Posts com a categoria: Política

Publicado em 13/02/2017 às 15:35

Avaliação de Doria tem maioria de “péssimo”,”ruim” e “regular”

O prefeito de São Paulo começou mal. Com um mês de mandato, a maioria dos paulistanos não vê de maneira positiva a gestão Doria. É o que diz a nova pesquisa Datafolha.

 Avaliação de Doria tem maioria de péssimo,ruim e regular

João Doria versão gari (Foto: Brazil Photo Press/Folhapress)

Segundo o levantamento, para 13% dos os paulistanos, a gestão é ruim ou péssima e para 33% é regular. É um total de 46%. Outros 44% dizem que é boa ou que é ótima. Dez por cento não opinaram.

Entre os mais pobres, com renda familiar até dois salários mínimos, Doria tem reprovação maior. Só 35 dos paulistanos mais pobres aprovam o prefeito. Já entre a elite, quem ganha mais de dez salários mínimos, Dória tem aprovação de 66%.

Todas essas informações, e outras, estão em uma matéria da Folha que tem o seguinte título: "Maioria aprova programas de Dória, e só 13% reprovam início da gestão". Ele está correto. O meu também.

A íntegra da matéria da Folha está aqui.

Doria foi eleito em primeiro turno há três meses com 53,29% dos votos válidos. Tem o apoio dos governos estadual e federal e simpatia da imprensa. Está gerando factoides todos os dias, posando de gari, cortando grama, em cadeiras de rodas etc, tudo que for possível para aparecer positivamente na mídia. Vem até sendo citado como forte candidato a governador em 2018. Talvez até algum dia presidente da República!

E mesmo assim tem uma minoria aprovando Dória. Um terço, 33%, dá de ombros, gestão "regular". É uma performance decepcionante. E ainda nem deu tempo de acontecer o desgaste do tempo, das expectativas frustradas, que vai minando toda gestão. O que acontece?

Uma análise possível: a vitória acachapante de Dória não foi a vitória acachapante de Dória. Foi a derrota acachapante de Haddad, que fez uma administração medíocre, e do PT, há anos enxovalhado sem dó pela mídia e Lava-Jato (e fez bastante por merecer).

A maioria não votou para Dória. Votou contra Haddad e o PT. Dória mantém a admiração de muitos eleitores, e mais ainda dos mais abonados. Mas a maioria dos paulistanos não está lá muito impressionada.

O tempo dirá se Dória vai aprender que uma empresa e uma cidade são coisas bem diferentes. Que os paulistanos não são consumidores, nem acionistas. Somos cidadãos. E seremos mais cidadãos ainda quando deixarmos de ler só os títulos das matérias, e sair compartilhando qualquer coisa nas redes sociais. Se vale a pena ler, vale a pena ler com atenção, analisar e pensar por si próprio.

E vale a pena lembrar sempre da lição do economista Roberto Campos, que dizia: "Os números são como o biquíni. Sevem para esconder o essencial."

http://r7.com/Z9bA

Publicado em 11/05/2015 às 17:52

A epidemia de dengue tem uma solução muito simples. E qualquer outra é repelente

a91a5456075807abd519d2760a0eea28 A epidemia de dengue tem uma solução muito simples. E qualquer outra é repelente

Tem desgraça que a gente bota na conta do governo. Tem desgraça que não. Desemprego a gente culpa o presidente. Rua esburaqueada, o prefeito. Governador escapa mais fácil. O que exatamente é responsabilidade do governador do estado? Ninguém sabe direito.

Seca e inundação é sempre culpa lá da madrasta natureza. Falta água em casa porque está chovendo pouco. A enchente levou minha casa porque choveu demais.

Antigamente as epidemias também eram tratadas assim. Na idade média, quando batia a peste negra, era castigo dos céus. Ou vapores invisíveis, alinhamento planetário, aprontada de malévolos estrangeiros, qualquer coisa misteriosa. Menos o que era mesmo: miséria, porcaria, rato, mosquito.

Estamos em 2015. Sabemos muito bem o que causa epidemia. Felizmente a humanidade já foi capaz de exterminar várias e controlar outras. Nesses casos é porque inventamos vacina. Vacina combina com o modo de político lidar com qualquer problema. É de cima para baixo, gastando muita grana, ditando ordens e é isso aí. O governo compra anualmente milhões de doses, e ai do pai que não levar os filhos pra tomar vacina.

Não existe vacina para dengue. Coisa de país subdesenvolvido, pô. Pra quê os laboratórios vão investir em vacina pra miserável? Malária também não tem. Já calvície parece que está pertinho de aparecer o tratamento definitivo.

O Brasil é um país rico com muita pobreza. Mosquito não quer saber se você tem carro importado na garagem. Voa do Capão Redondo ao Morumbi rapidinho. Infecta miseráveis e milionários. Morrem miseráveis, milionários não.

Os especialistas não cansam de explicar que existem três maneiras de enfrentar a dengue. Primeiro, as autoridades têm que borrifar as cidades. É responsabilidade de cada prefeitura. Não cumprida, naturalmente. Detalhe importante: não adianta dar só uma borrifadinha antes do verão, porque agora faz calor no inverno, frio no verão. O clima anda muito doido (e vai ficar cada vez mais louco, com o famoso aquecimento global, igualmente responsabilidade do poder público, nesse caso em nível global).

Os ovos do mosquito Aedes Aegypti se multiplicam na água parada. E no Estado de São Paulo a gente está guardando muito mais água, porque não tem água na torneira, né? Problema também de gestão pública, neste caso estadual. E também sem previsão de solução.

Se prefeituras e governos estaduais não fizeram seu serviço em 2014, ano de relativas vacas gordas, imagine em 2015. Com orçamentos apertados e ajuste fiscal? Vai sonhando.

A questão é que mosquito não conhece fronteira, e a epidemia de dengue finalmente está se tornando nacional. E o Ministério da Saúde finalmente terá que lidar com a dengue em termos nacionais. Com ajuste fiscal ou não.
Quer proteger sua família da dengue, minha amiga? A solução que restou é comprar repelente e esfregar três vezes por dia.

Se você for dar uma caprichada, um tubinho de repelente dura uns três dias. O preço médio é R$ 15,00. Para o mês inteiro, você vai gastar R$ 150,00 em repelente. Numa casa com um casal e dois filhos, são R$ 600,00 mensais.

Considerando que nossos poderosos não fizeram a obrigação de evitar que essa epidemia começasse, agora o mínimo que têm a fazer é pagar pela burrada, e não empurrar a conta pra gente. Até porque 90% das famílias brasileiras não têm condição de desembolsar R$ 600 por mês pra fugir de mosquito, então vão pegar dengue. É mais criança e velhinho morrendo. É mais força pra dengue se alastrar.

Em outras épocas talvez se considerasse a criação da Dengue-brás. Em época de operação Lava-Jato, ficou difícil.

O que resta é a criação do Bolsa-Dengue. Mesadinha de R$ 150,00 para cada brasileiro se lambuzar de óleo anti-mosquito. São trinta bilhões de reais por mês. Qualquer outra solução é repelente.

Publicado em 30/04/2015 às 18:16

A violência no Paraná era inevitável. Vamos parar de culpar a PM. E declarar guerra a quem merece

 A violência no Paraná era inevitável. Vamos parar de culpar a PM. E declarar guerra a quem merece

A função do militar é ganhar a guerra. Para isso ele é ensinado a ver o mundo em preto e branco. O nosso lado e os inimigos.
Líderes de verdade, civis ou militares, sabem: a guerra é o inferno. Em guerra, ambos os lados vão cometer injustiças terríveis. Inocentes vão sofrer, talvez morrer. É inevitável.
Os discursos bonitos sobre guerra e paz e regras e comportamento ético são só discursos. Na prática, na guerra vale tudo. O maniqueísmo é fundamental. É preciso desumanizar o inimigo. Você jamais pode se colocar no lugar do outro. Atrapalha a mira.

Os soldados da Polícia Militar são isso: soldados. A maioria tem pouca educação, pouco treinamento, baixo salário, nenhum horizonte. São doutrinados para pensar em termos de nós e eles. Matam muito. Sem punição. Ué, porque deveriam ser punidos por matar os inimigos? Não o Brasil não está em uma guerra contra o crime?

Não. O crime, organizado ou pé-de-chinelo, é um problema civil. É um ato que vai contra a lei civil, julgado pela justiça civil, que tem que ser enfrentado com métodos civis. O que têm militares a ver com enfrentar o crime? Absolutamente nada.

E o que militares têm a ver com enfrentar manifestantes? Menos ainda. Porque um soldado é treinado para olhar um manifestante desarmado e ver o inimigo. Nem passa pela cabeça de um PM se negar a descer o sarrafo nos caras que protestam. Está lá para isso. Mesmo que discorde, obedece, porque obediência é o elemento fundamental da disciplina militar.

A grande surpresa de Curitiba foi que 17 policiais se negaram a avançar sobre os manifestantes. O governo paranaense informa que serão exonerados. Faz todo sentido. Assim é a disciplina militar.

Li uma vez em algum lugar que é a melhor medida para ver se um país é avançado é ver se ele paga bons salários tanto para os professores como para os policiais. Não sei quem disse, mas ficou. Aqui ambos ganham porcaria.

O movimento dos professores paranaenses é justamente por salários melhores. Quando vi os vídeos da polícia avançando nos professores, lembrei na hora do que li, e pensei: é um braço do povo batendo no outro.

A PM não é o bandido dessa história. A PM é um instrumento. Uma arma na mão de outros, que puxam os gatilhos. Uma coisa importante sobre guerras: quem vence escreve a História. Quem perde é julgado por seus crimes de guerra. Mas não é foi soldadinho raso lá na ponta, que ajudou a colocar inocentes na câmara de gás, que foi julgado em Nuremberg. Foram os mandantes, os nazistas graduados. Mesmo que pessoalmente nunca tenham matado ninguém.

Fazer os mandantes pagar pelos crimes dos mandados não é exatamente justiça perfeita, mas é educativo. Ensina: em guerra, quem manda matar tem tanta sangue nas mãos quanto quem executa ordem. E mais responsabilidade.

As Polícias Militares são Estaduais. O comandante máximo é o governador do Estado. No Paraná, Beto Richa. Pelas regras da guerra, seria lógico que respondesse criminalmente pelos atos da PM contra os professores em Curitiba. Centenas de feridos, alguns muito graves.
Se nesse caso Beto Richa respondesse por agressão, Geraldo Alckmin responderia por homicídio. A PM paulista está matando mais que nunca. No primeiro trimestre de 2013, a PM matou 67 pessoas. No mesmo período de 2014, 157. No primeiro trimestre de 2015, policiais militares mataram 185 pessoas. Isso são os números oficiais. E quantos PMs morreram em São Paulo no mesmo período? Quatro.

Estamos em guerra? 185 mortos de um lado, quatro do outro... Sempre a mesma história, “troca de tiros”. Um monte de casos muitíssimo mal explicados. A violência é exclusividade da Polícia Militar? Praticamente. A Polícia Civil paulista no primeiro trimestre de 2015 matou nove pessoas, um vigésimo do que a PM.

A população sente que o bicho está pegando. Quando morre um PM, a corporação revida passando a régua. Morreu um policial, o povo já está no Whatsapp decretando toque de recolher. Quem der mole na periferia à noite arrisca levar um tiro. Depois é aquele papo, “reagiu”. E com tudo isso, os índices de criminalidade continuam altíssimos.

Não é questão de Richa ou Alckmin, nem do partido esse ou aquele. É como o país é. É igual em todos os estados. Com a conivência do governo federal, da Justiça, das otoridades em geral. No máximo pune-se algum PM que exagerou e foi pego, ali no rés do chão. E lá nas alturas tudo segue como de costume.
Brasileiro sabe há 515 anos: bacana aqui sempre sai na boa. Lendo as manchetes sobre a Operação Lava-Jato, muita gente botou fé que o Brasil começa a mudar. Escrevi aqui há meses que a Lava-Jato já acabava em pizza antes de começar.

Melancólico conhecer tão bem nosso país. Ontem mesmo os STF mandou mandantes da Lava-Jato para casa. Com isso, se evitam novas delações premiadas, novas acusações, se contém o estrago, e vamos logo voltar ao esqueminha normal. Pátria educadora ensina: roube cem reais e vá em cana. Roube cem milhões e vá para sua mansão usando tornozeleira.

A Polícia Militar é criação da ditadura militar. Naquela época era proibida a crítica, a manifestação e o voto. O regime de 64 foi enterrado há vinte anos, e ainda hoje este restolho da ditadura continua por aí. Por quê? Porque nós permitimos isso. Fomos nós que votamos nestes governadores, nos deputados integrantes da “bancada da bala”.
Porque, nós, brasileiros, somos ignorantes. Nossas escolas são uma porcaria. O investimento em educação no Brasil é ridículo, comparado com qualquer país mais ou menos. Os professores do Brasil são tão despreparados e desvalorizados quanto os policiais.

A solução passa por acabar com a PM. Ou pelo menos desmilitarizar a PM. Tanto não é nenhuma heresia que muitos policiais militares defendem isso. Sociedade civil, polícia civil, e Forças Armadas para lidar com tretas externas. Se é que precisamos de Forças Armadas – outro assunto para outro dia.
Se queremos um país decente, temos que valorizar quem cuida da nossa educação e da nossa segurança. Professores e policiais têm que merecer nosso respeito, inclusive para podermos cobrar deles a performance que precisamos. No sistema capitalista, nada diz “respeito” tão alto quanto bons salários. Enquanto isso não muda, o sangue vai continuar correndo.

Vamos mudar? A quem interessa manter professores e policiais no estado de hoje? A quem interessa manter uma força militar dedicada exclusivamente a lidar com problemas civis? Quem ganha com a manutenção do nosso povo neste estado de ignorância e terror? Não é você nem eu. Nem os policiais. E muito menos os professores.

Vamos parar de usar o termo “violência da PM”. Eles pensam que estão em guerra. Foram treinados para isso, lavagem cerebral. Vamos atrás de quem se beneficia com este estado de coisas. Vamos à raiz do problema e vamos arrancá-la. Guerra por guerra, escolhamos a nossa. Declaremos guerra não aos executores, mas aos mandantes da violência - tão nossa, tão triste, tão brasileira.

http://r7.com/_m1h

Publicado em 02/04/2015 às 07:00

Com a redução da maioridade penal, a violência não vai diminuir – vai aumentar

001987 imgN G Com a redução da maioridade penal, a violência não vai diminuir – vai aumentar

Desperdício de tempo discutir se a redução da maioridade penal é certa ou errada. Certo e Errado é subjetivo. Lei tem que ser construída sob solo mais sólido. O que funciona e o que não? E se funcionou em outro lugar, vai funcionar aqui?

