Publicado em 13/10/2009 às 17:23

Eles também querem twittar

Nos últimos quatro meses, a quantidade de deputados federais que postam no Twitter aumentou 142 %, segundo levantamento da própria Câmara - BAIXE AQUI .

Com a reforma eleitoral aprovada pelo Legislativo liberando parcialmente a campanha na internet, todos eles querem tirar uma casquinha das ferramentas sociais.

O frenesi não é só na Câmara, é em toda a classe política. Todos eles querem twittar, agora.

Cada um faz do seu jeito: alguns pegam assessores pagos com dinheiro público pra responder ao que o povo pergunta, outros homenageiam datas comemorativas, outros tentam mostrar que são gente boa e ouvem Beatles de madrugada, ainda outros dão novos significados à palavra “irrevogável”.

Mas o que todos eles querem mesmo é tentar ganhar o seu voto em 2010.

Dr. Patricia Peck, advogada especialista em direito digital, contou as principais vantagens e desvantagens da reforma eleitoral.

- Com a lei, qual a maior vantagem para o eleitor?

Patricia Peck: Mais informação, transparência, interação e capacidade de mobilização. A internet deve ser usada sim nas eleições em respeito até mesmo ao novo perfil do eleitor, a atual realidade de sociedade digital. A internet é inevitável para que se possa manter eleições democráticas em uma sociedade da informação.

O texto diz que a web não pode "dar tratamento privilegiado" a candidato. Quem decide o que é tratamento privilegiado? Não seria uma situação subjetiva demais?

Patricia Peck: O princípio da equidade é difícil de aplicar nas eleições, no sentido de controle. A questão de tratamento privilegiado abrange muito mais situações em que por exemplo, um único candidato é favorecido, tem informações inseridas em um grande portal.

Como a mídia internet é mais barata e tem grande alcance, há um receio de se criar um “monopólio digital”, ou seja, que um candidato consiga “comprar a web” e só ele ser visto.

O que também é muito difícil de ocorrer, pela própria natureza do meio. A internet deve ser usada sim, com alguns parâmetros para evitar abusos, mas por certo, será muito difícil monitorar e  controlar.

As situações serão decididas no caso a caso, por denúncia, não há possibilidade de uma patrulha eleitoral digital. Por isso, nem se fala em em boca de urna digital ou do santinho digital.

- Charge eletrônica, nem pensar. Por que a proibição?

Patricia Peck: O ideal seria podermos usar a internet de forma irrestrita. No entanto, também estamos criando cultura de uso deste meio, para que seja saudável, adequado. Quer-se evitar situação de conteúdo vexatório, principalmente porque a internet não sai do ar.

Ou seja, não tem uma edição. O que é colocado na internet é muito difícil de limpar depois. Mesmo que o TRE considere que o conteúdo deva ser retirado do ar, depois de feito, disseminado, como atender a isso?

Mas fora a questão de se evitar um comportamento mais ofensivo e anônimo, não há motivos para a proibição de uso de "essa" ou "aquela" linguagem, formato, modalidade de expressão e conteúdo.

- Como fazer pra mudar uma situação em que o papel do eleitor se resume, geralmente, ao apertador de botão da urna?

Patricia Peck: Por certo cabe ao próprio eleitor, pois assim como no caso do consumidor, o poder está na ponta do dedo dele, é o poder do click mesmo.

Esperamos que a Internet inclusive possa revelar um novo candidato favorito, que não só os já conhecidos, aquele capaz de dialogar com o eleitor mais digital e usar todo o poder da interatividade, que não é pegar o filme da propaganda eleitoral e jogar na Internet.

- A proibição da propaganda pela internet é uma maneira de afastar o cidadão  da realidade?

Patricia Peck: Propaganda é diferente de ato de vontade. A existência de informações do candidato que o eleitor possa buscar na internet, por sua vontade, encontrar e usar não é propaganda.

O que se busca regular é principalmente a propaganda paga, que permite acirrar a disputa, e que em outras mídias tem algum tipo de regulamentação já, como ocorre com rádio, TV, jornal e revista.

Mas não se pode querer equiparar a internet a outra mídia, ela deve assumir um modelo próprio, um conceito próprio. Quanto menos restrição melhor, mas será que estamos preparados para a liberdade total na web?

Tanto pelo lado dos candidatos e partidos como pelo lado dos eleitores, filiados e simpatizantes deste ou daquele candidato. Novamente, a internet é em tempo real, depois de feito está feito, é muito difícil o “arrependimento digital”, a internet exige um comportamento muito mais diligente, um exercício de liberdade de expressão com responsabilidade.

- Com a internet, o cidadão descobriu que pode gritar pra todo mundo ouvir.  Existe um limite para o que se escreve na rede?

Patricia Peck: Manifestação do pensamento, liberdade de expressão é totalmente válida e legítima. Ofensa é outra coisa, inclusive, é crime. Por isso que o uso da internet irá por certo testar nossa educação e nosso amadurecimento democrático.

Crítica é positiva, mas tem que ser feita da forma certa, não pode ser covarde, anônima e preconceituosa. O limite é muito sutil.

- A internet é uma oportunidade sem precedentes para o cidadão fiscalizar a política?

Patricia Peck: Sim, com toda certeza. Acredito que a internet vai ajudar o brasileiro a não ter “memória curta”, porque o que for falado do candidato fica, permanece, mesmo depois das eleições, as promessas também, nos ambientes eletrônicos fica tudo documentado, por escrito, e não sai do ar assim que as eleições encerrarem.

Publicado em 12/10/2009 às 14:30

Eu não sou Nerd

Quando eu era adolescente não tinham inventado essa parada de “nerd”.

Eu com quinze anos bebia, fumava, namorava, ouvia rock, tinha amigos maconheiros, arriscava umas reuniões de movimento estudantil, fabricava lança-perfume para vender em festinhas do colégio etc.

Com 17, tudo isso e ainda era presidente do centro cívico. Mais normal não dá.

Só que não achava que ser tudo isso aí e ler, digamos, Denny O’Neil, Isaac Asimov, Jorge Luis Borges e Dante Alighieri fossem coisas excludentes.

Em 1982 minha luz-guia era a “Heavy Metal”, revista americana de quadrinhos que considerava HQ, rock, filmes underground, drogas, alta e baixa literaturas, design e videogames tudo parte do mesmo balaio, um balaio muito cool chamado “cultura que importa”. Estou nessa desde aquela época e não saí.

Nunca tive o menor complexo de inferioridade por gostar do que gosto ou não ter lido isso ou aquilo. Continuo não tendo. Fui assistir o Star Trek, sozinho, na sessão das seis da tarde do primeiro dia.

Na saída, centenas de trekkers uniformizados aguardavam a sessão das oito. Eu vi o novo Jornada antes dos caras da Frota Estelar… e desde 1982 esperava para ver o teste do Kobayashi Maru.

Quer me chamar de nerd? Fique à vontade.

Fiz minha parte para popularizar o termo. A capa da revista “General” nº 3, em 1994, era uma pauta intitulada “A vitória dos nerds”, e entrevistei para ela o Thunderbird , então recém transferido para a Globo.

Fui criador e editor da revista Herói séculos. A Herói era uma revista para fãs. O site Heroi.com.br é para fãs - mais para fãs do que tem sido nos últimos anos.

Me arrependo um pouco. A palavra Nerd hoje quer dizer essa coisa boba de “sou um gordinho espinhento, antisocial e rancoroso porque não consigo namorada, mas como sei tudo sobre Marvel / Tatsunoko / filmes de Kung Fu /Lost /etc., sou superior a estes plebeus populares.”

É estereótipo, mas muita gente se acomodou nele.

A versão geninho da informática “não transo mas programo em Gopher” também me cheira a dor de cotovelo (aliás, também me arrependo um tanto de ter feito tanta propaganda de Hunter Thompson.

hunter thompson Eu não sou Nerd

Agora, qualquer molenga que não sai de frente do computador é “gonzo”).

Eu sei um trilhão de coisas sobre quadrinhos e cinema e outras várias coisas que não fazem automaticamente parte do “universo nerd”.

Mas sou crítico, o que para mim é a única diferença que importa. Esse negócio de gostar das coisas de maneira babona, acrítica, cega me enoja.

É perfeitamente possível gostar de alguns filmes de Star Trek e outros não; ou de Tarkovski; ou de Chabrol; ou gibis do Batman; ou livros do Philip Roth; ou qualquer coisa.

Me irrita trombar jovens que acham que a vida se resume a ler gibi, jogar MMORPG, assistir desenho animado japonês etc. Tem muito mais coisa interessante por aí.

Assistir 200 episódios de seriados por mês, quando você podia estar assistindo um filme do Mario Monicelli, é coisa de retardado mental e emocional. Paixão, sim. Visão estreita, não, por favor.

Vou mais longe: quem só lê gibi não entende o que está lendo. Porque os caras que escrevem gibi leem outras coisas, e os caras que desenham são interessados em arte em geral, não só em quadrinhos. Se você tem um repertório mais variado, vai fruir de uma maneira muito mais profunda seu artefato pop predileto.

O exemplo mais na cara é A Liga dos Cavaleiros Extraordinários, de - sempre ele - Alan Moore. Cada página faz alusão a algum universo ficcional, a maioria literários. Se você não pesca as referências, a Liga perde 90% da graça.

Vale para gibi e para quase tudo na vida. Quem nunca tomou uma margarita não sabe que gosto tem um burrito.

E se você se sente meio incomodado ou atacado quando lê essas linhas, saiba que te falo isso de coração porque me importo.

Quero o seu bem. Você é um dos meus. Te admiro porque já trabalhei com gente que parecia o mais fechado, acrítico e recalcado nerd por fora; e por dentro era de ouro.

E porque já trabalhei com gente que tinha desprezo por nerds e fãs e todo mundo que tem paixão infantil e teen e pura no coração. Gente que achava que a única coisa a fazer com essa nerdaiada era tirar o máximo de dinheiro dos trouxas. Assim tratava a quase todos com quem convivia, e assim tratava a mim. Aturei mais que devia. Não ature.

Quando eu achava que valia defender a palavra Nerd, costumava explicar para os incautos que nerd é um cara que gasta mais dinheiro e mais tempo que a média com coisas em que as massas normalmente não gastam dinheiro nem tempo.

Por exemplo, é de se esperar que um homem de 20 anos de idade gaste muito tempo e dinheiro com, digamos, carro e futebol, e saiba tudo sobre carburadores e escalações.

Mas, se ele tiver a mesma atitude com trilha sonora de filme pornô ou gibis brasileiros de terror dos anos 50, vira instantaneamente nerd. Entendeu?

Essa definição é justa e me inclui. Mas transforma em nerd qualquer um que tem uma relação apaixonada e informada com suas obsessões. É uma maneira de incluir, por exemplo, a tara de um amigo meu por comédias italianas.

Essa explicação do conceito era uma atitude meio defensiva da minha parte. Retiro. Não é boa o suficiente. Embora eu continue achando muito melhor gastar tempo aprendendo sânscrito e dinheiro em collectible toys da Kotobukiya que seguindo bestamente a lavagem cerebral da mídia de massa.

A única coisa a fazer é rejeitar o epíteto de nerd e pronto. Não vamos mais conseguir resgatar o conceito do significado que ele ganhou. E de fato o mundo não se divide entre nerds e normais, ou geeks e populares.

