Publicado em 30/10/2009 às 13:28

Finados mas faturando

Vinte milhões de dólares em um dia.

Foi a bilheteria global de This is It, na última quarta-feira.

Considerando-se que é feito de um monte de trechos filmados obviamente para complementarem os extras no inevitável DVD, não está nada mau.

Veja o trailer do filme.

A explicação é a comoção com a morte de Michael Jackson. Encontrei meu primo uns dias depois da morte de Jackson. O cara é um sarrista. Tem trinta anos, nasceu em 78. Era criancinha no reinado de MJ.

Estava todo consternado com a morte do cara. O descanso de tela de seu notebook era MJ, estava assistindo os shows, comentando.

Que que deu no povo? Mesmo quem não dava mais pelota para Michael Jackson virou fã de repente.

Eu acho que tem pouco a ver com Michael Jackson, sua música (a imortal e a intragável) ou sua imagem (de fofo a assustador).

E tudo a ver com a uma sensação de “lá se foi minha infância” ou “lá se foi minha juventude” ou “lá se foi meu primeiro amor” que acontece quando se vai um ícone que embalou nossa vida.

A prova está na tradicional lista da revista Forbes.

Todo ano a revista norte-americana de negócios elenca “as celebridades mortas que mais faturaram no ano”.

As treze deste ano faturaram conjuntamente US$ 886 milhões.

São:

1. O costureiro Yves Saint Laurent, US$ 350 milhões

2. Os compositores de musicais Rodgers & Hammerstein (de A Noviça Rebelde), US$ 235 milhões

3. Michael Jackson, US$ 90 milhões

4. Elvis Presley, US$ 55 milhões

5. O autor de O Senhor dos Anéis, J.R.R. Tolkien, US$ 50 milhões

6. O criador de Charlie Brown, Charles Schultz, US$ 35 milhões

7. John Lennon, US$ 15 milhões

8. O escritor de livros infantis Dr. Seuss, US$ 15 milhões

9. Albert Einstein, US$ 10 milhões

10. O escritor de best-sellers (como Jurassic Park) e diretor Michael Crichton, US$ 9 milhões

11. O produtor de TV (de As Panteras e Barrados no Baile) Aaron Spelling, US$ 8 milhõeshendrix4 Finados mas faturando

12. O guitarrista Jimi Hendrix, US$ 8 milhões

13. O artista plástico Andy Warhol, US$ 6 milhões.

Como essa lista foi divulgada no dia 27 de outubro, ainda não incluía a receita com This Is It, o filme, e muito menos o DVD e Blu-ray, que serão lançados antes deste Natal.

Dos treze, seis são músicos. Não é de graça. É que música nos toca como nenhuma outra arte. É a trilha sonora da vida.

Se eu ouvir, por exemplo, Steppin' Out, do Joe Jackson, me lembro instantaneamente de um carnaval no Clube de Campo de Piracicaba, 1983.

Se ouvir Mistreated, com o Rainbow, do primeiro semestre de 1988. Ou You Were My Last High, dos Dandy Warhols, dos últimos meses de 2003.

serious moonlight tour Finados mas faturandoLembro do meu amigo Beto e eu, 1982, consternados com a notícia de que Nile Rodgers, do Chic, iria produzir um disco de David Bowie.

Beto me consolou um pouco, “é moda, o Quincy Jones botou o Eddie Van Halen para modernizar o funk com Michael Jackson, agora o Bowie que é rock vai pro funk”.

Ah, se você gosta de ligar os pontos: o álbum Thriller foi lançado em novembro de 1982.

Let's Dance, de Bowie, foi gravado em Nova York em dezembro de 1982 e lançado em abril de 1983.

Se você nunca ouviu, ouça. Se você assistiu o filme Bastardos Inglórios, já ouviu uma faixa: Cat People (Putting Out Fire), que toca quando Shoshanna se embeleza, na preparação para mandar seu cinema cheio de nazistas para o inferno.

É o tema do filme “Sangue de Pantera". Adoro o filme original e a refilmagem, Jacques Tourner, Natasha Kinski, a guitarra de Stevie Ray Vaughn e o produtor da faixa, Giorgio Moroder. E Bowie, claro.

Se ele morrer, compro de novo todos os discos dele - mesmo já tendo tudo. Mesmo que ele não faça um bom disco desde, hmm, Let's Dance, 1982. 

E a gente investe tempo e dinheiro em astros mortos, mesmo que eles já não fossem tão interessantes ou relevantes assim, porque eles nos falam ao coração.

Veja mais:

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Publicado em 29/10/2009 às 13:52

Caninus: uma banda boa pra cachorro

Quando você pensou que já tinha visto de tudo - aí é que vem chumbo grosso. Me contaram esses dias sobre esta banda e achei que era lenda. Mas fucei e tá lá: Caninus, a banda que tem como vocalistas... dois pit bulls. Com nome e tudo: Budgie e Basil.

Caninus  Caninus: uma banda boa pra cachorro

A banda existe desde 2004. Eu é que, como de costume, estou atrasadinho. Tem três discos! Se você quiser ouvir, são:

Now The Animals Have a Voice (2004)
Caninus / Hatebeak (2005)
Cattle Decapitation / Caninus (2005)

Esses dois últimos são discos divididos com outras bandas. O slogan do Caninus é “a primeira banda que tem animais como vocalistas”.

Como você pode imaginar, o Caninus não é exatamente uma Lily Allen. Não faz assim músicas felizes, leves, melódicas e assobiáveis.

O som do Caninus é grindcore, o ruído mais pesado, grosso e massacrante que você puder imaginar. (Quer dizer, tem estilos mais inaudíveis. Pornocore. Goregrind. Assuntos para outro dia).

A minha preferida do Caninus é Bite the Hand that Breeds You. Boa letra também.

Mas você pode ouvir outras na página deles no MySpace.

Você pode comprar camisetas do Caninus, ou coleiras, se for mais seu estilo, aqui.

Só fiquei chateado de não encontrar um vídeo do Caninus. De preferência, com eles tocando ao vivo. Será que Budgie e Basil latem na hora certa?

O guitarrista puxa o rabo deles? Será que a plateia também é mista de humanos e animais? Não sei. Mas junto minha voz ao coro de No dogs, no masters!

Mais sobre música:

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Publicado em 28/10/2009 às 12:53

Guerra civil não é só no Rio

Semana passada, quando derrubaram um helicóptero à bala no Rio, dei umas sugestõezinhas de como diminuir a violência no Brasil.

Tipo acabar com a Polícia Militar e investir o dinheiro público onde interessa, não nessa conversa de Copa e Olimpíada. Que, claro, políticos da esquerda à direita estão achando lindo.

Porque todo mundo vai pegar o seu. No jornal de hoje diz que serão 60 bilhões de investimentos para deixar as cidades prontas para a Copa. Uau.

E o repasse já foi antecipado. Veja aqui.

Agora, escrevi no mesmo texto que a PM de São Paulo pegava bem mais leve, matava menos, que a do Rio. E mesmo assim o número de homicídios em São Paulo é bem menor que no Rio. Tudo verdade.

O Marinho colocou lá nos comentários: pois é, mas aqui em São Paulo o PCC manda na periferia. Verdade também e ficou faltando no meu texto.

Em São Paulo também tem guerra civil. É nós contra eles. Nós somos a classe média para cima, para quem a polícia trabalha.

Eles são a classe média para baixo, 70% da população. Que, como a polícia, também trabalha pra gente. E se não tem morro, aqui tem a periferia. Onde a PM também chega passando fogo.

Marcelo Soares me chamou a atenção para uma reportagem do jornal Brasil de Fato, que trata das fronteiras dentro da cidade São Paulo.

O texto precisa ser lido e está aqui.

Para te estimular a ler o artigo completo, reproduzo abaixo apenas a lista de conflitos entre a população e a PM na cidade, neste ano. 

Os conflitos de 2009

Heliópolis Ricardo Trida Diário do GDE ABC AE1 Guerra civil não é só no Rio

Reconstituição da morte da estudante Ana Cristina de Macedo - Heliópolis

Favela Chica Luísa, zona norte

31 de julho – Moradores da favela Chica Luísa realizaram um protesto contra a morte de um mecânico pela Polícia Militar. De acordo com a PM, o homem teria reagido durante a uma abordagem. Os moradores atiraram pedras contra viaturas da polícia e, mais tarde, um ônibus foi incendiado próximo ao Rodoanel. O motorista do coletivo ficou ferido.

Favela Filhos da Terra, Tremembé, zona norte

26 de agosto – A execução de um inocente, tido como traficante pela polícia, foi a causa da revolta dos moradores, que organizaram um protesto para denunciar a violência policial na comunidade. Durante a ação, ônibus e carros foram queimados.

Favela Tiquatira, zona leste

6 de janeiro – Protesto contra falta de abrigos municipais depois de um incêndio que destruiu diversos barracos na comunidade. Os manifestantes interditaram a Marginal Tietê, queimando pneus e outros objetos.

Também foram lançadas pedras contra os policiais, que usaram bombas de efeito moral, gás de pimenta e dispararam tiros de borracha. Três pessoas foram presas.

13 de maio – Moradores fizeram um protesto contra a prisão de um jovem, autuado por tráfico de drogas, e de sua mãe, acusada de desacato. Os manifestantes bloquearam uma rua com pneus e pedaços de madeira e atearam fogo em quatro veículos.

Em resposta, a PM lançou balas de borracha e bombas de efeito moral. Pelo menos duas pessoas ficaram feridas. Pai e vizinhos do rapaz preso asseguram que ele não tem envolvimento com crimes.

Favela do Sapo, na Água Branca, zona oeste

15 de julho – Moradores realizaram uma forte manifestação nos arredores da comunidade, revoltados com a ameaça de despejo por parte da Prefeitura, que alega que as casas estão em áreas de risco.

As famílias, no entanto, afirmavam ter recebido apenas a oferta de um cheque-despejo no valor máximo de cinco mil reais.

Favela Cidade Jardim, zona sul

6 de abril – Moradores da comunidade realizaram uma manifestação contra a falta de água no bairro, que ocupou totalmente a pista na altura da Ponte Engenheiro Ary Torres.

Favela da Cidade Tiradentes, zona leste

6 de maio – A desocupação de mais de 20 casas depois de um deslizamento de terra foi o estopim de um protesto na comunidade. Moradores atearam fogo em pneus e em um ônibus que estava quebrado.