Vamos falar da experiência internacional. E vamos falar de dinheiro.

A maioridade penal foi importante em algum país para diminuir a criminalidade? A resposta é não. Na lista dos 53 países mais seguros do mundo, a maioridade é de 18 anos em 42 deles. O único país rico que pune como adulto os jovens é os Estados Unidos. Justamente o país rico com os maiores índices de criminalidade.

Países diferentes fizeram experiências diferentes para diminuir o crime. Algumas deram certo. Outra não. Punir adolescentes como adultos não funcionou. A razão é simples. Criminoso nunca acha que vai ser pego. Adolescente menos ainda. Têm certeza que podem aprontar impunemente. Os hormônios em erupção garantem a eles: somos invencíveis, invisíveis e imortais. Se ameaça de punição evitasse o crime, nossas cadeias não estariam cheias. Nem as dos americanos.

No tráfego, basta os chefes que hoje usam a molecada de 16 anos como olheiro e avião passar a usar meninos de 11 ou 12. Molequinho pobre precisando descolar algum não falta...

Tem um argumento mais poderoso ainda. De uma pessoa que tem experiência lidando com menor infrator. Garante que a violência vai aumentar, não diminuir. E custar rios de dinheiro, dinheiro nosso, do contribuinte. Em um ano que o governo corta investimentos na segurança, na saúde, na educação.

Ana Luísa e eu somos amigos de longe faz tempo. Só nos falamos pela internet. Somos fãs de algumas coisas em comum, rock, rock velho.
Ana trabalha no Ministério Público de São Paulo. Tem muita experiência com jovens criminosos. Leniência zero. Sabe que não dá para brincar com bandido, tenha 15 ou 50 anos.

Escreveu e publicou no Facebook um texto muito impressionante sobre o tema. Só uma pessoa que está na linha de frente para ter uma visão tão clara sobre o tema. Pedi sua autorização para republicar aqui. Por favor: leia o depoimento de Ana Luísa antes de decidir sua opinião sobre a redução da maioridade penal.

“Com a redução da maioridade penal, vamos precisar de uma nova estrutura, que vai demandar:
- número maior de policiais
- de escreventes judiciais
- de juízes
- criação de novas Varas Criminais e Varas cumulativas (nas Comarcas em que Varas não especializadas cumulam processos criminais e cíveis)
- ampliação do espaço físico de delegacias, tanto para acomodar inquéritos como maior carceragem
- ampliação do espaço físico em fóruns (a digitalização das Varas anda a passos de tartaruga; o papel ainda é o suporte físico dos autos em grande parte do país)
- criação e ampliação de presídios
- contratação de carcereiros, faxineiros, serviços de manutenção, de fornecimento de alimentação, etc.

Traduzindo: GASTO DE MUITO DINHEIRO. Dinheiro que o país não tem, né. Alguém acredita que Dilma e Alckmin vão liberar verba para construir penitenciária? O que fazer então para acomodar a crescente população carcerária? Enfiar adolescentes em espaço no qual já quase não cabem presos? Não.

E dá-lhe indulto pra soltar então os presos mais antigos (muitas vezes bandidos já graduados e imunes à ressocialização) para colocar no lugar adolescentes.

Que talvez pudessem ser ressocializados se permanecessem longe da convivência maléfica com bandidos experientes.

E se você foi vítima de um crime e aguarda ansioso que o processo criminal seja logo julgado, com a condenação da pessoa que lhe fez mal, pode esperar sentado. Com as Varas estouradas, fique satisfeito se, em dois, três anos, com otimismo, for protelada a sentença de primeiro grau (o que não significa punição e fim do processo. Pode haver recurso). Será sorte.

Porque um número assombroso de crimes vai prescrever por decurso do prazo legal dentro do qual é permitido o julgamento. Em uma palavra: impunidade.

A criminalidade vai aumentar, não diminuir. Gente mais perigosa solta; gente menos perigosa presa".

Publicado em 25/03/2015 às 19:45

Jean Wilys quer legalizar o aborto. Talvez ele não saiba a única diferença entre a vida sexual das mulheres ricas e das pobres

jean wyllys no poder e politica 1329848240282 1920x1080 1024x576 Jean Wilys quer legalizar o aborto. Talvez ele não saiba a única diferença entre a vida sexual das mulheres ricas e das pobres

“Não tem televisão naquela casa.” Era a piada que se fazia antigamente quando o casal tinha um filho atrás do outro. Falta de TV para distrair no sábado à noite, o casal ia lá e pimba – lá vem mais um bebê.

Hoje toda casa tem TV. E a fertilidade vem caindo. Mas no mundo todo as mulheres pobres continuam tendo muito mais filho que as mulheres ricas. Por quê?

No Brasil, não sabemos. Nos Estados Unidos, agora eles sabem. Uma pesquisa do Brookings Institute acompanhou durante um bom tempo 3.885 mulheres que não tinham plano de engravidar. Conclusão: mulheres pobres têm cinco vezes mais chance do que as ricas de ter um filho sem ter planejado.

O que isso tem a ver com a vida sexual de umas e outras? Essa é uma boa surpresa da pesquisa: nada. As classes abastadas e as apertadas se comportam da mesma maneira na cama. Ricaças e remediadas transam mais ou menos o mesmo número de vezes por mês.

Número de parceiros diferentes também não tem a ver com a conta bancária. E a mulher americana média tem uma vida sexual ativa por dez anos antes de se casar. Também nisso classes A e E se assemelham.

O que varia loucamente entre ricas e pobres? Adivinha: dinheiro. É a capacidade financeira de evitar a gravidez. Por exemplo: a taxa de gravidez entre as mulheres que usam DIU é 0,08%. Camisinha é 12%. Camisinha é barato. DIU custa mil dólares para mais nos EUA.

Uma conclusão cruel do instituto Brookings: a desigualdade começa antes do nascimento. Se sua mãe é rica e você é filho único, terá muito mais oportunidades na vida do que se fôr um de quatro irmãos de uma mãe pobre.

Por isso este é um problema que vai além da vida particular de cada um, das escolhas de cada indivíduo. Tem um impacto social brutal. Econômico também, para o país como um todo. Se de um lado falta dinheiro para as mulheres pobres evitarem a gravidez, custa bastante para o governo lidar com tanta criança indesejada. São 21 bilhões de dólares anuais do contribuinte americano gastos com isso.

Os números da pesquisa gritam. Quantas mulheres pobres tiveram uma gravidez no último ano? Nove por cento. Ricas? Três por cento. E quantas crianças nasceram? As mulheres ricas fizeram mais abortos: 32% abortaram propositalmente no último ano, contra só 9% entre as mais pobres. O aborto nos EUA é lei. Mas a aplicação desta lei e a disponibilidade do procedimento depende de legislação local. E o custo também varia, claro.

E no Brasil? A diferença entre mulheres ricas e pobres deve ser infinitamente maior, considerando que o aborto aqui é criminalizado. Outro dia mesmo um médico denunciou à polícia uma moça que tinha feito um aborto. No Brasil quem tem dinheiro faz aborto com todo conforto e segurança, com ótimos médicos em clínicas confortáveis. Quem depende do SUS que corra da polícia.

É essa diferença entre classes que o novo projeto de lei do deputado Jean Wyllys pretende enfrentar. O PL 882/15 prevê a legalização do aborto até 12 semanas de gravidez, se a mulher assim o quiser.

O projeto será muito debatido. É bom que seja mesmo. Mas vamos desde já desqualificar as críticas cretinas. Ainda é muito comum comentários do tipo "essa mulherada fica tendo um filho atrás do outro pra ganhar Bolsa-Família." É preconceito de classe e é estupidez, nos EUA e no Brasil.

Talvez o deputado do PSOL não saiba desta pesquisa, que demonstra que a vida sexual das americanas e pobres é igual. Te empresto o argumento, Jean. Como o Brasil adora se espelhar nos Estados Unidos, pode ser um cala-boca nos críticos mais truculentos.

Conheço (e discordo) de gente ótima que é contra a legalização do aborto no Brasil. Mas aqui nem discuto o aborto em si. O problema é maior e começa bem antes. Com a diferença de tratamento entre classes, nos EUA, aqui, em qualquer lugar. É uma praga a ser combatida em todas as frentes.

Passou a hora de mudar a lei e corrigir essa injustiça. A mulher que engravida sem planejar e decide ter a criança, que tenha. E quem decidir pelo aborto, que possa fazer isso com segurança, sem risco para sua saúde. Sendo rica ou pobre.

http://r7.com/ubIj

Publicado em 18/03/2015 às 00:00

Quem ganha com a privatização da Petrobras?

petrobras 1024x680 Quem ganha com a privatização da Petrobras?

Em 2009 uma pesquisa com 30 mil universitários brasileiros perguntou: qual a empresa em que você sonha trabalhar? Deu Petrobras na cabeça, pelo quarto ano seguido. Na frente do Google, Ambev, Natura. Como o mundo muda.

Mais importante: como o mundo muda? Mudando a cabeça das pessoas.

A Petrobras de 2015 tem a mesma capacitação de 2009. A mesma tecnologia de ponta. Paga os mesmos salários e benefícios, ajustados. Tem mais reservas que seis anos atrás. Por dentro, mudou pouco a Petrobras.

A encrenca veio de fora. O preço do petróleo despencou, o que não teve nada a ver com a Petrobras. Foi uma manobra da Opec, comandada pela Arábia Saudita. Os sheiks jogaram o preço lá embaixo para manter sua fatia de mercado e inviabilizar economicamente a crescente indústria do xisto nos Estados Unidos. O xisto pode fazer os EUA independentes energeticamente. Seria terrível para a Opec.

Depois, Operação Lava Jato. Conhecemos os funcionários que corroíam as entranhas da Petrobras, a soldo das maiores construtoras do país. Novidade nenhuma. Onde tem dinheiro correndo, tem picareta cobrando pedágio. No mundo estatal e privado. Mas dessa vez os procuradores pegaram, dessa vez a imprensa expôs, dessa vez era uma montanha de dinheiro.

E dessa vez, muito importante, tudo aconteceu sob os olhos do governo, e de um governo petista. Da própria presidente da República, antes ministra da Casa Civil e das Minas e Energia, anos e anos no conselho da Petrobras.

E assim chegamos a um 2015 impensável seis anos atrás. Com a Petrobras operando em meia-bomba, valendo uma mixórdia, dando calote em fornecedores, sem balanço publicado, incapaz de captar recursos. Petrobras agora é sinônimo de lambança e ladroagem. É um buraco sem fundo de dinheiro público! Você sabe a única solução para essas estatais ineficientes, né?

A Petrobras não era perfeita em 2009. Era arroubo nacionalisteiro e propaganda oficial. Também não é uma cabeça de porco em 2015. Água mole em pedra dura vai moldando a opinião pública.

José Serra empinou o balão de ensaio em uma entrevista há duas semanas. A saída, disse nosso quase-presidente por duas vezes, é vender uns pedaços da Petrobras.

Depois disso o dólar explodiu. O crédito para as empresas secou. Graúdos de vários partidos se viram envolvidos na Lava Jato. Sexta passada: protesto pró-Dilma, mas contra o arrocho defendido por seu ministro. No mesmo dia o boato em Brasília: se o Congresso não aprovar o ajuste fiscal, Levy sai e a casa cai. Domingo, o eleitorado de Aécio foi pra rua gritar contra a corrupção na Petrobras e pedir a cabeça de Dilma.

Terça, furo de Raquel Landim e David Frielander na Folha. O governo planeja vender partes da Petrobras.

É conspiração privatista? Não, é a nova ordem mundial. A demanda energética do planeta vai dobrar – talvez triplicar – nas próximas décadas. Depende de quantos bilhões de miseráveis vão passar ao status de remediados, em lugares como China e Índia. E Sudeste Asiático. E África! E, porque não, aqui mesmo na América Latina. Os pobres vão querer eletricidade, imagine só.

Tirando um ou outro país sortudo como o Brasil, eletricidade vem de combustível fóssil. A energia pra toda essa gente não virá de usinas nucleares, ecologicamente incorretas. Nem do sol ou do vento, economicamente inviáveis, por decisão da política, mais que da economia. Essa energia virá do petróleo – gasolina, diesel, gás natural. É um imperativo institucional. O óleo negro lubrifica as relações entre os poderosos.

Daí a liberação do xisto nos EUA, passando por cima de todas as objeções ambientais. E daí a ocupação militar americana no Oriente Médio, guerra do Iraque, demonização do Irã. É por isso que a Opec resolveu vender barato o que vendia caro, jogando fora bilhões. É por isso que as paraestatais petrolíferas de Rússia e China cooperam e competem na Eurásia.

No nosso canto, o presidente mexicano Peña Nieto está sob pressão para privatizar a estatal Pemex. Porque, veja só, estão aparecendo lá muitas denúncias de corrupção. A miserável Venezuela é pintada como se grande ameaça de desestabilização na América Latina, e Maduro, antes Chávez, como se fossem o diabo. País com reservona de petróleo sob controle estatal é alvo certo no grande jogo energético do século 21, jogado em décadas, não mandatos.

Nosso Brasilzinho às vezes parece que nem faz parte desse mundão da geopolítica. Mas é só olhar o mapa-mundi e ver nosso território com olhos de gringo. É um Brasilzão. E tem óleo embaixo de toda essa terra.

Não precisa ser repórter para saber que a primeira pergunta que se faz em situações como essa é “Quem se beneficia?”. Ou, como ensinou o informante Garganta-Profunda aos repórteres que investigavam o escândalo de Watergate: “Sigam o Dinheiro”.

Segundo Raquel e David, a Petrobras pretende diminuir a necessidade de investimentos para extrair o petróleo. E reduzir ou até sair de duas áreas de atuação: a distribuição de gás e a geração de energia em termoelétricas.

Quem se beneficia com a destruição da imagem da Petrobras e sua privatização, inteira ou aos pedaços?

