Posts com a categoria: Quadrinhos

Publicado em 30/01/2015 às 16:55

Vamos comemorar o dia da HQ Nacional com novos gibis brasileiros que parecem gringos

meedevil2 Vamos comemorar o dia da HQ Nacional com novos gibis brasileiros que parecem gringos

Muita coisa nova e boa pintando. Fiz a rapa na Comic Con. Conheci um monte de HQ made in Brasil bacanésima. Conversei com vários criadores.

Como se publica coisa diferente nos dias de hoje! E grande surpresa: muito brasileiro criando como se estivesse em qualquer parte do mundo. Sem pretensão de "entrar no mercado" internacional, mas também sem amarras nem qualquer perfume nacionalista.

Sou grande fã de arte brasileira que fale do Brasil. Mas desta vez selecionei HQ brazuca made in the world.


Publicado em 12/01/2015 às 14:33

Charlie e Chris: como combater a ignorância

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O atentado à Charlie Hebdo gerou um vendaval de burrice. Não permitamos que ele apague nossa faisquinha de civilização. É hora de lembrar e ler Christopher Hitchens.

Publicado em 14/11/2014 às 08:00

Faça o que eu digo: leia o mangá antes de assistir No Limite do Amanhã

maga Faça o que eu digo: leia o mangá antes de assistir <i>No Limite do Amanhã</i>

O mangá é ficção científica. O filme inspirado nele é uma comédia romântica - Tropas Estelares no Feitiço do Tempo. Li a tradução para o inglês, All You Need is Kill, e vi o DVD, tudo no mesmo final de semana.  Faça isso, ou espere a versão brasileira do mangá. Foi anunciado para breve, pela JBC. Mas tenho boas razões para te dizer para ler antes de assistir - e elas estão aqui.

Publicado em 29/08/2013 às 08:53

Uma lição de vida ilustrada, do criador de Calvin

Gavin Aung Tham não é especial por seu estilo. Não é um gênio da ilustração, não choca por sua originalidade, nem marca por ser particularmente autoral. E mesmo assim me vejo voltando sempre a seu site, Zen Pencils, sobre o qual já escrevi aqui.

Resumindo: ele transforma frases de outros, famosos ou nem tanto, em pequenos cartuns, ou, às vezes, histórias em quadrinhos.

Esta é uma dica de vida de Bill Watterson, o criador de Calvin e Hobbes, ou, como prefiro, Haroldo. Bill é um gênio, mesmo aposentado. Tá com saudades? Dá pra matar um pouco aqui.

Gavin não é gênio, mas sabe reconhecer e homenagear um. É uma história singelinha? Uma frase meio piegas? É lição muito difícil de seguir. Mas vale a pena.

calvin Uma lição de vida ilustrada, do criador de Calvin

A tira Zen Pencils é publicada em português toda segunda, quarta e sexta, pela turma do site Outros Quadrinhos, que também adapta outras HQs bacanas para o leitor brasileiro, sempre com a aprovação dos criadores. Prestigie!

Publicado em 02/08/2013 às 11:29

Wolverine: imortal e imoral

clint eastwood Wolverine: imortal e imoral

Clint lembra alguém?

Wolverine é herói da fronteira. Pistoleiro solitário e soturno, brigão e bocudo. Só não vive no velho oeste, no século 19. É relíquia de tempos duros, deslocado na modernidade. Como Clint Eastwood, o herói/anti-herói por excelência dos primeiros anos 70, quando o herói mutante foi criado. Clint é cowboy, seja de chapéu e poncho, ou vestindo terno e gravata. Logan é Dirty Harry com garras de adamantium.

Wolverine - Imortal assume completamente o legado western do herói mutante. Tem a exata estrutura de faroestes clássicos como Shane. Ou como o remix de Shane, Pale Rider, Cavaleiro Solitário, estrelado por... Clint Eastwood. Na ressaca de superproduções espetaculosas e solenes como O Homem de Aço, aposta no mito fundador do cinema americano. Em roteiro decente, orçamento pé-no-chão, combate urbano mano-a-mano. Surpresa: investe em romance e em personagens femininas fortes. Hugh Jackman é peça rara - um astro que os machos admiram e as mulheres desejam.

Aposta mais arriscada foi a integração com filmes anteriores e próximos dos X-Men. Quem não viu, ou não lembra, tem grande chance de ficar perdido. Porque Wolverine agora é um mendigo barbudo que mora isolado nas montanhas? Porque vive enchendo a cara? Porque desistiu de lutar? Quem é essa Jean que fica aparecendo nos sonhos dele? E quem são os dois velhinhos que surpreendem o herói na tradicional sequência pós-créditos?

Que se passe inteiramente no Japão, e que quase todos os personagens sejam japoneses, também foi opção improvável. Natural para leitores de quadrinhos. Foi em páginas dos anos 80 que Wolverine, o cowboy fora da lei, mostrou seu lado samurai. Revelou-se homem dedicado e delicado, apaixonou-se por uma linda e forte japonesinha, assumiu responsabilidades antes impensadas. Descubriu os prazeres da honra e deu novo sentido à sua vida.

O que pode ser dificuldade para o espectador normal é delícia para os especialistas, nós. A primeira história que li de Wolverine foi a primeira história que li dos novos X-Men, 1979, um confronto com um time de super-heróis canadenses, Alpha Flight. A revista não parecia com nada que eu já tivesse visto antes, roteiro zapt-zupt, arte com perfume de futuro. Os mutantes se tornaram instantaneamente minha super-equipe predileta; Vingadores e Liga da Justiça não davam para o cheiro.

Li tudo que me consegui dos X-Men, que absolutamente ninguém conhecia no Brasil, e foi grande surpresa quando as histórias começaram a ser publicadas aqui. De repente os X-Men eram populares. E depois eles ganharam um desenho animado e mais outro e outro, e Cíclope e Ororo e Noturno estavam em mochilas e lancheiras. E de repente todos os heróis dos gibis se tornaram durões e violentos e amargurados, inclusive meu eterno favorito Batman (e o que é "O Cavaleiro das Trevas" se não uma reinterpretação de Batman a la Wolverine?). E depois vieram os filmes, e hoje todo mundo sabe quem é Wolverine. Quando olho para trás, fico meio besta com tudo que aconteceu. Que futuro fantástico vivemos.

frank Wolverine: imortal e imoral

Wolverine mergulhado em ninjas, por Frank Miller

Igualmente besta fiquei de assistir Wolverine em uma sala 4DX. A cadeira parece que vai sair voando., Sobe e desce, cutuca costas e traseiro. Jatos de ar te pegam por todos os lados. Quando a vilã Viper cospe veneno, um jatinho de água respinga na sua cara! Experiência assim costumava ser privilégio de parque de diversões. A primeira vez que senti algo parecido foi uma década atrás, nos estúdios da Universal, em Los Angeles, na atração do Exterminador do Futuro. Hoje tem na minha cidade!

