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Publicado em 21/08/2017 às 10:12

O humor ficou pequeno para um talento do tamanho de Jerry Lewis

jerry lewis O humor ficou pequeno para um talento do tamanho de Jerry Lewis
Jerry Lewis morre sem deixar herdeiros nem legado. Só ótimas lembranças para uma turma que já vai ficando mais pra lá do que pra cá. Ninguém faz ou fará o que ele fez.
Jerry não é presença na TV desde os anos 70, quando minha geração o conheceu em festivais anuais da sessão da tarde, junto com Elvis e os Trapalhões. No cinema não dava as caras desde dez anos antes, metade dos 60. Sua obra não foi para o VHS nem o DVD.
Com a notícia da sua morte, fui procurar em quatro serviços online O Professor Aloprado etc. Nenhum tem nenhum filme de Jerry Lewis. É ilustre desconhecido das últimas duas gerações.
Jerry datou? Vou arriscar mostrar para uns adolescentes, para conferir a reação. Talvez riam, talvez nem consigam entender. E talvez fiquem com vergonha alheia, pela falta de vergonha de Jerry Lewis passar vergonha.
Jerry Lewis controlava seu corpo e rosto como ninguém. Era um remanescente do cinema mudo, nesse sentido. Seus filmes poderiam ser em russo ou latim e você iria rir do mesmo jeito. E tinha uma vitalidade inacreditável. Até porque fez sucesso muito jovem, dos vinte aos 35 anos. Energia máxima, sintonia fina, e sempre o mesmo personagem vulnerável, doce, infantil - mas não mexa com ele.
Jerry levou o humor físico muito além de Charlie Chaplin ou Buster Keaton, experimentando com posições de câmera, edição, som. Em algum momento seus filmes foram ficando abstratos, quase como os melhores desenhos animados da época. Não à toa Frank Tashlin, diretor de seis filmes da carreira solo de Jerry, um melhor que o outro, era um veterano dos Looney Tunes. Experimente "O Bagunceiro Arrumadinho".
O que matou o humor físico nos Estados Unidos foi a televisão. Nas séries impera a comédia de situação. Nos talk shows, os monólogos e papos roteirizados entre apresentador e convidado.
O último gênio do humor físico, quase ao nível de Jerry Lewis mas sem o mesmo espírito inovador, desafiador, foi Jim Carrey, por alguns anos. Rapidamente zarpou pra comédias familiares e chatice. Hoje todos os comediantes querem parecer cool e descolados, o exato contrário do que Jerry nos passava.
A decadência do humor físico seria menos triste se não viesse junto com a decadência do humor verbal. Ninguém é engraçado falando uma hora seguida, que é quanto esses standups falam. É muita gordura, muita enrolação.
O humor verbal sobrevive na internet, nos 140 toques do Twitter, em mini-sketches do YouTube. O físico menos - acho até que pelo tamanho da telinha. Que graça teria ver Jerry fazendo estrepolias com seu corpo em um celular? O humor ficou pequeno demais para um talento do tamanho de Jerry Lewis.

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Publicado em 17/08/2017 às 15:24

Desespero dos derrotados não vencerá Barcelona

barcelona rutas turisticas alternativas 1024x628 Desespero dos derrotados não vencerá Barcelona
O mundo é um lugar cada vez mais seguro, mais aberto, mais tolerante, criativo e vibrante. Às vezes não parece, mas é o que apontam todas as evidências e estatísticas. Em poucos lugares você sente isso com tanta certeza e emoção quanto em Barcelona.
A cidade tem dois milênios de história. Já resistiu a visigodos e fascistas. É resolutamente rebelde, independente, alegre. Tem muito respeito por seu passado e muita fé, muito investimento no que vem por aí.
É um lugar para viver bem, com liberdade e confiança. Uma capital dos negócios que também é uma capital do prazer. Justamente por isso é alvo das forças do atraso. Representa como poucas cidades o triunfo do futuro.
Esses terroristas, como os supremacistas brancos que escandalizaram essa semana os Estados Unidos, não significam nada no longo prazo. Matam por desespero, o desespero dos derrotados.
Barcelona vive um dia muito triste. Mas Barcelona sobreviveu a muito pior, nosso mundo sobreviveu a muito pior. Seguirá linda, pujante, diversa, colorida, boa de bola. Esses fundamentalistas assassinos irão para a lata de lixo da história. Barcelona, e o que Barcelona representa, vive e triunfará.