A Polícia Militar usou bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha para dispersar os manifestantes. Cerca de 120 pessoas ficaram desalojadas.

Paraisópolis, zona sul

2 de fevereiro – Policiais e moradores da comunidade entraram em confronto após o assassinato de um homem durante uma abordagem. A polícia sustenta que o homem assassinado era um traficante; os moradores afirmam que a vítima não tinha relação com o crime.

Em protesto, eles montaram barricadas e atearam fogo em veículos, pedaços de madeira e outros objetos, ocupando as ruas da comunidade. Seis pessoas ficaram feridas e nove foram presas.

Heliópolis, zona sul

31 de agosto – Moradores da maior favela de São Paulo revelaram-se contra a morte de uma estudante de 17 anos atingida por um tiro disparado por um guarda civil durante um suposto tiroteio com um suspeito de roubar um carro.

Os moradores montaram barricadas com madeira e pneus incendiados e receberam bombas de efeito moral e tiros de borracha por parte dos policiais. Pelo menos dois moradores se feriram.

Jardim Aracati, zona sul

25 de maio – O atraso de linhas de ônibus na região foi o motivo da revolta de moradores da comunidade, que apedrejaram nove coletivos nas proximidades da Estrada do M’Boi Mirim.

Com a chegada da polícia, os moradores fugiram. Um passageiro ficou ferido durante a ação.

Veja Confrontos nas favelas de SP em mapa

Se você quer ficar com raiva da polícia, veja a mãe de Ana Cristina, 17, chorando a morte da filha pela bala de um tira. E a reação da comunidade de Heliópolis, enfrentando o batalhão de choque da PM.

É uma reportagem de Paulo Henrique Amorim para o Domingo Espetacular.

Publicado em 27/10/2009 às 09:22

A educação ideal: boa, grátis e sem professor por perto (mas sem diploma também)

Quando eu estava na faculdade, achava uma chatice ter que ficar fazendo trabalhos idiotas, resumos, “fichamentos” de textos. Ano após ano, os professores pediam as mesmas coisas - ler O Manifesto Comunista, um livrinho da Marilena Chauí, outro texto lá do Walter Benjamin.

Propus só meio humoristicamente que os alunos montassem um banco de dados, com cópias de todos os trabalhos entregues nos quatro anos de jornalismo da Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo.

A ideia era que no ano seguinte, ninguém precisasse fazer mais porcaria nenhuma. Bastava copiar os trabalhos que tiveram as melhores notas.

Os professores jamais iriam perceber. Se não tinham energia para mudar o currículo ano após ano, por que iam ter energia para ler nossos trabalhos com atenção?

Meus colegas não entenderam que não era piada. Isso foi em 1983.

Em 2005, Neery Paharia, ex-consultora na McKinsey, ex-empregada da Creative Commons, fundou uma coisa chamada AcaWiki, uma compilação de resumos de textos acadêmicos, grátis e criada  coletivamente.

AS LICENÇAS CREATIVE COMMONS

Faz sentido. A Creative Commons é uma ONG dedicada a reformar o sistema atual de propriedade intelectual. Oferece a criadores de conteúdo a possibilidade de registrar suas obras de maneira diferente das que a lei prevê.

Em vez de “todos os direitos reservados”, geralmente uma licença Creative Commons prevê “alguns direitos reservados”.

Eu acho o Creative Commons muito interessante, e já fundei dois sites de colaboração coletiva que funcionam mais ou menos nesta regras.

São o BIS, blog de música que está dentro da MTV.com.br, e o MOVIE, site irmão da nova revista de cinema da Tambor.

A regra 1 no BIS e no MOVIE é: mande o que quiser, publicamos o que gostamos, damos crédito (e link para seu blog ou site ou post original, se houver).

A regra 2 é: você pode pegar qualquer coisa que estiver dentro do BIS e do MOVIE e publicar onde bem entender, dando crédito e link.

Claro que se você quiser pegar este texto que estou escrevendo neste segundo e colocar no seu blog, não tenho como controlar. Mas se deres o crédito e o link, agradeço. Aproveitando, a reportagem da Fast Company que inspirou este post está aqui.

Agora Paharia começou a Peer2Peer University. Estudantes usam o site para se encontrar, agendar classes, estudar conjuntamente, ensinar uns aos outros. Um “facilitador” voluntário supervisiona o andamento de cada curso e mantém a coisa andando.

Hoje, a P2P University tem dez cursos pilotos e já recebeu um investimento inicial de setenta mil dólares da Hewlett Foundation. Não sou só eu que tenho birra com escola.

Tem gente mais inteligente que eu dizendo que as universidades vão pelo caminho das lojas de disco, das gravadoras e dos jornais: pra lama. E tem gente grande apostando dinheiro alto nisso.

“Por que meu filho não pode estudar robótica em uma faculdade, álgebra em outra e direito numa terceira? Por que não podemos organizar 130 disciplinas diferentes, em escolas diferentes, e dizer que isso justifica um diploma?"

Foi mais ou menos essa a pergunta que o professor David Wiley fez. E que não quer calar. Wiley não é mole. Teve uma visão: depois do open source, o open content.

Co-fundou uma escola grátis, pública e online, que usa conteúdo livre (e grátis) e permite que os estudantes se formem na high school (equivalente deles do médio), estudando de casa.

É sócio de uma nova empresa chamada Flat World Knowledge, que encomenda textos acadêmicos e didáticos para professores e os disponibiliza no site. Eles são grátis para leitura online, US$ 19.95 para download e US$ 29.95 por uma cópia impressa.

A empresa acaba de receber um investimento de oito milhões de dólares. Ou seja: tem grana alta apostando em sistemas alternativos. Se você conhece outras experiências diferentes nessa linha, por favor me avisa.

QUER APRENDER DE GRAÇA?

E as universidades?

Começam a correr atrás do prejuízo. O prestigioso Massachussets Institute of Technology, MIT, já coloca praticamente todo conteúdo de seus cursos disponível online. Apostilas, textos, testes, e bastante áudio e vídeo.

De graça. É o OpenCourseWare. Você pode sair agora deste blog e acessar um curso do que você quiser, preparado por alguns dos maiores gênios do planeta, prêmios Nobel etc. É aqui.

Sabe quantos cursos tem? Mil e novecentos. Só falas português? Não tem problema. Tá cheio de curso em português aqui.

Agora, se você quiser receber um diploma do MIT em qualquer desses cursos - um degree, como dizem lá os gringos - tem que passar por uma peneira desgraçada, mudar para Boston e investir pelo menos uns US$ 200 mil.

Isso faz algum sentido para você? Será que não deveria haver mais graus de cinza entre “formado” e “não-formado”?

Citei o MIT porque é famoso. Mas Yale, Notre Dame, e muitas outras instituições estão indo nessa direção. Várias brasileiras.

Veja a lista dos participantes do consórcio OpenCourseWare aqui.

E se você não está encontrando o curso que quer, pode procurar aqui:

Por enquanto, você não ganha um diploma quando faz um curso desses. Porque, claro, não interessa para as universidades, nem pagas nem públicas.

Mas as coisas mudam e mais rápido do que a gente imagina. Em um país como o Brasil, em que 85% dos jovens de 20 a 25 anos não frequentam faculdade, não é nem previsível: é inevitável.

Publicado em 26/10/2009 às 18:46

O mundo louco de Harvey Kurtzman

Tive umas melhores meia-horas da minha vida no sábado.

Foi lendo a introdução e as primeiras trinta páginas de uma revista de cinquenta anos atrás. É a Humbug. Nunca ouviu falar? Vai ouvir agora.


Era uma revista criada por Harvey Kurtzman. É um dos caras mais importantes da cultura mundial no Século 20. 

Ainda vou ter tudo que ele fez, mas ainda estou longe, porque o desgraçado produziu muito.

Sou fã de Kurtzman sem saber, quando criança. Porque ele criou a revista Mad.

Que eu adorava e que foi uma influência gigante sobre a minha vida e a de tantos pré-adolescentes durante meio século.

Mad zoava com tudo. Esculhambava o que havia de mais sagrado na América. Com graça e sem piedade.

harvey kurtzman O mundo louco de Harvey Kurtzman

A Mad nos ensinou que tudo era ridicularizável. Nas mãos da “usual gangue de idiotas”, toda vaca sagrada virava hambúrguer.

O premiado cartunista Art Spiegelman, de Maus, resumiu muito bem: “A mensagem da Mad era: a mídia está mentindo para você - e nós fazemos parte da mídia.”

A influência do humor de Mad está em todo canto, dos Simpsons a programas como Pânico e CQC.

Como explicou o editor da Vanity Fair, Graydon Carter, que elegeu Mad como a sexta melhor revista jamais publicada: “a Mad já faz parte do oxigênio que respiramos”.

E ela era ainda mais louca no começo, na Era Kurtzman. Algumas Mad da minha infância republicaram histórias da primeiríssima fase da revista, nos anos 50.

Fiquei louco ao ler essas histórias - O Sombra, Superduperman, Ping Pong. Nunca houve nem haverá coisa parecida.

O crítico americano Brian Siano explica:

Para os garotos mais espertos de duas gerações, Mad foi uma revelação.

Foi o primeiro lugar a nos dizer que os brinquedos que nos eram vendidos eram lixo, que nossos professores eram ignorantes, nossos governantes tolos, nossos líderes religiosos hipócritas,

e até nossos pais estavam nos mentindo sobre quase tudo... essa geração cresceu e nos deu a revolução sexual, o movimento ambientalista, o movimento pacifista, liberdade na expressão artística e

 um monte de outras coisas boas. Coincidência? Você julga.”

Muita gente boa fez da Mad o que ela foi. Mas ela não existiria sem Kurtzman. Dizer que Kurtzman criou ou editou a Mad não explica sua importância.

Ele fazia a Mad como antes fazia gibis de guerra lendários como Two-Fisted Tales e Frontline Combat.

Ele bolava o argumento, diagramava, enchia as páginas de sketches (que os desenhistas eram obrigados a seguir), e escrevia os diálogos.

De todas as histórias. De todas as revistas. E essa que eu quero de Natal.


  

Ele começou como desenhista de gibis de super-heróis. Logo entrou para um estúdio, em que dividia o espaço com futuros colegas como Dave Berg, John Severin e, surpresa, René Goscinny, futuro criador de Asterix.

