Publicado em 22/10/2015 às 18:21

O dueto perfeito


romantic disney up ellie carl O dueto perfeito
UP – Altas Aventuras foi o último grande desenho da Pixar. Os primeiros quatro minutos são de derreter o coração. Junto com a primeira parte de Wall-E, é o que se fez de melhor em animação no século 21. Enternecem e iluminam nossa frágil humanidade.
Mas os minutos de UP que contam a vida em comum de Carl e Ellie são ainda mais tocantes que as desventuras do robôzinho no lixão que virou a Terra. Porque são gente de verdade, gente como a gente é, ou como a gente conhece. Jovens que viram adultos que viram velhos, sempre juntos, sempre diferentes. Ellie, a aventureira, Carl, o certinho, e suas pequenas vitórias e doloridas derrotas. A sua vida como a vida é.
E por causa da música, o tema do amor do casal. É composição de Michael Giacchino, que também fez outras trilhas incríveis como a de Os Incríveis e Super 8, e não nega o sangue italiano. Não chorei nem quando a mãe do Bambi morreu. Mas esses minutinhos de UP me apertaram a garganta na época que vi. E hoje vi esse vídeo bobo. Feito por um pianista celebridade da internet, Jason Lyle Black. Com seus avós, que têm 80 anos, são casados a seis décadas, e toda a vida têm tocado duetos ao piano.
Aí lembrei de tantas vidas em comum que já vi. E dos maridos que já vi cuidando das suas mulheres, e das mulheres cuidando de seus maridos. Com desprendimento e dificuldade, com paciência e amor. E meu coração de novo transbordou.

E aqui estão os minutos iniciais de UP. Que você encontre um par para preencher seu Livro de Aventuras!

Publicado em 20/10/2015 às 10:11

O Brasil não precisa de caças da Suécia. Precisa é da sabedoria da Costa Rica

dilma O Brasil não precisa de caças da Suécia. Precisa é da sabedoria da Costa Rica

O Brasil é o 11º país com maiores gastos militares. Em 2015, deve chegar a R$ 31,9 bilhões. É 1,3% do PIB. A presidente do Brasil decide como gastar essa dinheirama. Dilma está na Suécia, posando para foto dentro de um caça. Em julho, o ministro da defesa da época, Jaques Wagner, comemorava “economia” na compra desses 36 aviões suecos para nossa Aeronáutica. Negociavam para abaixar os juros do negócio. O projeto total estava orçado em R$ 5 bilhões. “A presidente Dilma ficou satisfeita com a negociação bem sucedida”, disse Wagner.

Agora o novo ministro da defesa diz que a compra vai sair por R$ 4,5 bilhões. Quem é o substituto de Wagner? Não importa. É um dos ministérios que deveriam deixar de existir. Função de militar é matar, e o Brasil não tem inimigos. Não precisamos de exército, marinha ou aeronáutica. Deveriam ser abolidos. Não faria a menor diferença.

Melhor: faria grande diferença para o bem. Na América Latina, não há país mais civilizado que a Costa Rica. Por várias razões, e a principal é que a Costa Rica aboliu as forças armadas em sua constituição de 1949. Tem uma guarda civil e uma guarda rural e só.

Ninguém diga que aquele canto do mundo é tranquilo. A América Central já enfrentou de tudo. Ditadores, guerrilheiros, narcotraficantes, mafiosos, multinacionais que mandavam em países inteiros. A Costa Rica ali no olho do furacão e, em mais de seis décadas, sempre manteve seu rumoada de exército.

O que iam gastar com “defesa”, investiram onde mais importava — no ataque aos seus principais problemas. Hoje a Costa Rica tem alto índice de alfabetização, meio-ambiente superprotegido, pontua bem em todos os principais índices do bem viver planetário. Não é um país rico, nem de longe, mas em média vive-se com mais paz lá que em qualquer outro lugar da América Latina.

Desarmar o Estado ajuda a desarmar o espírito? No Brasil, ao contrário, temos armas para todo lado. O governo federal tem as Forças Armadas, os Estados têm polícias militares, cidades suas polícias civis, bandidos suas metrancas, e cidadãos particulares seu revólver no porta-luva.

Temos até nossa própria indústria bélica. Frequentemente temos a vergonha de ver tanques brasileiros usados por ditaduras diversas contra manifestantes pacíficos. Com tudo isso, e sem inimigos, o Brasil vive uma violência sem fim.

O Brasil tem longa tradição de políticos que defendem o diálogo mas praticam o monólogo. Dilma vai além. A crítica mais comum que se faz a ela é que não ouve ninguém. Quer provar o contrário, sua excelência? Começa cancelando esse negócio com a Suécia.

Quando o dinheiro está sobrando, desperdício passa batido. Agora que o cobertor está curto, há que focar no que importa e cortar o resto. Avião de caça modernex, num país sem guerra nem inimigos, é a própria definição do supérfluo. O Brasil corta investimento em escola, hospital, segurança, aposentadoria, salário-desemprego. Mas temos R$ 4,5 bilhões sobrando para importar aviões de caça, para “proteger nossas fronteiras”?

Se o Brasil abrisse mão de suas forças armadas, quem iria guardar nossas fronteiras? A pergunta é outra: que país é capaz de invadir e ocupar um lugar do tamanho do Brasil, com quase 200 milhões de habitantes? Nenhum. No século 21, as nações se digladiam por outros meios. Cérebros valem mais que balas. Inovação mais que avião.

O Brasil podia ter uma boa polícia federal, um timezinho de forças especiais bem treinadas, e um abraço. Baita economia. Mas não. Trocamos Geisel e Figueiredo por FHC e Lula e Dilma, gente que foi perseguida pelos militares, e mesmo assim mantiveram tudo igual. Nos últimos anos Dilma trocou o ministro da defesa, Nelson Jobim por Celso Amorim, e Jaques Wagner por Aldo Rebelo, e tudo continua como dantes no quartel de abrantes.

Desconfio que nós brasileiros, estamos prontos para seguir o exemplo da Costa Rica. O Brasil, infelizmente, não está. Pelo menos em uma coisa evoluímos bastante. Como diz o amigo Edson Aran: eu sou do tempo em que o militar é que demitia o presidente…

Publicado em 13/10/2015 às 19:16

Playboy é mulher pelada. Botou roupa, perdeu Playboy!

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Barbi Benton: a primeira coelhinha, ninguém esquece

A Playboy vai deixar de publicar foto de mulher pelada. É uma estupidez. Foi o grande diferencial da revista com relação às que vieram antes e depois. Antes era a Esquire, onde Hugh Hefner, fundador da Playboy foi redator: a revista do que interessa para o homem, com sex-appeal, mas “decente”. Depois, Hustler, 100% sexo explícito, e hoje variedade infinita entre esses falsos opostos.
A fórmula da Playboy é como a da Coca-Cola, segredo. E não industrial: segredo artesanal. Seus melhores editores foram verdadeiros equilibristas. Muito humor e um tanto de seriedade. Muito bom-viver e alguma provocação. Mulher para domar e para namorar.
Claro que a Playboy era principalmente inspiração para masturbação. Mostrava nua, disponível e provocante a vizinha lindinha das fantasias dos americanos. Não era “revista de sacanagem”. Era revista para fantasiar. As moças não pareciam prostitutas. Pareciam estar a fim, e não a fim de dinheiro.
Hoje vemos mocinhas lindinhas praticando o kama sutra e muito além, perversões de A a Z, de todos os modelos e nacionalidades. Está tudo na internet, de graça. A Playboy perdeu esse bonde. Poderia ser a dona do YouPorn, RedTube, e todos esses serviços de pornografia digital instantânea. Mas não é, como nenhum dos grandes canais de televisão é dono do YouTube, e nenhuma empresa de mídia é dona do Google ou do Facebook, as empresas de mídia que mais faturam no planeta Terra. É fácil identificar as bobeadas nas empresas dos outros. As Playboy Enterprises cometeram muitas.
Tropeço imperdoável foi o reality show mostrando Hugh Hefner como um velho babão, morando com três “namoradas” falsas loiras e falsas em geral. Nos anos 60 e 70, Hefner era personagem, mas também editor de mão cheia e de sucesso. A Playboy de fato era para ser lida pelos artigos. O time de colaboradores da revista foi a fina flor do jornalismo americano. Playboy divertia e influía, combinação perfeita e quase impossível.
Hefner era símbolo de realização, não só da vida boa que os machos de sua geração e seguintes sonhavam ter. No reality show se assumiu paródia de si mesmo, modelo obsoleto, pagando por companhia de garotas com idade pra serem suas netas, um Olacyr de Moraes gringo. Tudo que o homem do século 21 não quer ser quando envelhecer.
No Brasil, Playboy foi sonho de um jovem, que convenceu o pai a editor a fazer no Brasil as três revistas americanas que mais admirava: Time, Fortune e Playboy. Era Roberto Civita, que fez, e fez muito bem, suas versões das três. Eram Veja, Exame e a própria Playboy, licenciada da edição americana, mas com identidade muito própria. A revista brasileira teve sua fase de ouro quando a americana já não tinha tanto apelo assim. Grandes entrevistas, grandes cartunistas, grandes fotógrafos, muito molho, tudo do melhor. E as mulheres mais maravilhosas e mais famosas do Brasil sonhavam em posar para a Playboy.
Comecei a ler a Playboy antes dela existir por aqui. Pingavam umas raramente por aqui nos anos 70, de pais de amigos. Minhas primeiras memórias são da cutchuquinha que ilustra este post, Barbi Benton. Lá pros 14 anos eu já era desse tamanho de hoje, e comprava de um jornaleiro amigo. Comprei intermitentemente desde então – escolhendo pela capa, como todo mundo. Fui convidado uma única vez pra colaborar; escrevi sobre o Velvet Underground em 1991.
Tive e tenho amigos na redação da Playboy brasileira. Espero que siga despindo as personagens que todo mundo quer ver peladinhas. Seja a atriz, a funkeira ou a gari gata. As taras da molecada de hoje e as da nossa juventude, porque não? Vi uma foto de Magda Cotrofe esses dias, continua batendo um bolão. Aliás, a foto era ela com a filha. Aliás, vamos mudar de assunto.
Fosse eu o ditador lá da Playboy Enterprises, seguiria o exemplo da Abril. Uma revista linda e leve, esperta sem ser metida, com carteira recheada para convencer as famosas mais desejadas do mundo a tirar a roupa.
Colocaria trinta fotos da estrela da edição na revista. E essas trinta e mais cem no site, junto com o making of do ensaio, em vídeo. E, claro, o arquivo completo dos trocentos anos da Playboy. Todos aqueles zilhões de textos e ilustrações e cartuns e piadas e mulheres incríveis. Um dólar por mês. Você não assinava? Você e eu e mais uns vinte milhões de machos. E mais um monte de moças que gostam de moças. E senhoras que liam a Playboy pelos artigos.
Mas infelizmente a Playboy americana se rendeu à chatice. Ao padrão politicamente correto de agências e anunciantes, que veta investimento em publicações que “objetificam” as mulheres. E à necessidade de compartilhar seu conteúdo nas redes sociais, Facebook etc., que são caretas e vetam nudez. A Playboy pode até sobreviver. Será mais uma. Só tem a perder.
O futuro sabe-se lá. O passado não se apaga. Todos aqueles textos e reportagens, ilustrações e piadas e ensaios, tudo vive. E o que a Playboy fez por gerações de homens não tem preço. Deu prazer e fez pensar. O que mais você pode desejar?