O mundo se divide - para efeito deste texto, pelo menos - entre gente interessante e desinteressante. Para mim, saber quem é Jim Steranko, Carl Stalling, Ken Adam ou Flávio Colin - de uma lista interminável - faz uma pessoa ser instantaneamente digna de atenção.

Se você leu esse texto até aqui, já merece a minha.

Agora: se a figura conseguir conectar Conan com Alice no País das Maravilhas via pintores pré-rafaelitas e socialismo fabiano, estamos falando de uma pessoa interessante. Que não lê só gibi. Mas lê gibi.

Eu leio. Você não? Que dó.

E leio livros também, e vou a museu, e ouço música que não toca no rádio e ouço música que toca no rádio também. Eu não como só feijoada, nem só sashimi. O homem é um animal onívoro.

Variedade é o tempero da vida.

Publicado em 11/10/2009 às 15:00

Faith No More II – Trocando figurinhas

 mike patton Faith No More II   Trocando figurinhas

Obrigado a todos os amigos que enviaram o texto. Valeu mesmo!

Gente Fina

A tarde em que Mike Patton trocou figurinhas com Max Cavalera, conheceu o rock brasileiro, escapou de dar entrevista – e se revelou um cara absolutamente normal.

O quarto é uma puta zona: meias e moletons se espalham pelo chão, a cama desarrumada está atulhada de discos e CDs, as paredes são cobertas de dezenas de fotos e pôsteres de tudo que é banda de metal, de Black Sabbath a – principalmente – Sepultura.

Natural. O dono do quarto é Max Cavalera, cantor e guitarrista do quarteto mineiro que inverteu a lógica paul-simoniana do mercado fonográfico mundial ao exportar thrash metal para o primeiro mundo.

Há menos de uma semana em São Paulo, depois de uma vitoriosa turnê europeia, Max tem hoje em seus bagunçados aposentos um convidado especialíssimo: Mike Patton, do Faith No More.

No dia do último show do FNM no Brasil, Mike passou a tarde no quartel-general dos Cavalera, no bairro de Santa Cecília, ouvindo as novidades que Max acabara de trazer de viagem (Pearl Jam, Primus etc.) e descobrindo as maravilhas do passado punk paulistano.

“This is cool”, diz Mike de uma antiguidade do Olho Seco. Max mostra a capa do LP Screw You, do DeFalla. Mike gargalha: “This is waaaay cool!”

E nós – nós sendo eu, Carlos Eduardo Miranda e o fotógrafo Rui Mendes –, que catzo estamos fazendo em meio a este amigável encontro de titãs?

Nada, porque já desisti de entrevistar Mike. Pô, é a última tarde livre do cara no Brasil. A última coisa que ele quer é dar entrevista.

E, pensando bem, não tenho muito o que perguntar, apesar de ter sido um dos primeiros a encher a bola do Faith No More neste país. Afinal, entre MTV, jornais e revistas, todo mundo já perguntou tudo para Patton.

Se ele gosta da mulher brasileira, o que ele acha de macumba, da Rosane Collor, seus filmes/grupos/tênis/políticos prediletos etc. etc. Foi uma over total.

Melhor relaxar e entrar no clima carnaval da banda. O soundcheck até que rendeu umas abobrinhas – já na viagem, no ônibus da banda, engatei um papo com o Roddy sobre o Kraftwerk. Mostrei o Entrevistão de setembro e tal.

No Olympia, vi os caras escaparem das minas que cercavam a entrada; almoçarem o rango da peãozada da MTV, que ia gravar o show (frango, arroz, feijão, salada e Coca-Cola; Big Jim Martin arrotava sem parar); e fazerem uma passagem de som bacaninha, com Zombie Eaters, We Care A Lot e uma música nova.

Era um punk-progressivo (existe?) que eles tocaram nos shows e ainda estavam meio que compondo (“e se a gente fizer um break aqui?” etc. Deu pra sacar que o Roddy manda mais do que parece).

Num intervalo da passagem do som apareceu uma vozinha, sussurrando “Varig flight 510 to São Paulo and Recife, now boarding... gate 8”.

Opa, os caras samplearam um aeroporto? Não, Mike Patton é que é um imitador bom pra cacete.

O cara é bem legal também. Molecão, boa praça, nem um pouco impressionado com seu status sexual entre as ninfetinhas brazucas. Só quer se divertir, só quer good clean fun.

E é porque o cara é legal que eu desisto definitivamente de tentar estragar o último dia livre dele. Melhor deixar o papo rolar sem gravadores nem blocos.

Só peço duas coisas: que ele tire uma foto com o Max, e que diga como está a produção do novo disco do FNM – provavelmente a única coisa que ninguém perguntou ao vocalista.

“Você sabe tanto quanto eu, cara. Já compusemos umas dez canções, e cada uma aponta para um lado. O que vai entrar no disco não sei.”

Você disse numa entrevista para a Bizz que estava mais para Commodores que Black Sabbath.

“Gosto dos dois. Todo mundo na banda gosta de umas coisas meio estranhas, a não ser o Jim Martin, que só ouve som pesado. Nas músicas novas estamos radicalizando pelo dois lados: é ao mesmo tempo muito mais trash e muito mais macio, easy listening, que The Real Thing. Mas ainda é cedo pra dizer que cara o álbum vai ter.”

O disco já tem nome?

“Ainda não.”

Ontem, no soundcheck, vocês tocaram uma música nova. Tinha um riff, metal bem tradicional e um tecladão meio Rush, sobre uma batida punk forte.

“É, ainda não tem nome nem letra, estou escrevendo ainda. Mas você viu, não vamos mudar do dia para a noite, nem nada assim. É só o Faith No More.” 

E é mais que o suficiente. Libero o cara e vamos todos para a sala fazer as fotos. O fotógrafo faz milagres com a pouca luz e tempo disponíveis, e pronto. Segue-se uma discussão sobre as diferenças entre a censura americana e a brasileira.

Mike teorizou: “Aqui dão muita importância para o que se diz, por isso é que censuram. Lá nos EUA ninguém encana com o que você fala, porque sabem que não faz muita diferença”.

Eles, no caso, são aqueles de sempre – o governo, o sistema, quem "manda no boteco". Eles, pô. “Mas na prática você tem de enfrentar a censura comercial, lojas que não vendem o seu disco se não concordam com o que você diz.

E os meios de comunicação são muito bundões, qualquer grupinho pressiona e eles já cedem.

O resto é conversa mole. Max entra num papo com Miranda (produtor do Screw You de que ele tanto gostou), ouve Titãs, Grito Suburbano, Ratos De Porão. Vemos um vídeo do Ice-T que Max acaba de trazer de viagem.

Discutimos onde comprar uma zarabatana no centro de São Paulo. Rola Mucky Pup na MTV, risadas, uma defesa do jornal paulistano Notícias Populares sobre o carioca O Povo e muito guaraná.

Garanto que misturar guaraná em pó com Coca-Cola é pega garantido. Mike, viciado em Coke, vibra com a ideia.

Já está chegando a hora de ir – a moçada BIZZ para casa, Max e Mike vão comprar discos na Baratos Afins. Descemos o elevador, demos tchaus.

Mike agradece por não termos forçado a barra e tentado fazer a entrevista. No problem. O prazer foi todo meu.

Na rua, é cinco e meia. Uma chuvinha fina e pentelha embaça o trânsito. Vamos para um lado caçar um táxi, Max e Mike vão para o outro.

Essa era a foto: Max Cavalera e Mike Patton no centro de São Paulo, encolhidos na chuva, a caminho do metrô.

Ambos estão subindo como ônibus espaciais na cena pop mundial mas continuam despretensiosos, desencanados. Dois caras normais – aleluia.

Publicado em 10/10/2009 às 15:09

Como fazer uma revolução completa na educação brasileira…

... em um piscar de olhos

O orçamento do Trem-Bala São Paulo - Rio, R$ 34,6 bilhões. Para preparar o Brasil para a Copa de 2014, estão previstos R$ 11 bilhões. Para o Rio sediar as Olimpíadas de 2016, o Brasil ofereceu R$ 25,9 bilhões.

Para construirmos submarinos nucleares em “parceria” com a França, estão previstos R$ 20 bilhões. Para comprar 36 aviões da França, outros R$ 4 bilhões. O Banco do Brasil pagou R$ 4,2 bilhões por metade do Banco Votorantim.

E de janeiro a agosto de 2009, o BNDES - Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social - emprestou R$ 84,2 bilhões.

É dinheiro público. Emprestado em sua maioria esmagadora para empresas enormes, em condições muitíssimo favoráveis.

O orçamento total do Ministério da Educação e Cultura é de R$ 41,6 bilhões.

Tudo na vida é questão de prioridade.

Publicado em 09/10/2009 às 11:28

Como enfrentar a adolescência vendo filmes

Neste papo todo sobre educação, veio à baila o livro O Clube do Filme.

Ele tem uma premissa irresistível para cinéfilos. Pai crítico de cinema, canadense, aceita que filho de quinze anos largue a escola, contanto que os dois assistam três filmes juntos por semana e conversem sobre eles.

Li em um dia de folga. É besta, na linha “como ser tão sensível e moderno a ponto de não educar o seu filho”, e os draminhas existenciais da dupla são vomitório puro.

Algumas anedotinhas memoráveis na linha jogo de trivia não compensam as horas e a grana. Premissas, como intenções e ideias, são 10 reais a dúzia. Execução é tudo na vida.

Agora, existem maneiras melhores de educar seu filho fora da escola. Não, necessariamente, abandonando a escola. Minha valentia não chega a tanto. E uma parte importante desta educação paralela envolve, sim, filmes. 

up 253 1024x573 Como enfrentar a adolescência vendo filmes

Up - Altas Aventuras

Eu vejo filmes com meu filho. Vejo desenhos também. Fomos assistir Up - Altas Aventuras neste domingo.

Quando ele tinha quatro anos e meio levei para assistir Homem de Ferro. Rola uma pancadaria nervosa e corre sangue, mas tudo bem. Se tem alguma cena mais assustadora, cubro os olhos dele.

O filme que mais meteu medo no moleque foi Coraline, porque aparecia uma mãe que virava bruxa, tinha olhos feitos de botão e prendia espíritos de criancinhas num armário escuro.

Tomás prefere histórias de ação com heróis. Ben 10, Naruto, Homem Aranha e tal. Também gosto. Heróis ensinam você a fazer o que é certo, proteger os mais fracos e enfrentar inimigos muito mais poderosos que você.

Também ensinam que você tem que dar um jeito de prevalecer, que o problema é seu. E que as garotas gostam mais dos heróis do que dos bundões que não dão a cara pra bater. Ensinamentos utilíssimos. 

Se eu for desfilar aqui tudo que aprendi lendo gibi, assistindo desenho animado e seriados de televisão dos cinco aos, sei lá, 44 anos, boto todo mundo pra dormir.

Então hoje só digo que os heróis modernos são muito mais legais que os antigos, porque são cheios de defeitos. 

Benjamin Tennyson, o Ben 10, não gosta de estudar, tem preguiça de ajudar o avô, vive brigando com a prima e só pensa em jogar videogame e colecionar cards. Naruto é manhoso e marrento.

São todos bisnetos, claro, de Peter Parker, o primeiro super-herói nerd, durango, cheio de defeitos e problemas. 

E um filho mais velho, adolescente? Não dá para fazer um “currículo” de filmes importantes para a educação de um teen? Claro.

