Publicado em 30/09/2015 às 14:31

Para que serve um herói japonês made in Brasil (estrelando Ricardo Cruz)

sfs ricardo01 Para que serve um herói japonês made in Brasil (estrelando Ricardo Cruz)

"Siga seu sonho.” Parece piegas e é. Meio coisa de americano. “Se você se dedicar, pode ser qualquer coisa que sonhar – pode ser o presidente dos Estados Unidos!”
Bem, não. Baixinho nunca vai pra seleção de basquete, altão nunca fará carreira como jóquei. Mas você vai se surpreender com o que pode acontecer se você corre atrás do seu sonho com persistência. E ignora a impenetrabilidade das barreiras que te impedem de chegar lá. Onde quer que “lá” seja.
Ricardo Cruz devia ter uns 18 anos quando virou colaborador, depois redator das nossas revistas na editora Conrad – Pokémon Club, Herói, Nintendo World. Era louco por heróis japoneses. Mais ainda por Tokusatsu, seriados de super-heróis com atores, tipo Jaspion. Curtia muito os “openings” das séries japonesas, aberturas cantadas, geralmente rockões bem épicos. Ricardo já arriscava umas cantorias na época, no meio da redação. Em japonês toscão. Não tem uma gota de sangue asiático.
E daí ele realizou seu sonho de visitar o Japão. E foi aprendendo japonês. E seguiu cantando (e trabalhando e dando seus pulinhos). Em 2005 passou a fazer parte de um grupo de artistas japoneses que cantam temas de séries, o Jam Project. E excursionar com eles pela América Latina. E gravar com eles. E compor. Virou cantor de “Anime Songs”: temas de desenho animado, videogame, série made in Japan. E foi, foi, foi – e gravou um CD. Que me deu ano passado, quando nos encontramos no painel da revista Herói, na Comic Com Experience. Contou que preparava um clipe.
E agora me manda esse vídeo sensacional. Não é um clipe, é um mini-filme. Com vilão malvado e seus capangas, monstro, robô gigante. E ainda estrelado por Hiroshi Watari, ícone dos seriados de Metal Heroes – o Sharivan, o Spielvan!
Ricardo, o rockstar. Herói  de sua própria aventura e, a partir de hoje, oficialmente meu herói japonês favorito. Todo história de herói tem uma mensagem, e a dessa é: seja o que quiser, amigo leitor, queridíssima leitora. Vou dar um comando mais claro, para não deixar dúvidas. Seja TUDO que puder.
A gente tem sempre razões de sobra para não ir atrás do que sonha. E realmente muitas delas são ótimas razões, não te culpo, não me culpe. Mas histórias como as de Ricardo nos fazem acreditar. E por isso são mágicas, preciosas – épicas.

Assista ao vídeo:

Publicado em 25/09/2015 às 19:19

A história da revista Herói é a minha história. Chegou a hora de contá-la

Capa Catarse 600x340 A história da revista Herói é a minha história. Chegou a hora de contá la
Eu criei uma revista que vendeu mais que a Veja. Isso mudou completamente a minha vida. E felizmente mudou a vida de muitas outras pessoas. Para melhor.
Eu tinha 29 anos. Era empresário há um ano. Tinha largado um bom emprego para fundar uma editora. Gastei todo meu pouco dinheiro nisso. Estava quebrado.
E aí a oportunidade bateu na minha porta, e eu agarrei a danada e dei um beijo na boca dela.
E é essa história que eu decidi contar. Porque ela merece ser conhecida. Eu fui e sou o pai da criança, com muito orgulho. Mas quem cuidou da criança foi uma família enorme. Quem estava lá merece ter sua história contada. E aqueles milhões de moleques lendo a Herói merecem ser celebrados.
Então estamos escrevendo um livro contando a história da Herói, a revista que inspirou uma geração. Somos eu e a jornalista Arianne Brogini, que foi editora da revista já no século 21, com o auxílio luxuoso dos amigos Matheus Mossmann e Juliana Zorzato, e mais um monte de gente que está bolando o visual do livro, ajudando a divulgar o projeto, dando depoimentos... ich, a página de agradecimentos vai ficar enorme.
E seu nome pode estar lá.
Então colocamos o projeto no Catarse. Colabore para o livro Herói sair no capricho, com o acabamento e tratamento que merece. Garanta seu exemplar. E veja um monte de outras recompensas bacanas que você pode receber.
Meu amigo querido e grande parceiro na Herói, Mauro Martinez dos Prazeres, me disse uma vez, em 1995: "daqui vinte anos vai ter no Brasil uma geração que aprendeu a ler com a Herói. Um monte de pessoas que aprendeu a amar os heróis com a revista. Imagine que lindo!"
É lindo mesmo.
Se você leu a Herói, por favor: apóie e divulgue para seus amigos.
É a Herói, cara. Inesquecível e indestrutível. Para o infinito e além!

Apóie o livro Herói no Catarse!

http://r7.com/GalV

Publicado em 25/09/2015 às 17:54

Se você é contra o Uber, está errado. Se é a favor, está errado também

 Se você é contra o Uber, está errado. Se é a favor, está errado também
Pensamento binário é para computadores. Seres humanos são capazes de mais sutileza. Não vemos o mundo em preto e branco, mas em infinitas cores, com precisão e perspectiva. Dividir cada debate entre "a favor" e "contra" e sair xingando a oposição é pobre e ineficiente. Na vida real e na virtual; na pessoal e na pública.
É bestificante ver a indignação de gente inteligente e civilizada com a proibição do Uber. Xingam os políticos, a máfia dos taxistas, o Brasil etc. Para equilibrar, andei perguntando para taxistas como vêem o Uber. Só faltam cuspir fogo. É transporte clandestino, tem que ser proibido e por aí vai.

É evidente que o Uber, como existe, é um serviço que só faz sentido no quarto mundo, onde não há regulamentação nem direitos trabalhistas. Por isso vem enfrentando tantas resistências nas grandes cidades do planeta, onde há lei. É igualmente evidente que esse enfrentamento faz parte da estratégia de expansão da empresa. Eles não esperam operar em um vácuo de regras e se adaptarão conforme forçados a isso. Primeiro a gente invade, depois a gente negocia. É assim o capitalismo. Business is War.

Quem tem a maior simpatia pelo Uber por ser uma jovem empresa inovadora está fora de si. O Uber é um gigante extremamente eficiente em captar investimentos. Não tem seu valor estimado em mais de 50 bilhões de dólares à toa. A área financeira do Uber trouxe tantos executivos de Wall Street que o apelido do Uber no setor é "Goldman West", referência ao banco Goldman-Sachs...

E daí, pergunta o amigo? O que importa é que eles prestam um excelente serviço! Bem, não, não é isso que importa. Não isso só. Nem tudo que é bom para o consumidor é bom para o conjunto da sociedade. Por isso criamos o salário mínimo, por exemplo, mesmo sabendo que pagar mais para os operários implicaria em aumento no preço dos produtos. Pagar o preço mais baixo é ótimo quando você compra, e terrível quando você está vendendo sua força de trabalho...

O serviço prestado pelo Uber é uma parte importante do que importa. O Uber hoje tem 5 mil motoristas cadastrados no país, segundo a própria empresa, e pretende chegar a 30 mil no ano que vem. Muita gente usa e aprova. Os motoristas precisam ter seguro para os passageiros, os carros são grandes e novos e tal. Aliás, boa parte dos clientes do Uber curtem mesmo é esse lado de ser tratado a pão-de-ló. E não há nada de errado nisso. Mas o ganha-pão de 35 mil taxistas paulistanos, outros 33 mil no Rio e sei lá quantos no restante do Brasil, também é uma parte importante do que importa.

Há corporativismo entre os taxistas? Sem dúvida. Esse negócio das prefeituras não liberarem alvará é imoral e provavelmente picaretagem? Idem. Tem taxista sovaquento que ouve Djavan no último volume? Claro. Isso é razão para irem todos para a rua? Calma lá.

Escolher um lado e xingar o outro é andar para trás. Liberdade de empreender e inovar não é um valor intocável nem um demônio a ser combatido. Regulamentação não é sinônimo de atraso; regulamentação estúpida é que é.  O Uber e empresas similares podem ser uma parte importante do nosso transporte urbano de cada dia. Cada país vai criar regras para isso, e o Uber vai obedecê-las ou dançar. E com toda sua grana, sempre corre risco de ser destruído por um concorrente. Li esses dias sobre uma start-up israelense que criou um aplicativo que faz o que o Uber faz, só que com caronas...

Em Berlim, por exemplo, o Uber fez um acordo e hoje só usa mão de obra licenciada e cobra a mesma coisa que os taxistas. Em Belo Horizonte, há um projeto de lei em estudo que daria licença para o Uber operar 500 veículos de luxo, mas força a empresa a pagar os impostos na própria cidade. O que é o melhor? Não sei. Vamos botar a cabeça para funcionar, que encontramos uma solução razoável. Não é física quântica.

Dá trabalho criar regras e garantir seu cumprimento, mas é uma das melhores ferramentas que o ser humano criou. Regras claras, cobrança clara, e convivência transparente. Tão simples - e complicado - assim.

http://r7.com/fyjo

Publicado em 25/09/2015 às 16:16

A operação Lava-Jato acabou. Mas a crise verdadeira está só começando

FRP Juiz Sergio Moro anuncia medidas contra impunidade 0307042015 1024x681 A operação Lava Jato acabou. Mas a crise verdadeira está só começando

