping, mas mais emocionante, os homens a seus pés, roupas boas, música alta, jóias tilintando. Com chateações, mas que trabalho não tem? Salve Jorge é a versão Chacrinha de Pretty Woman, o filme em que Julia Roberts fazia uma garota de programa virginal, vivendo lindo caso de amor com o bilionário Richard Gere, final feliz garantido. Mas Julia pelo menos era escort por opção.

A ficção tem poder. Vi o que vi. Para a garotada que assiste a novela, tanto meninas como meninos, o impacto é necessariamente mais poderoso, porque direto nos hormônios. Novela é programa pra criança e adolescente, e programa diário. Quanto mais repetição, mais funciona a propaganda. Capítulo após capítulo promovendo o mundo alegre da prostituição, não vai ter efeito nenhum?
Vai sim. Qual, veremos. Eu talvez já tenha visto. Nos últimos dias, registrei várias moças que pareciam vestidas e maquiadas para o bordel de Salve Jorge, na rua, em ponto de ônibus, padaria e shopping. Imagino que tenham profissões mais convencionais e não estavam atrás de dinheiro. Mas que vendiam seus corpos, vendiam.

Nada de moralismo aqui. A juventude que faça o que quiser com seus orifícios e protuberâncias. Mas se as moças dão pinta de puta, serão tratadas por muitos rapazes de acordo, sendo ou não. É melhor para as meninas valorizar algo mais que suas partes. Sou todo a favor do sex-appeal (surpresa!). Mas cresci interessado por moças que  seduzem com mais do que carne à mostra, e que fazem questão de ser tratadas de igual para igual. Ser amado por uma mulher assim, não há dinheiro que pague. Mesmo que seja por só uma noite...

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Publicado em 10/05/2013 às 14:10

Por que a indústria fonográfica vai muito bem (e por que não acreditar nas notícias)

daft punk get lucky pharrell nile rodgers 600x337 Por que a indústria fonográfica vai muito bem (e por que não acreditar nas notícias)

Ninguém mais compra discos. A indústria fonográfica faliu. Todo mundo baixa música de graça. Certo? Errado. Cuidado com o que você lê. E com o que repete. Às vezes até existem fatos nas notícias. Mas quase sempre o que há por trás das notícias são intenções.

O maior mercado de música do mundo é o americano. Caiu em um terço desde seu pico, há dez anos atrás. Nesta década, diminuiu de US$ 11,8 bilhões para US$ 7,1 bilhões. Queda dramática. Mas sete bilhões de dólares estão bem longe de ser nada. Desses sete bilhões, 58% são venda em formato digital, o que obviamente não existia dez anos atrás. Mais de quatro bilhões de dólares de venda de, basicamente, nada, uns bits carregando música.

Não é exatamente ninguém comprando. Considerando que os americanos têm conexões bem melhores que as nossas, e poderiam baixar tudo na pirataria, a venda de música digital é enorme. E esses valores não incluem a receita que as gravadoras conseguem de empresas, é só a venda direta ao consumidor. Com mais desses serviços legalizados ganhando o consumidor - coisas como Rdio etc. - mais fontes de receita vão se somando.

E no Brasil? Segundo a Segundo a Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI), estamos em oitavo no ranking mundial. A receita total da venda de música foi de R$ 504 milhões em 2012 - 8,9% maior que em 2011. A venda digital foi 27% das vendas. Cresceu 81%. A venda física caiu 10%. Surpresa: o brasileiro paga por música digital. Todos? Não, mas muitos.

A história é a mesma se você for pesquisar todas as outras áreas tradicionais da cultura e da comunicação que estão sendo afetadas diretamente pelos ventos digitais. A mudança é profunda e em aceleração. Quem fingir que vivemos como no século 20 está morto. Mas quem acreditar que tudo mudou, e que os velhos gigantes corporativos estão tão extintos quanto brontossauros, está comprando gato por lebre.

Quando um segmento da economia começa a murchar, a coisa eficiente a fazer não é enfiar uma estaca em seu coração. É adiar ao máximo a decadência, e ir tirando tanto leite da pedreira quanto possível, até o final. Por isso é que o governo americano está investindo em... gravadoras independentes. Segundo o Wall Street Journal, a Administração de Comércio Internacional (ITA) investiu 300 mil dólares em 2012 em subsídios para a indústria americana de música. É pouquinho, mas suficiente para bancar viagens de donos de selos independentes à China, Coréia, Brasil.

Tem dois detalhezinhos fundamentais nessa história toda. Primeiro: os países mais espertos sabem que economia criativa é o nome do jogo no século 21. O ecossistema em volta de desenvolvimento de aplicativos para celulares e tablets Apple - o que os gringos batizaram de App Economy - já gerou mais de 200 mil empregos nos Estados Unidos. É aí, e não em fábrica de automóveis, que está o crescimento. Segundo: as versões digitais de canções, livros, filmes etc. custam praticamente zero para reproduzir. E custam um pouco menos do que as versões físicas, que têm que bancar manufatura, distribuição, varejo e tal. Donde que é perfeitamente possível vender muito menos música que há uma década, e ter uma margem de lucro muito maior. Donde que - para pegar um exemplo desta semana - as 363.000 cópias digitais vendidas na Inglaterra do novo-nostálgico single do Daft Punk, "Get Lucky", deram muito mais dinheiro à gravadora e grupo do que se fossem 363.000 compactos vendidos em lojas. A indústria fonográfica ainda faz muitíssimo sentido. E é por isso que o Daft Punk, tão moderninho, não botou a música de graça na internet.

As empresas de mídia e entretenimento têm interesses, assim como as de internet e tecnologia. E os defendem, via lobbies, marketing, e suas assessorias de imprensa. Muito jornalista cai, que dirá o leitor casual. Quem cair nesse papo vai acreditar que a indústria fonográfica, cinematográfica, editorial estão mortas. Que as empresas tradicionais de games estão mortas. Que ninguém mais verá televisão. Que a grande imprensa já era. As mudanças são cataclísmicas, mas tem muito tiranossauro que continua a devorar nacos bem grandes da nossa grana. Muitas vezes, usando justamente o ferramental digital. O discurso de "tudo acabou" é cortina de fumaça para interesses bem específicos. Quando você ler o milionésimo artigo repetindo essas balelas, lembre: não é jornalismo, é propaganda.

DAFT PUNK - Get Lucky (feat. Pharrell Williams) por perolasblogs no Videolog.tv.

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Publicado em 08/05/2013 às 11:19

Nossa noite com Ray Harryhausen (estrelando outra pessoa)

getImage4 Nossa noite com Ray Harryhausen (estrelando outra pessoa)

Era o grande homenageado da noite. Ia até ganhar uma estátua. Era Ray Harryhausen em bronze, em tamanho natural, sobre um pedestal. Foi apresentada com fanfarra. Presente de Mike Richardson, que andava riquinho. Sua editora, a Dark Horse, era a terceira maior dos EUA em quadrinhos, e seus títulos na época abafavam em Hollywood (Sin City, Hellboy, logo 300).  Mike, dois metros de altura, fez um discurso comprido entoando loas a Ray, pequenito ao seu lado. O velhinho agradeceu em poucas palavras, gentil. Parecia pouco à vontade com tanto confete.

Foi uma chance única de apertar a mão de um gênio. Ray será eternamente o grande mestre da animação stop-motion. Fazia bonequinhos articulados, que mudava sutilmente de posição mil vezes, até parecerem se mexer. Falando assim parece trivial. É incrivelmente trabalhoso, facílimo de ficar ridículo, e hipnotizante quando perfeito. As criaturas de Ray tinham poder e personalidade. São épicos encantadores: Jasão e o Velo de Ouro, Sinbad e a Princesa, Fúria de Titãs (a Medusa ainda assusta a criançada, testei no meu moleque dois anos atrás). E Ray não fez As Sete Faces do Dr. Lao! Fui checar agora e descobri que Jim Danforth assina os efeitos especiais do clássico da Sessão da Tarde. Bem, Jim foi totalmente inspirado por Ray...

Pois o mestre estava ali na nossa frente. Tínhamos a preciosa chance de agradecer a Ray por ter feito nossa infância mais mágica, assustadora, feliz. Harryhausen já estava no bico de corvo na época - morreu ontem, com 92 anos. Era agora ou nunca. Mas nós, Odair Braz Jr. e eu, desperdiçamos a oportunidade. E tivemos uma boa razão para isso.