Ele escrevia melhor que um roteirista, desenhava melhor que a maioria dos desenhistas e editava melhor que qualquer editor da história dos quadrinhos.

E com tudo isso Mad foi seu único sucesso - sendo que quando ele deixou a revista, em poucos anos a circulação quadruplicou.

Ele saiu porque queria mais grana e porque recebeu um convite do editor da Playboy. Hugh Hefner chamou Kurtzman para fazer uma versão chique da Mad, o título Trump.

Mas a editora andava meio mal das pernas. Trump durou só duas edições.

Hefner, se sentindo culpado, liberou um pedaço do seu escritório para Kurtzman, que lá montou sua “comuna” - uma revista que era sociedade entre cinco artistas: ele e mais Will Elder, Al Jaffee, Jack Davis e Arnold Roth.

Humbug não teve nem de longe o impacto de Mad. Durou onze números, vendeu mal e fechou. Misturava quadrinhos, charges, textos satíricos.

Humbug não deu certo por várias razões de negócios que não importam mais.

Quase ninguém viu Humbug, mas quem viu foi afetado. Por exemplo, Robert Crumb, que decidiu ser cartunista depois de ler a revista, e viria a ser o mais famoso quadrinista do underground americano.

Você pode ler suas histórias atuais na revista Piauí.

Kurtzman não desistiu. Começou outra revista, Help!.

Essa durou 26 números distribuídos em quatro anos, e foi a primeira oportunidade para colaboradores como o futuro cineasta Terry Gilliam, o futuro criador dos Freak Brothers, Gilbert Shelton, o

futuro mestre do cartum sombrio Gahan Wilson, e a futura líder feminista e editora da revista Ms., Gloria Steinem.

Ah, e também tinha colaborações de gente que já era bem importante, como os escritores Ray Bradbury e Arthur C. Clarke.

Foi na Help que Terry Gilliam encontrou pela primeira vez John Cleese. É uma das fundações do Monty Python, o grupo que revolucionou o humor britânico (e além) nos anos 70.

Gilliam disse: “Mad foi a minha bíblia e da minha geração toda”.

Que mais Kurtzman fez?

Durante 26 anos, uma série muito sexy e engraçada para a Playboy, Little Annie Fanny, sempre com o parceiro Will Elder.

Fez o roteiro do desenho “A Festa do Monstro Maluco", uma das alegrias das minhas sessões da tarde.


Animações para Vila Sésamo. Deu aula de cartunismo na School of Visual Arts. Mais umas histórias aqui e acolá, e uma história ilustrada dos quadrinhos.

Nada assim muito histórico ou lucrativo. E aí morreu, meio sem grana, em 1993. Desde 1988, os melhores criadores dos quadrinhos americanos ganham um prêmio, chamado Harvey Awards.

É homenagem a Kurtzman. É pouco? Eu preferia que ele tivesse morrido milionário e que eu nem precisasse apresentá-lo a esta altura do campeonato.

A vida dele não foi assim. A vida dele foi um fracasso após o outro, se você for medir pelo dinheiro. Ou um sucesso após o outro, se você for medir pela obra ou, mais importante até, pela influência.

Quando ligo a televisão, vou ao cinema, entro numa banca ou assisto certos vídeos no YouTube, vejo a Mad, vejo Harvey Kurtzman.

Não há honraria maior.

Publicado em 25/10/2009 às 18:32

O segredo da fidelidade masculina e como levar garotas adolescentes ao êxtase

Se você não me ler depois deste título, desisto.

A neuropsiquiatra doutora Louann Brizendine, autora do best-seller Como As Mulheres Pensam, diz que a liberação da dopamina do cérebro de uma garota que grita ao ver seus ídolos é como uma “injeção de heroína“.

Estar ao lado de outras garotas gritando, diz ela, só torna o efeito ainda mais selvagem.

Há algo na biologia que chamamos de sincronia”, diz Brizendine.

Fãs Histéricas O segredo da fidelidade masculina e como levar garotas adolescentes ao êxtase

Uma garota afeta a outra em um efeito dominó que se amplifica até o nível da histeria. Seus cérebros estão sendo inundados de dopamina e oxitocina, que é um hormônio ligado ao amor e à afinidade.

A grande quantidade de estrogênio das adolescentes catapulta os níveis de dopamina e oxitocina no cérebro, criando um surto de êxtase nelas mesmas e nas outras.”

Os últimos dois parágrafos fazem parte da reportagem sobre o fenômeno Jonas Brothers, que li numa edição da Rolling Stone.

Eles explicam muita coisa. Se tiverem um pingo de embasamento científico. Não faço ideia. Mas achei convincente mesmo assim.

Faz anos que defendo que tem banda pra homem e banda pra mulher. Você, que tem banda, tem que escolher.

Caras que tocam em banda para homem ganham pouco dinheiro, fazem pouco sucesso, tem audiência majoritariamente masculina e pegam pouca mulher.

Caras que tocam em banda para mulher ganham muita grana em pouco tempo, tocam pra audiência majoritariamente feminina, pegam mulher paca.

Só que quem toca em banda para homem tem chance de ter uma carreira que dure mais de dois, três anos. Diferente dos New Kids on the Block, do N’Sync, dos Jonas Brothers.

As exceções - Duran Duran! - confirmam a regra.

E finalmente a doutora explicou. As minas saem da adolescência, diminui a produção de estrogênio, diminui a histeria e o êxtase coletivos. Por isso é que compro minha Rolling Stone todo mês. É educativa.

Já os machos, well, uma banda que você acha duca aos dezesseis anos é um amigo que você tem para sempre. Trinta anos depois tá lá você levando os filhos pra ver o Iron Maiden. Homem, quem diria, às vezes é mais fiel…

Publicado em 24/10/2009 às 16:00

Minha música favorita do mês

Kasabian1 Minha música favorita do mês

Você muda de opinião fácil? Com música, eu mudo. Nunca dei a menor pelota para o Kasabian.

Achava que era um bando de posers, rockeiros de mentirinha, só cabelos e jaquetas e conversa fiada.

Quando eles tocaram aqui num festival, fui embora na segunda música.

E agora “Fire” é minha música favorita do mês.

Não é nova. Eu é que sou demorado.

É de 2009, vá.

Trombei num fim de noite na TV.

Ao vivo, pode conferir aqui, eles não são tudo aquilo.

Mas o arranjo do álbum é dez.

E aquele solinho maldito não sai da minha cabeça.

Publicado em 23/10/2009 às 13:21

A Vida é bela acordando ao lado de Megan Fox

A mostra de cinema de São Paulo está começando. Cheia de coisa boa para ver. Mas para a maioria dos brasileiros que vão assistir um filme nos próximos dias, este final de semana é de Megan Fox.

A moça vem sendo eleita a mulher mais sexy do mundo em todas as eleições que você quiser faz uns três anos seguidos. Hoje estreia seu primeiro filme como protagonista, Garota Infernal.

É uma comédia de terror, escrita pela stripper roterista que papou o Oscar por Juno, Diablo Cody. Em uma entrevista recente, Diablo disse que é como todo mundo, “meio obcecada com Megan Fox”.

É fácil entender por quê. Megan não é a melhor atriz do mundo, mas como dizem os gringos, é damn easy on the eyes.

Veja aqui.

Mas além da moça de verdade, está a persona. Megan foi apresentada ao mundo nos dois Transformers. No primeiro, é a gata inatingível.

No segundo, que chegou às locadoras hoje, a namorada dos sonhos de qualquer adolescente, apaixonada por você, linda e brother. Assisti o filme meses atrás com uma plateia de jornalistas, em uma cabine fechada, antes da estreia.

A primeira cena de Megan no filme tem ela de shorts de jeans curtinho, deitada de bunda arrebitada em cima de uma moto. A casa veio abaixo: gritos, aplausos, assobios etc.

Porque Megan, sabe, é impossível de gostosa. Pode ser a ascendência franco-irlandesa, crescer na Flórida, fazendo aulas de ballet. Podem ser as tatuagens por todos os lados. Pode ser porque ela diz que já transou com garotas e tomou drogas. Seja verdade ou jogo de cena.

O corpinho perfeito e bronzeado também não atrapalha. Mas acho que o que mata mesmo é o jeito sexy à vontade. Está se especializando em fazer sempre o mesmo papel de garota linda e provocativa.

Para o ano que vem faz uma vagabunda de saloon, no filme baseado no meu gibi de faroeste favorito de todos os tempos, Jonah Hex:

megan fox jonah hex poster A Vida é bela acordando ao lado de Megan Fox 

Dizem que Megan não é boa atriz. Diziam o mesmo de Marilyn Monroe e toda jovem que se tornou uma estrela na base do apelo sexual. Tudo bobagem. Ela não está aí para concorrer com Cate Blanchett.

Se depois dos trinta ela vai seguir o caminho de sua idolatrada Angelina Jolie, que vem se especializando em dramas lacrimosos, pior para ela.

megan fox1 A Vida é bela acordando ao lado de Megan FoxAngelina Jolie2 A Vida é bela acordando ao lado de Megan Fox cate blanchett1 A Vida é bela acordando ao lado de Megan FoxMarilyn Monroe1 A Vida é bela acordando ao lado de Megan Fox

Com o DNA de Megan e a tecnologia moderna, ela poderia muito bem posar de irresistível até os quarenta e tantos. Mas isso é o futuro.

Enquanto isso: quer acordar ao lado de Megan, ver ela assando um churrasco, tomando uma cerveja na piscina e arrumando a cinta-liga antes de sair? Quem não quer?

E depois deste presentão, fica o aviso: hoje estou no tradicionalíssimo programa Garagem, com os amigos André Barcinski e Paulo Cesar Martin.

É a sexta edição da nova fase do programa, do qual sou co-fundador (em 1992, caceta), amigo e agregado.

Além de Barça e Paulão, tem Caê explicando o que é Open Source (!), Fábio Nipo-Luso dublando Michael Jackson (!!) e umas músicas que você nunca ouviu na vida, mas deve.

A partir desta sexta à noite e depois disponível aqui.

E se você gostar e quiser uma retrospectiva do Garagem, está aqui.

Beijo pras mina, abraço pros mano...

Publicado em 22/10/2009 às 18:08

Rio de Janeiro: apagando o incêndio com gasolina

Wlilton Junior AE Rio de Janeiro: apagando o incêndio com gasolina

O secretário estadual de segurança do estado do Rio, José Mariano Beltrame, disse que quer transformar a queda do helicóptero policial metralhado “no 11 de setembro da segurança pública do Rio e do país”.