Dá até pra fazer uma seleção de filmes sobre o primeiro emprego, ou sobre a maternidade, ou sobre ficar velho. Filmes que iluminem cada fase da vida. Quem diz que educação é só para jovem? 

outsiders 01 182x300 Como enfrentar a adolescência vendo filmesOutro dia, por causa da morte de Patrick Swayze, lembrei de dois bons filmes de Francis Coppola para adolescentes, Vidas sem Rumo e Rumblefish - O Selvagem da Motocicleta.

Eu emendaria no meu “currículo” outros dois de Elia Kazan, Vidas Amargas, com James Dean, e Esplendor na Relva, com Warren Beatty e Natalie Wood.

Na mesma linha eu adorava Buster e Billie, clássico da sessão coruja, de 1974, que nunca mais vi.

Warriors, os Selvagens da Noite. Laranja MecânicaAs Virgens Suicidas, Rushmore, Garotas Malvadas, Peggy Sue... ih, vou ficar aqui até o ano que vem.

E filmes europeus sobre teen, asiáticos, não tem? Tem, mas não lembro agora de nenhum. Esse negócio de teen é invenção de americano.

Lembro instantaneamente de ótimos filmes europeus sobre ser criança, que não são para criança assistir - Vítimas da Tormenta, Os Incompreendidos, Esperança e Glória.

E brasileiro? Não lembro de nenhum e acho que não existe. Estou desmemoriado? Menino do Rio era ruim como eu me lembro? Por favor, me ajude a encontrar um bom filme brasileiro, para entrar no nosso curso.

Taí, já vai sair um resultado útil desse papo todo: um currículo fundamental de “Como Aprender a Enfrentar a Adolescência Assistindo Filmes”.

Publicado em 08/10/2009 às 13:13

Quanto custa uma péssima educação

No Brasil, a diferença principal entre a escola particular e a escola pública é que, na pública você não paga para crescer burro. Na particular, você paga para ser um pouco menos burro.

Mas a escola pública não é grátis. Nós pagamos por ela com nossos impostos, diretos e indiretos. Pagamos quanto?cifrao 237x300 Quanto custa uma péssima educação

Entre 2004 e 2009, o orçamento global do Ministério da Educação e Cultura (MEC) passou de R$ 21,4 bilhões para R$ 41,6 bi. Dessa grana, R$ 20,7 bi vão para educação básica e R$ 15,8 para o ensino superior.

O Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais de Educação, cacete, que burocrata mentecapto inventou esse nome?) destina recursos a estados e municípios.

Atingiu R$ 72,7 bilhões em 2009. O total dos fundos de financiamento da educação básica era de R$ 13,2 bi em 1999. Aumentou, portanto, mais de cinco vezes em 20 anos. Para onde vai essa dinheirama?

O principal, 60%, vai para salários, inclusive o surreal piso nacional para professor de R$ 950,00.

Agora, quanto custa um aluno por ano? Segundo o próprio MEC, os números (relativos a 2007) são:

Educação Infantil: R$ 1.647,00 por ano

1ª a 4ª série: R$ 2.166,00

5ª a 8ª série: R$ 2.317,00

Ensino médio: R$ 1.572,00

Ensino superior: R$ 12.322,00

Os países da OECP, o clube dos países mais ricos do mundo, gastam em média 6,1% do PIB. Dinamarca, Islândia, Coréia, Estados Unidos e Israel, mais de 7%. O México, 5,7%. No total, o Brasil gasta 4,6% do seu PIB com educação.

É claro que não se trata apenas de quanto você gasta, mas como você gasta. Tanto, que o investimento do Brasil em educação cresceu muito nos últimos 20 anos e avançamos pouquíssimo.

Mas contra números como estes não há argumentos.

Publicado em 07/10/2009 às 09:04

Suicídio comercial do Faith No More (e como faturar com o próprio passado)

O Faith No More vai tocar aqui no festival Maquinaria.

Eu não vou assistir. Porque é num sábado, é longe, num descampado, estou velho e tenho outras coisas pra fazer. Mas tenho vontade.

Porque embora seja evidentemente uma turnê caça-níqueis, não parece. Pelos vídeos que vi dos shows - o Lúcio Ribeiro no Popload recomenda vários legais - os caras estão com garra de moleque.

Não é um zumbi ressuscitado, está mais pra espírito reencarnado. E ninguém pode acusar Mike Patton e companhia de fazerem tudo pelo dinheiro.

Os caras implodiram a banda no seu auge e Patton passou a década e meia seguinte criando ruído instransponível no Mr. Bungle e no Fantomas.

Outra razão por que tenho vontade de ver o Faith No More: foi a primeira banda que eu vi nascer, explodir e morrer, mais ou menos de perto.

Tipo, eu fui um dos primeiros no Brasil a encher a bola do FNM. Eu estava no ônibus que levou a banda para a passagem de som no Olympia e quase foi depredado pelas fãs enlouquecidas do Mike Patton.

E dia seguinte eu estava no apartamento dos Cavalera, junto com  Miranda, para registrar o encontro entre Max e Mike.

Alguém por aí sabe onde encontro este texto que fiz pra Bizz? Nunca mais li.

Deixo claro que não tenho nada contra faturar com o próprio passado. Principalmente se você evita soar como cover de si mesmo. Tanto que vou ressuscitar aqui uma resenha da minha pré-história.

É essa crítica que segue abaixo, sobre o suicídio da banda, o álbum Angel Dust. O amigo William gentilmente me enviou. Valeu, cara.

Na verdade eu nem gosto muito desse texto.

Mas alguém - quem foi? Perdi o nome, sorry, me ajuda aí - disse que quando tinha catorze anos, enquadrou a página em que saiu esse texto e colocou na parede.

E a Juliana gosta do Faith No More. Então, tínhamos que compartilhá-lo com vocês.

Because, you know, we care a lot.

Faith no More - Angel Dust (Slash/PolyGram)

angel dust 300x300 Suicídio comercial do Faith No More (e como faturar com o próprio passado)

 

 

 

 

 

 

 

 
A gravadora London disse que esse álbum é suicídio comercial para o Faith No More. E é mesmo. Não tem nada a ver com The Real Thing, Epic, Edge Of The World, todo mundo cantando junto e balançando as mãos e tascando sorvete na testa.

Não, isso é um esporro -purulento -paranóico-escroto- sanguinolento, cérebros explodindo multidirecionalmente, picas frustradas se ralando no cimento e sangrando em cima de crianças miseráveis morrendo de fome.

Demônios à solta. Adeus fãzinhas púberas, adeus MTV, adeus tudo. Não tem uma porra de um sucesso neste disco. O Faith No More foi longe demais.

Midlife Crisis, o primeiro single, dá uma pista do disco mas não entrega o jogo. O próximo (A Small Victory) é a coisa mais "fácil" de Angel Dust, mas suas possibilidades de sucesso foram abortadas com sete meses - os caras botaram um trecho completamente anticomercial e esquisito no meio.

Por que esse desejo de se matar? Não vem ao caso, mas é quase grande arte.

Angel Dust é Frankenstein: pedaços de gêneros estabelecidos que não estão mortos mas já fedem -metal, hip-hop, country, thrash - fundidos numa criatura única, simultaneamente podre e rebimbando de vitalidade.

O NME chamou de schizo.core, hardcore esquizofrênico. É um bom rótulo, mas não é suficiente.

Seguinte: não tem uma letra simples no álbum. Daria para dizer que são quase poemas se não fosse soar tão pretensioso, poemas no sentido William Burroughs da coisa.

Exemplo 1: "os balanços do parquinho não me acomodam mais/folclore: ninguém deveria acreditar que no próximo ano tem aula/escreva cem vezes"(em "Kindergarten").

Exemplo 2: "Chegou a hora de falar com meus filhos/vou dizer a eles exatamente o que meu pai me disse/ VOCÊ NUNCA VAI DAR EM NADA" (em "RV").

O detalhe é que não tem uma letra que dê para cantar junto. A estrutura das músicas não permite, e a voz de Mike Patton varia radicalmente e vai do velho falsete (pouco usado) a puro terror thrash a baladeiro canastrão.

É tão absurdo que no primeiro lado, logo depois de Midlife Crisis, tem uma música que parece Frank Zappa ("RV") seguida de um funk metal sujão (Everything´s Ruined) e de outra que lembra
Godflesh/Sepultura, distorção no talo e vocais monstro (Malpractice).

Minha favorita, Be Agressive, lembra um pouco We Care A Lot, sugere sadomasoquismo, começa com órgão de igreja, tem coro infantil no refrão e guitarra wah-wah.

Patton está furioso: "O que outro deixaria para trás, cuspiria fora, desperdiçaria eu assumo como meu". Mas as coisas vão mesmo para o inferno em Jizzlober. É grito choro dor primal, me arrancaram do útero, um pesadelo de distorção e desespero.

O que significa isso tudo?

Não sei e não me importo. Vou deixar para alguém mais esperto que eu o trampo de decodificar Angel Dust.

Clique aqui para ver galeria de fotos "Faith No More Tour 2009"

Publicado em 06/10/2009 às 13:34

A ONU provou hoje que o brasileiro é burro. Mas quem lê este blog é inteligente

Eu disse que o brasileiro é burro. É uma média. Não quer dizer que todos os brasileiros são burros.

O povo que postou comentários no meu artigo, por exemplo, é bem inteligente. A maioria, claro. Sempre tem umas antas com argumentos tipo “burro é você, vai morar na gringa” etc.

Isso foi ontem.

Hoje foi divulgado que o Brasil ficou em 75º lugar, em um ranking global do IDH (índice de desenvolvimento humano).

Estamos quase na virada entre a primeira e a segunda metade dos 182 países avaliados pela ONU.

O coordenador do relatório desenvolvido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Flávio Comim, explica como a décima maior economia do mundo está em 75º quando se trata da qualidade de vida de sua população.

Nossos principais problemas: saúde e educação. Que são interligados, claro. Temos uma altíssima taxa de mortalidade infantil.

Especialmente entre crianças filhas de mães sem nenhum acesso à educação - neste caso, as taxas de mortalidade infantil chegam a 119 por mil nascidos vivos.

“É um número maior do que os de muitos países africanos”, diz Flávio.

Filho de mulher burra morre mais - dava uma boa manchete do saudoso Notícias Populares.

Essa é uma das grandes explicações para morrermos tão cedo. A expectativa de vida é de 72 anos em média, dez anos menos que a japonesa.

E nossa educação? Somos o país 71 do ranking de 182. Está convencido de que somos burros?

Eu estou e não tenho problema nenhum de reconhecer minha burrice. O tamanho da minha ignorância só é sobrepujado pela minha preguiça de minimizá-la. Tenho lá meus espasmos autodidatas.

Mas na prática me eduquei sobre alguns temas - um pouco de história e geografia, um pouco de economia, um teco de culinária, o arroz com feijão de história da arte, o beabá da tecnologia.

E me escondi medrosamente de outros - ciência mesmo, física, química, biologia, botânica. Fiz como todo mundo, o que me foi mais fácil.

Por isso que um ano atrás, quando Tomás foi mudar de escola, decidi que a perfeita para ele seria uma que fosse muito boa de ciências e de esportes. Porque o resto eu estimulo ele a gostar... mas não achei a que eu queria.

Como você vê, além de burro, sou preguiçoso.