Publicado em 07/10/2015 às 16:18

Porque o Brasil não ganha o Prêmio Nobel de Literatura

Nobel Porque o Brasil não ganha o Prêmio Nobel de Literatura
Todo ano quando é anunciado o Nobel de literatura, duas palavras pipocam: nunca li. Quando vou me informar sobre o vencedor, outras duas se repetem com incrível frequência: nunca lerei. Os vencedores de 2013 e 2014, Alice Munro e Patrick Modiano, bem, parei em um estágio anterior, e, admito, muito comum: nunca ouvi falar.
Imperdoável? Jornalista tem esse cacoete de posar de sabichão. A gente pode nunca ter lido, assistido, ido ou vivido, mas tem que fazer de conta que sabe de tudo. Pior que nosso vício privado virou virtude das massas. Com a internet, somos todos pseudo-especialistas instantâneos em tudo, com direito a opinião sobre tudo, e acalorada e radical sempre faz mais sucesso.
O prêmio é entregue desde 1901. Li 29 dos vencedores - li alguma coisa dos 29, para ser preciso, não "a" obra. Para pegar uma amostrinha recente, no século 21 os vencedores foram:

2014 - Patrick Modiano

2013 - Alice Munro

2012 - Mo Yan

2011 - Tomas Transtromer

2010 - Mario Vargas Lllosa

2009 - Herta Muller

2008 - Jean-Marie Gustave Le Clézio

2007 - Doris Lessing

2006 - Orhan Pamuk

2005 - Harold Pinter

2004 - Elfriede Jelinek

2003 - John M. Coetzee

2002 - Imre Kertész

2001 - V.S. Naipaul

2000 - Gao Xingjian

Se sentiu ignorante? Eu sim. Devemos estar perdendo um monte de coisa boa. Mas a academia sueca também perdeu. Porque quase nenhum dos meus autores favoritos de todos os tempos ganhou o prêmio.
A maioria dos vencedores do Nobel escrevem no gênero "drama realista contemporâneo". Já leio muita não-ficção, ensaios, jornalismo. Quando leio ficção, é exclusivamente por prazer. Que também encontro neste gênero, que domina premiações e atenção da crítica. Mas encontro mais em outros cantos.
Previ dois anos atrás que pela crescente estatura internacional do país, na próxima décda o prêmio anos não nos escapa, e mantenho. Se um autor brasileiro vencerá por merecimento, ou porque simplesmente chegou a hora do Brasil levar o prêmio, é outra história.
O Nobel não premia "o melhor escritor do mundo do ano". No caso de nomes consagrados que escrevem em inglês, o habitual é premiar pelo conjunto da obra - vide Pinter, Lessing e Naipaul (os únicos deste século que li, com Vargas Llosa).
Quando a obra é em língua "exótica", o Nobel premia um tanto o autor, e muito a literatura daquela cultura, país, continente. Você não vai ver autores africanos ganharem três anos seguidos, ou asiáticos, ou latino-americanos. O que nos leva à eterna questão: e o Brasil, porque nunca ganhou, e quando vamos ganhar?
Adoraria encontrar um autor conterrâneo que abrace nossa complexidade social. Meio Naipaul e meio Philip K. Dick.  Com ginga e humor.  Nem precisa tanto: alguém que não faça feio do lado de Pinter e Vargas-Llosa. De cabeça, não me ocorre ninguém. Ninguém que dê conta do mundo além de nossas fronteiras; ninguém que dê conta de nossa realidade única, radical, improvável. Talvez sejamos melhores biógrafos, ensaistas, cronistas, piadistas e tuiteiros que romancistas e, aliás, contistas.
A melhor explicação é a mais simples: o escritor brasileiro é um chato. É homem, branco, tem diploma universitário, mora no eixo Rio-São Paulo, e uns 50 anos. O protagonista de seu romance é homem, branco, tem diploma universitário, mora em metrópole etc. etc.
Dos nossos autores, 36% trabalham como jornalistas. Pois as profissões mais comum dos protagonistas da literatura brasileira são, pela ordem, escritor, criminoso, artista, estudante e jornalista. E a maioria das histórias se passam no presente, ou no máximo dos anos 80 para cá.
O assunto da literatura brasileira é o escritor brasileiro e seu mundinho. É um coroa diletante e seu tema é a própria juventude e meia-idade, reimaginadas dramaticamente. Este é o resumo curto e grosso da pesquisa feita pela professora Regina Dalcastagnè, da UNB. Ela analisou 258 romances de 165 escritores diferentes, de 1997 a 2012, de editoras variadas. É mostra significativa.
Regina conclui que não há na literatura nacional o que chama de "pluralidade de perspectivas sociais". Nossos livros não incluem brasileiros de várias cores, classes, religiões, idades. Bidu. É e sempre foi assim. Não há gays, velhos, deficientes, umbandistas e tal nos nossos livros.
A ausência mais escandalosa em nossa literatura, personagens negros, tem razão bem concreta. Não há negros nas redações, na universidade, nas posições de comando do País. O típico escritor brasileiro simplesmente não convive com negros de igual para igual. Mas há mais discriminação nos nossos livros que no Brasil não-ficcional. Em 56% dos romances, todos os personagens são brancos. Negro, quando aparece, é miserável, bandido e, principalmente, coadjuvante.
Faz sentido que 36% dos nossos escritores sejam jornalistas. Tirando jornalista, poucos brasileiros têm português legível. Jornalista não sabe grande coisa, mas aprende a encaixar uma frase na outra, respeitar concordâncias, economizar nas vírgulas.
Dashiell Hammett recomendou: escreva sobre o que você conhece. Donde que temos jornalistas escrevendo sobre jornalistas. Um bando de rato de redação se imaginando como herói: uma vez na vida, a notícia sou eu! Bem,  sou exatamente o perfil do romancista brasileiro, jornalista, 50 anos, branco etc., e passo muito bem sem ler sobre mim. Nem em versão romantizada, e muito menos realista...
A pesquisa de Regina explica a desconexão de muitos, e a minha, com a literatura brasileira atual. Me recomendam este e aquele autor nacional. Compro, leio quinze páginas e despacho pro sebo, raríssimas exceções.
O problema não é o País de origem nem a profissão dos autores. É o universo ficcional e existencial dos autores e personagens. Poucos leitores se interessam pelos problemas dos brasileiros letrados de classe média e meia-idade, suas neurinhas, fantasias e infidelidades.
E pior ainda quando o livro vira policial noir de butique, com direito a uma garota de programa e um milionário assassinado. Sai pra lá, neurótico professor de literatura! Vade retro, safo repórter de jornal popular! Ficção exige imaginação e encantamento; um tanto de história, outro de jornalismo; e variedade. Hoje festins pantagruélicos, amanhã snacks para devorar aos nacos.
Em todo lugar o gênero "problemas sexuais-existenciais da classe média intelectualizada" tem longa tradição. É um gênero, como livros de vampiro ou histórias de detetive. Nos Estados Unidos, é o que garante prêmios, convites para lecionar e confete em festivais literários. É o favorito de escritores que não vivem de escrever. Ganham a vida como professores, quase sempre. Quem sabe faz, quem não sabe ensina...
Não, sacanagem. Tá cheio de professor por aí que manda muito bem nas mal-traçadas. A desgraça é quando os escritores começam a escrever para impressionar outros escritores (e isso vale também para músicos, pintores, arquitetos e qualquer atividade criativa).
No Brasil literatura é segunda profissão ou hobby. Um autor ganha uns três reais por exemplar vendido, e as tiragens aqui raramente passam de 3.000 exemplares. Pouco importa sobre o que o escritor brasileiro vai escrever, e muito menos se vai escrever bem: meia dúzia vai ler. E ele não vai ganhar dinheiro nenhum com isso. Pelo menos impressionar os amigos tem que poder, pô!
Escrever em tempo parcial não precisa ser problema. Muitos usam bem as conexões acadêmicas e mesadinhas variadas, de fundações, esse e aquele programa governamental etc. O problema é quando a profissão do escritor não é escrever, é “ser escritor”. Cobrar cachê pela participação. Cavar verbinha do diretor de marketing. Preparar a palestra para a o próximo festival corporativo. É como esses roqueiros picaretas que pegam dinheiro público via Lei Rouanet para gritar contra o sistema.
Cada um se vira como pode? Escritor não tem esse direito. Sardinha na brasa: escrever está acima de qualquer outra atividade artística. Aprender a escrever é aprender a pensar. Ter o que dizer é o melhor do humano. Dizer de maneira poderosa é divino.
Escritor que depende do poder político e econômico se assume subalterno. O que nossos romancistas dizem sobre nós? Pouco ou nada. O que perdemos com esse silêncio? Muito, tudo. As exceções reforçam a regra. A cultura do Brasil é dominada pelo consenso que compensa.
Graham Greene cravou: "A Itália, durante trinta anos sob os Borgias, conheceu a guerra, o terror, o assassinato e o derramamento de sangue. Mas produziu Michelangelo, Leonardo da Vinci e o Renascimento. Na Suíça, eles têm o amor fraternal e quinhentos anos de democracia e paz - e o que produziram? O relógio de cuco."
Falta de tempo e dinheiro para escrever frequentemente foi bem estimulante. James Joyce, para pegar o mais celebrado autor do século passado, criou Ulisses num miserê de dar gosto, exilado mundo afora, casado com uma mulher que zoava suas veleidades de artista e dois filhos pequenos pra criar. Na ponta oposta da respeitabilidade crítica, igual. A fábrica de best-sellers Stephen King pariu Carrie, seu primeiro sucesso, quando labutava como zelador e morava em um trailer, datilografando até altas horas, os nenês chorando.
Podemos e devemos fazer melhor. Escrever bem é técnica, e escrever divinamente é talento e suor. Mas a prova dos nove é escrever sobre a realidade. Ainda que no formato de um romance histórico, ficção científica, horror ou humor ou o que for.
Escrever sobre a realidade não é escrever sobre a minha vida. E muito menos um livro é melhor ou pior porque se passa na São Paulo de hoje, e não em Saturno no século 30. O que existem são livros mais e menos ambiciosos, e mais e menos bem-sucedidos, em relação ao tema, à trama, à linguagem, ou na criação de ambientes e personagens. Alta e baixa literatura é papo de crítico cretino.
A pesquisa de Regina explicita que o assunto central da ficção brasileira é o umbigo do seu autor. Não é problema localizado. Em todo lugar, cada vez mais os escritores estão caraminholando sobre seu mundinho particular, reciclando fantasias de aventura e consumo, revisitando seus livros e filmes e ícones culturais prediletos. "Influence is Bliss", resume Michael Chabon, que faz isso melhor que a maioria.
A possibilidade de celebridade propiciada pelas redes sociais acentua a tendência. Todos vivemos escrevendo e lendo devaneios narcisistas. Boa parte do que passa por literatura é tão verdadeira quanto essas fotos supostamente displicentes, mas cuidadosamente planejadas e retocadas, que colocamos em nossos perfis no Facebook.
A ambição da ficção, e da ficção brasileira, pode e deve ser maior. Escritores são faróis na neblina. Vivem na escuridão. Tateiam. Tropeçam. Mas apontam rumos. Sinalizam um norte. E sem eles, nos perdemos. A vencedora do Nobel de literatura de 2015 é jornalista e das boas, Svetlana Alexievich. Vive no mundo, não em seu mundinho. Repórter, lhe importa mais a voz dos outros que a sua. Seu tema é a dor de parto de um mundo pós Guerra Fria, uma Rússia pós soviética, num continente quietamente deflagrado. Nunca tinha ouvido falar. Li umas linhas dela hoje, pela primeira vez.
Onde estão nossas Svetlanas? Cadê os escritores de que o Brasil precisa? Nossos guias, intérpretes, espelhos? Cadê o grande romance sobre nossa miséria e nossa fortuna? A Itália do século XV é um nada de sacanagem perto do Brasil do século 21.
Hammett estava errado. A literatura que importa não é sobre o autor, é sobre o leitor. Quero, exijo, um livro que me hipnotize, e me leve para outro lugar, e para dentro de mim mesmo. O que importa em literatura é fitar o desconhecido. E não conseguir desviar o olhar.