http://r7.com/0L2A

Publicado em 15/08/2017 às 16:58

Os Defensores: uma novela escrita por robôs

The Defenders New Stills Portraits Marvel 1024x614 Os Defensores: uma novela escrita por robôs
Os Defensores eram meu grupo de super-heróis favorito quando eu tinha 11 anos. Foi a Editora Bloch que lançou em 1976. Eles eram Dr. Estranho, Hulk e Namor, de vez em quando o Surfista Prateado, depois Valquíria, Felina, Falcão Noturno e muitos outros.
Eram muito diferentes um do outro e viviam discutindo. As histórias eram muito doidas, cheias de ameaças sobrenaturais e extradimensionais. O time mudava toda hora. Muito mais divertido que os certinhos Vingadores ou a caretona Liga da Justiça. Uma surpresa a cada revista.
Li muito os Defensores, depois em edições americanas. Como o gibi nunca foi dos mais vendidos da Marvel, seus autores tinham muita liberdade para pirar geral. Suas histórias foram ficando cada vez mais birutas. Até que a venda foi caindo, caindo, e a revista mensal acabou em 1986. Tentaram ressuscitar algumas vezes, mas nunca deu em nada.
Agora tem essa nova série da Netflix com o Demolidor, Luke Cage, Punho de Ferro e Jessica Jones chamada... Os Defensores. Que não tem nada a ver com os Defensores psicodélicos dos anos 70. É uma história urbana, de combate ao crime. Não tem nada de embasbacante, espacial ou místico. Só por ter esse nome essa série já ganhou minha antipatia.
Essas séries todas da Netflix estão virando umas novelas. Novelas em que o roteiro é determinado por algoritmos. Por software que esquadrinha como assistimos cada episódio, onde pausamos, onde abandonamos, o que reassistimos, o que deu mais comentário. E baseado nessa análise dita o que acontecerá na parte dois, três, quatro da série.
No caso dos Defensores é pior, porque o novelão começou na primeira série do Demolidor, depois teve a segunda, e uma de cada um dos outros heróis. E agora tem mais oito episódios. E depois vai ter outra de cada um deles, e uma segunda dos Demolidores etc. e tal. É um falatório e um enrolol sem fim, escrito por robôs.
Vi as do Demolidor, com alguma má vontade. Abandonei as de Luke Cage e Punho de Ferro, e fiquei até o fim de Jessica Jones pelo charme chulo da heroína e do vilão.
Já passei dos cinquenta. Já tem mais areia na parte de baixo da ampulheta que na de cima. Meu tempo é precioso. Mas mesmo olhando impessoalmente, meu espírito de editor não perdoa. Dá pra cortar fácil pelo menos metade dos episódios de uma série dessas. Mas aí cadê o lucro pra Marvel e pro Netflix?
Essa dos Defensores, que estreia agora, dá preguiça. Só me dá saudade dos meus Defensores da infância, os verdadeiros, os doidões. Sou mais Twin Peaks. Uma série que é tão insana que já estamos no décimo episódio e o personagem principal, o Agente Cooper, ainda nem apareceu. Algoritmos têm suas utilidades. Mas surpreender a gente, eles ainda não são capazes.
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Publicado em 15/08/2017 às 09:41

Álvaro de Moya, o fã que fez o Brasil levar os quadrinhos a sério

Painel 22 1024x743 Álvaro de Moya, o fã que fez o Brasil levar os quadrinhos a sério
Álvaro de Moya chegou para dar palestra sobre quadrinhos na minha faculdade em um conversível branco, acompanhado de uma loira aerodinâmica uns 30 anos mais nova que ele. Contou história, contou piada, contou vantagem e zarpou, veloz e feliz.
Pensei opa, é assim que se faz... Não tive coragem de dizer para ele que Shazam, livro que editou, era um dos meus livros de cabeceira, lido e relido insistentemente durante meus anos de adolescente.
Eu levava HQ a sério, a única pessoa em meu círculo, que já tinha decidido em peso que gibi era coisa de criança. O livro, de 1970, reunia ensaístas que tratavam quadrinhos criticamente, com o mesmo amor e rigor que outros analisavam cinema ou literatura, relacionando com política e psicanálise.
Jô Soares era o mais famoso, escrevia sobre o Fantasma e o colonialismo (!). Sérgio Augusto, jornalista que eu conhecia do Pasquim. Os psiquiatras mais célebres da época, José Angelo Gaiarsa e Paulo Gaudêncio. Naumin Aizen, editor da Ebal. E o próprio Moya.
Poucos anos depois fui trabalhar na Folha. O Brasil e o mundo viviam uma explosão de criatividade nos quadrinhos, e o jornal começou a cobrir a área com mais destaque. Passei a acumular a função de repórter com a de colunista de quadrinhos, toda segunda na Ilustrada.
Minha inspiração era o Shazam. Eu não queria só noticiar os lançamentos, mas pensar aquelas páginas. Como outros na época, como muita gente hoje, quando temos uma crítica de HQ muito viva, e ninguém sério dispensa quadrinhos como "coisa de criança".
Álvaro fez muito mais que Shazam. Trabalhou na Abril, nas TVs Tupi e Bandeirantes, foi chargista, professor da USP. Seguiu escrevendo e divulgando HQ e principalmente Will Eisner, que popularizou no Brasil. Seguiu figuraça, sempre animado, sempre gozando de tudo e gozando a vida. Que curtiu até os 87 anos, ontem.
Vivi a vida lendo HQ e sempre um pouco ligado profissionalmente aos quadrinhos, como editor na Conrad, Pixel e Tambor. Encontrei Moya de vez em quando nas décadas desde aquela palestra. Nunca o agradeci como devia. Nunca conversei com ele a sério, pensando bem, a não ser quando ele ficou chateado porque estávamos fazendo a edição do Spirit para a Devir, e não convidamos ele para traduzir...
Adoraria perguntar para Moya porque ele levava quadrinhos a sério já nos anos 50, quando ninguém levava, nem os próprios artistas e editores de quadrinhos. Mais de meio século atrás, 1951, foi o principal organizador da Primeira Exposição Internacional de Histórias em Quadrinhos, em São Paulo.
Li vários livros dele, mas o lado simpático, fã, contador de causos de Álvaro nunca explicou direito como ele saltou da paixão infantil por heróis para essa relação mais madura com os quadrinhos.
Se não ficou explicado, ficou o legado. Alvaro de Moya fez muito pelos quadrinhos, inclusive o mais difícil: fez o Brasil levar quadrinhos a sério.

http://r7.com/DGKD

Publicado em 14/08/2017 às 14:56

Será que o Brasil precisa de Forças Armadas?