E a prova definitiva é que depois de um ano de pré-primário na Cigarrinha, sete anos na EEPG Barão do Rio Branco, mais quatro no Colégio Luiz de Queiroz (pago), sempre na gloriosa Piracicaba, e de conseguir entrar na USP duas vezes (jornalismo e história), sou o famoso “curso superior incompleto”.

Jornalismo, que fiz algum esforço para completar, abandonei porque era inútil e, principalmente, chato.

História fui um dia e nunca mais voltei. Devo ser um raro caso de duplo jubilamento na USP, mas nunca me mandaram nenhuma cartinha...

Dos 75 comentários até agora, alguns simplesmente concordam ou discordam do meu texto. Que é uma provocação assumida; por que tem gente que fica se abespinhando à toa?

Os comentários mais úteis para a nossa missão impossível - encontrar algo que preste na educação nacional - são os que vão além das palmas e das pedras.

Os que sugerem algum curso de ação ou dão um depoimento iluminador.

Como o Joaquim, professor de matemática que abandonou a profissão porque não quer ensinar para quem não quer aprender.

Ou o Miguel, que acerta um alvo importante ao criticar pais que querem fazer um filho "supervencedor”.

O pobre Washington, estudando 1ª Guerra Mundial no terceiro colegial.

O Mário Meletti, que lembrou uma ideia de lei genial do Cristovam Buarque, que obrigaria políticos a matricularem seus filhos em escolas públicas.

A professora Vera Menezes, tentando enfrentar a sedução que traquitanas tecnológicas exercem sobre a molecada.

Viviane sugere entrevistar o povo da UNE - sorry, querida, vou pular essa.

Ana Luisa mata a charada: as escolas brasileiras são chatas pra burro, e por isso são feitas pra burro.

Meu favorito, naturalmente, é o (a?) Luxorum, que me chama de “meu grisalho charmoso favorito”. Tobrigado!

Também tem o pedagogo Igor, dizendo que “burrice não existe”. Existe sim, Igor, porque sua afirmação para mim é incompreensível.

Tem o Diogo, que disse que sou idêntico ao Diogo Mainardi. Que isso, ele escreve muito melhor e eu sou bem mais velho (na verdade só pareço, o que é pior).

Mas qualquer fã de Ivan Lessa e Paulo Francis sai ganhando ponto comigo.

E tem um ou outro cobrando “então, qual é a sua proposta?”

Eu detesto quando me cobram proposta.

Não sou candidato a nada. Não tenho que ter proposta porcaria nenhuma. Jornalista a favor é assessor de imprensa.

Mas vá lá, esse é o mês de fazer uma força para acreditar que meu filho pode ter uma educação decente neste país.

Então, vou tentar ser positivo. Vamos atrás das sugestões e dicas.

Agradeço.

A gente podia entrevistar o Cristovam Buarque. Ideia excelente, será que ele topa falar comigo?

Ótima dica do Bruno Ribeiro, conversar com a diretora Ana Elisa Siqueira.

E o Anderson encomenda uma maneira de educar filho sem pagar escola. Boa pauta. Também, o cara sabe como eu penso, é meu leitor desde a Bizz - pô, essa relação já dura mais que muitos casamentos, heim?

E ótima dica é ler Neil Gaiman, que realmente é o autor da citação que Ramon observou:

neil gaiman A ONU provou hoje que o brasileiro é burro. Mas quem lê este blog é inteligente

“I’ve been making a list of the things they don’t teach you at school.

They don’t teach you how to love somebody.

They don’t teach you how to be famous.

They don’t teach you how to be rich or how to be poor.

They don’t teach you how to walk away from someone you don’t love any longer.

They don’t teach you how to know what’s going on in someone else’s mind.

They don’t teach you what to say to someone who’s dying.

They don’t teach you anything worth knowing.”

Publicado em 05/10/2009 às 16:34

O brasileiro é burro

Eu nunca gostei de escola. Quer dizer, gostava dos amigos, de brincar, mas das aulas mesmo não. De nenhuma disciplina.

Mas minha birra com o sistema educional não é pessoal. É uma conclusão racional. Estudar não serve para nada.

Por duas razões. Primeiro, porque as escolas, em qualquer lugar do planeta, não ensinam muitas coisas importantes. O currículo brasileiro é especialmente deficiente.

Um amigo passou o ano de 1983 fazendo o segundo ano de high school no Canadá. Eles tinham aula de culinária, aprendiam a consertar motor do carro, encanamento.

Outro camarada, austríaco, aprendeu no colegial danças diversas - valsa, tango etc. Coisas práticas e úteis.

Uma boa escola deveria ensinar você a fazer molho de macarrão, planejamento financeiro e tudo sobre sexo. Você conhece alguma assim?

A segunda razão porque estudar não serve para nada é que as escolas brasileiras são uma porcaria, do maternal ao doutorado.

É o resultado de todas as pesquisas comparando escolas de diversos países.

E mais: é o resultado de todos os torneios mundiais, tipo “os mais inteligentes da França contra os dos EUA, Coréia, Brasil etc.”.

Não é só que a gente estuda pouco (seis anos é a média brasileira). É que mesmo o brasileiro privilegiado, quem estuda muitos anos em escolas muito boas, sabe muito menos que o equivalente de outros países.

Então, o brasileiro é burro. O que é um problema para o presente e mais ainda para o futuro.

Já escrevi sobre este assunto umas cem vezes. Um texto de anos atrás, para a revista Época, acabou até sendo tema de discussão em um teste do Enem - acho que os organizadores não perceberam a ironia da coisa.

Agora: de uns tempos para cá, esse assunto me perturba e me interessa cada vez mais. Porque eu tenho um filho.

Tomás vai fazer seis anos em dezembro e está na escolinha desde os seis meses. Então, eu tenho um interesse muito prático na educação brasileira. Não quero que meu filho cresça ignorante.

Ainda mais porque Tomás está em escola paga desde que nasceu. Burrice de graça já é problema, mas pagando?

A escola dele não está entre as mais caras de São Paulo, mas custa uma grana. Vale? Não tenho como comparar. Parece mais inteligente pagar do que arriscar com meu único filho.

Ele é um menino esperto e sabe de muitas coisas (olha o pai coruja). Mas não sabe ler, o que me dá nos nervos. Eu sabia na idade dele, porque minha mãe me ensinou.

Quando fiz sete anos ganhei a coleção do Monteiro Lobato, e já tinha traçado Caçadas de Pedrinho aos seis.

Em 2010 Tomás entra oficialmente no sistema educacional brasileiro, primeira série. Eu acharia muito bom que quando ele chegasse ao colegial e depois à faculdade, nosso país tivesse uma educação mais inteligente, mais justa e mais adequada ao século 21.

Adoraria acreditar que meu filho pode estudar no Brasil e ser educado decentemente. Tudo leva a crer que não, mas tirei este mês para fazer um esforço. Porque é outubro, que tem dia da criança e dia do professor.

Assim, este blog elegeu para as próximas semanas um tema, educação. Óbvio que vou tratar de outros assuntos.

Mas o tema educação virá à baila periodicamente. Juliana, Marcelo e eu estamos conversando sobre isso faz algum tempo. Nosso objetivo primordial aqui é:

a) descobrir o que está sendo feito de interessante e inovador na educação brasileira e gringa. O que é educação de ponta em 2010?

b) esculhambar cruelmente os aspectos mais absurdos da nossa educação.

Para isso, fomos levantando umas várias pautinhas e questões provocadoras.

Será que os brasileiros mais bem remunerados são os que mais estudaram?

Existe ligação entre escolaridade, cor da pele e renda?

Como é a educação dos deficientes? Funciona colocar uma criança cega ou com Síndrome de Down na mesma classe das outras?

Que faculdade está formando a elite que vai mandar no país em 2030?

E outros. Que aparecerão através da sua participação. Tem um tema que te interessa?

Tem alguém que você gostaria de ver entrevistado? Tem algo que te incomoda na sua escola? Manda que a gente corre atrás.

Vai ter temas sérios. E alguns nem tanto.

Por exemplo: um tempo atrás, a Xuxa deu piti porque criticaram o português de sua filha. Sasha escreveu “sena” quando queria escrever “cena”.

Xuxa explicou: “pra quem não sabe minha filha foi educada em inglês”.

xuxa sacha ok O brasileiro é burro

Que que é esse negócio de ser educado em inglês? Você sabe?

Não é estudar inglês. É estudar o currículo todo - história, geografia, matemática etc. - em inglês. E em português também.

Algumas escolas, como o Pueri Domus, tem o currículo americano em um período e o brasileiro em outro. A molecada aprende quem foi o Tomas Jefferson, quais os afluentes do Mississipi etc.

Você acha esse sistema tão surreal quanto eu? Já odiava saber a história do Benjamin Constant e os afluentes do Rio São Francisco, imagina ter que decorar todo o currículo dos ianques.

E por que dos americanos e não dos ingleses?

Ou, já que é para atazanar a criançada, da China, que tem cinco mil anos de história e é o país do futuro?

Não sei se foi esse o esquema da Sasha e não é desculpa. Mas tenho certeza que Xuxa paga para a filha a melhor escola que seu muito dinheiro pode comprar. E a menina aos onze anos escreve “sena”.

Quer prova melhor que a educação nesse país é uma porcaria para os ricos também?

Publicado em 04/10/2009 às 08:30

Somente para seus olhos

007 22 300x200 Somente para seus olhos

Nunca houve uma série tão perfeita para alta definição como 007.

O segredo do sucesso de James Bond: mostrar o melhor da vida, em um tamanho maior que a vida.

São os cenários mais lindos, os ambientes mais luxuosos, as máquinas mais quentes, as mulheres idem.

Tudo costurado em alta velocidade por um time dos melhores profissionais que o cinema britânico pode comprar.

Do figurinista ao dublê, do diretor ao profissional mais importante da equipe, Ken Adam, designer de produção durante décadas.

O que desde o começo manteve 007 maior do que qualquer espião e qualquer imitação foi a lealdade militar a esta fórmula.

E sempre que – por descaso ou autoengano – os produtores permitiram que um filme escapasse desta gaiola dourada, a locomotiva Bond descarrilhou.

É o que fica evidente na primeira fornada a chegar ao Blu-ray. Os melhores – 007 Contra Goldfinger & Contra o Foguete da Morte – esbanjam em cenários gigantescos e vilões caricaturais.

Os piores – Permissão Para Matar, 007 contra o Homem com a Pistola de Ouro – são pobres como episódios de TV.

São algo como 007 Versão Econômica, mas mantém algum charme. O Mundo Não é o Bastante é o mais fraco dos filmes estrelados por Pierce Brosnan.

007 Somente para seus olhos

A trama não se decide entre o drama choroso e a comédia pastelão.

Mas Pierce é Bond e o filme tem sexo, humor, luxo, perigo. Tudo que Quantum of Solace não tem.

O lançamento da coleção completa em Blu-ray escancara: Daniel Craig não é o bastante.

Publicado em 03/10/2009 às 12:13

O espírito do pop e o pop espírita

Hippolyte Léon Denizard Rivail.

Ele nasceu 205 anos atrás com nome de gente importante. Mas resolveu trocar mesmo assim.

Morreu como Allan Kardec em 31 de março de 1869. Ou talvez tenha só desencarnado.

Eu não entendo por que alguém acha atrativa a ideia de voltar a viver muitas vezes. Muito menos de se comunicar com os mortos.

Mas a parte que eu acho mais estrambótica do espiritismo são as explicações pseudocientíficas - às vezes, de ficção científica.