Ganham multinacionais do setor energético. Comprarão fatias da Petrobras a preço de banana. Quanto mais subir o dólar, melhor, que compram mais barato ainda. Ganham governos estrangeiros conectados com estas empresas, oficial ou oficiosamente.

Ganham as grandes construtoras brasileiras que hoje não podem fornecer para a Petrobras, por causa da investigação da Lava-Jato. Estarão perfeitamente aptas a prestar serviços para as novas empresas. Essas construtoras são os maiores financiadores de campanha eleitoral, de todos os partidos. Donde todos os partidos têm interesse de terminar esse imbróglio logo.

Ganham nossos políticos. Petrobras paralisada é pré-sal intocado. Ruim para quem já tinha planos para esses royalties. Muitas das cidades que serão mais beneficiadas estão no Rio, território de Eduardo Cunha. O presidente da Câmara tem longo relacionamento com as indústrias de energia e de construção.

Vale lembrar também que nossa Pátria Educadora conta com os recursos do pré-sal para turbinar o orçamento da Educação. Prioridade número um do segundo mandato de Dilma, segundo a própria.

E quem ganha imediatamente com a privatização da Petrobras? A reportagem da Folha já cita os bancos que auxiliarão a Petrobras a vender seus ativos.

A Petrobras é dona de 21 termelétricas. Para passá-las nos cobres, teremos a colaboração do Bradesco BBI. Que também venderá um pedaço a ser definido da Petrobras Distribuidora, dona da marca BR, rede com mais de 7500 postos no Brasil.

A Petrobras também tem algumas centenas de postos de gasolina na Argentina, Uruguai, Paraguai e Colômbia. E distribuidoras de gás pelo Brasil afora. Nos dois casos, contaremos com o apoio do Itaú BBA para nos livrarmos delas.

E para não ter que investir em extração a Petrobras também já cogita vender alguns blocos de petróleo propriamente dito. Está cotado para esse papel um banco estrangeiro. A Folha cita o Bank of America Merrill Lynch.

Para quê convocar um banco global? É para encontrar um comprador de fora do Brasil. Mesmo com o Real tão fraquinho, só empresas estrangeiras têm bala para desembolsos desse tamanho. Vale procurar os chineses da China National Petroleum Consortion. A CNPC já é sócia da Petrobras no Campo de Libra, a maior reserva do pré-sal... e falando em bancos globais, vale lembrar que em 2014 o Goldman Sachs recomendou privatizar não só a Petrobras, mas também a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil.

Quem sabe até a melhor coisa é mesmo desmembrar a Petrobras, vender por qualquer preço, buscar parceiros internacionais. Ou privatizar inteira. Ou estatizar totalmente? Quem lá sabe? Esta decisão está sendo tomada no calor da gritaria nas ruas. E assim foi atingido o objetivo de toda a narrativa política dos últimos meses.

Quem se beneficia? Quem precisa que a decisão seja tomada assim. No atropelo. Sem questionamento nem debate informado. Apostam que a indignação nos deixou cegos. A aposta vale bilhões. E esses bilhões são nossos.

Publicado em 05/03/2015 às 10:23

A operação Lava-Jato já acabou em pizza

jose genoino4 A operação Lava Jato já acabou em pizza

Lembra-se do Mensalão? A investigação demorou século. O julgamento, milênios. Rendeu milhões de manchetes. Parecia que não ia acabar nunca. Acabou ontem, finalmente. Em pizza. Com o perdão a José Genoino.

Os ministros do Supremo Tribunal Federal decidiram pela extinção da pena do ex-deputado. Ele foi beneficiado por um decreto assinado em dezembro pela presidente Dilma Rousseff, que previa perdão a condenados em alguns casos. Decreto feito na medida para Genoino.

Ele merecia estar na cadeia? Considerando com o que tem de bandido de verdade solto por aí, claro que não. Mas merecer não tem nada a ver com investigação, processo e condenação. Genoino foi investigado, julgado e condenado. Por seu passado e relações com o poder, teve sua pena extinta. Que curta a liberdade, conquistada na canetada. E que ninguém se iluda sobre a seriedade de futuras condenações.

Voltemos ao início do Mensalão. Aquela investigação envolvia 40 pessoas. Tinha só um delator, Roberto Jefferson. A Lava-Jato começa com uma lista de 54 pessoas e 15 delatores. Esses números devem aumentar.

O Mensalão durou três anos, de 2002 a 2005. O esquema de corrupção na Petrobras começou a funcionar há pelo menos 15 anos, ainda no governo Fernando Henrique. É muito mais tempo para investigar.

No mensalão, cinco partidos foram réus: PT, PTB, PMDB, PL e PP. Na Lava-Jato, sete já foram citados: PT, PSDB, PMDB, PP, PSB, PDT e Solidariedade. Na Lava-Jato, uma dinheirama foi para fora do país, para diversos destinos. Vai ser preciso investigar essas contas no estrangeiro, o que exigirá complicada cooperação com órgãos de diversos países.

Para completar, a Lava-Jato envolve a maior empresa do país e as maiores construtoras do país. Que são também quem mais bota dinheiro em financiamento de campanhas políticas, de todos os partidos. Vespeiro daqueles.

Perto da Lava-Jato, o interminável Mensalão foi o mais simples dos processos. É bom que se investigue? É ótimo. A imprensa tem dever de escarafunchar essa podreira toda? Sem dúvida, e se não fossem os destemidos colegas, perdurava a mamata na Petrobras.

Mas hoje decidi que não leio mais nada sobre a Lava-Jato. Só uns 10%, vá, só os detalhes picantes. Será fácil.

Primeiro, não é o tema central de 2015. A crise na economia brasileira, e vem aí uma crise com C maiúsculo, vai atropelar politicamente essa conversa comprida de investigação. Em junho de 2013 se dizia: não é pelos vinte centavos. Em março de 2015 dá para dizer: é pelos R$ 111 bilhões, valor do corte proposto no orçamento federal. É o Brasil dando um tiro de canhão no próprio pé. Com a alta do dólar, é um tiro de misericórdia nas modestas pretensões de ascensão social do brasileiro. Donde que o povo já começou a ir para a rua. Começou pelos caminhoneiros, e como ficou demonstrado, quem chora mama, se tem poder de fogo. Esse é o assunto de 2015, quente, urgente.

Mas, mesmo que estivesse tudo sossegadinho na economia, eu não iria prestar atenção na Lava-Jato. O STF que vai passar os próximos anos julgando a Lava-Jato é o mesmo STF que mandou Genoino ontem para casa. Vamos comemorar que esse ou aquele picareta será condenado? Como se não soubéssemos que basta um decreto, se extingue a pena e se assa a pizza?

As manchetes fazem muita onda. O judiciário transforma em espuma. A Lava-Jato parece ser um maremoto político. O tempo fará dela uma marolinha. Esse julgamento será assunto para muitos anos. Já tenho mais tempo atrás de mim do que pela frente. Aos quase 50 anos, é obrigação me concentrar no dever e no prazer. A Lava-Jato não se encaixa em nenhum.

Publicado em 03/02/2015 às 10:36

Pare de economizar água. Pare de chatear os outros. Vá tomar banho! E pode ficar meia hora no chuveiro (como eu)

kok Pare de economizar água. Pare de chatear os outros. Vá tomar banho! E pode ficar meia hora no chuveiro (como eu)

Continuo tomando banhos longos. Sem dor nenhuma na consciência. E molhando o quintal, regando o jardim, lavando o carro como sempre. Sou egoísta? Não, sou consciente, e sai pra lá, maleta.

Só tem uma coisa mais chata que falta de água. É a falta de noção dos chatos que fiscalizam como os outros estão usando a água. Nessas horas de crise sempre vem à tona o ditadorzinho que existe dentro das pessoas. É o clássico problemas dos regimes autoritários. O pior não é o ditador que manda no país, é o guardinha da esquina que quer mandar em você.

Milhões de anos de seleção natural criaram esse nosso ego monstruoso. Seu cérebro te garante que o universo gira em torno do seu umbigo. Que cada pequeno ato seu tem reverberações cósmicas. Que depende fundamentalmente de você tudo que te acontece, que acontece no mundo, no seu mundo. É uma armadilha que a evolução armou para a gente.

A mídia pega a onda. Agora é uma reportagem atrás da outra sobre como economizar água. Estrelando os malas que enchem a paciência do próximo. Sim, inclusive malas amigos. Você mesmo, mano. Você aí, querida. Tenho só uma coisa a dizer para você: vai tomar banho! E pode ficar uma hora no chuveiro. Não fará diferença nenhuma para a cidade, a sociedade, a humanidade. Só pra sua conta.

Egocentrismo é nossa natureza. Você não precisa se render a ela. Existem os seus problemas pessoais. E existem desafios coletivos. Que precisam ser enfrentados coletivamente. Perceba: isso é muito diferente de cada pessoa “fazer sua parte”. Soluções coletivas não são compostas de um monte de iniciativas individuais. É, como grupo, como sociedade, compreendermos a raiz do problema, articularmos como sociedade as soluções, e enfrentar os desafios de implementá-las.

Não percamos tempo listando aqui as barbaridades e bandalheiras várias que nos levaram a esta situação. O ponto principal é: sabemos o que fazer para garantir água farta e barata, talvez grátis, para todos.

Sabemos quais obras precisam ser feitas. Sabemos que precisamos despoluir os rios. Sabemos que é preciso acabar com o desperdício na distribuição (um terço da nossa água se perde aí).Sabemos que precisamos de saneamento básico universal. Sabemos que precisamos de uma economia que não exporte nossa água como commodity, na forma de soja e bife. Sabemos que precisamos parar de derrubar floresta e reflorestar a Amazônia. Sabemos de tudo.

Então por que não fazemos o que sabemos ser fundamental? Porque “sabemos” que não há dinheiro para isso. Quem diz? Os  caras que a gente botou lá para gerir o dinheiro dos nossos impostos. E um monte de sub-experts e jornalistas matraca-trica que macaqueiam esse discurso.

Os cofres públicos estão recheados. Municípios, estados e governo federal usam nossos recursos de maneira errada. Errada de três maneiras diferentes. Errada porque uma boa parte da grana é roubada. Errada porque outra boa parte é gasta com coisas que não são prioritárias, mas garantam visibilidade e reeleição.

E errada da maneira mais sem cabimento e menos visível para você. Que é pagando os juros mais altos do planeta. Sim: entre todos os países da Terra, o Brasil tem os juros mais altos. Todo empresário está comprando títulos públicos, em vez de investir na produção. Tudo que é investidor gringo está faturando altíssimo nessa.

Municípios, estados e governo federal estão sufocados com o pagamento dessa dívida, cada vez mais impagável. Para os investidores, é o melhor investimento do mundo. Para os brasileiros, é o pior investimento possível dos nossos impostos. Dilma acaba de subir os juros mais ainda. A Selic hoje está em 13%.

Chamam isso de responsabilidade fiscal. É uma irresponsabilidade social. Em 2014 o Brasil pagou R$ 249 bilhões de reais em juros da dívida. Esse ano pagará mais. Precisa pagar menos. Preferencialmente nada. Que pagasse um terço a menos. Seriam mais R$ 66 bilhões para investir, um oceano de grana. Sabe como se faz isso? Com uma canetada lá em Brasília. Agora, como forçamos dona Dilma a dar essa canetada? Coletivamente.

Para fazer tudo aquilo que sabemos que tem que ser feito, há que enfrentar a roubalheira dos políticos. Há que melhorar a gestão dos recursos públicos. Mas nossa pressa é grande. A solução mais rápida é pagar menos juros e já. Isso nada tem de radical. É uma proposta modesta para uma questão bem arroz com feijão. Se você, na sua casa, tiver que optar entre ter água na torneira ou pagar as dívidas, vai escolher o quê? Morrer de sede com o carnê em dia?

Os brasileiros precisam tomar esta decisão. Isso é que é "fazer a sua parte". Pense nisso quando entrar hoje no chuveiro. Sem pressa...

Publicado em 14/01/2015 às 19:11

Veja aqui a novíssima edição da Charlie Hebdo (e o que fazer agora: ofender)

charlie hebdo cover1 765x1024 Veja aqui a novíssima edição da Charlie Hebdo (e o que fazer agora: ofender)

Se você acredita que os problemas da liberdade se resolvem com menos liberdade, pare de ler esse texto agora. Você é o inimigo.

Se você acredita que os problemas da liberdade se resolvem com mais liberdade, tenho duas coisas para te dizer. A primeira é: não debata com o inimigo.

Quando você ataca, o inimigo revida com o veja bem, olha só, mas por outro lado. Aponta a luz na injustiça de lá para obscurecer a injustiça daqui. Questiona a importância da passeata pela presença de uns picaretas marchando. Confunde povo com pátria, fé com religião, voto com cheque em branco. Dá tanta razão porque isso e aquilo que a razão sai derrotada.

Quando você debate com o inimigo, você não está sendo democrático. Pelo contrário. Está qualificando um interlocutor que não merece o diálogo. Então: feche a boca. Deixe essa gente falando com as paredes, nas masmorras de sua própria ignorância. Diferente do que diz a capa da nova Charlie Hebdo, nada está perdoado.

A segunda coisa importante que eu tenho para te dizer é: se você se importa de verdade com a liberdade de expressão, gritar isso na internet é vergonhosamente pouco. Precisamos de mais. De brigar coletivamente, de não nos rendermos à falta de humor, de financiar as organizações que defendem a liberdade de expressão, como Anistia Internacional, Repórteres Sem Fronteiras, Human Rights Watch...

Precisamos, principalmente, ofender, e nos mantermos na ofensiva.

Mas nesse momento, jogar a Charlie Hebdo no ventilador é um bom começo.

Aqui está o PDF da nova edição, celebrando o triunfo da zoação sobre os fundamentalistas. Como eu previ no dia dia do atentado: o humor triunfou sobre o ódio.

Espalha aí..

https://aventadores.files.wordpress.com/2015/01/charlie-hebdo-1178.pdf

Publicado em 07/01/2015 às 14:36

O humor é mais forte que o ódio

ch10121 O humor é mais forte que o ódio

Onze pessoas foram assassinadas pelo crime de... zoar. Em 7 de janeiro de 2015, não nas trevas medievais. Em Paris, berço das luzes, não num beco do Iêmen.