1407200967 Será que o Brasil precisa de Forças Armadas?
Em 2016, o Brasil gastou US$ 24.6 bilhões com nossas Forças Armadas. São quase 320 mil militares. É o décimo primeiro país com maiores gastos militares do planeta. Considerando que o Brasil nunca foi invadido por ninguém, tem boas relações com o planeta todo, e excelentes relações com o restante da América Latina, a pergunta é: para quê?
Não precisamos de exército, marinha ou aeronáutica. Deveriam ser abolidos. Faria grande diferença para o bem. Na América Latina, não há país mais civilizado que a Costa Rica. A principal razão é que a Costa Rica aboliu as forças armadas em sua constituição de 1949. Tem uma guarda civil e uma guarda rural e só.
Ninguém diga que aquele canto do mundo é tranquilo. A América Central já enfrentou de tudo. Ditadores, guerrilheiros, narcotraficantes, mafiosos, multinacionais que mandavam em países inteiros. A Costa Rica ali no olho do furacão e, em mais de seis décadas, sempre manteve seu rumo: nada de exército.
O que iam gastar com “defesa”, investiram onde mais importava — no ataque aos seus principais problemas. Hoje a Costa Rica tem alto índice de alfabetização, meio-ambiente superprotegido, pontua bem em todos os principais índices do bem viver planetário. Não é um país rico, nem de longe, mas em média vive-se com mais paz lá que em qualquer outro lugar da América Latina.
Se o Brasil abrisse mão de suas forças armadas, quem iria guardar nossas fronteiras? Missão impossível. São quase 17 mil quilômetros de fronteiras com dez países, a oeste, e mais de 7 mil quilômetros de litoral. Os EUA, com tanto esforço e investimento, não conseguem fechar nem sua pequena fronteira com o México.
A pergunta é outra: que país é capaz de invadir e ocupar um lugar do tamanho do Brasil, com 205 milhões de habitantes? Nenhum. No século 21, as nações se digladiam por outros meios. Cérebros valem mais que balas. Inovação mais que avião. O Brasil podia ter uma boa polícia federal, um timezinho de forças especiais bem treinadas, e um abraço.
O que vemos de ação militar nos últimos tempos é o uso de tropas em situações extremas como a greve da PM no Espírito Santo; no Rio, Amazonas, Rio Grande do Norte. OK, mas são coisas que nem deveriam acontecer se a polícia fosse devidamente treinada, remunerada e cobrada, e desse conta do recado. Militar policiando a sociedade civil não tem sentido nenhum.
Pense um pouco: num momento de aperto na saúde, na educação e outras áreas prioritárias, será que nosso país não tem uso melhor desses R$ 24.6 bilhões do que desperdiçar com as Forças Armadas?

http://r7.com/XSht

Publicado em 11/08/2017 às 10:30

O que aprendi sendo pai (e filho)

calvin 104 O que aprendi sendo pai (e filho)

Todo pai quer ser o melhor amigo do seu filho. Mas amigos se tratam de igual para igual. Nunca seremos iguais, meu pai e eu, eu e meu filho. Me dou muito bem com os dois. É amizade, sim, mas embolada em muitas outras coisas - autoridade, responsabilidade, contradição, confusão, história, amor.

Quando meu filho nasceu, meu pai, que é psiquiatra, me informou: "pai não serve para nada na primeira infância. A relação do nenê é com a mãe. O pai serve no máximo para ajudar a mãe." Não dei a mínima. Curti meu filho como se fosse mãe. Fiz tudo que mãe faz, menos produzir leite.
Tempos depois eu estava dando papinha para o meu filho, aquela meleca, e meu pai, do lado, mandou o seguinte comentário: "você sabe que eu nunca te dei papinha? Também nunca dei mamadeira, nunca troquei fralda, nunca dei banho... e você cresceu muito bem e está aí, um pai excelente!"
Fiquei feliz de ouvir isso, claro. Foi um desses momentos marcantes, o avô babão e o netinho babando, e me toquei que esse negócio de ser pai não tinha cartilha nem fôrma. A mulher quando dá a luz vira uma chave. O bebê lá todo sangrento e ela plim, se transforma em mãe de um segundo para outro.
Já pai não tem essa, não tem o clique, o momento da metamorfose. Ser Pai é uma coisa que o homem tem que ir inventando com o tempo. E nos dias de hoje, ser pai é explorar território desconhecido. Porque entre a geração do meu pai e a minha, o papel do pai mudou muito, e continua mudando, e o papel da mãe não mudou quase nada. A paternidade no século 21 é muito divertida, porque não tem regras claras.
Agora meu filho está adolescente. A relação de pai e filho muda. A autoridade automática do pai vai se esvanescendo. É o curso natural da vida. Você tem que criar uma nova relação, em novas bases. Aquela criança que você tanto curtia já era. Fica um tanto da personalidade, da criação, da doçura infantil. Mas quando os hormônios batem, batem forte.
Adolescentes são naturalmente insolentes, o que é ótimo e necessário. Mas prepare sua paciência para os comentários sarcásticos. E não adianta você retrucar, porque o moleque (ou moleca) está com o headphone no ouvido. Em outras épocas os reis mandavam jovens dessa idade pra guerra...
É um equilíbrio difícil. De um lado, você quer ser amigo do seu filho, uma pessoa em quem ele possa confiar e com quem possa conversar. De outro, não pode, não deve abdicar de ser pai, o que significa frequentemente ser chato e dizer não. Até o dia em que ele será adulto e independente, meus "nãos" passarão a ser meramente retóricos, e minha autoridade será exclusivamente moral, se é que a terei conquistado.
Quando seu filho vai crescendo é sinal que seu pai está envelhecendo. E você ali, entre um e outro. E quando os nossos pais vão envelhecendo, é tentador ter uma visão paternal deles. Tipo "eles cuidaram da gente, agora a gente é que vai cuidar deles".
Mas não é assim que funciona. Não dá para ser pai do seu pai, ou mãe da sua mãe. Não dá para força-los a fazer o que você quer, mesmo que seja "o melhor para eles". Também não dá pra lavar as mãos e deixar eles fazerem o que bem entenderem.
É muito mais complicado que isso, e é importante que seja mais complicado que isso. Depende muito da gente criar, com o tempo, uma autoridade moral de filho para pai. Exige tempo, dedicação, esforço, experiência. Como a nossa relação com os filhos, vai mudando com o tempo e nunca para de mudar.
Mas é para sempre, é contrato vitalício, é trabalho para todo dia. Ser pai dá trabalho, ser filho também. Mas nos dois casos é o melhor trabalho do mundo. Feliz dia dos pais, dos filhos - dos melhores amigos.

http://r7.com/hA57

Publicado em 08/08/2017 às 13:47

Quem ainda se importa com Caetano Veloso?

cae 1024x682 Quem ainda se importa com Caetano Veloso?