Veja imagens aqui

Baixou o Bush no secretário. Tem que resolver é na porrada etc.

Hmm, os números dizem outra coisa.

Um estudo da Universidade Cândido Mendes comparou os números da segurança nos estados do Rio e São Paulo. A polícia de São Paulo, perto da do Rio, é mole.

No Rio, a polícia mata uma pessoa para cada 265 presas. Em São Paulo, é um morto para cada 1851 presos.

E os resultados são: a taxa de homicídios geral no Rio é quase quatro vezes maior que a de São Paulo. Lá, 35,9 mortos por 100 mil habitantes. Aqui, 10,5 por 100 mil.

Não tenho simpatia por polícia, nenhuma, e muito menos a de São Paulo, que está mais perto de mim. E certamente existem muitos outros fatores que ajudam a explicar os resultados acima.

Mas esses números são forte evidência de que matar mais criminosos não diminui o crime. Aumenta. Violência gera violência, lembra dessa?

Mas o secretário Beltrame tem outras ideias. Por suas declarações belicosas, resta saber quais serão o Afeganistão e Iraque escolhidos. E quem são o Taliban a se enfrentar numa guerra sem fim e o Saddam para enforcar.

Eu sou totalmente pacífico e imagino que você, amigo leitor, também seja.

Mas se o Secretário quer enfrentar o problema à bala, precisa da nossa ajuda para acertar na mira. Se é por falta de sugestões, dou as minhas.

O Taliban - a organização ultraconservadora - que tem a maior responsabilidade pela morte de policiais militares no Rio é a... Polícia Militar.

Porque tem pouca gente. Porque tem equipamento ruim. Porque tem treinamento péssimo. E porque um policial em início de carreira ganha R$ 950,00. Para se arriscar a morrer?

Tem que ser muito burro topar a amolação e o risco de ser PM por esta grana. Ou, alternativamente, tem que ver o trabalho de PM como uma oportunidade de ganhar muito mais - por fora.

Principal: a PM não devia existir. A Polícia Militar é uma invenção de governantes militares. Isso não existe em país civilizado. Enquanto o Brasil tiver Polícia Militar, será um país violento.

É difícil acabar com todas de uma vez. Vamos começar com a do Rio, que tem a pior fama. É só abolir a Polícia Militar que os policiais militares vão parar de morrer. Simples!

Agora, se é pra enforcar um governante, as escolhas são menos claras.

O Presidente da República tem sua parte da responsa porque tem a chave do cofre, mas está longe e tem mais armas que a PM carioca.

O Governador do Rio tem sua parte na responsa mas é superior do Secretário. Pega mal enforcar o superior.

A opção menos ruim é o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes. Tá certo que ele assumiu esse ano e já pegou uma bela bomba. Mas está fazendo por merecer. Por que?

Porque ele estabeleceu uma austeridade fiscal muito rigorosa nos gastos da cidade, desde que entrou. Cortou na carne os investimentos. Assim, até agosto de 2009, o município do Rio teve um superávit primário de R$ 1,88 bilhão, muito superior à meta de R$ 280 milhões.

A cidade tinha uma dotação orçamentária de R$ 830 milhões. Investiu só R$100 milhões.

Só em educação e saúde foram mantidos os investimentos previstos, porque os gastos mínimos são limitados pela Constituição. O resto, dane-se.

A secretária da fazenda da cidade, Eduarda La Rocque, disse ontem ao jornal Valor Econômico que “não investimos quase nada ainda e a ideia é segurar o orçamento, porque o prefeito Eduardo Paes tem falado muito que quer ter orçamento próprio para fazer os investimentos necessários para a Olimpíada”.

rio blog Rio de Janeiro: apagando o incêndio com gasolina

Em uma cidade com o nível de pobreza e tensão social no Rio, deixar de executar o orçamento municipal de 2009 para economizar para a Olimpíada de 2016 é jogar gasolina na fogueira.

Existe evidência acadêmica inquestionável sobre qual é o principal combustível para a criminalidade urbana: homens de 14 a 25 anos, pobres, sem educação, perspectiva ou esperança.

Em qualquer lugar do planeta: Johannesburgo, Los Angeles, Faixa de Gaza ou Rio.

Educar não basta.

Tem que educar em um país onde os inteligentes sejam premiados, os pobres protegidos e os culpados, punidos.

Cada Sarney que sai impune ensina para os meninos do Rio: nesse país a polícia não prende quem tem grana e só vale a lei do cão. Esta é a questão a ser enfrentada pelo poder público nacional. Não vejo sinal de iniciativas do porte que precisamos.

Enquanto não encaramos o problema de frente, fazer o quê, vamos de paliativos mesmo...

Seria realmente uma medida um pouco drástica, a polícia carioca executar o prefeito. Fico horrorizado de imaginar o corpo de Eduardo Paes num carrinho de supermercado.

Por outro lado, isso assustaria os dignitários dos cinco continentes que pensam em visitar o Brasil na Copa e Olimpíadas. Porque governantes são assim - não estão nem aí com violência, a não ser que seja contra eles.

Com sorte, os dois eventos seriam deslocados para países mais merecedores e preparados. E o Brasil poderia usar melhor essa grana toda, gastar com coisas mais importantes. Como, por exemplo, a segurança dos brasileiros.

Clique aqui e veja o mapa do tráfico no Rio de Janeiro

Clique aqui e veja outras cidades violentas no mundo

Publicado em 21/10/2009 às 08:31

Um gibi de 600 páginas que todo adolescente deveria ler

Se você tem alguma dúvida sobre o poder dos quadrinhos para adultos, leia Retalhos, de Craig Thompson (2009, Quadrinhos na Cia., média R$ 45,00). retalhos Um gibi de 600 páginas que todo adolescente deveria ler

É um gibi de seiscentas páginas. Você não leu errado. Mas dá pra ler em uma tarde.

Deveria ser leitura obrigatória no ensino médio.

É uma história autobiográfica. A maior parte trata do primeiro namoro de Craig.

É um lindo romance adolescente.

Ele revisita sua infância e juventude em uma cidadezinha de merda, no interior do Wisconsin, um dos buracos mais atrasados dos EUA.

Craig e seu irmão Phil crescem em uma família fundamentalista, com um pai brutamontes e uma mãe ausente. Tudo é pecado e tudo é proibido.

Se na página 20 você não tiver vontade de queimar todas as bíblias do mundo, não tem coração.

Mesmo que na página 600 Craig tenha chegado a uma tênue trégua com sua infância. Porque Craig cresce como todos crescemos. Se adapta, como nos adaptamos. E perdoa, como perdoamos.

Retalhos foi escolhido o melhor álbum de quadrinhos de 2003 pela revista Time. Ganhou os principais prêmios de HQ do ano - Eisner, Harvey, Ignatz.

Mereceu, porque - diferente, por exemplo, do igualmente tocante, mas menos assustador Persépolis - ele se sustenta especificamente como história em quadrinhos.

Desenhos e palavras se combinam maravilhosamente, a serviço de uma visão individual, única.

Filmes, desenhos animados, novelas, peças de teatro - todas as maneiras de contar uma história com palavras e imagens exigem trabalho coletivo.

Só os quadrinhos permitem que uma única pessoa faça tudo. Não tem nada parecido.

O sucesso de Retalhos parece ter travado Thompson. Desde 2004 cozinha um novo álbum, com pequenos trabalhos aparecendo esporadicamente. Trata-se de Habibi, segundo ele influenciado pela mitologia e caligrafia islâmicas.

retalhos 4 Um gibi de 600 páginas que todo adolescente deveria lerEspero de coração que Thompson acelere o passo. A vida vai passando; um novo trabalho a cada cinco anos é muito pouco.  

Sei lá eu se algum dia ele fará novamente algo tão bom quanto Retalhos. Mas espero o tempo que for.

Um cara que escreve uma frase como “A dúvida me tranquiliza” merece todo o tempo do mundo.

Publicado em 20/10/2009 às 14:06

Onde uma moça negra já esteve

nichelle nichols Onde uma moça negra já esteve 

Quando eu trabalhava na Bizz, início dos anos 90, tínhamos muita liberdade. Mas não a liberdade de colocar um negro na capa. Tentávamos de vez em quando, mesmo assim.

Lembro de brigarmos por uma capa do Living Colour. Um dos chefes lá barrava: “negro em capa de revista não vende”.

Nunca saberei se Prince ou Jimi Hendrix venderiam muitos exemplares da Bizz, porque em todo o tempo que eu estive lá a capa só teve brancos e brancas.

Também não foi um grande problema, sério. Porque de fato rock é coisa de branco. Se você fizer uma lista com dez artistas de rock de primeiro time que são ou foram negros, te dou um doce. 

Nem acho que era racismo do chefe ou da empresa. Era um fato da vida, um pressuposto comercial. Lembrei disso quando vi as duas revistas masculinas mais vendidas do Brasil, Playboy e VIP, com negras na capa.

Silva Ildi AgNews2 Onde uma moça negra já esteve

Tá certo que nenhuma das duas é uma crioula retinta. São mulatas. Ildi Silva, da VIP, é o que os americanos chamam de “high yellow”, quase branca. Juliana Alves, na Playboy, já passaria na gringa como diva do hip-hop.

São, as duas, maravilhosas. Homem brasileiro tem cada um lá seus gostos, mas nunca vi um que não caia por uma mulata.

O pressuposto comercial é que elas vão vender bastante revista. A vida da maioria parda e preta da população pode continuar sendo bem difícil, mas o Brasil mudou.

Taís Araújo, sem mostrar as partes, também está na capa de todas as revistas. Porque é a primeira protagonista negra de uma novela das oito (das nove?). Vive uma modelo. Convence, de tão magra.  

 É um marco. Como o ano quando Denzel Washington e Halle Berry faturaram Oscars.

dejavu 221 Onde uma moça negra já esteve

Para mim, que sou branco, nem tanto. Mas vá perguntar para uma adolescente negra se ela não está orgulhosa de ver tanta pele preta nas capas das revistas.

Agora: além de branco, sou chato, então queria ver Taís, ou Ildi, ou Juliana, ou qualquer jovem negra brasileira na televisão em uma posição de poder. Pode ser gostosa, não tem problema.