Salas como essa custam o dobro de uma sala 3D normal, e valem cada centavo. Estão se espalhando por todo lugar. Porque cinema, cada vez mais, é para isso, para vivermos emoções que a TV e a internet não são capazes de oferecer. É por isso que o futuro do cinema (e não da narrativa cinematográfica) pertence aos superpoderes, à fantasia, à ficção científica, aos monstros. E aliás se você quiser saber como será este futuro, já pode - custa uma passagem a Los Angeles e uma entrada na mesma Universal, mas para viver a aventura Transformers - The Ride. Prepare o coração.

quadrinho Wolverine: imortal e imoral

Os X-Men, por John Byrne

Como me explicou um velho amigo, depois de assistir o primeiro filme dos X-Men: "ganhamos". É. E esse novo Wolverine, com tantos acertos a mais que os erros, e tão fiel aos quadrinhos, é mais uma batalha vencida. Mas o resultado da guerra continua em aberto. Porque as pessoas que criaram Wolverine, Len Wein e Dave Cockrum, não estão entre os vencedores. Nem Chris Claremont, que fez do personagem o que é, e criou a história que dá base a Wolverine - Imortal (inclusive criando os personagens secundários, Mariko, Yukio, Harada, Yashida). Ou Frank Miller, que desenhou a minissérie-chave de Wolverine no Japão. Nem John Byrne, que mais que ninguém fez do herói, canadense como ele, um protagonista. Byrne também criou o argumento que embasa a próxima aventura cinematográfica dos X-Men, Dias do Futuro Passado.

É imoral que Wolverine, um personagem criado há tão pouco tempo, por gente que está por aí, renda tanto dinheiro a seus donos e tão pouco a seus criadores. Não dá para declarar vitória antes que essa injustiça seja corrigida. O prazo é curto. Claremont, Byrne e a maioria das pessoas que tornaram Wolverine um ícone estão por volta dos 60 anos; Cockrum morreu passando dificuldades. Que os criadores recebam os créditos e royalties que merecem. A Marvel pode estar dentro dos limites jurídicos, ao negar os direitos dos criadores, mas está sendo aética. Trai os princípios que move seus personagens. O que é um herói de gibi, senão alguém que valoriza mais a justiça do que a lei?

Ainda mais Logan, eterno outsider. Ele o único super-herói dos quadrinhos criado nos últimos quarenta anos que rivaliza com os velhinhos Batman e Super Homem, Homem Aranha e Vingadores. Tem tudo viver além de Hugh Jackman e dos quadrinhos, viver para sempre, como esses heróis, e como o cowboy e o samurai, de quem é herdeiro. Wolverine pode ser de fato imortal. Mas precisa ser também moral.

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Publicado em 19/02/2013 às 16:36

Kyle Baker: os gibis pra ler de graça, e os gibis que você precisa comprar já

kingdavid extract Kyle Baker: os gibis pra ler de graça, e os gibis que você precisa comprar já
Kyle Baker sempre merece atenção. Pelo seu traço, sua perspicácia, sua ternura, seu destemor. É cartunista, quadrinista, animador de mão cheia. Quando lançou o livro How to Draw Stupid!, compartilhei suas boas dicas para quem quer aprender a desenhar. E viver.

Kyle ousa de novo. Acaba de colocar alguns de seus álbuns mais importantes de graça, no seu site. Claro que já existiam scans pirata por aí. Mas agora você pode ler Why I Hate Saturn, You are Here, Cowboy Wally e King David sem desembolsar um centavo, porque o dono dessas obras assim decidiu. Não é igual a ler em papel cuchê brilhante e formato grande... mas sugiro que você leia esses álbuns online, e depois compre os outros.

Se você não liga para quadrinhos, mas tem família, compre The Bakers, uma graça de cartum sobre a família de Kyle. Se seu negócio é política, compre Special Forces, a maior sacanagem sobre a guerra do Iraque e as bazófias militaristas americanas. Se está preparado para ficar com o coração apertado, compre Nat Turner, a história de um escravo que se tornou herói.

Compre porque é bom para você. E porque é bom para Kyle. Ele faz um trabalho único e independente. Seus quadrinhos são sua paixão. Quando precisa faturar, faz uns freelances para Marvel e DC, ou trabalha com animação - mais recentemente, no sensacional Phineas & Ferb. Mas é visível o amor que coloca em seu trabalho autoral.

Agora, ele compartilha de graça com o mundo obras em que colocou coração, mente e muque. Merece nosso apoio financeiro. E, egoisticamente, nos interessa que ele continue ganhando seus trocados. Continue desenhando. Continue sendo Kyle Baker.

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Publicado em 08/08/2012 às 04:30

O único astro da história das Olimpíadas

Johnny era Janos e nasceu na Transilvânia, como Drácula. Foi o único campeão olímpico que virou super-astro. Ninguém chega perto. Ganhou três medalhas de ouro nas Olimpíadas de Paris, 1924, quando tinha dezenove anos. E mais duas em 1928. Nada mau para um garoto imigrante e pobre, com um pai alcoólatra que judiava da família, e que começou a nadar para
enfrentar a polio, aos nove anos.

Se você é um jovem campeão, famoso e simpaticão, sem muito a dizer, mas com um corpo bonito que está acostumado a se exibir de tanga, qual a carreira ideal? Viver Tarzan no cinema, claro. Johnny Weismuller foi o maior dos Tarzans, em doze filmes, a partir de 1932.

Foi herói de duas gerações de moleques. Seu sucesso abriu espaço para décadas de outros reis das selvas. Mas seu Tarzan era também ícone sexual. A mulherada da época da depressão sonhava em ter um fortão, gostosão, submisso e seminu a seus pés. Seu herói de bom coração, boa-praça e bom de briga, atraía os desempregados, desesperados por distração das agruras da economia. Weismuller era diversão garantida para todos os públicos. Ainda é.

Tarzan and Jane wallpaper2 O único astro da história das Olimpíadas
Depois que já tinha aposentado Chita e pendurado o cipó, Johnny foi eleito em uma pesquisa da agência Associated Press como o maior nadador da primeira metade do século 20. Foi enterrado em Acapulco, aos 79 anos, depois de cinco esposas, três filhos, e meia vida em decadência. Atleta, como Tarzan, não pode passar dos quarenta. A glória olímpica, supostamente imortal, dura tanto quanto a circunferência da cintura do campeão.

Quando eu era criança, outro nadador, Mark Spitz, quebrou recordes e virou celebridade instantânea. Quem lembra dele? Melhor fazer como Johnny. Não viverá para sempre como campeão olímpico - ninguém vive. Mas é inesquecível como o ideal de atleta, o nobre selvagem, que vive em harmonia com a natureza, e portanto corre, e nada, e pula, e briga, e vive como ninguém - Tarzan, o homem-macaco.

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Publicado em 09/05/2012 às 07:18

O problema do Brasil é o presentismo

 

forasta 1 ok O problema do Brasil é o presentismo

Presentismo. É uma nova palavra. Significa uma cultura absolutamente focada no presente. Como a nossa, hoje, segundo o criador do termo, Douglas Rushkoff, para quem deixamos para trás o tempo em que olhávamos para o futuro. Tendo a concordar. Também tendo a concordar com várias outras coisas que Rushkoff diz nesta longa entrevista, ostensivamente sobre sua nova graphic novel, ADD. Leia aqui.

