Publicado em 06/11/2015 às 15:36

Uma Biblioteca Pública tem direito de promover um evento cultural que discrimina um grupo social?

stranger Uma Biblioteca Pública tem direito de promover um evento cultural que discrimina um grupo social?
Defendamos a mais radical liberdade de expressão. Política pública é outra coisa. O espaço público é o espaço da democracia. Se você quer escrever um livro pró-nazista, escreva. Mas financiar seu livro com dinheiro dos nossos impostos, edital, lei de incentivo, de jeito nenhum. Patrulha ideológica é repulsivo. Patrocínio público ao preconceito, também.
Quem decide o que pode e o que não pode? A lei; a sociedade; quem fizer mais pressão. Não é tão preto no branco. As fronteiras não são tão claramente demarcadas. Isso não é necessariamente ruim. É questionando os limites que avançamos. Mas, às vezes, regredimos. Como hoje.
Imagine que uma biblioteca municipal paulistana promova um encontro literário e estabeleça a seguinte regra: não pode ter negro entre os palestrantes. Tudo certo? E se for: não pode ter mulher? É preconceito? E se for: é proibido gay nos painéis? Tudo bem pra você?
Nestes dias 8 e 9 de novembro, a Biblioteca Viriato Correia, em São Paulo, abriga um evento chamado Encontro Irradiativo. É derivado de um documento chamado Manifesto Irradiativo, definido pelos autores como "nosso grito por diversidade, visibilidade e representação. Porque pessoas de todos os gêneros, sexualidades, cores, biotipos, religiões, neurodiversidades, e camadas socioeconômicas marginais merecem espaço na literatura especulativa nacional como personagens, escritores, ilustradores, editores, e demais profissionais do mercado editorial."
Pode tudo. Quase tudo. Têm direito à palavra palestrantes de todas as cores, gêneros e sexualidades, contanto que não seja branco, e homem, e heterossexual. Isso num evento de "literatura especulativa", guarda-chuva para gêneros como ficção científica, fantasia, horror, que deveriam estar livres de amarras.
Os painéis do evento têm temas como "Porque Nerds São Preconceituosos" e o curso "Como escrever um personagem trans". O encontro mereceu artigo simpático na Carta Capital. O autor, Antonio Luiz M.C. Costa, explica: "Nem um só dos palestrantes e expositores, vale notar, será um homem branco heterossexual. Isso não significa que não sejam bem-vindos nas plateias ou como alunos. A proposta é fazer desta uma oportunidade para eles ouvirem e as minorias falarem e dar oportunidade a uma verdadeira diversidade de visões da cultura capaz de romper com o pensamento hegemônico."
Imagine esse mesmo parágrafo trocando "homem branco heterossexual" por "homem negro homossexual". Imagine um evento que dá somente a palavra aos homens, e dá às mulheres somente a chance de "ouvirem".
Sobre minorias, bem, pouco menos da metade dos brasileiros é homem. Desses, bem menos que a metade são brancos. Desses homens brancos, a maioria é oprimida economicamente pelo 0,1% que controla as riquezas da nação. Aliás são bem oprimidos economicamente os autores de ficção científica made in Brasil, gênero que nunca vendeu nada no nosso país.
Que as minorias se expressem e que briguem por tanto espaço quanto puderem. A vida brasileira, e a arte brasileira, precisam ser oxigenadas. Escrevi aqui mesmo outro dia um texto explicando porque o Brasil não ganha o Nobel de literatura. Minha explicação, só mezzo galhofa, é que o escritor brasileiro é chato - homem, branco, hetero, cinquentão, de classe média alta, escrevendo sobre seu mundinho.
Isso não quer dizer que um livro escrito por um negro, índio, lésbica, trans etc. tem automaticamente qualidade, merece ser lido, debatido etc. Se for bacana, sim, se for uma porcaria, não. Quem decide? Cada leitor. O autor é o autor. A obra é a obra.
Os organizadores desse Encontro Irradiativo têm uma postura profundamente preconceituosa. E defendo o direito deles defenderem esse absurdo autoritário. Porque liberdade de expressão é a liberdade de uma pessoa que você detesta defender uma coisa que você despreza. Mas não usando recursos públicos.
Dá vergonha ver a prefeitura de São Paulo apoiando isso. Na nossa cidade, que com razão se orgulha de sua infinita diversidade. E ainda mais numa biblioteca - espaço que, por definição, deveria ser o mais democrático, inclusivo e livre dos espaços públicos.

(Ah: a ilustração lá no alto é um detalhe da capa de Um Estranho em Uma Terra Estranha, um dos primeiros romances de ficção científica a abordar o tema da identidade sexual, e de várias maneiras precursor da revolução de costumes dos anos 60. O livro foi escrito em 1961 por Robert Anson Heinlein - homem, branco, heterossexual).

http://r7.com/uu7c

Publicado em 05/11/2015 às 17:11

Conheça os jovens super-ricos americanos – e porque os EUA vão ser um país cada vez mais injusto

rich kids Conheça os jovens super ricos americanos   e porque os EUA vão ser um país cada vez mais injusto

Cinquenta e nove trilhões de dólares. Uns 240 trilhões de reais. Consegue imaginar essa quantia? É quanto os jovens americanos vão receber de herança nessa geração.

O cálculo é do Centro de Riqueza e Filantropia do Boston College, citado em reportagem da revista Bloomberg Business Week. O tema especial da edição é "New Money", a nova geração de milionários e bilionários que estão mudando o mundo. E mudando para pior.

As reportagens são muito boas e vão da Bolívia à China. Mas a matéria mais impressionante trata de como as famílias milionárias estão investindo para garantir a fortuna de seus filhos, contratando empresas especializadas em gestão e outras em educação financeira.

Os EUA nunca foram tão desiguais. Hoje, 5% dos domicílios controlam 63% da riqueza do país. Se você vai para a elite da elite, os números são mais absurdos ainda. O caso mais escandaloso: a família Walton, herdeira do fundador do Wal-mart, é mais rica que os 40% domicílios mais pobres dos Estados Unidos. É, você leu direito.

Esse perfil lembra o das sociedades do terceiro mundo. Lembra o Brasil, onde os 50% mais pobres têm 10% da riqueza. O que aconteceu com o país mais poderoso do mundo? Décadas de estagnação industrial, achatamento do poder de compra da classe média, crise imobiliária, enfraquecimento dos sindicatos, desregulamentação do mercado financeiro. E décadas em que novas leis foram aprovadas.

Ano após ano, políticos propõem e aprovam novas leis, diminuindo os impostos pagos pelos super ricos.  Hoje, o máximo que se pode cobrar de imposto sobre herança é 35%. Mas hoje a lei permite tantos abatimentos, descontos e artimanhas que nem os maiores bilionários americanos pagam isso. Adivinhe quem financia as campanhas desses políticos?

Esses US$ 59 trilhões que a garotada vai receber de herança é garantia de que os EUA vão se tornar cada vez mais desiguais e mais injustos. E mais um problema: esse estado de coisas é péssimo para a economia americana.

Quando a riqueza aumenta na base da pirâmide social, isso se reflete instantaneamente em mais consumo de produtos e serviços, mais dinheiro girando em grandes volumes. Quando a riqueza aumenta lá no topo, o reflexo disso na economia como um todo é infinitamente menor.

A razão é óbvia. Quando os investimentos financeiros da madame rendem mais um milhãozinho de dólares, o que ela pode fazer? Comprar mais uma bolsa, mais um relógio, mais um carro? O mesmo dinheiro, distribuído para mil pessoas, tem impacto muito maior na economia.

E no Brasil, como é? Pior, claro. O teto de imposto de herança estabelecido pelo governo é 8%, mas cada estado tem liberdade de definir sua taxa. No estado de São Paulo, que tem a maior concentração de super ricos, a taxa é 4%. É muito abaixo da média mundial. Na Inglaterra é 40%. Porque você acha que o padrão de vida dos ingleses é o que é, e o nosso é o que é?

Se diz por aí que o brasileiro paga muito imposto, e é verdade. Mas isso é da classe média para baixo. Não os nossos super ricos. Nem na vida. E nem na morte.

Você pode ler a edição da Bloomberg Business Week aqui (em inglês).

E leia meu artigo anterior para entender  como o seu trabalho financia a fortuna crescente dos super ricos brasileiros.

Publicado em 22/10/2015 às 19:34

A prova de Redação no Enem é injusta, estúpida e tem que acabar

Enem 2015 A prova de Redação no Enem é injusta, estúpida e tem que acabar

A Redação sempre dá polêmica no Enem. Uns anos atrás os estudantes que foram mal na prova até exigiram revisão. O Exame Nacional do Ensino Médio de 2012 teve quatro milhões, centro e treze mil e quinhentas e cinquenta e oito redações avaliadas. Destas, cerca de 75 mil foram entregues em branco, e 72 mil foram anuladas por motivos diversos (como, por exemplo, escrever menos que as sete linhas exigidas).
Do total das redações, 76,32% foram avaliadas por dois corretores, 20,1% por três corretores, e destas, 2,43% por uma banca extra. A avaliação foi feita por 5.683 corretores, que passaram por dois treinamentos - um geral, e outro específico para ajudar na análise do tema da prova.
E mesmo assim, candidatos acionaram o ministério público federal para terem direito de vista à redação. Uma petição com mais de nove mil assinaturas coletadas pela internet bancaram a representação. E no Rio, uma estudante conseguiu da justiça o direito de ver a correção de sua redação. Houve movimentos pelas ruas, passeatas, protestos em doze capitais. Nos anos seguintes, menos protestos, mas mesmas polêmicas.
Segundo o MEC, a avaliação leva em conta os seguintes itens: compreensão da proposta, domínio da norma padrão da língua escrita, e a capacidade de selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista. É evidente que a maioria dos jovens do mundo não tem a menor condição de fazer isso. Aliás, nem dos adultos. Muito menos jovens e adultos brasileiros, considerando o patamar quarto-mundista de nossa educação pública e particular.
O que o MEC exige é que ao final do terceiro ano do ensino médio nossos jovens tenham aprendido a pensar por si próprios, e defender o que pensam por escrito. É o que Michel de Montaigne batizou no século 16 de ensaio, e o próprio slogan do Enem 2015 faz referência a isso: "Um Ensaio Para a Vida". É mais que pedir demais. É bobagem, porque a maioria das faculdades e dos empregos não exige pensamento independente, nem saber escrever. Nem no Brasil e nem em lugar nenhum, mas aqui as faculdades são péssimas. O que já conheci de jovem diplomado e semi-analfabeto não é pouca coisa. Sempre foi assim e assim continua sendo; quem sabe um dia muda; não há sinais no horizonte e muito pelo contrário.
Não sei quase nada na vida, mas escrevo profissionalmente desde 1988, aprendi, e ensino grátis. Não tem segredo. É fácil escrever direito e é muito difícil escrever magnificamente. Como nossas escolas não ensinam nem um nem outro, esta exigência do MEC é um insulto. Até porque os temas não fazem parte do currículo escolar, não preocupam ninguém, e certamente jamais passaram pela cabeça de 99,99% dos brasileiros.
Em 2012 foi "a Imigração para o Brasil no Século 21". Em 2013, "Efeitos da Implantação da Lei Seca". Em 2014, "Publicidade Infantil em Questão no Brasil". Em 2015 será alguma bobagem semelhante. O governo defende que a redação aborde "questões contemporâneas". É insano. Nossa escola não é contemporânea, não desafia os alunos. Valoriza a decoreba, não a reflexão.
Uma professora de uma escola pública modelo, dessas que aparecem em propaganda no horário político, me contou: lá não tem e nunca teve papel higiênico para os alunos. A Associação de Pais e Mestres é que tem que bancar. O papel que o estado manda é só para os traseiros de professores e funcionários.
Já dinheiro para computador, há bastante. Mas a escola não precisa de mais PCs. A urgência é tirar os computadores entregues há um ano de suas caixas. Eles estão mofando. Precisa instalar, e treinar os professores para utilizá-los. Os professores também gostariam de poder escolher livros à altura de seus alunos. E não ter que encomendar algum do menu disponível, sempre pobre, sempre conservador, sempre das mesmas editoras e autores. Ah, e seria bom ter uma marmiteira, para que os alunos possam esquentar seus almoços, em vez de comer tudo frio. Outra amiga me conta de suas visitas a escolas da periferia de São Paulo, onde a porta para a quadra fica aberta toda noite, para poder rolar festa funk. E por aí vai...
Isso é em São Paulo, imagine nos cafundós do Maranhão. Bem, nosso governador vai fechar agora um monte de escolas - quem sabe isso melhora a educação no Estado...
E o Enem quer que alunos que estudaram em escolas assim saibam construir um ensaio com começo, meio e fim? É justo exigir de nossos jovens o que não demos a eles? E exigir o que a maior parte do ensino superior e do mercado de trabalho não exigem? A única resposta justa é não. Vamos acabar com a prova de redação no Enem.