Foi em 2006. Outro dia. Parece que foi no século 19, de tanta água que passou debaixo da ponte. Fomos a San Diego à cata de quadrinhos para publicar na Pixel, editora de que eu era sócio com a Ediouro, e onde Júnior, parceiro de outros carnavais, era editor-chefe. A Pixel foi uma ótima idéia executada da pior maneira possível - não por responsabilidade do Júnior, certamente, e espero que não totalmente por minha. História para outro dia. Ou nunca. Nunca esquecer e nunca perdoar, ditado do extremo sul da Itália, terra dos Forastieri.

Mas lembrando da parte boa, a Pixel publicou Hugo Pratt, Bryan Talbot, Steve Rude, Neil Gaiman, Alan Moore, Warren Ellis e muitos outros bacanas dos quadrinhos. É de dar orgulho em qualquer um. Uma parte dos títulos era justamente negociada com a Dark Horse, e por isso tínhamos sido convidados à festa, e estávamos felizes tomando nossos coquetéis na cobertura de um edifício em San Diego, durante a Comic Con de 2006. Júnior lembra aquela noite, em sua homenagem a Ray Harryhausen (leia o post aqui).

i135007 Nossa noite com Ray Harryhausen (estrelando outra pessoa)

Só que, por mais fãs de Harryhausen que fôssemos os dois, estávamos mais impressionados ainda com outro gênio no recinto. Cercado de sicofantas, ciceroneado por um intérprete com vocação de cão-de-guarda, circulava Kazuo Koike. Quem? KOIKE - o criador de Lobo Solitário. A melhor história de samurai de todos os tempos. O mangá que fez milhões lerem mangá. O Júnior também e eu também. Koike-san nunca visitava convenções. Tinha setenta anos, era rico, e devia só sair do Japão pra jogar golfe com os amigos. Mas estava lá, em San Diego, na nossa frente, e sua lenda fez sombra à de Ray Harryhausen.

Então uma bela hora fomos até Ray, cumprimentamos, apertamos a mão, foi bacana. Mas eu queria era falar com Koike. Cercamos, cercamos, e uma bela hora vimos a abertura e pegamos Kojima e capangas de jeito. O intérprete fez cara feia, saí falando: "Mr. Koike, somos do Brasil, queremos apenas agradecer o senhor por ter escrito nosso mangá favorito. Li Lobo Solitário em 1989, e foi sua obra que me fez gostar de mangá, e felizmente tive a chance de me tornar editor de quadrinhos, e foi minha editora que lançou no Brasil os mangás em formato original, Dragon Ball e outros, inclusive vários de samurai, Vagabond, Blade of the Immortal, e por enquanto ainda não publicamos nada do senhor, mas temos esperança que algum dia publicaremos". Ou algo assim, fanboys babões, enrolando a língua de emoção. O intérprete ia replicando tudo em japonês (espero), Kojima grunhindo ó, ú, sorria, acenava com a cabeça. Respondeu algo como que bom, muito obrigado, e nós dois lá todos bobos.

Ray Harryhausen e Kazuo Koike. Na mesma festa. Júnior, vou te contar, nossa vida é demais.

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Publicado em 07/05/2013 às 17:26

É tudo free, mas alguém está pagando

League of Legends É tudo free, mas alguém está pagando

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League of Legends, um dos mais populares jogos free to play

A mais recente edição da Game Developer Conference foi a maior dos 26 anos de sua história. O grande encontro de desenvolvedores de games do mundo cresce a cada ano - crise, que crise? Foram 23 mil participantes entupindo os corredores do Moscone Center, em San Francisco. Você não tá nem aí com games? Não importa. É no mundo dos games que se testa a tecnologia (e os modelos de negócios) que chegarão aos seres humanos normais daqui a uns anos.

O colega André Martins e eu estávamos lá, na GDC e na Game Connection, evento paralelo dedicado a networking de empresas do mundo dos games. Foi uma semana de anúncios espetaculosos e debates acalorados, muito trabalho, muita diversão. Teve a Sony dando mais detalhes sobre o Playstation 4, a Microsoft escondendo o ouro sobre o novo Xbox, a festa de lançamento do Ouya, muita choradeira sobre as dificuldades de publishers tradicionais (principalmente no Japão). Eram 350 expositores, e quem não estava expondo estava lá fuçando, conectando, procurando bons negócios e parceiros.

O assunto deste ano foi, inevitavelmente, Free To Play - jogos em que você não paga nada para jogar, ou pelo menos para começar a jogar. E a buzz word do ano foi, inevitavelmente, monetization - como ganhar dinheiro com jogos grátis?
Até os nomes mais tradicionais da indústria anunciaram seus projetos Free To Play (ou F2P, a sigla do momento). Então tome painel sobre captação de usuários, e retenção, e meios de pagamento e tal.

É uma bolha. E aí aparece um monte de investidor. Atraídos pela mágica possibilidade de multiplicar sua grana, eles financiam qualquer projeto de jogo grátis que pinte na área, pra celular, tablet e computador. Como toda bolha, tem suas utilidades e prazo de validade. Alguns jogos ficarão, a maioria morrerá. E novos modelos de negócio serão inventados, testados, descartados e aprovados rapidamente.

Veja bem, Free To Play é um modelo ótimo. Só não acho que é Free. Porque na verdade o que geralmente acontece é que uns 90% dos usuários não pagam nada, 9% pagam alguma coisinha, e 1% desembolsam uma baita grana. Pagam a conta de tudo e geram o lucro pra cadeia inteira - desenvolvedor, publisher, integrador, monetizador, mídia etc. O que significa que é justamente quem mais curte o jogo que mais paga. Justo? Justo. Mas não grátis.

Tem uma outra questão aí, que diz respeito ao conteúdo. Em jogos F2P, tudo é medido incessantemente - que itens vendem mais e menos, o que cada segmento de jogador está fazendo, o que bomba ou flopa etc. Essa inteligência vai sendo reaplicada para que o jogo vá se tornando mais e mais atrativo para o usuário. O risco é que os jogos fiquem todos iguais. Boa parte dos MMOs que vimos na GDC são clones dos clones dos clones.

E isso também significa que é muito difícil - talvez impossível - jogos free to play terem a personalidade de jogos como Journey, o grande vencedor do Game Developers Choice Award, premiação tradicional da GDC. Certo que Journey já tinha levado todos os prêmios disponíveis.. mas agora, os próprios desenvolvedores votaram. A pérola indie da ThatGameCompany, misteriosa, hipnotizante, autoral e lançada originalmente na Playstation Network, foi o grande jogo de 2012.

Quanto Journey deu de lucro? Nada por enquanto. Quer dizer, vendeu muito e rápido, mas também custou mais que o típico jogo indie. Segundo seu co-criador, Jenova Chen, a projeção é que Journey vai terminar de se pagar lá para agosto, um ano depois de seu lançamento. Só daí pra frente é dindin no bolso.

Mas graças à repercussão de Journey, Chen conseguiu captar US$ 6.5 milhões de um fundo de investimento, para os próximos projetos da ThatGameCompany. Isso é o que eu chamo de monetização...

Então, vamos combinar que Free To Play é ótimo, mas nada é melhor que você criar um jogo que as pessoas topam alegres pagar para ter. E vamos combinar que F2P é excelente pra experimentar vários jogos, e decidir com qual você quer gastar. Porque grátis é que não é.

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Publicado em 03/05/2013 às 16:33

Contra Lobão, Contra Mano Brown

lobao 1 Contra Lobão, Contra Mano Brown

Lobão falou um monte sobre Dilma para promover seu novo livro. Defendeu a ditadura militar. Atacou a Comissão da Verdade. Comparou seus dias de cana por drogas com a tortura de guerrilheiros. Isso tudo que ele disse não é de direita nem de esquerda. É propaganda para seu novo livro. Propaganda não tem posição política. É neutra como um fuzil.

Você não precisa ser conservador para criticar o governo de Dilma Rousseff. Nem todo mundo que critica seu governo é reacionário. Parece dispensável botar isso em palavras. Não é. Lobão não é conservador. É inteligente, e como outros assim, contraditório. Sempre soube fazer barulho em causa própria e se posicionar como o rebelde independente contra os gigantes da opressão. Sempre foi um franco-atirador.

