Você vai assistir Tron - O Legado. É a superprodução 3D Disney para toda a família desta temporada. Você vai assistir no cinema, e se não, em DVD, ou na TV. Mesmo que você decida resolutamente jamais assistir o filme, não escapará dos bonecos, lancheiras, camisetas, brinquedos diversos, da trilha sonora ou, claro, dos videogames.

Ainda que só assista filmes de arte, ou tenha chegado na tal melhor idade, vai dar algo de Tron para o sobrinho ou neto. Se não este ano, em anos vindouros vem aí a série de TV no Disney XD, e quem sabe continuações, a depender da receita total do investimento, merchandising incluso.

É bom? É ruim? Artefatos pop desta magnitude estão acima destas considerações. Requerem compreensão, não palmas ou rejeição; e muito menos nariz empinado. Dar nota para Tron - O Legado? É similar a discutir a validade artística de Crepúsculo, da Copa do Mundo ou da minissaia.

Tentar prever a bilheteria? Problema da produtora. Se adultos vão gostar tanto quanto crianças ou teens? Julguem juntos, pais e filhos. Julguei que Alice 3D era sombrio demais para a molecada - que sei eu?

Tron verga, sim, sob o peso combinado de suas ambições estéticas e suas responsabilidades de megafaturamento. Era muito difícil escapar desta sina. Adianta pontuar que:

- o filme original de 1982 foi um fracasso histórico, e ninguém aguardava ansiosamente por uma sequência?

- a fidelidade ao influente design do original empresta ao novo filme penetrante perfume de Século 20?

- o ator escolhido para protagonista tem o charme de um poste?

- como 99% das superproduções de Hollywood, o terceiro ato, sempre definido após pesquisas de opinião com espectadores “médios” desaponta?

- talvez não tenha sido uma aposta muito segura colocar na direção de um filme deste tamanho um cara que jamais dirigiu um longa metragem, e cujos únicos créditos significativos são comerciais para os videogames Halo e Gears of War?

Pontos válidos, e há outros. Prefiro colocar Tron - O Legado como parada final de uma linha direta que liga Matrix, o gibi The Invisibles, a revista Wired, O Exterminador do Futuro, a literatura cyberpunk, a revista Heavy Metal e o Tron original.

Por que é o fim? Porque, na semana do escândalo Wikileaks e do estouro da primeira info-guerra, está mais que evidente que o futuro chegou. Eu tinha esquecido que vivo no futuro - no futuro do cara que assistiu o Tron original em 1982, no Cine Rívoli, Piracicaba.

tron O legado de Tron

Eu tinha 17 anos e estava no terceiro colegial. Não me impressionou muito; bons efeitos, história mais ou menos, o que pode-se falar da sequência. Considere que no mesmo ano eu tinha visto Blade Runner, Jornada nas Estrelas: A Ira de Khan e O Império Contra-Ataca.

Considere também que em 1982 não existia web, fax, videogame, TV paga, PC, telefone celular; videocassete era artigo de luxo, e você tinha que escolher entre VHS e Betamax; nos EUA mandava Reagan, na Inglaterra Margareth Thatcher, na União Soviética Leonid Brejnev, aqui João Figueiredo, ditador militar.

28 anos me separam de Tron, que nunca mais vi. Vi Tron - O Legado hoje de manhã. Falta uma semana para a estreia, tempo mais que necessário para eu montar o quebra-cabeça. Volto a Tron, porque o embate do mundo virtual com o real não me deixa em paz; mas filmes que prometem satisfação imediata exigem reflexão imediata, ainda que superficial, e para isso aqui estou.

Encontro marcado

Nesta quinta-feira (9), às oito da noite, participo do programa NBlogs, na Record News. Reprise sexta, oito e meia da matina.

Não faço ideia por que alguém se interessaria pelos meus pitacos, muito menos ao vivo, muito menos na televisão.

Mas me convidaram para estar lá todas as quintas, e não manjo nada de TV, então fiquei curioso e decidi fazer uma experiência lá.

Se puder, assista. Críticas são bem-vindas.

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abc literatura ok Como escrever uma crítica ou resenhaSe você é jornalista e tem interesse em desenvolver suas habilidades como crítico ou resenhista - ou mesmo se ambiciona compreender melhor produtos culturais de qualquer tipo - o melhor livro que eu conheço é o ABC da Literatura, de Ezra Pound.