Publicado em 30/09/2015 às 14:31

Para que serve um herói japonês made in Brasil (estrelando Ricardo Cruz)

sfs ricardo01 Para que serve um herói japonês made in Brasil (estrelando Ricardo Cruz)

"Siga seu sonho.” Parece piegas e é. Meio coisa de americano. “Se você se dedicar, pode ser qualquer coisa que sonhar – pode ser o presidente dos Estados Unidos!”
Bem, não. Baixinho nunca vai pra seleção de basquete, altão nunca fará carreira como jóquei. Mas você vai se surpreender com o que pode acontecer se você corre atrás do seu sonho com persistência. E ignora a impenetrabilidade das barreiras que te impedem de chegar lá. Onde quer que “lá” seja.
Ricardo Cruz devia ter uns 18 anos quando virou colaborador, depois redator das nossas revistas na editora Conrad – Pokémon Club, Herói, Nintendo World. Era louco por heróis japoneses. Mais ainda por Tokusatsu, seriados de super-heróis com atores, tipo Jaspion. Curtia muito os “openings” das séries japonesas, aberturas cantadas, geralmente rockões bem épicos. Ricardo já arriscava umas cantorias na época, no meio da redação. Em japonês toscão. Não tem uma gota de sangue asiático.
E daí ele realizou seu sonho de visitar o Japão. E foi aprendendo japonês. E seguiu cantando (e trabalhando e dando seus pulinhos). Em 2005 passou a fazer parte de um grupo de artistas japoneses que cantam temas de séries, o Jam Project. E excursionar com eles pela América Latina. E gravar com eles. E compor. Virou cantor de “Anime Songs”: temas de desenho animado, videogame, série made in Japan. E foi, foi, foi – e gravou um CD. Que me deu ano passado, quando nos encontramos no painel da revista Herói, na Comic Com Experience. Contou que preparava um clipe.
E agora me manda esse vídeo sensacional. Não é um clipe, é um mini-filme. Com vilão malvado e seus capangas, monstro, robô gigante. E ainda estrelado por Hiroshi Watari, ícone dos seriados de Metal Heroes – o Sharivan, o Spielvan!
Ricardo, o rockstar. Herói  de sua própria aventura e, a partir de hoje, oficialmente meu herói japonês favorito. Todo história de herói tem uma mensagem, e a dessa é: seja o que quiser, amigo leitor, queridíssima leitora. Vou dar um comando mais claro, para não deixar dúvidas. Seja TUDO que puder.
A gente tem sempre razões de sobra para não ir atrás do que sonha. E realmente muitas delas são ótimas razões, não te culpo, não me culpe. Mas histórias como as de Ricardo nos fazem acreditar. E por isso são mágicas, preciosas – épicas.

Assista ao vídeo:


Publicado em 25/09/2015 às 19:19

A história da revista Herói é a minha história. Chegou a hora de contá-la

Capa Catarse 600x340 A história da revista Herói é a minha história. Chegou a hora de contá la
Eu criei uma revista que vendeu mais que a Veja. Isso mudou completamente a minha vida. E felizmente mudou a vida de muitas outras pessoas. Para melhor.
Eu tinha 29 anos. Era empresário há um ano. Tinha largado um bom emprego para fundar uma editora. Gastei todo meu pouco dinheiro nisso. Estava quebrado.
E aí a oportunidade bateu na minha porta, e eu agarrei a danada e dei um beijo na boca dela.
E é essa história que eu decidi contar. Porque ela merece ser conhecida. Eu fui e sou o pai da criança, com muito orgulho. Mas quem cuidou da criança foi uma família enorme. Quem estava lá merece ter sua história contada. E aqueles milhões de moleques lendo a Herói merecem ser celebrados.
Então estamos escrevendo um livro contando a história da Herói, a revista que inspirou uma geração. Somos eu e a jornalista Arianne Brogini, que foi editora da revista já no século 21, com o auxílio luxuoso dos amigos Matheus Mossmann e Juliana Zorzato, e mais um monte de gente que está bolando o visual do livro, ajudando a divulgar o projeto, dando depoimentos... ich, a página de agradecimentos vai ficar enorme.
E seu nome pode estar lá.
Então colocamos o projeto no Catarse. Colabore para o livro Herói sair no capricho, com o acabamento e tratamento que merece. Garanta seu exemplar. E veja um monte de outras recompensas bacanas que você pode receber.
Meu amigo querido e grande parceiro na Herói, Mauro Martinez dos Prazeres, me disse uma vez, em 1995: "daqui vinte anos vai ter no Brasil uma geração que aprendeu a ler com a Herói. Um monte de pessoas que aprendeu a amar os heróis com a revista. Imagine que lindo!"
É lindo mesmo.
Se você leu a Herói, por favor: apóie e divulgue para seus amigos.
É a Herói, cara. Inesquecível e indestrutível. Para o infinito e além!

Apóie o livro Herói no Catarse!

http://r7.com/GalV

Publicado em 25/09/2015 às 17:54

Se você é contra o Uber, está errado. Se é a favor, está errado também

 Se você é contra o Uber, está errado. Se é a favor, está errado também
Pensamento binário é para computadores. Seres humanos são capazes de mais sutileza. Não vemos o mundo em preto e branco, mas em infinitas cores, com precisão e perspectiva. Dividir cada debate entre "a favor" e "contra" e sair xingando a oposição é pobre e ineficiente. Na vida real e na virtual; na pessoal e na pública.
É bestificante ver a indignação de gente inteligente e civilizada com a proibição do Uber. Xingam os políticos, a máfia dos taxistas, o Brasil etc. Para equilibrar, andei perguntando para taxistas como vêem o Uber. Só faltam cuspir fogo. É transporte clandestino, tem que ser proibido e por aí vai.

É evidente que o Uber, como existe, é um serviço que só faz sentido no quarto mundo, onde não há regulamentação nem direitos trabalhistas. Por isso vem enfrentando tantas resistências nas grandes cidades do planeta, onde há lei. É igualmente evidente que esse enfrentamento faz parte da estratégia de expansão da empresa. Eles não esperam operar em um vácuo de regras e se adaptarão conforme forçados a isso. Primeiro a gente invade, depois a gente negocia. É assim o capitalismo. Business is War.

Quem tem a maior simpatia pelo Uber por ser uma jovem empresa inovadora está fora de si. O Uber é um gigante extremamente eficiente em captar investimentos. Não tem seu valor estimado em mais de 50 bilhões de dólares à toa. A área financeira do Uber trouxe tantos executivos de Wall Street que o apelido do Uber no setor é "Goldman West", referência ao banco Goldman-Sachs...

E daí, pergunta o amigo? O que importa é que eles prestam um excelente serviço! Bem, não, não é isso que importa. Não isso só. Nem tudo que é bom para o consumidor é bom para o conjunto da sociedade. Por isso criamos o salário mínimo, por exemplo, mesmo sabendo que pagar mais para os operários implicaria em aumento no preço dos produtos. Pagar o preço mais baixo é ótimo quando você compra, e terrível quando você está vendendo sua força de trabalho...

O serviço prestado pelo Uber é uma parte importante do que importa. O Uber hoje tem 5 mil motoristas cadastrados no país, segundo a própria empresa, e pretende chegar a 30 mil no ano que vem. Muita gente usa e aprova. Os motoristas precisam ter seguro para os passageiros, os carros são grandes e novos e tal. Aliás, boa parte dos clientes do Uber curtem mesmo é esse lado de ser tratado a pão-de-ló. E não há nada de errado nisso. Mas o ganha-pão de 35 mil taxistas paulistanos, outros 33 mil no Rio e sei lá quantos no restante do Brasil, também é uma parte importante do que importa.

Há corporativismo entre os taxistas? Sem dúvida. Esse negócio das prefeituras não liberarem alvará é imoral e provavelmente picaretagem? Idem. Tem taxista sovaquento que ouve Djavan no último volume? Claro. Isso é razão para irem todos para a rua? Calma lá.

Escolher um lado e xingar o outro é andar para trás. Liberdade de empreender e inovar não é um valor intocável nem um demônio a ser combatido. Regulamentação não é sinônimo de atraso; regulamentação estúpida é que é.  O Uber e empresas similares podem ser uma parte importante do nosso transporte urbano de cada dia. Cada país vai criar regras para isso, e o Uber vai obedecê-las ou dançar. E com toda sua grana, sempre corre risco de ser destruído por um concorrente. Li esses dias sobre uma start-up israelense que criou um aplicativo que faz o que o Uber faz, só que com caronas...

Em Berlim, por exemplo, o Uber fez um acordo e hoje só usa mão de obra licenciada e cobra a mesma coisa que os taxistas. Em Belo Horizonte, há um projeto de lei em estudo que daria licença para o Uber operar 500 veículos de luxo, mas força a empresa a pagar os impostos na própria cidade. O que é o melhor? Não sei. Vamos botar a cabeça para funcionar, que encontramos uma solução razoável. Não é física quântica.

Dá trabalho criar regras e garantir seu cumprimento, mas é uma das melhores ferramentas que o ser humano criou. Regras claras, cobrança clara, e convivência transparente. Tão simples - e complicado - assim.

http://r7.com/fyjo

Publicado em 25/09/2015 às 16:16

A operação Lava-Jato acabou. Mas a crise verdadeira está só começando

FRP Juiz Sergio Moro anuncia medidas contra impunidade 0307042015 1024x681 A operação Lava Jato acabou. Mas a crise verdadeira está só começando

Sérgio Moro: agora, só mais um de muitos juízes cuidando da Operação Lava-Jato

O Brasil mudou radicalmente para pior nos últimos dias. Não tem nada a ver com o dólar subir ou descer. Pouca gente reparou ou prestou atenção nos detalhes. Vamos recapitular:
- o Supremo Tribunal Federal decidiu tirar parte das investigações da Operação Lava-Jato das mãos do juiz federal Sérgio Moro, da 13ª Vara Criminal de Curitiba
- cada investigação irá para cidades diferentes do país, os lugares onde os delitos foram cometidos
- com isso, os réus ganham a chance de usar todos os argumentos contrários à acusação junto a outros juízes em outros estados
- esses novos juízes podem aceitar delações premiadas ou não
- os novos juízes verão apenas sua parte da operação Lava Jato, e não o todo como Moro via; isso pode dificultar as investigações
- os novos juízes julgarão delitos de políticos e de empresas justamente nos estados onde esses políticos e empresas têm mais influência
- os novos juízes terão que se familiarizar com os processos, o que fará o desenvolvimento da Lava Jato levar muito mais tempo
- esses juízes de primeira instância não têm o know-how da força-tarefa que comanda a Lava Jato, e podem não respaldar ações do Ministério Público e da Polícia Federal, por desconhecimento ou mesmo por pressão dos governos estaduais
- os processos que forem redistribuídos pelo país obrigarão o Ministério Público Federal a criar células da operação Lava Jato pelo país - Sudeste, Norte, Nordeste. Hoje são 330 servidores, concentrados em Curitiba e Brasília, onde são processados os políticos que têm direito a foro privilegiado
- os estados da região Sul são os únicos aparelhados para dar transparência ao processo, porque permitem acesso digital aos despachos. Com isso a atuação da Lava Jato passou a ser acessível à imprensa. No restante do país isso não acontecerá
- os advogados dos políticos envolvidos na Lava Jato já preparam uma chuva de liminares para redistribuir os inquéritos pelo país afora. Com isso, esperam evitar que outras pessoas ligadas a esses políticos sejam processadas por Moro - familiares, assessores, operadores
- em caso de perda de mandato por renúncia ou cassação, políticos citados na Lava Jato poderiam em tese ser julgados em outra vara que não a 13ª
O que diz Sérgio Moro sobre isso tudo: "há risco concreto de que vários desses processos caiam, nos anos vindouros, no esquecimento".
Não é só que a Lava-Jato daqui para frente tem pouca chance de punir alguém. Mesmo quem já foi julgado pode escapar. É o caso de João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do PT, preso desde 15 de abril, e condenado por Moro a 15 anos de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro.
Seu advogado, Luiz Flávio Borges D´Urso, afirmou ontem que desde o início já sustentava a incompetência de Sérgio Moro para julgar Vaccari, porque o julgamento deveria acontecer é em SãoPaulo. Disse ao Estadão:"Não há razão para que tudo fique concentrado no Paraná. Até agora nossa tese não teve sucesso, mas com a decisão do Supremo abre-se um caminho.”
Para D´Urso, a consequência tem que ser a anulação do processo inteiro, porque conduzido por juiz incompetente. “Sempre que tem um juiz incompetente, seja em razão da matéria, seja em razão do local onde aconteceram os fatos, se ele é incompetente tudo o que foi feito, em tese, é nulo. Recomeça tudo no juizo competente.”
Em português claro: a Lava-Jato já era. Ou pelo menos, a Lava-Jato que o Brasil queria e precisava. Pegando pesado, pegando geral, pegando em todos os partidos, pegando os grandões. Teremos no máximo uma Operação Flanelinha... E sem gritaria da oposição. Nem podia ser diferente. Vários grandões do PSDB e do PMDB oposicionista também foram citados como corruptos nas delações premiadas.
Um repórter amigo, que sabe dos bastidores da investigação, descreveu o papel de Sérgio Moro como "estratégico" - um juiz que entende muito do lado processual, mas também do policial, e de crimes financeiros. Ele me zoou muito quando escrevi aqui, em março, um texto com o título "A Lava-Jato já acabou em pizza". Dei o braço a torcer quando esfregou na minha cara a prisão de Marcelo Odebrecht, quem diz que no Brasil rico não vai pra cadeia? Agora chegou minha vez de provocar ele. O grande estrategista foi pro escanteio.
Aleijar a Lava-Jato enterra de vez a conversa de impeachment? No jornal Valor Econômico, Maria Cristina Fernandes cravou: "o desmembramento antecipa a promessa de futuro de que o bloco do impeachment se faz portador. Os coveiros da Lava-Jato pavimentam a rota para a presidente chegar a 2018."
Mas política é uma coisa e economia é outra. Treze anos atrás, quando se batia dia e noite em Lula por causa do Mensalão, todas as classes celebravam o período de bonança. Agora é o contrário. As maiores empresas do Brasil estão muitíssimo mal das pernas. Têm dívidas impagáveis com os bancos, e muitas delas em dólar. Todos os indicadores sociais vão cair, até onde podemos ver.
Trocar Dilma e não trocar de política econômica não vai melhorar a vida do brasileiro em nada. Arrisca até piorar. Quem sabe que tipo de novo presidente um impeachment poderia trazer? Aventureiros no Brasil não faltam. Mas a ilusão de mudança pode ser intoxicante. Junho de 2013 está aí para nos lembrar.
Essa crise é a que importa. E está só começando.