Digamos, como tenente de uma nave espacial no século 23. Muitos anos atrás, a comediante Whoopi Goldberg disse que devia sua carreira a uma única coisa. Ter visto na televisão uma jovem negra, bonita, inteligente e segura de si, tratando os brancos de igual para igual.

Alves Juliana AgNews Onde uma moça negra já esteve

 Era Nichelle Nichols, a Tenente Uhura de Jornada nas Estrelas. Quando viu Nichelle na TV, Whoopi, menina, saiu gritando pela casa, “Mãe! Mãe! Tem uma moça negra na televisão e ela não é empregada!”

Muitas outras garotas negras, nos Estados Unidos e pelo mundo afora, se inspiraram em Nichelle.

Uma outra famosa é a médica Mae Jemison, a primeira astronauta negra.

Mae foi recrutada por um programa do qual Nichelle fazia parte - não de televisão, mas da NASA - com o objetivo de atrair minorias (ou seja, não-homens-brancos) para serem astronautas.

Whoopi e Mae pagaram suas dívidas depois, atuando em Jornada nas Estrelas: A Nova Geração.

Nichelle cresceu de classe média, mas seu negócio era o mundo artístico. Cantava bem. Excursionou com as bandas de Duke Ellington e Lionel Hampton. Foi coelhinha da Playboy para pagar as contas. Fez teatro. Tinha trinta e tantos quando foi escalada para Jornada nas Estrelas.

Olha ela aqui e cantando!

Depois de um ano de série, Nichelle resolveu sair, porque o papel era muito pequeno. O líder pelo direito dos negros, Martin Luther King, a convenceu a ficar. Justamente porque era um símbolo positivo, um “role model”: a única negra em posição de respeito na TV.

Ficando, seria a primeira de muitas. “Depois dessa porta abrir, nunca mais se fechará”, disse King.

O engraçado é que Uhura também foi a primeira atriz negra que eu vi na televisão, fazendo papel que não era de empregada, nem escrava em novela de época.

No Brasil, nos anos 70. Nichelle fará 77 anos no próximo 28 de dezembro. Está uma velhinha esperta e, por que não, sexy.

 Mas para mim ela terá para sempre uma tenente de comunicações de 35 anos, olhar sério, botas longas, um minivestido vermelho e um coque antigravitacional. Quem diz que moças negras não são capazes de inpirar garotinhos brancos?

Publicado em 19/10/2009 às 14:18

Gibi não é pra criança

Gibi não é pra criança. Gibi não é pra criança. Gibi não é pra criança. Gibi não é pra criança. Gibi não é pra criança. Gibi não é pra criança.

É inacreditável que em 2009 eu precise repetir isso quinhentas vezes para ver se entra na cabeça desse povo burro.

Gibi é para todo mundo. Como qualquer livro. É uma forma de expressão. Uma arte, se você quiser.

Tem gente que nem chama de gibi ou de HQ, chama de “arte sequencial” ou “romance gráfico”, graphic novel. Pode ser tão sublime ou idiota como, digamos, um filme.

Pode ser pra nenê ou pra gente muito madura, como uma peça de teatro.

Antigamente, a maioria era apropriada para crianças pequenas. Hoje, a maioria não é.

Vai na banca conferir. Tem uns 200 títulos diferentes lá. Nem 20% disso apropriados para criança.

Como cinema. Ou literatura. Ou peças de teatro. Tá claro?

Agora, se você for nesse instante numa grande livraria brasileira, vai encontrar quadrinhos para criança e quadrinhos eróticos e quadrinhos políticos e quadrinhos de todo jeito, tema e formato todos juntos numa estante marcada “Quadrinhos.” Se marcar, vizinha da estante de “Infantis”.

Não tem nenhum sentido juntar Guido Crepax e Alan Moore e Allan Sieber e Osamu Tezuka e Flávio Colin e Wander Antunes e Hugo Pratt e Marcelo Gaú e Bryan Talbot e Takehiro Inoue na mesma estante.

Sei porque publiquei todos eles, na Conrad ou na Pixel.

Qualquer adulto pode e deve ler Dragon Ball ou Tio Patinhas. Como pode assistir Wall-E. O contrário não é verdadeiro.

Meu filho não pode assistir Apocalypse Now, que é um dos melhores filmes que eu já vi. Ele tem cinco anos. É muito pesado. Não é hora.

Também não pode assistir O Triunfo da Vontade, que não tem palavrão nem mulher pelada. Porque é propaganda nazista. Tomás não está pronto.

Um dia desses, uma mãe vai dar o Buda de Ozamu Tesuka - meu mangá predileto de todos os tempos, terno e inteligente - para seu filhinho de sete anos.

E quando ver que o gibi, além de uma mensagem inesquecível, tem moças com peito de fora, guerra e morte e sangue, vai processar a livraria, a editora, o autor etc.

E um bando de políticos demagogos vão pegar uma carona para posar de defensor da moral.

Aliás, liberdade de expressão é sempre a liberdade de expressarem o que eu não gosto, não suporto, não aturo, acho errado e de mau gosto.

Quem não entendeu isso não sabe o que é democracia. O que significa que 90% dos brasileiros não sabe o que é democracia. E esses caras têm filhos na escola, frequentam bancas e livrarias etc.

Eu preferia que eles fossem desintegrados por raios atômicos marcianos - seria um país mais agradável - mas não tenho esperança que isso vá acontecer tão cedo.

Às vezes eu acho que a indústria de HQ brasileira precisa de um sistema de classificação, como os games e os filmes. É triste, perigoso e um tanto emburrecedor, mas talvez seja o jeito.

Não na linha do Comics Code americano, tesconjuro; talvez  dois ratings, sempre sugeridos pelo próprio editor. Para Todas as Idades, Sugerido para Maiores de 12 anos. E tá bom.

Acima de 13 qualquer um deveria estar livre para ler o que bem entender, de Sade a Shakespeare; e ver qualquer coisa, inclusive pornografia e terror hardcore; e de fato os teens já fazem isso, porque quem tem acesso à internet tem acesso a tudo.

E contra o avanço da tecnologia, leis obsoletas nada podem.

Publicado em 17/10/2009 às 13:21

Dê um tapão num cantor chato

Eu já tive que responder processo por defender que esse país só tinha jeito se dessem um tiro numa moça.

Foi piada, claro, mas tem gente que não tem senso de humor. Aprendi minha lição. Não tem nenhum sentido dar um tiro num artista, só porque ele me ofende ou enche o saco.

A atitude racional nesses casos é dar um tapão no artista. Foi o que Peter Kowalczyk fez com Leona Lewis. Ela venceu em 2006 o X-Factor, versão inglês do Ídolos. É uma mala sem alça pré-fabricada.

Tipo os piores momentos de Mariah Carey, british version. E levou o peteleco na noite de autógrafos para lançamento de sua autobriografia. Leona tem 24 anos. O livro é intitulado, se você pode acreditar num troço desses, “Dreams”.

Está merecendo levar uns tabefes ou não está? Não dá pra ver o pedovido direito aqui, mas dá pra se divertir bem:

Bem que a moda podia pegar por aqui. Faço minha parte lançando a campanha: dê um tapão em um artista mala. Você tem um bom candidato?

Não posso dar o exemplo, porque como eu expliquei, já tive pepinos demais. E estou meio coroa, arrisca eu apanhar.

Ou não conseguir fugir correndo na velocidade ideal depois de cometer meu covarde ataque surpresa.

Mas se eu trombar o Djavan na rua, arrisca eu não controlar meus instintos.

Publicado em 16/10/2009 às 13:10

Um herói: Lou Stathis

A tecnologia parece fazer de cada um de nós o centro das atenções. Meu blog tem X mil leitores, meu twitter Y seguidores, o que eu falei repercutiu, minhas fotos no Flickr todo mundo viu.

A tecnologia nos engana. A realidade é que cada um de nós é uma coisinha de nada, que qualquer vento leva - e levará. Em dez anos, quem lembrará do que você está fazendo hoje? Em cinquenta? Cem?

Por alguma razão estranha, lembrei hoje de Lou Stathis. Fiz uma busca com seu nome. Tem pouquíssima coisa. Ele morreu antes do estouro da internet, 1997.

Não tem uma foto de Lou na web. Pena, porque nunca vi a cara do meu herói. Encontrei esta ilustração dele, feita por Kyle Baker:

Tem uma ótima entrevista dele com David Lynch, na época de O Homem Elefante, aqui:

Lou é uma das minhas maiores influências como jornalista e editor. Seu texto era elétrico, coloquial, provocativo. E era ainda melhor como editor, onívoro, sem preconceitos mas apaixonado.

Descobri Lou editando o Dossier, a seção de artigos da revista em quadrinhos Heavy Metal, Piracicaba, 1980, na revistaria da praça da Catedral. Eu tinha catorze anos.

Depois de algumas edições, bateu uma luz. Foi a primeira vez que prestei atenção em um editor, na função do editor.

Percebi que tinha um cara que organizava os textos, as fotos, as ilustrações, escolhia o que saía, arrancava um sentido deste trabalho coletivo, desta voz múltipla. Me achei.

Eu não sabia na época que Lou começou colaborando na Punk Magazine, legendário fanzine novaiorquino criado por John Holmstrom e Legs O'Neill em 1975.

Nem que depois foi editor de livros de ficção científica e da bíblia dos maconheiros High Times (com Holmstrom), sem nunca deixar de escrever sobre música. E jornalista de rock. Quando a Heavy Metal ficou chata, Lou saiu.

Segui com esforço sua carreira posterior como editor da Reflex, uma revista sensacional que durou pouco (vinha com Flexi-Disc!), e como colaborador de outras publicações como Spin e Details.

Lou gostava de música esquisita, desconhecida, barulhenta, eletrônica - Swans, SPK, Residents. Mas se rendia fácil a um refrão bem docinho.

Olha este texto intraduzível dele para a Reflex, uma resenha dele sobre um disco do The Cure de 1992. Vou morrer sem fazer melhor:

Wish - The Cure

Yeah yeah, I know. Anyone who gives the remotest shit already knows there's a new Cure album (sucker popped onto the charts at No. 2 when it was released in late April), but we couldn't let it pass without some comment or another, alright? So here it is: It's fucking great, okay?

Not enough? Try this: Wish is the ninth (and first on the 90's) LP of new studio stuff from this sixteen year old band of limey sourpusses (13th overall), and it's just like the others, only different and better.