Sérgio Moro: agora, só mais um de muitos juízes cuidando da Operação Lava-Jato

O Brasil mudou radicalmente para pior nos últimos dias. Não tem nada a ver com o dólar subir ou descer. Pouca gente reparou ou prestou atenção nos detalhes. Vamos recapitular:
- o Supremo Tribunal Federal decidiu tirar parte das investigações da Operação Lava-Jato das mãos do juiz federal Sérgio Moro, da 13ª Vara Criminal de Curitiba
- cada investigação irá para cidades diferentes do país, os lugares onde os delitos foram cometidos
- com isso, os réus ganham a chance de usar todos os argumentos contrários à acusação junto a outros juízes em outros estados
- esses novos juízes podem aceitar delações premiadas ou não
- os novos juízes verão apenas sua parte da operação Lava Jato, e não o todo como Moro via; isso pode dificultar as investigações
- os novos juízes julgarão delitos de políticos e de empresas justamente nos estados onde esses políticos e empresas têm mais influência
- os novos juízes terão que se familiarizar com os processos, o que fará o desenvolvimento da Lava Jato levar muito mais tempo
- esses juízes de primeira instância não têm o know-how da força-tarefa que comanda a Lava Jato, e podem não respaldar ações do Ministério Público e da Polícia Federal, por desconhecimento ou mesmo por pressão dos governos estaduais
- os processos que forem redistribuídos pelo país obrigarão o Ministério Público Federal a criar células da operação Lava Jato pelo país - Sudeste, Norte, Nordeste. Hoje são 330 servidores, concentrados em Curitiba e Brasília, onde são processados os políticos que têm direito a foro privilegiado
- os estados da região Sul são os únicos aparelhados para dar transparência ao processo, porque permitem acesso digital aos despachos. Com isso a atuação da Lava Jato passou a ser acessível à imprensa. No restante do país isso não acontecerá
- os advogados dos políticos envolvidos na Lava Jato já preparam uma chuva de liminares para redistribuir os inquéritos pelo país afora. Com isso, esperam evitar que outras pessoas ligadas a esses políticos sejam processadas por Moro - familiares, assessores, operadores
- em caso de perda de mandato por renúncia ou cassação, políticos citados na Lava Jato poderiam em tese ser julgados em outra vara que não a 13ª
O que diz Sérgio Moro sobre isso tudo: "há risco concreto de que vários desses processos caiam, nos anos vindouros, no esquecimento".
Não é só que a Lava-Jato daqui para frente tem pouca chance de punir alguém. Mesmo quem já foi julgado pode escapar. É o caso de João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do PT, preso desde 15 de abril, e condenado por Moro a 15 anos de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro.
Seu advogado, Luiz Flávio Borges D´Urso, afirmou ontem que desde o início já sustentava a incompetência de Sérgio Moro para julgar Vaccari, porque o julgamento deveria acontecer é em SãoPaulo. Disse ao Estadão:"Não há razão para que tudo fique concentrado no Paraná. Até agora nossa tese não teve sucesso, mas com a decisão do Supremo abre-se um caminho.”
Para D´Urso, a consequência tem que ser a anulação do processo inteiro, porque conduzido por juiz incompetente. “Sempre que tem um juiz incompetente, seja em razão da matéria, seja em razão do local onde aconteceram os fatos, se ele é incompetente tudo o que foi feito, em tese, é nulo. Recomeça tudo no juizo competente.”
Em português claro: a Lava-Jato já era. Ou pelo menos, a Lava-Jato que o Brasil queria e precisava. Pegando pesado, pegando geral, pegando em todos os partidos, pegando os grandões. Teremos no máximo uma Operação Flanelinha... E sem gritaria da oposição. Nem podia ser diferente. Vários grandões do PSDB e do PMDB oposicionista também foram citados como corruptos nas delações premiadas.
Um repórter amigo, que sabe dos bastidores da investigação, descreveu o papel de Sérgio Moro como "estratégico" - um juiz que entende muito do lado processual, mas também do policial, e de crimes financeiros. Ele me zoou muito quando escrevi aqui, em março, um texto com o título "A Lava-Jato já acabou em pizza". Dei o braço a torcer quando esfregou na minha cara a prisão de Marcelo Odebrecht, quem diz que no Brasil rico não vai pra cadeia? Agora chegou minha vez de provocar ele. O grande estrategista foi pro escanteio.
Aleijar a Lava-Jato enterra de vez a conversa de impeachment? No jornal Valor Econômico, Maria Cristina Fernandes cravou: "o desmembramento antecipa a promessa de futuro de que o bloco do impeachment se faz portador. Os coveiros da Lava-Jato pavimentam a rota para a presidente chegar a 2018."
Mas política é uma coisa e economia é outra. Treze anos atrás, quando se batia dia e noite em Lula por causa do Mensalão, todas as classes celebravam o período de bonança. Agora é o contrário. As maiores empresas do Brasil estão muitíssimo mal das pernas. Têm dívidas impagáveis com os bancos, e muitas delas em dólar. Todos os indicadores sociais vão cair, até onde podemos ver.
Trocar Dilma e não trocar de política econômica não vai melhorar a vida do brasileiro em nada. Arrisca até piorar. Quem sabe que tipo de novo presidente um impeachment poderia trazer? Aventureiros no Brasil não faltam. Mas a ilusão de mudança pode ser intoxicante. Junho de 2013 está aí para nos lembrar.
Essa crise é a que importa. E está só começando.

Publicado em 24/09/2015 às 16:00

O Brasil precisa de uma lei obrigando ciclista a usar capacete

Haddad O Brasil precisa de uma lei obrigando ciclista a usar capacete

Fernando Haddad pedala usando capacete debaixo do Minhocão

Prefeitos de grandes cidades brasileiras vêm estimulando as pessoas a usar a bicicleta como meio de transporte. As próximas eleições municipais podem eleger gestores menos convictos de que a bike funciona para o transporte de massas.
Mesmo assim, está feito o estrago – ou o avanço, dependendo da sua visão das ciclovias. Entre muitos jovens, e também alguns coroas de espírito jovem, a bicicleta já foi adotada como meio de transporte do coração.
Qual a minha opinião? Não importa no momento. Acima da minha ou sua opinião está um fato inquestionável: andar de bicicleta nas grandes cidades é muito arriscado. Como de moto. Sobre duas rodas você sempre está muito mais exposto do que dentro do ônibus ou automóvel.
Foi por isso que anos atrás criou-se a obrigatoriedade do uso de capacete para os motociclistas. É uma lei que salva muitas vidas. O capacete tem custo. Custo maior é trincar o crânio, para a própria pessoa e para a sociedade.
Vale para motos, tem que valer para bicicletas. Uma coisa é pedalar por lazer num parquinho. Outra é usar como meio de transporte, se aventurando pelas avenidas engarrafadas das nossas cidades.
Mas podemos contar com o bom-senso dos ciclistas, né? Não podemos não. Como não podemos contar com a dos motoristas. Muitos continuam dirigindo alcoolizados, e para isso existe a Lei Seca. Muitos correm demais, e para isso existem limites de velocidade. O cinto de segurança só virou hábito quando virou lei com multa pesada. Contar com o bom-senso individual do ser humano não é uma boa estratégia – e é por isso que, usando nosso bom-senso coletivo, as sociedades criam leis, e punições para quem as descumpre.
A necessidade dessa lei me ocorreu quando vi uma foto de Fernando Haddad pedalando em uma ciclovia, no Dia Mundial Sem Carro. Usava um capacete amarelão. Uma pesquisada rápida mostrou Haddad várias vezes pedalando sem capacete, no passado. Alguém deve ter alertado o prefeito da barbeiragem. Agora ele só aparece usando capacete.
Dá o exemplo certo. Que é pouquíssimo seguido. De lá para cá prestei atenção. Uma em cada cinco das pessoas que vi usando as ciclovias paulistanas usavam capacete. E olha que vi muitos ciclistas descendo avenida a milhão. Não é pelo preço – tem capacete a partir de R$ 50,00. É porque o ser humano sempre acha que coisa ruim só acontece com os outros. E ainda mais se for jovem, a maioria dos ciclistas urbanos.
Pô, mas agora eu vou ter que usar capacete sem que sair de bike? Vai. E onde vou guardar? Problema seu. É uma restrição da sua liberdade de sair sem capacete, sentir o vento no cabelo e tal? É. Mas é para o seu bem.
Você pode acreditar que a bicicleta é uma boa alternativa para o transporte nas grandes cidades. Ou não. Pode defender a ciclovia ou atacar. Pode adorar Haddad ou detestar. Mas tem que ser a favor de uma lei obrigando o ciclista a usar capacete. E ainda mais se for ciclista.

Publicado em 14/09/2015 às 15:59

Dilma está certa

dilma 1024x682 Dilma está certa

Os Fundamentalistas das Finanças estão em polvorosa: presidente se nega a cortar gastos sociais! Irresponsabilidade fiscal! Primeiro vamos cortar na carne, depois vamos discutir aumento de impostos!
Já reparou como investimento que beneficia os mais pobres é sempre "gasto"? Esses Talibãs são radicais às custas dos outros. Eles defendem cortes, contanto que os cortados sejam a peãozada que mora lá na periferia. Os banqueiros exigem cortes, mas também exigem continuar com os lucros mais altos do mundo. Os empresários exigem cortes, mas não nos subsídios, não no apoio à exportação, não na Zona Franca, e nem pensar em reonerar as folhas de pagamento. O jornal estampa na primeira página a cobrantina, mas não abre mão da isenção fiscal na compra de papel. E por aí vai.
É fácil você defender que o governo pare de investir em casa própria para os pobres, hospital para os pobres e escola para os pobres quando você é rico. É fácil e imoral, mas pior ainda, é errado na prática e na teoria. Se você está morrendo de fome, a última coisa a fazer é regime.
É matematicamente impossível sair de uma crise econômica diminuindo o investimento público. É o que vem tentando Dilma, e é exatamente a que foi defendido por Aécio. Ela faz o que prometeu que não faria jamais: tarifaço, aumento de juros, recessão. A diferença entre os dois é sutil. Aécio anunciou que se vencesse, seu ministro da fazenda seria o dono de banco, Armínio Fraga. Joaquim Levy foi aluno de Armínio, mas não é banqueiro. Era funcionário do Bradesco: é bancário. Quem manda na economia é Dilma.
E nesse momento, sob imensa pressão, Dilma rejeita cortes adicionais nos gastos sociais. Defende o Bolsa Família, subsídios para construção de casas populares, aumento do salário mínimo, aposentadorias. Jogo de cena para a base petista? Pode ser. É pouco, perto do que o Brasil precisa? Claro. Temos cem milhões de jovens do Brasil, e eles precisam de um horizonte, e oportunidades para usarem toda essa energia - trabalhar, empreender, criar.
Mas ao resistir às pressões para cortar na carne dos pobres, Dilma denota mais sensibilidade social e inteligência econômica que os defensores dessa falsa "Austeridade", que é só outra maneira de dizer "transferência dos recursos do povão para os credores".
Brasileiro adora imitar americano. Essa é uma boa oportunidade. O país é a grande referência da economia do planeta. O dólar é a moeda mundial, e o Banco Central americano, o Federal Reserve, é o banco central dos bancos centrais.
Como o governo americano enfrentou a crise de 2008? Apertou o cinto? Fez o contrário. Obama afrouxou geral e seu governo saiu investindo. Fizeram igual os bancos centrais da Europa e do Japão. Inundaram a Terra de liquidez. Foi assim que o mundo sobreviveu ao tsunami, e o Brasil pegou carona e surfou uma marolinha. Barack também aproveitou para manter Wall Street desregulamentada, no que perdeu uma oportunidade de ouro, e pagamos o preço por isso.
Na época, até os banqueiros diziam: "agora somos todos Keynesianos". O que defendia Keynes, que a revista The Economist chamou de "o maior economista britânico do século 20"? Em uma frase, que a economia de um país não deve ser deixada ao sabor dos ventos do mercado, mas estimulada quando necessário com investimentos do seu governo, para garantir empregos e crescimento. Outra revista, a Time, decretou: "sua idéia radical de que os governos devem gastar dinheiro que não têm pode ter salvado o capitalismo". É o que todos os governos fazem, no século 21.
O orçamento do governo federal americano é US 3,9 trilhões. E eles gastam menos do que arrecadam, certo? Errado. Os EUA gastam muitíssimo mais do que é gerado pelos impostos: mais de 500 bilhões por ano! Quer dizer: lá pode ter déficit. Aqui, nem pensar.
E o governo americano investe dinheiro público na economia americana? Mas é lógico. De muitas maneiras diferentes. Subsídios para empresas, tem por lá? De monte. Dos governos federal, estaduais e municipais. Só para fazendeiros, são US 20 bilhões por ano. Para a indústria do petróleo, US 18,5 bilhões por ano. O subsídio mais escandaloso e horrível de todos: o orçamento das Forças Armadas americanas é US 642 bilhões por ano. Quase 4% do PIB.
Você pode amar ou odiar Dilma. Está equivocado nos dois casos. A política econômica de Dilma é errada no atacado, mas a presidente está certa ao defender os investimentos sociais. Para lidar com governantes há que usar a razão, não a emoção. Política demanda fiscalização e pressão. Há que usar o cérebro, não o fígado ou o coração - por mais tentador que seja.

http://r7.com/0qWH

Publicado em 02/09/2015 às 20:18

Um menininho morto, a falsa crise dos refugiados, e uma responsabilidade para o Brasil assumir

curdos1 Um menininho morto, a falsa crise dos refugiados, e uma responsabilidade para o Brasil assumir