Entrevistei Lobão em 1989. Explicava a ausência da bateria de escola de samba em seu show dizendo que o promotor de shows, Manoel Poladian, era racista. Botei na matéria. Poladian processou. Lá fui eu com meu bloquinho de anotações e o advogado da Folha, explicar que jornalista não cria declaração, jornalista publica. O juiz me tirou do processo. Lobão nem apareceu.

Desta vez elegeu alvos retumbantes. Dilma e o PT, a cultura que sobrevive de dinheiro público, o rap militante de Racionais MCs, Criolo e Emicida, e por aí vai.  Todos são alvos perfeitamente razoáveis. Alguns tiros de Lobão são exagerados no limite da alucinação. Alguns sim, outros não. Criticar Gilberto Gil por ter sido um ministro da Cultura que gestou em causa própria e dos amigos não é exagero, é obrigação.

Mano Brown, dos Racionais, retrucou forte. Disse que Lobão se comportou como puta para vender seu livro. E desafiou Lobão pra resolver isso na porrada. Mano Brown manja de marketing tanto quanto Lobão, uma das principais razões do impacto e permanência dos Racionais. Estava sendo Mano Brown quando chamou Lobão pro pau. É o que seus fãs esperam dele.

Existem muitas razões para criticar o governo - qualquer governo. Não são as que mais circulam por aí. Muita gente (e inclusive muita gente esperta), quando vai criticar o governo federal, meio que automaticamente desliza para clichês caretas e truculentos. E outra tanta gente (e inclusive muita gente esperta), quando vai criticar governos mais conservadores e grande imprensa, apela para cacoetes politicamente corretos, autovitimizantes, tolinhos.

Tenho implicância com governo, qualquer governo. Mas resumir toda nossa possibilidade de crítica em preto-ou-branco é pobreza mental. E ainda pior é limitar nosso arsenal de críticas só a nossos representantes eleitos, sem incluir empresas e empresários, cardeais da cultura, imprensa, ONGs etc.

Alguns tiros de Lobão talvez tenham sido no pé? As vendas do novo livro dirão. Você, minha amiga, não precisa escolher entre quem fala muita besteira e quem fala alguma besteira. Porque é pra lá de desperdício - é antiético. Não se renda à tentação de optar por Lobão ou Mano Brown. Lobão disse o que quis, e o que vai adiantar o lado de Lobão. Mano Brown disse o que quis (e só disse, não bateu em ninguém), e sempre o que vai adiantar o lado dos Racionais.

Não digo que você não deva ter posição. Mas debater quem faz o melhor marketing, defender posição sobre factóides publicitários, é jogar preciosos neurônios e minutos fora. Só existe uma posição possível sobre quem fala besteira, maior ou menor: contra.

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Publicado em 30/04/2013 às 15:10

Bangladesh é aqui, parte 2: o que fazer

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Morreram mil operários soterrados em uma fábrica em Dhaka, Bangladesh. Acontece toda hora. Muito do que é produzido no Brasil e mundo é produzido em troca em condições infames, por salários infames. Nós todos bancamos esse estado de coisas, quando compramos qualquer coisa. O que podemos fazer? Difícil responder. O jornalista George Monbiot abriu mão de ter um smartphone.

É o chato de plantão do jornal britânico Guardian. Vive procurando pêlo em ovo. Pior que acha. Encasquetou de encontrar um smartphone que não contenha injustiças em sua matéria prima. Não contenha metais que venham de minas controladas por milícias, nem tirados do solo em condições subhumanas, nem fabricado em regime de semi-escravidão. Concluiu que a Nokia é a empresa que se preocupa mais com o tema, mas não a ponto de se convencer a comprar um telefone Nokia. Quase optou pela Samsung, mas voltou atrás. Todas as grandes marcas de celular foram reprovadas.

É admirável o rigor de George (que já lhe valeu várias encrencas, inclusive uma surra da polícia do Maranhão). Seu despreendimento é, na prática, impraticável. Vamos abrir mão de smartphones, móveis, carros e cuecas? Viver pelados no mato, comendo as frutas que caem das árvores?

George sugere que apoiemos o projeto FairPhone, uma iniciativa para a fabricação de celulares sustentáveis, que não poluam e não sejam fabricados explorando ninguém. Bancar projetos assim é modinha entre os poucos que se preocupam com essas coisas, e têm grana para bancar seus ideais. Têm pouco impacto de massa, mas criam soluções e caminhos que os outros podem se sentir tentados, ou preferencialmente forçados, a imitar. Outra organização, a Friends of the Earth, lançou a campanha Make it Better, justamente para pressionar fábricas de smartphone no sentido correto.

Na Inglaterra é fácil, se não barato, comprar produtos com o selo Fair Trade, que assegura que o produto é resultado de práticas sustentáveis. Voltando a Bangladesh, uma organização bem atuante é a Labour Behind the Label, que defende a mão de obra por trás das grifes. Se envolvem diretamente na defesa dos direitos dos operários da indústria têxtil. Compram brigas feias com grandes marcas. No momento, têm campanhas envolvendo Adidas e a varejista H&M.

No Brasil, duas organizações chamam atenção na área. A mais tradicional é o Instituto Akatu. Prega o consumo consciente. A lista de apoiadores do Akatu é um quem-é-quem corporativo, empresas gigantes do Brasil e exterior. Não duvido que o Akatu faça muita coisa de útil, apesar disso. Outra é a premiada Rede Sustentável, de foco jornalístico, e bem focada na cadeia produtiva. O site é muito informativo. Prestam serviços para organizações diversas. Pesquise e decida se merecem o seu apoio.

É claro que as ONGs que metem a mão no vespeiro merecem nossas palmas e colaboração. Generosas mesadas de grandes multinacionais é que não terão. Mas o alcance das ONGs é inevitavelmente limitado pelo escopo de suas ambições. ONG que dá certo é a que escolhe uma frente pra brigar, e faz fama e diferença ali. Também é claro que muitas dão uma no cravo e outra na ferradura.

Recebem contribuições e vendem serviços para as próprias empresas que fiscalizam. Ninguém dá mais dinheiro pra projetos verdes que um grande poluidor, e nesta hora, eles precisam da consultoria estratégica. De preferência, de organizações e pessoas impolutas...
Longe das organizações, no nosso dia a dia, é difícilimo fazer qualquer diferença. Dizem que no capitalismo, o consumidor vota com a carteira. Mas sem informação sobre a origem dos produtos, nem alternativas acessíveis, inevitavelmente votaremos errado. E de qualquer forma são centavinhos, gotículas no oceano.

Monbiot acerta no varejo e erra no atacado. Escala a escada e não pula do trampolim. O desafio não é carregar culpa. É articular coletivamente a responsabilidade. Que é, em uma frase: abandonar nosso conceito de desenvolvimento e colocar coisa melhor no lugar. Não é paralisar as forças da inovação, nem negar artificialmente o consumo aos quatro quintos da humanidade que passam necessidade. É criar e bancar regras que humanizem a produção. E que valham não só pros branquinhos do Ocidente, mas para todo mundo, e para Todo O Mundo.

Missão para o exército de Brancaleone... Mas melhor o enfrentamento permanente contra inimigos de verdade, que a vitória de Pirro contra moinhos de vento. Vamos enfiar uma estaca no peito desse discurso desenvolvimentista, que nos enfiam na cabeça desde cedo. Dia e noite ouvimos: Precisamos crescer! Precisamos progredir! Precisamos de empregos! Melhor ter fábricas pagando mal do que nenhuma fábrica e todo mundo desempregado, é ou não é?

Difícil responder. A única resposta possível é mudar a pergunta - ampliar seus horizontes. Para podermos fazer outras perguntas. Por exemplo:

- as empresas não têm obrigação legal de nos informar sobre como são fabricados seus produtos. Mas têm obrigação moral - como penalizá-las por mentir ou omitir?
- aliás, os governos não devem forçar as empresas a assumirem legalmente essa obrigação por toda a cadeia produtiva?
- como pressionar os governos, e o governo brasileiro, a fazer isso?
- como dar transparência imediata à cadeia produtiva dos principais produtos que consumimos cotidianamente?