Publicado em 22/10/2015 às 19:02

Minhas 10 bandas de rock favoritas


Duran Duran. E mais nove.
Vídeo novo, primeiro do novo álbum, Paper Gods.
Com São Nile Rodgers, e a cutchuqíssima Janelle Monae.
Música pra festear. Vídeo pra rever, simples como dançar.
Mensagem para nossa época: é hora de avançar para o futuro - sem pressão.

Publicado em 22/10/2015 às 18:21

O dueto perfeito


romantic disney up ellie carl O dueto perfeito
UP – Altas Aventuras foi o último grande desenho da Pixar. Os primeiros quatro minutos são de derreter o coração. Junto com a primeira parte de Wall-E, é o que se fez de melhor em animação no século 21. Enternecem e iluminam nossa frágil humanidade.
Mas os minutos de UP que contam a vida em comum de Carl e Ellie são ainda mais tocantes que as desventuras do robôzinho no lixão que virou a Terra. Porque são gente de verdade, gente como a gente é, ou como a gente conhece. Jovens que viram adultos que viram velhos, sempre juntos, sempre diferentes. Ellie, a aventureira, Carl, o certinho, e suas pequenas vitórias e doloridas derrotas. A sua vida como a vida é.
E por causa da música, o tema do amor do casal. É composição de Michael Giacchino, que também fez outras trilhas incríveis como a de Os Incríveis e Super 8, e não nega o sangue italiano. Não chorei nem quando a mãe do Bambi morreu. Mas esses minutinhos de UP me apertaram a garganta na época que vi. E hoje vi esse vídeo bobo. Feito por um pianista celebridade da internet, Jason Lyle Black. Com seus avós, que têm 80 anos, são casados a seis décadas, e toda a vida têm tocado duetos ao piano.
Aí lembrei de tantas vidas em comum que já vi. E dos maridos que já vi cuidando das suas mulheres, e das mulheres cuidando de seus maridos. Com desprendimento e dificuldade, com paciência e amor. E meu coração de novo transbordou.

E aqui estão os minutos iniciais de UP. Que você encontre um par para preencher seu Livro de Aventuras!

Publicado em 20/10/2015 às 10:11

O Brasil não precisa de caças da Suécia. Precisa é da sabedoria da Costa Rica

dilma O Brasil não precisa de caças da Suécia. Precisa é da sabedoria da Costa Rica

O Brasil é o 11º país com maiores gastos militares. Em 2015, deve chegar a R$ 31,9 bilhões. É 1,3% do PIB. A presidente do Brasil decide como gastar essa dinheirama. Dilma está na Suécia, posando para foto dentro de um caça. Em julho, o ministro da defesa da época, Jaques Wagner, comemorava “economia” na compra desses 36 aviões suecos para nossa Aeronáutica. Negociavam para abaixar os juros do negócio. O projeto total estava orçado em R$ 5 bilhões. “A presidente Dilma ficou satisfeita com a negociação bem sucedida”, disse Wagner.

Agora o novo ministro da defesa diz que a compra vai sair por R$ 4,5 bilhões. Quem é o substituto de Wagner? Não importa. É um dos ministérios que deveriam deixar de existir. Função de militar é matar, e o Brasil não tem inimigos. Não precisamos de exército, marinha ou aeronáutica. Deveriam ser abolidos. Não faria a menor diferença.

Melhor: faria grande diferença para o bem. Na América Latina, não há país mais civilizado que a Costa Rica. Por várias razões, e a principal é que a Costa Rica aboliu as forças armadas em sua constituição de 1949. Tem uma guarda civil e uma guarda rural e só.

Ninguém diga que aquele canto do mundo é tranquilo. A América Central já enfrentou de tudo. Ditadores, guerrilheiros, narcotraficantes, mafiosos, multinacionais que mandavam em países inteiros. A Costa Rica ali no olho do furacão e, em mais de seis décadas, sempre manteve seu rumoada de exército.

O que iam gastar com “defesa”, investiram onde mais importava — no ataque aos seus principais problemas. Hoje a Costa Rica tem alto índice de alfabetização, meio-ambiente superprotegido, pontua bem em todos os principais índices do bem viver planetário. Não é um país rico, nem de longe, mas em média vive-se com mais paz lá que em qualquer outro lugar da América Latina.

Desarmar o Estado ajuda a desarmar o espírito? No Brasil, ao contrário, temos armas para todo lado. O governo federal tem as Forças Armadas, os Estados têm polícias militares, cidades suas polícias civis, bandidos suas metrancas, e cidadãos particulares seu revólver no porta-luva.

Temos até nossa própria indústria bélica. Frequentemente temos a vergonha de ver tanques brasileiros usados por ditaduras diversas contra manifestantes pacíficos. Com tudo isso, e sem inimigos, o Brasil vive uma violência sem fim.

O Brasil tem longa tradição de políticos que defendem o diálogo mas praticam o monólogo. Dilma vai além. A crítica mais comum que se faz a ela é que não ouve ninguém. Quer provar o contrário, sua excelência? Começa cancelando esse negócio com a Suécia.

Quando o dinheiro está sobrando, desperdício passa batido. Agora que o cobertor está curto, há que focar no que importa e cortar o resto. Avião de caça modernex, num país sem guerra nem inimigos, é a própria definição do supérfluo. O Brasil corta investimento em escola, hospital, segurança, aposentadoria, salário-desemprego. Mas temos R$ 4,5 bilhões sobrando para importar aviões de caça, para “proteger nossas fronteiras”?

Se o Brasil abrisse mão de suas forças armadas, quem iria guardar nossas fronteiras? A pergunta é outra: que país é capaz de invadir e ocupar um lugar do tamanho do Brasil, com quase 200 milhões de habitantes? Nenhum. No século 21, as nações se digladiam por outros meios. Cérebros valem mais que balas. Inovação mais que avião.

O Brasil podia ter uma boa polícia federal, um timezinho de forças especiais bem treinadas, e um abraço. Baita economia. Mas não. Trocamos Geisel e Figueiredo por FHC e Lula e Dilma, gente que foi perseguida pelos militares, e mesmo assim mantiveram tudo igual. Nos últimos anos Dilma trocou o ministro da defesa, Nelson Jobim por Celso Amorim, e Jaques Wagner por Aldo Rebelo, e tudo continua como dantes no quartel de abrantes.

Desconfio que nós brasileiros, estamos prontos para seguir o exemplo da Costa Rica. O Brasil, infelizmente, não está. Pelo menos em uma coisa evoluímos bastante. Como diz o amigo Edson Aran: eu sou do tempo em que o militar é que demitia o presidente…

Publicado em 13/10/2015 às 19:16

Playboy é mulher pelada. Botou roupa, perdeu Playboy!

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Barbi Benton: a primeira coelhinha, ninguém esquece

