Você vai assistir Tron - O Legado. É a superprodução 3D Disney para toda a família desta temporada. Você vai assistir no cinema, e se não, em DVD, ou na TV. Mesmo que você decida resolutamente jamais assistir o filme, não escapará dos bonecos, lancheiras, camisetas, brinquedos diversos, da trilha sonora ou, claro, dos videogames.
Ainda que só assista filmes de arte, ou tenha chegado na tal melhor idade, vai dar algo de Tron para o sobrinho ou neto. Se não este ano, em anos vindouros vem aí a série de TV no Disney XD, e quem sabe continuações, a depender da receita total do investimento, merchandising incluso.
É bom? É ruim? Artefatos pop desta magnitude estão acima destas considerações. Requerem compreensão, não palmas ou rejeição; e muito menos nariz empinado. Dar nota para Tron - O Legado? É similar a discutir a validade artística de Crepúsculo, da Copa do Mundo ou da minissaia.
Tentar prever a bilheteria? Problema da produtora. Se adultos vão gostar tanto quanto crianças ou teens? Julguem juntos, pais e filhos. Julguei que Alice 3D era sombrio demais para a molecada - que sei eu?
Tron verga, sim, sob o peso combinado de suas ambições estéticas e suas responsabilidades de megafaturamento. Era muito difícil escapar desta sina. Adianta pontuar que:
- o filme original de 1982 foi um fracasso histórico, e ninguém aguardava ansiosamente por uma sequência?
- a fidelidade ao influente design do original empresta ao novo filme penetrante perfume de Século 20?
- o ator escolhido para protagonista tem o charme de um poste?
- como 99% das superproduções de Hollywood, o terceiro ato, sempre definido após pesquisas de opinião com espectadores “médios” desaponta?
- talvez não tenha sido uma aposta muito segura colocar na direção de um filme deste tamanho um cara que jamais dirigiu um longa metragem, e cujos únicos créditos significativos são comerciais para os videogames Halo e Gears of War?
Pontos válidos, e há outros. Prefiro colocar Tron - O Legado como parada final de uma linha direta que liga Matrix, o gibi The Invisibles, a revista Wired, O Exterminador do Futuro, a literatura cyberpunk, a revista Heavy Metal e o Tron original.
Por que é o fim? Porque, na semana do escândalo Wikileaks e do estouro da primeira info-guerra, está mais que evidente que o futuro chegou. Eu tinha esquecido que vivo no futuro - no futuro do cara que assistiu o Tron original em 1982, no Cine Rívoli, Piracicaba.
Eu tinha 17 anos e estava no terceiro colegial. Não me impressionou muito; bons efeitos, história mais ou menos, o que pode-se falar da sequência. Considere que no mesmo ano eu tinha visto Blade Runner, Jornada nas Estrelas: A Ira de Khan e O Império Contra-Ataca.
Considere também que em 1982 não existia web, fax, videogame, TV paga, PC, telefone celular; videocassete era artigo de luxo, e você tinha que escolher entre VHS e Betamax; nos EUA mandava Reagan, na Inglaterra Margareth Thatcher, na União Soviética Leonid Brejnev, aqui João Figueiredo, ditador militar.
28 anos me separam de Tron, que nunca mais vi. Vi Tron - O Legado hoje de manhã. Falta uma semana para a estreia, tempo mais que necessário para eu montar o quebra-cabeça. Volto a Tron, porque o embate do mundo virtual com o real não me deixa em paz; mas filmes que prometem satisfação imediata exigem reflexão imediata, ainda que superficial, e para isso aqui estou.
Encontro marcado
Nesta quinta-feira (9), às oito da noite, participo do programa NBlogs, na Record News. Reprise sexta, oito e meia da matina.
Não faço ideia por que alguém se interessaria pelos meus pitacos, muito menos ao vivo, muito menos na televisão.
Mas me convidaram para estar lá todas as quintas, e não manjo nada de TV, então fiquei curioso e decidi fazer uma experiência lá.
Se puder, assista. Críticas são bem-vindas.
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