Aylan tinha três anos. Era sírio. E era curdo. Sua família teve que fugir do norte da Síria, por causa de combates entre o Estado Islâmico e forças curdas. Já tinham conseguido sair de lá e chegado à Turquia.
Estavam em Bodrum. Uma cidade linda e muito antiga. Chamou-se Halicarnassos, no passado distante. Lá foi construído um palácio para um rei chamado Mausoleum, de onde, exato, veio a palavra "mausoléu".
Sei um monte de coisas sobre Bodrum, porque passei dias incríveis lá em 1999, mergulhando, tomando Arak, quarando no sol. Toda pinta de ilha grega, casinhas brancas, baladas fortes.
E porque era um menininho, nos corta o coração ver seu corpo jogado na praia. E porque eu estive por ali, vi sua morte de uma maneira mais doída. Sua e de toda sua família, inclusive um irmão de cinco anos.
Minha tendência seria pensar: seus idiotas, é só mais um, porque chorar por esse e não por todos os outros? Porque compartilhar o defuntinho, se você nunca fez nada para evitar isso? Para mostrar como você sofre com os sofredores? Mas a coincidência geográfica fez a questão pessoal.
A Síria é um campo de batalha onde interesses geopolíticos diferentes se digladiam, sob o manto de diferentes interpretações do Corão. O povo paga o preço - em sangue. São milhões de sírios desesperados para sair de lá, porque chovem bombas.
De todos os lados. E aliás chovem bombas americanas. Que também matam criancinhas inocentes. Hoje mesmo saiu uma reportagem do Mike Griglio, da Buzzfeed News, com evidências conclusivas sobre a responsabilidade do governo americano na morte de civis na Síria. O link está aqui.

http://www.buzzfeed.com/mikegiglio/the-us-led-coalition-bombing-syria-has-killed-more-civilians#.yeymRZwQg

Os sírios, como muitos outros povos pobres e perseguidos, querem refúgio e a chance de uma vida melhor. Naquele pedaço do mundo, isso se resume a duas palavras: União Européia. Os europeus e seus governantes se arrepiam com a perspectiva de uma invasão bárbara. Políticos populistas faturam com o medo do povão. Tem idéia quantos imigrantes ilegais devem ir morar na Alemanha este ano? 800 mil.
Os curdos têm ainda mais problemas. Porque não têm um país próprio. Porque não são bem-vindos na Turquia e aliás em quase nenhum canto do Islã, que dirá da Europa. Então restava atravessar aquele mar turquesa. Muitos conseguem. Alguns morrem.
Isso vai continuar acontecendo. A crise dos refugiados não é uma crise, porque essa palavra denota um problema temporário. É a nova situação normal: desgraçados do mundo fazendo qualquer coisa por segurança. As mudanças climáticas indicam que a situação vai se agravar muito nas próximas décadas, porque o cinturão em torno do Equador vai ficar tórrido, seco, estéril - e os muitos milhões que moram por ali, inclusive no sul da Europa, vão zarpar em busca de uma vida viável.
Naquele pedaço do mundo o desafio é entrar na União Européia. Nas Américas o Xangri-lá é ir para os Estados Unidos. Francamente, cabe a eles assumirem essa bucha. As barbaridades coloniais da Europa têm grande parte da culpa pela mortandade sem fim mundo afora, e ainda mais no Oriente Médio. Quanto aos EUA, bem, se Bush não tivesse invadido o Iraque com o pretexto de armas de destruição em massa que nem existiam, aquilo ali estava bem diferente - e aliás nem existiria o Estado Islâmico.
O Brasil não tem guerra civil. Mas às vezes até parece, de tanto assassinato e miséria, de tamanha insensibilidade dos poderosos com os frágeis. Quantos brasileiros não iriam morar no primeiro mundo hoje mesmo, se tivessem chance? Quantas criancinhas morrem de bala perdida e necessidade aqui mesmo na esquina?
Nos parece que o Brasil não tem no momento muito o que oferecer, verdade. Mas perto do que vive o povo da Síria, isso aqui é o paraíso na Terra. E embora o Brasil não tenha culpa nenhuma pela guerra lá, diferente de Europa e EUA, temos que assumir nossa responsabilidade. Pelo muito que os imigrantes sírios e seus descendentes contribuíram para o Brasil, pelo bem estar de outros meninos, temos obrigação de retribuir, e abrir nossas fronteiras a esses refugiados. E, francanmente, muitos outros. É um território enorme e enormemente desocupado. Não tem emprego pra todos? Olha, arrisca ser o tranco que o Brasil precisa para sair dessa marasmeira.
E seria uma coisa bonita de se dizer para o mundo: vinde a mim, desgraçados da Terra...

http://r7.com/3l5Q

Publicado em 28/08/2015 às 18:43

Como combater a desigualdade no Brasil (e quem vai pagar a conta)

Atkinson Como combater a desigualdade no Brasil (e quem vai pagar a conta)

Sir Anthony Atkinson: o maior especialista no combate à desigualdade

Tem muita gente falando de desigualdade social. E fazendo muito pouco. Falar é fácil. Agir é o que interessa. O Brasil tem tudo para liderar o planeta nisso. É nosso destino. Somos uma das maiores economias do planeta, com recessão e tudo. Mas a riqueza está quase toda concentrada em 0,5% da população. Esses nossos compatriotas super-ricos são os credores brasileiros da dívida brasileira. É quem está se dando bem com juros estratosféricos. Vão faturar firme em 2015. Pagam quase nada de impostos. São os únicos.
Não há como fazer o Brasil mais palatável para os 99,5% restantes sem reduzir os privilégios desses 0,5%. É assim aqui e em qualquer país. Justamente porque aqui a situação é tão insanamente injusta, a oportunidade é tão grande. Um pequeno enfrentamento fará uma enorme diferença.
Não se trata de crucificar os abonados nem santificar a pobreza. É só que o modelo concentrador de riqueza vem dando errado em todos os países. A formulinha de “austeridade” forçada, arrocho e tarifaço e desemprego, é o que levou a Grécia à beira do abismo. Não deu certo lá. Não deu certo na África, no leste Europeu, nos países da primavera Árabe... e não dará certo no Brasil.
Mas há alternativas à política econômica do FMI, que o governo do Brasil nos impõe há anos? Claro. Muitas. Algumas utópicas nos limites da esquizofrenia. Outras bem pragmáticas.
Um exemplo de pauta prática está no novo livro de Anthony Atkinson, “Desigualdade - O que Pode Ser Feito”, que chega agora ao Brasil pela Leya. É o maior especialista em desigualdade do mundo. Um senhor de 71 anos, formado em Cambridge, professor da London School of Economics, catedrático em Oxford. Atkinson estuda distribuição de renda desde os anos 60, quando Thomas Piketty usava fralda. Foi mentor de Piketty, aliás.
Por seu trabalho, Atkinson recebeu da coroa inglesa o título de “Sir”. É sempre citado como um dos nomes com grande chance de ganhar um Nobel de Economia. Vamos combinar que ele não é um amador abilolado. Nem um carbonário que pretende incendiar as instituições.
O livro de Atkinson não é trabalho acadêmico e não tem nada de impenetrável. Escreveu para ser lido por qualquer um. O foco é na situação do Reino Unido. Mas suas propostas podem ser adotadas no Brasil ou em qualquer lugar em que a população tenha culhões... e necessidade de mudança urgente.
O que podemos fazer hoje mesmo para criar um Brasil menos desigual? Mais próspero e pacífico? Que recompense a educação, a inovação, o risco? Como diminuir a diferença entre o rendimento do trabalhador e do empreendedor e o rendimento dos investimentos financeiros, responsável pelo abismo crescente entre a elite e os 99,5% restantes?
Atkinson elenca várias propostas. Seleciono quatro:
- Hoje há um grande desequilíbrio de poder entre o capital e o trabalho, entre empregadores e trabalhadores / consumidores. Precisamos de políticas públicas que diminuam a influência do capital.
- Os impostos devem ser progressivos. Quem ganha mais, paga mais. Tony prega que o 1% de super-ricos deve ser taxado em 65% de sua renda. No Brasil eles pagam 6,5% e a classe média alta paga 27,5%.
- Além do imposto sobre a renda, é preciso criar um imposto anual sobre o patrimônio dos mais ricos.
- Criação de um programa de renda mínima universal para crianças (esse já existe no Brasil, e precisa ser muito ampliado e reforçado: o Bolsa-Família).
Sei, são bem arroz-com-feijão. Mas só essas quatro bastariam para fazer um Brasil completamente diferente do que temos. Outras idéias do livro são mais inovadoras. E algumas podem soar estrambóticas, para quem está anestesiado pelo discursinho mercenário dos fundamentalistas das finanças.
Quer um exemplo? Atkinson defende que a inovação tecnológica precisa ser direcionada pela sociedade, através de políticas públicas, para que auxilie a geração de empregos e não o contrário. Parece evidente, mas pela grita contra a proposta de regulamentação do Uber, deve soar como blasfêmia bolchevique para os discípulos do vale-tudo.
Se Atkinson soa radical demais para você, releia o currículo dele, uns parágrafos acima. É um acadêmico respeitadíssimo, um reformista. Radical é quem quer um mundo em que só o capital manda e obedece quem tem juízo.
E repare quem concorda com ele. Há quase um ano atrás, em 14 de junho de 2015, o Fundo Monetário Internacional divulgou um estudo chamado Causes and Consequences of Inequality (Causas e Consequências da Desigualdade). Ele foi realizado pelos economistas do próprio FMI.
A principal conclusão: muitas das políticas promovidas pelo próprio FMI são danosas para os países. Exacerbam a desigualdade e prejudicam a produção, o consumo, o emprego.
O estudo defende que as políticas econômicas devem se concentrar em aumentar os salários e qualidade de vida dos 20% mais pobres da população. Aumentar a proteção dos trabalhadores. Estabelecer impostos progressivos (quem ganha mais, paga mais). E criar políticas públicas para reforçar a receita da classe média. O resumo deste estudo é: mais gente com dinheiro no bolso, mais gente consumindo, mais produção, mais emprego. Austeridade é bad for business...
Parece óbvio. E é mesmo. Vamos torcer para esses economistas do FMI não perderem o emprego - se Angela Merkel ler esse estudo, vão todos pra rua. O estudo defende o exato contrário do que a direção do próprio FMI pregou para a Grécia, e que o "mercado", essa vingativa divindade sem rosto, prega para o Brasil.
É preciso inventar à toda velocidade um futuro promissor para a humanidade – um que dê conta de mais 3 bilhões de pessoas, que estão chegando nos próximos 40 anos, e mudanças climáticas brutais. Para isso precisaremos ir bem além das recomendações de Anthony Atkinson, um pensador do século 20. Vamos ter que desbravar os domínios da ficção-científica, embalados por visões fantásticas, embriagados de imaginação.
Mas primeiro há que lidar com nosso medíocre presente, e para dar conta dele não é preciso voar tão alto. Basta pressão social e coragem coletiva. Estratégia na geopolítica e lábia na negociação. Ver, julgar e agir sem vícios. Parece muito? Perto dos desafios das próximas décadas, é só um primeiro - e pequeno - passo.

http://r7.com/_Vjq

Publicado em 28/08/2015 às 17:35

Eu apareço demais nesse documentário. Mas você deve assistir mesmo assim

sem dentes Eu apareço demais nesse documentário. Mas você deve assistir mesmo assim

Sou mais que suspeito para falar de Sem Dentes, o documentário sobre o selo Banguela e o rock brasileiro dos anos 90. É dirigido pelo jornalista Ricardo Alexandre, que conheço desde aquela época, e o personagem principal é o Miranda, com quem eu já trabalhava antes disso tudo. Sou velho amigo dos dois. Não fosse isso, apareço no documentário – mais do que mereço pela minha parte nessa história. Mas quem sou eu para reclamar de aparecer demais...

Que tal ver o que os outros andam dizendo do documentário? A Rolling Stone disse que é “um bom retrato do período de insurgência dos independentes”. Alexandre Matias teceu loas no UOL, e melhor elogio, disse que é “hilário”. Eu digo que faltou maldade. Mas sendo Ricardo e Miranda, não tinha como o documentário não ser dominado pelo afeto, porque os dois são uns bonzinhos. Malacos, mas bonzinhos.