A Playboy vai deixar de publicar foto de mulher pelada. É uma estupidez. Foi o grande diferencial da revista com relação às que vieram antes e depois. Antes era a Esquire, onde Hugh Hefner, fundador da Playboy foi redator: a revista do que interessa para o homem, com sex-appeal, mas “decente”. Depois, Hustler, 100% sexo explícito, e hoje variedade infinita entre esses falsos opostos.
A fórmula da Playboy é como a da Coca-Cola, segredo. E não industrial: segredo artesanal. Seus melhores editores foram verdadeiros equilibristas. Muito humor e um tanto de seriedade. Muito bom-viver e alguma provocação. Mulher para domar e para namorar.
Claro que a Playboy era principalmente inspiração para masturbação. Mostrava nua, disponível e provocante a vizinha lindinha das fantasias dos americanos. Não era “revista de sacanagem”. Era revista para fantasiar. As moças não pareciam prostitutas. Pareciam estar a fim, e não a fim de dinheiro.
Hoje vemos mocinhas lindinhas praticando o kama sutra e muito além, perversões de A a Z, de todos os modelos e nacionalidades. Está tudo na internet, de graça. A Playboy perdeu esse bonde. Poderia ser a dona do YouPorn, RedTube, e todos esses serviços de pornografia digital instantânea. Mas não é, como nenhum dos grandes canais de televisão é dono do YouTube, e nenhuma empresa de mídia é dona do Google ou do Facebook, as empresas de mídia que mais faturam no planeta Terra. É fácil identificar as bobeadas nas empresas dos outros. As Playboy Enterprises cometeram muitas.
Tropeço imperdoável foi o reality show mostrando Hugh Hefner como um velho babão, morando com três “namoradas” falsas loiras e falsas em geral. Nos anos 60 e 70, Hefner era personagem, mas também editor de mão cheia e de sucesso. A Playboy de fato era para ser lida pelos artigos. O time de colaboradores da revista foi a fina flor do jornalismo americano. Playboy divertia e influía, combinação perfeita e quase impossível.
Hefner era símbolo de realização, não só da vida boa que os machos de sua geração e seguintes sonhavam ter. No reality show se assumiu paródia de si mesmo, modelo obsoleto, pagando por companhia de garotas com idade pra serem suas netas, um Olacyr de Moraes gringo. Tudo que o homem do século 21 não quer ser quando envelhecer.
No Brasil, Playboy foi sonho de um jovem, que convenceu o pai a editor a fazer no Brasil as três revistas americanas que mais admirava: Time, Fortune e Playboy. Era Roberto Civita, que fez, e fez muito bem, suas versões das três. Eram Veja, Exame e a própria Playboy, licenciada da edição americana, mas com identidade muito própria. A revista brasileira teve sua fase de ouro quando a americana já não tinha tanto apelo assim. Grandes entrevistas, grandes cartunistas, grandes fotógrafos, muito molho, tudo do melhor. E as mulheres mais maravilhosas e mais famosas do Brasil sonhavam em posar para a Playboy.
Comecei a ler a Playboy antes dela existir por aqui. Pingavam umas raramente por aqui nos anos 70, de pais de amigos. Minhas primeiras memórias são da cutchuquinha que ilustra este post, Barbi Benton. Lá pros 14 anos eu já era desse tamanho de hoje, e comprava de um jornaleiro amigo. Comprei intermitentemente desde então – escolhendo pela capa, como todo mundo. Fui convidado uma única vez pra colaborar; escrevi sobre o Velvet Underground em 1991.
Tive e tenho amigos na redação da Playboy brasileira. Espero que siga despindo as personagens que todo mundo quer ver peladinhas. Seja a atriz, a funkeira ou a gari gata. As taras da molecada de hoje e as da nossa juventude, porque não? Vi uma foto de Magda Cotrofe esses dias, continua batendo um bolão. Aliás, a foto era ela com a filha. Aliás, vamos mudar de assunto.
Fosse eu o ditador lá da Playboy Enterprises, seguiria o exemplo da Abril. Uma revista linda e leve, esperta sem ser metida, com carteira recheada para convencer as famosas mais desejadas do mundo a tirar a roupa.
Colocaria trinta fotos da estrela da edição na revista. E essas trinta e mais cem no site, junto com o making of do ensaio, em vídeo. E, claro, o arquivo completo dos trocentos anos da Playboy. Todos aqueles zilhões de textos e ilustrações e cartuns e piadas e mulheres incríveis. Um dólar por mês. Você não assinava? Você e eu e mais uns vinte milhões de machos. E mais um monte de moças que gostam de moças. E senhoras que liam a Playboy pelos artigos.
Mas infelizmente a Playboy americana se rendeu à chatice. Ao padrão politicamente correto de agências e anunciantes, que veta investimento em publicações que “objetificam” as mulheres. E à necessidade de compartilhar seu conteúdo nas redes sociais, Facebook etc., que são caretas e vetam nudez. A Playboy pode até sobreviver. Será mais uma. Só tem a perder.
O futuro sabe-se lá. O passado não se apaga. Todos aqueles textos e reportagens, ilustrações e piadas e ensaios, tudo vive. E o que a Playboy fez por gerações de homens não tem preço. Deu prazer e fez pensar. O que mais você pode desejar?

Publicado em 07/10/2015 às 16:18

Porque o Brasil não ganha o Prêmio Nobel de Literatura

Nobel Porque o Brasil não ganha o Prêmio Nobel de Literatura
Todo ano quando é anunciado o Nobel de literatura, duas palavras pipocam: nunca li. Quando vou me informar sobre o vencedor, outras duas se repetem com incrível frequência: nunca lerei. Os vencedores de 2013 e 2014, Alice Munro e Patrick Modiano, bem, parei em um estágio anterior, e, admito, muito comum: nunca ouvi falar.
Imperdoável? Jornalista tem esse cacoete de posar de sabichão. A gente pode nunca ter lido, assistido, ido ou vivido, mas tem que fazer de conta que sabe de tudo. Pior que nosso vício privado virou virtude das massas. Com a internet, somos todos pseudo-especialistas instantâneos em tudo, com direito a opinião sobre tudo, e acalorada e radical sempre faz mais sucesso.
O prêmio é entregue desde 1901. Li 29 dos vencedores - li alguma coisa dos 29, para ser preciso, não "a" obra. Para pegar uma amostrinha recente, no século 21 os vencedores foram:

2014 - Patrick Modiano

2013 - Alice Munro

2012 - Mo Yan

2011 - Tomas Transtromer

2010 - Mario Vargas Lllosa

2009 - Herta Muller

2008 - Jean-Marie Gustave Le Clézio

2007 - Doris Lessing

2006 - Orhan Pamuk

2005 - Harold Pinter

2004 - Elfriede Jelinek

2003 - John M. Coetzee

2002 - Imre Kertész

2001 - V.S. Naipaul

2000 - Gao Xingjian

Se sentiu ignorante? Eu sim. Devemos estar perdendo um monte de coisa boa. Mas a academia sueca também perdeu. Porque quase nenhum dos meus autores favoritos de todos os tempos ganhou o prêmio.
A maioria dos vencedores do Nobel escrevem no gênero "drama realista contemporâneo". Já leio muita não-ficção, ensaios, jornalismo. Quando leio ficção, é exclusivamente por prazer. Que também encontro neste gênero, que domina premiações e atenção da crítica. Mas encontro mais em outros cantos.
Previ dois anos atrás que pela crescente estatura internacional do país, na próxima décda o prêmio anos não nos escapa, e mantenho. Se um autor brasileiro vencerá por merecimento, ou porque simplesmente chegou a hora do Brasil levar o prêmio, é outra história.
O Nobel não premia "o melhor escritor do mundo do ano". No caso de nomes consagrados que escrevem em inglês, o habitual é premiar pelo conjunto da obra - vide Pinter, Lessing e Naipaul (os únicos deste século que li, com Vargas Llosa).
Quando a obra é em língua "exótica", o Nobel premia um tanto o autor, e muito a literatura daquela cultura, país, continente. Você não vai ver autores africanos ganharem três anos seguidos, ou asiáticos, ou latino-americanos. O que nos leva à eterna questão: e o Brasil, porque nunca ganhou, e quando vamos ganhar?
Adoraria encontrar um autor conterrâneo que abrace nossa complexidade social. Meio Naipaul e meio Philip K. Dick.  Com ginga e humor.  Nem precisa tanto: alguém que não faça feio do lado de Pinter e Vargas-Llosa. De cabeça, não me ocorre ninguém. Ninguém que dê conta do mundo além de nossas fronteiras; ninguém que dê conta de nossa realidade única, radical, improvável. Talvez sejamos melhores biógrafos, ensaistas, cronistas, piadistas e tuiteiros que romancistas e, aliás, contistas.
A melhor explicação é a mais simples: o escritor brasileiro é um chato. É homem, branco, tem diploma universitário, mora no eixo Rio-São Paulo, e uns 50 anos. O protagonista de seu romance é homem, branco, tem diploma universitário, mora em metrópole etc. etc.
Dos nossos autores, 36% trabalham como jornalistas. Pois as profissões mais comum dos protagonistas da literatura brasileira são, pela ordem, escritor, criminoso, artista, estudante e jornalista. E a maioria das histórias se passam no presente, ou no máximo dos anos 80 para cá.
O assunto da literatura brasileira é o escritor brasileiro e seu mundinho. É um coroa diletante e seu tema é a própria juventude e meia-idade, reimaginadas dramaticamente. Este é o resumo curto e grosso da pesquisa feita pela professora Regina Dalcastagnè, da UNB. Ela analisou 258 romances de 165 escritores diferentes, de 1997 a 2012, de editoras variadas. É mostra significativa.
Regina conclui que não há na literatura nacional o que chama de "pluralidade de perspectivas sociais". Nossos livros não incluem brasileiros de várias cores, classes, religiões, idades. Bidu. É e sempre foi assim. Não há gays, velhos, deficientes, umbandistas e tal nos nossos livros.
A ausência mais escandalosa em nossa literatura, personagens negros, tem razão bem concreta. Não há negros nas redações, na universidade, nas posições de comando do País. O típico escritor brasileiro simplesmente não convive com negros de igual para igual. Mas há mais discriminação nos nossos livros que no Brasil não-ficcional. Em 56% dos romances, todos os personagens são brancos. Negro, quando aparece, é miserável, bandido e, principalmente, coadjuvante.
Faz sentido que 36% dos nossos escritores sejam jornalistas. Tirando jornalista, poucos brasileiros têm português legível. Jornalista não sabe grande coisa, mas aprende a encaixar uma frase na outra, respeitar concordâncias, economizar nas vírgulas.
Dashiell Hammett recomendou: escreva sobre o que você conhece. Donde que temos jornalistas escrevendo sobre jornalistas. Um bando de rato de redação se imaginando como herói: uma vez na vida, a notícia sou eu! Bem,  sou exatamente o perfil do romancista brasileiro, jornalista, 50 anos, branco etc., e passo muito bem sem ler sobre mim. Nem em versão romantizada, e muito menos realista...
A pesquisa de Regina explica a desconexão de muitos, e a minha, com a literatura brasileira atual. Me recomendam este e aquele autor nacional. Compro, leio quinze páginas e despacho pro sebo, raríssimas exceções.
O problema não é o País de origem nem a profissão dos autores. É o universo ficcional e existencial dos autores e personagens. Poucos leitores se interessam pelos problemas dos brasileiros letrados de classe média e meia-idade, suas neurinhas, fantasias e infidelidades.
E pior ainda quando o livro vira policial noir de butique, com direito a uma garota de programa e um milionário assassinado. Sai pra lá, neurótico professor de literatura! Vade retro, safo repórter de jornal popular! Ficção exige imaginação e encantamento; um tanto de história, outro de jornalismo; e variedade. Hoje festins pantagruélicos, amanhã snacks para devorar aos nacos.
Em todo lugar o gênero "problemas sexuais-existenciais da classe média intelectualizada" tem longa tradição. É um gênero, como livros de vampiro ou histórias de detetive. Nos Estados Unidos, é o que garante prêmios, convites para lecionar e confete em festivais literários. É o favorito de escritores que não vivem de escrever. Ganham a vida como professores, quase sempre. Quem sabe faz, quem não sabe ensina...
Não, sacanagem. Tá cheio de professor por aí que manda muito bem nas mal-traçadas. A desgraça é quando os escritores começam a escrever para impressionar outros escritores (e isso vale também para músicos, pintores, arquitetos e qualquer atividade criativa).
No Brasil literatura é segunda profissão ou hobby. Um autor ganha uns três reais por exemplar vendido, e as tiragens aqui raramente passam de 3.000 exemplares. Pouco importa sobre o que o escritor brasileiro vai escrever, e muito menos se vai escrever bem: meia dúzia vai ler. E ele não vai ganhar dinheiro nenhum com isso. Pelo menos impressionar os amigos tem que poder, pô!
Escrever em tempo parcial não precisa ser problema. Muitos usam bem as conexões acadêmicas e mesadinhas variadas, de fundações, esse e aquele programa governamental etc. O problema é quando a profissão do escritor não é escrever, é “ser escritor”. Cobrar cachê pela participação. Cavar verbinha do diretor de marketing. Preparar a palestra para a o próximo festival corporativo. É como esses roqueiros picaretas que pegam dinheiro público via Lei Rouanet para gritar contra o sistema.
Cada um se vira como pode? Escritor não tem esse direito. Sardinha na brasa: escrever está acima de qualquer outra atividade artística. Aprender a escrever é aprender a pensar. Ter o que dizer é o melhor do humano. Dizer de maneira poderosa é divino.
Escritor que depende do poder político e econômico se assume subalterno. O que nossos romancistas dizem sobre nós? Pouco ou nada. O que perdemos com esse silêncio? Muito, tudo. As exceções reforçam a regra. A cultura do Brasil é dominada pelo consenso que compensa.
Graham Greene cravou: "A Itália, durante trinta anos sob os Borgias, conheceu a guerra, o terror, o assassinato e o derramamento de sangue. Mas produziu Michelangelo, Leonardo da Vinci e o Renascimento. Na Suíça, eles têm o amor fraternal e quinhentos anos de democracia e paz - e o que produziram? O relógio de cuco."
Falta de tempo e dinheiro para escrever frequentemente foi bem estimulante. James Joyce, para pegar o mais celebrado autor do século passado, criou Ulisses num miserê de dar gosto, exilado mundo afora, casado com uma mulher que zoava suas veleidades de artista e dois filhos pequenos pra criar. Na ponta oposta da respeitabilidade crítica, igual. A fábrica de best-sellers Stephen King pariu Carrie, seu primeiro sucesso, quando labutava como zelador e morava em um trailer, datilografando até altas horas, os nenês chorando.
Podemos e devemos fazer melhor. Escrever bem é técnica, e escrever divinamente é talento e suor. Mas a prova dos nove é escrever sobre a realidade. Ainda que no formato de um romance histórico, ficção científica, horror ou humor ou o que for.
Escrever sobre a realidade não é escrever sobre a minha vida. E muito menos um livro é melhor ou pior porque se passa na São Paulo de hoje, e não em Saturno no século 30. O que existem são livros mais e menos ambiciosos, e mais e menos bem-sucedidos, em relação ao tema, à trama, à linguagem, ou na criação de ambientes e personagens. Alta e baixa literatura é papo de crítico cretino.
A pesquisa de Regina explicita que o assunto central da ficção brasileira é o umbigo do seu autor. Não é problema localizado. Em todo lugar, cada vez mais os escritores estão caraminholando sobre seu mundinho particular, reciclando fantasias de aventura e consumo, revisitando seus livros e filmes e ícones culturais prediletos. "Influence is Bliss", resume Michael Chabon, que faz isso melhor que a maioria.
A possibilidade de celebridade propiciada pelas redes sociais acentua a tendência. Todos vivemos escrevendo e lendo devaneios narcisistas. Boa parte do que passa por literatura é tão verdadeira quanto essas fotos supostamente displicentes, mas cuidadosamente planejadas e retocadas, que colocamos em nossos perfis no Facebook.
A ambição da ficção, e da ficção brasileira, pode e deve ser maior. Escritores são faróis na neblina. Vivem na escuridão. Tateiam. Tropeçam. Mas apontam rumos. Sinalizam um norte. E sem eles, nos perdemos. A vencedora do Nobel de literatura de 2015 é jornalista e das boas, Svetlana Alexievich. Vive no mundo, não em seu mundinho. Repórter, lhe importa mais a voz dos outros que a sua. Seu tema é a dor de parto de um mundo pós Guerra Fria, uma Rússia pós soviética, num continente quietamente deflagrado. Nunca tinha ouvido falar. Li umas linhas dela hoje, pela primeira vez.
Onde estão nossas Svetlanas? Cadê os escritores de que o Brasil precisa? Nossos guias, intérpretes, espelhos? Cadê o grande romance sobre nossa miséria e nossa fortuna? A Itália do século XV é um nada de sacanagem perto do Brasil do século 21.
Hammett estava errado. A literatura que importa não é sobre o autor, é sobre o leitor. Quero, exijo, um livro que me hipnotize, e me leve para outro lugar, e para dentro de mim mesmo. O que importa em literatura é fitar o desconhecido. E não conseguir desviar o olhar.