E agora, umas mais difíceis:

- se todo mundo ganhar melhor, os produtos vão encarecer? Como fazer para isso não piorar a vida das pessoas? O que fazer para, ao contrário, barateá-los?
- se houver o estabelecimento de padrões trabalhistas globais razoáveis, as empresas serão cerceadas em sua liberdade de brigar pelo lucro? Como garantir que continuem existindo empresas, e que elas continuem desenvolvendo novos e melhores produtos e serviços, mas agora tratando com justiça seus empregados e prestadores de serviços?
- as empresas precisam mesmo trazer resultados cada vez maiores para seus acionistas e investidores?
- faz sentido tratar da mesma maneira empresas de países completamente diferentes? Ou enquadrar nas mesmas regras gigantes transnacionais e empresinhas que empregam meia dúzia? Como evitar dois pesos e duas medidas?
- governos do mundo inteiro investem trilhões de dinheiro público em armas e exércitos. Outros trilhões para financiar bancos quebrados, e mais uns trilhõezinhos perdoando dívidas das empresas amigas. Como forçamos nossos governantes a utilizar esses recursos onde nos interessa?

E vamos às consequências lógicas deste questionamento todo:

- como caminharmos para os níveis necessários de governança global, para que possamos estabelecer padrões globais aceitáveis de conduta para empresas (incluindo, sim, bancos)?
- qual o papel do capital, do trabalho, da tecnologia e do poder público nesta transformação?
- aliás, nossas instituições públicas estão à altura destes desafios acima?
- se não, como deveriam ser as instituições públicas?
- e como trocar as atuais pelas que precisamos, em escala global?

E de repente vemos que consumo consciente não é um objetivo. É um passinho de uma longa jornada. Enxergamos que o abismo é mais embaixo. Abandonamos as questões concretas e digeríveis. Viajamos para o mundo dos inocentes, dos irresponsáveis. Talvez da fantasia, ou talvez da ficção-científica.

O que fazer? Perguntas difíceis. Estas e outras. Sem interrupção, sem complacência, sem vergonha. Ouça as vozes dos soterrados em Dhaka. Elas dizem: existem valores maiores que os da bolsa.

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Publicado em 27/04/2013 às 08:00

Bangladesh é aqui, Parte 1 (ou: Como lavar o sangue que está manchando a sua roupa)

A fábrica desabou e matou mil pessoas. Foi por uma boa razão: pra gente poder comprar roupa de marca famosa. Foi em Bangladesh, na cidade de Dhaka, dois dias atrás. Três mil pessoas trabalhavam em um prédio-fábrica. Ele despencou. Uns 300 morreram, uns mil escaparam ilesos, feridos à beça. Outros mil estão desaparecidos - ainda dá para ouvir vozes de gente que está soterrada.

Os operários fabricavam roupas para marcas internacionais. Primark é uma conhecida grife inglesa. Você não tem nenhuma roupa dessa marca? Não importa. Todo mundo tem roupas, tênis, produtos fabricados por pessoas como nós, que ganham salário de escravo em algum canto distante do mundo. Longe dos olhos, do coração, da consciência.

Esses produtos vêm da China, do Vietnã, da Malásia. Ou de Bangladesh, que só paga menos que Myanmar, ditadura cruenta. Bangladesh é um dos países mais pobres do mundo. Quatro milhões de pessoas trabalham na indústria têxtil, fabricando roupas para exportação, 60% para marcas européias. Uns meses atrás, outro incêndio matou 118 trabalhadores, o que levou à aprovação de uma nova regulamentação para garantir a segurança dos operários do setor. Foi apoiada por marcas como Calvin Klein, Tommy Hilfiger e outras que contratam empresas prestadoras de serviço em Bangladesh.

As palavras chave são Cadeia Produtiva. Não importa se o seu iPhone foi fabricado em uma fábrica lindinha e cheirosa - a Apple é responsável pelo que vem antes, pelas empresas que fabricam os componentes que vão no iPhone, pelas mineradoras que tiram do chão os minerais indispensáveis para a fabricação dos chips. As empresas têm que dar conta das cadeias produtivas do que vendem. Quem mais é responsável? Nós, como consumidores. É a nossa grana que gira a roda. E a imprensa, que deve investigar e denunciar. E os governos, que devem regulamentar, fiscalizar e punir.

Em Bangladesh, nada disso funcionou. A lei, já viu. O dono do prédio que caiu é um político ricaço. Trata os empregados na pressão. Eles aceitam, porque é ou isso ou a fome. Ele usa sua conexão com o governo e ignora a regulamentação. Te lembra algum outro país?
O Brasil não é Bangladesh. Mas é mais parecido que parece. Os números falam alto. Segundo a Secretaria de Assuntos Estratégicos, do governo federal, nossa população se divide assim:

Se você é de classe baixa, 28 % da população, tem renda pessoal entre R$ 42,00 e R$ 227,00;

Classe média, 54% da população, tem renda entre R$ 364,00 e R$ 804,00;

Classe alta, 18% da população, tem renda entre R$ 1503,00 e R$ 4687,00;

Temos nosso próprio Bangladesh. Muito do que é produzido no Brasil, é produzido em troca de salários infames, em condições infames. No Nordeste? É. E do Oiapoque ao Chuí, na roça, e na cidade, inclusive na sua. São Paulo, a maior e mais rica, é especialista em espremer trabalhador. O caso mais extremo e recente são as fábricas de roupa clandestinas no centro de São Paulo, cheias de imigrantes ilegais, bolivianos, peruanos, paraguaios, sem direitos, sem passaporte, sem nada.

Nós todos bancamos esse estado de coisas. No Brasil, em Bangladesh e em todo lugar. Porque queremos produtos baratos. As empresas, que têm concorrentes, acionistas e obrigação de dar o maior lucro possível, procuram os custos mais baratos possíveis. Hoje há muitas saindo da China, porque os operários chineses já ganham um pouco mais. Vão em massa para o sudeste asiático, onde ainda dá para espremer um pouco mais.

Não é roupa, é tudo. A gente vive comprando produtos que contêm um custo social doloroso. Nem ficamos sabendo. É embutido secretamente. As empresas não vão sair por aí fazendo propaganda na televisão. Imagine o comercial: esta blusinha fashion foi feita por uma adolescente que trabalha 14 horas por dia sem direitos nem segurança na Indonésia! Ou: esse café delicioso foi colhido por velhinhos famélicos na Etiópia! Ou: prepare-se para o futuro na universidade que paga uma porcaria a seus professores!

É injusto. É infame. É inaceitável que você e eu tenhamos a mínima responsabilidade que seja por gente estar sendo explorada em outro canto do mundo, ou aqui mesmo no Brasil.

O que podemos fazer de concreto?

Difícil responder. Tento amanhã.

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Publicado em 26/04/2013 às 14:35

A crítica mais violenta da história

"Estúpida, chata, incongruente, obscena, repugnante, abjeta, inóbil, revoltante, ultrajante, ofensiva, imunda, vil, escandalosa e deplorável".

Esses foram os adjetivos usados pelo jornal francês Le Figaro para descrever a peça O Conselho do Amor, de Oskar Panizza. O assunto é o primeiro surto de sifílis registrado, na Renascença. O protagonista é Alexandre VI, o papa Bórgia. Trombei com a citação em um livro sobre a história de Paris, Seven Ages of Paris, de Alistair Horne, recomendadíssimo.

Oskar era um psiquiatra e poeta alemão, antisemita e anticatólico. Dizem que a peça é herética e alucinada, nunca li. Mas era tão provocativa que Oskar amargou um ano de cadeia por causa dela, em 1895, condenado por blasfêmia. Saiu mais loucão. Aprontou muitas. Morreu em um hospício.

A montagem criticada pelo Le Figaro é de 1969. Pena. Nunca vou ao teatro, mas essa crítica é tão negativa que, para mim, funciona ao contrário.

Não dá vontade de assistir?

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Publicado em 25/04/2013 às 13:52

Storm Thorgerson: quando o rock viajou até o sol

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Ninguém levou o rock mais longe que Storm Thorgerson. Não precisou aprender a tocar guitarra. Seu impacto é em órgão mais poderoso que o tímpano.
Sua obra queima intensa na retina, ontem e sempre. Storm foi um designer, um diretor de arte. Co-fundador da maior assinatura da história das capas do rock, o estúdio Hipgnosis.

O Hipgnosis reprogramou o que o planeta entendia como rock, quando o próprio rock expandia suas fronteiras alucinadamente em todas as direções. Até o final dos 60, música tinha três minutos e refrão. Capa de disco era fotografia da banda. O Hipgnosis, fundado em 1968, fez das capas e encartes portais para outras dimensões. Conectando conceito visual e musical, e mais: recontextualizando a própria música contida no bolachão de plástico.

