Publicado em 19/09/2016 às 16:08

Fica, Temer

Lula Temer Foto RicardoStuckert InstitutoLula 9abr2015 1024x552 Fica, Temer

Lula e Temer em abril de 2015

Definha a resistência ao governo de Michel Temer. A passagem do tempo arrefece todas as paixões. Mas a crescente aceitação do ex-interino tem outro componente importante. É a inevitável pergunta que as palavras "Fora Temer" provocam: se a gente bota ele pra fora, pôe o quê no lugar?
A volta de Dilma é rejeitada pela maioria absoluta dos nossos compatriotas, inclusive pela maioria dos que elegeram Dilma. Diretas já, todo mundo garante que é muito difícil rolar agora. E se tivesse eleição agora, para votar em quem? Todos os baluartes da nossa política, pró e contra impeachment, inclusive os que se aboletaram em cima do muro, como Marina, batem recordes espetaculares de rejeição. Lula mantém bons índices de popularidade e também tem os maiores índices de rejeição dos eleitores
Basta conversar com o povão na rua para perceber que o país não está nem aí para essas eleições municipais, que dirá para eleições presidenciais. Está desencantado, o que é bem diferente de estar "pacificado". "Unir o Brasil" é fantasia tão improvável quanto o objetivo declarado de Lula, que é unir as esquerdas. Estão muito vencidos os termos "direita" e "esquerda", e pouco querem dizer para as pessoas comuns. Mas vamos usá-los aqui em seus sentidos originais: os representantes do Capital, do Indivíduo e da Permanência, contra os representantes do Trabalho, do Coletivo e da Mudança.
Nem o governo que foi saído era da Esquerda, e nem o governo atual é de Direita. Itamar, Fernando Henrique, Lula e Dilma fizeram administrações centristas, com ligeiras inflexões mais pra lá ou pra cá. Nesse quarto de século, as maiorias tiveram ganhos importantes e uma minoria teve ganhos astronômicos. O fosso social brasileiro diminuiu - mas segue profundo.
Naturalmente é impossível e indesejável uma "união das esquerdas". As esquerdas são sempre múltiplas e conflituosas. Quando se "unem" é porque um grupo se impôs aos outros: foi-se a democracia, venceu a autocracia. O cenário que vemos é de multiplicação dos grupos contra Temer, mas não do número de pessoas contra seu governo. A juventude radical se nega a fazer número nas passeatas organizadas pelo PT, que quer a volta de Dilma. Já o PSOL quer diretas já. O próprio PSOL, como o PT, contém diversos agrupamentos internos, rachas variados. A tática do MST não é a do MTST, as feministas não concordam com os black blocs, e por aí vai. Sem problemas. É o que a esquerda é.
Mas nesse momento nenhum desses movimentos anti-Temer dialogam com o Brasil real. O cidadão comum tá em outra, tá vendendo o almoço para pagar a janta. Não espera grandes milagres de políticos, antigos, atuais ou futuros. Acha um pouco ridículo tanta indignação contra Temer, que foi durante todo o governo Lula aliado próximo do governo petista, e vice duas vezes de Dilma. Ué, ele era um cara super bacana até esse ano e virou o vilão da novela? A foto que ilustra esse texto não é do século passado, é de abril de 2015.
E assim o brasileiro vai se acostumando com nossos novos governantes. É fácil para a maioria de nós, que não fomos para as ruas pelo impeachment, e nem contra. Afinal, eles são nossos velhos governantes, com uma ou outra mudança. São praticamente os mesmos personagens que deram as cartas em todos os governos anteriores, desde o final do regime militar. Igual segue a política econômica, sob o mesmo ministro que foi de Lula, Henrique Meirelles. Não há tanques nas ruas, tribunais de exceção, interrupção da vida cotidiana, ou maior limitação das pequenas liberdades que nossa pequena democracia nos oferece.
"As coisas devem mudar para que permaneçam as mesmas", dizia aquele nobre italiano, Burt Lancaster, em "O Leopardo". A versão brasileira poderia ser "as pessoas devem mudar para que as coisas permaneçam as mesmas". Se nos dois anos de governo que lhe sobram Temer parir um novo milagre econômico, pode se reeleger ou eleger um poste em seu lugar. Se nos levar ao cataclisma social, não completa os dois anos. São cenários extremos. O mais provável é - bem, você escolhe em que futuro quer acreditar. Seja qual for, desconfio que qualquer que seja o próximo presidente, Temer, Lula ou quem vier, terá automaticamente o apoio da maioria do Congresso, mas não muita confiança dos eleitores.
No presente, o que existe é uma acomodação. Não é que o brasileiro goste de Temer, ou torça por Temer. As pesquisas e o sentimento das ruas deixam isso muito claro. É mais uma aceitação do inevitável, um muxoxo, um dar-de-ombros: fica, Temer.

http://r7.com/EWLV

Publicado em 14/09/2016 às 16:24

A inspiradora leveza de Calder

alexander calder 856x1024 A inspiradora leveza de Calder

Todo mundo conhece Calder. Até quem nunca ouviu falar dele. Qualquer lojinha de decoração tem uns móbiles à venda. Tem fofo pra quarto de criança, sofisticado para modernos, rústico para bicho-grilos. É um daqueles artistas que se confundem com a obra e viram marca: "Dali", "Mondrian", "Miró". Então qual a razão para estar tão vazia a exposição "Calder E A Arte Brasileira", em pleno sábado à tarde, em plena Paulista, entrada franca?
É que Alexander Calder não é um personagem como, digamos, "Frida", mulher independente, sofrida, ícone feminista em um México rebelde. As filas para a exposição de Frida Kahlo, um tempo atrás, sugeriam aglomeração na porta de festival de rock. Arte é cada vez mais cultura pop, é sobre celebridade, polêmica, dinheiro.
Alexander, "Sandy", Calder, quem era? Um americano tranquilo. Ninguém que inspire paixão. Nasceu com o século, 1898. Família com algumas posses e tradição nas artes. Pai e avô escultores, mãe retratista. Universitário dedicado, Engenheiro Mecânico formado, o que explica o rigor de seus projetos - tá pensando que é fácil equilibrar tanta pecinha?
A palavra que define Calder é "leveza". Seus móbiles flutuam, levitam, pendurados por cabinhos mínimos, delicadeza quase orgânica. Leve também na abordagem, terna, brincalhona. Atravessou o pesadelo do século 20, guerras mundiais, barbaridades variadas, sempre positivo, olhos no horizonte. Não à toa que sua primeira grande retrospectiva nos Estados Unidos, a que finalmente fez seu nome, em 1943, foi organizada por Marcel Duchamp, outro pândego.
A exposição em São Paulo tem escondido em um canto um filminho que é chave para entender o espírito de Calder. Sente e assista. Formado, Sandy fugiu da Engenharia. Foi projetista, e depois retratista de jornal (o que explica seus futuros cartuns feitos a arame). Mas assim que pode se picou para a Paris da Era do Jazz, aluguel barato, cafés animados, a fina flor da arte e da boemia. Recém-chegado, em 1926 já fazia seus bonequinhos de arame, com roupinhas, molas, cenários - o "Circo Calder", que exibia para os amigos, Duchamp, Jean Arp, Léger. Pra quê? Por farra. O filme é sobre o Circo e é uma graça. Mostra Sandy já coroa, brincando com seu Circo de mentirinha, encantado com a bailarina, o Elefante, o engolidor de espadas.
É esse espírito meio palhaço, meio malabarista que Calder transmite em toda sua obra. Nos móbiles, "stabiles" (apoiados no chão), pinturas, esculturas de pequenas a monumentais. É o que falta aos artistas brasileiros que o acompanham na exposição. A maioria das obras brasileiras quase vergam sob tanta seriedade estética, Helio Oiticida, Wilys de Castro... a honrosa, deliciosa exceção é Abraham Palatnik.
Sandy Calder não ganhou dinheiro até os anos 50. Hoje suas obras valem incontáveis milhões e estão nos principais museus do mundo (o de Filadélfia tem a melhor coleção, porque cobre todas as suas fases. Na cidade também está o fino de Duchamp. Visite). Também nunca pareceu se importar muito com isso. Fortuna? Fama? Nos anos 20 o "mercado" de arte mal existia, e muito menos para bonequinhos e penduricalhos.
Seu trabalho dá a impressão de ter vivido e morrido seguindo o lema de Man Ray: "Despreocupado, mas não indiferente". Vem de uma era em que os artistas vinham antes da arte. As obras inspiravam os teóricos, e não o contrário. Viver era tão importante quanto pintar, escrever, esculpir. Tempo que não volta, tempo que pode voltar - nem lá nem cá, equilíbrio impossível, suspenso no ar.