Obra de radicais isolados? Não. Sintoma de sociopatia de massa.  Horas antes na tevê Ian Bremmer fuzilava: "2014 viu a morte do Islã político e ascenção do Islã Radical". Sabe do que fala. É fundador do Eurasia Group, empresa de consultoria sobre geopolítica. O Eurasia é da pesada. Cravou bonitinho as idas e vindas da eleição no Brasil.

Na entrevista a Charlie Rose, da Bloomberg TV, Bremmer estava afiado como uma cimitarra. Vendia o peixe de uma publicação do Eurasia Group, Top Risks 2015, sobre os principais desafios da política internacional no novo ano. Rose disparava temas: Irã, China, Grécia, Estado Islâmico, Ucrânia. Respostas no ricochete: pá-pum, pá-pum. O exato contrário das análises políticas pátrias.

O problema segundo Brenner: de onde vieram esses assassinos virão muito mais. "Disenfranchised youth": jovens alienados, pobres, ignorantes, para quem o sonho de consumo ocidental é só um sonho. Crescendo sem horizonte em sociedades sem liberdade - ou até deflagradas. Garotos sem possibilidade de articular suas frustrações além de uma visão medieval da existência: nós versus eles, Alá contra o Grande Satã. O petróleo agora barato fará desses países mais pobres, celeiro de mais e mais gente sem noção, sem humor e sem nada a perder.

A única solução segundo Bremmer é de longuíssimo prazo: educação. Haja paciência. Enquanto isso nos resta explicitar exatamente qual o nosso desafio. E ter coragem de continuar zoando.

Quem criou o Oriente Médio? As grandes potências ocidentais, menos de um século atrás. Hoje o Iraque se desmancha, a Síria sangra, a primavera árabe esfria. Que fez a Europa para desarmar os ditadores amigos? Que fazem os Estados Unidos para pela democratização das monarquias do petróleo? Nada e nada. Agora a Europa se tortura com a entrada sem controle de refugiados, que polariza a política do continente da Sicília à Suécia. E os ianques se escondem no Bunker América, felizes de só terem que lidar com imigrantes latinos.

Para mudar as coisas onde nascem esses assassinos, há que mudar as coisas nos países ricos. Semana passada aconteceu uma manifestação anti-xenofobia na Alemanha. De boas intenções o inferno está cheio. Enfrentar a "muçulmanização" da sociedade alemã não é racismo. A Alemanha tem leis, a França tem leis, e elas incluem uma dose altíssima de liberdade de expressão, como não há em nenhum país de maioria islâmica.

Quer morar no país dos outros? Submeta-se à lei deles. As leis da França incluem, sim, o direito de zoar com Maomé. As do Brasil também (embora não permita que você tire sarro de alguém em uma biografia não-autorizada...). Você se sente seguro para republicar os cartuns que causaram a morte da equipe do Charlie Hebdo? Eu não. Sozinho, não. Eu não sou besta para tirar onda de herói, como dizia Raul Seixas. Se todo mundo no planeta publicar junto comigo, pode ser. Seremos mais do que eles; há segurança na multidão.

Esse é o duplo desafio da Liberdade. Ela só pode ser exercida individualmente, e ela só pode ser defendida coletivamente. Liberdade é a liberdade do outro ridicularizar o que eu julgo sagrado - e não existe outra.

Que loucura lembrar que o nome anterior da Charlie Hebdo era Harakiri. E que orgulho recordar que o próprio governo francês pediu em 2012 que os editores da Charlie não publicassem mais cartuns de Maomé, para evitar retaliação a cidadãos franceses em países islâmicos. A equipe da revista se recusou. Radicais jogaram bombas incendiárias e destruiram a redação. A revista saiu com outro cartum provocativo na capa, com um árabe dando um beijo de língua num cartunista e a chamada, "o amor é mais forte que o ódio."

Quero acreditar nisso. Mas quero acreditar mais ainda que o humor é mais forte que o ódio.

Na web: http://www.ianbremmer.com/ e www.charliehebdo.fr

Siga no Twitter: @ianbremmer e @Charlie_Hebdo_

Hebdo Harakiri

http://r7.com/3alL

Publicado em 22/08/2014 às 19:49

Marina Silva, Neca Setubal, e a resposta que vale R$ 240 milhões

neca setubal Marina Silva, Neca Setubal, e a resposta que vale R$ 240 milhões

Cutuquei Neca Setubal, coordenadora do programa de governo de Marina Silva, num texto aqui no blog. Repercussão louca. 350 mil leitores, 38 mil compartilhamentos no Facebook. A área de comentários pegou fogo. Muita gente apoiando, muita gente questionando, muita gente não entendendo direito.

Dei muita sorte. Dois dias depois do meu texto, Fernando Rodrigues, um de nossos melhores colunistas políticos, fez uma longa entrevista com Neca Setubal para a Folha e UOL. Recomendo que você leia, seja ou não eleitor de Marina.

Fernando tinha lido meu texto, viu a polêmica que causava, e perguntou sobre meu tema central: considerando que o Itaú, de que Neca é sócia, deve R$ 18,7 bilhões à Receita Federal, e diz que não deve e não vai pagar, não há um conflito de interesses?

Ela, digamos, respondeu. E a resposta dele exige comentários. Eles estão abaixo.

Publicado em 23/04/2014 às 19:06

Quem é contra o Marco Civil é contra o Brasil (e contra a Internet)

 Quem é contra o Marco Civil é contra o Brasil (e contra a Internet)

O Marco Civil da Internet acaba de ser aprovado. Foi aqui mesmo no Brasilzão velho de guerra, em Brasília, não no mundo dos seres celestiais impolutos. Portanto atende a alguns interesses econômicos. Tem objetivos eleitorais, sim. E também tem consequências que vão muito além das próximas eleições.

A sua não-aprovação atenderia outros objetivos eleitorais. E uns poucos econômicos. Quem fez mais campanha contra o Marco Civil foram as empresas de telecomunicação. O grande objetivo delas é cobrar mais que hoje pelo uso da internet. Em vez de cobrar uma mensalidade do usuário, que usa quantas horas quiser, para o que quiser, essas empresas queriam preços diferentes para usos diferentes. Por exemplo, uma hora vendo vídeos no YouTube custaria muito mais caro do que uma hora simplesmente lendo artigos na web.

Isso seria péssimo  para todos nós. Só seria joinha para as empresas de telecomunicação, e para ninguém mais. Ninguém fora a “bancada das teles”, congressistas que defendiam essa posição indefensável. Aécio Neves, candidato do PSDB à presidência da república, se dispôs a este papel. Certamente teve suas razões.

As teles foram  derrotadas. Venceu a “neutralidade de rede”, que cobra igual por usos diferentes. O Marco Civil não fala só de dinheiro. Trata de várias outras coisas importantes, e inclui algumas bobagens. A mais perigosa  é o seu artigo 15. Ele deu margem a críticas fundamentadas. Também serviu para muita propaganda antipetista. Porque o artigo 15 permitiria uma espécie de censura prévia. E, contra todas as evidências, tem quem acredite, ou finja acreditar, que radicais controlam o PT, e pretendem estabelecer uma ditadura comunista aqui. O primeiro passo seria calar a boca da imprensa. E o Marco Civil seria parte desta conspiração vermelha.

Não é nada disso, claro. A regra que vale atualmente: provedores de internet só serão responsabilizados na justiça no caso de não retirarem um conteúdo, após receberem ordem judicial para isso.  Como está redigido, o Artigo 15 dá margem a interpretação diferente. Um provedor poderia ser responsabilizado mesmo sem decisão judicial. O perigo: para não correr risco de pagar indenizações, os provedores passariam a vetar certos conteúdos mais arriscados, provocativos, dúbios. Seria autocensura. Um tipo de censura prévia, executada não por órgão governamental, mas por empresas privadas.

O Artigo 15 fere a liberdade de expressão, sim. Como apontaram corretamente uma galáxia de instituições e indivíduos,  em todo o espectro político. Para modificar a redação, e evitar a autocensura, tem um abaixo assinado correndo. A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), o Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), e mais várias outras organizações de prestígio (e algumas nem tanto) assinam o documento. Quer entrar na campanha?

Assine aqui:

O Marco Civil foi aprovado na correria, para dar tempo de Dilma faturar politicamente – e globalmente – no evento que ocorre em São Paulo. O NETMundial foi organizado pelo governo brasileiro e pela Icann, organização que controla os domínios da web. Dilma fez bonito. Garantir por lei a neutralidade da rede, na frente de Tim Berners-Lee, o criador da web, é coisa para entrar na história. Ou pelo menos abafar nas redes sociais por uns dias, e lembrar os eleitores na propaganda eleitoral, quando chegar a hora.

Essa história é comprida. Eu podia ficar escrevendo sobre isso os próximos três dias. Melhor não, mas vale a pena entender o contexto. Eu mesmo escrevi várias vezes sobre o assunto. Quando foi revelado que o governo americano espionava ciberneticamente outros governos, inclusive o brasileiro.

Fiz uma entrevista esclarecedora com Demi Getschko, do Comitê Gestor da Internet, um dos “pais” do Marco Civil.

E já critiquei o Marco Civil antes deles nascer. Até porque não dá conta da internet que vem aí: a da realidade virtual.

Esse assunto não morre com aprovação do Marco Civil, portanto. A internet muda  muito mais rápido que a capacidade das instituições mudarem junto.
Justamente por isso é que Tim Berners-Lee defendeu em discurso uma versão internacional do Marco Civil. Uma espécie de constituição global da internet, uma carta magna, que garanta direitos básicos dos usuários, como a própria neutralidade de rede, e a liberdade de expressão. Olha o  mundo ser curvando ao Brasil aí gente!

Pé no chão? É querer demais. Pois se nem liberdade de expressão fora da internet existe, na maioria dos países! Mas se Tim sonha alto, não é só viagem. Afinal, tudo isso que estamos discutindo não existiria sem ele (ou seria completamente diferente).

Algumas pessoas dizem que o Marco Civil e seus defensores são todos petistas. Tim Berners-Lee está a soldo do PT? Espera lá. Sim, é uma vitória de Dilma. Mas  se você está lendo esse texto agora, e discordando completamente do que escrevo, é porque Tim, e outros visionários, engenheiros e programadores e tal criaram a internet, e a web, e todas essas redes sociais e aplicativos e tudo mais.

Não é que eles sejam petistas. Aliás, nem que eles defendam o Marco Civil brasileiro. É o contrário: é o Marco Civil que abraça os princípios fundamentais da sociedade digital, desde o início explicitados pelos pais fundadores da internet,

O Marco Civil da Internet é imperfeito, mas é bom, é do Brasil, e é do mundo. Vamos celebrá-lo.

Publicado em 03/12/2013 às 19:56

Genoino tem todo direito à justiça. Mas não só. E não já

José Genoino tem todo direito à justiça. Mas não só ele. E não já. Leia o post na íntegra... Continue lendo

 Genoino tem todo direito à justiça. Mas não só. E não já

V.M., 22 anos, têm câncer no reto e doença sexualmente transmissível. Seu pedido de liberdade condicional foi negado. E.O. está com a perna engessada há seis meses e precisa de cirurgia urgente. Não há previsão. Ambos estão presos por tráfico de drogas. São histórias de pesadelo. São rotina.

Os dois casos são citados em reportagem de Fábio Brandt, no Valor Econômico. Ele tentou consolidar dados sobre doenças no sistema prisional brasileiro. O governo federal não está querendo comentar no momento. Brandt cita um levantamento da Pastoral Carcerária Nacional, órgão da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que mostra que cerca de 500 pessoas morrem todos os anos em presídios no Estado de São Paulo. Segundo a Associação Nacional dos Defensores Públicos Federais, há casos de presos com HIV-positivo sem tratamento. E por aí vai o desfile de horrores. Mais de mil prisões não têm atendimento pré-natal para presidiárias. Não há procedimentos básicos de higiene, limpeza, troca de uniformes. Surpresa: 7% dos casos de tuberculose em 2012 foram de presidiários, segundo o próprio Ministério da Saúde. A reportagem completa, chocante, está aqui. Cadastre-se grátis e leia.

Cadeia no Brasil sempre foi uma imoralidade. Não é para corrigir. Não é nem pra punir. É tortura mesmo. Como os ricos e importantes nunca foram pra cadeia, ricos e importantes nunca deram a mínima. O Brasil está mudando, aos poucos, devagar demais. Mas muda, e muda para melhor. As cadeias, infelizmente, só mudam para pior, porque cada vez mais superlotadas, resultado de uma política antidrogas falida. Temos meio milhão de brasileiros presos, muitos por bobagem. Você assistiu Carandiru, o filme? Leu o livro de Dráuzio Varella? A dupla penalidade imposta aos doentes na prisão é indecente.

Se José Genoino efetivamente tem razões de saúde para requisitar o regime semi-aberto, tem todo direito. Faça-se a justiça. Mas não só para ele, porque temos milhares e milhares de presos na mesma situação. E não já, porque tem muita gente esperando faz muito mais  tempo, em estado bem pior.

É uma ótima oportunidade para um mutirão de juízes avaliar a situação de tantos doentes nas nossas cadeias. Se todo mundo meter a mão na massa, a hora de Genoino chega logo.  E aliás podemos aproveitar e passar um outro pente fino. Tem outros tantos milhares que já cumpriram suas penas, e continuam trancafiados, pela simples morosidade do sistema judiciário.

Genoino tem sido achincalhado grotescamente - chamado de covarde, dedo-duro e outras tantas indecências. Fácil bater em quem está caído. Agora renuncia ao mandato, para evitar a cassação. Tinha entrado com pedido de aposentadoria por invalidez. Uma junta médica lhe negou. Outra junta negou que sua doença cardíaca seja grave. O cara lá com câncer no reto, e o outro com perna engessada há seis meses, quantas juntas os examinaram? Nenhuma.

Na carta em que pede renúncia, Genoino volta a dizer que é inocente e não cometeu crime nenhum. Esse não é mais o ponto. O julgamento do mensalão foi justo? Resultou em penas justas? A corte mais alta do país bateu o martelo. Não há mais há quem recorrer. Aos condenados toca cadeia ou fugir, como fez Henrique Pizzolato.

Segundo a justiça brasileira, bastante imperfeita, e a única que temos, ninguém ali é preso político. São presos comuns. E destes, os doentes acabam de entrar em uma longa fila de presos doentes, aguardando tratamento, e quem sabe o regime semi-aberto. É justo que sejam atendidos com a máxima urgência. Genoino tem uma grande chance de provar que é, de fato, o homem honrado que diz ser, e que tantos acreditam que seja. Basta respeitar a fila.