Publicado em 30/09/2015 às 14:31

Para que serve um herói japonês made in Brasil (estrelando Ricardo Cruz)

sfs ricardo01 Para que serve um herói japonês made in Brasil (estrelando Ricardo Cruz)

"Siga seu sonho.” Parece piegas e é. Meio coisa de americano. “Se você se dedicar, pode ser qualquer coisa que sonhar – pode ser o presidente dos Estados Unidos!”
Bem, não. Baixinho nunca vai pra seleção de basquete, altão nunca fará carreira como jóquei. Mas você vai se surpreender com o que pode acontecer se você corre atrás do seu sonho com persistência. E ignora a impenetrabilidade das barreiras que te impedem de chegar lá. Onde quer que “lá” seja.
Ricardo Cruz devia ter uns 18 anos quando virou colaborador, depois redator das nossas revistas na editora Conrad – Pokémon Club, Herói, Nintendo World. Era louco por heróis japoneses. Mais ainda por Tokusatsu, seriados de super-heróis com atores, tipo Jaspion. Curtia muito os “openings” das séries japonesas, aberturas cantadas, geralmente rockões bem épicos. Ricardo já arriscava umas cantorias na época, no meio da redação. Em japonês toscão. Não tem uma gota de sangue asiático.
E daí ele realizou seu sonho de visitar o Japão. E foi aprendendo japonês. E seguiu cantando (e trabalhando e dando seus pulinhos). Em 2005 passou a fazer parte de um grupo de artistas japoneses que cantam temas de séries, o Jam Project. E excursionar com eles pela América Latina. E gravar com eles. E compor. Virou cantor de “Anime Songs”: temas de desenho animado, videogame, série made in Japan. E foi, foi, foi – e gravou um CD. Que me deu ano passado, quando nos encontramos no painel da revista Herói, na Comic Com Experience. Contou que preparava um clipe.
E agora me manda esse vídeo sensacional. Não é um clipe, é um mini-filme. Com vilão malvado e seus capangas, monstro, robô gigante. E ainda estrelado por Hiroshi Watari, ícone dos seriados de Metal Heroes – o Sharivan, o Spielvan!
Ricardo, o rockstar. Herói  de sua própria aventura e, a partir de hoje, oficialmente meu herói japonês favorito. Todo história de herói tem uma mensagem, e a dessa é: seja o que quiser, amigo leitor, queridíssima leitora. Vou dar um comando mais claro, para não deixar dúvidas. Seja TUDO que puder.
A gente tem sempre razões de sobra para não ir atrás do que sonha. E realmente muitas delas são ótimas razões, não te culpo, não me culpe. Mas histórias como as de Ricardo nos fazem acreditar. E por isso são mágicas, preciosas – épicas.

Assista ao vídeo:


Publicado em 25/09/2015 às 19:19

A história da revista Herói é a minha história. Chegou a hora de contá-la

Capa Catarse 600x340 A história da revista Herói é a minha história. Chegou a hora de contá la
Eu criei uma revista que vendeu mais que a Veja. Isso mudou completamente a minha vida. E felizmente mudou a vida de muitas outras pessoas. Para melhor.
Eu tinha 29 anos. Era empresário há um ano. Tinha largado um bom emprego para fundar uma editora. Gastei todo meu pouco dinheiro nisso. Estava quebrado.
E aí a oportunidade bateu na minha porta, e eu agarrei a danada e dei um beijo na boca dela.
E é essa história que eu decidi contar. Porque ela merece ser conhecida. Eu fui e sou o pai da criança, com muito orgulho. Mas quem cuidou da criança foi uma família enorme. Quem estava lá merece ter sua história contada. E aqueles milhões de moleques lendo a Herói merecem ser celebrados.
Então estamos escrevendo um livro contando a história da Herói, a revista que inspirou uma geração. Somos eu e a jornalista Arianne Brogini, que foi editora da revista já no século 21, com o auxílio luxuoso dos amigos Matheus Mossmann e Juliana Zorzato, e mais um monte de gente que está bolando o visual do livro, ajudando a divulgar o projeto, dando depoimentos... ich, a página de agradecimentos vai ficar enorme.
E seu nome pode estar lá.
Então colocamos o projeto no Catarse. Colabore para o livro Herói sair no capricho, com o acabamento e tratamento que merece. Garanta seu exemplar. E veja um monte de outras recompensas bacanas que você pode receber.
Meu amigo querido e grande parceiro na Herói, Mauro Martinez dos Prazeres, me disse uma vez, em 1995: "daqui vinte anos vai ter no Brasil uma geração que aprendeu a ler com a Herói. Um monte de pessoas que aprendeu a amar os heróis com a revista. Imagine que lindo!"
É lindo mesmo.
Se você leu a Herói, por favor: apóie e divulgue para seus amigos.
É a Herói, cara. Inesquecível e indestrutível. Para o infinito e além!

Apóie o livro Herói no Catarse!

http://r7.com/GalV

Publicado em 25/09/2015 às 17:54

Se você é contra o Uber, está errado. Se é a favor, está errado também

 Se você é contra o Uber, está errado. Se é a favor, está errado também
Pensamento binário é para computadores. Seres humanos são capazes de mais sutileza. Não vemos o mundo em preto e branco, mas em infinitas cores, com precisão e perspectiva. Dividir cada debate entre "a favor" e "contra" e sair xingando a oposição é pobre e ineficiente. Na vida real e na virtual; na pessoal e na pública.
É bestificante ver a indignação de gente inteligente e civilizada com a proibição do Uber. Xingam os políticos, a máfia dos taxistas, o Brasil etc. Para equilibrar, andei perguntando para taxistas como vêem o Uber. Só faltam cuspir fogo. É transporte clandestino, tem que ser proibido e por aí vai.

É evidente que o Uber, como existe, é um serviço que só faz sentido no quarto mundo, onde não há regulamentação nem direitos trabalhistas. Por isso vem enfrentando tantas resistências nas grandes cidades do planeta, onde há lei. É igualmente evidente que esse enfrentamento faz parte da estratégia de expansão da empresa. Eles não esperam operar em um vácuo de regras e se adaptarão conforme forçados a isso. Primeiro a gente invade, depois a gente negocia. É assim o capitalismo. Business is War.

Quem tem a maior simpatia pelo Uber por ser uma jovem empresa inovadora está fora de si. O Uber é um gigante extremamente eficiente em captar investimentos. Não tem seu valor estimado em mais de 50 bilhões de dólares à toa. A área financeira do Uber trouxe tantos executivos de Wall Street que o apelido do Uber no setor é "Goldman West", referência ao banco Goldman-Sachs...

E daí, pergunta o amigo? O que importa é que eles prestam um excelente serviço! Bem, não, não é isso que importa. Não isso só. Nem tudo que é bom para o consumidor é bom para o conjunto da sociedade. Por isso criamos o salário mínimo, por exemplo, mesmo sabendo que pagar mais para os operários implicaria em aumento no preço dos produtos. Pagar o preço mais baixo é ótimo quando você compra, e terrível quando você está vendendo sua força de trabalho...