CalderMobile 73 A inspiradora leveza de Calder

http://r7.com/b_9X

Publicado em 23/08/2016 às 15:08

Goulart de Andrade e a TV 80: anarquia no ar

goulart 1024x576 Goulart de Andrade e a TV 80: anarquia no ar
A TV no início dos anos 80 era uma anarquia. Ou parecia. Os loucos tinham tomado o hospício: Goulart de Andrade, Fausto Silva, Paulo César Pereio, a turma do Olhar Eletrônico. Humor colegial, amor pela rua. Cenários toscos, gente comum, câmera na mão - a vida como ela nunca tinha sido na sala dos brasileiros.
Sotaque paulistaníssimo. Até nos programas de auditório, todos gravados na cidade, inclusive Chacrinha, que nunca foi tão doido quanto na Bandeirantes. No Rio dominava o padrão global, na própria e na Manchete, que buscava ser mais Hans Donner que o próprio. Todos os outros canais nacionais tinham sede em São Paulo - Record, Bandeirantes, TVS. Os canais locais de São Paulo, Cultura e Gazeta, fundações, orçamentos baixos, eram mais permeáveis às maluquices da garotada saída (ou ainda) na universidade. Boa parte está hoje por aí - o mais visível Marcelo Tas, que virou personalidade; o mais prestigiado Fernando Meirelles, fazendo cerimônia de Jogos Olímpicos, dirigindo filmes premiados.
A Globo dava suas cacetadas, principalmente nas séries, Plantão de Polícia, Malu Mulher e tal. Mas a ação, a gente sabia, estava nos outros canais, depois do horário nobre. Nunca assisti tanta TV quanto entre 1983 e 85. Recém-mudado pra São Paulo, morando sozinho, notívago, a TV era companhia até o hino nacional, duas da manhã, quando acabavam as transmissões.
Eu assistia tudo. Até esportes, que detesto. Via toda terça o "Clube dos Esportistas". Era um programa surreal com Sílvio Luís, Flávio Prado e Ronnie Hein sentados num sofá, recebendo boleiros (que eu não sabia quem eram, porque não assistia futebol). Sempre com um convidado musical, artistas nível Clube do Bolinha, Lilian Gonçalves. Destaque para a garçonete anã, Ferreirinha.
Goulart de Andrade era o mais ousado de todos. Ia onde ninguém ia, ao outro lado da meia-noite. Era observador, era malandro, era voyeur. Mas dava voz para os personagens, voz que eles não tinham (e não têm) nos jornais nacionais ou policiais. Goulart veio da velha TV, dos anos 50, mas soube se atualizar e se cercar de gente nova, que dava o sangue pelo Comando da Madrugada. Empresário, integrava merchandising descarado em seus programas. Foi pioneiro também nisso. Nada dá mais dinheiro hoje na mídia digital que merchan, ou, como se diz hoje, "branded content" e "native ads".
O que tem hoje de parecido? Talvez a "Vice". Mas vá direto ao original. Goulart publicou muito do que fez no seu canal do YouTube (vou lá agora ver se está a cirurgia peniana do Jamelão!). Pra se inspirar, confira essa lista com dez matérias inesquecíveis de Goulart...
O pouco que sobrou da anarquia televisiva daquele período morreu com a MTV Brasil, onde gente como João Gordo, Hermes & Renato e alguns doidos nos bastidores fizeram bonito. Agora a TV é infinitamente mais rica que trinta anos atrás, mas sempre muito bem produzida, planejada, segmentada, marketada. O espaço do risco e da surpresa é a internet, mas você jamais diria isso olhando os canais mais populares do YouTube. O vídeo na internet é cada vez mais dominado pelas personalidades, pela edição, pela busca desesperada de audiência. Tá cheio de coisa doida, e boa, mas que trabalho garimpar. Nos anos 80 a loucura estava ali no seu nariz, nas beiradas do mainstream.
Minha sensação na época é que depois de anos de TV comportadinha, nos anos da ditadura, com a abertura política tivemos uma explosão de criatividade como nunca antes. Ou eu era muito jovem e tudo parecia muito novo, surpreendente, horizonte infinito?
Essa turma, Goulart à frente, botou abaixo aos pontapés as barreiras aceitável na televisão, e portanto no Brasil. Nosso, meu, agradecimento eterno.

http://r7.com/k_r2

Publicado em 17/08/2016 às 16:19

Quando duas coisas incríveis se chocam: Caco, o Sapo canta Talking Heads

Um clássico de uma das bandas mais inteligentes e esquisitas de todos os tempos.
Um clássico da infância de muita gente... Caco, o Sapo, hoje mais conhecido como Kermit. Tão inteligente e esquisito quanto David Byrne!

http://r7.com/Uh0l

Publicado em 17/08/2016 às 16:03

Acredite: Pokémon Go vai mudar completamente o mundo (e a sua vida)

pokeworld Acredite: Pokémon Go vai mudar completamente o mundo (e a sua vida)
Cena 1: o despertador toca. Márcia levanta e imediatamente coloca seu Óculos AR-VR. Vê o rosto de sua mãe flutuando no quarto; sinal que ela ligou. Um pouco para trás dela flutuam os logotipos das redes sociais favoritas de Márcia. Com um aceno da mão, roda para baixo os feeds. Fala as palavras “café” e “chuveiro”, para o Óculos ativar a cafeteira e já ligar a água na temperatura ideal. Antes de levantar, acaricia seus três pets, que estão no pé da cama: um gato com os olhos bicolores de David Bowie, um filhote de Panda e o Pikachu. Todos virtuais. AR: Realidade Aumentada. VR: Realidade Virtual.

Cena 2: Márcia caminha na direção do metrô. A vizinha Sônia a cumprimenta pela nova bolsa Chanel virtual. Márcia tem 4789 bolsas virtuais, usa uma nova a cada dia. Esta custou R$ 2,99 e foi baixada durante a noite pelo Óculos; Márcia tem uma assinatura de todos os lançamentos de bolsas virtuais das principais marcas internacionais. A bolsa física é sempre a mesma, superleve, super resistente, super prática.

Para combinar com a cor da nova bolsa, Márcia usa uma Skin customizada. Ajustou o tom da sua pele. O corte de cabelo está mais curto, e o casaco combina perfeitamente – tudo virtual. Como todas as suas Skins, esta também corrige algumas imperfeições do corpo material de Márcia: pés de galinha, marcas de acne, uns quilinhos a mais na cintura. Pensa que precisa malhar mais. Hoje à noite vai baixar uma nova praia virtual, para dar mais vontade de fazer ioga. Bali?

Cena 3: nos três quarteirões até o Metrô, Márcia interage com 78 avatares. Das lojas no caminho (com brindes virtuais, bônus e cash-backs em caso de compra). De marcas com que já tem cadastro, oferecendo e-commerce instantâneo e personalizado, muitos usando celebridades (sua YouTuber favorita, o Pequeno Príncipe, o Dalai Lama). Marcas de consumo mas também ONGs, partidos políticos, causas pedindo seu apoio. O logotipo flutuante do cartão de crédito avisa que seus pontos acumulados já dão direito a mais uma viagem virtual de uma tarde. Ela pode escolher entre diversos locais reais ou imaginários, com direito a acompanhante (ela seleciona Tatooine e Cauã Raymond, paixão da sua adolescência).

Márcia prioriza o que é mais urgente. O avatar do seu chefe em Shenzhen está na esquina cobrando seu relatório sobre a mais nova atualização de software. Márcia trabalha para uma empresa que produz Ambientes Virtuais Educacionais para bebês recém-nascidos. São cada vez mais raros.

Finalmente Márcia chega ao Metrô. Está cheio, mas não muito. Quase ninguém mais tem carro; carros têm AR-VR instalados, mas a interação AR-VR é muito menor – qual é a graça? Se necessário um carro, basta comprar algumas horas de uso e eletricidade para rodar. Claro que a maioria das pessoas não se reúne fisicamente para trabalhar.

Márcia escolheu semana passada ver o Metrô como o museu Hermitage, de São Petersburgo, mas já está enjoando de tanto gigantismo. Com um aceno de mão abre um menu no ar e aponta: “Capela Sistina”. Agora sim. Olhando os detalhes do Juízo Final de Michelangelo, ela pergunta: quanto tempo demorou para pintar isso? Harry Potter, seu assistente pessoal virtual (personalizado e gratuito, cortesia da Wikipedia) responde: quatro anos, de 1508 a 1512.

Na escada rolante estão trolls, fadas, super-heróis, roqueiros falecidos, aliens, animais falantes, celebridades do passado e presente, e pessoas “comuns” –todas usando skins, algumas mais sofisticadas, outras mais simples. O “Plebiscito da Semana” insiste que seu voto é importante para alocar eficientemente os recursos públicos não-virtuais, e portanto limitados. A administração pública é uma combinação de Inteligência Artificial e Crowdsourcing. Márcia vota em eliminar de vez a perfuração em plataformas submarinas; o mundo já tem problemas demais com o clima para queimar mais petróleo.

Mais ofertas de produtos e serviços, a maioria digitais, alguns poucos físicos, aparecem sem parar. Uma se sobrepondo à outra, todas em 3D, interativas. Já andam falando que o novo update grátis do Óculos vai ter olfato virtual, imagine só.

Nossa heroína suspira. Diz “Pause” e “Liga pra minha mãe”. Que atende na hora. Faz cara de “por quê demorou tanto pra me retornar?”, o olhar de reprovação que Márcia reconhece como típico de sua mãe – mesmo que sua mãe esteja no momento usando um skin que a faz parecer com Dory, a peixinha do desenho animado.

As tecnologias de AR-VR, Realidade Aumentada e Realidade Virtual, e a infraestrutura que utilizam (Computação em Nuvem, a Inteligência Artificial, Geolocalização, Logística Avançada, Tecnologia Financeira) vão mudar completamente a maneira como trabalhamos, vivemos, compramos e vendemos. Pokémon Go é um belo início. E é só o início. Agora a revolução AR-VR está nos smartphones. Logo (ainda em 2016) estarão nos primeiros Óculos. Depois, algum dia, em implantes cerebrais... e depois sabe-se lá.