Em português tem, mas acabou - está esgotado nas grandes livrarias. Sobra sebo ou a iniciativa futura de algum editor esperto; vai ver tem na internet e não encontrei. No inglês original é mais divertido, ABC of Reading, e tem de graça na internet. Uma breve apresentação, aqui

Mesmo que você não seja jornalista, nem esteja estudando jornalismo, provavelmente é um autor publicado. Você tem blog? Escreve no Facebook?

No Twitter? Comenta em blogs por aí? Faz trabalho para a faculdade?

Apresentação no trabalho? Então escreves. Então pode ser útil ler isso aqui até o final.

Ezra Pound, entre outras coisas, resumiu que o objetivo de uma crítica é responder duas questões:

a) a obra criticada tem objetivo de alguma validade - moral, estética, educativa, de entretenimento etc.?

b) estes objetivos (ou objetivo) foram alcançados em que medida? 

Este método (absurdamente simplificado aqui) permite que você exerça crítica de alto nível, seja tratando do Luan Santana ou de Stravinsky, de Woody Allen ou da novela das sete. De arquitetura e de videogames também.

Ezra Pound também defende em seu ABC que a crítica seja “científica” - utilize o método científico ao máximo possível, isolando inicialmente a obra de seu contexto; e a comparando a iguais e contrastando com diferentes.

Porque em última instância não podemos parar no item b). Se a obra tem um objetivo válido, e se alcançou seu objetivo em boa medida, mas este resultado já foi alcançado mil vezes por outras obras, este fator deve ser considerado pelo crítico. 

Outro ponto fundamental do ABC é a divisão que Pound faz entre seis tipos de criadores. Eles são:

a) inventores - os que criam uma forma radicalmente nova

b) mestres - os que levam esta forma ao seu ápice

c) diluidores - os que diluem esta forma, a enfraquecem, a resumem em seus pontos mais óbvios (frequentemente são os que atingem maior sucesso comercial)

d) bons escritores sem nenhuma qualidade especial

e) beletristas - criadores que são prisioneiros da forma

f) os lançadores de modas, que farão grande estrondo e logo passarão, retornando as coisas ao que eram anteriormente.

Ele falava de literatura, mas você pode aplicar este modelo com sucesso na música, na moda, no teatro, artes plásticas, artes gráficas, games etc.

E frequentemente alguns criadores passeiam por diversos destes papéis durante sua carreira - ou mesmo simultaneamente.

Exercício divertido e/ou útil: em que categoria se enquadram seus artistas favoritos?

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Mito fundador do mundo moderno: a tecnologia nos libertará. Do trabalho, da distância, do tédio, da doença, da feiura e da morte. Esta crença vende carro, pasta de dente, botox, seguro de vida, passagem de avião, curso em faculdade. Vende candidatos. Vende carreiras. Vende estilos de vida. Vende o invendável - por exemplo, um iPad, que custa US$ 700 nos Estados Unidos, chegou esta semana ao Brasil por R$ 2.599.

Não vai sobrar um. Por quê? Porque o iPad encarna a fé no poder da tecnologia perfeitamente - melhor que qualquer outro artefato, neste 2010 que chega ao fim.

Nos anos 90, o culto à tecnologia ganhou uma heresia. Foi na Califórnia, uma Califórnia em depressão econômica, sem perspectivas, sem dinheiro, sem apoio governamental.

As indústrias de armas - “defense industry”, indústria da defesa, há! - foram à lona com o final da Guerra Fria.

Um monte de engenheiros dava sopa a custo baixo. Assistiu a Um Dia de Fúria? Michael Douglas, o nerd crânio desempregado que sai atirando por Los Angeles? É de 1993 e captura bem o espírito da época.

fallingdown Para entender o Wikileaks, parte 1: 1993

A heresia era: “a tecnologia que nos libertará será criada e dominada por nós mesmos”. Sua bíblia era publicada em capítulos, periodicamente: a revista Wired, lançada em março de 1993, por aí até hoje (li a número três e pedi demissão em agosto seguinte).

No altar tinha uma coisa amorfa, até então quase inútil, com nome de batismo cheirando a ficção científica classe B: internet. “Information Wants To Be Free”, diziam, e acreditamos. Uns menos - só querem ouvir música de graça, baixar filme de graça e tal - outros mais - Julian Assange, preso faz alguns minutos. Julian interessa como ponto focal, como mártir, como personagem pop. Julian fica para amanhã.