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Publicado em 05/11/2013 às 11:15

50 mil razões para a demissão imediata do ministro da Justiça José Eduardo Cardozo


Em 2012, os gastos com segurança pública no Brasil cresceram 15,83% com relação a 2011. O total destinado para o setor foi R$ 61,1 bilhões.

Como esse dinheiro foi investido?

- R$ 17,5 bilhões em policiamento

- R$ 2,6 bilhões em defesa civil

- R$ 880 milhões em inteligência e informação

- e uma bolada em aposentadorias.

Quanto? Não há informação unificada. Mas em São Paulo, dois quintos do dinheiro vai para pagar aposentadorias. É o estado que mais investe em segurança, um total de R$ 14,37 bilhões, crescimento de 17,2%. Disso, 39,87% foi gasto com o pagamento de aposentadorias. Sobram uns dez bilhões. É o terceiro estado mais seguro, depois do Amapá e Santa Catarina - em São Paulo temos "só" 11,5 mortes para cada 100 mil habitantes.

Os dados constam da sétima edição do Anuário Brasileiro de SEgurança Pública. O documento é produzido pelo Fórum Brasileiro de SEgurança Pública (FBSP). A base são informações fornecidas pela Secreataria do Tesouro Nacional, o Ministério da Fazenda, e as Secretarias da Fazenda de todos os estados brasileiros.

Quando a gente lê esses valores cheios de zeros, bilhões, zilhões, dá a impressão de que estamos investindo muita grana. Se não tomamos cuidado, embarcamos no papo furado dos políticos e seus paus-mandados. Eles sempre têm estatísticas e dados provando que o crime cai, que a violência está sob controle, e que o poder público está enfrentando a bandidagem.

Hoje está sendo divulgado o relatório completo do sétimo Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Segundo dados do documento:

- o número de presos subiu 9,39%; hoje temos 515.400 presos no Brasil

- são 1,7 detento por vaga no sistema penitenciário

- mas em sete estados, mais de 50% da população carcerária ainda aguarda julgamento

- em 2012 tivemos 47.100 mortes por homicídio doloso, subindo de 22,5 mortes por 100 mil habitantes para 24,3 uma alta de 7,8%

- e pela primeira vez tivemos mais estupros que homicídios, uma alta de 18,17% em 2012. Em todo o país, foram registrados 50,6 mil estupros.

A falta de segurança no Brasil é questão de emergência. Ninguém enfrenta. O prefeito diz que é com o governador, que empurra para a polícia federal, que chama o exército. A polícia diz que não tem recurso, a justiça que tem processo demais pra julgar, e por aí vai. Trogloditas garantem que a solução é exterminar os criminosos. Bem intencionados denunciam a violência policial, mas não apresentam soluções. Procrastinadores garantem que a única solução é a educação, mas só virá em décadas...

A violência extrema, em um país tão rico, deveria ser caso de vida ou morte. Não é. Vai ter copa do mundo aqui, e os jogos vão acontecer em algumas das cidades mais violentas do planeta. Mas ninguém se importa. Ano que vem tem eleição. Todos os candidatos falarão da segurança, como da saúde, educação, e todos os chavões previstos. Em vez de enfrentar a realidade, nos venderão sonhos. Nada mudará.

E poderia mudar, deveria mudar. A situação está sendo administrada, quando deveria ser enfrentada. Há inúmeros exemplos a seguir, ações que deram certo em muitos lugares do mundo. Não precisamos inventar a roda. Basta imitar o que deu certo. Mas há que trabalhar, há que ter coragem, há que punir quem merece punição.

O primeiríssimo passo tem de ser responsabilizar os principais responsáveis. No nível estadual, são os Secretários de Segurança Pública. No  federal, o Ministro da Justiça. No Rio, depois de tudo que se falou sobre o assassinato de Amarildo por policiais, o secretário de segurança segue no cargo.

Hoje, no dia em que o Brasil apresenta oficialmente os resultados acima - e confessa que investiu muito mais dinheiro, e mesmo assim os homicídios e estupros aumentaram, 50 mil estupros! - não há crime maior que a permanência no cargo do Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo.

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Publicado em 25/10/2013 às 19:23

Reinaldo Azevedo na Folha: apagando fogo com gasolina

reinaldo Reinaldo Azevedo na Folha: apagando fogo com gasolina

Reinaldo Azevedo espuma de raiva dia e noite. Era menos agressivo quando colunista da Veja. Quando passou a blogueiro, com oportunidade de interagir diretamente com seus muitos fãs e desafetos, aposentou a focinheira. Faz muito sucesso, o que irrita muita gente. Nunca vi razão para tanta bronca contra Reinaldo. Ele defende o que defende. Também nunca vi razão para ler seu blog. Já sei o que ele ataca.

Mas li sua coluna de hoje na Folha, na internet. O que me levou a visitar seu blog e ler uns trinta textos. Vários são bem engraçados, quase todos são muito violentos. Me peguei concordando com Reinaldo em vários temas e discordando em outros tantos. Não voltarei. O volume é muito alto, sempre onze. E ele grita sempre a mesma coisa: abaixo o PT.

É perfeitamente defensável, e útil para a democracia, que tenhamos cães de guarda das tradições de um país - conservadores, vamos chamá-los assim. E fundamental que tenhamos jornalistas que se disponham a morder as canelas dos poderosos. Mas Reinaldo jamais critica banqueiros, empresários, ruralistas, grandes empresas de comunicação, ou o alto tucanato. E vive no pé de ambientalistas, feministas, blogueiros, manifestantes, grevistas e petistas, grandes ou pequenos.

Como Reinaldo Azevedo só bate em um lado, o que faz é propaganda eleitoral, não jornalismo. O mesmo vale para outros porta-vozes disfarçados de imprensa, dos dois lados do fla-flu. E é por isso que, além de seu blog na Veja, agora ele tem uma coluna na Folha de S. Paulo.

Foi contratado, junto com Demétrio Magnoli, para bater no PT. E inevitavelmente no candidato petista ao governo do estado, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha.

A dupla Reinaldo-Demétrio presta-se perfeitamente para a missão. Um é histriônico, o outro é articulado. Um briga, outro elabora. Os dois são ligados ao Instituto Millenium, entidade organizada por banqueiros e grandes empresários, inclusive de comunicação, com o objetivo de combater o PT. A Folha, que diz buscar o equilíbrio nesta renovação do time de jornalistas, chamou também Ricardo Melo. Ricardo é crânio, língua afiada, apartidário: bate em gregos e troianos (e Reinaldo já arrumou treta com ele, no passado). Mas são dois do lado da propaganda, e um do lado do jornalismo.

Críticos se surpreendem com uma suposta guinada à direita da Folha. É falta de perspectiva histórica. Lembro quando a Folha chamou José Sarney para colunista, logo que o gângster deixou a presidência, o país em frangalhos, Collor no poder. Perto de Sarney, que aliás agora é Lula desde criancinha, Reinaldo Azevedo é uma flor, ninguém há de negar. O jornal sempre deu uma no cravo e outra na ferradura. Veja o espaço que têm Jânio de Freitas e Clóvis Rossi, e o tanto de podridão que o jornal revelou de administrações do PSDB. A Folha não é imparcial, como nenhum veículo é. Também não é irresponsável.

Dilma está reeleita. O grande objetivo do PT em 2014 é roubar dos tucanos o segundo orçamento da união, quase 40% da economia brasileira.

O PSDB sem o governo de São Paulo perde a espinha. No cenário dos sonhos de Lula, que ungiu Padilha candidato, o PT governará sem oposição. Falta combinar com as ruas, que segundo Reinaldo na sua coluna na Folha, é "ente divinizado por covardes". Não vejo o divino em nada, nem vejo grandes diferenças entre PT e PSDB. Mas enxergo o seguinte: uma parte grande do que foi rejeitado nas manifestações de junho foi esse jeito raivoso de Azevedo e suas contrapartidas governistas verem o mundo, assim como essa polarização partidária fundamentalista e paralisante.

Não leio essa gente e recomendo que ninguém leia. A rapaziada nas ruas queimava bandeiras de partidos. Reinaldo e companhia querem apagar o fogo com gasolina.

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Publicado em 18/10/2013 às 16:47

Lama e Malala, Arábia Saudita e Paquistão: duas meninas, duas medidas, duas faces da mesma moeda

time malala Lama e Malala, Arábia Saudita e Paquistão: duas meninas, duas medidas, duas faces da mesma moeda

Malala na capa da Time: uma das pessoas mais influentes do mundo (Foto: Reprodução)

No dia de Natal de 2011, a menina de cinco anos foi internada no hospital. Lama tinha costelas e braço esquerdo quebrado, crânio fraturado, hematomas e queimaduras em todo o corpo. Uma assistente social que a viu no hospital disse que a menininha foi estuprada "em todos os lugares". Depois de oito meses inconsciente, a garota morreu.

No dia 9 de outubro de 2012, outra menina, de quinze anos, levou um tiro no rosto. Malala ficou inconsciente, à beira da morte, por uns dias. Conseguiu se recuperar. Uma é obscura. A outra foi chamada de "a adolescente mais famosa do mundo", já recebeu mais de 20 prêmios internacionais, quase levou o Nobel da Paz, e foi recebida por presidentes, famosos, pela rainha da Inglaterra. Foi capa da maior revista semanal brasileira esta semana. A razão para a diferença de tratamento de Lama e Malala: business, just business.

Lama Al-Ghamdi foi morta pelo pai, Fayan al-Ghamdi. É um popular pregador islâmico radical. Foi preso por estuprar e matar sua filha. Há testemunhas de que ele teria feito o que fez por "duvidar da virgindade" da filha. Foi condenado por um tribunal do seu país a oito anos de prisão, oitocentas chicotadas e a pagar uma indenização para sua ex-esposa, mãe de Lama. É uma pena ridícula para os padrões locais. Ativistas denunciam a injustiça da decisão. Um assassinato bárbaro punido com só oito anos de prisão?

Lama nasceu na Arábia Saudita. Vários tipos de crime são passíveis de pena de morte no país (incuindo adultério e bruxaria). Mas um pai não pode ser executado por matar seu filho ou sua mulher. Isso é punido com penas de cinco a doze anos de prisão. Fayan al-Ghamdi é um caso limite. Mas o fato é que a Arábia Saudita tem um histórico assustador no tratamento de crianças. Segundo um estudo, uma em cada quatro crianças é abusada no país. A National Society for Human Rights registra que 45% das crianças sauditas enfrentam algum tipo de abuso, ou violência doméstica. Recentemente, outro pregador defendeu na televisão saudita que as meninas devem usar véu a partir dos dois anos de idade. "Se uma menina é desejada sexualmente, os pais devem cobrir sua face e forçá-la a usar o véu", disse Abdullah Daoud à rede Al-Majd.

Veja a reportagem da CNN sobre a morte de Lama e o julgamento de seu assassino:

A Arábia Saudita é uma monarquia islâmica ultraconservadora, desde 1932. Segundo a revista The Economist, é o 7º país mais ditatorial do planeta. Tem a segunda maior reserva de petróleo do mundo. Petróleo é 95% das exportações e 70% da receita do governo. Quase 28 milhões de pessoas vivem no país, berço do Islamismo, onde estão os dois locais mais sagrados para os muçulmanos, Meca e Medina.

É proibido qualquer tipo de teatro, a exibição de filmes, beber álcool, e a pintura de pessoas ou animais. A homossexualidade é crime. Há censura prévia em literatura e nenhuma liberdade de expressão. É proibido ter religiões que não a oficial, islamismo tradicional, wahabita. O casamento entre parentes é comum, o que gerou um altíssimo número de crianças com problemas genéticos, como atrofia muscular e surdez. E fundamentalistas sauditas, financiados por ricaços sauditas, causam problemas mundo afora - como os que atacaram Nova York em 2001, como o saudita Osama Bin Laden.

As mulheres penam mais. Mulher não vota. O tráfico de mulheres é comum. A violência sobre as meninas é enorme. Toda mulher saudita adulta tem que ter um "guardião" homem. Elas não têm o mesmo status civil dos homens. Seus testemunhos em tribunal não valem tanto quanto as dos homens. Elas têm dificuldade de se divorciar. Na hora de dividir heranças, a filha mulher recebe metade do que o filho homem. A mulher saudita é proibida de guiar automóveis. Há quem chame a situação de "apartheid" - só que em vez de negros, são as mulheres os cidadãos de segunda classe.

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Lama al-Ghamdi

A Arábia Saudita, onde Lama morreu, é um país bem mais atrasado que o Paquistão, onde Malala nasceu. O Paquistão é uma república parlamentarista, com 180 milhões de habitantes. Para se ter uma ideia: nas próximas eleições a presidente, um dos candidatos no Paquistão é uma mulher - ou seja, há eleições, e as afegãs tem muito mais autonomia que as sauditas.

O Paquistão é o segundo maior país islâmico, oitavo maior exército do mundo, tem armas nucleares, e é eterno aliado dos EUA, também. É de onde os americanos lutam a guerra contra o Taleban, movimento hiper-radical islâmico, cujo objetivo é estabelecer no país a lei da sharia, a lei do Corão. O Taleban controla um território no Paquistão, na fronteira com o Afeganistão. Nasceu de um grupo de combatentes fomentado e financiado pelos EUA e pela Arábia Saudita, como contraponto à invasão soviética, nos anos 80. Eram retratados como heróis na mídia ocidental (eles até ajudam os mocinhos em Rambo 3 e 007 - Marcado para a Morte…). Hoje são retratados como os maiores canalhas do mundo. E quem resiste a eles, como herói.

É o caso de Malala. Muito antes de ser baleada pelos talebans, ela já era célebre internacionalmente. Aos onze anos, escrevia um blog sob pseudônimo para a BBC, descrevendo sua vida em uma região do Paquistão ocupada pelo Taleban, e defendendo os direitos das meninas estudarem. Depois, o New York Times fez um documentário sobre ela. Passou a dar entrevistas para a imprensa global. Ganhou prêmios. Virou alvo.