AR-VR vai destruir o mundo de 2016. A educação, a ciência, a arquitetura, o namoro, a mídia, o marketing, o consumo, a política; seu trabalho, meu amigo, sua carreira, minha amiga – tudo será profundamente modificado. Fortunas serão criadas e destruídas. Quem sabe tudo que você aprendeu até agora vai valer muito pouco. Quem sabe você vai surfar essa onda e ganhar muito dinheiro.

Já começou. Baixe Pokémon Go agora. Comece a brincar, porque a revolução não será brincadeira. Jogue, compreenda, estude Pokémon Go. Bote a imaginação para funcionar. É o melhor investimento que você pode fazer no seu futuro profissional (principalmente porque a maioria das pessoas que lerem esse texto não levarão este meu conselho a sério).

E enquanto você se prepara para esse futuro tão próximo, o presente é ganhar dinheiro com Pokémon Go aqui e agora. Hoje de manhã, a dois quarteirões da minha casa, uma loja de produtos naturais oferecia desconto para quem entrasse lá para capturar Pokémon. E você, como está usando Pokémon Go para faturar já?

Assunto para meu próximo texto. E não estranhe se eu voltar muitas vezes a este tema. Eu manjo dos monstrinhos. Trabalho com Pokémon desde 1998, quando, fundador da Editora Conrad, lancei a revista Nintendo World e depois a Pokémon Club (que foi o maior sucesso editorial do ano 2000, aliás...)

E se você já está usando Pokémon Go para fazer marketing, vender, agradar seus clientes – mande para mim! Sei de muitos casos no exterior, mas ainda poucos no Brasil. Quando forem em quantidade suficiente, listarei em um novo post.

É engraçado que depois de todos estes anos eu esteja de volta ao mundo de Pokémon (na verdade, nunca saí dele; tenho longa história no universo dos games, e dos novos negócios; lê aí no meu perfil). Mas não me surpreende.

Os games são o laboratório de teste das inovações que depois explodirão em todo o mercado. Estarei sempre de olho no futuro, então estarei sempre de olho nos games, sempre brincando, sempre jogando. Como diz a música tema do desenho Pokémon: “I know it´s my destiny”!

http://r7.com/a9_Q

Publicado em 10/08/2016 às 15:57

A Rio 2016 é racista

rafa ouro A Rio 2016 é racista
Racismo não é que os negros brasileiros têm menos saneamento. Menos casa própria. Menos acesso à saúde, hospital, creche. Nem que são menos alfabetizados, que vivem menos, que vivem pior que os brancos. Racismo não é que os negros são minoria nas universidades, nas redações, no shopping, nos restaurantes. Ou minoria nas novelas, nos telejornais, no público que frequenta os programas de auditório.
Não estão nos palcos dos teatros, são poucos nas paradas de sucesso. Não apresentam talk shows. Há pouquíssimos negros nas gerências e direções das empresas. E no comando da Polícia Militar, Civil, Federal. Não há negros entre os bilionários brasileiros. E não se vê negros nos ministérios, nas secretarias, autarquias, ou nos altos cargos do judiciário.
Mas nada disso é racismo. Não gera indignação. Não é tema pra campanha de candidato nenhum. Não repercute nas redes sociais. Isso é normal. É o dia a dia. Não, racismo é quando eu escrevo a seguinte frase: "Medalha de ouro para uma negra favelada ajuda as negras faveladas em exatamente nada."
Por esse comentário no Twitter, inspirado pela vitória de Rafaela Silva no judô, fui chamado de racista por várias pessoas. Outras também me "xingaram" de gay, homem, branco etc. Muito comum a crítica de que não posso escrever sobre mulheres negras porque não sou mulher nem negra, o que é além de surreal.
Mas nem todo mundo entendeu assim.
Ana Luisa, leitora atenta, escreveu no Facebook sobre o assunto: "aquele post de racista não tem nada. Ao contrário. É uma crítica a um poder público omisso, que quase nada faz para quem é pobre e negro, e a uma sociedade preconceituosa e hipócrita que relega aos próprios negros o conselho de seguir o exemplo de esforço pessoal de uma moça negra que é destaque hoje. Mas é exceção entre uma massa de negras que não tiveram sua condição melhorada por ninguém. E nem ganharam o respeito da classe média anos atrás, lá com aquela medalha de ouro da judoca Edinanci (cujo nome, aliás, caiu no ostracismo). Incrível o tanto de gente que não entendeu, ou fingiu que não entendeu, o seu post."
Toda essa gente que não entendeu, ou fingiu que não entendeu, não pesa tanto pra mim quanto uma única pessoa ter compreendido tão bem minha intenção quanto Ana Luisa.
Costumo dizer que o Brasil é um problema de interpretação de texto. Também costumo dizer que é inútil tentar entender os outros, e mais ainda tentar mudar os outros. Não dá para mudar a opinião de quem concluiu por esta frase que sou racista. Nem vou tentar. Então sou racista. E não sou racista. Entendeu? Assim é o novo mundo da comunicação.
Esse problema de deficiência de compreensão (ou mesmo de indignação simplista e automática) se tornou uma patologia. Dois exemplos pessoais. Estou respondendo a um processo que pede uma indenização financeira bem grande, por um texto que publiquei aqui no blog. Perdi em primeira instância, estamos recorrendo. A decisão do juiz é baseada no que dei a entender, não no que efetivamente escrevi. É um problema da legislação brasileira, que é dúbia, porque interpretação é sempre subjetiva.
Outro exemplo, mais engraçado, de ontem. Fiz também no Twitter uma piada infantil, daquelas tipo revista Recreio: "O que esse Phelps faz de tão importante? Nada." Pois não é que tem gente me xingando, achando que é uma crítica ao nadador americano? Quando até uma bobagem dessas ofende, está claro que qualquer coisa (mas qualquer coisa mesmo) pode gerar repercussão negativa. Como qualquer coisa pode querer dizer o seu contrário, decidi por um título bem explícito e escandaloso para este texto: "A Rio 2016 é racista".
Sutileza tem hora. Veja: o caminho natural para quem escreve profissionalmente, neste ambiente, é a autocensura e a autopromoção. Ou, caminho contrário e desafiador, apostar na inteligência de poucos. Ser mais mais ambíguo, denso, ambicioso. E muito, muito seletivo. É uma alternativa que me seduz - para daqui a pouco.
Para hoje, sobra ser tão agressivo quanto Rafaela Silva. De fato a medalha de ouro para ela não ajuda em nada as negras faveladas, ou, se você preferir, as afrodescendentes moradoras de comunidades. O que mudará a vida dos milhões de Rafaelas que não chegaram e nunca chegarão a nenhum pódio é dinheiro.
Investir R$ 38 bilhões dos nossos impostos nos Jogos Olímpicos, e não em melhorar a vida dos brasileiros mais pobres - a maioria negros, a maioria favelados - é uma das maiores injustiças já cometidas nesse país. E isso sim é que é racismo.

http://r7.com/WZ2Q

Publicado em 05/08/2016 às 18:49

Anitta é perfeita pra abertura da Rio 2016

anitta Anitta é perfeita pra abertura da Rio 2016Não podiam ter escolhido artista melhor que Anitta para a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos. Anitta, ex-MC Anitta, nascida Larissa, é a exata imagem que o mundo faz do Brasil: uma bunda mestiça, alegre, amadora. E é puro Rio 2016: oferecida, simpática, provinciana, cirurgia plástica etc. MUITO melhor que Gil e Caetano, que também vão se apresentar na abertura...
É caipirice de brasileiro achar que Anitta não devia estar lá. Os gringos não botam Beyoncé no show de intervalo do SuperBowl? Todas as grandes cantoras internacionais posam de stripper, rebolam com o mínimo de roupa e tal, cantando como são poderosas e empoderadas. Anitta faz isso melhor que todas elas, claro, porque brasileira, com aquele molejo e simpatia que só nosso DNA misturadão permite.
Duro seria se o Brasil resolvesse fingir o que não é na cerimônia de abertura. Foi o que aconteceu no fechamento da Olimpíada de Londres, quando Marisa Monte (!) representou o Brasil. Marisa é insípida e insegura; canta samba como se quisesse impressionar críticos novaiorquinos; carisma abaixo de zero.
E objetivamente Anitta é a artista mais popular do Brasil. É do funk, é do samba, é famosa, é gostosa. Ninguém faz mais sucesso que ela. Merece estar lá. Você pode achar que como cantora ela tem pouca voz; que as letras não dizem nada, que a música é rudimentar; e por aí vai. Tudo verdade e nada disso importa. Anitta é crua, é quente, é nossa, é campeã.