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Foi uma época em que o rock frequentemente tropeçou em ambições estéticas desproporcionais a suas humildes possibilidades rítmicas e melódicas. Se desconfigurou e reconfigurou até ser não-rock, ou simplesmente chato.

Muito era só música para músicos, ou piração para doidões, e muito foi merecidamente pra lata de lixo da história. Mas as conquistas da era psicodélica-progressiva-art-rock são preciosas e imortais.

Das mais marcantes, a maioria veio embalada pela Hipgnosis. E muitos outros álbuns inesquecíveis, assinados por outros designers, também carregam a influência clara da Hipgnosis. Gnosis: conhecimento profundo. Hip: ousado, moderno, experimental.

Storm, amigo de juventude do guitarrista David Gilmour, colega de Syd Barrett e Roger Waters, foi e é a nossa imagem mental do Pink Floyd. Ele fez direção de arte de todas as capas.

Só por isso já seria tão importante quanto Dave ou Syd ou Roger ou Nick Mason ou Rick Wright... Mas também criou capas de discos para Led Zeppelin, Peter Gabriel, Genesis, Alan Parsons, 10cc, e muitos mais. É o espírito experimental dos 70 em um quadrado de papelão. Viaje pela obra de Storm.

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Depois ele fez outras coisas, e outras capas. E vídeos: Owner of a Lonely Heart, do Yes, e Big Log, do Robert Plant, e outros memoráveis. Você pode ver o que ele andou aprontando recentemente, muita coisa boa, no seu site pessoal.

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Storm morreu. Sua arte morreu bem antes, com o vinil. Foi-se por causa do formato pequeno dos CDs, e das caixinhas a cada ano mais descartáveis.

Foi-se de vez com a vitória da música digital. Mas não é só uma questão de embalagem.

O próprio rock abandonou seu papel na expansão de fronteiras estéticas, existenciais e, porque não, espirituais. Hoje sobrevive de nostalgia e pragmatismo.

O rock feito no século 21 tem os dois pés plantados no chão. Quando o rock foi Dédalo e Ícaro, ninguém fez nossa imaginação voar mais alto que Storm Thorgerson.

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Publicado em 23/04/2013 às 13:35

Boston, uma semana depois: não é o fim nem o começo

Tsarnaev brothers 010 Boston, uma semana depois: não é o fim nem o começo

O ataque à maratona de Boston vai chegando ao seu epílogo. Dominou - exageradamente - as atenções do mundo, durante uma semana. Agora um dos responsáveis está morto, outro ferido e preso. Restam os detalhes dos porquês. Como nenhum porquê é suficiente para explicar tamanha maldade, o assunto vai sumindo do noticiário. Fim.

Ou não? Talvez seja o começo de algo novo e diferente. Talvez não hajam mais começos e fins. Os posfácios têm sido os momentos mais iluminadores da história. Durante uma semana, Boston rendeu entretenimento minuto a minuto, caçada aos assassinos de inocentes, a população em fuga, soldados nas ruas da metrópole - Hollywood perde. Agora chegou a hora de discutir o que o filme significa.

Foi exagero. A televisão americana exibia incríveis modelos 3D em computação gráfica dos bairros de Boston, e onde o fugitivo poderia estar. Mas talvez estivesse mais pra lá. Ou acolá. E talvez estivesse armado, e talvez não. E talvez fosse muçulmano, ou não. Na falta do que dizer, e na obrigação de continuar dizendo qualquer coisa, vieram chutes e barbeiragens veio aos borbotões. A internet reciclou tudo, e abriu as comportas para maremoto ainda maior de besteirol.

No minuto que eu soube do ataque, profetizei no Twitter: aposto dez dólares que é obra de um americano psicopata. O FBI concorda. Um diretor declarou anteontem que o ataque de Boston teve mais a ver com as ações alucinadas, como a de Columbine, do que com um ato político. Está mais para dois garotos americanos revoltados com os colegas, do que com dez milhões de garotos do mundo islâmico revoltados com a América.

Tamerlan Tsarnaev

Mas o que importa o que diz o FBI? A agência está sendo questionada de todos os lados. Por que não previu o ataque? Por que não prendeu os irmãos antes? E será que é isso mesmo que aconteceu, ou será que o FBI está acobertando outras razões para o ataque, e outros culpados?

Disse o que tinha a dizer logo no início, e depois mantive a máxima distância possível da história. O mal contamina, a burrice contagia. Se manter informado sobre o que te importa é prazer, sobre o que deve te importar é obrigação. Mergulhar na cascata de desinformação é masoquismo, catucar a feridinha pra ver se infecciona.

Hoje interneto à procura de uma compreensão maior do ataque. Chafurdo em lagoas de análise e palpitol. A história de Boston não domina mais as homepages, mas rende em dobro nas colunas de opinião e nas redes sociais, como o Aleph da lenda, infinitas histórias convergindo no mesmo buraco negro. Alguns reflexos:

- Amanda Palmer, cantora e compositora, escreveu um poema assumindo o ponto de vista do irmão que sobreviveu.  Amanda se propõe provocadora e perigosa. É o que era no início da carreira: cabaré, agora mais famosa, porque casada com o astro da fantasia e quadrinhos, Neil Gaiman. A Poem for Dzhokhar revolta os americanos, com exceções no campo ultraliberal.

Há quem peça a cabeça de Amanda, por escrever coisas como "você não sabe mais em que acreditar... você não sabe ajustar o espelho retrovisor." Ela aproveita o barulho e publica outro texto em seu blog, agora explicando como criou o poema. Queria escandalizar. Conseguiu.

David Sirotta causou logo no início do caso, escrevendo um artigo cujo título era "Espero que o assassino de Boston seja branco." Seu argumento é: se forem árabes, isso seria mais um degrau na escalada de incompreensão e violência entre muçulmanos e cristãos e judeus, e argumento para leis de imigração mais duras nos EUA. David diz: se o culpado for ítalo-americano, não bombardearemos Roma...

Sirotta deve ter imaginado que ia ouvir bastante por seu texto. Não podia esperar que ia levar dura apesar de estar certo. Assim que os culpados foram identificados, foram pintados como estrangeiros, não-americanos, não brancos. Mas nos Estados Unidos, imigrantes de origem russa, chechênia, cazaque são considerados brancos pelo governo federal. Os irmãos eram americanos, se vestiam como americanos, viviam como americanos. E eram mais que brancos que eu - eram literalmente caucasianos.

- Há quem garanta que os irmãos não têm nada a ver com o peixe. Seria tudo uma grande conspiração. Os culpados seriam outra dupla, e aliás ligados a uma empresa de segurança muito suspeita. Viagem de doidão? O autor da acusação montou uma peça bem convincente. Alguns compraram. Os vídeos têm milhões de visualizações no YouTube. Decida por você mesmo se é balela, ou suficiente para te colocar uma pulga atrás da orelha. Veja mais aqui.

Ou se preferir, em vídeo:

Boston Marathon Bombing is Staged Terror Attack por perolasblogs no Videolog.tv.

- Por um dia ou dois, a imprensa bateu na tecla dos videogames, como previsto no roteiro: "Há relatos de que Dzhokhar costumava jogar games violentos". O melhor cala-boca veio no Twitter: "é a mesma coisa que dizer que ele era um cara de 19 anos e morava no planeta Terra em 2013".

- Quando as explicações se dividem entre uma teoria conspiratória toda complicada, ou a simples incompetência e lambança, a segunda é sempre mais provável. A mídia americana ajudou a encobertar os verdadeiros culpados? Ou simplesmente enfiou os pés pelas mãos, desesperada por audiência e relevância, mais espectadores, mais cliques? Aposte no óbvio. O Huffington Post até criou um vídeo com os momentos mais constrangedores da cobertura de Boston.

- Os Tsarnaev pelo jeito eram mesmo radicais islâmicos. Muita gente politicamente correta demais diz que é injustiça caracterizá-los assim. Mas Tamerlan, o mais velho, vem sendo descrito por membros da própria comunidade muçulmana de Boston como radical e agressivo, e pela própria família como irascível e truculento. Quer apostar que tinha grande influência sobre o irmão adolescente e o levou no embrulho? Leia aqui.