Publicado em 24/09/2015 às 16:00

O Brasil precisa de uma lei obrigando ciclista a usar capacete

Haddad O Brasil precisa de uma lei obrigando ciclista a usar capacete

Fernando Haddad pedala usando capacete debaixo do Minhocão

Prefeitos de grandes cidades brasileiras vêm estimulando as pessoas a usar a bicicleta como meio de transporte. As próximas eleições municipais podem eleger gestores menos convictos de que a bike funciona para o transporte de massas.
Mesmo assim, está feito o estrago – ou o avanço, dependendo da sua visão das ciclovias. Entre muitos jovens, e também alguns coroas de espírito jovem, a bicicleta já foi adotada como meio de transporte do coração.
Qual a minha opinião? Não importa no momento. Acima da minha ou sua opinião está um fato inquestionável: andar de bicicleta nas grandes cidades é muito arriscado. Como de moto. Sobre duas rodas você sempre está muito mais exposto do que dentro do ônibus ou automóvel.
Foi por isso que anos atrás criou-se a obrigatoriedade do uso de capacete para os motociclistas. É uma lei que salva muitas vidas. O capacete tem custo. Custo maior é trincar o crânio, para a própria pessoa e para a sociedade.
Vale para motos, tem que valer para bicicletas. Uma coisa é pedalar por lazer num parquinho. Outra é usar como meio de transporte, se aventurando pelas avenidas engarrafadas das nossas cidades.
Mas podemos contar com o bom-senso dos ciclistas, né? Não podemos não. Como não podemos contar com a dos motoristas. Muitos continuam dirigindo alcoolizados, e para isso existe a Lei Seca. Muitos correm demais, e para isso existem limites de velocidade. O cinto de segurança só virou hábito quando virou lei com multa pesada. Contar com o bom-senso individual do ser humano não é uma boa estratégia – e é por isso que, usando nosso bom-senso coletivo, as sociedades criam leis, e punições para quem as descumpre.
A necessidade dessa lei me ocorreu quando vi uma foto de Fernando Haddad pedalando em uma ciclovia, no Dia Mundial Sem Carro. Usava um capacete amarelão. Uma pesquisada rápida mostrou Haddad várias vezes pedalando sem capacete, no passado. Alguém deve ter alertado o prefeito da barbeiragem. Agora ele só aparece usando capacete.
Dá o exemplo certo. Que é pouquíssimo seguido. De lá para cá prestei atenção. Uma em cada cinco das pessoas que vi usando as ciclovias paulistanas usavam capacete. E olha que vi muitos ciclistas descendo avenida a milhão. Não é pelo preço – tem capacete a partir de R$ 50,00. É porque o ser humano sempre acha que coisa ruim só acontece com os outros. E ainda mais se for jovem, a maioria dos ciclistas urbanos.
Pô, mas agora eu vou ter que usar capacete sem que sair de bike? Vai. E onde vou guardar? Problema seu. É uma restrição da sua liberdade de sair sem capacete, sentir o vento no cabelo e tal? É. Mas é para o seu bem.
Você pode acreditar que a bicicleta é uma boa alternativa para o transporte nas grandes cidades. Ou não. Pode defender a ciclovia ou atacar. Pode adorar Haddad ou detestar. Mas tem que ser a favor de uma lei obrigando o ciclista a usar capacete. E ainda mais se for ciclista.

Publicado em 14/09/2015 às 15:59

Dilma está certa

dilma 1024x682 Dilma está certa

Os Fundamentalistas das Finanças estão em polvorosa: presidente se nega a cortar gastos sociais! Irresponsabilidade fiscal! Primeiro vamos cortar na carne, depois vamos discutir aumento de impostos!
Já reparou como investimento que beneficia os mais pobres é sempre "gasto"? Esses Talibãs são radicais às custas dos outros. Eles defendem cortes, contanto que os cortados sejam a peãozada que mora lá na periferia. Os banqueiros exigem cortes, mas também exigem continuar com os lucros mais altos do mundo. Os empresários exigem cortes, mas não nos subsídios, não no apoio à exportação, não na Zona Franca, e nem pensar em reonerar as folhas de pagamento. O jornal estampa na primeira página a cobrantina, mas não abre mão da isenção fiscal na compra de papel. E por aí vai.
É fácil você defender que o governo pare de investir em casa própria para os pobres, hospital para os pobres e escola para os pobres quando você é rico. É fácil e imoral, mas pior ainda, é errado na prática e na teoria. Se você está morrendo de fome, a última coisa a fazer é regime.
É matematicamente impossível sair de uma crise econômica diminuindo o investimento público. É o que vem tentando Dilma, e é exatamente a que foi defendido por Aécio. Ela faz o que prometeu que não faria jamais: tarifaço, aumento de juros, recessão. A diferença entre os dois é sutil. Aécio anunciou que se vencesse, seu ministro da fazenda seria o dono de banco, Armínio Fraga. Joaquim Levy foi aluno de Armínio, mas não é banqueiro. Era funcionário do Bradesco: é bancário. Quem manda na economia é Dilma.
E nesse momento, sob imensa pressão, Dilma rejeita cortes adicionais nos gastos sociais. Defende o Bolsa Família, subsídios para construção de casas populares, aumento do salário mínimo, aposentadorias. Jogo de cena para a base petista? Pode ser. É pouco, perto do que o Brasil precisa? Claro. Temos cem milhões de jovens do Brasil, e eles precisam de um horizonte, e oportunidades para usarem toda essa energia - trabalhar, empreender, criar.
Mas ao resistir às pressões para cortar na carne dos pobres, Dilma denota mais sensibilidade social e inteligência econômica que os defensores dessa falsa "Austeridade", que é só outra maneira de dizer "transferência dos recursos do povão para os credores".
Brasileiro adora imitar americano. Essa é uma boa oportunidade. O país é a grande referência da economia do planeta. O dólar é a moeda mundial, e o Banco Central americano, o Federal Reserve, é o banco central dos bancos centrais.
Como o governo americano enfrentou a crise de 2008? Apertou o cinto? Fez o contrário. Obama afrouxou geral e seu governo saiu investindo. Fizeram igual os bancos centrais da Europa e do Japão. Inundaram a Terra de liquidez. Foi assim que o mundo sobreviveu ao tsunami, e o Brasil pegou carona e surfou uma marolinha. Barack também aproveitou para manter Wall Street desregulamentada, no que perdeu uma oportunidade de ouro, e pagamos o preço por isso.
Na época, até os banqueiros diziam: "agora somos todos Keynesianos". O que defendia Keynes, que a revista The Economist chamou de "o maior economista britânico do século 20"? Em uma frase, que a economia de um país não deve ser deixada ao sabor dos ventos do mercado, mas estimulada quando necessário com investimentos do seu governo, para garantir empregos e crescimento. Outra revista, a Time, decretou: "sua idéia radical de que os governos devem gastar dinheiro que não têm pode ter salvado o capitalismo". É o que todos os governos fazem, no século 21.
O orçamento do governo federal americano é US 3,9 trilhões. E eles gastam menos do que arrecadam, certo? Errado. Os EUA gastam muitíssimo mais do que é gerado pelos impostos: mais de 500 bilhões por ano! Quer dizer: lá pode ter déficit. Aqui, nem pensar.
E o governo americano investe dinheiro público na economia americana? Mas é lógico. De muitas maneiras diferentes. Subsídios para empresas, tem por lá? De monte. Dos governos federal, estaduais e municipais. Só para fazendeiros, são US 20 bilhões por ano. Para a indústria do petróleo, US 18,5 bilhões por ano. O subsídio mais escandaloso e horrível de todos: o orçamento das Forças Armadas americanas é US 642 bilhões por ano. Quase 4% do PIB.
Você pode amar ou odiar Dilma. Está equivocado nos dois casos. A política econômica de Dilma é errada no atacado, mas a presidente está certa ao defender os investimentos sociais. Para lidar com governantes há que usar a razão, não a emoção. Política demanda fiscalização e pressão. Há que usar o cérebro, não o fígado ou o coração - por mais tentador que seja.

http://r7.com/0qWH

Publicado em 02/09/2015 às 20:18

Um menininho morto, a falsa crise dos refugiados, e uma responsabilidade para o Brasil assumir

curdos1 Um menininho morto, a falsa crise dos refugiados, e uma responsabilidade para o Brasil assumir

Aylan tinha três anos. Era sírio. E era curdo. Sua família teve que fugir do norte da Síria, por causa de combates entre o Estado Islâmico e forças curdas. Já tinham conseguido sair de lá e chegado à Turquia.
Estavam em Bodrum. Uma cidade linda e muito antiga. Chamou-se Halicarnassos, no passado distante. Lá foi construído um palácio para um rei chamado Mausoleum, de onde, exato, veio a palavra "mausoléu".
Sei um monte de coisas sobre Bodrum, porque passei dias incríveis lá em 1999, mergulhando, tomando Arak, quarando no sol. Toda pinta de ilha grega, casinhas brancas, baladas fortes.
E porque era um menininho, nos corta o coração ver seu corpo jogado na praia. E porque eu estive por ali, vi sua morte de uma maneira mais doída. Sua e de toda sua família, inclusive um irmão de cinco anos.
Minha tendência seria pensar: seus idiotas, é só mais um, porque chorar por esse e não por todos os outros? Porque compartilhar o defuntinho, se você nunca fez nada para evitar isso? Para mostrar como você sofre com os sofredores? Mas a coincidência geográfica fez a questão pessoal.
A Síria é um campo de batalha onde interesses geopolíticos diferentes se digladiam, sob o manto de diferentes interpretações do Corão. O povo paga o preço - em sangue. São milhões de sírios desesperados para sair de lá, porque chovem bombas.
De todos os lados. E aliás chovem bombas americanas. Que também matam criancinhas inocentes. Hoje mesmo saiu uma reportagem do Mike Griglio, da Buzzfeed News, com evidências conclusivas sobre a responsabilidade do governo americano na morte de civis na Síria. O link está aqui.

http://www.buzzfeed.com/mikegiglio/the-us-led-coalition-bombing-syria-has-killed-more-civilians#.yeymRZwQg