A internet floresceu nos Estados Unidos usando a infraestrutura desenvolvida pelo governo americano para a guerra. A internet era uma rede de comunicação interna do complexo militar-acadêmico, projetada para sobreviver a um ataque nuclear soviético. Quando a União Soviética implodiu, a internet progressivamente foi caindo nas mãos de um grupo de:

a) veteranos da contracultura que se redescobriam como homens de negócio; b) engenheiros e técnicos desempregados; c) big business do eixo mídia-entretenimento-telecomunicações-informática procurando pela próxima grande mina de ouro.

A internet se metamorfoseou. Foi virando uma coisa cada vez mais parecida com o mundo real. De um lado, shoppings arrumadinhos. Do outro, o caos. No meio, tudo. O escritor e futurista Bruce Sterling, esses dias no Brasil, usou uma imagem perfeita para ilustrar como se desenvolveu o Facebook: “é como uma favela brasileira”.

Sterling é um dos luminares da ficção cyberpunk e era colaborador da comunidade WELL, de onde veio a turma inicial da Wired. Teve coluna na revista durante anos. Sabe do que fala.

Sterling, como William Gibson, e depois Neal Stephenson, mapearam ficcionalmente o que viria. Jornalisticamente também: escreveram muito para a Wired e outros lugares sobre o interligado mundo novo.

A Wired virou o elo entre os libertários individualistas do Vale do Silício, os hippies-yuppies de San Francisco e os cowboys de cocaína de Hollywood, mega centro do entretenimento ianque-global. A Wired fez tecnologia parecer sexy e fez parecer que qualquer um podia pegar o trem-bala andando.

E depois apareceu uma coisa chamada Web. E depois apareceu um gibi chamado The Invisibles. E depois apareceu um filme chamado Matrix. Eu podia ficar escrevendo até amanhã sobre este assunto. E acho que é o que vou fazer mesmo. Até eu mesmo entender exatamente qual é a importância - política, cultural, profunda - do que está acontecendo com o Wikileaks.

O gancho é: existe uma organização jornalística sem fins lucrativos chamada Wikileaks. Ela se dedica a publicar documentos que o poder quer manter secretos. “O Poder”, no caso, são grandes governos, grandes empresas, grandes instituições públicas ou intergovernamentais. “O Poder” é ocupado e mantido por gente que apronta. “Leaks” quer dizer “vazamentos”, porque estes documentos foram sempre “vazados” por alguém.

“Wiki” é um termo genérico para atividades colaborativas realizadas na internet, de onde vem a famosa Wikipedia. Todos os documentos são verificados pela equipe antes de serem publicados. Nunca se provou que um documento publicado pelo Wikileaks seja falso.

O Wikileaks funciona à base de doações. Começou em dezembro de 2006. Tem um comitê que o fundou e dirige, onde está um brasileiro, Francisco Whitaker. Tento falar com ele desde quinta-feira. Me respondeu ontem. Não tem nada a comentar neste momento. Compreensível.

O Wikileaks tem cinco funcionários full-time e mais de oitocentos voluntários. Não tem sede. Não está em um servidor só. É incensurável, porque seu endereço é o ciberespaço. Sempre trabalha junto com órgãos de imprensa para divulgar as informações - o mais conhecido é o inglês e respeitadíssimo Guardian, possivelmente o melhor jornal do mundo.

Era, até uma semana atrás, coisa para iniciados, gente que se interessa por política e novas mídias. O Wikileaks já ganhou prêmios da Economist, da Anistia Internacional, e por aí vai. Não é brincadeira de irresponsáveis.

Mas o Wikileaks iniciou a publicação de mais de 250 mil documentos secretos do governo americano. Governos do mundo caíram de costas, e de pau. Obama proibiu funcionários públicos de lerem. A Amazon impediu o Wikileads de usar seus servidores, o Paypal de usar seu sistema de doações. Políticos americanos às raias da histeria pediram prisão de todos os integrantes do Wikileads.

Julian Para entender o Wikileaks, parte 1: 1993
A face pública do Wikileads é um australiano, Julian Assange. É bocudo. Estava sendo procurado por estupro - de duas voluntárias do Wikileads na Suécia. Ele diz que o sexo foi consensual. Assange foi declarado inimigo público número 2 dos Estados Unidos, atrás apenas de Osama Bin Laden.

Nos últimos dias, a imprensa de todo mundo reporta minuto a minuto novos documentos publicados pelo Wikileaks. Os documentos comprometem os Estados Unidos. O militar que ajudou o Wikileaks a conseguir estes documentos está preso sob segurança máxima e incomunicável.