Sou obrigado a discordar do FBI e da minha primeira impressão. Não é Columbine. Os irmãos não mataram só para causar o caos. Tem uma causa em algum lugar aí. Mas eles não se martirizaram, como os do 9/11, ou os homens-bomba da Intifada. É algo novo e diferente.

- O escritor Douglas Rushkoff honrou seu papel de teórico da mídia. Também viu novidade e diferença, mas de outro gênero. No calor dos acontecimentos, foi crítico, sem abrir mão de ser compassivo. Traduzo alguns destaques de sua coluna na CNN.com, com o título "Terror em Tempo Real":

"Não é uma questão de como reagir a uma crise, ameaça ou tragédia em particular, mas de como lidarmos com o próprio fluxo persistente de urgência... interruptiva ou crônica, a ansiedade continua vindo e vindo... vivemos em um Estado de Choque Presente".

"Nenhuma das narrativas usuais se aplicam. Não vivemos mais em um mundo com começos, meios e fins. Esta estrutura obsoleta foi para o lixo com a Era Industrial... Não planejamos mais nossas carreiras, não investimos mais no futuro. Nós ocupamos, frilamos, negociamos derivativos. Tudo acontece no Agora. Mesmo o Terror."

"Não enfrentaremos mais inimigos no sentido normal. Não podemos começar uma guerra ao terror e declarar vitória quando acabarmos... os desafios da sociedade pós-industrial é menos conquistar e mais administrar preocupações permanentes. O óleo está derramando, o clima está mudando, terroristas estão planejando. Crises não são solucionadas para o futuro, são gerenciadas no presente."

"Só nos libertando das narrativas antiquadas em que nos apoiamos, podemos começar a reconhecer os padrões no aparente caos. Podemos não encontrar respostas que nos mobilizem, nem finais dramáticos e satisfatórios. Mas também não precisaremos inventar histórias emocionantes e falsas para nos motivar a agir."

"Em um mundo em que as crises são constantes e perpétuas, é melhor começar a desenvolver abordagens mais sustentáveis para solucionar os problemas em tempo real, do que pensar em resolvê-los definitivamente. A vida continua."

É.

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Publicado em 18/04/2013 às 09:23

Novo vídeo de Psy é proibido pela maior TV da Coreia


O novo vídeo de PSY está bombando na internet, como previsto. Já são mais de 142 milhões de visualizações. É mais rápido do que o estouro de Gangnam Style, como previsto. Não vai ser a febre que foi Gangnam Style, como previsto. Um raio cai duas ou mais vezes no mesmo lugar, mas geralmente com poder menor e menor.

O único imprevisto é que o "Gentlemen" não está sendo exibido pelo maior canal de televisão da Coreia. Foi banido pela KBS. Assista o vídeo (de novo?) e tente descobrir o porquê.

PSY - GENTLEMAN por perolasblogs no Videolog.tv.

Descobriu o que há de tão polêmico? Quer arriscar? Será a sacanagem com as moças? Ou talvez o esforço meio constrangedor para tentar repetir o irrepetível impacto de Gangnam Style? Não. A KBS se recusa a exibir o clipe porque concluiu que Psy estimula o vandalismo. Viu essa parte?

Eu não tinha visto. É o momento em que Psy chuta um cone de plástico, esses de trânsito. O cone é propriedade pública. Para a KBS seria uma irresponsabilidade o mais tradicional e poderoso canal de TV aceitar como entretenimento um astro chutando um cone de trânsito. Influenciar negativamente a sociedade. Os chefões da emissora vetam.

Ali pertinho tem outra Coreia, a do Norte. Eles não têm Psy, mas têm armas nucleares, ou pelo menos o ditador tem. Na prática, os norte-coreanos não têm nada, a não ser algemas e viseiras e fome e ignorância. A KBS é tão extremada no seu governismo, caretice, e busca pela correção-política, que quase parece TV da Coreia do Norte, não do Sul. A cobra come o próprio rabo; os opostos se encontram.

Mas a Coreia do Sul é infinitamente mais livre que a do Norte, e mais saudável e inteligente e forte. Seus habitantes têm a melhor e mais barata internet móvel do mundo: carregam supercomputadores nos bolsos. Têm dinheiro, tem educação, não há crise econômica à vista, e têm a mais pujante cultura pop da Ásia.

Não precisam de canais de televisão, ou da KBS, ou de um ditador que lhes diga o que pensar. Se quiserem ver cem vezes por dia o novo vídeo de Psy, podem fazer isso e de graça. E podem fazer muito mais, e fazem. Os sul-coreanos têm problemas, como todos os países, mas têm mais soluções que a maioria. É por isso que as ameaças militares da Coreia do Norte são patéticas e inócuas, e por isso que o futuro da Coréia está no sul, não no norte.  O celular é mais poderoso que a bomba nuclear.

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Publicado em 17/04/2013 às 15:47

A diminuição da maioridade penal: chega de chute, chega de chorumela

menor infrator A diminuição da maioridade penal: chega de chute, chega de chorumela

Se depender da minha cidade, a maioridade penal no Brasil, que hoje é de 18 anos, será reduzida para 16. Mais: para 35% dos meus vizinhos, adolescentes entre 13 e 15 anos deveriam ser considerados pela lei como adultos. E para 9%, até meninos abaixo dos 13 anos deveriam ter esse mesmo tratamento. Não faz nem a barba, já pode pegar trinta anos de cadeia? Pois é.

A pesquisa Datafolha não dá margem a dúvidas. A maioria é mais que esmagadora. São 93% dos moradores de São Paulo que concordam com a diminuição da idade em que uma pessoa deve responder criminalmente por seus atos. Já as razões porque os paulistanos defendem esta mudança não estão claras. Segundo a mesma pesquisa, só 52% acreditam que a redução da maioridade penal já implicaria na melhoria dos índices de criminalidade. Ué, se só metade acha que punições mais duras para os mais jovens vai diminuir o crime, por que 93% defendem isso?

Pensando bem, o resultado indica uma certa desconfiança da natureza humana. Bandido é bandido, e não vai ser a possibilidade de punição mais dura que vai fazer ele deixar o crime - é o que se infere da opinião de metade dos pesquisados. Mas se os moleques têm idade para matar, também têm idade para puxar cana de adulto, certo?  Hmm, talvez sim. Talvez não. Quais os argumentos a favor e contra?

É fácil apresentar alguns argumentos contra a opinião dos meus conterrâneos. Há o argumento da experiência. Na maioria dos países decentes, 42 de 53 pesquisados, a maioridade é de 18 anos; na maioria deles o crime é minúsculo, comparado com o Brasil. Há o argumento social. Esses garotos que cometem crimes são quase sempre muito pobres, vêm de famílias fraturadas, não têm educação, supervisão ou horizontes; temos que atacar o problema do crime pelo lado social. Há o simples argumento de que menores de dezoito anos são adolescentes, e portanto não têm um pingo de juízo, e simplesmente não podem ser comparados com adultos.

É sempre possível colocar na conta da mídia. Principalmente desses programas de TV que fazem tanto sucesso nos finais da tarde, com apresentadores valentões falando grosso do conforto do estúdio, clamando por dureza no trato com a bandidagem etc. Você também pode argumentar que essas pesquisas não revelam a verdadeira opinião das pessoas, porque sempre são feitas depois de algum crime particularmente revoltante. Foi o recente caso do assassinato de Victor Hugo Deppmann. Victor foi assaltado por um menor, que levou seu celular. Não reagiu. Morreu do mesmo jeito. Tinha dezenove anos.

Você pode argumentar que é factóide, fabricação, trampolim eleitoral. Casos como o de Victor nos comovem e catalisam mudanças. De olho na eleição do ano que vem, o governador Geraldo Alckmin aproveitou o embalo para propôr lei mudando maioridade penal. Políticos só defendem o que a maioria dos leitores aplaude. Finalmente, há o argumento de que diminuir a maioridade penal não funciona. O único país rico que pune como adulto jovens de até 12 anos, os Estados Unidos, é o país rico com os piores índices de criminalidade, de longe. Vários países já fizeram várias experiências para enfrentar o crime; algumas deram certo, outras não; punir os mais jovens não funcionou. A razão é simples. Adolescentes nunca acham que serão pegos. Têm certeza que podem aprontar impunemente. Os hormônios em erupção garantem a eles: somos invencíveis, invisíveis e imortais. Ameaça de punição não assusta gente nessa faixa de idade.