Um grande amigo que é espírita - ou mais ou menos, a mãe é hardcore - costumava me emprestar um livros sensacionais, com explicações sobre almas em outros planetas, como funciona a viagem interdimensional e outras coisas que eu só conhecia do Quarteto Fantástico.

Eu folheava hipnotizado. Me deu um outro dia. Não li, mas já abri umas várias vezes em páginas diferentes. Adoro pseudociência - como entretenimento. Na vida real, adoro é o método científico, a maior invenção da humanidade.

Ano que vem quem sabe eu entendo melhor a atração do espiritismo. E por que o espiritismo nasceu na França e só cresceu, um pouco, aqui. São mais 2,3 milhões, de acordo com o IBGE.

Desconfio que as duas coisas são responsabilidade de Chico Xavier, o popstar do espiritismo.

nosso lar O espírito do pop e o pop espírita

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Foram mais de vinte milhões de cópias vendidas de 412 livros psicografados, toda a grana doada para a caridade. Não é pouca coisa.

Quando eu era moleque, Chico estava toda semana na revista Manchete. Multidões faziam romaria para visitar o cara em Uberaba.

Não deixou herdeiros mas tem seguidores fidelíssimos, inclusive celebridades - Fábio Assunção, Scheila Mello, o casal Paulo Goulart e Nicete Bruno, a ex-jogadora de basquete Paula e o de vôlei, Tande.

2010 é o ano em que o espiritismo será pop. São quatro filmes diferentes para o cinema.

Luis Eduardo Girão, mesmo produtor de outro épico espírita, Bezerra de Menezes, produz As Mães de Chico Xavier.

Nosso Lar, o mais famoso livro de Chico Xavier, chega em produção da Fox. O documentário As Cartas traz entrevistas com pessoas que receberam cartas psicografadas por Chico Xavier.

E para não deixar pedra sobre pedra, o diretor de Se Eu Fosse Você, Daniel Filho, assina a biografia Chico Xavier, com Nelson Xavier como o próprio e Letícia Sabatella como sua mãe.

Agora, o que talvez seja novidade para você. O Doutor Jorge Armbrust Figueiredo, professor de Neurologia da USP / Ribeirão Preto, defendeu nos anos 50 tese de cátedra relacionando a epilepsia do lobo temporal com o fenômeno mediúnico.

Há vários estudos internacionais similares. O eletroencefalograma de Chico Xavier acusava lesão de têmpora esquerda.

Não é propriamente novidade. Há evidências que tribos africanas tentavam desenvolver percepção extra-sensorial escarificando a têmpora de crianças com lascas de pedra.

Com isso, pretendiam criar xamãs, profetas, pajés - gente capaz de, durante as crises epilépticas, fazer previsões de interesse tribal.

Quer uma lista de criadores com epilepsia do lobo temporal? Lewis Carrol, autor de Alice no País das Maravilhas. Edgar Allan Poe. Philip K. Dick, o mais influente escritor de ficção científica da contracultura. A poeta Sylvia Plath.

Imaginações poderosíssimas, almas atormentadas.

Agora, você decide: as mensagens dos mortos são alucinações causadas pelo tumor? Ou as mensagens são verdadeiras, mas somente quem tem o tumor consegue captá-las?

Amigas espíritas que trabalham comigo talvez dissessem: isso não é o mais importante. O importante é o sentido das mensagens.

Hmm, sei não. Para mim o meio é a mensagem. Quem sabe Daniel Filho - que afinal já fez os espíritos de Glória Pires e Tony Ramos trocarem de corpo duas vezes - consegue me explicar melhor?

Publicado em 03/10/2009 às 11:00

O preço justo de um iPod e a empresa dos sonhos dos jovens

Hoje é aniversário da Fundação da Petrobras (1953).

Lembrei desse texto que escrevi sobre a Apple e a pesquisa "A Empresa dos Sonhos dos Jovens", versão 2009.

Veja:

A Apple está queimada.

De uns três meses para cá, aparecem mais e mais denúncias de como operam os seus fornecedores na China. Condições de trabalho péssimas, salários ridículos etc.

Faltou alguém para contextualizar a coisa direito. Até Umair Haque, do blog Edge Economy, fazer a pergunta natural: quanto custaria para produzir um iPod em condições de trabalho decentes?

O “orçamento” que ele fez (assumidamente meio nas coxas) leva em conta as condições de produção de um iPod nos Estados Unidos. Que nem de longe tem o padrão trabalhista de, sei lá, a Suécia.

Pois um iPod Classic custaria 23% a mais para produzir nos EUA que na China. Exatamente U$ 58,00 a mais. Um iPod Classic “do mal” custa US 249. Um iPod “do bem”, US 307. O artigo e a planilha estão aqui

 

i pod classic O preço justo de um iPod e a empresa dos sonhos dos jovens

 Agora, o desafio de Haque.

A Apple é o que ele chama de “capitalista construtivo”. Afetou positivamente mercado após mercado, desde a criação do primeiro Mac. Mas só pelo lado da demanda.

Agora terá que dar o passo seguinte, que é ser construtiva em toda a cadeia. O que inclui se responsabilizar pelas condições de trabalho de seus fornecedores. E pelo impacto no meio ambiente. E pelo descarte dos produtos velhos. E por aí vai.

Isso tudo tem um custo. Que a Apple pode querer repassar integralmente ao consumidor. Se arrisca a perder mercado. Você topa pagar 23% a mais por um iPod, ou um MP3 Player genérico começa a parecer atraente?

Claro que a Apple pode muito bem dar uma banana para tudo isso. Mas aí corre outro risco sério. Porque um concorrente pode chegar com um MP3 Player estiloso e “do bem”. E causar um estrago espantoso e talvez irreversível.

Já aconteceu muitas vezes antes e acontece no nosso nariz, o tempo todo.

O ser humano normal quer fazer o que é certo, justo e benéfico para a humanidade e o meio ambiente - contanto que seja barato ou grátis, dê o mínimo de trabalho e de preferência ainda traga alguma vantagem.

Mas não basta “cada um fazer a sua parte”. Este discurso é uma maneira de governos e empresas se eximirem das suas responsabilidades.

Como também é desculpa furada das empresas que elas têm antes de mais nada responsabilidade com seus acionistas, que o próximo quarter é o que importa etc.

Sei, quanto mais lucro melhor, concordo totalmente e quero o meu.  Mas “faça a coisa certa ou muita gente vai saber que você está fazendo a coisa errada” é a nova lei e não tem volta.

Uma nova pesquisa ilumina a questão. Chama-se A Empresa dos Sonhos dos Jovens, versão 2009. Foi perguntado para 30 mil jovens brasileiros, universitários e recém-formados: qual a empresa dos seus sonhos?

Primeiríssimo, pelo quarto ano consecutivo, a Petrobras. Que é a empresa que mais joga CO2 no ar do Estado de São Paulo. Será que os entrevistados sabem disso e não estão nem aí, ou faltou alguém avisar?

Se eles sabem e mesmo assim acham a Petrobras o ó do borogodó, estão pouco se lixando para responsabilidade ambiental, social, essas coisas.

Os entrevistados querem é salário jóia e segurança no emprego e dane-se o resto. Eles são parte da elite brasileira do futuro muito próximo. Se são irresponsáveis neste nível, estamos bem ferrados.

Se os entrevistados não sabem do lado negro da Petrobras - e certamente o Sindicato dos Petroleiros teria mais algumas coisas a dizer sobre isso - é porque são mal-informados, o que também é má notícia.

Mas tem um grande lado de responsabilidade da imprensa, nosso.

Porque naturalmente a Petrobras só vai divulgar as muitas coisas boas que faz. E é ótimo que ela faça mesmo, apóie ONGs, sustente o projeto Tamar. Banque mil iniciativas culturais etc.

Mas a função primordial do jornalista é jogar luz justamente sobre as coisas que as grandes empresas, os governos, os poderosos querem esconder.

Jogar luz forte, holofote, laser. Para falar bem já tem a assessoria de imprensa, a agência de publicidade, e - infelizmente - uma pá de jornalistas que não sabe bem de que lado joga. Ou prefere não saber.

E a minha função, ou ambição, é fazer isso e mais: colocar em pauta as possibilidades que enxergo para, vão desculpar a inocência e megalomania, um mundo melhor. Por mais absurdas que pareçam em princípio.

Você teria orgulho ou vergonha de trabalhar numa empresa com o passivo ambiental da Petrobras?

E nas empresas que são as próximas na pesquisa, Google, Unilever, Vale, Nestlé, Natura, Itaú /Unibanco?

E na Apple?

Publicado em 02/10/2009 às 14:02

Filosofando no VMB 2009

Meu amigo baladeiro garantiu ontem, tipo duas e meia da manhã: não existe festa melhor que a do VMB. Não vou muito em festa, então vou por ele.

Mas nessa eu fui e estava bacanésima. Saí três e pouco, tiozinho que sou. O camarada avisou meu, isso aqui vai até as oito da matina. Tenho certeza que sim, mas meu taxímetro vence mais cedo.

A festa estava tão boa que quando eu vi estava achando bem divertido o show do Nando Reis, “ o amor é o calor etc.”.

Depois de alguns whiskies e cercado da maior densidade de mulher bonita do planeta, minhas capacidades críticas foram para as cucuias. Talvez eu devesse viver sempre assim: meio tocado e rodeado de beldades.

Fica pra próxima encarnação.

E a entrega do prêmio? Ah, é, já ia esquecendo. Me diverti muito. Eu fui em todos os primeiros VMBs.

Teve um que foi o Paulo Maluf e o Mário Covas, sério, minha turma ficou planejando derrubar uma cerveja no colo do Maluf, mas ficamos com medo de apanhar dos seguranças.

Foi a primeira vez que a MTV me convidou desde, sei lá, 1994. Espero que não levem mais quinze anos para me convidar de novo, que já vou ter 59 e só vou tomar Mylanta on the rocks.

Mas agora sou meio parte do time - um blog colaborativo chamado Bis, bolado pela turma da Tambor, faz parte do portal MTV.com.br.

Fiz uns amigos novos na MTV, reencontrei outros antigos, e tenho a maior simpatia pela turma.

Fora que o Bis vai fechar o ano como um dos principais blogs de música do portal. Acho que com tudo isso, me convidam de novo ano que vem. Quer dizer, depende um pouco do que vou escrever aqui.

Como a festava estava boa, vou falar muito bem. Aí vendidão!

Não, sério, foi legal. Só de chegar e encontrar meu compadre Miranda logo de cara já ganhei a noite. Mas vi muita, muita gente que não via fazia muito, muito tempo.

O que mais ouvi foi “Você por aqui?”. É. O mundo dá voltas.

Aos vencedores, as batatas:

Artista do ano: Fresno

Videoclipe do ano: Skank - Sutilmente

Hit do ano: NX Zero - Cartas para Você

Aposta MTV: Vivendo do Ócio

Melhor show: Os Paralamas do Sucesso

Artista internacional: Britney Spears

Blog do ano: Jovem Nerd

Revelação: Cine

Web Hit do ano: Seminovos - Escolha já seu nerd

Twitter do ano: Marcos Mion

Game do ano: The Sims 3

Filme ou documentário musical: Titãs - A Vida Até Parece uma Festa

Melhor vocalista: Lucas (Fresno)

Melhor guitarrista: Martin (Pitty)

Melhor baixista: Tavares (Fresno)

Melhor baterista: Duda (Pitty)

Rock: Forfun

Rock alternativo: Pública

Hardcore: Dead Fish

Pop: Fresno

MPB: Fernanda Takai

Samba: Zeca Pagodinho

Reggae: Chimarruts

Rap: MV Bill

Instrumental: Pata de Elefante

Música Eletrônica: N.A.S.A.