O filme revisita a cena roqueira da metade dos 90. Aquela geração: Raimundos, Skank, Nação Zumbi, Mundo Livre, Planet Hemp, Pato Fu e tantos outros. O eixo é o Banguela Records, selo dos Titãs com a Warner, idealizado e dirigido pelo Miranda. Mas o doc vai além. Vai a festivais como Superdemo, Abril pro Rock e Juntatribo. Conta causos, revela segredos. Captura o sabor da época, um tempo em que estávamos embriagados de independência. E relembra uma safra incrível de caras novas tomando a MTV e as FMs e enterrando o rock dos anos 80 – ou pelo menos era o que eu pensava que ia acontecer, mas estava bem enganado...

Assista. Se você não estava lá, não vai acreditar que o Brasil teve uma cena assim. Se estava, meu, é o puro sabor da juventude, quando a gente achava que dava para armar umas paradas boas. E dá, claro.

As novas datas de exibição de Sem dentes: Banguela Records e a turma de 94 são as seguintes:

  • 03 SET MARINGÁ, PR . CINEFLIX
  • 12 SET LIMEIRA, SP . TEATRO ESCOLA DANIEL MARTINS
  • 12 SET TAUBATÉ, SP . SESC
  • 12 SET CAMPINAS, SP . MIS
  • 18 SET SÃO PAULO, SP . CINE OLIDO
  • 25 e 26 SET VOLTA REDONDA, RJ . CINE-TEATRO GACEMSS
  • 02 OUT PARATY, RJ . MIMO FESTIVAL
  • 08 OUT BRASÍLIA, DF . CINE BRASÍLIA
  • 09 OUT RECIFE, PE . MOSTRA PLAY THAT MOVIE
  • 15 OUT FLORIANÓPOLIS, SC . TALIESYN ROCK BAR
  • 20 OUT NATAL, RN . CIENTEC UFRN
  • 24 OUT ANGRA DOS REIS, RJ . CENTRO CULTURAL THEOPHILO MASSAD
  • 29 OUT RIO DE JANEIRO, RJ . CINE ODEON

 

 

 

Publicado em 28/08/2015 às 15:39

Conheça os super-ricos brasileiros – e saiba como você financia a fortuna deles (Como diminuir a desigualdade, parte 1)

Super Ricos Conheça os super ricos brasileiros – e saiba como você financia a fortuna deles (Como diminuir a desigualdade, parte 1)

Os ricos do Brasil são muito mais ricos do que você imagina. São super-ricos. E ficam mais e mais ricos a cada dia que passa. Existem duas razões principais para isso. Os impostos da classe média e dos pobres vão para o bolso dos ricos. E os ricos pagam menos imposto que a classe média e os pobres.

Só agora a gente está entendendo quem são os super-ricos do Brasil. A análise tradicional, feita com as pesquisas do IBGE, não dão conta da realidade. Um novo estudo realizado pelos economistas Rodrigo Orair e Sérgio Gobetti, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), chega mais perto. Eles  analisaram os dados das declarações de imposto de renda das pessoas físicas. As conclusões são chocantes.

Segundo o IBGE, a renda média do 1% mais rico do país foi de R$ 214 mil em 2012. Mas segundo o estudo do IPEA, a renda anual do 1% mais rico é aproximadamente R$ 575 mil. Explicação: o IBGE não capta toda a renda das pessoas mais ricas, que tem muitas rendas provenientes do capital (como aplicações financeiras, aluguéis, lucros e dividendos).

R$ 575 mil já é uma boa grana: mais de R$ 40 mil por mês. Mas esses 1% ainda não são a elite. Os super-ricos do Brasil ganham acima de 160 salários mínimos por mês. São 0,05% da população economicamente ativa.

Os super-ricos brasileiros possuem um patrimônio de R$ 1,2 trilhão. Isso é 22,7% de toda a riqueza declarada por todos os contribuintes do Brasil. Essas 71.440 pessoas têm renda anual média de R$ 4.17 milhões, uns R$ 350 mil por mês. Tiveram em 2013, ano analisado pela pesquisa, um rendimento conjunto de R$ 298 bilhões.

E em 2015? Não sabemos, mas é seguro dizer que estão bem mais ricos que em 2015. Quem tem muito capital investe e recebe rendimentos financeiros enormes. Os juros no Brasil são sempre muito altos, mas agora estão estratosféricos. Trabalhar não tem nada a ver com a fortuna crescente dessa turma. Neste nível de renda, trabalha quem quer, não porque precisa.

Qual o negócio mais lucrativo e seguro do Brasil? Emprestar dinheiro para o governo. No Brasil, como na maioria dos países, as contas públicas não fecham no final do ano. Se você tem muita grana, não precisa de criatividade para enriquecer mais e mais. Basta comprar títulos públicos do governo, que paga juros altíssimos para financiar sua dívida. E de onde vem esse dinheiro para pagar os juros? Do Tesouro Nacional, dos impostos que todos os brasileiros pagam.

Mas alguns pagam mais que outros. O detalhe mais cruel sobre a desigualdade brasileira está aí. Os super-ricos brasileiros, esses que ganham mais de 160 salários mínimos por mês, pagam só 6,51% de sua renda de imposto de renda. Você leu certo. Um assalariado que ganhe R$ 5 mil por mês paga 27,5% de imposto de renda. A elite paga 6,51%, como demonstra o estudo do IPEA.

Como isso é possível? É que 65,8% da renda total desses super-ricos são rendimentos considerados isentos e não-tributáveis pela legislação brasileira. É o caso dos dividendos e lucros. Na prática, o imposto de renda aqui só é progressivo do pobre até a classe média, que é justamente a fatia da população que mais paga imposto de renda. É uma receita perfeita para aumentar cada vez mais a desigualdade social no Brasil. É garantia de injustiça, ignorância, violência. E até de atraso em outros campos. Se fala muito que o Brasil tem pouca inovação tecnológica, mas quem vai arriscar capital investindo em inovação, se você pode faturar com juros altos e não pagar quase nada de imposto?

Essa bizarria cruel é criação brasileira. Todos os países decentes, sejam ricos ou emergentes, tributam todos os rendimentos das pessoas físicas. Não interessa se a renda do salário, de aluguel ou de dividendos. É o justo. É o mais eficiente para o bom funcionamento dos países.

O estudo do IPEA não captura com precisão absoluta a pirâmidade social brasileira. Não dá conta de dinheiro escamoteado, de caixa 2 ou remessas enviadas ao exterior. Mas já dá uma noção do tamanho do escândalo. Agora, como é focado no Imposto de Renda, não leva em consideração outra grande injustiça do nosso sistema tributário, que são os impostos indiretos.

Os super-ricos pagam o mesmo imposto sobre produtos que você, eu ou a vovó que recebe Bolsa Família. Pagam o mesmo imposto pelo arroz, o café, o remédio, o fogão. Isso significa que proporcionalmente o pobre paga muito mais imposto a classe média. E infinitamente mais que a elite.

Os super-ricos não são os vilões dessa história. As regras estão aí para beneficiá-los. Não é ilegal. Certamente há na elite gente que topa abrir mão de suas vantagens, em benefício de quem mais precisa... Mas, como era de se esperar, existem super-ricos que atuam diretamente para que esse estado de coisas continue exatamente assim: juros altíssimos e taxação mínima. Basta isso para os donos do capital ficarem mais e mais ricos a cada ano que passa, sem trabalho, sem esforço, sem contribuir para o país.

Os super-ricos têm muito poder. Influenciam muito no debate político e econômico. Abundam na imprensa argumentos a favor de que as coisas se mantenham como são. E são super-ricos os financiadores das campanhas da maioria dos políticos, claro.

A recessão radicaliza a injustiça. Penaliza o trabalhador e o empreendedor, o importador e o exportador, o estudante e o aposentado. Esta recessão não veio do espaço sideral. Foram tomadas decisões erradas no passado? Claro, muitas, desde 1500. Mas não dá para mudar o passado. O futuro felizmente está ao nosso alcance.

Esse ano e os próximos serão muito difíceis. O cenário internacional é hostil. O cobertor está curto. É imoral e improdutivo continuar enriquecendo 0,5% com o dinheiro dos impostos dos 99,5%. Enfrentar os privilégios dos super-ricos é a pauta política e econômica fundamental de 2015 e dos próximos anos. O resto é resto.

Publicado em 19/08/2015 às 10:25

A Batgirl que eu conheci

Em 1995 vivi uma das maiores emoções da minha vida. Vai me chamar de nerd bestalhão? Quando eu crescia não existia esse negócio de nerd. Não gosto a22 A Batgirl que eu conhecidessa palavra. Curtir — e curtir de verdade — ficção científica, seriados, quadrinhos e companhia era simplesmente uma coisa muito bacana. E continua sendo.
Eu comecei nessa vida com Batman. Antes de aprender a ler, e aprendi muito cedo com minha mãe, tenho lembrança de ver o seriado. Eu levava a sério porque os mocinhos levavam a sério. Aqueles bandidos surreais com seus planos mirabolantes — e nossos heróis espalhando comentários edificantes (e socos com BLAM! POW! BIFF!).

Batgirl mais ainda. Era bibliotecária, moça seríssima, filha do Comissário Gordon. E de repente a penteadeira dela virava e disparava em sua motoca a deliciosa Batgirl.

Quando apareceu? Um belo dia. Hoje sei que foi invenção dos roteiristas para enfrentar os comentários que Batman e Robin eram um casal homossexual (coisa que nunca me passou pela cabeça na época. É tese dos anos 50, do livro A Sedução dos Inocentes, e me parece igualmente furada hoje. Batman e Robin são obviamente pai e filho, e hoje são de fato nos quadrinhos).

A TV era preto e branco. Muitos anos depois vi Batgirl em seu esplendor púrpura radiante. Em cinza já era  matadora. Que gata. Rosto delicado, curvas letais. Mais gata só Julie Newmar. Mas a Mulher-Gato só dava as caras de vez em quando, e a Batgirl começou a aparecer em todos os capítulos.

As meninas da época escolhiam quem queriam ser quando crescer: Batgirl ou Mulher-Gato, a Feiticeira ou Jeannie. Os meninos tinham opção mais fácil: paixão por todas.

E nos anos seguintes eu brincava de encontrá-las em outros seriados. Olha aqui a Yvonne Craig no Cyborg! No James West! É ela mesmo debaixo dessa maquiagem verde em Jornada nas Estrelas?

yvonne3 A Batgirl que eu conheci

Em 1995 eu estava na Comic Con com meu amigo e sócio, Mauro Martinez dos Prazeres, da Devir. Já era um grande evento da cultura pop, mas ainda bem focado em quadrinhos, não esse monstro multimídia de hoje. Nunca fui de pedir autógrafos e nem Mauro. Não resistimos. Autografavam Adam West, Julie Newmar e Yvonne Craig. As duas primeiras fotos estão na parede da minha sala: Batman e Mulher-Gato, com dedicatórias. A da Batgirl publicamos na revista Herói e sumiu na redação há muitos anos.

Adam já era velhinho, ou me pareceu — eu tinha 30, qualquer um acima de 50 era coroa pra mim. Julie se mantinha charmosa e ronronou, juro, me chamou de darrrrrling. Yvette não era relíquia: era uma morena bonita. Um pouco mais cheinha que na minha infância, mas os olhos puxados e o meio sorriso estavam lá.

Morreu agora aos 78 anos. Quando me olhou nos olhos tinha 58. Hoje eu é que tenho 50. A vida passa rápido. As paixões da infância são para sempre.

yvonne21 A Batgirl que eu conheci

Um dos textos que eu mais curti escrever na vida, e um dos mais elogiados por gente que gosta do que eu gosto: porque não sou nerd.