Naturalmente, você pode se recusar a focar nesta questão. É fácil abrir o escopo do problema, e simplesmente argumentar que essa proposta é muito pequena. Que precisamos de leis mais inteligentes e adequadas à nossa época, e precisamos de judiciário e polícia e sistema prisional à altura de nossas necessidades. Que muitas de nossas leis são ruins, o judiciário é lento, a polícia é mal-treinada e mal-paga, as prisões são contraproducentes, a guerra às drogas deu errado em todo lugar do mundo etc. etc.

E você pode encontrar outros e melhores argumentos contra a diminuição da maioridade penal. Aguardo argumentos a favor. O ponto é que precisamos aprender a argumentar. Opinião todo mundo tem e não vale nada. Há que defendê-las, com raciocínio lógico e informações checadas, uma palavrinha após a outra. Quer mandar a molecada pra cadeia? Prove porque isso vai diminuir a violência. Chega de chutar.

E chega também de chorumela. Crescentemente vejo gente inteligente se repetindo numa cantilena histérica. Passam o dia reclamando pela internet e barzinhos bacanas: estamos isolados, cercados de caretas e facistas, aqui é só atraso, estamos de volta à ditadura, vou embora do Brasil etc. É uma simplificação burra e inútil. Minha paciência pra esse papo e essa turma zerou. Não basta ser moderno, liberal, gente-fina e meu amigo. Quer ter opinião, que argumente. Sou discípulo de Millôr Fernandes: tudo é válido, menos reclamar...

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Publicado em 16/04/2013 às 15:58

Muito além de Boston: como enfrentar o Terror

foto 1 Muito além de Boston: como enfrentar o Terror

Martin Richards, oito anos, foi explodido em pedacinhos quando assistia o pai correr a maratona de Boston. A foto mostra um menino simpático, magrinho e banguela. Sua mãe está em estado grave. Sua irmãzinha perdeu uma perna. É impensável, imperdoável.

Notícia é notícia ruim, notícia boa é propaganda. Mas notícia só é ruim mesmo quando nos atinge, ou àqueles como nós, ou àqueles com quem queremos parecer. Os EUA são o país mais poderoso do mundo. É mais notícia quando as vítimas são americanas. E mais se forem ricas, e brancas, e particularmente inocentes.

Terrorismo é ação violenta, executada por grupo organizado, contra alvos civis. Não é operação militar nem loucura de maníaco. O objetivo do terrorismo é racional. É nos atingir no irracional: aterrorizar quem está seguro. É incutir a certeza nos de que podia ter sido eu. Para cumprir sua missão, o terrorista precisa acima de tudo de divulgação. Uma bomba que explode sem espalhar pavor é uma árvore caindo na floresta. Vejo a foto de Martin e gelo: podia ser meu filho.

O ataque à maratona de Boston tem até agora três mortos e 144 feridos, dos quais 17 em estado crítico. Será investigado e punido. Será tarde, e mais quinze minutos de fama para o responsável. Que já conseguiu seu intento: nos horrorizou. Amanhã esqueceremos.

Esquecemos coisas piores. Ficam as cicatrizes para quem as carregará, e para Boston, uma das cidades com mais alto QI do planeta. Mas hoje não há outro assunto. Comentar a desgraça é uma maneira de digerí-la. É como relembrar o defunto no velório, chorando e rindo com os parentes. Morreu, coitado, antes ele do que eu, e a vida continua.

Espetacularizar a miséria alheia é business e, hoje, entretenimento para internautas. Os primeiros terroristas nasceram com a mídia de massa, na Europa do século 19 para o 20. Plantavam uma bomba no café e saíam de fininho. Os jornais vespertinos faturavam bonito pintando o anarquista como um doido com uma bomba, gerando o caos pelo caos.

No onze de setembro não existia Twitter nem Facebook nem YouTube. Celular era tosco e pra poucos. Mas havia CNN, TV ao vivo via satélite. O mundo todo era audiência cativa, paralisada pela queda das torres, o vídeo se repetindo em loop, impresso em nossas memórias.

Agora tudo repercute em todo lugar, em escala a cada dia maior. Agora é no Twitter, antes de mais nada, e na web e na TV - veja o  sangue espalhado nas calçadas de Boston! Reze pelos sobreviventes! É um ataque - é a Al Qaeda de novo? - tropas nas ruas  - Obama jura vingança! Sucesso de público para o ataque, que aconteceu justamente em em data muito simbólica: Patriots Day, a celebração do  início da luta dos americanos contra o domínio britânico. E a desgraça vira show, e nós botamos lenha na fogueira, emocionados, indagando, tomando partido.

Agora leia isso:

"Éramos trezentas pessoas em fila, aguardando a vez de comprar pão. De repente um avião passou e dois mísseis nos atingiram. Muitas pessoas ficaram feridas. Fiquei desorientada, como se meus lábios e língua estivessem queimando... fiquei completamente atordoado por três dias... finalmente, meu irmão me trouxe aqui para o hospital dos Médicos Sem Fronteiras, onde fui operado. Ainda não consigo ouvir direito. É como se houvesse um zumbido em meu ouvido. O mais incrível foi que minhas filhas escaparam com apenas alguns cortes - uma parede em pedaços protegeu-as dos estilhaços..."

O depoimento é de um sírio de 35 anos, atendido pela MSF. A população da Síria vive sob ataque terrorista permanente. O número de mortos passa de 70 mil, e mais morrem a cada dia. Um milhão já teve que fugir do país. A carnificina continua.  O responsável é ditador Assad e seus apoiadores. Bombardear civis na final da maratona ou na fila da padaria é terrorismo da mesma forma.

Damos de ombros. Cinco organizações da ONU se uniram ontem para pedir conjuntamente mais verbas para atender ao desastre humanitário na Síria. Repercussão mínima. O governo brasileiro se nega a enfrentar Assad, vergonha em um país que deve tanto aos imigrantes sírios. Os sírios, e os refugiados sírios, e criancinhas fofas como essas aí abaixo, contam fundamentalmente com um tipo de ajuda: a sua. Não está sendo suficiente.

10000 syrian refugees stuck at turkish border Muito além de Boston: como enfrentar o Terror
Muitos países enfrentam terrorismo de estado. A Síria sangra. Você jamais saberia, pelo que ganha destaque no noticiário ou nas redes sociais. Um garotinho americano vale dez mil garotinhos sírios - é o que a imprensa mundial indica, pelo tamanho do noticiário dedicado a uns e outros. E é o que os internautas do mundo e do Brasil impomos, quando ecoamos acriticamente a grande mídia global.

A imprensa tradicional continuará à cata cotidiana de histórias horríveis, sempre selecionando a abrangência da cobertura pela cor das vítimas, por sua origem, conta bancária e fama. É preciso ir além disso, no jornalismo e na nossa vida pessoal. Os cidadãos comuns têm poder e dever de repercutir e de atuar. A tecnologia facilita. Falta entendermos o mundo além da perspectiva dos países ricos, seus vieses e viseiras.

O triste fato é que as mais admiráveis nações são as que mais sangue têm nas mãos. Muitas continuam a bancar e armar os mais perigosos terroristas do mundo, ditadores como Assad e Mubarak, como fizeram com tantos na América Latina, África e Ásia. Outras lavam as mãos, como o Brasil. E há muitas maneiras de fazer o mal. A Arábia Saudita, um país em que mulher e cachorro tem basicamente os mesmos direitos, foi criada pela Inglaterra, e vem sendo mantida militarmente pelo Ocidente desde então.

Como enfrentar o terror? À luz da razão e do coração. O primeiro passo é enxergá-lo. Os pecados do governo americano não são justificativa pra bombardear maratonistas, nem culpa do garotinho de oito anos que morreu em Boston. Relativizar o sofrimento dos americanos é imoral. Contextualizá-lo no oceano de sofrimento dos mais pobres, dos indefesos, dos que nunca são notícia, dos esquecidos pela imprensa - e por nós - é fundamental.

Enfrente o Terror. Ajude a população da Síria agora: https://www.msf.org.br/doador-sem-fronteiras

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Publicado em 09/04/2013 às 16:13

Depois de Psy e Gangnam Style, a Coréia apresenta sua nova febre global: Kiyomi, a batalha da fofura

Antes de mais nada, me veja isso até o final. Aviso: Kiyomi vai dominar sua mente.