http://r7.com/z6Pt

Publicado em 02/08/2016 às 15:32

Se toca, Dilma – ninguém quer mais saber de você

lm dilmarousseff pimentel hartung20151117 3 1024x680 Se toca, Dilma   ninguém quer mais saber de você
Retorno de férias, três semanas longe do Brasil. Passei maravilhosamente bem sem nosso triste noticiário, o enrolol da política, a desconversa na economia, a preguiça nas artes. Desembarco aqui e surpresa: perdida entre chamadas sobre os Jogos Olímpicos, Dilma Rousseff diz que vai propor plebiscito sobre novas eleições para presidente. Quem? Como? Ué, o tempo parou?
Era a exata conversa de Dilma antes de eu viajar. Ué, quer propôr, propõe aí. Grava um vídeo chamando eleições. Escreve uma cartinha. Chama uma entrevista coletiva. Não dá tanto trabalho. Basta querer. Mas Dilma não quer. Dilma não sabe mais o que quer. Imagino que deve fantasiar voltar a 2014 e cumprir as promessas que fez para se reeleger, em vez de trair seus eleitores.
Lá se vai um trimestre que Temer assumiu. Longe do poder, Dilma teve toda oportunidade, e tinha excelentes razões, para propor o que muita gente propunha: novas eleições para presidente. Quando foi afastada, com altíssimo índice de rejeição contra si própria mas também contra Michel Temer, a proposta de novas eleições poderia ter grande apoio popular (e dificilmente passaria no Congresso. E daí? Política não é só pra fazer a mixaria que é fácil fazer...).
Agora ela vem com esse papo de novo? Pra quê? Pra nada. Dilma poderia ter entrado pra história como alguém que pisou na bola, mas na hora H soube enfrentar o momento histórico mostrar desprendimento - grandeza, porque não? Os pequenos também são grandes às vezes. Em vez disso segue nessa toada tediosa, se apequenando cada vez mais. Junto com o partido que um dia foi a grande esperança dos pobres do Brasil e virou essa coisa nanica.
Agora o país quer saber de olimpíada, depois tem eleição, e depois tem o verão, e com ele algum alívio, se não no bolso, pelo menos no espírito. E toca andar pra frente. Não é preciso ser fã de Temer (o que quase nenhum brasileiro é) para reconhecer que o tempo de Dilma se foi. Está na cara. O próprio PT, a própria CUT já enterraram a ex-presidente. Só ela não se toca. Segue por aí, se arrastando como um zumbi, faminta de atenção e, quem sabe, redenção. Não terá.

http://r7.com/Ao7b

Publicado em 28/06/2016 às 15:38

Patricia Abravanel está certa. O misticismo é inimigo do progresso

Patrícia Abravanel divulgação 1024x670 Patricia Abravanel está certa. O misticismo é inimigo do progresso
Patrícia Abravanel apanha dos ignorantes. É patético. Está correta ao falar do misticismo. Quanto maior a influência da religião em uma sociedade, mais ignorante e injusta. Onde ela errou: em relacionar o trabalho com a riqueza. O sucesso maior ou menor de cada país é resultado de um conjunto de fatores, dos quais o trabalho é apenas um. Sugiro a Patrícia a leitura do biólogo Jared Diamond e seu livro "Armas, Germes e Aço".
Mas não é por isso que está sendo condenada, e sim por citar a África como exemplo negativo. Essa condenação não resiste a um sopro de realidade. É movimento reflexo de zumbis politicamente corretos. Não tem nada de racismo no que ela falou.
O que Patrícia disse:
"Em países muito místicos (...), muitas vezes o povo deixa de trabalhar porque fica tão místico que deixa de fazer as coisas certas para poder chegar num objetivo. Em países mais racionais, que têm uma fé em Deus, mas acredita no esforço, no suor, no trabalho, no você se portar, ter um casamento e ter que cuidar dele, esses países vão mais pra frente. Então, um exemplo: a África é muito mística, e a gente vê as consequências, e os Estados Unidos é mais racional, protestante, onde acredita no suor. Então, eu acho que a gente tem que avaliar nossa crença através dos frutos que elas nos trazem".
Agora, o que dizem as pesquisas?
Existem muitas que dizem todas a mesma coisa. Escolho uma especialmente sólida e convincente. O instituto Gallup fez em 2009 uma pesquisa mundial, com o objetivo de identificar os países mais e menos religiosos do mundo. Os pesquisadores perguntaram: "a religião é uma parte importante da sua vida diária?". Os resultados estão abaixo.

Os países mais religiosos do mundo:

Egito
Bangladesh
Sri Lanka
Indonésia
Congo
Sierra Leone
Malawi
Senegal
Djibouti
Marrocos
Emirados Árabes
(a maior parte está na África e é islâmico)

Os menos religiosos:

Estônia
Suécia
Dinamarca
Noruega
República Tcheca
Azerbaijão
Hong Kong
Japão
França
Mongólia
Bielorússia
(A maior parte está na Europa)

Na mesma pesquisa, o Gallup identificou os estados mais e menos religiosos dos Estados Unidos.

Os Estados menos religiosos:

Vermont
New Hampshire
Maine
Massachussets
Alaska
Washington
Oregon
Rhode Island
Nevada
Connecticut

Os mais religiosos:

Mississipi
Alabama
Carolina do Sul
Tennessee
Louisiana
Arkansas
Georgia
Carolina do Norte
Oklahoma
Kentucky
Texas

Os estados mais religiosos dos EUA são os mais pobres, e a religião dominante é a cristão.
Veja: não importa se o país é muçulmano ou cristão. A questão não é de fé. Sobreponha estas listas sobre pesquisas equivalentes sobre nível educacional. A relação é lugar comum. Onde as pessoas são mais educadas, a religião é menos importante. Isso também significa que os países menos religiosos são os com melhor padrão de vida para suas populações. Porque neles prevalece a diversidade, o respeito, o planejamento. Por quê? De novo, sugiro a leitura de Jared Diamond; não é meu assunto aqui.

Onde as pessoas têm menos acesso à educação, à informação, à liberdade de expressão, as religiões são mais importantes para as pessoas, e por consequência a fé tem mais influência dentro de cada sociedade. É o que Patricia chamou genericamente de "misticismo".

Naturalmente, não vivemos no vácuo. Pessoas e grupos com crenças diferentes vão disputar espaços simbólicos, religiosos e políticos. Faz parte da vida e do jogo. Liberdade é a liberdade de acreditar no que você quiser, mesmo que me cause repugnância. Mas esta disputa só é positiva em uma sociedade que não acredita em nada, salvo na defesa da liberdade e do progresso de todos, por igual. Intolerante somente com os intolerantes, com o máximo respeito pela vida e pelas diferenças.
É possível e desejável a convivência harmônica entre cristãos, muçulmanos e judeus; budistas, umbandistas e ateus. Como entre brancos, negros e amarelos, LGBT e héteros, todos os comportamentos, caras, crenças. Mas não é viável sob domínio de uma das religiões, ou raças, ou um grupinho. Só em uma sociedade civil e civilizada, e portanto, não dominada pelo misticismo. Ordenada por leis criadas por todos, que sirvam para todos, e que prevejam direitos e deveres iguais para todos. E só em uma sociedade educada.
A religião estará sempre entre nós, inclusive os fundamentalistas. Vamos acostumar com essa idéia. Mas quanto mais educação e melhor divididas as riquezas, cada vez as religiões terão menos poder na sociedade - é o que as estatísticas demonstram. Foi isso que Patrícia disse, à sua maneira atrapalhada. E é bom acostumar com essa idéia também.

Publicado em 27/06/2016 às 17:29

As bancas de revista são importantes. Nesta terça-feira, é hora da gente defendê-las

IMG 4330  1024x682 As bancas de revista são importantes. Nesta terça feira, é hora da gente defendê las
Devo muito aos jornaleiros. Minha mãe me ensinou a ler. Mas quem me ensinou a gostar de ler foi a banca. Me parecia um lugar mágico, muito mais que uma biblioteca, porque sempre renovada, sempre em mutação, sempre quente. Eu gostava do seriado do Batman e do mundo mágico de Walt Disney, então comecei a ler Batman e os gibis dos patos. E o Manual do Escoteiro Mirim. E mais quadrinhos, e mais revistas, e livros bons e baratos.
Isso foi nos anos 70. De lá para cá a banca virou uma coisa bem diferente, e nossas necessidades de informação, conteúdo, mágica são atendidas de maneira muito mais diversa. O papel é só uma parte da informação que acessamos.
As bancas são também um centro importante de fomento cultural. A cena nacional de quadrinhos seria completamente diferente se nos anos 80 um grupo de artistas, jornalistas e fãs de HQ não tivessem passado a frequentar a banca Tiragem Limitada - que daria origem à loja Comix. Outras bancas reúnem outros grupos, até hoje.
E as bancas, claro, são um centro de convivência. O jornaleiro da esquina é parte da comunidade. Presta serviço a quem vive no pedaço, a quem está de passagem, presta informação, bate papo. O jornaleiro vive de entender sua rua, seu bairro, seu leitor.
Por isso tudo é que é importante que a banca sobreviva. Mas para sobreviver, a banca tem que mudar. E tem que mudar, inclusive, a sua fonte de receitas. Só revista, nos dias de hoje, não sustenta uma banca. Aí é que as bancas começam a ter um mix diversificado de produtos, conforme a necessidade do seu mercado. Mas isso não é o suficiente. Por isso é que nos últimos dez anos, o número de bancas em São Paulo caiu de sete mil para 3500 bancas. Claro que tem as bancas melhores e as piores. Mas hoje, juntando a mudança no comportamento do leitor e a atual crise econômica, mesmo as melhores estão em apuros.
Devo tudo como profissional e empresário à banca. Fiz e faço revista e livro para jovem, inclusive criança bem pequena. Te garanto que as bancas continuam sendo centros importantes de difusão de informação e de opinião. E que elas seguem alimentando o amor à leitura. Tenho interesse prático que as bancas sobrevivam, porque sou jornalista e editor (além de curioso profissional e fuçador da internet...). Veja bem, não morro de fome se todas as bancas fecharem amanhã. Mas já rodei o mundo e sei que cidade civilizada é cidade com banca boa na rua.
E por isso tudo é que é muito importante a aprovação do Projeto de Lei 236/2016, também conhecido como "Banca SP". Ele será votado nesta terça-feira. Foi aprovado na primeira votação, esta é a segunda.
Permitirá que as bancas paulistanas possam veicular publicidade em quatro espaços: um anúncio em cada lateral e dois na parte de trás da banda. Hoje já é assim, mas só pode ter publicidade de produto editorial. Com a lei a banca passa a poder ter publicidade de outros segmentos, como é hoje com os pontos de ônibus e relógios.
A palavra chave aí é "poder". Não quer dizer que todas as bancas farão isso. A adesão será totalmente voluntária. Por isso o argumento de que esse projeto de lei vai contra a Lei da Cidade Limpa é furado. A maioria das bancas hoje já tem cartazes anunciando revista e livros. Uma parte das bancas, provavelmente as que estão em localização mais privilegiada, com visibilidade maior, passarão a ter, em vez de cartazes de revista, cartazes anunciando automóvel, suco, tênis ou o que fôr.
O jornaleiro é um um pequeno empresário. Como em qualquer segmento, existem os mais empreendedores e os menos. Essa lei pode beneficiar muitos pequenos negócios. Fazer isso de maneira descentralizada. Ela exige contrapartidas. O jornaleiro que aderir terá que fazer melhorias na sua banca, que vai desde trocar a estrutura metálica até colocar e cuidar de bancos e banheiro público. Melhor para a cidade. E veja só: uma parte desta receita extra irá como imposto para a própria prefeitura, e não para um caixa comum, mas justamente para o Fundo Municipal de Mobiliário Urbano e Paisagem Urbana.
Urbanistas importantes dizem que o projeto Banca SP é bom e moderno. Mas interesses poderosos estão querendo solapar esse projeto. Por interesse econômico das grandes empresas que hoje controlam a publicidade nos pontos de ônibus o relógios. Ou são colunistas que fizeram parte da administração Kassab, e aí é um interesse eleitoreiro, que simplesmente vai contra tudo que o atual prefeito faz ou propõe.
Não se trata de gostar ou não de Kassab ou Haddad. Não vamos politizar uma questão que é de todos. Idéia é boa é boa, não importa de onde venha. É mesquinhez fazer de São Paulo uma cidade mais burra. Nossas ruas são mais civilizadas com as bancas; nossas crianças aprendem a gostar de ler nas bancas; o jornaleiro presta um serviço importante pra gente. Vamos proteger isso e apoiar o Banca SP.