Os sírios, como muitos outros povos pobres e perseguidos, querem refúgio e a chance de uma vida melhor. Naquele pedaço do mundo, isso se resume a duas palavras: União Européia. Os europeus e seus governantes se arrepiam com a perspectiva de uma invasão bárbara. Políticos populistas faturam com o medo do povão. Tem idéia quantos imigrantes ilegais devem ir morar na Alemanha este ano? 800 mil.
Os curdos têm ainda mais problemas. Porque não têm um país próprio. Porque não são bem-vindos na Turquia e aliás em quase nenhum canto do Islã, que dirá da Europa. Então restava atravessar aquele mar turquesa. Muitos conseguem. Alguns morrem.
Isso vai continuar acontecendo. A crise dos refugiados não é uma crise, porque essa palavra denota um problema temporário. É a nova situação normal: desgraçados do mundo fazendo qualquer coisa por segurança. As mudanças climáticas indicam que a situação vai se agravar muito nas próximas décadas, porque o cinturão em torno do Equador vai ficar tórrido, seco, estéril - e os muitos milhões que moram por ali, inclusive no sul da Europa, vão zarpar em busca de uma vida viável.
Naquele pedaço do mundo o desafio é entrar na União Européia. Nas Américas o Xangri-lá é ir para os Estados Unidos. Francamente, cabe a eles assumirem essa bucha. As barbaridades coloniais da Europa têm grande parte da culpa pela mortandade sem fim mundo afora, e ainda mais no Oriente Médio. Quanto aos EUA, bem, se Bush não tivesse invadido o Iraque com o pretexto de armas de destruição em massa que nem existiam, aquilo ali estava bem diferente - e aliás nem existiria o Estado Islâmico.
O Brasil não tem guerra civil. Mas às vezes até parece, de tanto assassinato e miséria, de tamanha insensibilidade dos poderosos com os frágeis. Quantos brasileiros não iriam morar no primeiro mundo hoje mesmo, se tivessem chance? Quantas criancinhas morrem de bala perdida e necessidade aqui mesmo na esquina?
Nos parece que o Brasil não tem no momento muito o que oferecer, verdade. Mas perto do que vive o povo da Síria, isso aqui é o paraíso na Terra. E embora o Brasil não tenha culpa nenhuma pela guerra lá, diferente de Europa e EUA, temos que assumir nossa responsabilidade. Pelo muito que os imigrantes sírios e seus descendentes contribuíram para o Brasil, pelo bem estar de outros meninos, temos obrigação de retribuir, e abrir nossas fronteiras a esses refugiados. E, francanmente, muitos outros. É um território enorme e enormemente desocupado. Não tem emprego pra todos? Olha, arrisca ser o tranco que o Brasil precisa para sair dessa marasmeira.
E seria uma coisa bonita de se dizer para o mundo: vinde a mim, desgraçados da Terra...

http://r7.com/3l5Q

Publicado em 28/08/2015 às 18:43

Como combater a desigualdade no Brasil (e quem vai pagar a conta)

Atkinson Como combater a desigualdade no Brasil (e quem vai pagar a conta)

Sir Anthony Atkinson: o maior especialista no combate à desigualdade

Tem muita gente falando de desigualdade social. E fazendo muito pouco. Falar é fácil. Agir é o que interessa. O Brasil tem tudo para liderar o planeta nisso. É nosso destino. Somos uma das maiores economias do planeta, com recessão e tudo. Mas a riqueza está quase toda concentrada em 0,5% da população. Esses nossos compatriotas super-ricos são os credores brasileiros da dívida brasileira. É quem está se dando bem com juros estratosféricos. Vão faturar firme em 2015. Pagam quase nada de impostos. São os únicos.
Não há como fazer o Brasil mais palatável para os 99,5% restantes sem reduzir os privilégios desses 0,5%. É assim aqui e em qualquer país. Justamente porque aqui a situação é tão insanamente injusta, a oportunidade é tão grande. Um pequeno enfrentamento fará uma enorme diferença.
Não se trata de crucificar os abonados nem santificar a pobreza. É só que o modelo concentrador de riqueza vem dando errado em todos os países. A formulinha de “austeridade” forçada, arrocho e tarifaço e desemprego, é o que levou a Grécia à beira do abismo. Não deu certo lá. Não deu certo na África, no leste Europeu, nos países da primavera Árabe... e não dará certo no Brasil.
Mas há alternativas à política econômica do FMI, que o governo do Brasil nos impõe há anos? Claro. Muitas. Algumas utópicas nos limites da esquizofrenia. Outras bem pragmáticas.
Um exemplo de pauta prática está no novo livro de Anthony Atkinson, “Desigualdade - O que Pode Ser Feito”, que chega agora ao Brasil pela Leya. É o maior especialista em desigualdade do mundo. Um senhor de 71 anos, formado em Cambridge, professor da London School of Economics, catedrático em Oxford. Atkinson estuda distribuição de renda desde os anos 60, quando Thomas Piketty usava fralda. Foi mentor de Piketty, aliás.
Por seu trabalho, Atkinson recebeu da coroa inglesa o título de “Sir”. É sempre citado como um dos nomes com grande chance de ganhar um Nobel de Economia. Vamos combinar que ele não é um amador abilolado. Nem um carbonário que pretende incendiar as instituições.
O livro de Atkinson não é trabalho acadêmico e não tem nada de impenetrável. Escreveu para ser lido por qualquer um. O foco é na situação do Reino Unido. Mas suas propostas podem ser adotadas no Brasil ou em qualquer lugar em que a população tenha culhões... e necessidade de mudança urgente.
O que podemos fazer hoje mesmo para criar um Brasil menos desigual? Mais próspero e pacífico? Que recompense a educação, a inovação, o risco? Como diminuir a diferença entre o rendimento do trabalhador e do empreendedor e o rendimento dos investimentos financeiros, responsável pelo abismo crescente entre a elite e os 99,5% restantes?
Atkinson elenca várias propostas. Seleciono quatro:
- Hoje há um grande desequilíbrio de poder entre o capital e o trabalho, entre empregadores e trabalhadores / consumidores. Precisamos de políticas públicas que diminuam a influência do capital.
- Os impostos devem ser progressivos. Quem ganha mais, paga mais. Tony prega que o 1% de super-ricos deve ser taxado em 65% de sua renda. No Brasil eles pagam 6,5% e a classe média alta paga 27,5%.
- Além do imposto sobre a renda, é preciso criar um imposto anual sobre o patrimônio dos mais ricos.
- Criação de um programa de renda mínima universal para crianças (esse já existe no Brasil, e precisa ser muito ampliado e reforçado: o Bolsa-Família).
Sei, são bem arroz-com-feijão. Mas só essas quatro bastariam para fazer um Brasil completamente diferente do que temos. Outras idéias do livro são mais inovadoras. E algumas podem soar estrambóticas, para quem está anestesiado pelo discursinho mercenário dos fundamentalistas das finanças.
Quer um exemplo? Atkinson defende que a inovação tecnológica precisa ser direcionada pela sociedade, através de políticas públicas, para que auxilie a geração de empregos e não o contrário. Parece evidente, mas pela grita contra a proposta de regulamentação do Uber, deve soar como blasfêmia bolchevique para os discípulos do vale-tudo.
Se Atkinson soa radical demais para você, releia o currículo dele, uns parágrafos acima. É um acadêmico respeitadíssimo, um reformista. Radical é quem quer um mundo em que só o capital manda e obedece quem tem juízo.
E repare quem concorda com ele. Há quase um ano atrás, em 14 de junho de 2015, o Fundo Monetário Internacional divulgou um estudo chamado Causes and Consequences of Inequality (Causas e Consequências da Desigualdade). Ele foi realizado pelos economistas do próprio FMI.
A principal conclusão: muitas das políticas promovidas pelo próprio FMI são danosas para os países. Exacerbam a desigualdade e prejudicam a produção, o consumo, o emprego.
O estudo defende que as políticas econômicas devem se concentrar em aumentar os salários e qualidade de vida dos 20% mais pobres da população. Aumentar a proteção dos trabalhadores. Estabelecer impostos progressivos (quem ganha mais, paga mais). E criar políticas públicas para reforçar a receita da classe média. O resumo deste estudo é: mais gente com dinheiro no bolso, mais gente consumindo, mais produção, mais emprego. Austeridade é bad for business...
Parece óbvio. E é mesmo. Vamos torcer para esses economistas do FMI não perderem o emprego - se Angela Merkel ler esse estudo, vão todos pra rua. O estudo defende o exato contrário do que a direção do próprio FMI pregou para a Grécia, e que o "mercado", essa vingativa divindade sem rosto, prega para o Brasil.
É preciso inventar à toda velocidade um futuro promissor para a humanidade – um que dê conta de mais 3 bilhões de pessoas, que estão chegando nos próximos 40 anos, e mudanças climáticas brutais. Para isso precisaremos ir bem além das recomendações de Anthony Atkinson, um pensador do século 20. Vamos ter que desbravar os domínios da ficção-científica, embalados por visões fantásticas, embriagados de imaginação.
Mas primeiro há que lidar com nosso medíocre presente, e para dar conta dele não é preciso voar tão alto. Basta pressão social e coragem coletiva. Estratégia na geopolítica e lábia na negociação. Ver, julgar e agir sem vícios. Parece muito? Perto dos desafios das próximas décadas, é só um primeiro - e pequeno - passo.

http://r7.com/_Vjq

Publicado em 28/08/2015 às 17:35

Eu apareço demais nesse documentário. Mas você deve assistir mesmo assim

sem dentes Eu apareço demais nesse documentário. Mas você deve assistir mesmo assim

Sou mais que suspeito para falar de Sem Dentes, o documentário sobre o selo Banguela e o rock brasileiro dos anos 90. É dirigido pelo jornalista Ricardo Alexandre, que conheço desde aquela época, e o personagem principal é o Miranda, com quem eu já trabalhava antes disso tudo. Sou velho amigo dos dois. Não fosse isso, apareço no documentário – mais do que mereço pela minha parte nessa história. Mas quem sou eu para reclamar de aparecer demais...

Que tal ver o que os outros andam dizendo do documentário? A Rolling Stone disse que é “um bom retrato do período de insurgência dos independentes”. Alexandre Matias teceu loas no UOL, e melhor elogio, disse que é “hilário”. Eu digo que faltou maldade. Mas sendo Ricardo e Miranda, não tinha como o documentário não ser dominado pelo afeto, porque os dois são uns bonzinhos. Malacos, mas bonzinhos.

O filme revisita a cena roqueira da metade dos 90. Aquela geração: Raimundos, Skank, Nação Zumbi, Mundo Livre, Planet Hemp, Pato Fu e tantos outros. O eixo é o Banguela Records, selo dos Titãs com a Warner, idealizado e dirigido pelo Miranda. Mas o doc vai além. Vai a festivais como Superdemo, Abril pro Rock e Juntatribo. Conta causos, revela segredos. Captura o sabor da época, um tempo em que estávamos embriagados de independência. E relembra uma safra incrível de caras novas tomando a MTV e as FMs e enterrando o rock dos anos 80 – ou pelo menos era o que eu pensava que ia acontecer, mas estava bem enganado...

Assista. Se você não estava lá, não vai acreditar que o Brasil teve uma cena assim. Se estava, meu, é o puro sabor da juventude, quando a gente achava que dava para armar umas paradas boas. E dá, claro.

As novas datas de exibição de Sem dentes: Banguela Records e a turma de 94 são as seguintes:

  • 03 SET MARINGÁ, PR . CINEFLIX
  • 12 SET LIMEIRA, SP . TEATRO ESCOLA DANIEL MARTINS
  • 12 SET TAUBATÉ, SP . SESC
  • 12 SET CAMPINAS, SP . MIS
  • 18 SET SÃO PAULO, SP . CINE OLIDO
  • 25 e 26 SET VOLTA REDONDA, RJ . CINE-TEATRO GACEMSS
  • 02 OUT PARATY, RJ . MIMO FESTIVAL
  • 08 OUT BRASÍLIA, DF . CINE BRASÍLIA
  • 09 OUT RECIFE, PE . MOSTRA PLAY THAT MOVIE
  • 15 OUT FLORIANÓPOLIS, SC . TALIESYN ROCK BAR
  • 20 OUT NATAL, RN . CIENTEC UFRN
  • 24 OUT ANGRA DOS REIS, RJ . CENTRO CULTURAL THEOPHILO MASSAD
  • 29 OUT RIO DE JANEIRO, RJ . CINE ODEON

 

Publicado em 28/08/2015 às 15:39

Conheça os super-ricos brasileiros – e saiba como você financia a fortuna deles (Como diminuir a desigualdade, parte 1)

Super Ricos Conheça os super ricos brasileiros – e saiba como você financia a fortuna deles (Como diminuir a desigualdade, parte 1)

Os ricos do Brasil são muito mais ricos do que você imagina. São super-ricos. E ficam mais e mais ricos a cada dia que passa. Existem duas razões principais para isso. Os impostos da classe média e dos pobres vão para o bolso dos ricos. E os ricos pagam menos imposto que a classe média e os pobres.