Assange se entregou à polícia londrina às nove e meia da manhã nesta terça-feira, por conta do mandado da justiça da Suécia, pelas acusações de estupro. Seu advogado já afirmou que vai contestar o pedido de extradição da Suécia.

A batalha legal começa. “The first info-war has begun”, twittou estes dias John Perry Barlow, uma das luzes libertárias que guiaram o caminho da internet até aqui. A guerra da informação começou - e quem não escolher lado será tragado pelos acontecimentos. Muitos decidiram que o Wikileaks não enfrentará os poderosos sozinho.

Desde que começaram os ataques contra a organização, mais de 500 sites-espelho publicam simultaneamente os documentos americanos. Não é possível mais impedir que a publicação continue.

A batalha moral está vencida. Se Assange é culpado de estupro, que pague. O Wikileaks não é Assange e não é de Assange. Como a Wikipedia e a internet, é de todos nós. O único crime do Wikileaks - e É CRIME - é nos permitir crer que, sim, a tecnologia nos libertará. A nossa tecnologia, não a deles. Assunto para amanhã.

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forasta 1 O gibi que todo brasileirinho deveria ler

Os quadrinhos finalmente entraram nas listas de compras para bibliotecas, escolas, governos. Muitos são especialmente publicados com este objetivo. Bato palmas. Um probleminha: a maioria do que governos e escolas compram são livros de criadores brasileiros. Compreendo que é bom apoiar o criador nacional e tal, mas é caipirice. Não precisa publicar qualquer porcaria gringa aqui só porque é mais barato.

Mas alguns títulos estrangeiros são obrigatórios e não têm equivalente nacional. Sou todo pelo apoio ao Brasil brasileiro, mas se não tem aqui, não tem. Tipo iPad - porque o imposto é tão alto, visto que nenhuma empresa produz concorrente made in Brazil? E videogames? Divagou ele.

Se eu fosse o ministro da Educação, dava de presente para cada brasileirinho aos 12 anos a coleção completa de The Cartoon History of the Universe / The Cartoon Guide do the Modern World, e mais o voluminho de The Cartoon Guide to Sex. Traduzido para o portuga, naturalmente. Os dois primeiros volumes foram lançados no Brasil pela Editora Jaboticaba em 2004, mas estão indisponíveis - talvez você ache em algum sebo. Recomendo em inglês.

Ninguém consegue unir física, biologia, história, geografia, literatura, antropologia e o escambau científico como Larry Gonick. Imagine fazer tudo isso com humor agudo e sensibilidade moderna - e em quadrinhos. Imagine começar no Big Bang e terminar nos nossos dias, 2008.

forasta 2 O gibi que todo brasileirinho deveria ler

Gonick conseguiu. Levou trinta anos. Os três volumes do The Cartoon History of the Universe são educativos e apaixonantes. Os dois volumes do The Cartoon Guide do The Modern World fazem a ponte do que é “histórico” para nossa década.

Quando você começa a ler, não consegue largar; quando termina, quer voltar a determinados trechos, porque a densidade de informação é altíssima, e a releitura divertida. A bibliografia de obras que Gonick usa para referência, no final de cada volume, renderá anos de leituras valiosas aos interessados.

Gonick levou décadas para fazer essa série, mas fez muito mais. Em paralelo, criou guias em quadrinhos de assuntos como física, estatística, meio ambiente. Fez uma tira para a revista Science. Produziu muito, sempre na mesma pegada.

Dê uma passeada pelo site dele (clique aqui) e você vai perceber o tanto que Gonick realizou. A explicação, ele mesmo dá: é um cartunista com excesso de educação. Começou se formando em matemática em Harvard, em 1967, que tal?

Quanto ao guia sobre sexo, bem, li este final de semana e aprendi várias coisas. Considerando que tenho 45 anos... Dei boas risadas, também. Gonick não se leva a sério, mas leva a seríssimo sua missão: “desde 1972, crio quadrinhos que explicam história, ciência e outros assuntos sérios. Por que pegar tão pesado?

Porque decidi que minha missão é levar às pessoas a informação que elas precisam para tomarem decisões sábias sobre o futuro da comunidade humana. Hei, estou só tentando salvar o mundo!”

Faz muito mais para isso do que a maioria de nós. E faz uns gibis sensacionais, também.