E outra versão da mesma história, agora sobre meu outro amor de infância, Julie Newmar.

Publicado em 17/08/2015 às 16:06

99% dos brasileiros não foram às ruas contra o PT. Está na hora de ouvir o que eles têm a dizer

Impeachment 99% dos brasileiros não foram às ruas contra o PT. Está na hora de ouvir o que eles têm a dizer
Quase um milhão de pessoas foram às ruas este domingo pedir o impeachment de Dilma Rousseff. Bastante gente. Menos que parece. Somos 204 milhões de brasileiros. Mais de 99% dos brasileiros ficou em casa. Estão certíssimos. Aliás estamos. Também não fui gritar contra o PT. Ausência não significa aplauso. Muito pelo contrário.
A crise econômica chegou com tudo. Pega nossas famílias, vizinhos, amigos. A fábrica, a fazenda e a start-up. Está pegando geral. A situação internacional não ajuda, mas as causas principais são locais mesmo. A Operação Lava-Jato é ótima, mas na prática tirou uns R$ 50 bilhões da economia. E a política recessiva do governo. Que de ótima não tem nada.
Até José Serra está metendo o pau. Em entrevista ao jornal “Valor Econômico”, o senador tucano surpreendeu ao dizer que a política de ajuste é “burra” e “aprofunda o desajuste”, que a política monetária cambial é “uma insanidade”. Fácil falar isso quando se está na oposição. Mas a facilidade não quer dizer que não seja verdade.
Brasileiro é ignorante. Nos falta formação e informação, porque aqui faltou e falta escola. Somos bem burrinhos na hora de defender coletivamente o nosso. Mas individualmente o brasileiro é bem esperto quando se trata de defender o seu.
Seu João Brasileiro e dona Bete Brasileira sabem que trocar presidente não bota feijão na panela nem quita a conta do celular. Lembram que Aécio e Marina propunham exatamente essa política econômica que hoje Serra critica e a presidente pratica (embora Dilma tenha prometido ano passado que não ia governar para os bancos, e sim para o povo brasileiro. Essa parte todo mundo lembra especialmente bem).
Nossos compatriotas também têm perfeita clareza que um impeachment de Dilma põe no Planalto Michel Temer. O vice-presidente defende essa mesma política recessiva. Levaríamos ao poder o PMDB, partido com um mundo de casos de corrupção.
Quando estouraram os primeiros escândalos envolvendo o PT a vida melhorava ano após ano. Assim se reelegeu Lula e se elegeu Dilma. Política é assim mesmo, concluía o sábio brazuca, e votava com o bolso.
Mas agora que todos sofremos com as consequências dessa política econômica, da operação Lava-Jato, da paralisia em Brasília, o brasileiro faz uma ligação diferente. É assim: "estamos nessa roubada porque os políticos roubaram tanto, que quebraram o país". Se não é verdadeiro, é bem dito, como se diz na Itália. É a economia, estúpido, não a política.
Temos essa parcelinha dos brasileiros que quer tirar o PT do poder a qualquer preço. Alguns até defendem isso ao preço da nossa própria democracia, tão falha, tão frágil. E uma meia-dúzia ainda defende cegamente Lula e Dilma. Para esses todo opositor é coxinha, todo jornalista é canalha, todo crítico é golpista. São minorias míopes. Dominam o debate numa gritaria inócua e interminável. Chega, né?
Brasileiros de todas as camadas vão dando as costas a esse maniqueísmo maníaco. O povão que ficou em casa em vez de gritar contra o governo. E semana passada vimos empresários, banqueiros e companhia pedindo calma e exigindo estabilidade. Há que baixar a bola para poder manter o olho nela.
Escrevi aqui em maio que se continuarmos nessa toada, o Brasil é a próxima Grécia. Vamos quebrar e quebrar feio. Agora ficou evidente. Essa política econômica é ruim para todo mundo.
Os 99% que não foram para as ruas falaram. O que eu ouvi foi: nós não somos contra o PT. Nem o PSDB e nem o PMDB. E muito menos a favor. Nós somos contra a corrupção, seja qual for o partido. Somos contra essa política econômica que causa recessão e inflação. Queremos sossego para trabalhar, empreender, criar nossos filhos e curtir nosso domingão. Queremos menos politicalha e mais pragmatismo. Para ontem.
É querer muito? É exigir o mínimo. Político tem obrigação de ouvir a voz das ruas. Mas dessa vez o grito mais alto veio de quem ficou em casa.

Publicado em 07/08/2015 às 15:55

O que uma banda de rock tem a oferecer depois de 37 anos?

Duran Duran PG 2 1 1024x576 O que uma banda de rock tem a oferecer depois de 37 anos?

Ouvi muito e ouço sempre o último disco do Duran Duran, "All You Need Is Now", de 2010 - já? Foi o primeiro trabalho em duas décadas com o espírito da banda: pop urgente e glamuroso, dançável e existencial, quente e glacial. Obra do produtor Mark Ronson, fã deles desde criancinha. Como eu, que sou desde 1981.

Em setembro finalmente chega o próximo, Paper Gods. O primeiro single está na rua, "Pressure Off". Traz a voz de Janelle Monae e a guitarra fina de Nile Rodgers, que produziu o álbum "Notorious", lá nos anos 80. Olha ele aí, mr. Simpatia, nos bastidores da produção da faixa.

O Duran Duran ao vivo é maravilhoso. Nos estúdios, o histórico é irregular. Todo disco tem umas boas, às vezes inesquecíveis, e quase todo disco é cheio de tropeços. Essa não é divina, mas funciona. Nile honra seus riffs mais deliciosos no Chic. É um dos produtores do álbum, com Mark Ronson e Mr. Hudson, produtor de Kanye West.

O baixista John Taylor fundou o Duran Duran em 1978 com o objetivo de ser "uma mistura de Chic e Sex Pistols". Não conseguiu, mas fez bonito, e continuam fazendo - 37 anos depois.

Publicado em 04/08/2015 às 09:04

Crise no clima: a América queima. Mas o futuro é muito mais assustador

paolo bacigalupi 300x195 Crise no clima: a América queima. Mas o futuro é muito mais assustador

Tempestades de areia. Violência fora de controle. Infraestrutura urbana em pedaços. Refugiados arriscando a vida para atravessar fronteiras. Síria? Congo? Não, Estados Unidos. Basta que uma coisa aconteça: que as mudanças climáticas que afetam os EUA em 2015 continuem nas próximas décadas, como preveem os cientistas. E que continuemos todos  fazendo que o aquecimento global não é com a gente - eu, você, o empresário, o presidente.

A realidade reverbera na ficção. Manchetes dessa semana: incêndios e enchentes assolam a Califórnia; tornados destróem no meio-oeste; Obama lança novo (e tímido) plano para reduzir a emissão de CO2, imediatamente bombardeado pelos seus opositores republicanos e lobbies do setor energético.

É na América e em todo lugar. Notícia do Japão: 25 morrem por causa do calor. Notícia do Brasil: inverno infernal, 25 graus à sombra, e continuamos com a torneiras secas na cidade mais rica do país. Vai piorar.

Nada é tão realista quanto um romance. Quer ver o que o futuro nos reserva? The Water Knife responde com sangue nos olhos. É um thriller violentíssimo, que honra "Chinatown" e "Era uma Vez No Oeste"  tanto quanto suas evidentes inspirações na ficção científica, William Gibson, Bruce Sterling, Neal Stephenson.  Estamos na distopia, mas não no apocalipse. Nada de fantasias brucutu a la "Mad Max". Paolo Bacigalupi busca tanto eletrizar quanto informar, o que não se faz em um vácuo voyeurista.

The Water Knife significa "Faca de Água". É uma profissão: gente especializada em cortar o fornecimento de água de quem não tem como pagar - pessoas, bairros, cidades inteiros. Custe o que custar, pelo lucro do dono da água.

Estamos no Terceiro Mundo, século 21, USA-style. No que restou da cidade de Phoenix, no Arizona, onde o clima sempre foi inimigo do homem. No século 20, a tecnologia levou água e com ela fartura a esse território empoeirado. No 21, o aquecimento global seca mananciais e faz os desertos mais desertos. Arizona, Texas, Novo México se esvaem em areia. Na costa não está melhor: cidades costeiras com recursos constróem diques para conter a subida do nível da água e tufões mais e mais violentos. Quem não pode afunda - Miami é tomada pelo mar. New Orleans, por um furacão bem maior que o Katrina.

A principal fonte de água doce de Phoenix vinha das montanhas rochosas, bem longe. A Califórnia, mais rica, quer ficar com essa água. Las Vegas é paraíso fechado, condomínio-fortaleza para ricos. Milhões penam.  O sul seco dos Estados Unidos se despedaça.

A briga pela posse dos direitos da água envolve capitalistas cowboys, corporações chinesas, políticos corruptos. E os Narco States, o norte do antigo México, uma nação controlada pelos traficantes, como já começa a ser hoje.

Sociedades que apodrecem geram vermes e abutres. Onde há lucro possível com o sofrimento alheio, o homem cede aos seus instintos mais baixos. Faço o que faço porque é a única maneira de sobreviver. Se não for eu, um outro fará. É a moralidade que resta, e quem a ela não adere é louco perigoso. Como diz a personagem Maria, uma jovem órfã texana que vive de vender copos de água, gente que "não vê o mundo como ele é, tem olhos do passado".

The Water Knife tortura seus personagens até a última página - e além. Bacigalupi descreve um cenário doloroso porque convincente.  O livro devia ser leitura obrigatória para os adolescentes do planeta Terra. E eles iam gostar bastante, porque educação sem sermão, e tenso e sexy, também. É o mundo que deixaremos para eles. Adoraria ler algo parecido sobre o Brasil, onde as previsões começam com o Nordeste se tornando um deserto do Saara e milhões de nordestinos migrando para o Sul - e aí pioram bastante. Quando? Nossos netos verão.

O autor já ganhou os principais prêmios da Ficção Científica, o Hugo e o Nebula. Encerra o livro com uma lista de referências onde o leitor pode se informar mais sobre mudança climática. Mas esse livro não é para leitores de ficção científica. É sobre o presente. E como precisamos mudá-lo.

O aquecimento global está aí, inquestionável, nas manchetes do dia. Impõe nossa reinvenção energética. Força um realinhamento econômico global. Desafios que estão muito além da mera inovação tecnológica. E do voluntarismo estéril das campanhas estilo "cada um tem que fazer a sua parte."

Minorar os efeitos mais cruéis do aquecimento global exige enfrentamento político. O autor sabe disso e não acredita em mudança fácil. Paolo Bacigalupi aposta no poder inspirador da informação e da emoção. É o único caminho. Tempos quentes exigem cabeças frias e corações fervilhantes.
______________________________________
Leia aqui o primeiro capítulo de The Water Knife.

http://www.wired.com/2015/05/water-knife-excerpt/

Califórnia queima 300x156 Crise no clima: a América queima. Mas o futuro é muito mais assustador

 

Publicado em 31/07/2015 às 17:59

Falta muito ao governo Dilma. Mas sobram R$ 5 bilhões para jogar na latrina

 

 Falta muito ao governo Dilma. Mas sobram R$ 5 bilhões para jogar na latrina

Nos próximos dias o Ibope vai divulgar o seu Índice de Confiança Social, como faz desde 2009. José Roberto Toledo adianta em sua coluna no Estadão o resultado. Presidência e congresso empatarão na falta de prestígio: 78% dos brasileiros não confiam nessas duas instituições. Recorde de baixa nos dois casos.
Como poderia ser diferente? Dilma descumpre o que prometeu na eleição. Faz a exata política econômica proposta por Aécio Neves. Promove tarifaço, recessão e alta de juros. Crédito evaporou. Produção e varejo estão paralisados. A arrecadação cai, o déficit explode. Deu errado na Grécia, está dando muito errado no Brasil.