Quando fala de nossa cultura, Rushkoff fala como quem vive nos EUA. Ele é um Media Theorist, ou como se diz hoje, Media Ecologist. Escreve romances, artigos e gibis piradões tentando explicar o que se passa à sua volta. Apóia o Anonymous e Occupy e vende consultoria para big corporações. É típico novaiorquino.

(clique na imagem para ampliar)

Rushkoff foi sempre interessante e confuso. Era mais ingênuo, socialismo Jornada Nas Estrelas modelito Wired, como assume. Está ficando velho e cético. Felizmente, é um quase desenganado bastante desencanado. Mantém o humor afiado. Leio sua não-ficção com interesse. Gosto muito de Back In The Box, um manifesto para que as pessoas se dediquem a fazer com capricho o que fazem bem.

Testament, gibi, tentei, mas não deu para encarar, pela verborragia. ADD comprei ontem mesmo. Grant Morrison diz que é o melhor gibi de super-heróis mutantes desde a era de ouro dos X-Men, e Morrison deve saber, considerando que sua fase com os mutantes da Marvel foi a última que prestou, uma década atrás. Rushkoff é letrado em cultura alta e baixa, e sempre tem o que dizer, mesmo que às vezes besteira.

Dá um pau na gamificação, e tem bom argumento. Mas não está dando a devida importância ao impacto que as mídias eletrônico-interativas terão nas salas de aula do futuro próximo. Aposto nos games como chave para a revolução educacional de que necessitamos. Larguei duas faculdades, mas de games eu entendo bastante.

Rushkoff acerta na mosca em um momento desta entrevista. Muitos críticos descartam os novos movimentos de protestos tipo Occupy dizendo que eles não têm pauta e não têm líderes. Douglas crava: eles não são leaderless, são leader-ful - são cheios de líderes, no sentido que muitos integrantes destes movimentos têm momentos de liderança, aspectos de liderança.

Uma campanha orgânica e em rede como essa não pode se articular em torno de um líder (até porque um líder inevitavelmente desapontará; ele cita Obama; eu citaria, em outro contexto, Lula; mas podia ser Kennedy ou Lênin).

Enfim: visite o site dele, leia a entrevista, se tiveres inglês para tanto, e se não, tá em tempo de aprender. Se discute no Brasil CPIs que terminarão em pizza. Esquenta o fla-flu tucano-petista habitual, todos mirando as eleições. O Brasil é muito presentista para mim. Tem outras pessoas falando de outras coisas pelo mundo afora. Pensando outros mundos. Enxergando o hoje, mas espiando o amanhã. Vou me concentrar nelas.

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Publicado em 27/04/2012 às 06:00

Os Vingadores x Jack Kirby: justiça na tela, injustiça na vida real

The Avengers <i>Os Vingadores</i> x Jack Kirby: justiça na tela, injustiça na vida real

Os Vingadores foram criados em 1963 por Jack Kirby, desenhista, e Stan Lee, roteirista e editor. Thor, Hulk, Nick Fury e Homem de Ferro foram criados por Lee e Kirby, o último com participação do também desenhista Don Heck. O Capitão América foi criado em 1941 por Kirby e Joe Simon.

Gavião Arqueiro e Viúva Negra foram criados por Stan Lee e Don Heck.

Você não vai achar nenhuma destas informações no filme dos Vingadores.

Stan Lee está creditado como co-produtor. É parte de um acordo que ele fez com a Marvel, muitos anos atrás, resultado de um processo: todo filme Marvel tem seu nome como co-produtor, e ele recebe uma fatia (pequena e não-revelada) da receita. Kirby e Heck: nada. Perguntaram a Stan Lee se Kirby deveria ter algum crédito no filme. Resposta: não sou responsável por isso...

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don heck <i>Os Vingadores</i> x Jack Kirby: justiça na tela, injustiça na vida real

Don Heck

Kirby foi o maior criador de gibis de super-heróis. Não foi o primeiro, mas fez melhor que ninguém, e influenciou tudo que veio depois, de um jeito ou outro. Está para o gênero como John Ford para o faroeste e Elvis para o rock. Em dupla com Stan Lee, eram o Lennon/McCartney dos quadrinhos dos anos 60. Ninguém sabia onde começava um e terminava o outro. O divórcio foi igualmente feio.

Kirby nunca foi dono dos personagens que criou. Fazia de encomenda e ganhava por página. Era um garoto judeu durão que tinha uma família pra sustentar. Sempre foi este o esquema dos comics. Desde o início, anos 30, quando os gibis foram inventados por um bando de gângsters novaiorquinos (a história está muito bem contada no livro Homens do Amanhã, de Gerard Jones, que publiquei anos atrás - orgulho, orgulho).

paul mccartney e jack kirby <i>Os Vingadores</i> x Jack Kirby: justiça na tela, injustiça na vida real

Jack Kirby e Paul McCartney

Kirby morreu brigando com a Marvel. Por ótimas razões. A Marvel e a DC e todas as outras editoras tratavam seus frilas como lixo, inclusive os mais importantes. Nem as páginas que desenhavam eles podiam manter. A história é conhecidíssima nos meios dos quadrinhos.

Em 1976, por causa de uma nova lei de copyrights nos Estados Unidos, a Marvel teve que regularizar sua relação com os freelancers. Propôs um acordo com Jack Kirby, co-criador da maioria de seus personagens mais populares. Em troca de receber 88 páginas que ele mesmo tinha desenhado, Kirby deveria abrir mão de alguns direitos. Uma lista incompleta:

- Kirby concordaria que a Marvel era a única e exclusiva proprietária do copyright e da arte produzida por ele em todo o mundo

- Kirby não receberia royalties sobre o uso futuro de seu trabalho pela Marvel

- Kirby ficava proibido de auxiliar outros artistas a questionar o copyright da Marvel

- Marvel teria direito ao uso do nome Jack Kirby, de sua imagem e informação biográfica para uso de marketing ou em publicações

- Kirby não teria direito a copiar, expôr, ou mesmo doar sua arte

- e por aí vai.

Avengers001cover <i>Os Vingadores</i> x Jack Kirby: justiça na tela, injustiça na vida real

Capa da primeira edição de The Avengers, contra Loki, mesmo inimigo do filme

Kirby se negou a fazer o acordo. A briga virou causa célebre. Criadores famosos apoiaram Kirby. Ele morreu antes que as regras mudassem para melhor. Ainda estão muitíssimo distantes do ideal. É por isso que mais e mais criadores (de quadrinhos, mas também de música, de filmes, de livros e de tudo mais que você imaginar) buscam lançar suas criações com o máximo de independência. Ou, quando trabalham com megacorporações, se enchem de precauções.

Mas no caso de personagens licenciados, tipo Batman ou Vingadores, ou mesmo a Turma da Mônica, não tem muito jeito. Você ganha pra produzir aquilo e boa. Uns dão crédito, outros não; uns dão royalties, outros não; mas sempre é muito claro contratualmente que é um trabalho de encomenda, e que a propriedade do seu trabalho é da empresa que encomendou o frila.