Quando se trata de ídolos pop, febres e manias, os coreanos estão se provando invencíveis. Batem todo mundo - inclusive, inacreditavelmente, os vizinhos japoneses. A Coréia têm surreais escolas que treinam os jovenzinhos para se transmutarem em popstars perfeitos. Funciona. O K-Pop domina a Ásia, que é metade do planeta, e começa a avançar para o resto. Caso de Psy, fenômeno global.

Agora é a vez de Kiyomi, ou Gwiyomi. O que é isso? É uma cançãozinha com uma coreografiazinha. Uma sequência de movimentos, cada um mais fofo que o outro. O objetivo é fazê-los sem errar, e da maneira mais fofa e querida e amassável do mundo.

Kiyomi oficialmente começou quando um dos maiores ídolos das menininhas na Coréia, Jung Il Joon, da boby band BTOB, emendou todos esses movimentos, em um programa de TV. E explodiu quando Suzy, do grupo Miss A, fez o Kiyomi. Veja se não dá vontade de amassar a moça. É mais fofa que a Hello Kitty.

Depois vieram muitos outros. Tipo todos. 100% dos astros coreanos começaram a fazer o Kiyomi. Logo apareceram as batalhas de fofice nos programas de auditório - quem faz mais fofo? Quem dá mais vontade de cobrir de beijocas?

A febre pegou. Gerou um hit, a Kiyomi Song, em fevereiro. Agora todas as meninas fazem seu vídeo da Kiyomi Song. Já pegou a Ásia toda, China, Singapura, Tailândia. O YouTube já está entupindo de vídeos de mocinhas fazendo o Kiyomi, ou com 200 pessoas fazendo ao mesmo tempo o Gwiyomi - escolha sua grafia.

É fofo como pelúcia, é viral como Psy, é sexy e puro e singelo e FOFO como... orelhinhas fofas. Que é o que Kiyomi quer dizer. E o que essa gente toda está dizendo? A letra diz: 1 + 1 = fofo, 2 + 2 = fofo, 3 + 3 = fofo...

Em breve, nas tevês brasileiras, no YouTube,  e nas redes sociais, nos pátios das escolas e atazanando nossas vidas. Com vocês, Kiyomi!

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Publicado em 08/04/2013 às 06:00

Paul Williams e Philip K. Dick: o primeiro crítico do rock, o último escritor de ficção científica, unidos para sempre

forasta1 Paul Williams e Philip K. Dick: o primeiro crítico do rock, o último escritor de ficção científica, unidos para sempre

 Paul Williams na redação da Crawdaddy, a primeira revista sobre rock

Paul Williams nos deixa cedo. Era hora. Tinha 64 anos e sofria de Alzheimer. A demência começou a se manifestar em 1995, após um acidente de bicicleta. Já não tinha consciência de nada. Dependia totalmente dos cuidados da família, e da bondade de estranhos, que pingavam contribuições para pagar as contas altas da invalidez. Vivia em uma casa de repouso. Williams inventou o jornalismo rock'n'roll quando estava na faculdade. Tinha 17 anos quando criou a revista Crawdaddy, a primeira a trazer artigos que iam além da fofoca, ou da idolatria dos fãs. Foi em 1966, outro dia mesmo. Incrível pensar que no auge dos Beatles, não tinha ninguém escrevendo sobre eles a sério.

Williams foi tão inventor do rock quanto Elvis ou quem você quiser. Antes dele, e de alguns outros de sua geração, rock era música pra curtir, dançar, namorar. Depois foi o sangue nas veias de uma geração, energia vital, impoluta, revolucionária. Isso não se faz no palco ou no estúdio, não só. É obra intelectual, engajada, contundente - jornalística. Williams não tirou a ideia do éter. Antes de ser fã de rock, já era fã de ficção científica, e fazia fanzines de FC. Trinta anos antes dele, outros garotos tinham começado a usar o ferramental do jornalismo e da crítica no trato com outro subproduto-lixo da cultura de massa, a ficção científica. Foi o primeiro fandom, o primeiro grupo organizado de fãs. Criaram os primeiros fanzines, onde discutiam viagens no tempo e civilizações galáticas, e também influências literárias e ambição estética. Nos primeiros anos 60, fatia importante dessa primeira geração de fãs se convertera na elite de grandes mestres da FC, autores e editores - Isaac Asimov e Ray Bradbury entre eles.

forasta2 Paul Williams e Philip K. Dick: o primeiro crítico do rock, o último escritor de ficção científica, unidos para sempre

A Crawdaddy era uma revistinha mimeografada. Williams a vendeu dois anos depois para ser só um escritor e maluco profissional. A esta altura já lançara nomes com Jon Landau, Richard Metzger, Peter Guralnick e Sandy Pearlman - googla aí que compensa. Um garoto chamado Jann Wenner se inspirou na Crawdaddy. Pediu conselhos a Williams para fundar sua própria revista, a Rolling Stone, que levou a fama de revista fundadora da crítica de rock. Wenner é melhor empresário. Williams foi pioneiro e lançador, e também escreveu muito bem sobre rock, e nunca sobre música, mas sobre o seu sentido, alcance, poder, significado. Reportou com inteligência e afeto a transmutação do rock em algo mais, quando Beatles e Beach Boys buscaram a transcendência, e Bob Dylan e Neil Young e outros forçaram o rock pra fora da adolescência. Bateu palmas na gravação de Give Peace a Chance, e chegou a Woodstock no helicóptero do Grateful Dead - quer mais?

forasta3 Paul Williams e Philip K. Dick: o primeiro crítico do rock, o último escritor de ficção científica, unidos para sempre

Philip K. Dick e Paul Williams, com o filho de Phil no colo

E por isso tudo, e pela influência em muitos outros jornalistas e críticos que vieram depois, ele teria tranquilo seu lugar na história. Mas ele nunca abandonou seu amor pela ficção científica, que se transmutou em relacionamento único com Philip K. Dick. Faz todo sentido. Dick foi o último escritor de ficção científica. Depois dele, o futuro chegou atropelando. Os autores importantes da geração seguinte não são visionários, são cronistas - William Gibson, Bruce Sterling, Neal Stephenson... e os novíssimos, mais ainda. Williams apresentou Dick às massas roqueiras, em uma reportagem de 1975 da Rolling Stone. Tornaram-se amigos. Com a morte de Dick, Williams capitaneou por dez anos a Philip K. Dick Society, e foi um de seus primeiros biógrafos, e responsável legal por seu legado literário. Garantiu a publicação de muito material inédito do escritor. Foi fundamental para tornar Dick mais visível e relevante para a nova geração, e mesmo a nova crítica.

Dick intuiu como ninguém o poço que se cavava entre os com e os sem. Previu que o abismo não era delimitado só por posses, mas pela possibilidade de integração com a máquina, e pela própria percepção da realidade. Sabia que nesse caminho nos aguardava a nova normalidade, que é onde vivemos hoje. Dick era filho dos anos 50, mas foi na contracultura do rock e das drogas que se tornou PKD, a lenda, e base para tantos filmes-chave das últimas décadas - Blade Runner, Total Recall, Minority Report... Natural que Williams tenha sido seu grande campeão. Nunca achou que rock era sobre solos de guitarra, ou ficção científica sobre lasers e robôs. Apropriado e insano que Williams termine a vida perdido em um labirinto de sua própria criação. Mas não isolado - a mulher de Paul, Cindy Lee, conta a história no seu blog, terno e lancinante. Leia as despedidas de Brian Williams, Lenny Kaye e outros luminares. Veja antigas e novas fotos de Paul. Saiba que ele morreu cercado por suas famílias. Sinta o coração apertar, e derreter. Veja aqui.

Paul foi o primeiro crítico de rock, Phil o último escritor de ficção científica. Depois as duas funções se tornaram obsoletas, porque o espírito revolucionário do rock deixou a música e entrou na tecnologia. Sem Williams, o rock não teria se tornado o que se tornou, ou pelo menos não naquele momento e daquele jeito, e o mundo não teria conhecido Philip K. Dick, ou pelo menos sua obra não teria sido influente como foi. E portanto o mundo não seria como é, e eu não seria como sou, e não pensaria o que penso e não faria o que faço. Obrigado, amigos. Vai com VALIS, Paul.

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