Caetano Veloso completou 75 anos. Quando fez 70, a imprensa empinou ensaiadinha o rabicó, coreografia previsível, estilo abertura das Olimpíadas. Submissão abjeta à autoridade e ao consenso que compensa. Surpresa zero. Agora igual, mas no esquema internet, "relembre a trajetória". Nos dois casos, o tema das matérias era o passado do cantor, compositor, músico, muso, e ênfase é o presente. Pergunto: que presente? Caetano não importa há mais de três décadas.

Pior: importa em tudo que não importa. Segue influente onde sua influência é nefasta. Ninguém ouve o que Caetano diz, mas quem ouve é surdo à qualquer crítica ao guru. A vida é curta e os fãs de Caetano, à prova de argumentos. Já sei o que penso sobre sua bazófia, ansiedade e oportunismo. E ele é um senhor, ou, mais precisamente, um sinhozinho. Podia ser meu pai. Vamos respeitar o tio. Mas não vamos respeitar suas fanzocas baba-ovo.

Tenho prática. Jovenzinho, eu já costumava animar festinhas desanimadas zoando os zumbis-Caê. Jornalistaiada jovem e companhia, festinha no apê, turminha reunida em volta da geladeira, cerveja gelada, cheiro de maconha etc., discussões esquentando, eu jornalista culturets, suposto entendedor de música.

Bola quicando, eu chutava: a questão não é se Caetano Veloso já fez um monte de música boa. Claro que fez! (Qual? Minha resposta de arquivo é Leãozinho, que fãs de Caetano frequentemente odeiam, eu acho uma beleza de canção de ninar).

O problema, explicava eu espocando outra latinha, não é Caetano, é gente como vocês, que continuam babando por ele, batendo palmas sem pensar, quando ele não faz um disco que preste há muitos anos. Polêmica! Contestações raivosas: como assim? Tá maluco? E essa música, e aquela outra da novela ano passado, e o dueto com não sei quem?

E aí eu cravava a estaca: não estou falando de uma canção ou outra. Estou falando de um disco decente. Quer dizer, de dez músicas do álbum, pelo menos um terço tem que ser de bacanudas. Cite aí, amigo, três canções sensacionais de um disco recente de Caetano Veloso. Silêncio. Tentativas falhas.

Eu rebatia: não, essa é do Araçá Azul, essa é deste, essa não foi composta por ele, só vale composição própria etc. (quase tudo enrolação minha. Eu vou lá saber essas coisas?). O fato é que NINGUÉM jamais acertou três músicas decentes pertencentes ao mesmo álbum. Rendia uma meia hora de bate-boca, seguida de um satisfatório calaboca nos coleguinhas. Hoje seria mais fácil ainda. Caetano tem vários discos com pelo menos três canções de sua autoria inquestionavelmente decentes. São todos dos anos 70. Não é nem de longe suficiente para beatificação.

Caetano sobrevive da admiração acrítica de fãs bestas, da condescendência da imprensa e principalmente de suas relações. Que parecerista do Ministério da Cultura, diretor de marketing ou produtor de trilha de novela dirá não a Caê e Paulinha? Está sempre em evidência, sempre correndo para colar na nova modinha. Invariavelmente chega atrasado, mas sempre a tempo de passar por vanguardista junto aos desinformados, quem acredita ou se importa com vanguardinhas.

Em política, cala-te boca. Mas faça você de conta que o episódio Procure Saber não existiu. Caetano e os tropicalistas, e seus discípulos e apaniguados, são sempre Contracultura a favor. Estão perfeitamente integrados à veia principal da cultura e da política brasileiras,  fundamentadas na busca de benesses e na proximidade dos cofres públicos.

O falso rock da Tropicália inventou o adesismo antropofágico. Segundo os tropicalistas, nada é certo ou errado, tudo pode ser divino e maravilhoso. O novo, o velho, o brega, o chique, o intelectual e o ignorante. Você pode e deve transitar do morro à Barra, do samba no pé à mesa dos poderosos.

Nenhum juízo de valor é possível. O relativismo é o único mandamento. Qualquer um pode dizer: estou fazendo uma coisa radicalmente nova, e se você não entende é radicalmente careta. É a mensagem de Caetano, talvez a única. A estratégia tropicalista-de-mercado exige a apropriação de cada novidade que pintar. Nem é mais antropofagia, é glutonice. Quem nunca engoliu esses árbitros da cultura brasileira é perseguido, processado, e muitas vezes foi ostracizado - Raul Seixas é o caso mais chocante.

Raul, já sabemos, permanece muitíssimo vivo quase trinta anos após sua morte. Em 2050, esqueleto de Caetano brilhando no caixão, ele será lembrado por Alegria, Alegria etc., suas canções mais populares e antigas, umas 15 ou 20, que ficarão como intrigante retrato de uma época distante. Não é pouco. Também não é grande coisa, porque sua melhor obra se perde em meio a tanta porcaria que fez depois, dentro dos estúdios e nas ruas, na nossa cultura e no nosso país.