Só agora a gente está entendendo quem são os super-ricos do Brasil. A análise tradicional, feita com as pesquisas do IBGE, não dão conta da realidade. Um novo estudo realizado pelos economistas Rodrigo Orair e Sérgio Gobetti, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), chega mais perto. Eles  analisaram os dados das declarações de imposto de renda das pessoas físicas. As conclusões são chocantes.

Segundo o IBGE, a renda média do 1% mais rico do país foi de R$ 214 mil em 2012. Mas segundo o estudo do IPEA, a renda anual do 1% mais rico é aproximadamente R$ 575 mil. Explicação: o IBGE não capta toda a renda das pessoas mais ricas, que tem muitas rendas provenientes do capital (como aplicações financeiras, aluguéis, lucros e dividendos).

R$ 575 mil já é uma boa grana: mais de R$ 40 mil por mês. Mas esses 1% ainda não são a elite. Os super-ricos do Brasil ganham acima de 160 salários mínimos por mês. São 0,05% da população economicamente ativa.

Os super-ricos brasileiros possuem um patrimônio de R$ 1,2 trilhão. Isso é 22,7% de toda a riqueza declarada por todos os contribuintes do Brasil. Essas 71.440 pessoas têm renda anual média de R$ 4.17 milhões, uns R$ 350 mil por mês. Tiveram em 2013, ano analisado pela pesquisa, um rendimento conjunto de R$ 298 bilhões.

E em 2015? Não sabemos, mas é seguro dizer que estão bem mais ricos que em 2015. Quem tem muito capital investe e recebe rendimentos financeiros enormes. Os juros no Brasil são sempre muito altos, mas agora estão estratosféricos. Trabalhar não tem nada a ver com a fortuna crescente dessa turma. Neste nível de renda, trabalha quem quer, não porque precisa.

Qual o negócio mais lucrativo e seguro do Brasil? Emprestar dinheiro para o governo. No Brasil, como na maioria dos países, as contas públicas não fecham no final do ano. Se você tem muita grana, não precisa de criatividade para enriquecer mais e mais. Basta comprar títulos públicos do governo, que paga juros altíssimos para financiar sua dívida. E de onde vem esse dinheiro para pagar os juros? Do Tesouro Nacional, dos impostos que todos os brasileiros pagam.

Mas alguns pagam mais que outros. O detalhe mais cruel sobre a desigualdade brasileira está aí. Os super-ricos brasileiros, esses que ganham mais de 160 salários mínimos por mês, pagam só 6,51% de sua renda de imposto de renda. Você leu certo. Um assalariado que ganhe R$ 5 mil por mês paga 27,5% de imposto de renda. A elite paga 6,51%, como demonstra o estudo do IPEA.

Como isso é possível? É que 65,8% da renda total desses super-ricos são rendimentos considerados isentos e não-tributáveis pela legislação brasileira. É o caso dos dividendos e lucros. Na prática, o imposto de renda aqui só é progressivo do pobre até a classe média, que é justamente a fatia da população que mais paga imposto de renda. É uma receita perfeita para aumentar cada vez mais a desigualdade social no Brasil. É garantia de injustiça, ignorância, violência. E até de atraso em outros campos. Se fala muito que o Brasil tem pouca inovação tecnológica, mas quem vai arriscar capital investindo em inovação, se você pode faturar com juros altos e não pagar quase nada de imposto?

Essa bizarria cruel é criação brasileira. Todos os países decentes, sejam ricos ou emergentes, tributam todos os rendimentos das pessoas físicas. Não interessa se a renda do salário, de aluguel ou de dividendos. É o justo. É o mais eficiente para o bom funcionamento dos países.

O estudo do IPEA não captura com precisão absoluta a pirâmidade social brasileira. Não dá conta de dinheiro escamoteado, de caixa 2 ou remessas enviadas ao exterior. Mas já dá uma noção do tamanho do escândalo. Agora, como é focado no Imposto de Renda, não leva em consideração outra grande injustiça do nosso sistema tributário, que são os impostos indiretos.

Os super-ricos pagam o mesmo imposto sobre produtos que você, eu ou a vovó que recebe Bolsa Família. Pagam o mesmo imposto pelo arroz, o café, o remédio, o fogão. Isso significa que proporcionalmente o pobre paga muito mais imposto a classe média. E infinitamente mais que a elite.

Os super-ricos não são os vilões dessa história. As regras estão aí para beneficiá-los. Não é ilegal. Certamente há na elite gente que topa abrir mão de suas vantagens, em benefício de quem mais precisa... Mas, como era de se esperar, existem super-ricos que atuam diretamente para que esse estado de coisas continue exatamente assim: juros altíssimos e taxação mínima. Basta isso para os donos do capital ficarem mais e mais ricos a cada ano que passa, sem trabalho, sem esforço, sem contribuir para o país.

Os super-ricos têm muito poder. Influenciam muito no debate político e econômico. Abundam na imprensa argumentos a favor de que as coisas se mantenham como são. E são super-ricos os financiadores das campanhas da maioria dos políticos, claro.

A recessão radicaliza a injustiça. Penaliza o trabalhador e o empreendedor, o importador e o exportador, o estudante e o aposentado. Esta recessão não veio do espaço sideral. Foram tomadas decisões erradas no passado? Claro, muitas, desde 1500. Mas não dá para mudar o passado. O futuro felizmente está ao nosso alcance.

Esse ano e os próximos serão muito difíceis. O cenário internacional é hostil. O cobertor está curto. É imoral e improdutivo continuar enriquecendo 0,5% com o dinheiro dos impostos dos 99,5%. Enfrentar os privilégios dos super-ricos é a pauta política e econômica fundamental de 2015 e dos próximos anos. O resto é resto.

Publicado em 19/08/2015 às 10:25

A Batgirl que eu conheci

Em 1995 vivi uma das maiores emoções da minha vida. Vai me chamar de nerd bestalhão? Quando eu crescia não existia esse negócio de nerd. Não gosto a22 A Batgirl que eu conhecidessa palavra. Curtir — e curtir de verdade — ficção científica, seriados, quadrinhos e companhia era simplesmente uma coisa muito bacana. E continua sendo.
Eu comecei nessa vida com Batman. Antes de aprender a ler, e aprendi muito cedo com minha mãe, tenho lembrança de ver o seriado. Eu levava a sério porque os mocinhos levavam a sério. Aqueles bandidos surreais com seus planos mirabolantes — e nossos heróis espalhando comentários edificantes (e socos com BLAM! POW! BIFF!).

Batgirl mais ainda. Era bibliotecária, moça seríssima, filha do Comissário Gordon. E de repente a penteadeira dela virava e disparava em sua motoca a deliciosa Batgirl.

Quando apareceu? Um belo dia. Hoje sei que foi invenção dos roteiristas para enfrentar os comentários que Batman e Robin eram um casal homossexual (coisa que nunca me passou pela cabeça na época. É tese dos anos 50, do livro A Sedução dos Inocentes, e me parece igualmente furada hoje. Batman e Robin são obviamente pai e filho, e hoje são de fato nos quadrinhos).

A TV era preto e branco. Muitos anos depois vi Batgirl em seu esplendor púrpura radiante. Em cinza já era  matadora. Que gata. Rosto delicado, curvas letais. Mais gata só Julie Newmar. Mas a Mulher-Gato só dava as caras de vez em quando, e a Batgirl começou a aparecer em todos os capítulos.

As meninas da época escolhiam quem queriam ser quando crescer: Batgirl ou Mulher-Gato, a Feiticeira ou Jeannie. Os meninos tinham opção mais fácil: paixão por todas.

E nos anos seguintes eu brincava de encontrá-las em outros seriados. Olha aqui a Yvonne Craig no Cyborg! No James West! É ela mesmo debaixo dessa maquiagem verde em Jornada nas Estrelas?

yvonne3 A Batgirl que eu conheci

Em 1995 eu estava na Comic Con com meu amigo e sócio, Mauro Martinez dos Prazeres, da Devir. Já era um grande evento da cultura pop, mas ainda bem focado em quadrinhos, não esse monstro multimídia de hoje. Nunca fui de pedir autógrafos e nem Mauro. Não resistimos. Autografavam Adam West, Julie Newmar e Yvonne Craig. As duas primeiras fotos estão na parede da minha sala: Batman e Mulher-Gato, com dedicatórias. A da Batgirl publicamos na revista Herói e sumiu na redação há muitos anos.

Adam já era velhinho, ou me pareceu — eu tinha 30, qualquer um acima de 50 era coroa pra mim. Julie se mantinha charmosa e ronronou, juro, me chamou de darrrrrling. Yvette não era relíquia: era uma morena bonita. Um pouco mais cheinha que na minha infância, mas os olhos puxados e o meio sorriso estavam lá.

Morreu agora aos 78 anos. Quando me olhou nos olhos tinha 58. Hoje eu é que tenho 50. A vida passa rápido. As paixões da infância são para sempre.

yvonne21 A Batgirl que eu conheci

Um dos textos que eu mais curti escrever na vida, e um dos mais elogiados por gente que gosta do que eu gosto: porque não sou nerd.

E outra versão da mesma história, agora sobre meu outro amor de infância, Julie Newmar.

Publicado em 17/08/2015 às 16:06

99% dos brasileiros não foram às ruas contra o PT. Está na hora de ouvir o que eles têm a dizer

Impeachment 99% dos brasileiros não foram às ruas contra o PT. Está na hora de ouvir o que eles têm a dizer
Quase um milhão de pessoas foram às ruas este domingo pedir o impeachment de Dilma Rousseff. Bastante gente. Menos que parece. Somos 204 milhões de brasileiros. Mais de 99% dos brasileiros ficou em casa. Estão certíssimos. Aliás estamos. Também não fui gritar contra o PT. Ausência não significa aplauso. Muito pelo contrário.
A crise econômica chegou com tudo. Pega nossas famílias, vizinhos, amigos. A fábrica, a fazenda e a start-up. Está pegando geral. A situação internacional não ajuda, mas as causas principais são locais mesmo. A Operação Lava-Jato é ótima, mas na prática tirou uns R$ 50 bilhões da economia. E a política recessiva do governo. Que de ótima não tem nada.
Até José Serra está metendo o pau. Em entrevista ao jornal “Valor Econômico”, o senador tucano surpreendeu ao dizer que a política de ajuste é “burra” e “aprofunda o desajuste”, que a política monetária cambial é “uma insanidade”. Fácil falar isso quando se está na oposição. Mas a facilidade não quer dizer que não seja verdade.
Brasileiro é ignorante. Nos falta formação e informação, porque aqui faltou e falta escola. Somos bem burrinhos na hora de defender coletivamente o nosso. Mas individualmente o brasileiro é bem esperto quando se trata de defender o seu.
Seu João Brasileiro e dona Bete Brasileira sabem que trocar presidente não bota feijão na panela nem quita a conta do celular. Lembram que Aécio e Marina propunham exatamente essa política econômica que hoje Serra critica e a presidente pratica (embora Dilma tenha prometido ano passado que não ia governar para os bancos, e sim para o povo brasileiro. Essa parte todo mundo lembra especialmente bem).
Nossos compatriotas também têm perfeita clareza que um impeachment de Dilma põe no Planalto Michel Temer. O vice-presidente defende essa mesma política recessiva. Levaríamos ao poder o PMDB, partido com um mundo de casos de corrupção.
Quando estouraram os primeiros escândalos envolvendo o PT a vida melhorava ano após ano. Assim se reelegeu Lula e se elegeu Dilma. Política é assim mesmo, concluía o sábio brazuca, e votava com o bolso.
Mas agora que todos sofremos com as consequências dessa política econômica, da operação Lava-Jato, da paralisia em Brasília, o brasileiro faz uma ligação diferente. É assim: "estamos nessa roubada porque os políticos roubaram tanto, que quebraram o país". Se não é verdadeiro, é bem dito, como se diz na Itália. É a economia, estúpido, não a política.
Temos essa parcelinha dos brasileiros que quer tirar o PT do poder a qualquer preço. Alguns até defendem isso ao preço da nossa própria democracia, tão falha, tão frágil. E uma meia-dúzia ainda defende cegamente Lula e Dilma. Para esses todo opositor é coxinha, todo jornalista é canalha, todo crítico é golpista. São minorias míopes. Dominam o debate numa gritaria inócua e interminável. Chega, né?
Brasileiros de todas as camadas vão dando as costas a esse maniqueísmo maníaco. O povão que ficou em casa em vez de gritar contra o governo. E semana passada vimos empresários, banqueiros e companhia pedindo calma e exigindo estabilidade. Há que baixar a bola para poder manter o olho nela.
Escrevi aqui em maio que se continuarmos nessa toada, o Brasil é a próxima Grécia. Vamos quebrar e quebrar feio. Agora ficou evidente. Essa política econômica é ruim para todo mundo.
Os 99% que não foram para as ruas falaram. O que eu ouvi foi: nós não somos contra o PT. Nem o PSDB e nem o PMDB. E muito menos a favor. Nós somos contra a corrupção, seja qual for o partido. Somos contra essa política econômica que causa recessão e inflação. Queremos sossego para trabalhar, empreender, criar nossos filhos e curtir nosso domingão. Queremos menos politicalha e mais pragmatismo. Para ontem.
É querer muito? É exigir o mínimo. Político tem obrigação de ouvir a voz das ruas. Mas dessa vez o grito mais alto veio de quem ficou em casa.