Enquanto isso, o governo comemora "economia" na compra de 36 aviões de caça da Suécia. Negociou para abaixar os juros do negócio. Com isso o Brasil economizará R$ 600 milhões. "A presidente Dilma ficou satisfeita com a negociação bem sucedida", disse o ministro da Defesa, Jacques Wagner. O projeto total está orçado em R$ 5 bilhões.

O Brasil corta investimento em escola, hospital, segurança, aposentadoria, salário-desemprego. Mas temos R$ 5 bilhões sobrando para importar aviões de caça, para "proteger nossas fronteiras"?
No mesmo dia em que o governo comemorava essa maravilha de desconto para a compra dos caças, lançava também uma nova plataforma digital para melhorar a comunicação com a sociedade. É o "Dialoga Brasil". Através desse site as pessoas podem dar opiniões e sugestões para a presidência da República.
No lançamento, Dilma disse que para melhorar seu governo é preciso uma "parceria com a sociedade". Afirmou para uma platéia de simpatizantes que "é muito difícil governar um país da dimensão do país sem ouvir as pessoas." Segundo ela, os três eixos são: "O que dá para melhorar no que estamos fazendo? O que a gente deve introduzir nos programas de governo? E o que é possível fazer que ainda não vimos?"
O que é possível fazer? Focar no essencial. Avião de caça, num país sem guerra nem inimigos, é a própria definição do supérfluo. Quer provar que ouve os brasileiros, sua excelência? Começa cancelando esse negócio com a Suécia, que tal?
O Brasil tem longa tradição de políticos que defendem o diálogo mas praticam o monólogo. Dilma vai além. Pedir "parceria com a sociedade”, no mesmo dia em que se confirma a compra desses caças, R$ 5 bilhões nossos jogados na latrina, já não é mais falta de sensibilidade política. É falta de respeito.

Publicado em 23/06/2015 às 16:27

Quando é mais importante ler: a liberdade infinita da literatura juvenil

magic book Quando é mais importante ler: a liberdade infinita da literatura juvenil

Existem livros mágicos. Quem lê um deles vai para sempre acreditar no poder mágico dos livros, do livro. "Harry Potter e a Pedra Filosofal" é um dos mais impressionantes. A escala e a velocidade de seu sucesso sugerem alquimias secretas. O jovem bruxo não se materializou por encanto. Mas gerou um furacão inesperado. Fez do segmento "livro juvenil" o mais quente da indústria editorial. Com consequências no cinema, no merchandising, nos videogames e na TV.

Mas que é um livro juvenil? Até recentemente, a indústria do livro dividia a literatura em dois grupos principais, "adulta" e "infantil" (ou "infanto-juvenil", outro nome, mesmo significado vago). Neste último segmento, agrupava álbuns coloridos para nenês e tijolos de 700 páginas. Para fazer uma ideia: em dezembro de 2001, a revista "Publisher's Weekly", bíblia do mercado editorial, publicou a lista dos 276 livros infantis que venderam mais de 1 milhão de cópias nos EUA. O mais vendido é "Charlotte's Web", de E.B. White, criadora do ratinho Stuart Little. Em seguida, vem "Outsiders", escrito aos 18 anos por S.E. Hinton e filmado por Francis Ford Coppola. Nada a ver um com o outro.

Cabe de tudo na lista. Das Tartarugas Ninja a gente como Dr. Seuss ("O Grinch"), R.L. Stine (da coleção de terror juvenil "Goosebumps") e Roald Dahl ("A Incrível Fábrica de Chocolate"). No Brasil também se mistura banana com laranja. Vi listas de best-sellers infanto-juvenis com "1984" e "A Revolução dos Bichos", de George Orwell, e "Admirável Mundo Novo", de Aldous Huxley, ao lado de Cinderela e Cebolinha.

O escritor de ficção-científica Thomas M. Disch diz que os bons autores de livros para adolescentes devem manter a clareza e a inocência de garotos sabidos como Peter Pan. Chama Neotenia. É como os biólogos batizaram a retenção de características imaturas ou larvais no estágio adulto. Para Disch, "os jovens não são seres inferiores, nem miniadultos. São apenas diferentes dos adultos". Têm outras necessidades, outros interesses, outro humor, menos respeito pelo passado, muita curiosidade sobre o futuro, pouca paciência com regras que não criaram, imaginação fértil e muita pressa.

O homem é uma espécie que conta histórias, conta o biólogo Steven Pinker. Para ele, a criança que se encanta com um conto de fadas está fazendo uso de uma herança genética da humanidade. Pinker defende que essa capacidade é uma vantagem evolutiva. Em todos os cantos do planeta, as linguagens são divididas em objetos e ações: substantivos e verbos. Elas nos permitem transmitir informações sobre o que vai acontecer depois, organizando fatos numa sequência temporal.

Não há maneira melhor de transmitir informação densa do que por meio de uma história. Por isso elas têm poder. E os livros incorporam esse poder. Cada livro lido nos muda. Passa a fazer parte da nossa história pessoal. A sequência das obras lidas por cada um é única, pessoal e intransferível. A adolescência é nosso período de liberdade máxima como leitores. Já temos repertório e ambição suficientes para encarar qualquer "lista telefônica". E não temos, ainda, as obrigações sociais que fazem de boa parte da leitura madura um tedioso desfile de manuais (como dar um jeito na economia, na carreira, escolher o vinho, diminuir a barriga etc.). É um castigo que já começa com as leituras obrigatórias para o vestibular (a maldição de "Iracema"). O problema é que se o adolescente não se apaixona pela leitura, nunca mais. É a idade em que é mais importante ler ficção.

O psicólogo Jean Piaget defendia que, nessa fase, "o ser humano está tentando dominar os elementos que lhe faltam para a razão adulta. Precisa aprender a lidar com ideias abstratas e, por isso, precisa ler livros que lidem com abstrações". Deve, portanto, ler histórias fantásticas e selvagens. Quando você não sabe exatamente do que é capaz, precisa de horizontes distantes e ideias desafiadoras. Exige viver aventuras perigosas que testem seus limites. É por essa razão que todo leitor, nessa fase, adora se apossar de livros escritos para adultos. Pode ser uma velharia desbeiçada e empoeirada da estante, herança do irmão mais velho ou do avô.

Qualquer leitor esperto de 13 anos digere numa boa um best-seller típico, que muitas vezes é um livro juvenil para adultos, disfarçado. E quem já passou dos 50 e não leu Sidney Sheldon, Danielle Steel, Irving Wallace ou Morris West no ginásio que atire a primeira pedra. A adolescência também é o momento em que alguns de nós se apaixonam perdidamente por gêneros — principalmente, o policial ou a ficção científica. Com duas vantagens. Uma, você sempre tem uma noção do que te espera. Outra, você tem a história inteira do gênero à sua disposição. Quem se apaixona por Agatha Christie vai descobrir Georges Simenon e Raymond Chandler. Quem fica louco por Isaac Asimov acaba encontrando H.G. Wells e William Gibson. Tipo da paixão que bate e fica. Nenhum desses autores buscava o leitor juvenil. Nem os grandes autores de aventura, como Robert Louis Stevenson e Jack London. Zorro, Drácula, Sherlock Holmes, Conan e o Capitão Nemo foram criados para a diversão de pais, não de filhos. Deram origem e foram parcialmente substituídos pelas histórias em quadrinhos e, mais recentemente, pelos jogos eletrônicos. Essas obras continuam clássicas e são lidas até hoje.

Os romances escritos especificamente para adolescentes são diferentes e muito fáceis de reconhecer. São estrelados por garotos e meninas da mesma faixa etária do leitor, saindo de seu cotidiano e adentrando um universo desconhecido. Enfrentam bruxas, desvendam conspirações, escondem-se em foguetes, lideram piratas. Muitas vezes, também sofrem e sangram. Alguns apresentam universos paralelos para onde o leitor adoraria se mudar, ou de onde ele fugiria voando. Os melhores apresentam as virtudes e desvantagens de cada lado do espelho, com os protagonistas simultaneamente abraçando e rejeitando os dois campos opostos. Exatamente como o adolescente, que mantém um pé na infância enquanto dá um passo maior que as pernas em direção à maturidade. O maior clássico juvenil desse tipo é "O Apanhador no Campo de Centeio", de J.D. Salinger — melhor se lido até os 15 anos e relido periodicamente depois disso.

A inglesa Joanne Kathleen Rowling, criadora de Harry Potter, escreve livros assumidamente juvenis e é o paradigma do segmento. Soube combinar muito bem duas vertentes tradicionais da literatura de seu país: os livros que se passam em internatos e a paixão pelo ocultismo. Aventuras divertidas em colégios internos rígidos são populares na Inglaterra há muito tempo. O crítico inglês Francis Spufford tem uma boa explicação para o sucesso desses livros. As escolas internas são "cidades de crianças". Não há pais por perto. São um espaço de liberdade, onde as regras —justamente por serem externas e impostas— podem ser quebradas ou enfrentadas, sem culpa. O que importa são as regras de convivência estabelecidas pelas próprias crianças: como aprendemos a conviver com nossos semelhantes e diferentes. Inclusive o garoto riquinho e metido da turma inimiga, o velho mestre misterioso, a professora insuportável e a garota tapada. É por isso que Harry e seus leitores adoram o colégio Hogwarts. Esses livros de internato fazem parte do que Spufford chama de "estágio da cidade", quando o jovem leitor passa a se interessar por livros que exploram a convivência realista entre as pessoas. Seja numa fazenda, numa ilha secreta, num vilarejo do velho oeste ou num internato. Na Inglaterra, essas obras exploram também a relação entre as classes sociais.

O ambiente escolar é a única grande diferença entre Harry e o personagem Tim Hunter, criado por Neil Gaiman, em 1990, na minissérie em quadrinhos "Os Livros da Magia". Tim é um garoto órfão, míope, tímido e moreno, de 13 anos. Um dia é levado para conhecer o universo da magia. Se cumprir seu treinamento, poderá se tornar o maior mago do universo. Ganha um mascote/totem para sua jornada: uma coruja, símbolo da sabedoria secreta. Bem parecido com Harry, que só estreou sete anos depois. Gaiman garante que Rowling não plagiou sua criação, mas se inspirou na mesma fonte que ele: a tradição mágica britânica. Há desconfianças de que que houve acordo entre os autores. Realmente as artes na Inglaterra têm ligação tradicional com o oculto. E não só em tempos antigos. A ilha deu ao mundo o mais famoso mago do Século 20, Aleister Crowley. A partir dos anos 60, presenciou a renovação do misticismo e o aparecimento de uma nova geração de criadores fortemente envolvidos com magia. Entre os mais conhecidos estão os escritores de livros e quadrinhos Alan Moore ("A Voz de Fogo" e "Do Inferno") e Grant Morrison, cuja cultuada série "Os Invisíveis" foi a matriz de "Matrix", o filme.

No Reino Unido, até as obras de respeitáveis acadêmicos cristãos, como o inglês J.R.R. Tolkien e o irlandês C.S. Lewis, têm componentes místicos muito fortes. Amigos e contemporâneos, os dois faziam parte do grupo de intelectuais conhecido como "os cristãos de Oxford", criado nessa universidade na década de 30. Colocaram todo seu fervor religioso nas obras que lhes deram fama, "O Senhor dos Anéis" e "As Crônicas de Narnia". Tolkien, estudioso da literatura saxônica, pretendia, com a "saga do anel", criar uma mitologia artificial, mas crível, e tipicamente inglesa, à altura do que imaginava que o país merecesse. Foi mais bem sucedido do que poderia imaginar. Sua influência se espalhou pela cultura mundial. Está aí "Game of Thrones".