Meio século atrás, 1968, Augusto Boal já previa o futuro de Caetano:

"O Tropicalismo pretende destruir a cafonice endossando a cafonice, pretende criticar Chacrinha participando de seus programas de auditório. A participação de um tropicalista num programa do Chacrinha obedece a todas as coordenadas do programa e não às do tropicalista – isto é, o cantor acata docilmente as regras do jogo do programa sem, em nenhum momento, modificá-las (...) O  Tropicalismo é inarticulado – justamente porque ataca as aparências e não a essência da sociedade, e, justamente porque essas aparências são efêmeras e transitórias, o Tropicalismo... apenas xinga a cor do camaleão."

http://r7.com/NaNk

Publicado em 07/08/2017 às 12:14

Hospital que dá lucro é prejuízo para o paciente

pss Hospital que dá lucro é prejuízo para o paciente

Um hospital é uma linha de montagem. O produto final é a alta ou o óbito. O objetivo do hospital é gerenciar os recursos da maneira mais eficiente. Produtividade é a palavra-chave.

Esta é a razão porque o internado vive sendo interrompido. Agora é hora do antibiótico, daqui meia hora da fisioterapia. Mais uma hora e vamos tirar sangue; mais duas horas, checar a pressão e a oxigenação; agora o banho; em mais uma hora o almoço, o soro, a milésima picada. E segue o inferno da interrupção infinita, hora após hora, dia inteiro e noite adentro.

Isso exaspera o paciente (e o acompanhante). Porque, primeiro, não se dorme. Segundo, a simpatia das profissionais (e são sempre “as”) não esconde que o sorriso é obrigatório, o salário é sofrível e a responsabilidade, pesada. Seria simples organizar isso melhor, com o foco no paciente, e não no andamento militar da máquina hospitalar.

Isso tudo, veja bem, é hospital bom, pra quem tem recursos e seguro bacana. Estão acima das possibilidades de 90% dos brasileiros. Mas os outros  hospitais, que atendem as massas, têm a mesma lógica, com níveis bem superioridades de crueldade - não do pessoal. Pelo contrário:  do Impessoal.

“Produtividade” é palavra que devia ser riscada da discussão social.  Discute-se política o tempo todo no Brasil. Palavras ao vento, porque não se fala de Política com P maiúsculo: como forçar nosso país a aplicar seus imensos recursos em favor de seu povo, começando pelos que mais precisam. E ninguém precisa mais que uma pessoa doente.

Enfrentar uma doença grave podia ser mais suave. Devia ser mais suave. O caminho de volta à saúde deveria ser uma jornada da fraqueza para a vitalidade, que elevasse o espírito e fortalecesse o ânimo. Como, sei lá, em Delfos, banhos, beberagens e bençãos dos sacerdotes de Apolo. Só que com toda a tecnologia atual, claro.

Uma parte enorme do que hoje é feito em hospital poderia ser feito em casa, aliás, e já começa a ser assim em muitas partes do mundo. Outra parte grande de manter a saúde é prevenção, o que naturalmente não interessa para os grandes players da área, começando pela indústria farmacêutica.

As discussões brasileiras sobre o tema pararam no século 19, como aliás várias outras. Quando leio os pseudo-debates sobre investimento social em saúde, tipo “devemos botar mais dinheiro nas crianças ou nos velhos?”, ou "o importante não é o salário", sempre lembro daquelas plaquinhas antigas de hospital mandando a pessoa calar a boca, “Silêncio!”.

Por que são assim tão desagradáveis os hospitais? Já não basta a agressividade das doenças? Não poderíamos ser mais gentis com as pessoas, quando elas estão no seu estado mais frágil?

Não, porque a “lógica econômica” dita que o hospital pode ter no máximo três enfermeiras para cuidar de 15 leitos, a fisioterapeuta tem que dar conta de três andares, o médico só pode passar cinco minutinhos. Para “a conta fechar”.

O que significa sempre que recursos preciosos, que poderiam estar indo pra gente doente, estão indo para outros destinos menos nobres. Sejam dividendos no bolso dos acionistas, dos hospitais, seguradoras e companhia. Ou, e nesse caso é a ainda mais injusto, a grana que deveria ser da saúde pública vai parar em algum canto obscuro do orçamento público, para os usos obscuros que todos conhecemos.

"Produtividade", no jargão de hoje, é fazer mais com menos. Pra quê? Pra dar lucro. Lucro com o sofrimento alheio é feio, vamos concordar. Nosso objetivo tem que ser outro: fazer mais para quem precisa mais. Enquadrar pacientes de carne e osso dentro da prisão dessa pseudo-produtividade (ou, como faremos no Brasil a partir de 2018, dentro de um “teto de gastos”) é imoral. E improdutivo...

http://r7.com/ztPT

Publicado em 03/08/2017 às 16:42

Neymar tem obrigação de fazer mais pelo Brasil

neymars 1024x576 Neymar tem obrigação de fazer mais pelo Brasil

Neymar vai ganhar R$ 9.25 milhões por mês do PSG. Merece? Claro que não. Qualquer professora primária da periferia tem muito mais utilidade para a raça humana que um jogador de futebol. Mas merece, na lógica invertida que vivemos, porque vai trazer mais dinheiro para o PSG do que o time está investindo nele.

Num mundo com tanta desigualdade, o salário de Neymar agride. Temos meio milhão de famílias na fila para receber o Bolsa-Família, e o garoto tá lá comprando iate porque é bom de fazer gol. Pobre brasileiro ganha dinheiro e vira "rico", com o comportamento habitual da nossa elitem "não é problema meu".

O mundo é como é. Mas em alguns lugares é menos injusto que outros. Na França o imposto de renda mais alto é 45%. Se sua renda anual está acima de 150 mil euros (uns R$ 550 mil), você vai pagar quase metade disso para o governo. E não tem choro nem vela. No Brasil sabemos bem como é.

O que é muito chato de Neymar, e de todos esses super atletas, é que eles são tão moldados pelo marketing que viram uns seres anódinos. Pra garantir os patrocínios milionários e a simpatia das torcidas, todos têm que fazer o papel do bom moço, sem nenhuma aresta, nenhum defeito, nenhuma opinião sobre coisa nenhuma. Neymar é isso, o garoto alegre, família, sempre o sorrisinho na hora da foto.