LarryGonick O gibi que todo brasileirinho deveria ler

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Década de trinta, perto do círculo polar ártico. O menino é filho de pais imigrantes. Ela era galesa, ele norueguês, dois irmãos. Ela do lar, ele policial. Tratava a família no tapa. A chegada da Segunda Guerra foi uma libertação: com dezessete anos, o garoto fugiu de casa e se alistou na força aérea. Treinou para a artilharia, mas nunca chegou a lutar - a guerra terminou antes. Imagina se Leslie Nielsen morre adolescente em alguma batalha idiota! O mundo seria muito menos divertido.

Leslie Leslie Nielsen: sempre há uma segunda chance
Leslie Nielsen era um comediante sem igual e sem mistério. Seu truque consistia em tratar as situações mais absurdas com a maior seriedade; emitir as maiores bobagens, com o tom de voz mais respeitável; nunca “fazer graça”; nunca piscar para a audiência.

Parece absurdo que Nielsen só tenha se tornado um comediante quase no final de uma carreira sem brilho, de centenas de pontas em seriados, nenhum papel marcante na TV. Ele nunca foi grande ator, na verdade.

Honestidade? Estava mais para canastrão. Virou ator meio por acaso - um tio seu era ator de algum sucesso, e parecia ter uma vida interessante. O único sucesso de Nielsen como protagonista foi em uma ficção científica de 1956, Planeta Proibido, em que o personagem mais marcante era... um robô, Robby.

Mas Nielsen precisou esperar os anos 60 e 70 acontecerem para se tornar um astro. Só depois da contracultura seria possível a formação de um time como David Zucker, Jim Abrams e Jerry Zucker, ou ZAZ. Eram três doidos, e doidos por cinema, e por cultura pop, e pelo lixo cultural mais patético. Eram debochados, ácidos, impertinentes e engraçadíssimos.

Leslie 2 Leslie Nielsen: sempre há uma segunda chance

Emplacaram um sucesso cult, feito sem nenhum dinheiro (US$ 35 mil) e com um diretor estreante, John Landis. The Kentucky Fried Movie é, ainda hoje, uma das coisas mais engraçadas que você pode assistir. O filme gozava subgêneros do cinema, besteiras de TV, comerciais, gatas na cadeia, kung fu. O fenômeno garantiu para o trio um contrato em Hollywood e um orçamento de gente. Próximo passo: Apertem os Cintos, O Piloto Sumiu.

Vários astros de filme B posavam de sérios no meio da mais absoluta anarquia - Robert Stack, Robert Graves. Ninguém fez melhor que Leslie Nielsen. É o médico do avião que está para cair.

Leslie 3 Leslie Nielsen: sempre há uma segunda chance
O filme é de molhar as calças. Vi infinitas vezes. Vejo hoje de novo se trombar na TV. Idem Police Squad, o seriado em que Nielsen, pela primeira vez, interpretou o tira Frank Drebin. Idem os três filmes de Corra que a Polícia Vem aí. O time ZAZ nunca se superou - embora tenha tentado bastante, com Top Gang, Todo Mundo em Pânico e muitos outros. A homenagem de David Zucker a Leslie está aqui.

A persona marcou Leslie. Nos últimos trinta anos de sua vida, ele se tornou mais famoso e bem-sucedido que nunca. Sempre repetindo o mesmo papel, sempre engraçado, em filmes cada vez piores, quase sempre paródias de produções de sucesso. Virou - absurdo! - uma estrela, admirado e amado. Depois de décadas sendo apenas mais um, Leslie Nielsen se tornou único.

Não há segundos atos nas vidas dos americanos, reza o mandamento de F. Scott Fitzgerald. Fácil imaginar Leslie Nielsen retrucando sério, com aquela voz grave e olhar compenetrado: “sou canadense”.

Leslie 4 Leslie Nielsen: sempre há uma segunda chance

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Eu não entendo nada de televisão. Não sei prever o que fará sucesso ou não. Não entendo por que o que faz sucesso faz. Não vejo jornal, futebol, programa de auditório. Ignoro o seriado cult da hora. Não rio do Casseta & Planeta. Não choro com a novela do momento.

Razão? Tempo. Faço muita coisa. Vejo no máximo de meia a uma hora de televisão por dia, antes de dormir (sem contar desenho com filho, que não vale). Acabo naqueles programas de culinária, no Discovery, na VH1, em nada que me faça prestar atenção.