Tolkien assumia que a Terra Média era um mundo pré-cristão, cuja história se passava antes do pecado original. Não se incomodava com os paralelos entre o pão dos Elfos e a eucaristia, ou entre Galadriel e a Virgem Maria. Só admitiu que "Gandalf é um anjo". Lewis foi além. As sete "Crônicas de Narnia" são o mais explícito proselitismo cristão, com meninos e meninas explorando um universo paralelo muito imaginativo, onde reina o leão Aslan, o Cristo dessa outra realidade. O primeiro livro, "O Leão, a Bruxa e o Guarda-Roupa", voltou às listas de mais vendidos pelo mundo afora e é muito recomendado por igrejas cristãs da Inglaterra e dos Estados Unidos. É um dos autores prediletos de J.K. Rowling.

Outra grande influência na criação de Harry Potter é Diana Wynne Jones, a grande dama da fantasia inglesa. Escrevendo para jovens desde 1973, já tem vários clássicos no currículo, inclusive os quatro volumes das "Crônicas de Chrestomanci", iniciadas em 1977 e agora popularizadas fora da Inglaterra. Seu personagem principal, o garoto Christopher Chant, é um mago que guarda os portais entre os mundos. Também anterior à "explosão Potter" foi Terry Pratchett , o autor mais vendido do Reino Unido nos anos 90, em qualquer gênero. Somente agora está ficando popular em outras línguas. A série "Discworld", iniciada por "A Cor da Magia", une fantasia alucinada com o mais idiossincrático humor inglês. Terry nos deixou em 2015.

Philip Pulmann ocupa um lugar especial. Ganhou prêmios literários importantes e tem admiradores e detratores igualmente apaixonados. A razão é que sua trilogia "Fronteiras do Universo" é herética, um libelo anti-religioso e anticristão. Inspirada no "Paraíso Perdido", de John Milton, a série relata a batalha final entre a Autoridade, as forças do controle e do ritual, que aprisionam a humanidade há milênios, e a República do Paraíso, que vem lutando pela liberdade desde que os anjos se rebelaram contra Deus. Pulmann é um paradoxo: coloca sua imaginação incomparável a serviço de um elogio do materialismo. Diz que "depois de comida, teto e companhia, não há nada que o homem deseje tanto quanto histórias".

(Escrevi esse texto para o caderno Sinapse, da Folha, em 2002, quando a literatura juvenil começou a explodir, antes de virar o segmento gigante que é hoje, antes de Crepúsculo, Jogos Vorazes, Extraordinário, John Green etc. E, porque não, 50 Tons de Cinza... Hoje são vários ramos, pra menino, menina, mais romântico, mais fantástico etc. O artigo envelheceu um pouco, cortei uns pedaços. Mas ainda há o que aproveitar. Leio de vez em quando um livro bem juvenil, por prazer - recomendo Extraordinário, Jogador Número 1, e A Livraria 24 Horas do Sr. Penumbra. E finalmente tenho um filho na idade para ler essas coisas. Lerá? Veremos. A assinatura do artigo na Folha era: "André Forastieri, 37, é editor e co-fundador da Conrad Editora, especializada no leitor jovem. Agradece a Valderez, sua mãe, por tê-lo ensinado a ler, e a João Carlos, seu pai, pela coleção completa do Sítio do Picapau Amarelo, que ganhou em 1972.")

Publicado em 19/06/2015 às 17:27

O Brasil é a próxima Grécia

1STU9869 Editar 11 1024x682 O Brasil é a próxima Grécia

Christine Lagarde e Dilma: o Brasil se rendeu à política econômica pregada pelo FMI. Se deu errado na Grécia, porque dará certo aqui?

Imagine que você tem uma dívida com um agiota. Você trabalha duro, mas não consegue pagar o principal da dívida. Afinal, há que viver e você tem uma família para sustentar. Mas todo mês paga direitinho os juros.
Aí o agiota sobe unilateralmente os juros da sua dívida. Você não consegue mais pagar os juros. Começa a vender as coisas da sua casa para cumprir seu pagamento. E no mês seguinte, o agiota sobe mais ainda os juros. Você já vendeu a os móveis, a TV, a geladeira.
E ele sobe os juros de novo. A dívida não para de aumentar. Sua família já está dormindo no chão e vivendo de pão e água. E aí o agiota sobe os juros de novo. Você tem que escolher entre comer e pagar os juros da sua dívida. Que continua aumentando. E você já sabe que mês que vem, os juros vão subir mais ainda. Sem fim.
Este é o resumo da política econômica do governo brasileiro. É extremamente eficiente para somente duas coisas: empobrecer a população e enriquecer os agiotas. Se miopia tecnocrata ou cegueira seletiva, tanto faz. Se fosse só isso era suportável. Nos resta tentar enxergar onde estamos e para onde vamos. É doloroso. Não desvie os olhos.
O analista da de crédito da agência Moody´s está vindo para o Brasil. A nota de crédito do Brasil será rebaixada pela Moody´s. Se continua a despencar, o Brasil perde o “grau de investimento”. Significa que os credores do país deixam de acreditar que pagaremos nossas dívidas em dia.
Profecia: não vai acontecer. O Brasil vai vender os móveis, a casa e a família, mas não deixará de pagar os agiotas em dia. É a ordem do dia. Esta decisão tem consequências.
Do jornal Valor Econômico: “Sem capacidade de gerar receita e com pouco espaço para aumentar impostos e mesmo cortar ainda mais os gastos, a almejada sustentabilidade do endividamento pode ser questionada. A dívida bruta, que tem mais peso na avaliação de risco pelas agências de rating, deve fechar 2015 em nível recorde de 63,4%, ante 58,9% em 2014.” E título de outra matéria do Valor: “Mesmo com demanda fraca, inflação resiste”.
As vendas de tudo estão caindo. Abril teve o pior resultado do varejo desde 2001. E mesmo assim a inflação sobe. Por quê? Duas razões fundamentais. A mudança no câmbio, que desvalorizou o real. E porque subiram muito os custos da energia elétrica, água, gás e combustível. Justamente os preços que são administrados pelo poder público.
Ou seja: o governo sobe as tarifas, para aumentar a arrecadação. A inflação sobe. Com a desculpa de segurar a inflação, o governo sobe os juros. Só que a inflação é causada pela desvalorização do real e pelo tarifaço. Não tem nada a ver com a demanda.
Pois os juros altos aumentam a dívida do governo. Paralisam a produção: férias coletivas para todo lado. Alimentam o desemprego: menos 115 mil vagas em maio, e isso só as com carteira assinada. Esvaziam as lojas. Quebram as empresas. Derrubam a arrecadação. O que leva as agências de crédito a nos punir. O que leva o governo a subir mais ainda os juros, retalhar mais as aposentadorias, reduzir mais o orçamento da saúde, educação, segurança.
O Brasil tinha uma decisão a tomar sobre nossos desafios econômicos. Vamos repetir a saída de 2008, crise global que de fato aqui não passou de uma marolinha, porque os bancos públicos irrigaram a economia com juros baixos? Que tal apostar todas nossas fichas na produção, na educação, na inovação? Ou vamos seguir a receita de “austeridade” do sistema financeiro?
Todos os candidatos à presidente em 2014 tinham a mesma proposta: “austeridade”. Tanto faz se operada por Joaquim Levy, Armínio Fraga ou quem fosse. Levy, aliás, foi aluno do professor Fraga, e por isso mesmo escolhido por Dilma. É funcionário de carreira de banco. Segue à risca a receita que levou a Grécia ao buraco: um quarto dos gregos desempregados, o resto também na roubada, e a um passo de dar um calote na sua dívida.
A política econômica do governo é a opção mais danosa socialmente e menos eficiente economicamente. É a formulinha do FMI que petistas e tucanos renegavam nos anos 80, e que nem o FMI defende mais. Hoje a base tucana cobra do PSDB apoio a Levy, mesmo vendo a economia derreter, porque “menor dos males”.
As consequências sociais deste arrocho histórico são previsíveis: custo humano brutal e crescente. As consequências políticas são imprevisíveis. O Plano Real matou a inflação em 1994. Metade dos brasileiros cresceu sem inflação nem desemprego. Não têm noção do que é isso. Milhões de jovens, analfabetos e bacharéis, levando porta na cara – barulho ensurdecedor.
Não há sinal de solução vindo do poder público. Não virá da iniciativa privada. Qualquer empresário com um pingo de juízo está na retranca. Não virá do consumo, que já temos 60 milhões de brasileiros sem crédito para comprar. Não virá dos sindicatos ou dos movimentos sociais, em frangalhos. E não virá da comunidade internacional, como em 1998, quando Fernando Henrique pediu e conseguiu arrego com Bill Clinton.
Quando não há futuro resta radicalizar. Então vêm aí medidas radicais. Não para aliviar a sua vida. Atitudes radicais para reforçar o caixa do país. Caixa que tem destino certo: as contas bancárias dos credores, internos e externos. Dificuldades extremas exigem medidas extremas. Vamos passar nosso patrimônio nos cobres. País vende tudo para pagar o agiota. Desapega, Brasil!
Teremos anos de “ajuste fiscal”, mais conhecido como arrocho. “Realismo tarifário”, vulgo tarifaço. “Austeridade”, que os poderosos de hoje, quando oposicionistas, chamavam de “carestia”. Perderemos empregos, direitos, aposentadoria, serviços, a saúde, o futuro, a vida. Nada importa mais que pagar juros.
A Grécia fez isso durante anos. O país foi destruído para honrar dívidas. Na última eleição, os gregos levaram um partido recém-fundado ao poder federal. O partido Syriza tem programa simples: defender a população grega e peitar os credores. Está apanhando como cachorro magro e ladrão. A política econômica do Brasil é a mesma que jogou a Grécia no buraco. Porque o que deu errado lá daria certo aqui?
O espantoso é a absoluta ausência de reação. Institucional, empresarial, sindical. Ou mesmo nas ruas. Todos estão fazendo o mesmo discurso, unanimemente aplaudido pela imprensa. Qualquer sinal de dissenso é abafado, tachado de “irresponsável”. A população está prostrada. Marchamos confiantes na direção do abismo.
Ver a luz no fim desse túnel é delírio. O buraco é mais embaixo e mais escuro. Temos uns 70 milhões de jovens no Brasil, dos bebês aos 20 anos. A maioria miserável e pouco educada.
Essa multidão deveria entrar no mercado de trabalho nas próximas duas décadas. Para dar conta, o país precisaria criar daqui a 2035 pelo menos 70 milhões de novos empregos. São 3,5 milhões de novos empregos por ano, durante 20 anos seguidos. A chance do Brasil atingir esse objetivo é zero. Estamos fazendo o contrário: fechando vagas.
E assim o bônus demográfico vira ônus. Setenta milhões de jovens desempregados ou em sub-empregos: é um holocausto social. É incendiário. É garantia de tumulto sem fim e violência alucinante, no país que já é campeão mundial de assassinatos.
A Grécia é pequena e uniformemente empobrecida. O Brasil é gigante injusto e a cada dia mais desigual. O que lá é horrível aqui será infernal. Apoiar nossa atual política econômica é apagar o fogo com gasolina.
O Brasil precisa sair desse círculo vicioso de endividamento e carestia crescentes. A política econômica atual vende nosso presente e envenena nosso futuro. É a cobra mordendo o rabo. Nó górdio – que exige corte seco.

Publicado em 18/06/2015 às 18:02

Felicidade é um novo desenho dos Peanuts

peanutsmoive1 1024x575 Felicidade é um novo desenho dos Peanuts

1975, numa viagem – minha mãe pergunta, do que você tanto ri? Eu às lágrimas, desse livro que estou lendo aqui do Charlie Brown.  Meu primeiro. Valderez pegou o pocket book, leu umas tiras, fez aquela cara de “não vejo do que rir, mas você é o menino e você é que tem que achar engraçado”. Mãe é isso: aceitar.