Publicado em 25/06/2016 às 09:49

O que falta pro Temer dançar na Lava-Jato? Moro aceitar essa delação premiada

cms image 000493386 1024x601 O que falta pro Temer dançar na Lava Jato? Moro aceitar essa delação premiada
Reportagem de hoje da Revista Época não deixa dúvida. O destino do presidente interino está nas mãos de Sérgio Moro. Se Moro aceitar essa delação premiada de José Antunes Sobrinho (acima), um dos donos da Engevix, Temer dança. Antunes diz com todas as letras que pagou propina ao mais notório operador de Temer, João Baptista Lima Sobrinho.

Se Moro não aceitar a proposta de delação de Antunes, enterra sua própria credibilidade - e a da da Lava-Jato. Leia. E prepare-se para fortes emoções nos dias que virão.

Publicado em 23/06/2016 às 15:36

A merenda, as panelas e a pizza

RR estudantes secundaristas em frente a ALESP contra mafia da merenda 29032016004 1 1024x678 A merenda, as panelas e a pizza
É muito bom que o nosso judiciário investigue políticos e empresários corruptos. É excelente que os culpados vão pra cadeia. É imoral, ilegal e inevitável que uma parte muito podre da nossa política continue intocável. É o PSDB paulista. Não importa quantas acusações contra os tucanos, quantas evidências, quantas provas irrefutáveis, saem sempre inocentados de tudo.
Foi assim nas privatizações da era Fernando Henrique, comandados por Sérgio Motta. Foi assim no caso da máfia dos Trens, que se arrasta desde 1997. Caixa dois? Pouca gente lembra do escândalo de Furnas, que já em 2006 sugeria que R$ 5,5 milhões de caixa dois teriam ido para as campanhas de Aécio, Alckmin e Serra. Dá pra ficar lembrando de casos envolvendo políticos do PSDB até amanhã.
Naturalmente não é privilégio dos paulistas: pelo Brasil agora tem muita sujeira envolvendo o PSDB. Minas aparece com destaque, graças ao "mensalão mineiro". O único tucano de alta plumagem que jamais rodou é o ex-governador Eduardo Azeredo. Está provadíssimo que roubou e roubou muito. Foi condenado em primeira instância em 16 de dezembro de 2015, a 20 anos e dez meses de prisão, em regime inicialmente fechado, pelos crimes de peculato e lavagem de dinheiro. Mas recorreu à segunda instância e está em liberdade. Enquanto isso, qualquer zé mané citado por delator da Lava-Jato vai direto pra cadeia.
A mais nova palhaçada com a população é a CPI da Máfia da Merenda. É difícil imaginar coisa mais nojenta do que roubar comida de criança pobre, mas é exatamente isso que aconteceu. A investigação envolve assessores diretos, da total confiança de Geraldo Alckmin, incluindo seu chefe de gabinete da Casa Civil, seu braço direito, Luiz Roberto dos Santos; e o presidente da Assembléia Legislativa, seu principal aliado na casa, Fernando Capez. Ontem foi instalada a CPI. Adivinhe: dos nove integrantes, oito são da base de Alckmin, e somente um da oposição. Mais uma vez Alckmin se sai bem em uma operação abafa. Mais uma vez, acusações contra os tucanos vão acabar em pizza.
O Ministério Público é muito valente, mas nunca para enfrentar o PSDB. Os juízes são muito rigorosos, mas nunca para enquadrar o PSDB. Os eleitores de Aécio saíram às ruas somente para derrubar Dilma, não para enfrentar o crime organizado nos palácios ocupados pelo PSDB. Contra a corrupção do PT, muitas pessoas bateram panelas. Contra a corrupção do PSDB, o silêncio destes cúmplices é ensurdecedor.

Publicado em 21/06/2016 às 17:14

O Uber do Uber

2015 03 19T020530Z 1 LYNXMPEB2I026 RTROPTP 4 UBER GERMANY e1435609443779 O Uber do Uber
O Uber causa muita polêmica. A única coisa que não gera discussão sobre o Uber é o seu sucesso com os consumidores e com os investidores. O Uber virou até uma maneira de se dizer "empresa nova que entra em um mercado e vira ele de cabeça pra baixo". No jargão da internet, é "Disrupção": uma tecnologia, ou modelo de negócio, que já nasce destruindo a maneira antiga de fazer as coisas.
Então hoje se fala no Uber dos Serviços Domésticos, o Uber das reservas para restaurante, o Uber dos passeadores de cachorro etc. etc.
Só que pouca gente se tocou que já existe o Uber do Uber. Está no nariz de todo mundo. Não no Brasil, mas em muitos países. É uma coisa que torna o Uber absolutamente inútil.
Chama-se... transporte público de qualidade. Mais especificamente: metrô.
Se você for amanhã para Nova York, Tóquio, Paris e várias outras metrópoles, vai perceber que pode ir a qualquer lugar da cidade em pouco tempo, gastando pouquíssimo. E para fora da cidade também. Porque essas cidades têm muitas estações de metrô, todas interligadas. E essas redes são ligadas a ferrovias que atravessam o país, e aliás se conectam com outros países. Dá para ir de uma ponta a outra da Europa só usando transporte público e gastando uma mixaria.
Porque um parisiense usaria o Uber? Para ficar empacado no trânsito, e gastar muito mais do que a passagem de metrô? Só numa situação de emergência. Ou voltando da balada de madrugada, porque nem todas as estações de metrô funcionam a noite toda. Mas para emergências e bebedeiras já existe táxi, né?
Fora que essas cidades (e muitas cidades médias) têm, além do metrô, ônibus limpos, confiáveis e baratos. E é por isso que em muitas das maiores cidades do mundo há décadas boa parte da população não tem carro. Carro pra quê? Transporte público te leva a qualquer lugar, é conveniente e barato. É uma coisa tão boa e eficiente que várias cidades já estão fornecendo transporte público gratuito! Algumas cidades, para todos os passageiros. Outras só em algumas linhas, ou para alguns grupos (por exemplo, estudantes ou idosos).
Tem um outro detalhe. Que cada vez será menos um detalhe, e mais uma prioridade. Menos carro na rua, além de menos trânsito, significa menos poluição no ar. O que é bom para a nossa saúde e para a saúde do planeta. Um modelo de negócio baseado em transporte de uma pessoa, via automóvel queimando gasolina, não faz nenhum sentido no século 21, com as mudanças climáticas à toda.
Onde o Uber poderia fazer sentido? Onde o transporte público é pouco e ruim, onde táxi é caríssimo, onde não há regras trabalhistas como as do primeiro mundo para defender os taxistas. Ou seja, nos países pouco desenvolvidos. Como o Brasil. Mas para 90% dos brasileiros, o Uber é muito caro (e carro é o grande sonho de consumo). Os outros 10% já têm carro e não abrem mão dele...
E brasileiro é brasileiro, claro. Esses dias saí de uma reunião com uma pessoa, ele chamou um Uber, fui junto. Ele ficou no seu escritório, eu ainda estava longe de casa. Falei pro motorista do Uber: eu não tenho o aplicativo, você me leva mesmo assim? Ele falou: claro!
Rodamos mais uns 15 minutos. Perguntei quanto foi? Ele disse que não era nada. Eu falei nada disso, você trabalhou, tenho que te pagar, pô. Ele disse que seria uns oito reais. Dei dez e falei para ficar com o troco. Ele ganhou mais do que se fizesse a corrida via Uber. Eu paguei menos do que se usasse o Uber. O cara me deu um cartãozinho com o telefone e disse: doutor, eu faço corrida particular, precisando é só ligar... O Uber, essa maravilha da tecnologia, não resiste a um telefonema.
Vai ver que é por isso que o Uber dá um prejuízo enorme, no mundo inteiro. Literalmente, bilhões de dólares de prejuízo. Quem fecha a conta? Grandes investidores, que acreditam que um dia o Uber vai dar lucro. Pode ser. Já vi grandes apostas da internet darem em nada, já vi darem em muita coisa. O tempo dirá. Só tenho uma certeza: o futuro é transporte coletivo de qualidade, barato ou gratuito, e não-poluente. E em alguns lugares isso já é o presente. Isso sim é que é inovação. E fazer isso no Brasil é que será a verdadeira disrupção.