Vender atleta como "ídolo" depende sempre de transformar o esporte em uma atividade muito edificante para o espírito, inspiradora, educativa, gloriosa. Ora, é só um bando de caras correndo atrás de uma bola. Ídolo é quem faz alguma coisa admirável de verdade - e as coisas admiráveis de verdade, a gente faz pelos outros. O que Neymar fez pelo Brasil?

De concreto, existe o Instituto Neymar Jr., que atende 2400 crianças em Praia Grande, cidade onde ele nasceu. Ótimo, parabéns. Mas perto do que ele poderia fazer, com seu dinheiro e influência, é pouquíssimo. Se é ídolo de muita gente - e é - tem responsabilidade de se posicionar sobre as barbaridades brasileiras. Fazer cara de paisagem, no Brasil de 2017, é fugir à raia.

O Brasil é uma fábrica de molequinhos miseráveis. Quando um deles consegue escapar de seu destino, e se tornar o brasileiro mais famoso do mundo, tem obrigação de fazer mais pelo Brasil. E nós temos obrigação de exigir mais dele.

http://r7.com/9kwB

Publicado em 28/07/2017 às 15:54

Os artistas do Brasil precisam ser mais Mick Jagger e menos Chico Buarque

jagger 81325a 616x427 Os artistas do Brasil precisam ser mais Mick Jagger e menos Chico Buarque

Mick Jagger lançou duas músicas novas. Ambas têm forte conteúdo político. Mick escreveu no passado algumas das letras mais radicais do rock. Hoje tem 74 anos. É rico e famoso. Continua incomodado com a estupidez e a injustiça.

As músicas são boas? Jagger se permite efeitos e eletrônica impensáveis dentro dos Stones, que afinal são os Stones, uma banda de blues. "England Lost" é escancaradamente sobre o crescente isolamento do Reino Unido, sua saída da União Européia. "I went to see England but England Lost... I went to see England but it wasn´t there", diz o narrador fã de futebol, mas está falando do Brexit, da crise de refugiados, do establishment careta, carola, mentiroso. Ganhou vários remixes. Meu favorito tem rap e lembra em trechos o Clash - "This is Radio Clash", "This Is England".

"Gotta Get a Grip" é menos interessante musicalmente, mas que letra. Não resisto a publicar inteira ali embaixo. Mas antes disso, te pergunto: porque no Brasil, com tantas razões para nossos músicos radicalizarem em suas letras, eles tão comportados? Não estou falando de denúncias genéricas contra violência policial, racismo, "o sistema" etc. Estou falando de ir pra cima dos nossos poderosos, de enfrentamento explícito.

É certo que o artista brasileiro se acostumou a depender das leis de incentivo e da simpatia dos diretores de marketing para financiar seus projetos, e não só na música. É uma das razões porque nossos grandes nomes são tão invertebrados. Não querem correr o risco de ofender ninguém, jamais.

Mas não estou falando da música que faz sucesso. Pode ser música que não faz sucesso nenhum, não está na TV, na FM, nem bombando no YouTube. Cadê nossa música de combate?

Botei hoje essa pergunta no Facebook, me recomendaram uma banda chamada Merda. Que tem uma música chamada "Roqueiro Reaça". Beleza, mas queria entender porque não há músicas contra Temer, 95% de desaprovação. Ou mesmo Dilma, quando ela era o vilão do momento. Quando Collor era presidente, os Garotos Podres bateram nele com uma música chamada "Fernandinho Viadinho". Politicamente incorreto - mas politicamente correto, uma porrada juvenil em um poderoso que ferrava o país.

No mesmo dia Chico Buarque, contemporâneo de Mick Jagger, lançou sua nova música. "Tua cantiga" é uma canção de amor, na linha que tantas que já fez, e não faz bonito na sua obra. Chico, o melhor letrista que o país já teve, dá cotidianamente a cara a bater, e já teve que aturar muita malcriação pela sua explícita rejeição do impeachment, da Lava-Jato etc. É injusto cobrar mais participação política de Chico. Mas impressiona a dissonância entre sua atuação pública e sua produção artística.

Palmas para os dois, pela sua disposição de continuarem arrumando tretas. São razão para esperança: você não precisa virar um bundão só porque está velho, enrugado e bem-de-vida. Mas se é para os artistas do Brasil se espelharem em alguém, torço que seja em Mick Jagger - um cara que sabe que o rock é sempre do contra, e que o melhor rock´n´roll nunca é só rock´n´roll.

Gotta get a grip

Beat it with a stick
Gotta get a grip
She goin' for the hit
THe world is upside down
Everybody lunatics and clowns
No one speaks the truth
And madhouse runs the town
Well you gotta get a grip
Beat it with a stick
You gotta get a grip

Everybody's stuffing their pockets
Everybody's on the take
The news is all fake
Let 'em eat chicken and let 'em eat steak
Let 'em eat shit, let 'em eat cake
You gotta get a grip
You gotta get a grip
You gotta keep it zipped
And shoot 'em from the hip
Yeah, yeah, you gotta get a grip
Beat it with a stick

I tried diversion and I tried coercion
Mediation and medication
LA culture and aquapuncture
Overeating and sex in meetings
Induced insanity, Christianity
Long walks and fast drives
And wild clubs and low dives
I pushed and I strived
But I can't get you, can't get you
Can't get you out of my mind
Gotta get a grip