It's got some bouncy pop tunes to keep your little sister happy; some gloomy wrist-slashers for your little brother to blast in his dark, airless bedroom;

some challengingly rich and texturally evocative music for us pinched-sphinctered grownups; and enough general Cureness throughout to keep all us Imaginary Boy-hounds satisfied that we got our money's worth.

So if you hate these guys, fuck you and skip this one, too; if you like them, no doubt you already have a copy, so this is only to reaffirm your good taste. Can I stop now?

Este é o disco que tem Friday I'm In Love:

Seu emprego posterior foi, na época, um desapontamento para mim. Lou parou de escrever e foi ser editor da Vertigo, o selo alternativo da DC Comics.

Mas lá ele editou alguns dos principais quadrinhos dos anos 90: Preacher, Patrulha do Destino, Invisíveis, Hellblazer.

Deu a primeira chance ou um empurrão importante para muita gente boa: Garth Ennis, Grant Morrison, Paul Jenkins e mais uma lista longa.

De tudo que ele fez, é a única coisa que você pode comprar hoje no Brasil. Alguns tive o orgulho de publicar. Sua abordagem de jornalismo cultural é a minha:

“Vejo conexões entre todas as formas vitais de arte popular. Está tudo no mix. Criar barreiras entre, digamos, quadrinhos e música - ignorar o ruído que vem de qualquer parte do sistema - é contraproducente e simplesmente estúpido.

A maioria dos artistas e escritores que eu conheço ouvem música e se inspiram na música enquanto trabalham; a maioria dos músicos que eu conheço leem quadrinhos e são fascinados com as imagens.

Há um diálogo intenso conectando todos os cantos da cultura e da mídia, e para ouvi-lo tudo que você precisa fazer é parar de ouvir seletivamente.”

Lou Stathis morreu de tumor de cérebro aos 44 anos, minha idade hoje. Tudo que ele tinha no mundo foi vendido para liberar seu apartamento.

Ficou um caixote de recordações com a namorada. E ficou sua obra. Um monte de revistas que ninguém lembra mais, artigos que ninguém nunca lerá, uns gibis muito bons. E eu.

Publicado em 16/10/2009 às 10:00

Vamos nos encontrar ao vivo hoje?

Hoje, às 14h, estarei no Fest Comix. É o maior evento brasileiro de quadrinhos e inclui cultura pop em geral. Vou com os colegas Beatriz Sant'Ana e Leo Carvalho para falar da MOVIE, nossa nova revista de cinema.

Nossa mesmo, porque você pode participar tanto da revista como do site. A primeira edição, por exemplo, tem artigos de uma promotora de justiça, um publicitários, blogueiros diversos. Até jornalista tem!

Aproveito para avisar que a MOVIE nº 1 já está nas bancas, custa R$ 10,00, mas você pode pagar só R$ 5,00.

Basta entrar no site. Veja como aqui. Também aproveito para avisar que se você mora em São Paulo, comprando a MOVIE você arrisca ganhar um ingresso para o Cinemark, ou um pacote de pipocas quentinhas.

Veja a lista de bancas participantes aqui. E aproveitando que estou vendendo o peixe mesmo, segue aqui a capa da primeira edição da MOVIE! Se você é apaixonado por cinema, confira.

É baratinho e ainda demos um descontão! Aquele abraço e nos vemos no Fest Comix.

Publicado em 15/10/2009 às 13:44

O Vale-Cultura (e quanto a cultura vale)

Encontro defeito em qualquer coisa que qualquer governante faça. É cacoete, reflexo automático. Se o prefeito ajuda uma velhinha a atravessar a rua, já vejo segundas intenções. Sou do contra e não abro.zelaya jose cruz ABr O Vale Cultura (e quanto a cultura vale)

Mas como eu disse lá outro dia: com a idade, até estilingue profissional às vezes vê o charme de ser vidraça.

Pois então: com alguma vergonha, sou obrigado a reconhecer que esta semana estou com orgulho do Lula.

A primeira razão é a confusão lá em Honduras. O governo brasileiro foi muito criticado por isso e por aquilo.

Por deixar que o presidente deposto, Manuel Zelaya, transformasse a embaixada brasileira em quartel-general etc.

Por arriscar se queimar à toa. Por defender o Zelaya, que parece ser um sub-Hugo Chavez. E mais mil outras coisas. Nada disso importa.

O que importa é a defesa de um princípio fundamental: o maior país da América Latina, o Brasil, não vai permitir que haja mais golpe militar no continente.

Não importa se o presidente eleito é bom, ruim ou médio. Milico não vai mais ter vez e ponto final. Tolerância zero.

A postura do Brasil foi fundamental para que a comunidade internacional, a OEA e companhia fincassem o pé na defesa da democracia em Honduras.

Muito importante. Porque democracia é um sistema muito ruim, como dizia Winston Churchill, mas é menos pior que todos os outros que já experimentamos.

Agora, Churchill também dizia que o melhor argumento contra a democracia é uma conversa de cinco minutos com um eleitor médio. No Brasil, dois minutos bastariam.

O que me leva à segunda razão porque hoje, bato palmas para o governo. Uns meses atrás, Lula lançou o projeto do Vale-Cultura. Ontem, a Câmara aprovou. Falta o Senado. Que deve aprovar.

O projeto de Lei cria um Vale-Cultura no valor de R$ 50,00 mensais para quem recebe até cinco salários mínimos. Uns 14 milhões de trabalhadores serão beneficiados. O que você não gastar em um mês, acumula para o mês seguinte.

 lula vale cultura O Vale Cultura (e quanto a cultura vale)

Será um cartão magnético. É uma mistura de Bolsa Família com Vale Refeição. A grana terá que ser gasta necessariamente na compra de produtos ou eventos culturais - cinema, teatro, shows, livros, CDs, DVDs etc.

Tem lá vários detalhes que podem e devem ser debatidos e melhorados. Mas o princípio é excelente.

Vivemos no capitalismo e aqui a missão do dinheiro privado é se multiplicar. A missão do dinheiro público é beneficiar o público. Quase nada é tão benéfico quanto dinheiro no bolso.

Naturalmente, vai ter crítico descendo o malho. Esse povão burro, vai gastar tudo em CD do Victor & Leo, show de forró e livro do Augusto Cury.

Que seja. Qual o problema? Alguém vai me provar que o novo disco do Caetano Veloso é culturalmente mais importante do que o da banda Calypso?

Ou, em outras palavras: a função do produto cultural não é educar, engrandecer, iluminar. Se fizer tudo isso, ótimo, mas o valor do produto cultural está em entreter. E já não é pouca coisa.

É claro que o contato com a cultura areja o espírito e o pensamento. Fundamental, visto que os impérios do futuro são os impérios da mente - opa, tirei o dia para tirar a poeira do meu livro de citações de Churchill.

Eu acho muito melhor dar o dinheiro direto na mão do peão lá que esse monte de leis de incentivo que só incentivam a produção comercial direcionada à classe média alta. Que  tem dinheiro próprio para ver os shows ruins que quiser.

Na esfera da cultura, dinheiro público deve ir:

a) diretamente para sustentar a produção de arte mais impopular, herética, experimental e estapafúrdia 

b) para o bolso de quem mais precisa

Os números do Ministério da Cultura e do IBGE são assustadores. Li no jornal Metro de hoje:

- 86% dos brasileiros não vão ao cinema
- 1,8 é a média de livros lidos por ano
- 73% dos livros estão nas mãos de 16% da população
- 90% dos municípios do país não têm pelo menos um destes itens: cinema, teatro, museu ou espaços culturais multiuso.
 
Qualquer coisa que ajude a mudar isso tem meu apoio.

Essa grana é boa? É pouca. É um formigueiro perto do Everest de dinheiro que o Brasil joga no ralo em coisas que absolutamente não beneficiam os brasileiros.

Nos próximos anos vai piorar - é trem-bala, Copa, Olimpíada, submarino nuclear. Mas amanhã volto ao meu desprezo habitual por todas as iniciativas de políticos profissionais.

Hoje dou folga para meu ceticismo. Fiquei orgulhoso da postura do Brasil em Honduras. Fiquei feliz de viver em um país que terá o Vale-Cultura.

Publicado em 14/10/2009 às 12:30

Aprendendo a se portar como um adulto com David Letterman

David Letterman é o Jô Soares do planeta, com uma equipe de roteiristas inigualável, mais verve e mais bile. Seu programa de entrevistas é baluarte da noite americana desde 1982.

O mundo assiste, porque as risadas são garantidas, as celebridades de primeira, as cutucadas são malvadas e as atrações musicais frequentemente surpreendem.

Ele é o melhor no que faz. E quando você assiste David Letterman se sente em Nova York. Dá pra sentir o sabor do sanduba de pastrami e do cheesecake.

Dave está com a mesma mulher desde 1986. Tem um filho com ela, Harry, nascido em 2003. Mas David tem tido casos com outras mulheres enquanto isso. Pior: funcionárias de sua empresa.

Foi ameaçado por um chantagista: me pague dois milhões de dólares ou eu revelo o caso. Nada feito. Letterman revelou a tentativa de achaque em seu programa do dia primeiro de outubro.

Contou que estava trabalhando junto com o Ministério Público de Nova York para enganar e, no fim, capturar o chantagista. Deu certo.

Detalhe saboroso: o criminoso é um jornalista com trinta anos de profissão, Joe Halderman. Parece que uma estagiária da CBS o trocou por Letterman.

A Stephanie! Estagiária e frequentemente assistente de palco, alguns anos atrás, quando eu mais assistia o programa. Aqui está ela, em uma coreografia de “Do Ya Think I'm Sexy?”

Foi dor de corno de Halderman ou simples oportunidade que bateu à porta? Saberemos, inevitavelmente.

Como todo jornalista, Joe ficava sabendo de muita coisa no dia a dia que jamais poderia publicar. Vai ver resolveu faturar quando a chance pintou e o sangue esquentou.

Letterman revelou o caso fazendo piada. Se explicou ao vivo sem se humilhar. Seu monólogo abrindo a história é histórico. Isso é que é elegância sob pressão:

Ganhou apoio geral e irrestrito da mídia e da opinião pública, com resmungos de um ou outro foco mais moralista (feministas etc.).

A bala passou raspando, porque ele já fez muita piada com as infidelidades alheias - Monica Lewinsky rendeu anos.