O serviço prestado pelo Uber é uma parte importante do que importa. O Uber hoje tem 5 mil motoristas cadastrados no país, segundo a própria empresa, e pretende chegar a 30 mil no ano que vem. Muita gente usa e aprova. Os motoristas precisam ter seguro para os passageiros, os carros são grandes e novos e tal. Aliás, boa parte dos clientes do Uber curtem mesmo é esse lado de ser tratado a pão-de-ló. E não há nada de errado nisso. Mas o ganha-pão de 35 mil taxistas paulistanos, outros 33 mil no Rio e sei lá quantos no restante do Brasil, também é uma parte importante do que importa.

Há corporativismo entre os taxistas? Sem dúvida. Esse negócio das prefeituras não liberarem alvará é imoral e provavelmente picaretagem? Idem. Tem taxista sovaquento que ouve Djavan no último volume? Claro. Isso é razão para irem todos para a rua? Calma lá.

Escolher um lado e xingar o outro é andar para trás. Liberdade de empreender e inovar não é um valor intocável nem um demônio a ser combatido. Regulamentação não é sinônimo de atraso; regulamentação estúpida é que é.  O Uber e empresas similares podem ser uma parte importante do nosso transporte urbano de cada dia. Cada país vai criar regras para isso, e o Uber vai obedecê-las ou dançar. E com toda sua grana, sempre corre risco de ser destruído por um concorrente. Li esses dias sobre uma start-up israelense que criou um aplicativo que faz o que o Uber faz, só que com caronas...

Em Berlim, por exemplo, o Uber fez um acordo e hoje só usa mão de obra licenciada e cobra a mesma coisa que os taxistas. Em Belo Horizonte, há um projeto de lei em estudo que daria licença para o Uber operar 500 veículos de luxo, mas força a empresa a pagar os impostos na própria cidade. O que é o melhor? Não sei. Vamos botar a cabeça para funcionar, que encontramos uma solução razoável. Não é física quântica.

Dá trabalho criar regras e garantir seu cumprimento, mas é uma das melhores ferramentas que o ser humano criou. Regras claras, cobrança clara, e convivência transparente. Tão simples - e complicado - assim.

http://r7.com/fyjo

Publicado em 25/09/2015 às 16:16

A operação Lava-Jato acabou. Mas a crise verdadeira está só começando

FRP Juiz Sergio Moro anuncia medidas contra impunidade 0307042015 1024x681 A operação Lava Jato acabou. Mas a crise verdadeira está só começando

Sérgio Moro: agora, só mais um de muitos juízes cuidando da Operação Lava-Jato

O Brasil mudou radicalmente para pior nos últimos dias. Não tem nada a ver com o dólar subir ou descer. Pouca gente reparou ou prestou atenção nos detalhes. Vamos recapitular:
- o Supremo Tribunal Federal decidiu tirar parte das investigações da Operação Lava-Jato das mãos do juiz federal Sérgio Moro, da 13ª Vara Criminal de Curitiba
- cada investigação irá para cidades diferentes do país, os lugares onde os delitos foram cometidos
- com isso, os réus ganham a chance de usar todos os argumentos contrários à acusação junto a outros juízes em outros estados
- esses novos juízes podem aceitar delações premiadas ou não
- os novos juízes verão apenas sua parte da operação Lava Jato, e não o todo como Moro via; isso pode dificultar as investigações
- os novos juízes julgarão delitos de políticos e de empresas justamente nos estados onde esses políticos e empresas têm mais influência
- os novos juízes terão que se familiarizar com os processos, o que fará o desenvolvimento da Lava Jato levar muito mais tempo
- esses juízes de primeira instância não têm o know-how da força-tarefa que comanda a Lava Jato, e podem não respaldar ações do Ministério Público e da Polícia Federal, por desconhecimento ou mesmo por pressão dos governos estaduais
- os processos que forem redistribuídos pelo país obrigarão o Ministério Público Federal a criar células da operação Lava Jato pelo país - Sudeste, Norte, Nordeste. Hoje são 330 servidores, concentrados em Curitiba e Brasília, onde são processados os políticos que têm direito a foro privilegiado
- os estados da região Sul são os únicos aparelhados para dar transparência ao processo, porque permitem acesso digital aos despachos. Com isso a atuação da Lava Jato passou a ser acessível à imprensa. No restante do país isso não acontecerá
- os advogados dos políticos envolvidos na Lava Jato já preparam uma chuva de liminares para redistribuir os inquéritos pelo país afora. Com isso, esperam evitar que outras pessoas ligadas a esses políticos sejam processadas por Moro - familiares, assessores, operadores
- em caso de perda de mandato por renúncia ou cassação, políticos citados na Lava Jato poderiam em tese ser julgados em outra vara que não a 13ª
O que diz Sérgio Moro sobre isso tudo: "há risco concreto de que vários desses processos caiam, nos anos vindouros, no esquecimento".
Não é só que a Lava-Jato daqui para frente tem pouca chance de punir alguém. Mesmo quem já foi julgado pode escapar. É o caso de João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do PT, preso desde 15 de abril, e condenado por Moro a 15 anos de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro.
Seu advogado, Luiz Flávio Borges D´Urso, afirmou ontem que desde o início já sustentava a incompetência de Sérgio Moro para julgar Vaccari, porque o julgamento deveria acontecer é em SãoPaulo. Disse ao Estadão:"Não há razão para que tudo fique concentrado no Paraná. Até agora nossa tese não teve sucesso, mas com a decisão do Supremo abre-se um caminho.”
Para D´Urso, a consequência tem que ser a anulação do processo inteiro, porque conduzido por juiz incompetente. “Sempre que tem um juiz incompetente, seja em razão da matéria, seja em razão do local onde aconteceram os fatos, se ele é incompetente tudo o que foi feito, em tese, é nulo. Recomeça tudo no juizo competente.”
Em português claro: a Lava-Jato já era. Ou pelo menos, a Lava-Jato que o Brasil queria e precisava. Pegando pesado, pegando geral, pegando em todos os partidos, pegando os grandões. Teremos no máximo uma Operação Flanelinha... E sem gritaria da oposição. Nem podia ser diferente. Vários grandões do PSDB e do PMDB oposicionista também foram citados como corruptos nas delações premiadas.
Um repórter amigo, que sabe dos bastidores da investigação, descreveu o papel de Sérgio Moro como "estratégico" - um juiz que entende muito do lado processual, mas também do policial, e de crimes financeiros. Ele me zoou muito quando escrevi aqui, em março, um texto com o título "A Lava-Jato já acabou em pizza". Dei o braço a torcer quando esfregou na minha cara a prisão de Marcelo Odebrecht, quem diz que no Brasil rico não vai pra cadeia? Agora chegou minha vez de provocar ele. O grande estrategista foi pro escanteio.
Aleijar a Lava-Jato enterra de vez a conversa de impeachment? No jornal Valor Econômico, Maria Cristina Fernandes cravou: "o desmembramento antecipa a promessa de futuro de que o bloco do impeachment se faz portador. Os coveiros da Lava-Jato pavimentam a rota para a presidente chegar a 2018."
Mas política é uma coisa e economia é outra. Treze anos atrás, quando se batia dia e noite em Lula por causa do Mensalão, todas as classes celebravam o período de bonança. Agora é o contrário. As maiores empresas do Brasil estão muitíssimo mal das pernas. Têm dívidas impagáveis com os bancos, e muitas delas em dólar. Todos os indicadores sociais vão cair, até onde podemos ver.
Trocar Dilma e não trocar de política econômica não vai melhorar a vida do brasileiro em nada. Arrisca até piorar. Quem sabe que tipo de novo presidente um impeachment poderia trazer? Aventureiros no Brasil não faltam. Mas a ilusão de mudança pode ser intoxicante. Junho de 2013 está aí para nos lembrar.
Essa crise é a que importa. E está só começando.

Publicado em 24/09/2015 às 16:00

O Brasil precisa de uma lei obrigando ciclista a usar capacete

Haddad O Brasil precisa de uma lei obrigando ciclista a usar capacete

Fernando Haddad pedala usando capacete debaixo do Minhocão

Prefeitos de grandes cidades brasileiras vêm estimulando as pessoas a usar a bicicleta como meio de transporte. As próximas eleições municipais podem eleger gestores menos convictos de que a bike funciona para o transporte de massas.
Mesmo assim, está feito o estrago – ou o avanço, dependendo da sua visão das ciclovias. Entre muitos jovens, e também alguns coroas de espírito jovem, a bicicleta já foi adotada como meio de transporte do coração.
Qual a minha opinião? Não importa no momento. Acima da minha ou sua opinião está um fato inquestionável: andar de bicicleta nas grandes cidades é muito arriscado. Como de moto. Sobre duas rodas você sempre está muito mais exposto do que dentro do ônibus ou automóvel.
Foi por isso que anos atrás criou-se a obrigatoriedade do uso de capacete para os motociclistas. É uma lei que salva muitas vidas. O capacete tem custo. Custo maior é trincar o crânio, para a própria pessoa e para a sociedade.
Vale para motos, tem que valer para bicicletas. Uma coisa é pedalar por lazer num parquinho. Outra é usar como meio de transporte, se aventurando pelas avenidas engarrafadas das nossas cidades.
Mas podemos contar com o bom-senso dos ciclistas, né? Não podemos não. Como não podemos contar com a dos motoristas. Muitos continuam dirigindo alcoolizados, e para isso existe a Lei Seca. Muitos correm demais, e para isso existem limites de velocidade. O cinto de segurança só virou hábito quando virou lei com multa pesada. Contar com o bom-senso individual do ser humano não é uma boa estratégia – e é por isso que, usando nosso bom-senso coletivo, as sociedades criam leis, e punições para quem as descumpre.
A necessidade dessa lei me ocorreu quando vi uma foto de Fernando Haddad pedalando em uma ciclovia, no Dia Mundial Sem Carro. Usava um capacete amarelão. Uma pesquisada rápida mostrou Haddad várias vezes pedalando sem capacete, no passado. Alguém deve ter alertado o prefeito da barbeiragem. Agora ele só aparece usando capacete.
Dá o exemplo certo. Que é pouquíssimo seguido. De lá para cá prestei atenção. Uma em cada cinco das pessoas que vi usando as ciclovias paulistanas usavam capacete. E olha que vi muitos ciclistas descendo avenida a milhão. Não é pelo preço – tem capacete a partir de R$ 50,00. É porque o ser humano sempre acha que coisa ruim só acontece com os outros. E ainda mais se for jovem, a maioria dos ciclistas urbanos.
Pô, mas agora eu vou ter que usar capacete sem que sair de bike? Vai. E onde vou guardar? Problema seu. É uma restrição da sua liberdade de sair sem capacete, sentir o vento no cabelo e tal? É. Mas é para o seu bem.
Você pode acreditar que a bicicleta é uma boa alternativa para o transporte nas grandes cidades. Ou não. Pode defender a ciclovia ou atacar. Pode adorar Haddad ou detestar. Mas tem que ser a favor de uma lei obrigando o ciclista a usar capacete. E ainda mais se for ciclista.