Malala só sobreviveu porque foi transferida para se tratar na Inglaterra, o que só aconteceu por ser famosa, e por ser ótimo marketing. Foi para a capa da revista Time, como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo. Passou a acumular prêmios. Sua família toda vive na Inglaterra hoje. Seu livro, Eu Sou Malala, está sendo lançado simultaneamente mundo afora. A campanha para ela levar o Nobel da Paz foi maciça - apareceu em todos os principais programas de TV dos Estados Unidos, nas últimas semanas. Só não levou porque a Academia Sueca resolveu dar um tapinha com luva de chumbo nos EUA, concedendo o prêmio para a OPCW (no Brasil, OPAQ), a Organização para a Proibição de Armas Químicas. É a entidade que afirmava que Saddam Hussein jamais teve armas de destruição em massa, furando o argumento que os americanos usaram pra invadir o Iraque.

Malala é bacaninha? Claro. Mas o ponto é que os EUA lutam uma guerra sem fim no Afeganistão, onde já gastaram bilhões sem fim. É o front mais claro da guerra ao terror. É fundamental para o establishment americano que o Taleban seja entendido como não só um perigo global, mas como canalhas cruéis que baleiam menininhas. O que são, sem dúvida.

Enquanto isso, os canalhas cruéis da Arábia Saudita continuam judiando de suas menininhas, com apoio americano. Malala é uma heroína. Lama nem mártir é. A Arábia Saudita é aliado estratégico dos EUA desde 1941. A família real saudita é bancada pelos EUA, que controla a extração de petróleo e gás no país. Retribui de muitas maneiras - por exemplo, comprando mais de US$ 80 bilhões em armas fabricadas por empresas americanas, entre 1951 e 2006. Gastos que estão aumentando: nos últimos anos, o país tem gasto mais de US$ 20 bilhões em defesa anualmente.

Lama e Malala são duas faces da mesma moeda: a hipocrisia imperial americana. Que enfrenta fundamentalistas em um canto do mundo e os apoia em outro. Que defende a liberdade quando é bom para o business, e financia a opressão quando é mais lucrativo. Como fazem governos e poderosos em todo canto; mas ninguém com o poder de fogo dos EUA. Governo e capital americanos tratam as Lamas e Malalas do mundo, e aliás todos nós, com dois pesos e duas medidas. A voz de Malala inspira. O silêncio de Lama condena.

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Publicado em 12/09/2013 às 18:53

O fim do mensalão e o Brasil que já mudou (ou: quem julgará os juízes?)

AgenciaBrasil250412JFC5082 O fim do mensalão e o Brasil que já mudou (ou: quem julgará os juízes?)

E toda a novela do mensalão foi pra nada. Todas aquelas horas acompanhando as infinitas reportagens, os detalhes processuais microscópicos, as modorrentas transmissões televisivas. Toda a dinheirama gasta em acusação e defesa, todas as diatribes histéricas dos zelotes a favor e contra, todas as acaloradas conversas de bar - tudo pra nada.

Ou não? Definitivamente não. Não foi à toa. Valeu muito a pena. Primeiro, porque esse resultado era previsível e inevitável. É a história do Brasil. E apesar da nossa ficha corrida, muita gente inteligente tinha certeza que os mensaleiros seriam condenados a penas de verdade, que cumpririam obedientemente em cadeias de verdade. Um amigo, repórter de política da pesada, chegou a apostar uma champanhe francesa que José Dirceu ia em cana. Foi uma espécie de hipnose coletiva, causada pela excessiva leitura de jornais. Nos pontos de táxi, loterias e botecos, o zé povinho tinha certeza que não ia dar em nada (é como hoje, que uma elitezinha fala da candidatura Eduardo Campos, que o país não  sabe quem é).

Era evidente que a turma do mensalão ia sair na boa. Paulo Maluf, Fernando Collor e José Sarney estão soltos por aí, apitando, milionários, e você acha que José Dirceu ia puxar cana, lavar cueca de xerife do PCC? Por dar dinheiro para deputadores venais votarem a favor do governo, na pior das hipóteses? Tás brincando. Cravei mais de um ano atrás que o julgamento ia acabar em pizza, ou no máximo calzone. Você pode julgar meus poderes proféticos por si mesmo, lendo aqui.

Se deu preguiça de clicar, o resumo é: Dirceu, Genoíno e cia. não são heróis da esquerda e mártires da democracia, como alguns cantam, nem os maiores bandidos que já assaltaram o país, como outros entoam. Não vão pra cadeia, mas deveriam ser proibidos para sempre de ocupar cargos públicos ou concorrer em eleições. Infelizmente, nem isso. Pela pinta, até os quatro deputados acusados no mensalão vão poder manter seus mandatos.

Faço outra previsão: os mandantes do mensalão continuarão ocupando cargos importantes e faturando forte. Todos os partidos têm telhado de vidro. Vide mensalão do PSDB, em Minas, e o caso Siemens, em São Paulo, que envolve décadas de tucanato. No PMDB caso de corrupção é mato. Essa semana apareceu o caso do ministério do trabalho, controlado pelo PDT, R$ 400 milhões desviados. Outro dia pegaram até um cara do PSOL com a boca na botija. Eu podia ficar escrevendo esse parágrafo até a semana que vem, mas basta lembrar o caso do Donadon, que está cumprindo pena, e mesmo assim teve seu mandato garantido pelos colegas da Câmara. Claro - quem deve teme.

Dirceu e gangue só foram crucificados, no primeiro momento, por razões eleitorais. Também havia uma esperança, na oposição, da sujeira chegar a Lula. Como de costume, nosso ex-presidente não sabia de nada, blindex total. Veio a eleição, Lula fez a sucessora. Seria a hora de todo esse papo de mensalão morrer... Mas - e essa foi a melhor nova que o mensalão nos trouxe - a condução do caso fugiu do controle dos poderosos. Se o final está sendo o previsto, o julgamento em si foi um divisor de águas. Quem puxou esse processo todo foi a imprensa, foram os jornalistas, que não deram mole. Investigaram, cutucaram, debateram, assumiram posições. Muitos de fato acreditaram que a condenação dos mensaleiros poderia dar um basta histórico na nossa secular impunidade. Outros saíram em defesa dos acusados. Houve exageros de ambos os lados? Teve. Tudo bem.

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O julgamento foi se construindo coletivamente. Não estava mais sob controle do governo ou oposição, polícia ou judiciário, ou da própria imprensa. Foi a democracia em ação, aos olhos de todos, nas redes sociais e na televisão, não atrás de portas fechadas. Com a brasileirada escarafunchando depoimentos, aplaudindo, vaiando, batendo boca. A opinião pública tomou as rédeas da História, com H maiúsculo - e opinião pública hoje não é a meia-dúzia que era no século passado, são cem milhões de brasileiros ligados na internet. Que 99% sejam de uma ignorância assustadora, sobra um milhão de pessoas inteligentes de olho no lance.

No final de 2012, se falou muito que os réus comemorariam o Réveillon em suas celas. O ano novo veio e eles lá, livrinhos da silva. Foi ali que ficou claro que tudo acabaria em pizza. Foi ali que começou a fermentar o mal-estar que desaguaria nos protestos de junho. Não que os manifestantes foram pras ruas protestar contra a impunidade de políticos, longe disso. Mas todo esse debate que o mensalão gerou expôs de maneira incontestável práticas podres dentro do Partido dos Trabalhadores e dos partidos a que se aliou.

Os meios modificam os fins. Não dá para entrar só um pouquinho no mundo do crime. Foi aí que ficou transparente que o PT, que sempre carregou a bandeira da ética, é só mais um partido como os outros. É isso que dá se aliar aos Malufs, Collors e Sarneys da vida... o que pode ser o preço de governar um país como o Brasil. Mas não é um preço que todos nós estamos dispostos a pagar. Muito menos os jovens. Porque você acha que os manifestantes saíram queimando as bandeiras dos partidos nos protestos?

Nos últimos vinte anos, o Brasil vem sendo governado por alianças espúrias, fisiológicas e corruptas - que nos permitiram acabar com a inflação, modernizar nossa economia, redistribuir renda, diminuir a mortalidade infantil, melhorar o acesso à educação e saúde, e por aí vai. Mudamos para melhor, sem mudar um ponto crucial, que é essa cultura do vale-tudo. E não tem eleição, plebiscito ou reforma institucional que mude a cultura de um país. Se bem que, depois desse papelão do Supremo Tribunal Federal, talvez a gente devesse começar pela reforma do judiciário. Os black blocs talvez não tenham paciência de esperar e decidam ir lá quebrar tudo.

Como se muda o Brasil? Já mudou. Vai continuar mudando. Pra que lado, e em que ritmo, depende de como conduzirmos a História, nós a sociedade, e cada um pessoalmente. Eu, como tenho pressa, aposto no... jornalismo, no que ele tem de melhor: a disseminação da informação que eles não querem que você saiba, a explicação do que acontece por trás das aparências. Aposto no debate quente, transparente, informado. Fomentando o dissenso, o conflito, a visão crítica. É sendo intransigente e chato com a impunidade, grande ou pequena, esteja ela onde estiver. E é com ação direta, sim, na rua, e provocando, e pressionando, e procurando encrenca.  Quem julgará os juízes? Você e eu.

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Publicado em 03/09/2013 às 07:40

Caetano e Capilé, da Tropicália à Mídia Ninja: nem contra, nem cultura

"O Tropicalismo pretende destruir a cafonice endossando a cafonice, pretende criticar Chacrinha participando de seus programas de auditório. A participação de um tropicalista num programa do Chacrinha obedece a todas as coordenadas do programa e não às do tropicalista – isto é, o cantor acata docilmente as regras do jogo do programa sem, em nenhum momento, modificá-las (...) O  Tropicalismo é inarticulado – justamente porque ataca as aparências e não a essência da sociedade, e, justamente porque essas aparências são efêmeras e transitórias, o Tropicalismo... apenas xinga a cor do camaleão."

Augusto Boal, 1968

O Fora do Eixo leva chumbo - na grande imprensa, nas redes sociais, de músicos, de ex-integrantes. Fogo cerrado e público. Novos depoimentos convincentes contra o FdE aparecem a cada dia. Um grupo de moças se reuniu em um manifesto contra o machismo do Fora do Eixo. Concluir que é tudo invenção de reacionários e rancorosos é tarefa para fundamentalista.

Com tudo isso, o Mídia Ninja continua recebendo elogios em veículos internacionais, como ontem o Guardian. E convite para participar de debates sobre jornalismo. E afagos de...  Caetano Veloso. O velho baiano, como se apresenta, mais uma vez aplaude o Fora do Eixo. Desta vez, cita a entrevista publicada aqui com o líder do FdE, Pablo Capilé. Que foi respondida coletivamente pelo FDE, segundo o próprio Capilé. E, não respondendo o principal, disse muito.

Capilé e Bruno Torturra, diretor de comunicação do Fora do Eixo e coordenador da Mídia Ninja, não explicam nada. Se defendem das acusações atacando os acusadores: direitistas, vendidos, amargos, ultrapassados. Silenciam sobre perguntas difíceis. Pablo faz de maneira antipática; Bruno, simpática. A tática tem longo histórico de sucesso.

Muitos críticos acreditam que o FdE vai se dissolver. Não. Fora do Eixo/Mídia Ninja sobreviverão. Não estão aí seus inspiradores, as dentaduras sugando as tetas de sempre? Basta seguir o exemplo de quem sobrevive desde os anos 60 de oportunismo e pose.

O que vai acontecer com o FdE? Patrocinadores privados, avessos a polêmicas, e ainda mais envolvendo machismo e mocinhas, reduzirão seu apoio. O dinheiro público vai continuar pingando, mas menos. O FdE estará sob escrutínio permanente, e quem der dinheiro para eles, idem. Marta Suplicy tem densidade política e capital eleitoral. Não é Gilberto Gil.

Muitos jovens que poderiam se encantar com o FdE agora podem ler os depoimentos de quem saiu. A vida nas casas Fora do Eixo não parece mais tão convidativa, para dizer o mínimo. Festivais de música continuarão a acontecer - de preferência pagando os artistas.

O Fora do Eixo sobreviverá, com importância reduzida, porque não tem integrantes, tem fiéis. Como em tantos "movimentos" culturais brasileiros, o principal financiamento vem dos cofres públicos. Seus apoiadores são acríticos. Alguns se aboletam em nichos confortáveis entre imprensa, academia e capital.

Mas não seria exagero perseguir o Fora do Eixo? O que é o FdE perto de tantos apaniguados no nosso cinema, literatura, música? E o que são essas sanguessugas das leis de incentivo perto dos Eikes Batistas de plantão?

O ponto é o que o Fora do Eixo, além de se propor como movimento cultural, também se arvora em iniciativa política transformadora - e, atenção, como a única alternativa jornalística ética e independente. Se contrapõe à imprensa tradicional, à reportagem, à pauta, à edição. Mas, se quer cobrar independência, transparência e ineditismo dos outros, comece pela  própria casa.

Independência: a Mídia Ninja não existe. É um pedacinho do Fora do Eixo. É impossível aplaudir Mídia Ninja e criticar Fora do Eixo, porque eles são a mesma coisa. Mídia Ninja é o Bruno Torturra, que é do FdE, e mais uns caras do FdE, usando equipamentos do FdE, e as bases são as casas do FdE.

O que eles fizeram de importante fora das manifestações? Nada. O que fizeram de importante nas manifestações? Transmitiram pela internet o que acontecia, em vídeo, torcendo contra a polícia. Outros fazem parecido há muitos anos (recordo uma capa da revista "Play", editada por Alexandre Matias, sobre o Centro de Mídia Independente, em 2002).

Nos protestos, outros fizeram igual, mas sem tanta repercussão, porque sem os integrantes do FdE repercutindo a cobertura no Twitter e Facebook. Outros continuarão fazendo a mesma coisa, e mais e melhor.

Transparência: Fora do Eixo / Mídia Ninja querem informar o que acontece na rua, mas são especialistas em desinformação quanto se trata de explicar suas próprias atividades. Não esclarecem o que acontece dentro das Casas FdE, não abrem as contas dos festivais, não explicam as repetidas vitórias em tantos editais, e muitíssimo menos explicam suas finanças. Na entrevista publicada aqui, Pablo Capilé, afirma que o orçamento total do FdE em 2012 foi de R$ 5 milhões. E emenda: "o recurso público representa de 3 a 7% do total do orçamento do Fora do Eixo." E depois: "nosso orçamento em 2012 foi R$ 1.7 milhão em recurso público". Bem, R$ 1,7 milhão não é nem 3% e nem 7% de R$ 5 milhões.