E no caso de criações antigas, do tempo de Kirby, ou mesmo nem tão antigas, não há como voltar atrás. Neil Gaiman não escreve mais histórias de Sandman porque a DC não paga os royalties que ele quer (por novas histórias e pelas reedições do original). A disputa de Alan Moore com a mesma DC já deu muito pano para manga e continua dando, com a anunciada série Before Watchmen, que recicla os personagens criados na graphic novel de Moore e Dave Gibbons.

Todos estes desenhistas e roteiristas que fizeram nossa alegria durante décadas ganhavam por página, às vezes com alguma quirelinha a mais. Esta semana mesmo, apareceu na web um pedido de socorro para o desenhista filipino Tony de Zuñiga, em estado terminal em Manilla, sem dinheiro para pagar o hospital. É co-criador do pistoleiro Jonah Hex, da DC, que teve seu próprio filme ano passado. Ganhou zero com o filme. É de cortar o coração.

Tony DeZuniga <i>Os Vingadores</i> x Jack Kirby: justiça na tela, injustiça na vida real

Tony de Zuñiga

O processo e a pendenga Kirby x Marvel continuam até hoje, em um formato ou outro. Mas ano passado, a Marvel ganhou o principal processo dos herdeiros de Kirby. O juiz decidiu: o trabalho era work for hire, ou seja, trabalho feito por encomenda, e é isso aí.

O juiz está certo. O contrato realmente dizia que Kirby não tinha direito a ser dono de nada. Mas contratos no século 19 estipulavam a legalidade da escravidão, e nem por isso eram justos. Existe a lei e a justiça. Esse é o tema de muitos gibis de super-herói. Se a lei fosse sempre suficiente, superseres com roupas esquisitas agindo à margem da lei seriam desnecessários.

É injusto que um filme que custou US$ 220 milhões como Os Vingadores, e dará muita grana, não traga o crédito devido para os criadores que originaram estes personagens, nem os recompense financeiramente, ou a seus herdeiros. Estamos em 2012, não nos anos 30. Entendo a posição de Marvel, DC e cia. Se abrirem precedentes, arrisca aparecer uma enxurrada de criadores pedindo o que julgam ser seus direitos.

Mas vale o risco e é a coisa certa a fazer. É possível que a Disney, hoje dona da Marvel, dê os passos na direção certa em anos vindouros - particularmente quando temos gente como John Lasseter na alta direção da empresa. A Pixar, sob sua direção, fez uma verdadeira carta de amor a Jack Kirby, um desenho chamado Os Incríveis. Quem sabe os herdeiros de Kirby receberão o que Kirby fez por merecer, se bastante gente disser que é importante.

É particularmente injusta essa situação porque, pelo que os amigos garantem, o filme é um megaépico recheado de conflitos interpessoais e humor, marcas registradas do original de Lee e Kirby. Li minha primeira aventura dos Os Vingadores em 1974. Tenho pilhas de gibis dos maiores heróis da Terra. Claro que estarei no cinema este fim-de-semana, filho a tiracolo. Mas explicarei para Tomás: o que está na tela pode fazer justiça aos Vingadores. Mas o que está por trás, não.

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Publicado em 29/03/2012 às 08:32

Yoshitaka Amano: um superstar dos games entre nós

Yoshitaka Amano Yoshitaka Amano: um superstar dos games entre nós

Yoshitaka Amano, um dos mais aclamados artistas do Japão, vem pela primeira vez ao Brasil. Ele vem especialmente para participar da feira GameWorld 2012, a convite da Fundação Japão e da Tambor, realizadora do evento, onde passo meus dias - você pensou que eu ficava o dia inteiro penteando meus posts para o blog?

Me dá licença para vender meu peixe, que neste caso, é um peixão. Amano é um artista plástico muito respeitado - e, simultaneamente, o mais importante concept artist da história dos videogames.

O que é um concept artist? É a mente criativa que estabelece os conceitos visuais e sensoriais sobre os quais outros vão trabalhar. Amano desenha, pinta, cria personagens, cenários, momentos. Eles servem de base para centenas de outras pessoas fazerem seus trabalhos de design, programação, e tudo mais.

amano tidusyuna ok Yoshitaka Amano: um superstar dos games entre nós

Amano vem com uma exposição, a Mostra Yoshitaka Amano, com 31 quadros. São lindos e mais. Yoshitaka Amano é para lá de multidisciplinar.  Seus trabalhos vão da criação de estampas para quimonos à cerâmica, da caligrafia tradicional à pintura e à criação de cenários para o teatro. O sucesso nestas várias frentes atraem o aplauso de audiências diversas.

Nascido em Shizuoka, no Japão, Yoshitaka Amano iniciou sua carreira em 1967, nos estúdios Tatsunoko, onde trabalhou em desenhos como Speed Racer e Gatchaman (no Ocidente, G-Force). No Brasil, é especialmente conhecido por seu longo envolvimento com a legendária série de videogames, Final Fantasy.

Os personagens e ambientes criados por Amano, combinação de xilogravuras tradicionais japonesas com art nouveau, e do clássico com o moderno, estabeleceu o universo simbólico de Final Fantasy, e influenciou criadores em todo o mundo. É mangá? É Klimt?
YoshitakaAmano2 ok Yoshitaka Amano: um superstar dos games entre nós

Além disso, seu traço elegante também conquistou uma legião de fãs no nosso país graças à sua colaboração com Neil Gaiman no livro ilustrado Sandman: Caçadores de Sonhos, lançado em 1999 (e que tive o prazer de publicar, quando dirigia a Conrad), e também com Greg Rucka, no álbum Elektra & Wolverine: O Redentor (2000), ambos best-sellers.

Seu  trabalho gerou quarenta art books, e vem sendo exposto nos principais museus do mundo, em cidades como Nova York, Paris e Tóquio. É a primeira vez que o Brasil recebe uma exposição do artista, e a primeira vez que ele visita o país. Deu um trabalho louco. Está dando, ainda. Amano ainda não chegou a São Paulo.

Mas a turma da Fundação Japão e da Tambor trabalha nisso há mais de seis meses. E estamos, com razão orgulhosos. Amano faz uma palestra nesta sexta à tarde, e estará sábado e domingo encontrando seus muitos fãs.

É uma chance muito rara de encontrar pessoalmente um artista deste calibre e importância. Todas as informações sobre a Mostra Yoshitaka Amano, e as muitas atrações do GameWorld, estão aqui. Te espero lá!