Quinze minutos de Man X Food: um peão lá tentando deglutir um hambúrguer com quatro pimentas letais, suando como um leitão na grelha. Bom soninho.
Preconceito zero, atenção. Já vi TV para dez vidas. Morei sozinho anos.

A televisão ficava ligada dia e noite. Tomava café, almoçava e jantava na frente da TV. Assistia religiosamente Clube dos Esportistas, imagine, eu que não sei se bola é quadrada ou redonda - como chamava a anãzinha garçonete? Assistia religiosamente Jornal da Globo - tinha uma queda pelo estilinho dominatriz de Lilian Witte Fibe.

Assistia religiosamente seriados. Assistia religiosamente qualquer coisa. Mesmo antes de existir TV a cabo. Quanto fechei a programação do dia, quanto ouvi o hino nacional - momento do horror.

Desnecessário dizer que não vi um segundo de A Fazenda. Impossível escapar do mundo dos peões, mesmo assim. Trombo com eles aqui no R7, em outros portais, em comentários de amigos.

Hoje: Mulher Melancia na berlinda. É mesmo? Fui conferir aqui no R7 quem sobrou dos concorrentes iniciais. Surpresa total. Os mais famosos, todos, dançaram. Quem diria que o público ia dispensar Monique Evans, Sergio Mallandro, Geisy etc. para colocar perto do big prêmio ilustres desconhecidos?

 fazenda Não entendo de TV, mas entendi <i>A Fazenda</i>

Eu não entendo de televisão, mas acho que essa eu entendi. A Fazenda é um reality show. Espera-se um tico de realidade. Se uma celebridade ganha, está desfeita a ilusão. E é injustiça. Famoso já é famoso, e quem sabe rico, ou pelo menos mais rico que a média. O eleitor não vota pelo famoso na Fazenda, como não elege celebridade para cargos públicos.

Mallandro dançou pela mesma razão que os meninos lá do KLB não se elegeram deputados. As exceções confirmam a regra; e Tiririca não vale, porque é coisa totalmente diferente.

Quando vejo televisão hoje, fico besta como algumas coisas mudaram tanto e tantas não mudaram nada. Tomava uma com um amigo esses dias e tinha duas TVs ligadas. Em uma, Fernanda Montenegro fazia Fernanda Montenegro, em um diálogo mexicano com Reynaldo Gianecchini, que faz Francisco Cuoco (que trabalha na mesma novela!) parecer Sir John Gielgud.

No outro televisor, Galvão Bueno, com Parreira e outros esportivos que não identifiquei, recebia Daniela Mercury, simpática e deliciosa como sempre. Som desligado nas duas. É 1970, 80 ou 2010? Mais uma cerveja, por favor.

Preciso ver mais televisão. Afinal, ando fazendo umas participações no programa NBlogs, da Record News. Esta quinta estou lá. Fazendo o quê?

Batendo papo com Fabiana Panachão, ajudando a entrevistar uns convidados. Conheci gente fina lá - o fotógrafo Araquém Alcântara, a turma que fez o filme de skate Vida Sobre Rodas, arquitetos e tal.

Faço mal ou faço bem? Não sei, você me conta. Não me vi ainda. É ao vivo, às oito, reprise sexta, às oito e meia da manhã. E eu vou lá tirar meu filho da frente do desenho pra me assistir?

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Complexo do Alemão Dez coisas que você talvez não saiba sobre o Complexo do Alemão


O Complexo do Alemão é a favela mais pobre do Rio, empatada com a da Rocinha. 

Tem mais de cem mil habitantes.

Tem a mais baixa taxa de escolaridade da cidade.

Na média, os moradores do Alemão têm 5,36 anos de estudo. Médio no Rio: 8,29 anos.  

Idade média no Alemão: 27 anos. 92% das crianças de zero a três anos no Alemão nunca frequentaram uma creche.

81,9% da renda no Alemão vem do trabalho de seus moradores.

O percentual elevado indica ausência de políticas públicas de transferência de renda, como o Bolsa Família.

Taxa de desemprego no Alemão: 19,5%.   

A renda per capita mensal no Alemão é de R$ 176,90; a média da cidade do Rio é R$ 615.

O Alemão tem 30% de miseráveis, com renda per capita abaixo de R$ 145.

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forasta 1  A vida como ela é, em quadrinhosCicatrizes é um animal estranho. É um livro autobiográfico, com escândalos familiares de fazer corar Luciana Gimenez (ou, como o autor David Small é americano, Jerry Springer). Tem momentos incômodos, até aterrorizantes.