Capilé ainda informa que o Fora do Eixo "tem 20 CNPJs". Em português claro: suas planilhas não valem os elétrons que ocupam na internet.

A terceira coisa importante sobre Fora do Eixo/Mídia Ninja: eles não são "o novo". Muito pelo contrário: estão perfeitamente integrados à veia principal da cultura e da política brasileiras,  fundamentadas na busca de benesses e na proximidade dos cofres públicos. É filhote da Tropicália. É Contracultura a favor.

O falso rock da Tropicália inventou o adesismo antropofágico. Segundo os tropicalistas, nada é certo ou errado, tudo pode ser divino e maravilhoso. O novo, o velho, o brega, o chique, o intelectual e o ignorante. Nenhum juízo de valor é possível. O relativismo é o único  mandamento. Qualquer um pode dizer: estou fazendo uma coisa radicalmente nova, e se você não entende é radicalmente careta.

A estratégia tropicalista-de-mercado exige a apropriação de cada novidade que pintar. Nem é mais antropofagia, é glutonice. Quem nunca engoliu esses árbitros da cultura brasileira foi ostracizado - Raul Seixas é o caso mais chocante.

Não é à toa que FDE/Mídia Ninja tenham a benção de Caetano, que já pensava velho nos anos 60. Nem que tenha sido tão bem patrocinado por Gilberto Gil, quando ministro da Cultura, e por sua turma, Juca Ferreira, Cláudio Prado. Nem que o Overmundo, site colaborativo sobre cultura idealizado pelo antropólogo Hermano Vianna, e bastante financiado por dinheiro público, tenha sido doado por Vianna para o Fora do Eixo.

Vianna e um grupo à sua volta articulam a ponte conceitual entre o oportunismo estratégico da Tropicália e a fuleiragem tática do FdE/Mídia Ninja. Sua coluna no Globo, pouco lida fora do Rio, embrulha a ação-entre-amigos habitual em citações dos pensadores da moda, misturando Ballard, Rucker e Philip K. Dick com Gilberto Freyre, Ronaldo Lemos e principalmente, inevitavelmente, interminavelmente Caetano.

Hermano assina em série curadorias de grandes eventos corporativos. É colaborador frequente de Gil e Caetano. Lembra da milionária proposta de blog de Maria Bethania? Era ele o idealizador, e quase emplacou, mesmo sob a gestão de Ana de Hollanda no Ministério da Cultura. Hermano também é muito próximo de Regina Casé. Foi chefe de Bruno Torturra, recentemente, no programa "Esquenta", que dispensa críticas.

Pauta um influente grupelho de militantes da cultura hacker-patrocinada, alternativa-estatal.  É uma gente que produz pouco, fala muito e atrapalha demais.

E se tem alguma posição, é sempre a favor, mas de maneira dissimulada, pernóstica, sempre fugindo do embate. É uma geléia desprovida de ideias e espinha, que não tem objetivo fora causar e faturar. Em entrevista à revista Trip, Vianna resume: "Virtude é ocupar os dois extremos ao mesmo tempo. Por isso fico no Software Livre e na Rede Globo... quando você escolhe uma posição, apaga uma parte da complexidade da vida. Você tem que ser infiel às idéias em que acredita."

Entendeu? Entendemos. Caetano e Capilé se irmanam em espírito, mitomania e logorreia. Cada profeta tem os seguidores que merece.

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Publicado em 27/08/2013 às 18:33

Mais Médicos, muito mais marketing: uma polêmica de proveta

 O Brasil vai importar 700 médicos da Síria. Eles vão trabalhar em cidades pequenas que hoje não tem médico. Antes, aprenderão português e passarão por testes para provar sua qualificação. Mas em vez do governo federal brasileiro pagar diretamente os médicos, vai enviar R$ 511 milhões para o ditador da Síria, Bashar al-Assad. Ele pagará os médicos, mas não sabemos quanto, e ficará com o restante do dinheiro para financiar seu regime, que proíbe a liberdade de expressão e imprensa, e reprime violentamente os dissidentes.

Se você achou a comparação de Cuba com Síria e Assad com Fidel bem natural, o programa Mais Médicos já atingiu seu objetivo. Se você achou um absurdo reacionário, também. No primeiro caso, você provavelmente não é eleitor do PT. No segundo, deve ter votado em Dilma e Lula para presidentes. Os médicos estrangeiros ainda não atenderam um único paciente, mas o programa Mais Médicos já atingiu seu objetivo prioritário: dividir o Brasil entre os que têm como pagar um plano de saúde e os que não têm.

A partir de hoje está proibido questionar a importação de médicos cubanos. Quem for contra é elitista, racista, cruel, vilão da Disney. Uma foto de médicas brasileiras brancas vaiando um médico cubano negro roda a internet. Bradam os indignados: tá vendo, os médicos brasileiros têm preconceito! Como se a maioria dos médicos brasileiros não trabalhasse muito, com estrutura pífia, a troco de trocados...

Trazer médicos cubanos, e não só de Portugal, Espanha ou Mercosul, é o toque de mestre. Ao importar médicos de Cuba, o governo dá perfumes ideológicos à questão, eletrizando a esquerda senil e a militância juvenil, e cutucando os bufões da direita medieval. Gera oposição automática entre ricos e pobres, acua a medicina mercantilista, e personaliza o descaso com que nossos doentes são tratados na rede pública.

Não é o primeiro nem o último apoio que nosso país dá para a ditadura cubana. O país é governado pela força por múmias stalinistas (e antes que apareça o argumento de que sob os Castro, Cuba avançou nisso ou aquilo, já digo que o mesmo argumento também serve para defender Hitler, Mussolini, e aliás o regime militar brasileiro). Cuba tem um povo bacana e um governo horroroso, como a maioria dos países. É claro que é tão imoral usar nosso dinheiro público para bancar Fidel e Raul quanto Assad. O que não quer dizer que os médicos cubanos não sejam bem preparados, diferente do que alguns sindicatos médicos vêm afirmando. Os hermanos são buenos, e vale a pena se informar antes de criticar.

O programa Mais Médicos é um factóide, uma polêmica de proveta. Sua missão é projetar o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, candidato ao governo do estado de São Paulo. Padilha é médico, petista desde os anos 80, funcionário público há priscas eras. Foi escolhido para ser candidato por Lula, como Haddad. Nos dois casos, os ministros não têm do que se gabar. Educação e saúde são eternas vergonhas nacionais. A grande virtude (?) dos dois: desconhecidos, não têm que enfrentar a rejeição do eleitorado. Funcionou com Haddad.

Padilha começa a ficar conhecido agora, um ano antes da eleição, exclusivamente por causa do programa Mais Médicos. A classe média paulista, minoria, já paga plano de saúde. Vota majoritariamente no PSDB - ano que vem, o candidato será novamente Geraldo Alckmin. Resta a maioria, que amarga no SUS. Trazendo médicos de fora, a estratégia põe a culpa das tragédias da saúde nos médicos brasileiros - esses elitistas! - e desloca as atenções da ineficiência na gestão pública da saúde. Padilha e seu padrinho sobem ao palanque, olha a cura milagrosa chegando! Marketing: é disso que se trata e nada mais.

É claro que não há nenhum problema em importarmos médicos estrangeiros, e os despacharmos para os rincões mais desgraçados do país, seja o interior do Piauí ou do Capão Redondo. Também não é nenhuma solução. É como importar mil policiais japoneses, e dizer que a violência de nossas cidades vai acabar. Mas poderíamos trazer uns trezentos deputados da Suécia, para o nosso Congresso. Ou, quem sabe, exportarmos para Cuba uns vinte mil chatinhos politicamente corretos, desses que passam o dia fofocando na internet (e que lá não iam ter o que fazer, porque em Cuba não tem Facebook nem Twitter).

Esta semana, o Twitter de Padilha contou com 15 a 20 atualizações diárias, entre tweets, retweets, e respostas. Todos sempre lidando com o Programa Mais Médicos - pelo jeito não tem mais nada acontecendo no campo da saúde. Atenção: não é o Twitter do Ministério da Saúde, é o Twitter pessoal do ministro (@padilhando). Que tem bastante tempo livre, pelo jeito, ou funcionários para atualizar suas redes sociais. Padilha tem 89 mil seguidores no Twitter. Está em campanha aberta, inclusive com os exageros típicos de candidato - disse que “mil médicos estrangeiros, em quinze dias de seleção, significarão 4 milhões de brasileiros que passarão a ser atendidos por médicos a partir de 1º de setembro”.

foto 11 Mais Médicos, muito mais marketing: uma polêmica de proveta
No site do ministério, os números oficiais: foram homologados 1.618 profissionais, sendo 1.096 brasileiros e  522 formados no exterior, dos quais 358 estrangeiros. Eles atenderão "6.5 milhões de usuários do Sistema Único de Saúde em 579 municípios", uns 4 mil pacientes por médico. Isso que é eficiência... mais detalhes aqui.

Dois terços das regiões onde estes médicos atuarão serão áreas de extrema pobreza ou distritos de saúde indígenas. Outro terço, exatamente 32,7%, em periferias de capitais e regiões metropolitanas. Quer saber quantos municípios aderiram ao programa? 3.511. Destes, 2.032 ainda não serão atendidos nessa fase. Sabe quantas cidades paulistas pediram para entrar no programa Mais Médicos? 309 das 645, quase metade das cidades do estado, requisitando 2.197 médicos. O que nossa presidente disse, em cerimônia com a presença de Alckmin e Padilha? Esses números provam "que a falta de médicos é um problema nacional, que afeta até mesmo o Estado mais rico do país". Nesta primeira fase, o primeiro estado em quantidade de médicos alocados é a Bahia. O segundo - surpresa! - é São Paulo, com 134 profissionais.

Além de servir como plataforma eleitoral de Padilha, o programa Mais Médicos funciona como como cortina de fumaça, obscurecendo uma visão crítica da saúde no país. Nosso problema não é a falta de médicos. É a falta de investimento em saúde, como um todo. E o péssimo uso dos poucos recursos que temos. Quem diz é o Tribunal de Contas da União. Um levantamento feito pelo TCU, e divulgado semana passada, escancara a esculhambação: em 2012, só 27% das verbas destinadas pelo governo federal à saúde foram utilizadas. E das verbas para saneamento, que têm impacto direto na saúde e principalmente na mortalidade infantil, nossos gestores usaram somente criminosos 9%. Na educação, que todo político diz que é a prioridade número um do Brasil, usamos 45% das verbas disponíveis.

Discutir se vamos estacar a sangria com band-aid nacional ou importado é garantia que o paciente vai morrer. O brasileiro vai continuar sofrendo, sem remédio, sem médico, sem hospital. É uma decisão de estado. Investir em saúde não é tão importante quanto em estádios de futebol, trens-balas, ou nas empresas dos financiadores das campanhas. Isso não é obra do PT ou do PSDB. É obra de séculos.Mas quem se candidatou, prometeu, e está lá agora, é que tem obrigação de dar conta disso. E nós, a opinião pública, é que temos obrigação de pressioná-los, e não ficar nesse debate estéril, pautado por marketeiros desse e daquele lados.

Os pecados do Brasil não são culpa dos médicos estrangeiros. Essa responsabilidade é nossa. Bem vindos sejam os doutores, incluindo os cubanos (e se vierem da Síria, ou Coreia do Norte, bem vindos também). Que se preparem para o desafio que lhes espera, e não é pequeno, como sabe quem já exerce a medicina no Brasil. Boa sorte para os médicos gringos, que não têm culpa de seus governantes serem o que são. E muito menos dos nossos governantes serem tão pouco.

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Publicado em 09/08/2013 às 10:09

Algumas perguntas para Pablo Capilé, o Fora do Eixo e a Mídia Ninja

A semana foi uma montanha-russa para a rede Fora do Eixo, e um de seus braços midiáticos, a Mídia Ninja. Pablo Capilé, gestor do Fora do Eixo, e Bruno Torturra, coordenador de comunicação do FDE, e face da Mídia Ninja, começaram dando baile em baluartes da imprensa no programa Roda Viva, na segunda (5). E chegaram à quinta sob ataque cerrado, enfrentando denúncias, e principalmente depoimentos impactantes de ex-integrantes do Fora do Eixo.

Eu já tinha publicado uma entrevista com Bruno. Na terça (9), comentei o Roda Viva. Na quarta (10), convidei Pablo para uma entrevista aqui no blog, e ele aceitou. Na quinta, enviei as perguntas abaixo. No mesmo dia, Capilé as publicou em seu perfil no Facebook.

Eu não pretendia publicar as perguntas sem resposta. Mas já que ele tomou a iniciativa, e disse que vai respondê-las nos próximos dias, deixo aqui registradas também.

O "algumas" do título é brincadeira. São um monte. E muitas outras não incluí. O Fora do Eixo é complexo. Não foi nenhum grande esforço de reportagem. Minha pesquisa levou algumas horas, três telefonemas, e
tive a sorte de contar com algumas fontes muito bem informadas.

O mais estranho não é que eu tenha elaborado tantas perguntas. O mais estranho é que eu, que tenho um simples blog, e outro emprego, tenha feito isso tão fácil e tão rápido. E a imprensa - tradicional ou independente - jamais tenha se dado ao trabalho.

Abaixo, a íntegra do email que mandei para Pablo Capilé e Bruno Torturra.

Oi Pablo,

aí está. Um questionário e tanto!
E olha que ainda cortei muitas perguntas.
Como você sabe, o Fora do Eixo tem muitos críticos.
E todo mundo resolveu me procurar, quando anunciei que preparava uma entrevista contigo...
Dei uma boa peneirada. Mesmo assim sobrou um tanto de perguntas provocativas.
E outras que são bem pragmáticas mesmo.
As regras são as mesmas da entrevista que fiz com o Bruno Torturra: as suas respostas serão publicadas na íntegra e nesta mesma ordem. Só editarei se for realmente necessário, e somente por questões de espaço e de padronização de texto do R7.
Confirma se recebeu, OK?
Obrigado, abraço

capile  Algumas perguntas para Pablo Capilé, o Fora do Eixo e a Mídia Ninja

André

título: Uma entrevista com Pablo Capilé, gestor do Fora do Eixo

Quantas organizações compõem a rede Fora do Eixo?

O que elas são - empresas, ONGs Oscips?

Quantos CNPJs?