Publicado em 14/09/2015 às 15:59

Dilma está certa

dilma 1024x682 Dilma está certa

Os Fundamentalistas das Finanças estão em polvorosa: presidente se nega a cortar gastos sociais! Irresponsabilidade fiscal! Primeiro vamos cortar na carne, depois vamos discutir aumento de impostos!
Já reparou como investimento que beneficia os mais pobres é sempre "gasto"? Esses Talibãs são radicais às custas dos outros. Eles defendem cortes, contanto que os cortados sejam a peãozada que mora lá na periferia. Os banqueiros exigem cortes, mas também exigem continuar com os lucros mais altos do mundo. Os empresários exigem cortes, mas não nos subsídios, não no apoio à exportação, não na Zona Franca, e nem pensar em reonerar as folhas de pagamento. O jornal estampa na primeira página a cobrantina, mas não abre mão da isenção fiscal na compra de papel. E por aí vai.
É fácil você defender que o governo pare de investir em casa própria para os pobres, hospital para os pobres e escola para os pobres quando você é rico. É fácil e imoral, mas pior ainda, é errado na prática e na teoria. Se você está morrendo de fome, a última coisa a fazer é regime.
É matematicamente impossível sair de uma crise econômica diminuindo o investimento público. É o que vem tentando Dilma, e é exatamente a que foi defendido por Aécio. Ela faz o que prometeu que não faria jamais: tarifaço, aumento de juros, recessão. A diferença entre os dois é sutil. Aécio anunciou que se vencesse, seu ministro da fazenda seria o dono de banco, Armínio Fraga. Joaquim Levy foi aluno de Armínio, mas não é banqueiro. Era funcionário do Bradesco: é bancário. Quem manda na economia é Dilma.
E nesse momento, sob imensa pressão, Dilma rejeita cortes adicionais nos gastos sociais. Defende o Bolsa Família, subsídios para construção de casas populares, aumento do salário mínimo, aposentadorias. Jogo de cena para a base petista? Pode ser. É pouco, perto do que o Brasil precisa? Claro. Temos cem milhões de jovens do Brasil, e eles precisam de um horizonte, e oportunidades para usarem toda essa energia - trabalhar, empreender, criar.
Mas ao resistir às pressões para cortar na carne dos pobres, Dilma denota mais sensibilidade social e inteligência econômica que os defensores dessa falsa "Austeridade", que é só outra maneira de dizer "transferência dos recursos do povão para os credores".
Brasileiro adora imitar americano. Essa é uma boa oportunidade. O país é a grande referência da economia do planeta. O dólar é a moeda mundial, e o Banco Central americano, o Federal Reserve, é o banco central dos bancos centrais.
Como o governo americano enfrentou a crise de 2008? Apertou o cinto? Fez o contrário. Obama afrouxou geral e seu governo saiu investindo. Fizeram igual os bancos centrais da Europa e do Japão. Inundaram a Terra de liquidez. Foi assim que o mundo sobreviveu ao tsunami, e o Brasil pegou carona e surfou uma marolinha. Barack também aproveitou para manter Wall Street desregulamentada, no que perdeu uma oportunidade de ouro, e pagamos o preço por isso.
Na época, até os banqueiros diziam: "agora somos todos Keynesianos". O que defendia Keynes, que a revista The Economist chamou de "o maior economista britânico do século 20"? Em uma frase, que a economia de um país não deve ser deixada ao sabor dos ventos do mercado, mas estimulada quando necessário com investimentos do seu governo, para garantir empregos e crescimento. Outra revista, a Time, decretou: "sua idéia radical de que os governos devem gastar dinheiro que não têm pode ter salvado o capitalismo". É o que todos os governos fazem, no século 21.
O orçamento do governo federal americano é US 3,9 trilhões. E eles gastam menos do que arrecadam, certo? Errado. Os EUA gastam muitíssimo mais do que é gerado pelos impostos: mais de 500 bilhões por ano! Quer dizer: lá pode ter déficit. Aqui, nem pensar.
E o governo americano investe dinheiro público na economia americana? Mas é lógico. De muitas maneiras diferentes. Subsídios para empresas, tem por lá? De monte. Dos governos federal, estaduais e municipais. Só para fazendeiros, são US 20 bilhões por ano. Para a indústria do petróleo, US 18,5 bilhões por ano. O subsídio mais escandaloso e horrível de todos: o orçamento das Forças Armadas americanas é US 642 bilhões por ano. Quase 4% do PIB.
Você pode amar ou odiar Dilma. Está equivocado nos dois casos. A política econômica de Dilma é errada no atacado, mas a presidente está certa ao defender os investimentos sociais. Para lidar com governantes há que usar a razão, não a emoção. Política demanda fiscalização e pressão. Há que usar o cérebro, não o fígado ou o coração - por mais tentador que seja.

http://r7.com/0qWH

Publicado em 02/09/2015 às 20:18

Um menininho morto, a falsa crise dos refugiados, e uma responsabilidade para o Brasil assumir

curdos1 Um menininho morto, a falsa crise dos refugiados, e uma responsabilidade para o Brasil assumir

Aylan tinha três anos. Era sírio. E era curdo. Sua família teve que fugir do norte da Síria, por causa de combates entre o Estado Islâmico e forças curdas. Já tinham conseguido sair de lá e chegado à Turquia.
Estavam em Bodrum. Uma cidade linda e muito antiga. Chamou-se Halicarnassos, no passado distante. Lá foi construído um palácio para um rei chamado Mausoleum, de onde, exato, veio a palavra "mausoléu".
Sei um monte de coisas sobre Bodrum, porque passei dias incríveis lá em 1999, mergulhando, tomando Arak, quarando no sol. Toda pinta de ilha grega, casinhas brancas, baladas fortes.
E porque era um menininho, nos corta o coração ver seu corpo jogado na praia. E porque eu estive por ali, vi sua morte de uma maneira mais doída. Sua e de toda sua família, inclusive um irmão de cinco anos.
Minha tendência seria pensar: seus idiotas, é só mais um, porque chorar por esse e não por todos os outros? Porque compartilhar o defuntinho, se você nunca fez nada para evitar isso? Para mostrar como você sofre com os sofredores? Mas a coincidência geográfica fez a questão pessoal.
A Síria é um campo de batalha onde interesses geopolíticos diferentes se digladiam, sob o manto de diferentes interpretações do Corão. O povo paga o preço - em sangue. São milhões de sírios desesperados para sair de lá, porque chovem bombas.
De todos os lados. E aliás chovem bombas americanas. Que também matam criancinhas inocentes. Hoje mesmo saiu uma reportagem do Mike Griglio, da Buzzfeed News, com evidências conclusivas sobre a responsabilidade do governo americano na morte de civis na Síria. O link está aqui.

http://www.buzzfeed.com/mikegiglio/the-us-led-coalition-bombing-syria-has-killed-more-civilians#.yeymRZwQg

Os sírios, como muitos outros povos pobres e perseguidos, querem refúgio e a chance de uma vida melhor. Naquele pedaço do mundo, isso se resume a duas palavras: União Européia. Os europeus e seus governantes se arrepiam com a perspectiva de uma invasão bárbara. Políticos populistas faturam com o medo do povão. Tem idéia quantos imigrantes ilegais devem ir morar na Alemanha este ano? 800 mil.
Os curdos têm ainda mais problemas. Porque não têm um país próprio. Porque não são bem-vindos na Turquia e aliás em quase nenhum canto do Islã, que dirá da Europa. Então restava atravessar aquele mar turquesa. Muitos conseguem. Alguns morrem.
Isso vai continuar acontecendo. A crise dos refugiados não é uma crise, porque essa palavra denota um problema temporário. É a nova situação normal: desgraçados do mundo fazendo qualquer coisa por segurança. As mudanças climáticas indicam que a situação vai se agravar muito nas próximas décadas, porque o cinturão em torno do Equador vai ficar tórrido, seco, estéril - e os muitos milhões que moram por ali, inclusive no sul da Europa, vão zarpar em busca de uma vida viável.
Naquele pedaço do mundo o desafio é entrar na União Européia. Nas Américas o Xangri-lá é ir para os Estados Unidos. Francamente, cabe a eles assumirem essa bucha. As barbaridades coloniais da Europa têm grande parte da culpa pela mortandade sem fim mundo afora, e ainda mais no Oriente Médio. Quanto aos EUA, bem, se Bush não tivesse invadido o Iraque com o pretexto de armas de destruição em massa que nem existiam, aquilo ali estava bem diferente - e aliás nem existiria o Estado Islâmico.
O Brasil não tem guerra civil. Mas às vezes até parece, de tanto assassinato e miséria, de tamanha insensibilidade dos poderosos com os frágeis. Quantos brasileiros não iriam morar no primeiro mundo hoje mesmo, se tivessem chance? Quantas criancinhas morrem de bala perdida e necessidade aqui mesmo na esquina?
Nos parece que o Brasil não tem no momento muito o que oferecer, verdade. Mas perto do que vive o povo da Síria, isso aqui é o paraíso na Terra. E embora o Brasil não tenha culpa nenhuma pela guerra lá, diferente de Europa e EUA, temos que assumir nossa responsabilidade. Pelo muito que os imigrantes sírios e seus descendentes contribuíram para o Brasil, pelo bem estar de outros meninos, temos obrigação de retribuir, e abrir nossas fronteiras a esses refugiados. E, francanmente, muitos outros. É um território enorme e enormemente desocupado. Não tem emprego pra todos? Olha, arrisca ser o tranco que o Brasil precisa para sair dessa marasmeira.
E seria uma coisa bonita de se dizer para o mundo: vinde a mim, desgraçados da Terra...

http://r7.com/3l5Q

Publicado em 28/08/2015 às 18:43

Como combater a desigualdade no Brasil (e quem vai pagar a conta)

Atkinson Como combater a desigualdade no Brasil (e quem vai pagar a conta)