Publicado em 17/06/2016 às 15:29

Como fazer um ajuste fiscal quebrando ovos

Omelete 16 Como fazer um ajuste fiscal quebrando ovos
Presta atenção nesses números:

- a renda média do brasileiro que trabalha para o setor privado é de R$ 1,1 mil. O salário mínimo é R$ 880,00. A maioria esmagadora não declara imposto de renda
- 27,3 milhões de brasileiros declararam imposto de renda em 2014
- destes, 1% teve rendimento tributável acima de R$ 26,3 mil por mês
- este 1% correspondem a 0,15% da população.

Esses 0,15% dos brasileiros são a elite. Claro que essa elite também contém, dentro dela, classes A, B, C, D e E.
A classe E da Elite são os que ganham nessa faixa, por perto dos R$ 30 mil por mês. Tenho certeza que não se sentem milionários de jeito nenhum. Mas são extremamente privilegiados, perto do conjunto da população.
A classe A da Elite é uma fatia microscópica da população, que é dona de uma fatia gorda das nossas riquezas. Inclui esses super ricos famosos que estão sempre nas manchetes, nas reportagens de política e economia, e cada vez mais nas reportagens policiais. Entre as classes A e E da Elite está a elite do nosso funcionalismo público. Como muitos que tiveram reajustes salariais este mês, aprovados pelo governo e pelo Congresso Nacional.
O que vem sendo feito nos últimos anos, e o que continua em pauta para os próximos, é indecente e inútil. Qualquer iniciativa de ajuste fiscal no Brasil tem que começar necessariamente pela classe A da Elite. E descer em cascata. Quando o 0,1% mais rico do país tiver feito sacrifícios, podemos exigir do 1% seguinte, e assim em diante. É premissa inegociável que os brasileiros mais pobres serão poupados até o limite do nosso esforço e imaginação. Qualquer proposta diferente disso tem que ser rejeitada de cara. É impossível fazer um omelete sem quebrar ovos - e privilégios.

Publicado em 14/06/2016 às 17:34

Porque gosto da música do Justin Bieber

justing bieber sorry skrillex blood lyrics 30 1024x512 Porque gosto da música do Justin Bieber
Razão é a coisa mais superestimada do mundo. Somos um feixe de instintos, hormônios, memórias. Nos move muito mais a química que as intenções. A gente age antes de refletir, e gosta do que gosta, não do que imagina que deveria gostar. Donde que gosto da nova música do Justin Bieber. Que não é mais nova, é "Sorry", toca sem parar há meses, e durante meses me incomodou e intrigou.
Eu no trânsito vira e mexe ouço rádio. De rock véio, de pop novo, e cada vez mais de música clássica, sinal certo de maturidade chegando, ai caramba. Primeira vez que ouvi "Sorry" foi no rádio. Não sabia de quem era. E gostei não gostando. Quer dizer, fiz minha análise crítica instantânea. Só mais um hit dance-de-FM pré-fabricado por algum megaprodutor, refrão em três notas, letra "macho vulnerável" arfante, puxando o saco das fãs
Depois descobri que era Bieber, e piorou, porque o moleque é um entojo desde garoto-prodígio do YouTube. E de lá para cá virou rebelde de butique, milionário maconheirinho musculoso e mala.
Então porque sempre que tocava eu ouvia até o fim? Porque subia o volume? A porcaria da música ficou me seduzindo e atazanando meses. Como uma mulher que te dá bola e te dispensa. Judia de mim!
Até que esses dias caiu a ficha e, uau, que maravilha é compreender. Que prazer. Que alívio. Eu gosto dessa música do Justin Bieber porque me lembra aqueles hits antigões de Axé. Do primeiro Axé, lá no meio dos anos 80. Luiz Caldas. Sarajane! "A Rodinha" dá quase pra decalcar em cima de "Sorry". Até "O Canto da Cidade", que enterrou a primeira fase do Axé, já 92.
Fui lá ler sobre "Sorry" e descubro os termos "Tropical House" e "Dancehall Pop". Que é definido como uma mistura de house com ritmos jamaicanos, swingados, veranis. Tá, mas o caminho acho que é outro. "Sorry" é produzido por Skrillex, produtor de mão cheia e popstar ele mesmo; que é parceiro de Diplo, idem; Diplo que rodou o Brasil e conhece isso aqui muito bem. Diplo afanou o funk carioca bonito. Desconfio que botou seus conhecimentos de música baiana na roda, aliás na rodinha, pra Skrillex, e aí está "Sorry". E se nós brasileiros não temos a moral de exportar nossa música pro mundo, ué, alguém vai faturar com isso. Certo ele, pop é roubo.
Se me perguntarem se curto Bieber, ou Axé, racionalmente a resposta é não. Mas contra a memória afetiva não há o que fazer. Gosto de "Sorry", sim, porque por baixo da superprodução estéril, premeditada, algo ali me ativa as papilas gustativas, me faz sentir cheiro de pimenta e suor. É pop baiano dos meus vinte e poucos anos. Amor antigo - de outros carnavais. E não vou pedir desculpas por isso, sorry...

Publicado em 14/06/2016 às 13:42

Cumprimento do direito de resposta de Gilberto Gil e Preta Gil

“Foi com surpresa e indignação que Gilberto Gil e Preta Gil tomaram ciência do artigo intitulado “Quem Pagará Pelo Casamento de Preta Gil? Procure Saber...”, de autoria de André Forastieri, publicado na internet pelo portal R7.

Dentre ofensas pessoais e profissionais abusivas e gratuitas, o artigo, apoiado em suposições pessoais do autor, induziu o leitor a acreditar que Gilberto Gil teria custeado o casamento de sua filha com a verba destinada à produção teatral “Gilberto Gil, o Musical”, que fora obtida unicamente por influência de seu cargo como ministro no Governo Lula e pela “amizade” com o atual Ministro da Cultura.

Nada mais irresponsável e equivocado. Houvesse o jornalista cumprido seu papel de apurar, saberia que a produção do espetáculo “Gilberto Gil, o Musical” bem como a autoria do projeto perante o Ministério da Cultura não são de empresa vinculada a qualquer membro da família Gil. E mesmo que fossem, não haveria qualquer fundamento para tal acusação grave e irresponsável do jornalista.

Desnecessário tecer comentários acerca do legado cultural de Gilberto Gil. O artista tem 50 anos de carreira, 54 discos gravados e 8 “Grammy Awards”. Foi vereador; aceitou o convite da Presidência da República para o cargo maior da Cultura no Brasil e seu Ministério jamais esteve envolvido em escândalos ou acusações de desvios de verba. O artigo do Sr. Forastieri é fruto da mais pura irresponsabilidade jornalística.

Preta Gil, por sua vez, trabalha desde os seus 18 anos: lançou quatro CDs, dois DVDs, gravou 2 novelas, apresentou 2 programas de TV e faz um número incontável de apresentações. Sua popularidade, angariada com esforço e investimentos próprios, é inegável. Nos últimos anos, seu bloco reuniu cerca 4 milhões de pessoas no carnaval carioca. Paralelamente à vida artística, Preta mantém atividades empresariais ligadas à produção e ao licenciamento de produtos que levam sua marca, gerando inúmeros empregos diretos e indiretos. E tem o direito de dispor de seus recursos como melhor entender.

A lamentável conduta do jornalista fere não só a dignidade pessoal de Gil e Preta, como também ignora o próprio código de ética da profissão, pelo qual “o compromisso fundamental do jornalista é com a verdade do relato dos fatos, razão pela qual ele deve pautar seu trabalho pela precisa apuração e pela sua correta divulgação". O autor e o portal faltaram com o compromisso da verdade, inerente ao exercício do direito de informação.

O direito de informar não pode ser desvirtuado de seu propósito para acobertar manifestações ofensivas, inverídicas ou pejorativas. É em virtude do relevante papel do jornalismo na sociedade que a TV e o rádio são mantidos como concessões públicas que devem atender ao interesse público e zelar pelas garantias individuais. A internet, como veículo informativo, deve também atender a esta função, zelando pela verdade e pelos direitos e garantias individuais.

Gilberto Gil, que defendeu a liberdade digital como Ministro da Cultura, e Preta Gil vêm, por meio desta resposta, lembrar ao jornalista que esta liberdade encontra limites no direito do próximo. Escrever e publicar inverdades para ganhar milhares de "likes" e seguidores, à custa da difamação alheia, isto sim, é uma forma de desvio. Desvio de seu compromisso ético e moral com a verdade.