Os personagens são pouco mais que sketches, mas pelo menos um é inesquecível e indecifrável. É uma história em quadrinhos feita por um ilustrador profissional que não sabe fazer histórias em quadrinhos. É visualmente bem contada, mas os desenhos são toscos - quase parecem rabisco adolescente de fundo de caderno.

Qualquer detalhe adicional sobre a história entrega o ouro. Melhor recomendar a visita ao site do autor, Davidsmallbooks.com. Tudo que você quiser saber sobre David, fora seu passado, está lá. Ilustrador premiado de livros infantis, ocasional ilustrador editorial. Formação em artes plásticas, carreira de artista trocada pela de ilustrador.

Mais de quarenta livros publicados. Prêmios à beça. Bem casado, sem filhos. Considerando sua infância e adolescência, é compreensível. Cicatrizes é mais um de uma longa série de quadrinhos autobiográficos que captura atenções da crítica e dos colegas. As orelhas da bem-cuidada edição brasileira trazem elogios de Stan Lee, Jules Feiffer, Robert Crumb, do capista da New Yorker  Harry Bliss,  e da editora de arte da revista, Françoise Mouly. 

Não precisa mais. Entrou em várias listas de melhores de 2009. Agora você pode ler em português, em tradução fluida do amigo Cassius Medauar. Questão inevitável: os aplausos são para a obra ou para o autor? Todo mundo adora uma história de superação. Se você quebrou muita pedra para chegar onde está, se você apanhou e deu a volta por cima, se você teve problema de saúde, era pobre, era feio - ganha ponto. É do ser humano, e é pedra de toque da cultura norte-americana.

Se Cicatrizes não tivesse como personagem principal um menino doente e infeliz chamado David Smalls, aplaudiríamos com tanta emoção? E Retalhos, de Craig Thompson (leia aqui)? Ed Brubaker? Chester Brown, Spiegelman, Kochalka, Trondheim, Josh Neufeld? Alison Bechdel? Marjane Satrapi?

Na última página pensei: o que o pai ou o irmão de David sentem vendo suas intimidades reveladas? É honesto expor sua própria mãe com tanta crueza? Será que em arte a autobiografia não é uma saída fácil, ainda que sofrida? Exibir suas feridas não é exibicionismo do mesmo jeito?

Julgue você.
 David small  A vida como ela é, em quadrinhos

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Começou a temporada de enchentes. Recomeçou a temporada de tiroteios no Rio de Janeiro. Previsíveis como um dia após o outro. Parecem problemas sem solução. Coisa rara. 99% dos abacaxis são descascáveis, com tempo, com dedicação, com clareza. Quem tem quarenta anos ou mais, lembra do dragão da inflação.

O Brasil parecia condenado a sofrer com índices altos de desvalorização da moeda. Entrava ano, saía ano, entrava governo, saía governo, ninguém resolvia. Até que no governo Itamar Franco, o plano real deu um tiro de morte na inflação. De lá para cá, enfrentamos outros problemas - inflação não.

Tanto no caso das enchentes pelo país como no caso da violência, o poder público hoje lava as mãos. Defesa dos pilantras: violência é culpa dos bandidos, basta matar. Como se eles nascessem do solo, como se o país não fosse uma produtiva fábrica de criminosos.

E enchente? É culpa da natureza, força maior, vontade divina. Deus não há, mas se há, deu a vida para que cuidemos da nossa, não pra botar a culpa nele/nela. Natureza? Desmatamos, impermeabilizamos, detonamos com o meio ambiente.

A Terra é o que fizemos e fazemos dela. Grandes cidades geram imenso calor, e ele aumenta o nível de precipitação. Sabemos disso. Não tem nada de imprevisível nas chuvas que inundaram ontem Belo Horizonte, Santos, tantos outros lugares. A Operação Urbana Água Branca permitiu a construção de 17 torres, um shopping e um hipermercado na minha região de São Paulo, de 1995 para cá.

chuva ok A solução definitiva para as enchentes

O eixo Pompeia-Perdizes-Barra Funda está em obras permanentemente. Barra Funda, em especial, virou nova fronteira imobiliária. Para construir acima do permitido pela lei de zoneamento, as construtoras pagaram um valor que é depositado na conta da operação urbana, e só pode ser usado em melhorias no bairro. É a chamada Outorga Onerosa.