Oh you, oh you
Oh you, beat it with a stick
Immigrants are pouring in
Refugees under your skin
Keep 'em under, keep 'em out
Intellectual, shut your mouth
Beat 'em with a stick
Oh you
Gotta get a grip
Gotta get a grip
Chaos crisis instability, ISIS
Lies and scandals, wars and vandals
Metadata scams and policy shams
Put 'em in a slammer
Gotta get a grip
Gotta get a grip
Come on

http://r7.com/Xw_S

Publicado em 26/07/2017 às 19:20

O Brasil mata seus filhos

criancas lendo no lixo 750x410 O Brasil mata seus filhos

Crianças lendo em um lixão em Olinda

Notícia: 40% dos brasileiros até 14 anos vivem em situação de pobreza. São 17 milhões de crianças e adolescentes. E 13,5% vivem em situação de pobreza extrema. São famílias que têm até um quarto do salário mínimo como renda per capita. O estudo da Fundação Abrinq analisa dados de 2015. Em 2017, pode apostar que o Brasil está mais pobre, mais injusto, mais cruel com esse milhões de brasileirinhos.
Não é de hoje que o Brasil trata com crueldade seus filhos. Todo ano é isso, todo ano será assim, um pouco mais, um pouco menos. Alimentar e educar nossos filhos deveria ser a prioridade zero do país, como é a dos pais. Acima de todas. Mas nunca foi, não é e não será tão cedo.
Temos um instrumento para isso, eficiente e elogiado internacionalmente, que é o Bolsa-Família. Que é muito pequeno. Precisava chegar a muito mais gente, ter um valor muito maior, e ser reajustado acima da inflação todo ano. E que não é obra de Lula, não só; sua origem está em programas lançados no governo Fernando Henrique. Então não vamos fazer disso mais uma partida no eterno e estéril Fla-Flu eleitoral.
Notícia no Valor Econômico: o ministro do planejamento, Dyogo Oliveira, informa que não haverá reajuste do Bolsa-Família no ano que vem, porque "não há espaço" no orçamento. A reportagem informa isso lá no fim, depois de citar uma série de coisas para as quais há espaço no orçamento.

Não vamos botar isso na conta de Dyogo. Ele é uma peça da engrenagem, você é outra, eu também. Estamos apáticos, anestesiados. Distraídos com a fofoca, a engenhoca, o cotidiano. Encapsulados por uma bolha de consenso criminoso. Nossa elite escravocrata convenceu nossa classe média apavorada que o problema são os pobres. Essa gente escura, supérflua, cheia de filhos.

Vamos então lembrar que o Bolsa-Família é o que o Brasil tem de mais moderno. Um começo de Renda Básica Universal, a melhor maneira de enfrentar o fim do emprego que nos impõe o avanço da tecnologia. De quebra, tem impacto direto na educação, na saúde, na violência. Negros, mulheres, idosos, deficientes e, claro, jovens.

Não reajustar o Bolsa-Família, neste ambiente de recessão sem fim, é condenar esses milhões de jovens miseráveis a uma vida ainda mais injusta, mais dolorida, mais frágil. Em muitos casos, à morte, por desnutrição, doença, falta de abrigo, remédio, esgoto, esperança.
O Brasil mata seus filhos. Que dramático, que patético.  Aceitamos calados, carneiros. Não adianta a gente botar a culpa no político do momento, na mídia, na corrupção, na nossa História. O sangue desses inocentes está nas minhas, nas suas mãos. E não sai. Não sai.

http://r7.com/dvTE

Publicado em 21/07/2017 às 16:16

O sentido da morte é a vida

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Morreu Selene, prima da minha prima Eliane, que me conta no WhatsApp. "Como assim", retruco surpreso, lembrando da mulher linda, inteligente, engraçada, que me embasbacava adolescente, eu 14 anos, ela 21, numa temporada em Ubatuba, a casa cheia de parentes, 1980.
Câncer, explica Eliane. Matou em um ano. "Ela sofreu pra caramba, tadinha, daquele jeito animado dela". A notícia materializa a jovem Selene na minha memória. Nos vimos uma vez por década desde então, mas nesse momento, para mim, aquele verão foi ontem.
"Que coisa sem sentido", respondo, e emendo, "bem, sentido não tem muito na vida". Eliane provoca, "Melhor para quem tem... fé." Sabe que não tenho nenhuma, e ela tem de sobra, minha prima também linda, inteligente, engraçada - e católica fervorosa, catequista. Respondo "Com certeza".
Médio. Na teoria a fé ajuda muito quando uma pessoa querida se vai. Porque você acredita que a pessoa foi para um lugar melhor, e um belo dia vocês vão se reencontrar pela eternidade. Na prática, todo velório vejo pessoas de muita fé chorando como se aquela morte fosse para sempre. Não entendo isso. Não entendo muita coisa.
Não entendo porque quando morreu um grande amigo anos atrás, Mauro Martinez dos Prazeres, também homem de fé, presbiteriano, desejei que ele estivesse certo e eu, errado, mesmo sabendo que não. Torci por uns minutos para que ele estivesse em alguma dimensão paralela, incompreensível, sobrenatural. Um mundo de sonho.
Mauro, aliás, me apresentou Neil Gaiman, na primeira vez que ele veio ao Brasil. Me lembro de dizer para Mauro que a Morte, personagem dos gibis de Gaiman, fazia muito mais sentido para mim que qualquer conceito de vida eterna. "Prefiro bater as botas e ter uma gata gótica me esperando do que alguém para me julgar".
O tempo fez Mauro voltar a ser presente na minha vida. De vez em quando leio uma frase, vejo um filme (o novo do Homem-Aranha!), e parece que vejo Mauro do meu lado, ouço sua voz, sei exatamente o que ele diria. Meu pai, cuja fé é muito pessoal e um pouco misteriosa, costuma dizer que sua vida é cheia de fantasmas queridos, gente que se foi mas continua presente no seu cotidiano. Os anos vão me ensinando o que ele quer dizer.
O destino de Selene e a troca de mensagens com Eliane me lembrou que para quem tem fé, o sentido da vida é a morte. O que fazemos na Terra é só um prólogo, uma preparação, quem sabe um teste para o que vem depois da morte. Para nós que não temos fé, o sentido da morte é a vida. É minha convicção profunda de que o fim será definitivo que torna a vida tão preciosa, sua fruição premente, seu significado sagrado.

http://r7.com/CZGY

Publicado em 20/07/2017 às 18:15

Um conselho para João Dória (e uma encomenda para os paulistanos)

FUP20170102460 Um conselho para João Dória (e uma encomenda para os paulistanos)

É comum e forçada a comparação entre João Dória e Donald Trump. Mas é inegável que pelo menos uma coisa o prefeito e o presidente têm em comum. É a dificuldade de ouvir críticas. E com isso, de reconhecer erros e pedir desculpas.