Mostra ok Yoshitaka Amano: um superstar dos games entre nós

LISTA PARCIAL DE TRABALHOS DE YOSHITAKA AMANO

Video Games

Final Fantasy I (1987)
Final Fantasy II (1988)
First Queen (1988)
Duel (1989)
Duel98 (1989)
Final Fantasy III (1990)
First Queen 2 (1990)
Final Fantasy IV (1991)
Final Fantasy V (1992)
Kawanakajima Ibunroku (1992)
First Queen 3 (1993)
Final Fantasy VI (1994)
Front Mission (1995)
Maten Densetsu (1995)
Front Mission: Gun Hazard (1996)
Final Fantasy VII (1997)
Kartia: The Word of Fate (1998)
Final Fantasy VIII (1999)
Final Fantasy IX (2000)
El Dorado Gate (2000–2001)
Final Fantasy X (2001)
Final Fantasy X-2 (2001)
Final Fantasy XI (2002)
Final Fantasy XII (2006)
Lord of Vermilion (2008)
Dissidia: Final Fantasy (2008)
Lord of Vermilion II (2009)
Final Fantasy XIII (2010)
Final Fantasy XIV Online (2010)
Lord of Arcana (2010)
Dissidia 012 Final Fantasy (2011)
Final Fantasy Type-0 (2011)
Final Fantasy XIII-2 (2011)
Final Fantasy Versus XIII (inédito)

Animação

Science Ninja Team Gatchaman (1972)
Neo-Human Casshern (1973)
Hurricane Polymer (1974)
New Honeybee Hutch (1974)
Time Bokan (1975)
Tekkaman: The Space Knight (1975)
Gowappā 5 Godam (1976)
Akū Daisakusen Srungle (1983)
Genesis Climber MOSPEADA (1983)
Okawari Boy Starzan-S (1984)
Sei Jūshi Bismarck (1984)
Angel's Egg (1985)
Vampire Hunter D (1985)
Amon Saga (1986)
Twilight of the Cockroaches (1987)
1001 Nights (1998, vídeo baseado nas ilustrações de Amano, Princess Budou)
Ayakashi (2006)
Fantascope ~Tylostoma~(2006)
Bird's Song (2007)
Ten Nights of Dreams (2007)
Vegetable Fairies: N.Y. Salad (2007)
Jungle Emperor (2009)
Deva Zan (2012)[23]

Ilustrações

Trabalhos publicados originalmente no Japão

Vampire Hunter D (1983-ongoing)
Guin Saga (1984–1997)
The Heroic Legend of Arslan (1986–1999)
Sohryuden (1987-ongoing)
Rampo Edogawa Mystery Collection (1987–1989)
Tekiha Kaizoku Series
Shinsetsu Taikō-ki
Chimera-ho Series
Garouden
The Tale of Genji (1997)
Galneryus – Album art
Sword World RPG – Assorted artwork
Mateki: The Magic Flute
Illustrated Blues (2010)

Trabalhos publicados originalmente no Ocidente

A Cup of Magic! (1981)
The Prince in the Scarlet Robe, Corum (1982)
Erekosë Saga (1983)
Elric Saga (1984)
Dream Weaver (1985)
The Chronicles of Castle Brass (1988)
Hoka Series
Sandman: The Dream Hunters (1999)
Elektra and Wolverine: The Redeemer (2002)
Seven Brothers (2006)

Yoshitaka Amano's HERO (2006-ongoing)
Shinjuku (2010)

Livros

Maten / Evil Universe (1984)
Genmukyu / Castle of Illusions (1986) (ISBN 4-403-01029-6)
Imagine (1987) (ISBN 4-403-01031-8)

Publicado em 12/03/2012 às 13:28

O múltiplo legado de Moebius

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Pirei de batatinha a primeira vez que vi um gibi desenhado por Moebius. Eu e o planeta. A linha mágica do desenhista francês encapsulava à perfeição as principais pulsações que viraram o mundo de cabeça pra baixo na virada dos 60 para os 70 - a tal contracultura.

Anos depois descobri que na verdade eu já conhecia Moebius de criança. Seu verdadeiro nome era Jean Giraud. Ele é quem tinha feito aquele álbum de faroeste que eu tinha em casa, Fort Navajo, com um pistoleiro de nariz torto, o Tenente Blueberry. Como você evolui de um western bacaninha para Moebius? De onde pode vir uma imaginação tão poderosa?

moebius1 ok O múltiplo legado de Moebius

As histórias de Moebius foram chegando na minha vida a conta-gotas. Difícil encontrar no Brasil na época. Algumas tenho a versão pirata, até hoje. Passavam de mão em mão, como drogas psicodélicas, perigosas, proibidas.

Não faço ideia se o poder narrativo e o charme onírico sobreviveram. Moebius foi muito influente, o que também quer dizer que versões aguadas de seu trabalho hoje fazem parte da paisagem. Sua morte me cutuca para uma nova visita ao Incal, uma verdadeira saga, coassinada com Alejandro Jodorowsky. À Garagem Hermética e Arzach. Aos continhos, meus prediletos.

E à graphic novel do Surfista Prateado, sua parceria com Stan Lee. Escrevi sobre o álbum, lá se vão quase 23 anos. Se quiser ler, está aqui.

silver surfer and galactus by moebius 1 ok O múltiplo legado de Moebius

Quem nunca leu Moebius também lhe deve bastante. Suas digitais estão em filmes como Tron, Blade Runner, Alien, Willow, O Quinto Elemento. Minha maior dívida com Moebius não é nada que ele escreveu e desenhou. É a revista que ajudou a criar em 1974, Métal Hurlant, e a editora, Humanoids Associés, com Druillet, Dionnet e Farkas.

Ela foi publicada nos Estados Unidos, com outro nome, Heavy Metal. Trazia muitos dos trabalhos originais europeus, e mais uma pá de jovens criadores americanos. É minha revista em quadrinhos favorita de todos os tempos. Li, reli e decorei cada página das poucas em que botei a mão, entre 80 e 82, meus anos de colegial. Depois continuei lendo. O estrago já estava feito.

A Heavy Metal mudou minha concepção do que os quadrinhos eram capazes, e do que eu deveria ser capaz. Me apresentou a uma visão de mundo densa e barulhente, gráfica e jornalística, com sangue nas veias e olho no futuro. Ali nasceu o cyberpunk, e muitas outras coisas.

Moebius DoubleEscape 2 100 ok O múltiplo legado de Moebius

O detalhe é que muito do que a Métal Hurlant e a Heavy Metal publicaram, com a benção de Moebius, não tinha nada a ver com sua visão de mundo, crescentemente mística e riponga, com o passar dos anos.

As revistas eram um choque de pontos de vista, estilos, manifestos. Giraud foi se tornando um velhinho new age. Morreu aos 73 anos depois de enfrentar o câncer por anos.

O secretário da cultura da França disse que a França perde dois grandes artistas, Jean Giraud e Moebius. Mandou bem, mas pensou pequeno. Moebius morre e vive: seu legado é múltiplo.

jean giraud moebius ok O múltiplo legado de Moebius

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Publicado em 15/02/2012 às 10:27

RIP John Severin

john severin blog RIP John Severin

Bom descanso ao gênio da EC Comics, da MAD, da Marvel. Poucos desenharam tão bem tantos gêneros diferentes - histórias de guerra, de super-herói, de cowboy, bárbaros, paródias doidas.