Sabe quantas obras de melhoria para o trânsito ou para combate às inundações foram realizadas pela prefeitura nos últimos quinze anos? Nenhuma. E tivemos prefeitos de partidos variados neste período. A prefeitura diz que em 2011 será divulgado um novo plano, para construção de duas galerias pluviais, R$ 45 milhões cada.

Experts questionam o que foi anunciado do plano - parece fraco. Sei eu se é bom ou ruim. Não é o ponto. A questão é que político acha fácil botar a culpa desses desastres na natureza, mandar colchão e cesta básica para os desabrigados, e boa. Político acha que obra contra enchente não dá voto - melhor fazer pontes estaiadas, túnel etc. A gente deixa. Eles se espalham.

A solução para as enchentes é muito simples. Basta responsabilizar financeiramente e criminalmente o poder público e seus gestores. Se uma empresa derrama uma substância tóxica em um riacho, e ele causa danos aos cidadãos, a empresa pode ser processada por isso, e seus acionistas e diretores têm responsabilidade pelo que aconteceu.

Por que com o governo deveria ser diferente? Enquanto não doer no bolso e outras partes sensíveis dos políticos, as enchentes vão continuar nos castigando.

Se os prefeitos de Belo Horizonte, Santos, São Paulo ou qualquer outra cidade responderem pelos seus crimes de omissão, e as prefeituras pagarem pelo descaso, aposto que o investimento contra enchentes seria muito maior. Aliás, o investimento em tudo que importa para a população seria muito maior.

Governantes não têm que cumprir a Lei da Responsabilidade Fiscal? Vamos criar a Lei da Responsabilidade Gerencial. Quer concorrer a cargo executivo? Então prepare-se para fazer seu trabalho, meu chapa - porque se pisar na bola, vai pagar por isso. E dependendo da condenação, o malandro se torna inelegível. Opa! Tô bom de projeto de lei.

Dá tempo do presidente mandar o projeto para o congresso... Quer dizer, se ele não estiver muito ocupado dando entrevista para blogueiros “progressistas”. Progressista mesmo sou eu - quero ver progresso no combate às enchentes do meu bairro, pode ser?

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rio em chamas Uma proposta modesta para acabar com a violência no Rio

Rio em chamas. Faço minhas as palavras do Coronel Nascimento em Tropa de Elite 2: pra começar, vamos fechar a PM e o Bope. Política de enfrentamento nunca deu certo com tráfico em lugar nenhum do mundo.

O que funciona é contenção, educação, investimento. Já viu branquinho de escola particular com metranca na mão? Tráfico, como prostituição, é 99% miséria. O Brasil já é a 10ª economia do mundo, mas em investimento público em educação, somos o 114º. Você quer o quê?

Educação ruim, eleitor ignorante, políticos porcaria, leis ruins. A violência no Brasil é o preço de leis burras. Todos pagamos. Uns mais.

Enquanto droga for ilegal, vai render muito, e vai existir traficante.

Se matarem todos os traficantes do Rio hoje, amanhã têm outros no lugar.

As UPPs são tão inúteis quanto o Bope, PM etc.

Descriminalização das drogas é o mínimo. Se não estiver na pauta de combate ao crime, não tem pauta. O dinheiro aplicado hoje para combate ao crime vai para o ralo. É nosso dinheiro. Enxuga gelo.

Bope e Marinha sobem o morro com tanques. Ocupação militar de espaço civil é coisa de ditadura. Melhor apanhar de PM do que de traficante?

tanque ok Uma proposta modesta para acabar com a violência no Rio

Pior, porque “legal”. Vai lá na Faixa de Gaza para ver se esse negócio de ocupação militar funciona.

Os cariocas reelegeram seu governador, deviam estar felizes com ele. Os paulistas idem com Alckmin, os brasileiros com Dilma... Se virem com seus eleitos, eleitores. Como não sou político nem ONG, não tenho nenhuma obrigação de ser construtivo.

Mas como a situação é periclitante, dou minha cara à tapa e faço uma proposta modesta: vamos cancelar a Copa do Mundo de 2014. A Olimpíada do Rio de 2016 também. A gente explica pra FIFA e Comitê Olímpico: desculpaí, temos coisas mais importantes pra investir. Tipo, nossos filhos. Inclusive me disponho a ir para Genebra e onde mais for necessário pessoalmente para dar as explicações. Primeira classe com acompanhante, naturalmente.

Ainda dá tempo de não fazer Copa nem Olimpíada e aplicar a grana em educação, saúde, segurança. Vamos?

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