A razão é que Letterman sempre sacaneou com as corneadas das celebridades, mas nunca posou de dono da verdade e guardião da moral. Foi sempre sarro, piada, provocação.

Quando foi ele o pego com a boca na botija, deu de ombros e mandou: sim, errei, peço desculpas, não vou dar dinheiro para vagabundo e a vida continua.

É a coisa mais rotineira do mundo diretor de banco namorar sua executiva, diretor de redação namorar funcionária, gerente de posto namorar a caixa, professor namorar aluna, empresário namorar a cantora, editor namorar a repórter etc.

Acho que o cacique também se dava bem com a cunhãzinha antes dos portugueses pintarem por aqui.

Namorar, aqui, abarca o completo espectro das relações emocionais-sexuais, e vai da grande paixão até a trepadinha mais casual possível na festa de fim de ano. Vira e mexe um ou os dois são casados.

Não estou aqui fazendo a defesa da infidelidade nem da fidelidade. O ponto é que este tipo de relacionamento é business as usual, sempre houve, sempre haverá.

É “sexual harassment”? É abuso de poder? Muitas vezes sim, desconfio que a maioria das vezes, não.

Quando o cara é rico e famoso, é mais comum ainda. Parece que as moças são atraídas por homens poderosos e endinheirados, e estes são atraídos por gatas que os admiram e satisfazem - surpresa!

E, naturalmente, pessoas ocupadas acabam se relacionando com colegas de trabalho. Quantos casais (e casos) não começaram assim?

O pouco usual foi como Letterman lidou com a história, e como a opinião pública global lidou com Letterman.

Na interminável contenda da honestidade com a hipocrisia - tensão que está no coração da América - Dave se portou como um adulto e nos inspirou a segui-lo.

Por essa não esperava. Aprendi mais uma com Dave - ao vivo, de Nova York.

Publicado em 13/10/2009 às 17:23

Eles também querem twittar

Nos últimos quatro meses, a quantidade de deputados federais que postam no Twitter aumentou 142 %, segundo levantamento da própria Câmara - BAIXE AQUI .

Com a reforma eleitoral aprovada pelo Legislativo liberando parcialmente a campanha na internet, todos eles querem tirar uma casquinha das ferramentas sociais.

O frenesi não é só na Câmara, é em toda a classe política. Todos eles querem twittar, agora.

Cada um faz do seu jeito: alguns pegam assessores pagos com dinheiro público pra responder ao que o povo pergunta, outros homenageiam datas comemorativas, outros tentam mostrar que são gente boa e ouvem Beatles de madrugada, ainda outros dão novos significados à palavra “irrevogável”.

Mas o que todos eles querem mesmo é tentar ganhar o seu voto em 2010.

Dr. Patricia Peck, advogada especialista em direito digital, contou as principais vantagens e desvantagens da reforma eleitoral.

- Com a lei, qual a maior vantagem para o eleitor?

Patricia Peck: Mais informação, transparência, interação e capacidade de mobilização. A internet deve ser usada sim nas eleições em respeito até mesmo ao novo perfil do eleitor, a atual realidade de sociedade digital. A internet é inevitável para que se possa manter eleições democráticas em uma sociedade da informação.

O texto diz que a web não pode "dar tratamento privilegiado" a candidato. Quem decide o que é tratamento privilegiado? Não seria uma situação subjetiva demais?

Patricia Peck: O princípio da equidade é difícil de aplicar nas eleições, no sentido de controle. A questão de tratamento privilegiado abrange muito mais situações em que por exemplo, um único candidato é favorecido, tem informações inseridas em um grande portal.

Como a mídia internet é mais barata e tem grande alcance, há um receio de se criar um “monopólio digital”, ou seja, que um candidato consiga “comprar a web” e só ele ser visto.

O que também é muito difícil de ocorrer, pela própria natureza do meio. A internet deve ser usada sim, com alguns parâmetros para evitar abusos, mas por certo, será muito difícil monitorar e  controlar.

As situações serão decididas no caso a caso, por denúncia, não há possibilidade de uma patrulha eleitoral digital. Por isso, nem se fala em em boca de urna digital ou do santinho digital.

- Charge eletrônica, nem pensar. Por que a proibição?

Patricia Peck: O ideal seria podermos usar a internet de forma irrestrita. No entanto, também estamos criando cultura de uso deste meio, para que seja saudável, adequado. Quer-se evitar situação de conteúdo vexatório, principalmente porque a internet não sai do ar.

Ou seja, não tem uma edição. O que é colocado na internet é muito difícil de limpar depois. Mesmo que o TRE considere que o conteúdo deva ser retirado do ar, depois de feito, disseminado, como atender a isso?

Mas fora a questão de se evitar um comportamento mais ofensivo e anônimo, não há motivos para a proibição de uso de "essa" ou "aquela" linguagem, formato, modalidade de expressão e conteúdo.

- Como fazer pra mudar uma situação em que o papel do eleitor se resume, geralmente, ao apertador de botão da urna?

Patricia Peck: Por certo cabe ao próprio eleitor, pois assim como no caso do consumidor, o poder está na ponta do dedo dele, é o poder do click mesmo.

Esperamos que a Internet inclusive possa revelar um novo candidato favorito, que não só os já conhecidos, aquele capaz de dialogar com o eleitor mais digital e usar todo o poder da interatividade, que não é pegar o filme da propaganda eleitoral e jogar na Internet.

- A proibição da propaganda pela internet é uma maneira de afastar o cidadão  da realidade?

Patricia Peck: Propaganda é diferente de ato de vontade. A existência de informações do candidato que o eleitor possa buscar na internet, por sua vontade, encontrar e usar não é propaganda.

O que se busca regular é principalmente a propaganda paga, que permite acirrar a disputa, e que em outras mídias tem algum tipo de regulamentação já, como ocorre com rádio, TV, jornal e revista.

Mas não se pode querer equiparar a internet a outra mídia, ela deve assumir um modelo próprio, um conceito próprio. Quanto menos restrição melhor, mas será que estamos preparados para a liberdade total na web?

Tanto pelo lado dos candidatos e partidos como pelo lado dos eleitores, filiados e simpatizantes deste ou daquele candidato. Novamente, a internet é em tempo real, depois de feito está feito, é muito difícil o “arrependimento digital”, a internet exige um comportamento muito mais diligente, um exercício de liberdade de expressão com responsabilidade.

- Com a internet, o cidadão descobriu que pode gritar pra todo mundo ouvir.  Existe um limite para o que se escreve na rede?

Patricia Peck: Manifestação do pensamento, liberdade de expressão é totalmente válida e legítima. Ofensa é outra coisa, inclusive, é crime. Por isso que o uso da internet irá por certo testar nossa educação e nosso amadurecimento democrático.

Crítica é positiva, mas tem que ser feita da forma certa, não pode ser covarde, anônima e preconceituosa. O limite é muito sutil.

- A internet é uma oportunidade sem precedentes para o cidadão fiscalizar a política?

Patricia Peck: Sim, com toda certeza. Acredito que a internet vai ajudar o brasileiro a não ter “memória curta”, porque o que for falado do candidato fica, permanece, mesmo depois das eleições, as promessas também, nos ambientes eletrônicos fica tudo documentado, por escrito, e não sai do ar assim que as eleições encerrarem.

Publicado em 12/10/2009 às 14:30

Eu não sou Nerd

Quando eu era adolescente não tinham inventado essa parada de “nerd”.

Eu com quinze anos bebia, fumava, namorava, ouvia rock, tinha amigos maconheiros, arriscava umas reuniões de movimento estudantil, fabricava lança-perfume para vender em festinhas do colégio etc.

Com 17, tudo isso e ainda era presidente do centro cívico. Mais normal não dá.

Só que não achava que ser tudo isso aí e ler, digamos, Denny O’Neil, Isaac Asimov, Jorge Luis Borges e Dante Alighieri fossem coisas excludentes.

Em 1982 minha luz-guia era a “Heavy Metal”, revista americana de quadrinhos que considerava HQ, rock, filmes underground, drogas, alta e baixa literaturas, design e videogames tudo parte do mesmo balaio, um balaio muito cool chamado “cultura que importa”. Estou nessa desde aquela época e não saí.

Nunca tive o menor complexo de inferioridade por gostar do que gosto ou não ter lido isso ou aquilo. Continuo não tendo. Fui assistir o Star Trek, sozinho, na sessão das seis da tarde do primeiro dia.

Na saída, centenas de trekkers uniformizados aguardavam a sessão das oito. Eu vi o novo Jornada antes dos caras da Frota Estelar… e desde 1982 esperava para ver o teste do Kobayashi Maru.

Quer me chamar de nerd? Fique à vontade.

Fiz minha parte para popularizar o termo. A capa da revista “General” nº 3, em 1994, era uma pauta intitulada “A vitória dos nerds”, e entrevistei para ela o Thunderbird , então recém transferido para a Globo.

Fui criador e editor da revista Herói séculos. A Herói era uma revista para fãs. O site Heroi.com.br é para fãs - mais para fãs do que tem sido nos últimos anos.

Me arrependo um pouco. A palavra Nerd hoje quer dizer essa coisa boba de “sou um gordinho espinhento, antisocial e rancoroso porque não consigo namorada, mas como sei tudo sobre Marvel / Tatsunoko / filmes de Kung Fu /Lost /etc., sou superior a estes plebeus populares.”

É estereótipo, mas muita gente se acomodou nele.

A versão geninho da informática “não transo mas programo em Gopher” também me cheira a dor de cotovelo (aliás, também me arrependo um tanto de ter feito tanta propaganda de Hunter Thompson.

hunter thompson Eu não sou Nerd

Agora, qualquer molenga que não sai de frente do computador é “gonzo”).

Eu sei um trilhão de coisas sobre quadrinhos e cinema e outras várias coisas que não fazem automaticamente parte do “universo nerd”.

Mas sou crítico, o que para mim é a única diferença que importa. Esse negócio de gostar das coisas de maneira babona, acrítica, cega me enoja.

É perfeitamente possível gostar de alguns filmes de Star Trek e outros não; ou de Tarkovski; ou de Chabrol; ou gibis do Batman; ou livros do Philip Roth; ou qualquer coisa.

Me irrita trombar jovens que acham que a vida se resume a ler gibi, jogar MMORPG, assistir desenho animado japonês etc. Tem muito mais coisa interessante por aí.