Recebeu obituário quase à altura, incluindo uma foto inacreditável de John ladeado por Harvey Kurtzmann, criador da MAD, e René Goscinny, co-criador de Asterix, em 1940! Veja aqui.

quadrinho blog RIP John Severin
Com Herb Trimpe, fez meu Hulk favorito, e será sempre a assinatura visual da revista Cracked, no Brasil, Pancada. Foi-se aos 90 anos, e aos 80 e tantos continuava mandando bem. Para poucos. Mas John era único.

severin john cracked anual RIP John Severin

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Publicado em 20/01/2012 às 17:05

A traição de Tintim

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Traduttori, traditori, tradução é traição, me explicou Ezra Pound, que entendia dos dois, e não esqueci. Está no ABC da Literatura? Onde? Descobri anos depois que a pepita não era de sua lavra, mas tradicional epitáfio italiano às nossas pobres tentativas de nos fazer entender em outras línguas e linguagens. Nós carcas manjamos dessa parada; a velha bota já foi terra de gente de todo canto, núbios, vikings, sumérios,  persas, celtas, conquistadores e conquistados. Tutti buona gente... E ainda assim persiste a pergunta preguiçosa: mas é fiel ao original? Como se fosse essa a fogueira que o crítico deve atravessar quando julga uma adaptação. E agora somos todos críticos, dando nossos pitacos na internet sobre esse livro, aquele político, a roupa da moça da novela e a pertinência da construção de hidrelétricas na Amazônia, não é?

tintin A traição de Tintim

Tintim traz a assinatura bilionária do diretor Steven Spielberg e do produtor Peter Jackson, este famoso pela ortodoxia na adaptação de O Senhor dos Anéis. O novo filme leva à telona pela primeira vez outro objeto de culto, a idolatrada série de 24 álbuns em quadrinhos que fez a alegria de três gerações. Camisa pesa: é o mais famoso título da HQ em língua francesa.

O roteiro do filme mistura trechos e personagens de vários dos álbuns clássicos do personagem. Visualmente, não tem patavina a ver com o traço de seu roteirista e desenhista, o belga Hergé. Tintim é marco fundador
da ligne claire, a linha de nanquim sem volume, homogênea, elegante, estilo extremamente influente no quadrinho franco-belga e em todo lugar.

O filme é animação por computador, baseada na captura de movimentos de atores em carne e osso, e com versão em 3D. Já passou dos trezentos milhões de dólares de bilheteria e vai longe. Ignorantes relembram de má-fé o conservadorismo do belga George Remi, o homem por trás do pseudônimo Hergé. Destacam seu preconceito com pardos e terceiro-mundistas, seu eurocentrismo, sua fraqueza frente ao fascismo.

Hergé nasceu em 1907 e criou Tintim em 29. Era homem de sua época, e tão imperfeito quanto nós - surpresa! Queriam o quê, que fosse multiculturalista, politicamente correto, e inserisse um romance gay entre nosso herói e o Capitão Haddock? Cresçam.

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Fãs fiéis de Tintim pelo mundo afora também esperneiam - como estes porcos capitalistas anglófonos puderam trair tão cruelmente minhas queridas memórias da infância? Se és desses, o único retruque possível é, de novo: cresça. Seus álbuns empoeirados continuam lá no teu armário, camarada, exatamente da maneira como você se lembra, se é que ainda os têm. A boa tradução tem o desafio de ser fiel ao espírito do original, não à forma ou as minúcias; cada novo intérprete adiciona ou subtrai ao original; dinheiro manda; é assim que é.

A constatação é lugar comum para quem cresceu lendo também outro tipo de herói de gibi, o americano, em que cada novo desenhista ou roteirista deixa sua própria marca no Flash, Homem-Aranha e companhia uniformizada.O Batman de Bill Finger é tão Batman quanto o de Denny O´Neil e Neal Adams, ou o de Grant Morrison e Frank Quitely; o da série cômica dos 60 tão válido quanto a grotesqueria de Tim Burton ou o tech-noir de Christopher Nolan. Não gostou de nenhum, faça seu próprio Batman; e se a dona dos direitos não deixar, muda ele de nome e faz mesmo assim. Meu filme favorito do Batman chama-se O Corvo.

Tintim, bem, eu adoraria ver os talentos de Peter Jackson e Steven Spielberg enfrentando o problema criativo de traduzir a linha clara para o cinema. Não encararam, covardões. Verei mesmo assim, com meu filho de oito anos. E forçarei ele a atravessar pelo menos um episódio do desenho de Tintim, que volta ao ar diariamente no canal Futura. Quem sabe essas versões estimulam o moleque a enfrentar o gibi? Bem que me daria um prazerzinho ver o garoto atrás daquelas capas duras, mergulhado nos infinitos detalhes das incríveis, ultrapassadas e colonialistas aventuras de Tintim. O problema é que mostrei uma vez um álbum de Tintim para o moleque e ele não deu a menor bola. Gibi 2D de cinquenta anos atrás não tem bala para enfrentar Mario na terra do 3D; cada época tem seus Disneys, Kirbys e Hergés, e hoje a maioria deles trabalha na indústria dos videogames, não na dos quadrinhos.
Todos os romances são sequências, diz Michael Chabon; influência é êxtase.

Vi ontem O Espião que Sabia Demais. É uma adaptação solene do celebrado romance de espionagem. Interpretações sólidas, roteiro tosco à gastura. Mas passa com louvor pelo desafio de ser fiel à morna melancolia de John Le Carré. Agora toca rever a versão anterior, Alec Guinness, 1979; e dar uma folheada na minha edição do Círculo do Livro, o final era bem diferente, não? E onde está minha biografia de Kim Philby, líder dos Cambridge Five, inspiração real do traidor ficcional de O Espião Que Sabia Demais? Infinitas traduções, infinitas traições.

tin A traição de Tintim

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Publicado em 22/11/2011 às 14:00

Civilização é conflito: Frank Miller, o Islã, e Occupy Wall Street


Escândalo no mundo dos quadrinhos: Frank Miller, o mais famoso quadrinista americano vivo, caiu matando no movimento Occupy Wall Street. O autor de graphic novels como Batman - O Cavaleiro das Trevas, Sin City, 300 e muitos outros gibis sensacionais soltou os cachorros em seu blog.

Chamou os manifestantes de "nada mais que uma gangue de vagabundos, ladrões e estupradores, uma horda estúpida, alimentada por nostalgia da era de Woodstock e um falso e pútrido senso de missão...". Melhor: "movimento, só se for dos intestinos".

E mais: "acordem, seus lixos... a América está em guerra com um verdadeiro inimigo... talvez vocês tenham ouvido os termos Islamismo e Al-Qaeda." Miller fechou seu sermão vociferando: vão se alistar no exército para deixar de serem bebês.

Leia aqui.

O cara está cuspindo fogo. Bebeu mal? Miller é chegado nums tragos. Ou será uma jogadinha de marketing para promover seu gibi mais recente, Holy Terror? O álbum trata de um super-herói usando métodos brucutu contra terroristas islâmicos. Críticas péssimas (não li ainda; o meu está no correio, chegando; poderia ter lido na internet, mas me recuso).

Miller diz que Holy Terror é "propaganda", como os gibis em que o Capitão América socava o nariz de Hitler. Três mil vizinhos meus foram assassinados, explica, e por mim os responsáveis pelo Onze de Setembro queimariam no inferno.

O tom geral das críticas contra Miller: é um fascista, nazista, direitista. Xingam que sempre foi tudo isso, desde os anos 80, e agora só piorou. O tiroteio foi geral. Nunca vi tanta gente politicamente correta. Parece que todos os fãs de gibi do planeta Terra estão acampados em alguma praça do mundo afora, enfrentando o "sistema".