Peanuts não era clássico aqui naquela época. Mal tinha sido publicado no Brasil. Snoopy não era ícone de fofice. Nos EUA era gigante. Foi lançado em 1950. A tira saía em todos os jornais. Tinha desenhos animados na TV. Tudo com a mão do criador, Charles Schulz.

Adoro. Li a biografia de Schulz, à procura de uma pista. De onde vieram esse traço simples e expressivo, esses diálogos afiados, as situações surreais, as décadas acridoces? Sem explicação. Publicamos alguns livros de Peanuts quando eu era sócio da Editora Conrad. Vou te contar, às vezes dá orgulho da minha vida (passa rápido).

Agora é 2015. Quarenta anos depois de eu encontrar Charlie e Snoopy e Linus, Lucy, Sally, Patty, Woodstock. Crianças imperfeitas, em um mundo imperfeito, sem sinal de adulto por perto. E 65 anos depois da primeira tira. O mundo mudou tanto...

E vejo o trailer do novo desenho animado, agora que sou eu pai de um moleque, e me pergunto: as crianças que não mudam nunca, ou é o gênio de Schulz que é eterno?

Publicado em 16/06/2015 às 16:41

Uma canção de amor digna dos anos 80 – e de Brandon Flowers

Brandon Flowers 6 Uma canção de amor digna dos anos 80   e de Brandon Flowers

Não dá pra decidir se presta ou não o novo disco de Brandon Flowers, líder e cantor dos Killers. Frequentemente soa como o pior do final dos anos 80. Produção pesadíssima, muito laquê, rímel, ombreiras. Por baixo do make up exagerado, o incrível talento para melodias de sempre. E aquelas letras derramadas que quebravam o coração das menininhas uma década atrás. Antes dele casar, ter um monte de filhos e se assumir mórmon.

De  vez em quando é o contrário. Soa como o melhor das produções pesadíssimas do final dos anos 80: Trevor Horn, Stock Aiken & Waterman, os caras que faturavam firme nas FMs quando Brandon era um menino - nasceu em 1981. Brandon evolui e involui da new wave para o mais crasso comercialismo. Sério, tem música que parece do Phil Collins...

Mas veja só que beleza e esperteza essa épica canção de amor. Com sample de um hit amargo de três décadas atrás: "Smalltown Boy", do Bronski Beat, sob um garoto gay que precisa deixar o lar, atrás do amor que não encontra em casa. E participação luxuosa de outro baluarte daquele tempo: Neil Tennant, dos Pet Shop Boys.

Ouça. E leia.

Publicado em 15/06/2015 às 18:05

Acredite: um livro pode mudar sua vida. Se o livro é velho e a vida é minha, melhor ainda

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Ricardo Lombardi no selo Desculpe a Poeira

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

"Separei esse para você”, me diz Ricardo Lombardi, e me bota nas mãos um tijolo de quase mil páginas. Justifica na hora a fama de “sommelier de livros”, que alguém lhe botou e ficou. Metidez e descaramento. Mas criar uma nova categoria de livreiro e ser o único representante dela é boa tacada. Como ensina George Lois: mesmo as melhores idéias precisam de bom marketing.

A melhor idéia foi largar a carreira de jornalista. “Desculpe a Poeira” era o nome de seu blog. Virou seu negócio. Trocou as redações pela vida de dono de um mini-sebo escondido nas ruas de Pinheiros. E saiu batendo o bumbo. Agora o sebo Desculpe a Poeira tem uma Kombi, sebo móvel. Lombardi faz “curadoria” de livros para outros estabelecimentos. Vende pela internet na Estante Virtual. E por aí vai. Gormetização dos sebos, putz. Mas é onde estamos. E francamente demorou.

Daqui a pouco Ricardo está dando palestra sobre como largar as corporações, trocar salário por sentido etc. Fiz parecido em 1993 e recomendo. Fiz o caminho contrário ano passado, da vida indie para o R7, mantendo um pé nos projetos paralelos. Esse mês a Tambor publicou biografias em mangá do Dalai Lama e Mahatma Gandhi. Eu me prometi que nunca mais ia publicar livros. Nesse caso não resisti.

Mangás dalai lama gandhi Acredite: um livro pode mudar sua vida. Se o livro é velho e a vida é minha, melhor ainda

A vida do Dalai Lama e de Mahatma Gandhi, agora em quadrinhos

Você não vai achar esses mangás na livraria mais próxima. Estão nas melhores bancas e à venda online. Agora é assim. É cada vez maior o descompasso entre nossa experiência de compra de livros na internet e nas livrarias. Quem ama livros compra há décadas na Amazon, que parece ler nossa mente. Obcecado com a expedição de Rondon e Roosevelt ao Rio da Dúvida, hem? Aqui está o livro que conta a história toda em mais detalhes ainda. E uma biografia em inglês de Rondon. E, ah!, o relato original de Teddy Roosevelt.

Na livraria “de verdade” não tem nada que interessa. Se tem, não dá para encontrar. O vendedor não faz idéia do que estamos falando. As livrarias brasileiras foram para a béstia quando fomos na cola dos americanos.

Nos anos 90 os gringos inventaram essas megastores, Borders, Barnes & Noble, com café e eventos ao vivo. Vendiam também CD, DVD, papelaria, presentinhos e bugigangas várias. Algumas eram focadas em música, e também vendiam livros: Virgin, HMV, Tower. Eram varejão, ponta de gôndola para as grandes editoras e gravadoras, que pagam caro para estar com o grande lançamento do mês bem exposto.

Fui sócio de duas editoras, Conrad e Pixel. Nem te conto o que era difícil colocar nossos livros nas livrarias. Isso inclui os que tinham grande chance de vender bem. As livrarias simplesmente não queriam fazer negócios com editoras menores. Montar uma editora no Brasil que dependa de vender livros para o leitor (e não para o governo) é garantia de frustração e prejuízo.

Donde que quem adora livros foi parando de frequentar livraria. E sebo, bem, sebo é muito legal, mas tem que saber fuçar, e ter tempo de sobra. Até você encontrar algo que te interesse são horas.

Os anos passaram. Planeta afora o modelo de megastore foi destruído pela internet. A maioria das redes implodiu. E agora as livrarias independentes estão reabrindo nos Estados Unidos. Apostam em públicos segmentados. Muitas combinam espaço físico e venda online. Aqui não, ainda. Mas os sinais de mudança estão ali, no bequinho de Lombardi em Pinheiros.

O que ele tem que que nem a Amazon e nem as grandes livrarias têm? O livrão que ele separou para mim explica tudo.

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Quase mil páginas do melhor jornalismo imaginável

Não sou leitor da revista Esquire há duas décadas. Difícil eu ler livro de reportagens. Não andei lendo nem escrevendo sobre os anos 60. Mas a sugestão do meu sommelier de livros harmoniza comigo. É “Smiling Through The Apocalypse – Esquire´s History of The Sixties”. São 984 páginas de matérias publicadas na Esquire durante a década de 60. Era a principal revista masculina da época, masculina sem mulher pelada, séria mas divertida.

E é assim o livro. Sério, porque focado nos grandes temas da América no período: Política, Vietnã, Direitos Civis, Contracultura. E divertido, mesmo quando trata de crime e guerra, porque os textos eram escritos para seduzir o leitor.

Esquire pagava bem os colaboradores. Atraía os melhores da ilustração, fotografia, reportagem, opinião. As assinaturas no meu livro formam um time dos sonhos: Gay Talese, Norman Mailer, Gore Vidal, Tom Wolfe, Terry Southern, James Baldwin e por aí vai. O livro rende uns trinta posts para esse blog. Quem sabe virão.

Ricardo Lombardi e eu não somos amigos. Nos vimos umas três vezes antes dele abrir o sebo. Ele não sabe que universitário li e reli trocentas vezes um outro catatau que encontrei na biblioteca da minha faculdade, igualmente antológico nos dois sentidos do termo: The New Journalism, editado por Gay Talese. Foi assim que aprendi que a Esquire foi o berço do New Journalism, o grande movimento de renovação da reportagem. E foi por isso comecei a comprar a Esquire assim que comecei a ganhar o suficiente para isso, já trabalhando na Folha.

E sem saber de nada disso Lombardi acertou na mira. Conhecimento de causa. E da sua causa. Ele está diretamente envolvido na seleção dos livros que coloca à venda no seu sebo. E está lá o dia todo conversando – entrevistando – o seu cliente. É o que bom jornalista faz, perguntas, e com elas chegamos às respostas.

Ricardo passou 25 anos em redações, do Estadão ao Yahoo, muitos anos como editor na Abril. A seleção dos livros para o sebo, e sugestão do livro certo para cada pessoa, é edição. Edição não tem algoritmo da Amazon que substitua. É técnica e arte, experiência e intuição. As revistas estão acabando. Nunca mais veremos nada remotamente semelhante à Esquire. A profissão segue, totalmente transformada. Nesse caso, em vez de pintar papel novo, Lombardi usa o que aprendeu para revender papel velho.

Dá uma certa inveja do camarada. Substituto por inspiração. A visita ao sebo e a leitura pinga-pinga do livrão da Esquire me inspira a compartilhar mais indicações. Raro escrever sobre o que amo. O interesse é muito limitado. Acabo publicando sempre sobre as coisas que me param na garganta. Meus textos do mal saem em jorro, vomitados. E assim continuarei. Faz bem para o fígado. Mas decidi compartilhar aqui também as boas coisas da vida. Já viajei, já rodei, já curti – quase meio século de vida.

Tenho em casa livros e discos e filmes suficientes para montar um sebo (sem exagero). Mais importante, carrego comigo um sebo, uma livraria e um museu: na cabeça, no coração. Sigo o exemplo de Ricardo. Capricharei nas indicações. E daí se interessarem para pouca gente? Se posso fazer a sua vida mais prazeirosa, caro amigo e querida leitora, será uma honra e um prazer. Ler e escrever, editar e conversar: é o que eu sei fazer. É o que eu sei.

Ricardo tá fazendo barulho com a história do sebo e a virada que deu na própria vida. Leia a entrevista dele.  http://vidaria.com.br/2014/11/06/o-sentido-da-vida-e-aprender-a-lembrar-que-hoje-pode-ser-o-ultimo-dia-diz-jornalista-que-largou-direcao-no-yahoo-para-se-dedicar-a-sebo-de-livros/

Hei, curta a página do Desculpe a Poeira no Facebook, e vá lá visitar o Ricardo. Diga que o Forasta te mandou. Rua Sebastião Velho, 28A, em Pinheiros.

https://www.facebook.com/SeboDesculpeAPoeira

Tem um filme sobre essa época da Esquire com o mesmo nome do livro! Focado no Harold Hayes, que era o editor. Vou assistir, assista também. Aqui está o trailer.

https://www.youtube.com/watch?t=57&v=spKC-bHXtrE

Lembra do George Lois  lá do primeiro parágrafo? Era o capista da Esquire. Escreveu um livrinho ótimo que recomendo para qualquer um que trabalhe com comunicação, criação, marketing.

http://www.amazon.com.br/Damn-Good-Advice-People-Talent/dp/0714863483

Compre os mangás sobre o Dalai Lama e o Gandhi. São para todas as idades. Sou suspeito para falar, mas valem a pena.

http://popster.com.br/www-popster-com-br-mangas.html

E finalmente: compre sua própria edição de Smiling Through the Apocalypse. Separei para você...

http://www.amazon.com/Smiling-through-Apocalypse-Esquires-History/dp/0841500029/ref=sr_1_2?ie=UTF8&qid=1434143991&sr=8-2&keywords=smiling+through+the+apocalypse

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