Vivemos todos dias difíceis, de violência e intolerância em nossa sociedade; e induzir o leitor a acreditar em uma teoria estapafúrdia e odiosa não colabora em nada para o desenvolvimento das relações humanas. Há que se pensar no próximo, há que se medir palavras e, principalmente, manter compromisso com a realidade dos fatos.”

Publicado em 09/06/2016 às 15:39

A Mogi-Bertioga é o Brasil

Molde52 596x340 A Mogi Bertioga é o Brasil
Já peguei a rodovia Mogi-Bertioga centenas de vezes. A estrada é a mesma desde quando comecei a frequentar a região, nos anos 80. É perigosa. Faltam guard-rails, sinalização, iluminação. Neblina, chuva e deslizamentos são comuns. Devia ter sido duplicada há muito tempo. Segue imutável. Paisagem linda, perigo permanente. Toda hora tem acidente. Esse foi mais um - o mais horrível, o mais inevitável.
O litoral norte de São Paulo é maravilhoso. Une serra, mata e mar. Cada praia é uma praia diferente. É um território dividido. De um lado da estrada, bonitas casas e ótima infraestrutura para quem viaja para curtir o final de semana. Do lado de lá, favela. O crescimento na região é mais que desordenado: é caótico. Casas pipocam do nada, invadem a floresta, infraestrutura zero.
A imigração é contínua: brasileiros que vêm de regiões pobres em busca de oportunidades, muitos da Bahia. Vivem de prestar serviços aos turistas. Dinheiro bom só no verão. Raridade esgoto, luz, escola, posto de saúde. Faltam oportunidades para os jovens estudarem e fazerem faculdade. Por isso estes viajavam, por isso morreram. Por descaso do poder público com os filhos dos imigrantes, dos pobres, dos negros.
Nada de novo. Muitos outros jovens brasileiros morrerão à toa, à míngua. O litoral norte é igualzinho toda periferia metropolitana deste país. Mas lá microcosmo no microscópio, miséria à vista dos abonados. Como eu. Não sou hipócrita de me iludar que pertenço à comunidade. Um fosso intransponível me separa dos moradores do litoral. Mas eles me ofereceram pontes, e tenho a sorte de conviver com muitos. A notícia do acidente me gelou o sangue. Liguei lá. Atendeu a mãe de uma menina que vi crescer. Ela disse: "hoje ninguém dormiu. Hoje parece que o tempo parou."

Publicado em 01/06/2016 às 09:26

A menina que foi estuprada engravidou – mas não pode abortar

o FTIMA PELAES facebook 1024x512 A menina que foi estuprada engravidou   mas não pode abortar
Esta semana o Brasil inteiro discute o caso da adolescente que foi sofreu estupro coletivo no Rio de Janeiro. Tirando bolsões de ignorância e preconceito, sempre os mais estridentes nas redes sociais, o sentimento coletivo é de choque, tristeza e alguma resignação. O que ninguém discutiu foi a possibilidade da menina ter engravidado de um dos estupradores.
Dezesseis anos, violentada por dezenas de garotos? Probabilidade enorme de gravidez. Ela engravidou? Não sabemos. Muitas mulheres estupradas engravidam. Se meninas adolescentes, maior a probabilidade, claro. Vamos torcer que não seja o caso dela. Se estiver grávida, sem problemas, porque a lei brasileira dá conta desses casos.
O Brasil já rejeitou o argumento de que interromper gravidez é "tirar uma vida". Surpresa: o aborto já é permitido no país. Hoje, só em dois casos (infelizmente; o aborto precisa ser legalizado). Quando a gravidez coloca em risco a vida da mulher. E quando a gravidez é resultado de um estupro. Mesmo que os fetos sejam perfeitamente viáveis, veja bem. É direito legal da mulher interromper a gravidez. A lei aceita, por enquanto só nesses dois casos, e a mulher não está cometendo nenhum crime.
Mais que isso: nesses casos, o Estado tem o dever de fornecer o auxílio necessário para amparar as mulheres que optarem por abortar. Na cidade de São Paulo, por exemplo, são oferecidos os seguintes serviços para as mulheres que tenham sido estupradas e decidam pelo aborto:
- Atendimento médico
- Contracepção de emergência para casos de estupro, em até 72 horas do ocorrido
- Coleta de material para identificação do agressor por meio de exame de DNA
- Acompanhamento clínico, psicológico e social durante e depois da interrupção da gravidez (ou, se for o caso, durante o pré-natal)
- Exames laboratoriais para diagnósticos de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs).
Isso é a lei. Há quem queira mudá-la. Para pior. Como a nova Secretária Nacional de Políticas Para as Mulheres, Fátima Pelaes. Na terça-feira, partipou de seu primeiro ato público no cargo, sentada ao lado de Michel Temer. Fátima é socióloga e foi deputada federal por quatro vezes, pelo PMDB do Amapá. Fez parte do governo Dilma. Ficou até abril deste ano no cargo de diretora administrativa da Sudam (Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia). A nova secretária é contra o aborto em qualquer situação. Mesmo em caso de estupro. Já afirmou que luta para mudar a lei nesse sentido.
Detalhe assustador: ela mesma é fruto de um estupro. Em 2010, Fátima revelou em um discurso à Câmara que que sua mãe engravidou depois de ser estuprada. Sua mãe foi estuprada na cadeia, quando estava cumprindo pena. Ela não conhece a identidade do pai.
Fátima já foi a favor do aborto, mas mudou de opinião ao converter-se. Ela faz parte da Assembléia de Deus. Como muitos cristãos fervorosos, evangélicos e católicos, Fátima é radicalmente contra o aborto. O que ela disse na Câmara, em 2010:
"Hoje estou aqui podendo dizer e defender que a vida começa na hora da concepção sim. Se há tempos atrás tivesse feito isso (aborto) não estaria aqui hoje. A gente tem que pensar que dá-se um jeito, consegue sobreviver. Não é fácil, mas é possível. Só eu sei a dor...
Eu já estive também em alguns momentos nesta comissão defendendo o direito ao aborto, dizendo que toda mulher tem direito, que a vida não começa na concepção. Mas eu precisava ser trabalhada, ser curada, eu não conseguia falar disso… Hoje eu posso.
Temos que pensar que direito nós mulheres temos de tirar uma vida. Nós temos aqui, como seres humanos, de trabalhar pela vida."
Em entrevista para um site religioso, Fátima diz que entre 1991 e 2002, "como ainda não conhecia Jesus Cristo, defendi bandeiras de lutas contrárias aos valores bíblicos, como a defesa do aborto, por entender, naquela época, que a mulher era 'dona' de seu corpo". Na mesma entrevista, Fátima Pelaes declarou ter colocado seu mandato à disposição de Deus. "Firmei um compromisso de glorificar o nome do Senhor naquela Casa de Leis.".
Fátima tem todo direito à sua fé e opiniões. Mas o argumento de que "toda vida é sagrada" não tem nexo. "Sagrado" é um termo sem significado jurídico. Pessoas diferentes entendem que coisas diferentes são "sagradas". O pecado de um é virtude para outro. Fé pode ser um impeditivo para uma mulher decidir pelo aborto; se ela preferir seguir com a gravidez, porque é o que sua religião prega, tem todo direito de fazer isso. O que importa em uma sociedade diversa, democrática, não-teocrática, é a lei. E as leis devem servir ao conjunto da sociedade, não à fé de quem ocupa momentaneamente aquele cargo.
E falando em lei, tem uma outra razão porque Fátima Pelaes não deveria ter sido indicada para cargo público, nem por Dilma, nem por Temer. Seu nome está envolvido em um escândalo de corrupção, como tantos no governo anterior e neste. Foi denunciada por desvios de dinheiro público do Ministério do Turismo, em 2011. Em depoimento à Polícia Federal, uma sócia da Conectur (uma empresa fantasma) afirmou que Fátima, na época deputada, embolsou recursos de emendas. O objetivo seria financiar sua campanha à reeleição.
Fátima nega ter passado a mão na nossa grana. Quem sabe é inocente. Mas deveria ser requisito básico para ocupar cargo público nenhuma suspeição de crime. No Brasil temos a regra contrária: todo político é inocente até que seja julgado culpado pelo Supremo Tribunal Federal e não haja possibilidade de recurso...
Quanto a Michel Temer, bem, o que dizer? Os fatos estão aí escancarados. Mas no Brasil de 2016 - em que só 35% dos estupros são notificados; no Rio de Janeiro, em que só 6% dos acusados por estupro vão a julgamento; na semana em que uma garota é estuprada por 33 bandidos - Temer indicar para Secretária das Mulheres alguém que é contra o aborto até em caso de estupro, é mais que um escárnio. É mais que passar recibo de machista. É uma violência contra as mulheres.
A esperança é que nesse governo cai um ministro por semana. Quem sabe essa aí também cai já? Depende, como sempre, e exclusivamente, de nós.
(P.S.: algumas horas depois de sua escolha para a Secretaria repercutir pessimamente, Fátima recuou e publicou a seguinte nota oficial: "Sempre trabalhei de forma democrática para defender a ampliação dos direitos das mulheres. Em respeito à minha história de vida, o meu posicionamento sobre a descriminalização do aborto não vai afetar o debate de qualquer questão a frente da Secretaria de Políticas Públicas para Mulheres. A mulher vítima de estupro, que optar pela interrupção da gravidez, deve ter total apoio do Estado, direito hoje já garantido por lei. Trabalharei, incansavelmente, para combater qualquer tipo de violência contra a mulher.")