Alguns chegaram a chamar um boicote contra as obras de Miller. A melhor cutucada foi em quadrinhos mesmo, ao estilo do próprio Miller, dica do amigo Marcelo Soares:

quadrinho pequeno ok Civilização é conflito: Frank Miller, o Islã, e Occupy Wall Street(clique na imagem para ampliar)

Miller não é "de direita", no sentido que entendemos no Brasil. É "libertarian", termo muito americano que não tem nada a ver com "libertário", que pelo mundo afora rescende a anarquismo e rebeldia.

Trata-se de corrente de pensamento que defende a supremacia da liberdade individual como o valor fundamental da sociedade. São extremamente desconfiados de leis, regulamentações, e Estado, e anticomunistas ferozes.

É turma com poder nos EUA - no Tea Party, por exemplo, movimento que determina a pauta dos pré-candidatos do Partido Republicano para a próxima eleição presidencial.

Miller é fã de carteirinha de três pessoas, as três mortas. Will Eisner, revolucionário cartunista, criador de The Spirit e da Graphic Novel. Mickey Spillane, mestre do romance policial brutamontes, proletário, maniquísta, cuja prosa Miller parafraseia em literalmente todos os seus trabalhos, há três décadas.

E Ayn Rand, influente escritora e teórica objetivista, e romancista criadora de impolutos heróis super-individualistas, que jamais se curvam à pressão social. Rand é muito importante, e ideóloga de cabeceira de pesos-pesadíssimos das finanças, da high-tech, mídia e mais. Na gringa e aqui também. Leia aqui.

A superdesregulamentação do sistema financeiro internacional foi inspirada por Rand, e capitaneada por Alan Greenspan, seu discípulo, ex-presidente do Banco Central americano. A crise de que reclamam os militantes do Occupy tem o DNA de Rand.

Mundo pequeno, e conexão que escapa, ou não importa, a Mr. Miller. Frank mantém acesas as velinhas para a tríade, mas o ataque às Torres Gêmeas fez ele ajustar sua posição. Sempre esteve muito à vontade no papel de bad boy, peitando o establishment.

Continua, mas se descobriu patriota, "por auto-preservação", explica, e patriotas são "meu país, certo ou errado", e porrada no dissenso. Se for ripongo e reclamento, porrada pra sangrar.

Como a maioria de nós, com a idade Miller se torna cada vez mais quem é, preto no branco. Sabia perfeitamente bem que Holy Terror provocaria reações fortes. Idem no texto contra o Occupy Wall Street.

Talvez, encapsulado em seu apartamento em Hell's Kitchen, alguns quilômetros das ruínas do World Trade Center, não tenha calculado com precisão a fúria da rejeição.

quadrinho 2 pequeno Civilização é conflito: Frank Miller, o Islã, e Occupy Wall Street(Clique na imagem para ampliar)

Prefiro pensar que fez de propósito, e soltou neste exato momento este texto justamente para causar o máximo de polêmica. Para alienar quem queria alienar, e atrair para ler seu gibi as pessoas com quem quer de fato se comunicar, quem compartilha de seu ideário ou, pelo menos, odeia com a mesma paixão o inimigo comum.

Para Miller, enfrentar o islamismo é imperativo moral equivalente a enfrentar o nazismo, nos anos 40. Discorde ou concorde, é fundamento sólido para os gibis e discursos que anda cometendo.

A reação mais equilibrada veio de antípoda ideológico de Frank Miller. Mark Millar, escocês, talvez o escritor de quadrinhos mais bem-sucedido financeiramente da nova geração, fez fama sacaneando maldosamente tudo que é sagrado princípio do american-way-of-life que você puder imaginar.

Trabalha para grandes editoras remodelando velhos super-heróis, ganha fortunas vendendo para o cinema gibis que criou, como Procurado e Kick-Ass. Em seu fórum, Millar defendeu Frank.

Veja aqui.

Disse que boicotar Miller seria como boicotar H.P.Lovecraft, Steve Ditko, David Mamet ou qualquer outro autor de cuja opinião política discorda. Lembrou um momento muito semelhante, dez anos atrás, quando publicamente criticou os Estados Unidos por iniciar a guerra do Iraque.

Milhares de leitores pediram sua cabeça, exigindo que a Marvel o demitisse. O então publisher da editora, Bill Jemas, bancou Millar, dizendo que uma das boas coisas da América é que você podia dizer o que pensa sem medo de perder o emprego.

É só parcialmente verdade. Mas é totalmente verdade que em alguns cantos do mundo onde o Islã pesa na política, você não pode pensar diferente do que diz o livro sagrado, sob pena de perder o emprego, a liberdade e até a vida.

A imposição de visões religiosas radicais sobre sociedades civis é, neste sentido, "o inimigo". Chutou o balde para explicitar isso, usando as tintas fortes de um cartum.

Exerceu seu direito pessoal e artístico de dar um tapa na cara de quem, a seu ver, merece. Levou uns bons de volta. Está orgulhoso, imagino. Civilização é conflito.

Mark Millar arrematou dizendo que "liberalismo não é jogar na cadeia caras que discordam do SEU liberalismo. Significa aceitar que uma sociedade é mais rica quando todo mundo tem sua própria voz."

Miller assinaria embaixo - furioso. E você?

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Publicado em 28/02/2011 às 06:00

Gibis nacionais que você deve ler já – Parte 2

promessas 01 Gibis nacionais que você deve ler já   Parte 2

Tiro o atraso nos meus quadrinhos nacionais. Haja dinheiro. Qualquer álbum é de trinta reais para cima. Felizmente, o amigo Marcelo Costa me emprestou uns bons e um que vai me dar trabalho - e fica para uma outra vez. É Promessas de Amor a Desconhecidos Enquanto Espero o Fim do Mundo, de Pedro Franz, com quem quero conversar antes de escrever sobre o álbum. Sugiro que você também leia já, e me conte o que entendeu. Visite o Pedro aqui.

Entre comprados e emprestados, vou me atualizando. As adaptações de Memórias de Um Sargento de Milícias e Triste Fim de Policarpo Quaresma são tão semelhantes quanto diferentes. Similares no tom picaresco e no talento dos artistas. Difícil achar traços como os de Rodrigo Rosa e Edgar Vasques. Parecidas na utilidade para o leitor com preguiça de enfrentar os clássicos, claro. Mas o primeiro é um gibi, embora o original seja bem menos que um romance; e o segundo é quase um livro ilustrado, pela placidez das páginas. Ambos merecem leitura.

Um dos grandes destaques de 2010, Bando de Dois é um filme pronto para acontecer. Danilo Beyruth criou o jerimum-western, ou  que o valha:

Sergio Leone filtrado pelo mais puro sangue cangaceiro. Beyruth tem domínio completo da gramática dos quadrinhos. Bando de Dois é mais que um storyboard. Recomendo. Inclusive o site.

Gustavo Duarte, cuja leveza me encantou em, reapareceu com Taxi. Um tico mais maneirista, descambando para o desenho animado, mas ainda com momentos inesquecíveis - o que é aquele cachalote atravessando a rua?

Pequenos Heróis, reflexão e reflexo dos heróis da DC, é fofo, mas, embirrei com a DC de tal maneira que não vibrei tanto quanto os amigos - quem sabe no futuro. E para dizer a verdade, embirrei com a Marvel também, mas menos...