Publicado em 07/08/2015 às 15:55

O que uma banda de rock tem a oferecer depois de 37 anos?

Duran Duran PG 2 1 1024x576 O que uma banda de rock tem a oferecer depois de 37 anos?

Ouvi muito e ouço sempre o último disco do Duran Duran, "All You Need Is Now", de 2010 - já? Foi o primeiro trabalho em duas décadas com o espírito da banda: pop urgente e glamuroso, dançável e existencial, quente e glacial. Obra do produtor Mark Ronson, fã deles desde criancinha. Como eu, que sou desde 1981.

Em setembro finalmente chega o próximo, Paper Gods. O primeiro single está na rua, "Pressure Off". Traz a voz de Janelle Monae e a guitarra fina de Nile Rodgers, que produziu o álbum "Notorious", lá nos anos 80. Olha ele aí, mr. Simpatia, nos bastidores da produção da faixa.


O Duran Duran ao vivo é maravilhoso. Nos estúdios, o histórico é irregular. Todo disco tem umas boas, às vezes inesquecíveis, e quase todo disco é cheio de tropeços. Essa não é divina, mas funciona. Nile honra seus riffs mais deliciosos no Chic. É um dos produtores do álbum, com Mark Ronson e Mr. Hudson, produtor de Kanye West.

O baixista John Taylor fundou o Duran Duran em 1978 com o objetivo de ser "uma mistura de Chic e Sex Pistols". Não conseguiu, mas fez bonito, e continuam fazendo - 37 anos depois.

Publicado em 04/08/2015 às 09:04

Crise no clima: a América queima. Mas o futuro é muito mais assustador

paolo bacigalupi 300x195 Crise no clima: a América queima. Mas o futuro é muito mais assustador

Tempestades de areia. Violência fora de controle. Infraestrutura urbana em pedaços. Refugiados arriscando a vida para atravessar fronteiras. Síria? Congo? Não, Estados Unidos. Basta que uma coisa aconteça: que as mudanças climáticas que afetam os EUA em 2015 continuem nas próximas décadas, como preveem os cientistas. E que continuemos todos  fazendo que o aquecimento global não é com a gente - eu, você, o empresário, o presidente.

A realidade reverbera na ficção. Manchetes dessa semana: incêndios e enchentes assolam a Califórnia; tornados destróem no meio-oeste; Obama lança novo (e tímido) plano para reduzir a emissão de CO2, imediatamente bombardeado pelos seus opositores republicanos e lobbies do setor energético.

É na América e em todo lugar. Notícia do Japão: 25 morrem por causa do calor. Notícia do Brasil: inverno infernal, 25 graus à sombra, e continuamos com a torneiras secas na cidade mais rica do país. Vai piorar.

Nada é tão realista quanto um romance. Quer ver o que o futuro nos reserva? The Water Knife responde com sangue nos olhos. É um thriller violentíssimo, que honra "Chinatown" e "Era uma Vez No Oeste"  tanto quanto suas evidentes inspirações na ficção científica, William Gibson, Bruce Sterling, Neal Stephenson.  Estamos na distopia, mas não no apocalipse. Nada de fantasias brucutu a la "Mad Max". Paolo Bacigalupi busca tanto eletrizar quanto informar, o que não se faz em um vácuo voyeurista.

The Water Knife significa "Faca de Água". É uma profissão: gente especializada em cortar o fornecimento de água de quem não tem como pagar - pessoas, bairros, cidades inteiros. Custe o que custar, pelo lucro do dono da água.

Estamos no Terceiro Mundo, século 21, USA-style. No que restou da cidade de Phoenix, no Arizona, onde o clima sempre foi inimigo do homem. No século 20, a tecnologia levou água e com ela fartura a esse território empoeirado. No 21, o aquecimento global seca mananciais e faz os desertos mais desertos. Arizona, Texas, Novo México se esvaem em areia. Na costa não está melhor: cidades costeiras com recursos constróem diques para conter a subida do nível da água e tufões mais e mais violentos. Quem não pode afunda - Miami é tomada pelo mar. New Orleans, por um furacão bem maior que o Katrina.

A principal fonte de água doce de Phoenix vinha das montanhas rochosas, bem longe. A Califórnia, mais rica, quer ficar com essa água. Las Vegas é paraíso fechado, condomínio-fortaleza para ricos. Milhões penam.  O sul seco dos Estados Unidos se despedaça.

A briga pela posse dos direitos da água envolve capitalistas cowboys, corporações chinesas, políticos corruptos. E os Narco States, o norte do antigo México, uma nação controlada pelos traficantes, como já começa a ser hoje.

Sociedades que apodrecem geram vermes e abutres. Onde há lucro possível com o sofrimento alheio, o homem cede aos seus instintos mais baixos. Faço o que faço porque é a única maneira de sobreviver. Se não for eu, um outro fará. É a moralidade que resta, e quem a ela não adere é louco perigoso. Como diz a personagem Maria, uma jovem órfã texana que vive de vender copos de água, gente que "não vê o mundo como ele é, tem olhos do passado".

The Water Knife tortura seus personagens até a última página - e além. Bacigalupi descreve um cenário doloroso porque convincente.  O livro devia ser leitura obrigatória para os adolescentes do planeta Terra. E eles iam gostar bastante, porque educação sem sermão, e tenso e sexy, também. É o mundo que deixaremos para eles. Adoraria ler algo parecido sobre o Brasil, onde as previsões começam com o Nordeste se tornando um deserto do Saara e milhões de nordestinos migrando para o Sul - e aí pioram bastante. Quando? Nossos netos verão.

O autor já ganhou os principais prêmios da Ficção Científica, o Hugo e o Nebula. Encerra o livro com uma lista de referências onde o leitor pode se informar mais sobre mudança climática. Mas esse livro não é para leitores de ficção científica. É sobre o presente. E como precisamos mudá-lo.

O aquecimento global está aí, inquestionável, nas manchetes do dia. Impõe nossa reinvenção energética. Força um realinhamento econômico global. Desafios que estão muito além da mera inovação tecnológica. E do voluntarismo estéril das campanhas estilo "cada um tem que fazer a sua parte."

Minorar os efeitos mais cruéis do aquecimento global exige enfrentamento político. O autor sabe disso e não acredita em mudança fácil. Paolo Bacigalupi aposta no poder inspirador da informação e da emoção. É o único caminho. Tempos quentes exigem cabeças frias e corações fervilhantes.
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Leia aqui o primeiro capítulo de The Water Knife.

http://www.wired.com/2015/05/water-knife-excerpt/

Califórnia queima 300x156 Crise no clima: a América queima. Mas o futuro é muito mais assustador

Publicado em 31/07/2015 às 17:59

Falta muito ao governo Dilma. Mas sobram R$ 5 bilhões para jogar na latrina

 Falta muito ao governo Dilma. Mas sobram R$ 5 bilhões para jogar na latrina

Nos próximos dias o Ibope vai divulgar o seu Índice de Confiança Social, como faz desde 2009. José Roberto Toledo adianta em sua coluna no Estadão o resultado. Presidência e congresso empatarão na falta de prestígio: 78% dos brasileiros não confiam nessas duas instituições. Recorde de baixa nos dois casos.
Como poderia ser diferente? Dilma descumpre o que prometeu na eleição. Faz a exata política econômica proposta por Aécio Neves. Promove tarifaço, recessão e alta de juros. Crédito evaporou. Produção e varejo estão paralisados. A arrecadação cai, o déficit explode. Deu errado na Grécia, está dando muito errado no Brasil.

Enquanto isso, o governo comemora "economia" na compra de 36 aviões de caça da Suécia. Negociou para abaixar os juros do negócio. Com isso o Brasil economizará R$ 600 milhões. "A presidente Dilma ficou satisfeita com a negociação bem sucedida", disse o ministro da Defesa, Jacques Wagner. O projeto total está orçado em R$ 5 bilhões.

O Brasil corta investimento em escola, hospital, segurança, aposentadoria, salário-desemprego. Mas temos R$ 5 bilhões sobrando para importar aviões de caça, para "proteger nossas fronteiras"?
No mesmo dia em que o governo comemorava essa maravilha de desconto para a compra dos caças, lançava também uma nova plataforma digital para melhorar a comunicação com a sociedade. É o "Dialoga Brasil". Através desse site as pessoas podem dar opiniões e sugestões para a presidência da República.
No lançamento, Dilma disse que para melhorar seu governo é preciso uma "parceria com a sociedade". Afirmou para uma platéia de simpatizantes que "é muito difícil governar um país da dimensão do país sem ouvir as pessoas." Segundo ela, os três eixos são: "O que dá para melhorar no que estamos fazendo? O que a gente deve introduzir nos programas de governo? E o que é possível fazer que ainda não vimos?"
O que é possível fazer? Focar no essencial. Avião de caça, num país sem guerra nem inimigos, é a própria definição do supérfluo. Quer provar que ouve os brasileiros, sua excelência? Começa cancelando esse negócio com a Suécia, que tal?
O Brasil tem longa tradição de políticos que defendem o diálogo mas praticam o monólogo. Dilma vai além. Pedir "parceria com a sociedade”, no mesmo dia em que se confirma a compra desses caças, R$ 5 bilhões nossos jogados na latrina, já não é mais falta de sensibilidade política. É falta de respeito.

Publicado em 23/06/2015 às 16:27

Quando é mais importante ler: a liberdade infinita da literatura juvenil

magic book Quando é mais importante ler: a liberdade infinita da literatura juvenil

Existem livros mágicos. Quem lê um deles vai para sempre acreditar no poder mágico dos livros, do livro. "Harry Potter e a Pedra Filosofal" é um dos mais impressionantes. A escala e a velocidade de seu sucesso sugerem alquimias secretas. O jovem bruxo não se materializou por encanto. Mas gerou um furacão inesperado. Fez do segmento "livro juvenil" o mais quente da indústria editorial. Com consequências no cinema, no merchandising, nos videogames e na TV.