Também teve Marcelo Adnet, que está quase pronto para apresentar o Oscar. Teve Massacration com Falcão (alguém aí anotou a letra?). Teve Franz Ferdinand. Prêmios para o Jovem Nerd e os Seminovos.

Veja as fotos da festa aqui

Até teve um momento de humanidade do Marcos Mion, com quem nunca tive a menor empatia. Ele ganhou o prêmio de Twitter do ano e baixou a carapaça. Mion está deixando a MTV pela Record.

É a segunda vez que ele sai da MTV. Chorou. Não sei se deu para perceber pela TV, mas foram os minutos mais emocionantes da cerimônia.

Fiquei filosofando lá depois de reencontrar o velho chapa Gabriel Thomaz, dos Autoramas, mandando ver ao lado de Erasmo Carlos.

Ele depois me explicou que o punk rock nasceu no Peru e ficou de mandar o link que prova - quero ver. Outro veterano do Little Quail e há anos no Ultraje, o baterista Bacalhau, me deu o CD de seu novo projeto, o Orgânica, que estou ouvindo nesse exato minuto.

Os dois mantêm a mesma cara de moleque de quando o Little Quail passava tardes na redação da revista General, 1993, eu era feliz e sabia. Que dezesseis anos depois eles mantenham o mesmo amor ao rock'n'roll é, francamente, emocionante.

Porque está cheio de banda de rock - de artista, de gente em geral - que trata sua vida como um emprego, um job, uma carreira a ser desenvolvida. Profissionalismo, tudo bem, mas sem tesão nem reflexão, não é suficiente.

Veja mais fotos aqui

É o caso de Wanessa Camargo, que cantou ao vivo seu dueto com Ja Rule. Diva sem molejo e sem estilo não vai dar não. E não é questão de ser black. Pode ser branquinha. A prova está aqui e mais de quatro milhões de pessoas já viram:

Só de chegar perto de gente assim me desanima. Não estou no planeta a passeio - embora dê minhas flanadinhas.

Por isso fiquei feliz de ver a MTV bancando shows de duas bandas fora do esquadro que obviamente têm paixão pelo que fazem, Móveis Coloniais de Acaju e Vivendo do Ócio.

Eu não tenho nada contra bandas queridinhas das teens, imagine, vou ser contra Elvis, os Beatles e os Stones?

Todo mundo tem que começar a gostar de rock em algum lugar, e raramente é no lugar mais extremo. Mas a MTV sempre foi melhor quando esteve à frente de seu público.

Se hoje os adolescentes são loucos por Fresno, Cine, NX Zero, Pitty e tal, cabe à MTV alargar este horizonte.

O que me leva à única crítica realmente azeda que tenho a fazer ao VMB. Você achou que eu ia só ficar pagando pau? Sou fã de Fernando e Sorocaba.

Muitos dos artistas que os jovens brasileiros realmente mais amam e admiram não estavam lá. As músicas mais tocadas e mais dançadas não apareceram no palco do Credicard Hall. Não, elas estão aqui.

Entendo que a MTV tem seu corte e seu público. Mas foco é uma coisa e gueto é outra.

Cadê os Aviões do Forró?

Cadê as aparelhagens de tecnobrega?

Cadê a Tchê Music?

Cadê o pagode, a guitarrada, o funk? Cadê Luan Santana, Fantasmão e os Inimigos da HP?

Qual a explicação para a ausência de Victor & Leo, o maior fenômeno pop do Brasil no último ano e meio?

Faço questão de uma MTV mais interessante e uma festa melhor ainda ano que vem. Por isso, tenho que dizer: o vídeo do ano, exclusivo do YouTube, é esse aqui:

Beijos e até o VMB 2010!

Publicado em 01/10/2009 às 11:30

A China é Pop

Sessenta anos atrás foi fundada a República Popular da China. Agora é hora da República Pop da China. Porque no país da revolução cultural, a cultura popular se transforma na mesma velocidade de todo o resto do país: além da barreira do som.

Um casal de amigos voltou recentemente de lá. Estavam encantados com a conservação dos monumentos, a comida deliciosa, a variedade de paisagens e atrações, e principalmente com a velocidade vertiginosa das mudanças na China.

Contradições pululam, claro. É um lugar onde convivem na mesma avenida uma loja Chanel e outra loja que vende cinco versões pirata da mesma bolsa Chanel, em cinco níveis diferentes de qualidade e preço.

É claro que esta exuberância toda não vai ficar contida para sempre. O cinema chinês, por exemplo, é de primeira faz pelo menos vinte anos.

Mas para a modernidade chinesa impactar culturalmente no mundo, falta o país  que tanto exporta, começar a vender sua música. Para o mundo. Porque nada vende tanto o peixe de um país quanto seus popstars.

Um astro embala atitude, sex-appeal, estilo, imagem e conteúdo. É mídia e mensagem, produto e marketing ao mesmo tempo. Quer embaixatriz melhor da França que a primeira-dama Carla Bruni?

Infelizmente, o maior popstar da China está morto. É Leslie Cheung, cantor popularíssimo e compositor talentoso, astro de filmes chave do novo cinema chinês, como Alvo Duplo (de John Woo), A Chinese Ghost Story (Tsui Hark) e Adeus, Minha Concubina (Chen Kaige).

Cheung era bonito, elegante, idolatrado e bissexual assumido. Foi talvez a maior expressão do Cantopop, a música pop moderna de Hong Kong, que combina elementos tradicionais da música chinesa com o rock, o jazz e o pop internacional.

Deprimido crônico, em primeiro de abril de 2003 pulou do 24º andar do hotel Mandarim de Hong Kong. Seu bilhete de despedida deixava uma pergunta irrespondível: “na minha vida nunca fiz nada de mal. Por que as coisas têm que ser assim?”

Olha ele aqui cantando com outra superstar morta, Anita Mui, a Madonna da Ásia:

Cheung deixou a vida, entrou para a história e deixou herdeiros de montão. O C-Pop lembra o J-Pop: consome ídolos com voracidade.

E a música chinesa - dividida fundamentalmente entre Cantopop, cantada em cantonês, e Mandopop, em mandarim - é tão variada quanto a japonesa ou mais. Tem de tudo para todos os gostos: pop açucarado, hip hop, rock de todo tipo.

O melhor lugar para ouvir música chinesa é o portal Eolasia. O problema é saber quem é quem. Tente, clicando aqui.

Minha tendência favorita: grupos formados por irmãos. O mais famoso certamente é o Twins.

Charlene Choi Cheuk-Yin e Gillian Chung Yan-Tung eram superlindas e superpopulares. De 2001 a 2008, lotaram estádios, venderam milhões de discos e ajudaram a vender Coca-Cola, celulares Nokia, televisores LG.

A dupla acabou no maior escândalo do mundo pop chinês, quando fotos tiradas pelo cantor Edson Chen de suas relações sexuais com Gillian - e outras superstars como Bobo Chang e Cecilia Chung - caíram na internet.

Chen se desculpou, explicou que as fotos tinham sido roubadas dele, e desapareceu da vida pública. Gillian a seguiu. Fãs do Twins fazem campanha pela volta da dupla. Vai acontecer.

Uma dupla de irmãos além das classificações fáceis são os gêmeos Julio e Dino Acconci, da banda de rock Soler. Soler A China é Pop 

São filhos de pai italiano e mãe karen, uma etnia de Miyanmar. Criados em Macau, na China, cantam em sete línguas diferentes.

As irmãs Janice e Jill Vidal talvez sejam as mais interessantes da novíssima geração, porque muito diferentes uma da outra, e também cidadãs do mundo. São filhas de pai filipino e mãe coreana, nascidas em Hong Kong.

Janice é superpop, Jill lembra uma diva black americana. Janice é superfofa, Jill foi presa com drogas em Tóquio.

Talvez falte o povo cantar em inglês, a língua do mundo. Meu grupo chinês favorito é o Shanghai Restoration Project. Ouça e veja se dá pra resistir:

Miss Shanghai 

Hoje, estes e muitos outros artistas já são muito populares nos países da Ásia - Tailândia, Malásia, Coréia. Começam a ser famosos no Japão. E, claro, são adorados entre as comunidades chinesas dispersas pelos quatro cantos do mundo.

Todos fazem turnês pelo Canadá, Estados Unidos, Austrália. Como tem cada vez mais chinês no planeta, eles estão cheios da grana e se espalhando pelos cinco continentes, a ascenção da cultura pop Made In China é inevitável.

Que venha o C-Pop - tudo no mundo já é fabricado na China, por que não a música também?

Publicado em 30/09/2009 às 16:00

Monica Bellucci e a arte de amadurecer

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Hoje a mulher mais bonita do mundo faz 52 anos. A surpresa é que ela parece exatamente o que é: uma mulher deslumbrante de 52 anos, não uma beldade cinquentona fingindo ser adolescente. É Monica Bellucci. Sempre foi essa figura divina e segue sendo, com ruguinhas, pescoço engruvinhado, pés de galinha, e aparentemente sem plástica e muito menos botox.
Não existe mulher mais atraente que a mediterrânea. Dizem que os homens também não fazem feio... Não é predileção pessoal nem acaso, é história. Roma foi um império dominante durante séculos. O quartel general era o Mediterrâneo, caldo de culturas onde se encontram África e Europa, Oriente e Ocidente.
Miscigenação melhora o DNA. Donde as ruas da Itália, da Turquia, da Grécia e adjacências estão repletas de gente bela, que você não sabe dizer exatamente de onde vieram.
Se fala do estilo de vida mediterrâneo, supostamente mais tranquilo e saudável. Bem, ninguém chamará Napoli de sossegada, mas já estive por aquelas bandas e garanto que viveria até os 120 anos se morasse nas encostas de Amalfi. Não é só a paisagem embasbacante, a natureza dadivosa, a dieta deliciosa e nutritiva. É também um sossego com a vida, uma certa falta de ambição. Um jeito um pouco resignado de ser, ou resignado com ter o que a vida pode oferecer de melhor.
Os mediterrâneos são felizes e estóicos. Ninguém representa tão bem a perfeição inatingível da vida mediterrânea quanto Monica. Que é da Umbria, bem longinho do mar.
Da mesma maneira, ninguém representa tão bem a América como os contemporâneos James Dean e Elvis Presley. Dean morreu em um dia 30 de setembro, exatamente dez anos antes de Monica nascer. Destruiu seu Porsche Spyder. Tinha 24 anos.
Será sempre a melhor representação da rebeldia adolescente, porque não precisou envelhecer. Da mesma maneira que Elvis será para sempre a melhor representação de como envelhecer mal, porque de adonis elétrico a entertainer brega, balofo e drogado, cercado de cumpinchas em Las Vegas.
Nem todo mundo sabe que entre todos os ídolos do jovem Elvis, James Dean era o maior. Nicholas Ray, diretor Rebelde Sem Causa, conta que quando conheceu Elvis, o cantor se ajoelhou na sua frente e começou a recitar passagens inteiras do filme, páginas e páginas de script. Elvis vira dezenas de vezes o filme, e também Vidas Amargas e Giant - Assim Caminha a Humanidade.
A vulnerabilidade, a androginia, a insolência os uniam. O destino os separou para sempre. Hoje, significam coisas absolutamente diferentes. É mais que fácil envelhecer traindo toda a promessa de sua juventude - é quase inescapável. Precisamos de ícones que nos deem a esperança de fazer melhor.
Para cada James Dean, morto antes de adulto; e para cada Elvis, exemplo acabado de como envelhecer errado, precisamos de uma Monica Belucci. Que nasceu perfeita e não envelhece: amadurece, sábia e sedutora como vinho.

http://r7.com/5klo

Publicado em 29/09/2009 às 14:29

Ninguém é inocente

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 Uma mãe leva a filha na casa de famoso artista. A menina tem treze, o bacana 43. A mãe quer que a menina seja modelo, seja famosa, entre no mundo dos famosos. O artista é um conquistador e famoso por andar com uma turma de hippies malucos, celebridades da contracultura, que vivem na base de sexo livre, drogas pesadas e rock'n'roll sem fim.