Publicado em 24/05/2016 às 19:06

A Lei Rouanet tem que acabar. Mas não à bala

bolsonaro alberto fraga A Lei Rouanet tem que acabar. Mas não à bala
É repulsiva a iniciativa do deputado do DEM, Alberto Fraga, de pedir uma CPI da Lei Rouanet. O deputado da bancada da bala, chapinha de Bolsonaro, diz que já tem 202 assinaturas de deputados, mais que o suficiente para protocolar o pedido. Deve ter sujeira a ser descoberta, nesses anos todos de leis de incentivo? Claro. Mas não é nada perto da sujeira que está à vista de todos.
Quem é Fraga? É ex-tenente da PM. Nas eleições de 2014 arrecadou 1,5 milhão de reais para sua campanha, sendo um milhão de reais da UTC Engenharia, que está no centro da Operação Lava Jato. Sua principal bandeira é a redução da maioridade penal. É réu no STF por corrupção, acusado de exigir propina para assinar contrato, quando era secretário de Transportes do Distrito Federal. O nome de Fraga está em outros inquéritos no STF, envolvendo peculato, falsidade ideológica e crimes contra o sistema nacional de armas. Neste último, ele foi condenado pelo Tribunal de Justiça do DF a quatro anos de prisão em regime aberto, pelo crime de porte ilegal de arma de fogo e de munições de uso restrito. Este é o paladino da moralidade que pretende enfrentar a corrupção na cultura brasileira.
Claro que a Rouanet tem que acabar. Mas não à bala. Fraga não entende outro método que não a violência. É muito representativo do momento autoritário que o Brasil atravessa. Momento que, pelo andar da carruagem, não vai muito longe.
Existem duas maneiras úteis de o dinheiro público financiar a cultura. É sustentando o supernovo, ou levando o superpopular à população. O investimento dos governos deve ir diretamente para sustentar a produção de arte mais impopular, herética, experimental e estapafúrdia. A que não tem nenhuma viabilidade comercial. Ou, alternativamente, pra pagar show grátis de artista famosão na praça/praia, pro povo se divertir. A função do produto cultural é entreter e já não é pouca coisa. A função da arte é totalmente outra. É ser indomável, iluminadora, transformadora.
Tudo o que está entre o supernovo e o superpopular deveria ser julgado caso a caso. Portanto, não pode ser transformado em política pública. Não em um país tão permeável às ações entre amigos. Mudanças nas leis de incentivo ou na política de patrocínios da Petrobras e toda a cultura do país capotam. A maioria dos brasileiros não pode pagar R$ 200 por um show ou R$ 50 por um livro. Deveríamos todos poder votar com o bolso. O projeto do vale-cultura era bom. Não deu em muita coisa. Cinema: a regra da "retomada" são produções de R$ 5 milhões que não recuperam um décimo dos recursos captados via leis de incentivo.
Teatro: a maior parte dos patrocínios vai para montagens de terceira com atores de novela -hits da Broadway etc. Música: idem, com requintes como o ministro da Cultura se beneficiar de renúncia fiscal - o próprio Gilberto Gil levou em 2009 R$ 445 mil do nosso dinheiro.
É excesso de zelo eleger astros sertanejos ou festivais de rock goianos exemplo de lambança. Qual o problema de cada um correr atrás do seu? Não é a história deste país, todos se achegando para perto do cofre? "Se Gil pode, por que não eu?", se pergunta a nova cena artística brasileira, o que prova que ela só é nova na idade de seus participantes. O que interessa é grana grossa, governo, empresa grande. Da tropicália ao mangue beat a hoje, todo mundo adere tão rápido quanto possível. Vale pra cinema, literatura, o que você quiser. É essa a razão da grita dos artistas contra o final do Ministério da Cultura. E nenhuma outra.
A Lei Rouanet deveria sim ser jogada na lata de lixo da história. Não porque financia turnês da Claudia Leitte, Roberto Carlos ou outros que não precisam de dinheiro público. Alguém prova que o novo disco do Caetano Veloso é culturalmente mais importante do que o do MC Bin Laden? A Rouanet deve ir pro vinagre porque transfere ao governo federal e a diretores de marketing de grandes empresas todo o poder sobre o que será financiado na cultura brasileira, o que é a principal razão porque nossa cultura é hoje esse deserto de idéias, essa coisa invertebrada e bundona.
Agora: fazer CPI disso, nesse momento, é tentar dar troco truculento ao setor da cultura, que se opõe em massa a Temer, e faz bastante barulho. O interino precisa se acostumar a levar bordoada e parar com choradeira de "pressão psicológica". As pesquisas antes de assumir eram claríssimas sobre sua impopularidade, comparável à de Dilma. Imagine agora, quando tenta aprovar um pacote de medidas contra direitos dos mais pobres, sem propor nada para taxar os privilégios dos ricos. Imagine agora, que o interino povoou seu governo com corruptos aos montes. Imagine agora, após o episódio Jucá, quando toda a imprensa internacional condena como "conspiração" o movimento que o levou ao poder.
Temer virou objeto de chacota. Tem passado novas vergonhas a cada novo dia de seu mandato. De produção própria, de seus auxiliares e de sua base, como este Fraga. Fechou e reabriu o Ministério da Cultura. Agora adiciona essa coleção de constrangimentos a pecha de perseguidor de artistas (Temer, que tem pretensões de poeta!).
A Lei Rouanet precisa acabar. Mas o governo Temer já está acabando - a cada dia que passa.

Publicado em 16/05/2016 às 17:54

Não chore por Darwyn Cooke

tumblr no6r35Tp5C1tijkw9o2 1280 724x1024 Não chore por Darwyn Cooke
Um câncer agressivo levou Darwyn Cooke aos 53 anos. Soubemos de sua doença na sexta, morreu no sábado. Perda dolorida. Cooke estava deixando para trás suas obsessões, que homenageou magnificamente. Desbravava novas fronteiras. Não veremos o seu melhor.
O legado que deixa é um monumento a décadas que não viveu: o pós-Guerra, de 45 a 62, "os últimos anos cool". Se passa nesta época a mais bonita carta de amor que alguém já endereçou à DC Comics e ao programa espacial americano, "The New Frontier" (e compre a edição Absolute, de luxo; vale cada cent). Seus outros trabalhos famosos na DC passeavam pela mesma estética. Histórias de Batman; "Antes de Watchmen"; sua reinvenção (e a definitiva) da Mulher-Gato ao lado de Ed Brubaker. Seu nome está nos créditos do desenho que apresentou Batman à geração 90, e determina a estética televisiva "dark deco" do herói até hoje: "Batman, A Série Animada".
Também é este o mundo estiloso e perigoso de The Spirit. Cooke assinou a melhor versão do personagem clássico desde a original de Will Eisner, terna e tensa; e promoveu seu primeiro encontro com Batman. Virou o cara que era sempre lembrado para trabalhos que exigiam ternura pelo passado, o mestre da Era de Prata.

Darwyn Cooke2 1024x747 Não chore por Darwyn Cooke

Em entrevistas, revelou o tratamento que recebeu das duas grandes editoras. A Marvel encomendou a ele um projeto grande, para fazer versões de seus heróis para leitores de todas as idades. Cooke entregou um plano ambicioso e detalhado. A Marvel passou suas anotações para outros criadores e nunca lhe deu satisfação. Prometeu jamais trabalhar para a Marvel de novo. A DC jamais o chamou para assumir um personagem da editora; pelo menos lá teve chance de mostrar outras facetas, e trabalhar com parceiros à sua altura.
Seu talento fazia essas limitações editoriais invisíveis para o leitor. Mas a maestria no estilo retrô tornou-se uma prisão. A ruptura com as travas corporativas ainda foi de época. Os anos 60 são o ambiente de suas adaptações nervosas, noir-sépia, dos livros de Donald Westlake estrelados pelo ladrão profissional Parker. Adaptações, mas autorais, porque literatura policial era a grande paixão de Cooke. Já prefiguravam uma nova fase na sua arte. Numa pausa para respiro no projeto Parker, após quatro livros, lançou uma série original, que desenhava sobre roteiro de Gilbert Hernandez. The Twilight Children é diferente de tudo que fez antes: realismo mágico. Preparava para logo o lançamento de uma criação pessoal, Revengeance, comédia negra passada em 1986, baseada nas suas estrepolias em Toronto aos vinte e poucos anos.
A mais impressionante evidência de sua versatilidade é o livro Graphic Ink: The DC Comics Art of Darwyn Cooke. Traz histórias curtas, capas e ilustrações realizadas por ele para a DC. A diversidade dá vertigem. Cooke faz cartum e cinema, comédia e drama; terror, ficção científica e romance; art deco, grafismo e midcentury modern; Neal Adams, linha clara, Hanna-Barbera, Eisner, Moebius, Toth e muito mais; sempre sendo Darwyn Cooke. É escritor, cartunista, ilustrador, diretor de arte. Faz do velho, novo; encanta e entristece; dá terror e tesão.
Sua morte me chateou muito mais que a de David Bowie. Levei dois dias para perceber a razão. O obra de Bowie que importa está lá atrás, nos nove álbuns primorosos que lançou nos anos 70. Cooke deixa um legado precioso, mas o melhor de seu trabalho, maduro e livre de amarras, estava por vir. Celebremos o muito que fez em sua curta vida; não choremos por Darwyn, que viverá enquanto viverem os quadrinhos, mas pelo que perdemos.

jonah 775x1024 Não chore por Darwyn Cooke

Ir para o Topo