Sir Anthony Atkinson: o maior especialista no combate à desigualdade

Tem muita gente falando de desigualdade social. E fazendo muito pouco. Falar é fácil. Agir é o que interessa. O Brasil tem tudo para liderar o planeta nisso. É nosso destino. Somos uma das maiores economias do planeta, com recessão e tudo. Mas a riqueza está quase toda concentrada em 0,5% da população. Esses nossos compatriotas super-ricos são os credores brasileiros da dívida brasileira. É quem está se dando bem com juros estratosféricos. Vão faturar firme em 2015. Pagam quase nada de impostos. São os únicos.
Não há como fazer o Brasil mais palatável para os 99,5% restantes sem reduzir os privilégios desses 0,5%. É assim aqui e em qualquer país. Justamente porque aqui a situação é tão insanamente injusta, a oportunidade é tão grande. Um pequeno enfrentamento fará uma enorme diferença.
Não se trata de crucificar os abonados nem santificar a pobreza. É só que o modelo concentrador de riqueza vem dando errado em todos os países. A formulinha de “austeridade” forçada, arrocho e tarifaço e desemprego, é o que levou a Grécia à beira do abismo. Não deu certo lá. Não deu certo na África, no leste Europeu, nos países da primavera Árabe... e não dará certo no Brasil.
Mas há alternativas à política econômica do FMI, que o governo do Brasil nos impõe há anos? Claro. Muitas. Algumas utópicas nos limites da esquizofrenia. Outras bem pragmáticas.
Um exemplo de pauta prática está no novo livro de Anthony Atkinson, “Desigualdade - O que Pode Ser Feito”, que chega agora ao Brasil pela Leya. É o maior especialista em desigualdade do mundo. Um senhor de 71 anos, formado em Cambridge, professor da London School of Economics, catedrático em Oxford. Atkinson estuda distribuição de renda desde os anos 60, quando Thomas Piketty usava fralda. Foi mentor de Piketty, aliás.
Por seu trabalho, Atkinson recebeu da coroa inglesa o título de “Sir”. É sempre citado como um dos nomes com grande chance de ganhar um Nobel de Economia. Vamos combinar que ele não é um amador abilolado. Nem um carbonário que pretende incendiar as instituições.
O livro de Atkinson não é trabalho acadêmico e não tem nada de impenetrável. Escreveu para ser lido por qualquer um. O foco é na situação do Reino Unido. Mas suas propostas podem ser adotadas no Brasil ou em qualquer lugar em que a população tenha culhões... e necessidade de mudança urgente.
O que podemos fazer hoje mesmo para criar um Brasil menos desigual? Mais próspero e pacífico? Que recompense a educação, a inovação, o risco? Como diminuir a diferença entre o rendimento do trabalhador e do empreendedor e o rendimento dos investimentos financeiros, responsável pelo abismo crescente entre a elite e os 99,5% restantes?
Atkinson elenca várias propostas. Seleciono quatro:
- Hoje há um grande desequilíbrio de poder entre o capital e o trabalho, entre empregadores e trabalhadores / consumidores. Precisamos de políticas públicas que diminuam a influência do capital.
- Os impostos devem ser progressivos. Quem ganha mais, paga mais. Tony prega que o 1% de super-ricos deve ser taxado em 65% de sua renda. No Brasil eles pagam 6,5% e a classe média alta paga 27,5%.
- Além do imposto sobre a renda, é preciso criar um imposto anual sobre o patrimônio dos mais ricos.
- Criação de um programa de renda mínima universal para crianças (esse já existe no Brasil, e precisa ser muito ampliado e reforçado: o Bolsa-Família).
Sei, são bem arroz-com-feijão. Mas só essas quatro bastariam para fazer um Brasil completamente diferente do que temos. Outras idéias do livro são mais inovadoras. E algumas podem soar estrambóticas, para quem está anestesiado pelo discursinho mercenário dos fundamentalistas das finanças.
Quer um exemplo? Atkinson defende que a inovação tecnológica precisa ser direcionada pela sociedade, através de políticas públicas, para que auxilie a geração de empregos e não o contrário. Parece evidente, mas pela grita contra a proposta de regulamentação do Uber, deve soar como blasfêmia bolchevique para os discípulos do vale-tudo.
Se Atkinson soa radical demais para você, releia o currículo dele, uns parágrafos acima. É um acadêmico respeitadíssimo, um reformista. Radical é quem quer um mundo em que só o capital manda e obedece quem tem juízo.
E repare quem concorda com ele. Há quase um ano atrás, em 14 de junho de 2015, o Fundo Monetário Internacional divulgou um estudo chamado Causes and Consequences of Inequality (Causas e Consequências da Desigualdade). Ele foi realizado pelos economistas do próprio FMI.
A principal conclusão: muitas das políticas promovidas pelo próprio FMI são danosas para os países. Exacerbam a desigualdade e prejudicam a produção, o consumo, o emprego.
O estudo defende que as políticas econômicas devem se concentrar em aumentar os salários e qualidade de vida dos 20% mais pobres da população. Aumentar a proteção dos trabalhadores. Estabelecer impostos progressivos (quem ganha mais, paga mais). E criar políticas públicas para reforçar a receita da classe média. O resumo deste estudo é: mais gente com dinheiro no bolso, mais gente consumindo, mais produção, mais emprego. Austeridade é bad for business...
Parece óbvio. E é mesmo. Vamos torcer para esses economistas do FMI não perderem o emprego - se Angela Merkel ler esse estudo, vão todos pra rua. O estudo defende o exato contrário do que a direção do próprio FMI pregou para a Grécia, e que o "mercado", essa vingativa divindade sem rosto, prega para o Brasil.
É preciso inventar à toda velocidade um futuro promissor para a humanidade – um que dê conta de mais 3 bilhões de pessoas, que estão chegando nos próximos 40 anos, e mudanças climáticas brutais. Para isso precisaremos ir bem além das recomendações de Anthony Atkinson, um pensador do século 20. Vamos ter que desbravar os domínios da ficção-científica, embalados por visões fantásticas, embriagados de imaginação.
Mas primeiro há que lidar com nosso medíocre presente, e para dar conta dele não é preciso voar tão alto. Basta pressão social e coragem coletiva. Estratégia na geopolítica e lábia na negociação. Ver, julgar e agir sem vícios. Parece muito? Perto dos desafios das próximas décadas, é só um primeiro - e pequeno - passo.

http://r7.com/_Vjq

Publicado em 28/08/2015 às 17:35

Eu apareço demais nesse documentário. Mas você deve assistir mesmo assim

sem dentes Eu apareço demais nesse documentário. Mas você deve assistir mesmo assim

Sou mais que suspeito para falar de Sem Dentes, o documentário sobre o selo Banguela e o rock brasileiro dos anos 90. É dirigido pelo jornalista Ricardo Alexandre, que conheço desde aquela época, e o personagem principal é o Miranda, com quem eu já trabalhava antes disso tudo. Sou velho amigo dos dois. Não fosse isso, apareço no documentário – mais do que mereço pela minha parte nessa história. Mas quem sou eu para reclamar de aparecer demais...

Que tal ver o que os outros andam dizendo do documentário? A Rolling Stone disse que é “um bom retrato do período de insurgência dos independentes”. Alexandre Matias teceu loas no UOL, e melhor elogio, disse que é “hilário”. Eu digo que faltou maldade. Mas sendo Ricardo e Miranda, não tinha como o documentário não ser dominado pelo afeto, porque os dois são uns bonzinhos. Malacos, mas bonzinhos.

O filme revisita a cena roqueira da metade dos 90. Aquela geração: Raimundos, Skank, Nação Zumbi, Mundo Livre, Planet Hemp, Pato Fu e tantos outros. O eixo é o Banguela Records, selo dos Titãs com a Warner, idealizado e dirigido pelo Miranda. Mas o doc vai além. Vai a festivais como Superdemo, Abril pro Rock e Juntatribo. Conta causos, revela segredos. Captura o sabor da época, um tempo em que estávamos embriagados de independência. E relembra uma safra incrível de caras novas tomando a MTV e as FMs e enterrando o rock dos anos 80 – ou pelo menos era o que eu pensava que ia acontecer, mas estava bem enganado...

Assista. Se você não estava lá, não vai acreditar que o Brasil teve uma cena assim. Se estava, meu, é o puro sabor da juventude, quando a gente achava que dava para armar umas paradas boas. E dá, claro.

As novas datas de exibição de Sem dentes: Banguela Records e a turma de 94 são as seguintes:

  • 03 SET MARINGÁ, PR . CINEFLIX
  • 12 SET LIMEIRA, SP . TEATRO ESCOLA DANIEL MARTINS
  • 12 SET TAUBATÉ, SP . SESC
  • 12 SET CAMPINAS, SP . MIS
  • 18 SET SÃO PAULO, SP . CINE OLIDO
  • 25 e 26 SET VOLTA REDONDA, RJ . CINE-TEATRO GACEMSS
  • 02 OUT PARATY, RJ . MIMO FESTIVAL
  • 08 OUT BRASÍLIA, DF . CINE BRASÍLIA
  • 09 OUT RECIFE, PE . MOSTRA PLAY THAT MOVIE
  • 15 OUT FLORIANÓPOLIS, SC . TALIESYN ROCK BAR
  • 20 OUT NATAL, RN . CIENTEC UFRN
  • 24 OUT ANGRA DOS REIS, RJ . CENTRO CULTURAL THEOPHILO MASSAD
  • 29 OUT RIO DE JANEIRO, RJ . CINE ODEON

 

Publicado em 28/08/2015 às 15:39

Conheça os super-ricos brasileiros – e saiba como você financia a fortuna deles (Como diminuir a desigualdade, parte 1)

Super Ricos Conheça os super ricos brasileiros – e saiba como você financia a fortuna deles (Como diminuir a desigualdade, parte 1)

Os ricos do Brasil são muito mais ricos do que você imagina. São super-ricos. E ficam mais e mais ricos a cada dia que passa. Existem duas razões principais para isso. Os impostos da classe média e dos pobres vão para o bolso dos ricos. E os ricos pagam menos imposto que a classe média e os pobres.

Só agora a gente está entendendo quem são os super-ricos do Brasil. A análise tradicional, feita com as pesquisas do IBGE, não dão conta da realidade. Um novo estudo realizado pelos economistas Rodrigo Orair e Sérgio Gobetti, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), chega mais perto. Eles  analisaram os dados das declarações de imposto de renda das pessoas físicas. As conclusões são chocantes.

Segundo o IBGE, a renda média do 1% mais rico do país foi de R$ 214 mil em 2012. Mas segundo o estudo do IPEA, a renda anual do 1% mais rico é aproximadamente R$ 575 mil. Explicação: o IBGE não capta toda a renda das pessoas mais ricas, que tem muitas rendas provenientes do capital (como aplicações financeiras, aluguéis, lucros e dividendos).

R$ 575 mil já é uma boa grana: mais de R$ 40 mil por mês. Mas esses 1% ainda não são a elite. Os super-ricos do Brasil ganham acima de 160 salários mínimos por mês. São 0,05% da população economicamente ativa.

Os super-ricos brasileiros possuem um patrimônio de R$ 1,2 trilhão. Isso é 22,7% de toda a riqueza declarada por todos os contribuintes do Brasil. Essas 71.440 pessoas têm renda anual média de R$ 4.17 milhões, uns R$ 350 mil por mês. Tiveram em 2013, ano analisado pela pesquisa, um rendimento conjunto de R$ 298 bilhões.

E em 2015? Não sabemos, mas é seguro dizer que estão bem mais ricos que em 2015. Quem tem muito capital investe e recebe rendimentos financeiros enormes. Os juros no Brasil são sempre muito altos, mas agora estão estratosféricos. Trabalhar não tem nada a ver com a fortuna crescente dessa turma. Neste nível de renda, trabalha quem quer, não porque precisa.

Qual o negócio mais lucrativo e seguro do Brasil? Emprestar dinheiro para o governo. No Brasil, como na maioria dos países, as contas públicas não fecham no final do ano. Se você tem muita grana, não precisa de criatividade para enriquecer mais e mais. Basta comprar títulos públicos do governo, que paga juros altíssimos para financiar sua dívida. E de onde vem esse dinheiro para pagar os juros? Do Tesouro Nacional, dos impostos que todos os brasileiros pagam.