O cara pede permissão para fazer uma sessão de fotos com a menina, particular, sem a presença da mãe. O ensaio sairá na Vogue. A mãe permite. O que aconteceu depois só se sabe pela versão da menina. Ela disse depois em depoimento para a polícia que Roman Polanski pediu para que ela tirasse a blusa, ela tirou; que se trocasse na frente dele; o que ela fez; convidou-a para tomar champagne, drogas e entrar com ele em uma jacuzzi, e assim foi.

E que depois, contra sua vontade, Polanski fez sexo oral e anal com Samantha. É estupro. Se você provar, claro. Não houve chance.

Polanski, que tem nacionalidade francesa e polonesa, fugiu dos Estados Unidos e nunca mais voltou. Isso foi em 77. Sábado passado, Polanski foi preso em Zurique, onde estava participando de um Festival de cinema e seria homenageado por sua obra. Ele tem casa na Suíça desde 1978. Foi a pedido de autoridades americanas, que querem que ele seja extraditado para os EUA.

Se isso acontecer, Polanski morre na cadeia. Tem 76 anos. A luta pela libertação de Roman Polanski já virou causa célebre. Intelectuais europeus se mobilizaram nesta segunda. São dois abaixo-assinados. O manifesto “Libertem Polanski” já tem assinaturas de alguns dos maiores diretores de cinema do planeta, como Woody Allen, Ettore Scola, Costa-Gavras, Wong Kar-Wai, Martin Scorsese e Giuseppe Tornatore.

Tem o apoio dos governos da França e da Polônia, que já pediram oficialmente a interferência da secretária de estado americana, Hillary Clinton.

A história de Polanski

A vida de qualquer um dá um livro. A vida de Polanski, vários.  O pai era um judeu polonês. A mãe, judia russa, mas criada como  católica. Adultos, os dois eram agnósticos. Roman nasceu em Paris, mas  os pais logo se mudaram para a polônia. Hitler invadiu o país. A   família foi parar no gueto de Cracóvia. Pai e mãe foram enviados para  a campos de concentração diferentes. A mãe morreu em Auschwitz, o pai  conseguiu fugir.

Com dez anos, Roman escapou do gueto. Foi ajudado por  famílias católicas até reencontrar o pai após a guerra.

A esta altura, a Polônia já tinha sido anexada pela Rússia - estava  atrás da famosa cortina de ferro, sob domínio de Stalin. Polanski  cresceu sob uma ditadura burra e cruel. Tentou atuar, estudou cinema,  fez pequenos filmes e logo, grandes. Seu primeiro longa-metragem, Faca  na Água, se sustenta até hoje.

Os três filmes que rodou assim que se  mudou para a Inglaterra são obrigatórios para qualquer um que goste de  cinema (e mulheres lindas): Repulsa ao Sexo (Catherine Deneuve!), Cul-De-Sac (Françoise Dorleac!) e A Dança dos Vampiros (Sharon Tate!).

 Já podia acabar aí o filme: “sobrevivente do Holocausto ascende ao  primeiro time do cinema mundial.”  Mas Polanski se mudou para os Estados Unidos e fez O Bebê de Rosemary,  um grande sucesso comercial. Vivendo em Los Angeles, se casou com  Sharon Tate. Grávida de oito meses de seu primeiro filho, um menino,  ela foi assassinada cruelmente por um grupo de hippies celerados,  comandados pelo psicopata Charles Manson.

Foi sacrificada por nada.  E a maior parte da obra de Polanski ainda estava por vir. Um Macbeth  assustador, o perturbador O Inquilino, cinemão convencional como Lua de Fel e Busca Frenética e finalmente a consagração formal da academia, com prêmios em Cannes e o Oscar de melhor diretor para O Pianista.

Polanski pode morrer cumprindo pena como estuprador, o que é um  inferno em qualquer cadeia do planeta e nos EUA também. Pode acabar  sendo libertado, graças à pressão internacional. O caso do estupro nunca será esquecido, de qualquer forma. Mesmo que a menina, hoje  adulta, tenha perdoado o diretor. Em 2003, Samantha Geimer deu uma  entrevista dizendo que “sei que ele se arrependeu.

Ele não é um perigo  para a sociedade, não tem porque ser preso. Foi trinta anos atrás. É  uma memória desagradável para mim, mas posso viver com ela.”

O moleque mais feliz da Terra

Eu tenho um filho. Ele convive com meninas mais velhas, de onze, doze  anos. Sexo com meninas de treze anos não faz sentido nenhum para mim,  que tenho hoje a idade de Roman quando rolou a história com Samanha. Mas fazia todo sentido - pelo menos em termos de fantasia - quando eu  tinha treze anos, e catorze e quinze, porque eram as meninas com quem  eu convivia. Se a mocinha ali da primeira fila do meu primeiro colegial resolvesse dar para mim eu teria sido o moleque mais feliz da  Terra.

Não deu, puxa, que pena.  O fato é que meninos e meninas de treze anos têm vida sexual ativa,  sejam virgens ou não. É fato que se perde a virgindade cada vez mais cedo, e que a molecada transa com mais gente do que antigamente. E  essas meninas normalmente vão transar com caras mais velhos. É fato que meninos e meninas estão amadurecendo mais cedo - as meninas  inclusive menstruando mais cedo. Ligue a televisão ou vá ao ponto de ônibus da esquina: o mundo está cheio de adolescentes desejáveis por gente de qualquer idade.

Esses dias, soube a história de uma menina de catorze anos que transou  com um namorado de dezesseis. Os dois filmaram tudo. Depois brigaram.  O moleque botou o vídeo na internet. A menina não pode sair de casa, a cidade é pequena, e ela virou o comentário do lugar. O garoto, claro,  virou herói dos amigos. E se eu fosse contar aqui quantos casos de  meninas menores de idade grávidas que já conheci, de todas as classes sociais, ficava aqui escrevendo uma semana.  

O que eu quero dizer aqui é o seguinte: as leis são estúpidas. Uma  menina de treze anos pode transar com um cara de dezessete, mas uma  menina de dezessete que transar com um cara de dezenove foi estuprada?

Isso não tem sentido nenhum.  Na roda de Polanski nos anos 70, o sexo casual era a norma, drogas  recreativas eram rotina e a vida era bela. Sua turma - Jack Nicholson,  Warren Beatty e companhia - eram da pesada, famosos e charmosos, e a  mulherada fazia fila para transar com os caras. Mais novas ou mais velhas, nunca foi problema.

Polanski, bêbado e chapado, avançou o  sinal com Samantha - ou era a regra pegar meninas menores de idade? Eu desconfio que era e é a regra. No mundo do rock, teenagers perseguirem seus ídolos até a cama é trivial. E tenho certeza que  milhares de teenagers brasileiras dariam em um piscar de olhos para o  galã da novela ou mesmo o professor charmosão. E aí, exatamente qual é  o problema?

A revolução sexual dos anos 60 não aconteceu nos anos 60 - começou.  Mas ainda não chegou em vários cantos do mundo e mesmo onde chegou, ainda não foi devidamente absorvida. As sociedades, mesmo as mais avançadas, não se adaptaram do ponto de vista institucional às mudanças reais de comportamento das pessoas, jovens de então e jovens de hoje. A hipocrisia e o machismo ainda são muito fortes.

Preferimos  sempre tampar o sol com a peneira.  Essa história é exemplar. Polanski sabia o que estava fazendo, mas era  confortável pensar que não estava fazendo nada errado - todo mundo faz  a mesma coisa, certo? A menina sabia o que estava fazendo.

Tanto quanto uma menina de treze anos possa ter consciência do que está  fazendo. Mas não foi sequestrada e nem, pelo seu depoimento, forçada,  a não ser nos últimos minutos. A mãe dela sabia muito bem o que estava fazendo - deixou a filhinha sozinha com Polanski achando que eles iam  fazer o quê, pular amarelinha?  Todo mundo é culpado. Todo mundo é inocente. O mundo é complicado.  

E mais de trinta anos depois, o menino que escapou do gueto, hoje um velho coroado de glórias e admirado por seus pares, está numa cela.  Talvez Roman Polanski seja assombrado pelo epitáfio de seu filme mais  famoso, o momento que resume nossa impotência, dominados que somos por  pulsões primitivas, incapazes de lidar com a complexidade do mundo: 

“Esquece, Jake, é Chinatown.”

Publicado em 28/09/2009 às 20:21

Dia internacional do direito ao saber

Hoje, dia 28 de setembro, é o dia internacional do direito de saber. No mundo inteiro, quase 70 países já têm leis que garantem ao cidadão o direito de obter do governo qualquer informação de seu interesse sobre como o poder é exercido e o país é administrado. O mais antigo é a Suécia (1766) e entre os mais novos estão Guatemala (2008) e Rússia (2009).

No Brasil, esse direito fundamental permanece sendo um ilustre desconhecido. Até hoje, não temos uma lei desse tipo – muito embora estejam tramitando no Congresso dois projetos a respeito. Quarta-feira, na Câmara, haverá uma reunião para debatê-los. Veja aqui os países que já têm leis de acesso.

Publicado em 28/09/2009 às 14:30

Milionária bonita, famosa e divorciada, 25 anos, procura…

...algo para fazer com o resto de sua vida.

Hoje é o primeiro dia do resto da vida de Avril Ramona Lavigne, um quarto de século completado ontem. Ela fez mais em oito anos de carreira do que a maioria de nós na vida inteira.

São três álbuns, mais de 30 milhões de cópias vendidas, shows nos cinco continentes, três filmes, um perfume (Black Star), uma marca de roupas (Abbey Dawn, loja própria em Tóquio!). No total, faturou quinze milhões de dólares em 2008.

Avril é uma boa moça canadense, católica e interiorana, que começou cantando no coral da igreja.

Com 15 anos já tinha preparado a primeira fita de demo e sabia o que queria - rock! Foi adotada por um grande produtor de cara.

Estourou na primeira faixa do primeiro álbum. Uma questão interessante: o que você faz quando consegue tudo o que sonhava logo na primeira tentativa?

Ela virou a princesinha punk pop, espevitada, feminina mas perfeitamente enturmada com “os caras”.

Fez milhões de seguidoras - não só fãs, mas meninas que perceberam nela algo para ser, um modelo de comportamento a emular.

Mas os anos foram passando. E a espoleta Avril parecia regredir mentalmente. O álbum mais recente trazia a moça se fantasiando de menininha de 12 anos de idade. Os shows pareciam concurso de cheerleader.