Cada uma tem autonomia para captar recursos e participar de editais independentemente, ou há uma coordenação nacional?

Existe um caixa único?

O que é o Banco Fora do Eixo?

Existe uma prestação de contas unificada, ou cada organização presta contas separadamente?

Qual é o total de recursos que a rede Fora do Eixo recebeu em 2012?

Quanto destes recursos veio de editais, quando de patrocínios e apoios, quanto de festivais, e quanto de outras fontes?

Quanto veio de recursos públicos, seja via editais, patrocínios, publicidade ou qualquer outra modalidade de apoio?

O Fora do Eixo defende a transparência e afirma que suas contas e planilhas estão à disposição de quem quiser. Onde estão disponíveis planilhas que dêem conta de todas as movimentações do FDE?

A área de "empreendimentos" do site do FDE está em manutenção pelo menos desde fevereiro passado. Por quê?

Esta planilha de prestação de contas é difícil de analisar. Às vezes os valores aparecem em número, às vezes por extenso, o que dificulta a soma direta. Por quê?

A cada ano, nesta planilha, há projetos que não incluem resultados. A gente sabe que às vezes fica para outro ano. De todos os projetos apresentados pelo FdE, qual a proporção que é aprovada e qual a proporção rejeitada?

O FDE já afirmou que 7% do total de seu orçamento vem de dinheiro público. No Roda Viva, você falou em 5%. Isso indica que o FDE tem um orçamento consolidado. Tem ou não tem? Se tem, você pode divulgar?

E onde estão as informações sobre os investimentos de empresas privadas e receitas de outras atividades, que somam esses 95%? Esta planilha divulgada pelo FDE não contém valores nesse montante.

O que é a Universidade Fora do Eixo?

Quantos estudantes e quantos professores estão na Universidade Fora do Eixo?

Os estudantes pagam? Quanto?

O site da Universidade Fora do Eixo lista dezenas de docentes. Eles recebem? Quanto?

Alguém já se formou nessa Universidade?

Qual é o orçamento da Universidade FDE, e quem gere este orçamento?

No site da Universidade Fora do Eixo, há um crédito: "Realização: Ministério da Cultura, Petrobras, Fora do Eixo", com os logotipos. Qual a participação, e o investimento financeiro, do Ministerio da Cultura e da Petrobras na Universidade Fora do Eixo?

A Petrobras vem sendo um grande apoiador das iniciativas do Fora do Eixo. O FDE já indicou alguém para participar das instâncias que decidem os patrocínios da Petrobras?

O Fora do Eixo já apoiou candidatos a cargos públicos? Quem?

O Fora do Eixo já indicou alguém para participar de governos? Quem?

Embora o FDE tenha entrado de cabeça no movimento Existe Amor em SP, contra Russomano e pró-Haddad, a secretaria de cultura de São Paulo está com Juca Ferreira, e com o chefe de gabinete Rodrigo Savazoni. Savazoni é da Casa de Cultura Digital e independente do Fora do Eixo. Você acha que o FDE mereceria mais espaço na gestão Haddad?

Quantas pessoas trabalham em período integral na rede Fora do Eixo?

É obrigatório para quem trabalha em período integral no FDE morar nas Casas Fora do Eixo?

Qual é a faixa etária dessas pessoas?

Três pessoas diferentes me disseram que os integrantes do Fora do Eixo são pressionados a se relacionar amorosamente somente com outros integrantes do FDE. Quem quiser namorar com alguém de fora é convidado a sair do FDE. É verdade ou mentira?

Há relatos de que uma criança mora em uma Casa Fora do Eixo, apelidada "Bebê 2.0". Seria filho de dois militantes do FDE, mas seria criada coletivamente, por vários "pais" e "mães". O pai e mãe biológicos não teriam poder paterno sobre a criança. É verdade?

O Fora do Eixo criou diversas moedas virtuais: Cubo Card, Goma Card, Marcianos, Lumoeda, Palafita Card e Patativa. Como elas são utilizadas?

Por quê criar diversas moedas, e não uma só?

Essas moedas virtuais podem ser trocadas por reais? Se sim, qual o câmbio? Se não, por quê não?

Quem trabalha para o Fora do Eixo recebe em moedas virtuais. Se sair do FDE, o que vai fazer com suas moedas virtuais?

No site da Casa Fora do Eixo, há, em destaque, um logotipo da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Qual o valor do apoio da Secretaria à Casa Fora do Eixo?

O Estado de São Paulo é governado pelo PSDB. O Fora do Eixo aceita apoio de governos de qualquer partido?

O governador Geraldo Alckmin foi o principal alvo das manifestações em São Paulo. Você vê alguma contradição em receber apoio de um governo e militar contra ele?

A homepage do Portal Fora do Eixo traz três patrocínios federais: Ministério da Cultura, programa Cultura Viva e Programa Mais Cultura. Isso não provoca no leitor uma ideia imediata de vinculação entre o FDE e o governo federal?

O que é o Partido da Cultura? É ligado ao Fora do Eixo?

No site do Partido da Cultura, o último post é de janeiro de 2012. No twitter, de março de 2012. Ele está ativo? Pretende se constituir como partido regular e disputar eleições?

O FDE vem se aproximando de Marina Silva e seu projeto de partido, a Rede, inclusive colaborando na campanha de assinaturas. Há alguém indicado pelo FDE na executiva da Rede?

Se Marina Silva vencer a eleição para presidente, o FDE pretende indicar o ministro da cultura?

O Fora do Eixo costumava proclamar a política do "pós-rancor". O termo "pós-rancor" é criação de Claudio Prado, chefe do programas de cultura digital do Ministério da Cultura na época de Gilberto Gil e Juca Ferreira. Segundo a teoria do pós-rancor, as tensões entre capital e trabalho estão superadas, o conflito agora é entre quem tem informações e quem não tem. Cláudio Prazo é muito próximo do FDE, tem até programa na Pós TV. Mas nas manifestações de rua, o que não falta é rancor e polarização, ainda mais nos últimos protestos. O "pós-rancor" morreu?

Uma fonte me disse que o Fora do Eixo costuma apoiar determinados candidatos em eleições municipais e estaduais, com os militantes trabalhando diretamente nas campanhas. Se o candidato vence, o Fora do Eixo indica gente para a secretaria de cultura, geralmente pessoas que não são do FDE, mas próximas. Seriam mais de dez secretários da cultura no Brasil. É verdade?

A Mídia Ninja, como a Pós-TV, é do Fora do Eixo. O FDE recebe verbas de grandes corporações, como Vale e Petrobras. O Fora do Eixo financia a Mídia Ninja, que critica o grande capital, e principalmente a grande mídia. Afinal, FDE e a Mídia Ninja são contra o grande capital ou a favor?

Diversos apoiadores do FDE trabalham ou trabalharam na grande imprensa. A principal figura da Mídia Ninja, Bruno Torturra, trabalhou anos na Editora Trip, chegando a diretor de Redação. Contratou, demitiu, controlou orçamentos. Além da Trip, a editora faz revistas pra grandes corporações, como Gol, Pão de Açúcar e Audi. Seu emprego mais recente foi na TV Globo, como redator do programa Esquenta, com Hermano Vianna e Regina Casé. Você vê alguma contradição nisso?

Você acha que quem participa dos protestos tem consciência de que a Mídia Ninja e o FDE recebem apoio financeiro de grandes empresas, e governos de diversos partidos?

O Fora do Eixo costumava ser muito ativo nas redes sociais. Mas no auge das manifestações em S. Paulo, você abandonou o Twitter. Entre 11 e 18 de junho, não publicou nada, sendo que a manifestação em que a repórter da Folha foi ferida no olho aconteceu no dia 13. Coincidentemente, o twitter do Fora do Eixo tb não publicou nada entre 13 e 22 de junho. Vc só voltou ao twitter pra divulgar as transmissões da Mídia Ninja e pra anunciar que o prefeito Haddad ia baixar as tarifas. Por quê?

No começo deste ano, o Fora do Eixo publicou na internet o glossário do FDE: termos que devem ser conhecidos e usados por todos os militantes. Outros coletivos fizeram críticas, o FdE tirou o texto do ar, depois republicou, mas com alterações. A principal: eliminou o verbete "choque pesadelo". O verbete era assim:  "Choque pesadelo: Embate conveniente direcionado a alguém que vem conflitando ideias através de críticas não propositivas que desestimulem uma pessoa, ou grupo. O choque pesadelo serve como uma fala direcionada que busca esclarecer situações através do "papo reto". Ex. Tivemos uma conversa franca que serviu como choque pesadelo para ele. Ler também "papo reto". Pode explicar?

Muitos críticos do FDE dizem que o Fora do Eixo é uma seita, com regras rígidas para todas as ocasiões. O fato de existir um glossário tão detalhado não dá razão aos que criticam o FDE por ser uma espécie de seita?

O que é "catar e cooptar?"

Embora o FDE se apresente como uma rede, ex-integrantes do FDE dizem que a estrutura é totalmente verticalizada, e que você é como um guru na organização - jamais é questionado por ninguém. Quais outros integrantes do FDE têm influência próxima à sua?

Muitos coletivos de esquerda e movimentos populares não se dão com o Fora do Eixo. É o caso do Movimento Passe Livre, do MST, Movimento Hip Hop, Ocupa São Paulo e vários outros. A que você atribui essa rejeição?

Um conhecido jornalista de esquerda, José Arbex, escreveu um texto com críticas pesadas ao Fora do Eixo, em 2011, na revista Caros Amigos: "Lulismo Fora do Eixo". Ele conta que durante a preparação da Marcha pela Liberdade, em maio de 2011, você mencionou a possibilidade de a Coca-Cola patrocinar a marcha, e que a Coca nem fazia questão de sua  marca aparecer --era só pra ficar bem com os movimetos progressistas. Outros coletivos rejeitaram o patrocínio. Várias pessoas contaram a mesma versão dessa história. Isso é verdade? Se não é, exatamente o que você disse nessa reunião? Se isso não é verdade, o que foi que você disse nessa reunião?

O coletivo de esquerda chamado Passa Palavra se destaca nas críticas ao Fora do Eixo. Em um texto muito alentado, de 2011, eles afirmam que: a) o Fora do Eixo tem 57 CNPJs diferentes; b) o FDE é uma máquina de ganhar editais, que floresceu nas gestões de Gilberto Gil e Juca Ferreira no MinC, por meio do programa Cultura Viva, dirigido pro Claudio Prado. Segundo o Passa Palavra, o FDE participava da elaboração de editais da área digital do Minc, editais esses que eram vencidos pelo próprio FDE. Como você responde a essas acusações?

O Fora do Eixo começou em Cuiabá, com o Festival Calango. Esse festival não existe mais, apesar do crescimento do FDE. Por quê?

Você já disse defendeu várias vezes de que os artistas que tocam em festivais não deveriam receber cachês. Por quê?

Se os artistas não ganham para tocar, não ganham para divulgar música na internet, e o mercado de discos está em baixa, do que os artistas devem viver?

O FDE agencia shows? De que artistas? Como o FDE é remunerado por agenciar shows?

Os festivais independentes de rock brasileiros eram reunidos, desde 2005, numa entidade chamada Abrafin. Qual a relação atual entre a Abrafin e o Fora do Eixo?

Em 2011, treze festivais independentes, incluindo alguns dos mais importantes do Brasil, como o Goiânia Noise e o Abril Pro Rock (de Recife), abandonaram a Abrafin. Alegaram que o FDE tentava impor um paradigma único a todos os festivais. E que os festivais se viam obrigados a chamar sempre os mesmo artistas ligado ao FdE. O que aconteceu de fato na Abrafin?

Você tem a informação de que festivais que abandonaram a Abrafin passaram a receber menos patrocínios? A que atribui isso?

Vários artistas - o cantor China, o Daniel Peixoto (do Montage) e o Márvio dos Anjos (do Cabaret), entre muitos outros - relatam que os festivais do Fora do Eixo têm como características a infraestrutura muito simples e o não-pagamento de cachê, exceto em casos muito excepcionais. Se a infraestrutura é básica, não tem cachê, e os festivais são feitos com dinheiro de editais, para onde vai o dinheiro que sobra? Ou não sobra?

A cineasta Beatriz Seigner divulgou ontem um longo depoimento no Facebook. Cita um jantar na casa da diretora de marketing da Vale, onde ela e você estavam. Segundo o texto dela, você disse que "era contra pagar cachês aos artistas, pois se pagasse valorizaria a atividade dos mesmos e incentivaria a pessoa ‘lá na ponta’ da rede, como eles dizem, a serem artistas e não ‘DUTO’ como ele precisava. Eu perguntei o que ele queria dizer com “duto”, ele falou sem a menor cerimônia: “duto, os canos por onde passam o esgoto”. Esse diálogo aconteceu?

Beatriz também diz que seu filme Bollywood Dream - O Sonho Bollywoodiano foi exibido em sessões que contavam com patrocinadores, mas que o dinheiro ficou sempre com o Fora do Eixo; ela não recebeu nada pela exibição durante os festivais Grito do Rock, e só conseguiu receber o dinheiro do SESC depois de muito insistir com o FDE. Isso é verdade?

Diz que lhe foi pedido que seu filme tivesse o crédito "Realização Fora do Eixo", embora o filme não tenha sido produzido pelo FDE. Isso é uma prática comum? Você considera isso um pedido normal?

Todo o depoimento de Beatriz é muito crítico ao FDE e a você pessoalmente. Como você responde a ele?

"Fora do Eixo" é marca registrada. O registro no INPI é da Globo Comunicação e Participações. Pode explicar? Aqui está o registro:

NCL(8) 3582861623009/08/2006FORA DO EIXORegistroGLOBO COMUNICAÇÃO E PARTICIPAÇÕES S.A.NCL(8) 41

O Fora do Eixo vem recebendo mais e mais críticas. Agora, também de ex-integrantes do FDE. Alguns preparam publicações de novos depoimentos contra o FDE. Certamente, a imprensa vai investigar ainda mais.

Com tanta publicidade negativa, dificilmente o FDE continuará recebendo apoios e patrocínios na mesma escala - afinal, empresas não querem risco na hora de escolher quem patrocinam. E necessariamente todas as contas do FDE serão examinadas com cada vez mais rigor. O Fora do Eixo - e portanto Mídia Ninja, Abrafin, Pós TV, Casas FDE, Universidade FDE etc. - está em risco de desmoronar de repente?

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