E reencontrar os cartoon comics das Princesas do Mar me deixaram coçando a cabeça: porque mesmo foi que a gente não publicou os livros do Fábio Yabu na Conrad? Qualquer que tenha sido a razão, foi irracional.

Pra me manter no clima de brasilidade mas desintoxicar de Brasil vou também de Secret Avengers, com o brasileiríssimo Mike Deodato botando Capitão América e o Mestre do Kung Fu pra brigar - faça suas apostas! Tem Shang-Chi, vai pra minha lista de compras. E se você acha que isso não é gibi brasileiro, é porque não viu as bundas que Deodato presenteou para Viúva Negra e Valquíria...

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Publicado em 30/01/2011 às 14:00

Gibis brasileiros para ler no dia do quadrinho nacional (ou qualquer hora)

Dia do Quadrinho Nacional? Coisa de político. É bem mais fácil dedicar um dia a um homenageado qualquer do que levantar o traseiro da cadeira e homenageá-lo com ações, em vez de blábláblá.

Mas neste 30 de janeiro de 2011, até que há razões para celebrações entre os quadrinistas brasileiros. Se nas bancas a presença de autores brasileiros é cada vez menor (exceção feita, claro, à Maurício de Sousa Produções), nas livrarias a história é bem diferente.

Mais editoras estão publicando quadrinhos em 2011 que jamais antes na história deste país, como dizia lá o outro. Os governos compram, via programas diversos, quantidades razoáveis para bibliotecas e escolas. Isso passou a viabilizar o trabalho de muito quadrinista brasileiro.

Claro que nem toda livraria vai ter aquela recheada seção de quadrinhos. Para isso existem sebos, e sebos online (como a Estante Virtual), e tantas livrarias online, e a Comix, ainda a melhor livraria de quadrinhos do país, na internet e na velha loja da Alameda Jaú.

Se é por falta de recomendação que não te arriscas, listo aqui lançamentos recentes onde podes apostar sem medo.

, de Jean Galvão. Conhecido da meninada por seu trabalho com tiras na revista Recreio, Jean é quadrinista de mão cheia. Sua personagem tem toda pinta de avó de verdade. Boa alternativa para quem curte Mônica e cia.

Vo ok ok ok Gibis brasileiros para ler no dia do quadrinho nacional (ou qualquer hora)  

 Os Sertões - A Luta, roteiro de Carlos Ferreira e arte de Rodrigo Rosa. Adaptação do livro de Euclides da Cunha, igualmente liberal e fiel. Rodrigo tem poucos pares no Brasil.

Outro na mesma praia: Demônios, de Eloar Guazzelli, adaptado do conto de Aluísio de Azevedo. Um clássico da literatura brasileira de meter medo.

O Corno que Sabia Demais, roteiro de Wander Antunes, arte de Gustavo Machado e Paulo Borges. Picarescas e aventurescas crônicas de um Rio de Janeiro dos anos 50. Wander publica muito na França, embora more em Cuiabá. Dele também leia A Boa Sorte de Solano Dominguez.

MSP + 50, por Maurício de Souza e 50 Artistas. Minha birra pública com Maurício (por não dar crédito aos roteiristas e desenhistas da Turma da Mônica) não me impede de reconhecer que este livro é muito legal.

Nem de reconhecer a ironia de que, para esta edição comemorativa, todo o crédito foi dado... A gente como Adriana Melo, Mozart, Allan Sieber, Rafael Grampá, Danilo Beyruth (este, autor de Bando de Dois, que não li ainda, mas que tanto amigo me recomendou que passo a dica).

Para fechar, recomendo a compra e leitura imediatas de qualquer dos álbuns de Níquel Náusea, de Fernando Gonzales; e de qualquer álbum assinado por Laerte, o único gênio da HQ brasileira, digno de qualquer lista de melhores do quadrinho mundial.

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Publicado em 13/12/2010 às 06:00

A São Paulo roqueira de Roger Cruz

forasta A São Paulo roqueira de Roger Cruz 
Não consigo gostar, nem esquecer, de Xampu - Lovely Losers, de Roger Cruz. Há meses ensaio escrever sobre o livro. Temo descer o pau. Temo ser condescendente. É trabalho do coração de Roger, que penteia os roteiros há mais de década.

Se passa entre o final dos 80 e o início dos 90, na São Paulo da Galeria do Rock, das casas de show fuleiras, dos discos de vinil, da maconha, da birita, do sexo pré-Aids - ou pelo menos desencanado. Lembro bem. Sou só alguns anos mais velho que Roger.

Ele foi o primeiro brasileiro a realmente pegar fama no mercado americano de quadrinhos, porque “chegou lá” - nos X-Men, gibi mais vendido da época. Tinha estilo muito próprio, que erroneamente atribuem a uma conexão com mangá.

Tem a ver, sim, com desenho animado japonês, o que é outra coisa; e com o Capcom-style, o visual dos personagens da produtora de games responsável por Street Fighter e muito mais. Roger é um paulistano, mestiço de japonês, que cresceu nos anos 70/80. Viu desenho japonês paca, leu gibi de super-herói.

Roger foi massacrado na máquina de produção americana, como tantos outros, lá e cá. Produziu muito. Produziu demais. Produziu trabalhos muito inferiores ao seu talento, com frequência. Copiou na cara dura arte de gente como Jim Lee e Joe Madureira, o que queimou um tanto sua fita por lá. Roger confirmou publicamente e explicou: aprendi copiando. Quem não? O crime, como de costume, é ser pego.

Xampu é, finalmente, seu trabalho pessoal. Assina roteiro, arte, projeto gráfico e diagramação. O resultado é um bonito álbum publicado pela Devir, com muitos acertos, algumas fragilidades, uma decisão equivocada:
em vez de preto e branco, a arte é toda em sépia. Enfraqueceu muito o impacto dos desenhos - e que desenhos.

Roger tem completo domínio da técnica dos quadrinhos - constrói personagens, controla o ritmo da leitura, capricha nos detalhes, desenha qualquer coisa, sabe onde colocar a câmera, te força a virar a página.

Não consigo acreditar muito nas meninas que povoam as histórias de Xampu. Os caras são totalmente convincentes. Roger captura a voz dos paulistanos, a conversa mole acendendo um cigarro no outro, o papo macho dos manos, o cheiro das privadas nos bares sujinhos.

Um personagem, o vocalista Sombra, é inesquecível. Já o romance de Max e Nicole, melhor esquecer. Difícil escrever papo discutindo a relação. Um editor malvado meteria a mão em alguns diálogos frouxos. Ainda penso como editor; leio alguns gibis pensando em como melhorá-los; e se eu publicaria como está; e neste caso, a resposta é não sei.

Recomendo Xampu? Sim, sem babar ovo. É uma obra terna e crua, de um de nossos criadores mais completos, que evidencia o enorme potencial que ele tem a explorar. E se o perfume das histórias é acridoce, não é delicadinho e ensimesmado como tantos quadrinhos autobiográficos, na gringa e aqui. Roger Cruz não faz drama à toa. Não é emo, não é indie. É rock.

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