Assistir 200 episódios de seriados por mês, quando você podia estar assistindo um filme do Mario Monicelli, é coisa de retardado mental e emocional. Paixão, sim. Visão estreita, não, por favor.

Vou mais longe: quem só lê gibi não entende o que está lendo. Porque os caras que escrevem gibi leem outras coisas, e os caras que desenham são interessados em arte em geral, não só em quadrinhos. Se você tem um repertório mais variado, vai fruir de uma maneira muito mais profunda seu artefato pop predileto.

O exemplo mais na cara é A Liga dos Cavaleiros Extraordinários, de - sempre ele - Alan Moore. Cada página faz alusão a algum universo ficcional, a maioria literários. Se você não pesca as referências, a Liga perde 90% da graça.

Vale para gibi e para quase tudo na vida. Quem nunca tomou uma margarita não sabe que gosto tem um burrito.

E se você se sente meio incomodado ou atacado quando lê essas linhas, saiba que te falo isso de coração porque me importo.

Quero o seu bem. Você é um dos meus. Te admiro porque já trabalhei com gente que parecia o mais fechado, acrítico e recalcado nerd por fora; e por dentro era de ouro.

E porque já trabalhei com gente que tinha desprezo por nerds e fãs e todo mundo que tem paixão infantil e teen e pura no coração. Gente que achava que a única coisa a fazer com essa nerdaiada era tirar o máximo de dinheiro dos trouxas. Assim tratava a quase todos com quem convivia, e assim tratava a mim. Aturei mais que devia. Não ature.

Quando eu achava que valia defender a palavra Nerd, costumava explicar para os incautos que nerd é um cara que gasta mais dinheiro e mais tempo que a média com coisas em que as massas normalmente não gastam dinheiro nem tempo.

Por exemplo, é de se esperar que um homem de 20 anos de idade gaste muito tempo e dinheiro com, digamos, carro e futebol, e saiba tudo sobre carburadores e escalações.

Mas, se ele tiver a mesma atitude com trilha sonora de filme pornô ou gibis brasileiros de terror dos anos 50, vira instantaneamente nerd. Entendeu?

Essa definição é justa e me inclui. Mas transforma em nerd qualquer um que tem uma relação apaixonada e informada com suas obsessões. É uma maneira de incluir, por exemplo, a tara de um amigo meu por comédias italianas.

Essa explicação do conceito era uma atitude meio defensiva da minha parte. Retiro. Não é boa o suficiente. Embora eu continue achando muito melhor gastar tempo aprendendo sânscrito e dinheiro em collectible toys da Kotobukiya que seguindo bestamente a lavagem cerebral da mídia de massa.

A única coisa a fazer é rejeitar o epíteto de nerd e pronto. Não vamos mais conseguir resgatar o conceito do significado que ele ganhou. E de fato o mundo não se divide entre nerds e normais, ou geeks e populares.

O mundo se divide - para efeito deste texto, pelo menos - entre gente interessante e desinteressante. Para mim, saber quem é Jim Steranko, Carl Stalling, Ken Adam ou Flávio Colin - de uma lista interminável - faz uma pessoa ser instantaneamente digna de atenção.

Se você leu esse texto até aqui, já merece a minha.

Agora: se a figura conseguir conectar Conan com Alice no País das Maravilhas via pintores pré-rafaelitas e socialismo fabiano, estamos falando de uma pessoa interessante. Que não lê só gibi. Mas lê gibi.

Eu leio. Você não? Que dó.

E leio livros também, e vou a museu, e ouço música que não toca no rádio e ouço música que toca no rádio também. Eu não como só feijoada, nem só sashimi. O homem é um animal onívoro.

Variedade é o tempero da vida.

Publicado em 11/10/2009 às 15:00

Faith No More II – Trocando figurinhas

 mike patton Faith No More II   Trocando figurinhas

Obrigado a todos os amigos que enviaram o texto. Valeu mesmo!

Gente Fina

A tarde em que Mike Patton trocou figurinhas com Max Cavalera, conheceu o rock brasileiro, escapou de dar entrevista – e se revelou um cara absolutamente normal.

O quarto é uma puta zona: meias e moletons se espalham pelo chão, a cama desarrumada está atulhada de discos e CDs, as paredes são cobertas de dezenas de fotos e pôsteres de tudo que é banda de metal, de Black Sabbath a – principalmente – Sepultura.

Natural. O dono do quarto é Max Cavalera, cantor e guitarrista do quarteto mineiro que inverteu a lógica paul-simoniana do mercado fonográfico mundial ao exportar thrash metal para o primeiro mundo.

Há menos de uma semana em São Paulo, depois de uma vitoriosa turnê europeia, Max tem hoje em seus bagunçados aposentos um convidado especialíssimo: Mike Patton, do Faith No More.

No dia do último show do FNM no Brasil, Mike passou a tarde no quartel-general dos Cavalera, no bairro de Santa Cecília, ouvindo as novidades que Max acabara de trazer de viagem (Pearl Jam, Primus etc.) e descobrindo as maravilhas do passado punk paulistano.

“This is cool”, diz Mike de uma antiguidade do Olho Seco. Max mostra a capa do LP Screw You, do DeFalla. Mike gargalha: “This is waaaay cool!”

E nós – nós sendo eu, Carlos Eduardo Miranda e o fotógrafo Rui Mendes –, que catzo estamos fazendo em meio a este amigável encontro de titãs?

Nada, porque já desisti de entrevistar Mike. Pô, é a última tarde livre do cara no Brasil. A última coisa que ele quer é dar entrevista.

E, pensando bem, não tenho muito o que perguntar, apesar de ter sido um dos primeiros a encher a bola do Faith No More neste país. Afinal, entre MTV, jornais e revistas, todo mundo já perguntou tudo para Patton.

Se ele gosta da mulher brasileira, o que ele acha de macumba, da Rosane Collor, seus filmes/grupos/tênis/políticos prediletos etc. etc. Foi uma over total.

Melhor relaxar e entrar no clima carnaval da banda. O soundcheck até que rendeu umas abobrinhas – já na viagem, no ônibus da banda, engatei um papo com o Roddy sobre o Kraftwerk. Mostrei o Entrevistão de setembro e tal.

No Olympia, vi os caras escaparem das minas que cercavam a entrada; almoçarem o rango da peãozada da MTV, que ia gravar o show (frango, arroz, feijão, salada e Coca-Cola; Big Jim Martin arrotava sem parar); e fazerem uma passagem de som bacaninha, com Zombie Eaters, We Care A Lot e uma música nova.

Era um punk-progressivo (existe?) que eles tocaram nos shows e ainda estavam meio que compondo (“e se a gente fizer um break aqui?” etc. Deu pra sacar que o Roddy manda mais do que parece).

Num intervalo da passagem do som apareceu uma vozinha, sussurrando “Varig flight 510 to São Paulo and Recife, now boarding... gate 8”.

Opa, os caras samplearam um aeroporto? Não, Mike Patton é que é um imitador bom pra cacete.

O cara é bem legal também. Molecão, boa praça, nem um pouco impressionado com seu status sexual entre as ninfetinhas brazucas. Só quer se divertir, só quer good clean fun.

E é porque o cara é legal que eu desisto definitivamente de tentar estragar o último dia livre dele. Melhor deixar o papo rolar sem gravadores nem blocos.

Só peço duas coisas: que ele tire uma foto com o Max, e que diga como está a produção do novo disco do FNM – provavelmente a única coisa que ninguém perguntou ao vocalista.

“Você sabe tanto quanto eu, cara. Já compusemos umas dez canções, e cada uma aponta para um lado. O que vai entrar no disco não sei.”

Você disse numa entrevista para a Bizz que estava mais para Commodores que Black Sabbath.

“Gosto dos dois. Todo mundo na banda gosta de umas coisas meio estranhas, a não ser o Jim Martin, que só ouve som pesado. Nas músicas novas estamos radicalizando pelo dois lados: é ao mesmo tempo muito mais trash e muito mais macio, easy listening, que The Real Thing. Mas ainda é cedo pra dizer que cara o álbum vai ter.”

O disco já tem nome?

“Ainda não.”

Ontem, no soundcheck, vocês tocaram uma música nova. Tinha um riff, metal bem tradicional e um tecladão meio Rush, sobre uma batida punk forte.

“É, ainda não tem nome nem letra, estou escrevendo ainda. Mas você viu, não vamos mudar do dia para a noite, nem nada assim. É só o Faith No More.” 

E é mais que o suficiente. Libero o cara e vamos todos para a sala fazer as fotos. O fotógrafo faz milagres com a pouca luz e tempo disponíveis, e pronto. Segue-se uma discussão sobre as diferenças entre a censura americana e a brasileira.

Mike teorizou: “Aqui dão muita importância para o que se diz, por isso é que censuram. Lá nos EUA ninguém encana com o que você fala, porque sabem que não faz muita diferença”.

Eles, no caso, são aqueles de sempre – o governo, o sistema, quem "manda no boteco". Eles, pô. “Mas na prática você tem de enfrentar a censura comercial, lojas que não vendem o seu disco se não concordam com o que você diz.

E os meios de comunicação são muito bundões, qualquer grupinho pressiona e eles já cedem.

O resto é conversa mole. Max entra num papo com Miranda (produtor do Screw You de que ele tanto gostou), ouve Titãs, Grito Suburbano, Ratos De Porão. Vemos um vídeo do Ice-T que Max acaba de trazer de viagem.

Discutimos onde comprar uma zarabatana no centro de São Paulo. Rola Mucky Pup na MTV, risadas, uma defesa do jornal paulistano Notícias Populares sobre o carioca O Povo e muito guaraná.

Garanto que misturar guaraná em pó com Coca-Cola é pega garantido. Mike, viciado em Coke, vibra com a ideia.

Já está chegando a hora de ir – a moçada BIZZ para casa, Max e Mike vão comprar discos na Baratos Afins. Descemos o elevador, demos tchaus.

Mike agradece por não termos forçado a barra e tentado fazer a entrevista. No problem. O prazer foi todo meu.

Na rua, é cinco e meia. Uma chuvinha fina e pentelha embaça o trânsito. Vamos para um lado caçar um táxi, Max e Mike vão para o outro.

Essa era a foto: Max Cavalera e Mike Patton no centro de São Paulo, encolhidos na chuva, a caminho do metrô.

Ambos estão subindo como ônibus espaciais na cena pop mundial mas continuam despretensiosos, desencanados. Dois caras normais – aleluia.

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