Mas que é um livro juvenil? Até recentemente, a indústria do livro dividia a literatura em dois grupos principais, "adulta" e "infantil" (ou "infanto-juvenil", outro nome, mesmo significado vago). Neste último segmento, agrupava álbuns coloridos para nenês e tijolos de 700 páginas. Para fazer uma ideia: em dezembro de 2001, a revista "Publisher's Weekly", bíblia do mercado editorial, publicou a lista dos 276 livros infantis que venderam mais de 1 milhão de cópias nos EUA. O mais vendido é "Charlotte's Web", de E.B. White, criadora do ratinho Stuart Little. Em seguida, vem "Outsiders", escrito aos 18 anos por S.E. Hinton e filmado por Francis Ford Coppola. Nada a ver um com o outro.

Cabe de tudo na lista. Das Tartarugas Ninja a gente como Dr. Seuss ("O Grinch"), R.L. Stine (da coleção de terror juvenil "Goosebumps") e Roald Dahl ("A Incrível Fábrica de Chocolate"). No Brasil também se mistura banana com laranja. Vi listas de best-sellers infanto-juvenis com "1984" e "A Revolução dos Bichos", de George Orwell, e "Admirável Mundo Novo", de Aldous Huxley, ao lado de Cinderela e Cebolinha.

O escritor de ficção-científica Thomas M. Disch diz que os bons autores de livros para adolescentes devem manter a clareza e a inocência de garotos sabidos como Peter Pan. Chama Neotenia. É como os biólogos batizaram a retenção de características imaturas ou larvais no estágio adulto. Para Disch, "os jovens não são seres inferiores, nem miniadultos. São apenas diferentes dos adultos". Têm outras necessidades, outros interesses, outro humor, menos respeito pelo passado, muita curiosidade sobre o futuro, pouca paciência com regras que não criaram, imaginação fértil e muita pressa.

O homem é uma espécie que conta histórias, conta o biólogo Steven Pinker. Para ele, a criança que se encanta com um conto de fadas está fazendo uso de uma herança genética da humanidade. Pinker defende que essa capacidade é uma vantagem evolutiva. Em todos os cantos do planeta, as linguagens são divididas em objetos e ações: substantivos e verbos. Elas nos permitem transmitir informações sobre o que vai acontecer depois, organizando fatos numa sequência temporal.

Não há maneira melhor de transmitir informação densa do que por meio de uma história. Por isso elas têm poder. E os livros incorporam esse poder. Cada livro lido nos muda. Passa a fazer parte da nossa história pessoal. A sequência das obras lidas por cada um é única, pessoal e intransferível. A adolescência é nosso período de liberdade máxima como leitores. Já temos repertório e ambição suficientes para encarar qualquer "lista telefônica". E não temos, ainda, as obrigações sociais que fazem de boa parte da leitura madura um tedioso desfile de manuais (como dar um jeito na economia, na carreira, escolher o vinho, diminuir a barriga etc.). É um castigo que já começa com as leituras obrigatórias para o vestibular (a maldição de "Iracema"). O problema é que se o adolescente não se apaixona pela leitura, nunca mais. É a idade em que é mais importante ler ficção.

O psicólogo Jean Piaget defendia que, nessa fase, "o ser humano está tentando dominar os elementos que lhe faltam para a razão adulta. Precisa aprender a lidar com ideias abstratas e, por isso, precisa ler livros que lidem com abstrações". Deve, portanto, ler histórias fantásticas e selvagens. Quando você não sabe exatamente do que é capaz, precisa de horizontes distantes e ideias desafiadoras. Exige viver aventuras perigosas que testem seus limites. É por essa razão que todo leitor, nessa fase, adora se apossar de livros escritos para adultos. Pode ser uma velharia desbeiçada e empoeirada da estante, herança do irmão mais velho ou do avô.

Qualquer leitor esperto de 13 anos digere numa boa um best-seller típico, que muitas vezes é um livro juvenil para adultos, disfarçado. E quem já passou dos 50 e não leu Sidney Sheldon, Danielle Steel, Irving Wallace ou Morris West no ginásio que atire a primeira pedra. A adolescência também é o momento em que alguns de nós se apaixonam perdidamente por gêneros — principalmente, o policial ou a ficção científica. Com duas vantagens. Uma, você sempre tem uma noção do que te espera. Outra, você tem a história inteira do gênero à sua disposição. Quem se apaixona por Agatha Christie vai descobrir Georges Simenon e Raymond Chandler. Quem fica louco por Isaac Asimov acaba encontrando H.G. Wells e William Gibson. Tipo da paixão que bate e fica. Nenhum desses autores buscava o leitor juvenil. Nem os grandes autores de aventura, como Robert Louis Stevenson e Jack London. Zorro, Drácula, Sherlock Holmes, Conan e o Capitão Nemo foram criados para a diversão de pais, não de filhos. Deram origem e foram parcialmente substituídos pelas histórias em quadrinhos e, mais recentemente, pelos jogos eletrônicos. Essas obras continuam clássicas e são lidas até hoje.

Os romances escritos especificamente para adolescentes são diferentes e muito fáceis de reconhecer. São estrelados por garotos e meninas da mesma faixa etária do leitor, saindo de seu cotidiano e adentrando um universo desconhecido. Enfrentam bruxas, desvendam conspirações, escondem-se em foguetes, lideram piratas. Muitas vezes, também sofrem e sangram. Alguns apresentam universos paralelos para onde o leitor adoraria se mudar, ou de onde ele fugiria voando. Os melhores apresentam as virtudes e desvantagens de cada lado do espelho, com os protagonistas simultaneamente abraçando e rejeitando os dois campos opostos. Exatamente como o adolescente, que mantém um pé na infância enquanto dá um passo maior que as pernas em direção à maturidade. O maior clássico juvenil desse tipo é "O Apanhador no Campo de Centeio", de J.D. Salinger — melhor se lido até os 15 anos e relido periodicamente depois disso.

A inglesa Joanne Kathleen Rowling, criadora de Harry Potter, escreve livros assumidamente juvenis e é o paradigma do segmento. Soube combinar muito bem duas vertentes tradicionais da literatura de seu país: os livros que se passam em internatos e a paixão pelo ocultismo. Aventuras divertidas em colégios internos rígidos são populares na Inglaterra há muito tempo. O crítico inglês Francis Spufford tem uma boa explicação para o sucesso desses livros. As escolas internas são "cidades de crianças". Não há pais por perto. São um espaço de liberdade, onde as regras —justamente por serem externas e impostas— podem ser quebradas ou enfrentadas, sem culpa. O que importa são as regras de convivência estabelecidas pelas próprias crianças: como aprendemos a conviver com nossos semelhantes e diferentes. Inclusive o garoto riquinho e metido da turma inimiga, o velho mestre misterioso, a professora insuportável e a garota tapada. É por isso que Harry e seus leitores adoram o colégio Hogwarts. Esses livros de internato fazem parte do que Spufford chama de "estágio da cidade", quando o jovem leitor passa a se interessar por livros que exploram a convivência realista entre as pessoas. Seja numa fazenda, numa ilha secreta, num vilarejo do velho oeste ou num internato. Na Inglaterra, essas obras exploram também a relação entre as classes sociais.

O ambiente escolar é a única grande diferença entre Harry e o personagem Tim Hunter, criado por Neil Gaiman, em 1990, na minissérie em quadrinhos "Os Livros da Magia". Tim é um garoto órfão, míope, tímido e moreno, de 13 anos. Um dia é levado para conhecer o universo da magia. Se cumprir seu treinamento, poderá se tornar o maior mago do universo. Ganha um mascote/totem para sua jornada: uma coruja, símbolo da sabedoria secreta. Bem parecido com Harry, que só estreou sete anos depois. Gaiman garante que Rowling não plagiou sua criação, mas se inspirou na mesma fonte que ele: a tradição mágica britânica. Há desconfianças de que que houve acordo entre os autores. Realmente as artes na Inglaterra têm ligação tradicional com o oculto. E não só em tempos antigos. A ilha deu ao mundo o mais famoso mago do Século 20, Aleister Crowley. A partir dos anos 60, presenciou a renovação do misticismo e o aparecimento de uma nova geração de criadores fortemente envolvidos com magia. Entre os mais conhecidos estão os escritores de livros e quadrinhos Alan Moore ("A Voz de Fogo" e "Do Inferno") e Grant Morrison, cuja cultuada série "Os Invisíveis" foi a matriz de "Matrix", o filme.

No Reino Unido, até as obras de respeitáveis acadêmicos cristãos, como o inglês J.R.R. Tolkien e o irlandês C.S. Lewis, têm componentes místicos muito fortes. Amigos e contemporâneos, os dois faziam parte do grupo de intelectuais conhecido como "os cristãos de Oxford", criado nessa universidade na década de 30. Colocaram todo seu fervor religioso nas obras que lhes deram fama, "O Senhor dos Anéis" e "As Crônicas de Narnia". Tolkien, estudioso da literatura saxônica, pretendia, com a "saga do anel", criar uma mitologia artificial, mas crível, e tipicamente inglesa, à altura do que imaginava que o país merecesse. Foi mais bem sucedido do que poderia imaginar. Sua influência se espalhou pela cultura mundial. Está aí "Game of Thrones".

Tolkien assumia que a Terra Média era um mundo pré-cristão, cuja história se passava antes do pecado original. Não se incomodava com os paralelos entre o pão dos Elfos e a eucaristia, ou entre Galadriel e a Virgem Maria. Só admitiu que "Gandalf é um anjo". Lewis foi além. As sete "Crônicas de Narnia" são o mais explícito proselitismo cristão, com meninos e meninas explorando um universo paralelo muito imaginativo, onde reina o leão Aslan, o Cristo dessa outra realidade. O primeiro livro, "O Leão, a Bruxa e o Guarda-Roupa", voltou às listas de mais vendidos pelo mundo afora e é muito recomendado por igrejas cristãs da Inglaterra e dos Estados Unidos. É um dos autores prediletos de J.K. Rowling.

Outra grande influência na criação de Harry Potter é Diana Wynne Jones, a grande dama da fantasia inglesa. Escrevendo para jovens desde 1973, já tem vários clássicos no currículo, inclusive os quatro volumes das "Crônicas de Chrestomanci", iniciadas em 1977 e agora popularizadas fora da Inglaterra. Seu personagem principal, o garoto Christopher Chant, é um mago que guarda os portais entre os mundos. Também anterior à "explosão Potter" foi Terry Pratchett , o autor mais vendido do Reino Unido nos anos 90, em qualquer gênero. Somente agora está ficando popular em outras línguas. A série "Discworld", iniciada por "A Cor da Magia", une fantasia alucinada com o mais idiossincrático humor inglês. Terry nos deixou em 2015.

Philip Pulmann ocupa um lugar especial. Ganhou prêmios literários importantes e tem admiradores e detratores igualmente apaixonados. A razão é que sua trilogia "Fronteiras do Universo" é herética, um libelo anti-religioso e anticristão. Inspirada no "Paraíso Perdido", de John Milton, a série relata a batalha final entre a Autoridade, as forças do controle e do ritual, que aprisionam a humanidade há milênios, e a República do Paraíso, que vem lutando pela liberdade desde que os anjos se rebelaram contra Deus. Pulmann é um paradoxo: coloca sua imaginação incomparável a serviço de um elogio do materialismo. Diz que "depois de comida, teto e companhia, não há nada que o homem deseje tanto quanto histórias".

(Escrevi esse texto para o caderno Sinapse, da Folha, em 2002, quando a literatura juvenil começou a explodir, antes de virar o segmento gigante que é hoje, antes de Crepúsculo, Jogos Vorazes, Extraordinário, John Green etc. E, porque não, 50 Tons de Cinza... Hoje são vários ramos, pra menino, menina, mais romântico, mais fantástico etc. O artigo envelheceu um pouco, cortei uns pedaços. Mas ainda há o que aproveitar. Leio de vez em quando um livro bem juvenil, por prazer - recomendo Extraordinário, Jogador Número 1, e A Livraria 24 Horas do Sr. Penumbra. E finalmente tenho um filho na idade para ler essas coisas. Lerá? Veremos. A assinatura do artigo na Folha era: "André Forastieri, 37, é editor e co-fundador da Conrad Editora, especializada no leitor jovem. Agradece a Valderez, sua mãe, por tê-lo ensinado a ler, e a João Carlos, seu pai, pela coleção completa do Sítio do Picapau Amarelo, que ganhou em 1972.")

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