O hit e clip Girlfriend reclamavam do menino e defendiam que ela, Avril, é que devia ser a nova namorada dele. Enquanto isso, Avril já tinha casado na igreja com outro roqueiro canadense, o vocalista do Sum 41, Deryck Whibley, e mudado para uma mansão em Bel Air.

É uma coisa que acontece muito. Meninas que chegam ao sucesso na adolescência e dela não conseguem sair. Até hoje Angélica, mãe de duas crianças, tem trejeitos de teenager. Mas não deve ser nada fácil ser Avril Lavigne.

Porque no campeonato das grandes vendagens, você concorre com divas superproduzidas com ambição e pinta de stripper, como Beyoncé, Shakira e cia.

Na profissão de compositora e performer, enfrenta gente que tem muito mais credibilidade que você (basicamente porque você ganhou muito dinheiro e os outros não). Mesmo que você toque vários instrumentos e fique muito bem carregando uma Telecaster.

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E na sua cola, vem uma infinidade de garotinhas que, sim, foram suas fãs e agora te substituiram no coração das teens - Miley Cyrus, Taylor Swift e por aí vai.

Resta fazer o que Avril está fazendo: prometer para este final de ano um álbum emocional, com fortes tintas acústicas. Lançar o disco com a gravação de uma faixa escrita pela própria Avril quando tinha 15 anos, Darlin.

E, torço, seguir o exemplo de outra canadense, dez anos mais velha, Alanis Morrisette: amadurecer sem se preocupar tanto em agradar os outros.

A adolescência é excitante, surpreendente, angustiante e todas as outras emoções limite que você quiser listar. Mas uma hora ela acaba.

E aí - quando você já sabe mais ou menos quem é e se sente confortável dentro da própria pele - é que a diversão começa de verdade.

Publicado em 26/09/2009 às 18:12

Repensando a Rainha do Pop

Uma das minhas primeiras memórias é de estar aninhado no colo da minha mãe, no sofá da sala da rua XV de Novembro. A cidade era Piracicaba, o televisor preto e branco, e o programa, A Família Trapo. Não estava sozinho. O país inteiro sintonizava no mesmo canal. Quando eu era criança, cultura pop no Brasil tinha nome e sobrenome: TV Record.

Foi nos anos 60 que os televisores finalmente se instalaram no centro das salas brasileiras. E nenhum canal era mais popular que a Record. Tinha a Famíia Trapo, o programa humorístico que todo mundo adorava. As piadas de Ronald Golias - Carlos Bronco Dinossauro! - rendiam pelo Brasil afora a semana toda.

Tinha o primeiro jornal televisivo que realmente impactava a opinião pública: Repórter Esso. Programas de auditório que arrasavam a concorrência: Esta Noite se Improvisa, Corte Rayol Show. Tinha transmissão de futebol e o primeiro Mesa Redonda, com Geraldo José. Novelas que davam assunto para nossas mães, como As Pupilas do Senhor Reitor.

A Record tinha Hebe Camargo, programa obrigatório do domingo à noite. Quem era alguém sentava no sofá da Hebe. Inclusive todos os artistas internacionais que visitavam o país. Todos os programas de música que importavam, que influenciavam os jovens, eram na Record. Jovem Guarda: Roberto, Erasmo e Wanderléa. O Fino da Bossa, com Elis Regina e Jair Rodrigues.

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Os grandes festivais que revelaram gente como Chico Buarque e a turma da tropicália. Tinha até seu próprio super-herói: o Capitão Sete. A Record, enfim, lançava as tendências, ditava as modas e dominava totalmente nosso imaginário. Era a rainha do pop.

Depois - bem, depois o mundo mudou. Quarenta anos depois, nenhum canal de televisão pode querer se arrogar a influência que a Record possuía na época. A razão principal é a internet. Que faz de cada um de nós produtor e consumidor de informação, entretenimento, questinamento - enfim, conteúdo.

A era da mídia de massa está morrendo a cada novo blog criado, a cada novo comentário postado, a cada visita ao Orkut, a cada busca. Isso é ótimo. O mundo que vai emergir desta transformação será radicalmente diferente do que o que vivemos. Porque sem mídia de massa, é impossível consumo de massa, economia de massa, política de massa. As consequências e as oportunidades são inimagináveis.

As grandes empresas de comunicação correm para demonstrar sua relevância no mundo novo. Quem não for importante na internet não sobreviverá. O projeto do R7 é muito interessante por várias razões. As duas que fazem mais diferença: um, o R7 entende que a internet - que não é e jamais será uma mídia de massa - pode e deve ser popular e atingir e atender a todos. Dois, o R7 pretende integrar organicamente o portal e os canais da Record.

Já critiquei muitas vezes o fato da internet brasileira ser habitualmente pensada como um veículo de mídia impressa, dirigida a Classe AB. Mas estão me dando a chance de ir além da crítica, então vou. Prefiro ser estilingue, mas depois de uma certa idade as vidraças ganham lá seu charme.

Por isso, quando fui convocado para trazer meu blog ao R7, ficou difícil dizer não. “Você vai ser o cara da cultura pop”, me disseram. Aceitei e avisei que minha definição de pop é bem ampla. Sou seguidor de Marcel Duchamp: cultura pop é tudo que eu chamar de cultura pop. Inclui tecnologia, política, mídia, economia, sustentabilidade. Inclui música, cinema, TV, livros e gibis. Inclui diversão fútil, crítica destrutiva e obsessões pessoais.

É preciso deixar claro que cultura pop é sempre a favor: refrão, sedução, esperteza e marketing. Seu lado b é a cultura rock, que é sempre do contra: rebeldia, perigo, coragem sem limites. Uma não vive sem a outra. Porque vivemos na tensão permanente entre pertencer e abandonar, entre aquietar e peitar, entre construir um ninho e incendiar todos os castelos.

Agora, a novidade: este blog vai avançar muito em pouco tempo. Porque passa a contar com o suporte de uma editora, Juliana Zorzato, e de um consultor, Marcelo Soares. Juliana vem de dois anos em uma revista de tecnologia. Marcelo é bamba da reportagem investigativa e interativa. Juntos, nós três pretendemos fazer - um, dois, três, respire fundo e mergulhe - jornalismo de internet. Interativo, colaborativo e experimental.

O que significa: colaboração, pensamento coletivo, gráficos, mapas, vídeo, planilhas e quantas ferramentas aparecerem que permitam a reinvenção do jornalismo.

Nosso papel é repensar como se faz jornalismo na internet. Com dados surpreendentes e opinião contra a corrente. Vamos falar muito sério sobre besteirinhas e da maneira mais leve possível sobre temas seríssimos. E estimular a participação de quem pode e quer participar.

Porque entendemos que um artigo publicado na internet só está “pronto” depois que foi postado, comentado, twittado, depois que repercutiu e gerou outras pautas, outras discussões. É um círculo que se completa. A Record foi fundamental para moldar minha compreensão do que é cultura pop, tantos anos atrás. Agora me oferece uma oportunidade única. De repensar o que é jornalismo, de repensar a cultura pop e de me repensar.

A missão inicial é te converter para à nova realidade sobre as grandes empresas de comunicação. Que é: nós ganhamos. Nós chegamos lá. Nós não podemos mais ser contra a mídia porque agora nós é que somos a mídia. Os loucos tomaram o asilo. Os anunciantes precisam de nós, as grandes corporações precisam de nós. Temos que lidar com isso. O que é bem mais fácil do que parece.

Os jornais e tevês e revistas e portais, tudo isso pode ser muito maior e melhor que é. A mídia de massa pode ser útil. É uma arma como qualquer outra. Tudo depende de para onde você a aponta. E quem puxa o gatilho. Agora somos nós.

Publicado em 26/09/2009 às 07:00

O estudo não compensa

Todos os experts concordam: o Brasil precisa é de educação. Há dez dias, um professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) afirmou que as diferenças educacionais explicam 40% das diferenças de renda entre os brasileiros. Para cada ano na escola a renda futura do estudante seria 16% maior.

Quer dizer que quem estuda mais ganha mais? Não. A FGV prova que quem estudou (no passado) ganha mais (hoje) do que quem não estudou. O resto é empulhação eleitoral e marketing de cursinho. Para o jovem brasileiro em 2002 o crime compensa muito mais que o estudo. Existem duas razões para isso. A primeira é que o Brasil tem se mostrado um país pouco inteligente. A média de estudo para a população acima de 15 anos é de 4,9 anos, na rabeira do planeta. A educação brasileira em todos os níveis é uma porcaria.

Quanto a nossas melhores escolas e universidades e seus formandos, atenção para o novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento e seu Índice de Avanço Tecnológico. É uma síntese de oito indicadores diferentes que representam a capacidade de inovação de cada país, o que cada um tem a contribuir para a humanidade. Ganha o país mais inteligente. O Brasil instruído ficou em 43o.

A segunda razão é que não basta ter diploma, o diploma tem de render uma boa grana. Nações muito bem educadas já jogaram seus melhores cérebros na rua, da União Soviética à Argentina. Resta a eles engolir a frustração mal remunerada ou tentar debandar para países ricos. Aqui, igual. Piora cada vez mais a vida do brasileiro educado, viajado e bilíngüe. Boa parte está desempregada ou vegetando em frilas e subempregos. Está apelando também. Big Brother é exemplar: entre jovens brancos de classe média vale tudo por R$ 500 mil (até entrar para a indústria do sequestro, cujos mandantes são os criminosos com maior índice de escolaridade).

Com tudo isso, é espantoso que tantos brasileiros insistam em estudar. Principalmente os que têm de trabalhar também. O universitário favelado do Rio de Janeiro, por exemplo, tem renda equivalente à metade da média dos universitários da cidade (nem compare com os da Barra). É muito mais natural para os mais pobres se garantir no crime. Um estudo em 51 favelas cariocas deixa muito claro.

Acima dos 15 anos de idade, 20% dos favelados são analfabetos, mas o restante é quase: só 15% cursaram o ensino fundamental. Os salários dos meninos olheiros dos traficantes chegam a R$ 1.200 mensais. Compare com os bairros mais pobres de São Paulo, onde o salário médio do chefe de família é R$ 450. Já está achando que o crime compensa? Pois saiba que na periferia paulistana 41% dos homens entre 15 e 19 anos não freqüentam escola e um terço entre 18 e 24 anos está desempregado.

E as meninas? Vida dura também. Na periferia paulistana 12% das garotas entre 14 e 17 anos são mães. Nas favelas do Rio metade das meninas entre 15 e 17 anos não estuda nem trabalha. Opção financeira mais rentável? Tráfico. Ou descolar um gringo em Copacabana. Seguindo as regras clássicas da especulação financeira, no crime vale a regra de quanto maior o ganho maior o risco.

Na década de 70 o típico preso no Estado de São Paulo era casado, tinha 27 anos e alguma formação profissional. Hoje mais de um terço tem entre 18 e 25 anos e escolarização pífia. Entre o estudo e o crime existe sempre a possibilidade do extermínio. Segundo o Ministério da Saúde, de 1981 a 1989, 59 mil brasileiros entre 15 e 24 anos foram assassinados. Subiu para 112 mil entre 1991 e 1999. Hoje, nas capitais brasileiras, 43% das mortes entre jovens de 15 a 24 anos são assassinatos. Boa parte dos jovens morre pelas mãos de jovens. O restante fica para a própria polícia, que pouco diferencia o estudante do criminoso.

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