Mas alguns pagam mais que outros. O detalhe mais cruel sobre a desigualdade brasileira está aí. Os super-ricos brasileiros, esses que ganham mais de 160 salários mínimos por mês, pagam só 6,51% de sua renda de imposto de renda. Você leu certo. Um assalariado que ganhe R$ 5 mil por mês paga 27,5% de imposto de renda. A elite paga 6,51%, como demonstra o estudo do IPEA.

Como isso é possível? É que 65,8% da renda total desses super-ricos são rendimentos considerados isentos e não-tributáveis pela legislação brasileira. É o caso dos dividendos e lucros. Na prática, o imposto de renda aqui só é progressivo do pobre até a classe média, que é justamente a fatia da população que mais paga imposto de renda. É uma receita perfeita para aumentar cada vez mais a desigualdade social no Brasil. É garantia de injustiça, ignorância, violência. E até de atraso em outros campos. Se fala muito que o Brasil tem pouca inovação tecnológica, mas quem vai arriscar capital investindo em inovação, se você pode faturar com juros altos e não pagar quase nada de imposto?

Essa bizarria cruel é criação brasileira. Todos os países decentes, sejam ricos ou emergentes, tributam todos os rendimentos das pessoas físicas. Não interessa se a renda do salário, de aluguel ou de dividendos. É o justo. É o mais eficiente para o bom funcionamento dos países.

O estudo do IPEA não captura com precisão absoluta a pirâmidade social brasileira. Não dá conta de dinheiro escamoteado, de caixa 2 ou remessas enviadas ao exterior. Mas já dá uma noção do tamanho do escândalo. Agora, como é focado no Imposto de Renda, não leva em consideração outra grande injustiça do nosso sistema tributário, que são os impostos indiretos.

Os super-ricos pagam o mesmo imposto sobre produtos que você, eu ou a vovó que recebe Bolsa Família. Pagam o mesmo imposto pelo arroz, o café, o remédio, o fogão. Isso significa que proporcionalmente o pobre paga muito mais imposto a classe média. E infinitamente mais que a elite.

Os super-ricos não são os vilões dessa história. As regras estão aí para beneficiá-los. Não é ilegal. Certamente há na elite gente que topa abrir mão de suas vantagens, em benefício de quem mais precisa... Mas, como era de se esperar, existem super-ricos que atuam diretamente para que esse estado de coisas continue exatamente assim: juros altíssimos e taxação mínima. Basta isso para os donos do capital ficarem mais e mais ricos a cada ano que passa, sem trabalho, sem esforço, sem contribuir para o país.

Os super-ricos têm muito poder. Influenciam muito no debate político e econômico. Abundam na imprensa argumentos a favor de que as coisas se mantenham como são. E são super-ricos os financiadores das campanhas da maioria dos políticos, claro.

A recessão radicaliza a injustiça. Penaliza o trabalhador e o empreendedor, o importador e o exportador, o estudante e o aposentado. Esta recessão não veio do espaço sideral. Foram tomadas decisões erradas no passado? Claro, muitas, desde 1500. Mas não dá para mudar o passado. O futuro felizmente está ao nosso alcance.

Esse ano e os próximos serão muito difíceis. O cenário internacional é hostil. O cobertor está curto. É imoral e improdutivo continuar enriquecendo 0,5% com o dinheiro dos impostos dos 99,5%. Enfrentar os privilégios dos super-ricos é a pauta política e econômica fundamental de 2015 e dos próximos anos. O resto é resto.

Publicado em 19/08/2015 às 10:25

A Batgirl que eu conheci

Em 1995 vivi uma das maiores emoções da minha vida. Vai me chamar de nerd bestalhão? Quando eu crescia não existia esse negócio de nerd. Não gosto a22 A Batgirl que eu conhecidessa palavra. Curtir — e curtir de verdade — ficção científica, seriados, quadrinhos e companhia era simplesmente uma coisa muito bacana. E continua sendo.
Eu comecei nessa vida com Batman. Antes de aprender a ler, e aprendi muito cedo com minha mãe, tenho lembrança de ver o seriado. Eu levava a sério porque os mocinhos levavam a sério. Aqueles bandidos surreais com seus planos mirabolantes — e nossos heróis espalhando comentários edificantes (e socos com BLAM! POW! BIFF!).

Batgirl mais ainda. Era bibliotecária, moça seríssima, filha do Comissário Gordon. E de repente a penteadeira dela virava e disparava em sua motoca a deliciosa Batgirl.

Quando apareceu? Um belo dia. Hoje sei que foi invenção dos roteiristas para enfrentar os comentários que Batman e Robin eram um casal homossexual (coisa que nunca me passou pela cabeça na época. É tese dos anos 50, do livro A Sedução dos Inocentes, e me parece igualmente furada hoje. Batman e Robin são obviamente pai e filho, e hoje são de fato nos quadrinhos).

A TV era preto e branco. Muitos anos depois vi Batgirl em seu esplendor púrpura radiante. Em cinza já era  matadora. Que gata. Rosto delicado, curvas letais. Mais gata só Julie Newmar. Mas a Mulher-Gato só dava as caras de vez em quando, e a Batgirl começou a aparecer em todos os capítulos.

As meninas da época escolhiam quem queriam ser quando crescer: Batgirl ou Mulher-Gato, a Feiticeira ou Jeannie. Os meninos tinham opção mais fácil: paixão por todas.

E nos anos seguintes eu brincava de encontrá-las em outros seriados. Olha aqui a Yvonne Craig no Cyborg! No James West! É ela mesmo debaixo dessa maquiagem verde em Jornada nas Estrelas?

yvonne3 A Batgirl que eu conheci

Em 1995 eu estava na Comic Con com meu amigo e sócio, Mauro Martinez dos Prazeres, da Devir. Já era um grande evento da cultura pop, mas ainda bem focado em quadrinhos, não esse monstro multimídia de hoje. Nunca fui de pedir autógrafos e nem Mauro. Não resistimos. Autografavam Adam West, Julie Newmar e Yvonne Craig. As duas primeiras fotos estão na parede da minha sala: Batman e Mulher-Gato, com dedicatórias. A da Batgirl publicamos na revista Herói e sumiu na redação há muitos anos.

Adam já era velhinho, ou me pareceu — eu tinha 30, qualquer um acima de 50 era coroa pra mim. Julie se mantinha charmosa e ronronou, juro, me chamou de darrrrrling. Yvette não era relíquia: era uma morena bonita. Um pouco mais cheinha que na minha infância, mas os olhos puxados e o meio sorriso estavam lá.

Morreu agora aos 78 anos. Quando me olhou nos olhos tinha 58. Hoje eu é que tenho 50. A vida passa rápido. As paixões da infância são para sempre.

yvonne21 A Batgirl que eu conheci

Um dos textos que eu mais curti escrever na vida, e um dos mais elogiados por gente que gosta do que eu gosto: porque não sou nerd.

E outra versão da mesma história, agora sobre meu outro amor de infância, Julie Newmar.

Publicado em 17/08/2015 às 16:06

99% dos brasileiros não foram às ruas contra o PT. Está na hora de ouvir o que eles têm a dizer

Impeachment 99% dos brasileiros não foram às ruas contra o PT. Está na hora de ouvir o que eles têm a dizer
Quase um milhão de pessoas foram às ruas este domingo pedir o impeachment de Dilma Rousseff. Bastante gente. Menos que parece. Somos 204 milhões de brasileiros. Mais de 99% dos brasileiros ficou em casa. Estão certíssimos. Aliás estamos. Também não fui gritar contra o PT. Ausência não significa aplauso. Muito pelo contrário.
A crise econômica chegou com tudo. Pega nossas famílias, vizinhos, amigos. A fábrica, a fazenda e a start-up. Está pegando geral. A situação internacional não ajuda, mas as causas principais são locais mesmo. A Operação Lava-Jato é ótima, mas na prática tirou uns R$ 50 bilhões da economia. E a política recessiva do governo. Que de ótima não tem nada.
Até José Serra está metendo o pau. Em entrevista ao jornal “Valor Econômico”, o senador tucano surpreendeu ao dizer que a política de ajuste é “burra” e “aprofunda o desajuste”, que a política monetária cambial é “uma insanidade”. Fácil falar isso quando se está na oposição. Mas a facilidade não quer dizer que não seja verdade.
Brasileiro é ignorante. Nos falta formação e informação, porque aqui faltou e falta escola. Somos bem burrinhos na hora de defender coletivamente o nosso. Mas individualmente o brasileiro é bem esperto quando se trata de defender o seu.
Seu João Brasileiro e dona Bete Brasileira sabem que trocar presidente não bota feijão na panela nem quita a conta do celular. Lembram que Aécio e Marina propunham exatamente essa política econômica que hoje Serra critica e a presidente pratica (embora Dilma tenha prometido ano passado que não ia governar para os bancos, e sim para o povo brasileiro. Essa parte todo mundo lembra especialmente bem).
Nossos compatriotas também têm perfeita clareza que um impeachment de Dilma põe no Planalto Michel Temer. O vice-presidente defende essa mesma política recessiva. Levaríamos ao poder o PMDB, partido com um mundo de casos de corrupção.
Quando estouraram os primeiros escândalos envolvendo o PT a vida melhorava ano após ano. Assim se reelegeu Lula e se elegeu Dilma. Política é assim mesmo, concluía o sábio brazuca, e votava com o bolso.
Mas agora que todos sofremos com as consequências dessa política econômica, da operação Lava-Jato, da paralisia em Brasília, o brasileiro faz uma ligação diferente. É assim: "estamos nessa roubada porque os políticos roubaram tanto, que quebraram o país". Se não é verdadeiro, é bem dito, como se diz na Itália. É a economia, estúpido, não a política.
Temos essa parcelinha dos brasileiros que quer tirar o PT do poder a qualquer preço. Alguns até defendem isso ao preço da nossa própria democracia, tão falha, tão frágil. E uma meia-dúzia ainda defende cegamente Lula e Dilma. Para esses todo opositor é coxinha, todo jornalista é canalha, todo crítico é golpista. São minorias míopes. Dominam o debate numa gritaria inócua e interminável. Chega, né?
Brasileiros de todas as camadas vão dando as costas a esse maniqueísmo maníaco. O povão que ficou em casa em vez de gritar contra o governo. E semana passada vimos empresários, banqueiros e companhia pedindo calma e exigindo estabilidade. Há que baixar a bola para poder manter o olho nela.
Escrevi aqui em maio que se continuarmos nessa toada, o Brasil é a próxima Grécia. Vamos quebrar e quebrar feio. Agora ficou evidente. Essa política econômica é ruim para todo mundo.
Os 99% que não foram para as ruas falaram. O que eu ouvi foi: nós não somos contra o PT. Nem o PSDB e nem o PMDB. E muito menos a favor. Nós somos contra a corrupção, seja qual for o partido. Somos contra essa política econômica que causa recessão e inflação. Queremos sossego para trabalhar, empreender, criar nossos filhos e curtir nosso domingão. Queremos menos politicalha e mais pragmatismo. Para ontem.
É querer muito? É exigir o mínimo. Político tem obrigação de ouvir a voz das ruas. Mas dessa vez o grito mais alto veio de quem ficou em casa.

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