A deficiência no diálogo é um problema para qualquer pessoa. Mais ainda em gestores. E infinitamente mais em gestores públicos, que são representantes da vontade popular, e lá estão única e exclusivamente como funcionários da população. Como Trump, Dória fala pelos cotovelos. Está o tempo todo nas redes sociais, e gerando ganchos para aparecer na imprensa. Sua equipe de mídia social esquadrinha a internet 24 horas por dia, à procura de citações positivas, para alavancá-las, e negativas, para rebatê-las.

Normal? Até certo ponto. Político tem que vender seu peixe mesmo. Que político quer dar destaque para o que está indo mal na cidade que administra? Mas a marcação cerrada da administração Dória contra críticas vai além do habitual. Inclusive do habitual no estado de São Paulo, onde os jornalistas já estão bem acostumados com a postura de Geraldo Alckmin, cuja estratégia de comunicação é nunca se explicar e nunca pedir desculpas.

Pode ser uma questão de formação profissional. Dória é publicitário das antigas. Vê a mídia como um espaço para relações públicas, não questionamento. Em todos os seus anos como entrevistador, nunca fez uma pergunta que colocasse o entrevistado em uma situação difícil. Seu negócio é networking, é relações públicas. Natural que veja esta fase na prefeitura como continuação do trabalho que sempre fez. E quem sabe sua longa experiência como facilitador de relacionamentos possa render bons resultados para São Paulo.

Mas o marketing mudou e Dória parece que não percebe. Mesmo usando todo o arsenal da internet, e tendo uma ótima equipe de mídia social, a impressão é que o prefeito parou no tempo. Ainda vê a comunicação como via de mão única, em que o anunciante determina ao consumidor como, o quê, quando e por quanto ele deve comprar. Qualquer publicitário afinado com o espírito da nossa época sabe que não é assim que se faz comunicação efetiva no século 21.

Dois casos atuais explicitam o problema do prefeito. Primeiro, a história dos moradores de rua que teriam sido alvo de jatos de água, nesse frio desgraçado. Na verdade a água não foi neles, foi nos cobertores. Evidentemente, não foi Dória que mandou fazer isso. E vale lembrar que na gestão Haddad aconteceu algo similar, quando a Guarda Civil retirou cobertores de moradores de rua em pleno inverno.

Mas de fato equipes de zeladoria da prefeitura, e a Guarda Civil Metropolitana, estão recolhendo cobertores, colchões e objetos pessoais de gente que mora na rua. É a conclusão de diversas reportagens, e denunciada pelo próprio padre Júlio Lancellotti, coordenador da Pastoral do Povo da Rua.

Como Dória deveria ter reagido? Bastaria dizer: "De fato isso aconteceu. Peço desculpas aos moradores de rua. Isso é um absurdo. Já avisei todas as Sub-Prefeituras e a Guarda Civil que não pode voltar a acontecer e que se algum funcionário nosso fizer isso, será punido severamente."

Como Dória reagiu? Disse que foi "um descuido". E disse também o seguinte:

"A informação foi difundida de maneira equivocada. As equipes de limpeza fazem a limpeza todas as manhãs: varrição e limpeza de pisos. Jamais algum profissional foi orientado a jogar jatos d'água em moradores. É uma mentira. E ninguém checa a informação, que jornalismo é esse? Não houve e nem haverá jatos d'água... Alguns cobertores foram molhados. Inclusive, hoje distribuímos novos cobertores para essas pessoas. Gaste pelo menos dois minutos para checar se a informação é verdadeira."

O prefeito pisou na bola. As reportagens não são obra de moleques. São matérias de veículos como CBN e Folha de S. Paulo. É um caso em que Dória lembra, de fato, Trump, atacando a imprensa por divulgar "fake news". A repercussão, como se pode imaginar, está sendo péssima para o prefeito.

Um outro caso: uma viatura da Guarda Civil Metropolitana atropelou uma menina de nove anos na rua Helvétia, na região da Luz. A Helvétia era o epicentro da Cracolândia, que agora se localiza na esquina da rua Cleveland com a Praça Júlio Prestes - não acabou, claro, só mudou de lugar.

A menina mora por ali. Brincava na rua com uma irmã e um amigo. Teve uma fratura na tíbia da perna direita e lesões no pé esquerdo, joelho e cotovelo. Passou por cirurgia e vai passar por mais uma. Ela não tem previsão de alta. A reportagem do nosso Peu Araújo, aqui do R7, conta em detalhes o caso. Entrevistou a mãe da menina. Ela conta que é comum viaturas passarem em alta velocidade naquela esquina. A reportagem do R7 verificou que na nova Cracolândia também há risco de acidentes. Tem centenas de pessoas ocupando a praça e parte da rua e não tem semáforos.

O repórter mandou uma série de perguntas para a prefeitura sobre o acidente com a menina (por exemplo, o Samu não foi acionado), o risco de acidentes, se houve outros atropelamentos, que providências serão tomadas para evitar casos assim.

A resposta da prefeitura foi a seguinte: "A Guarda Civil Metropolitana lamenta o ocorrido e informa que a criança foi imediatamente socorrida pelos integrantes da viatura para o hospital da Santa Casa. No hospital foi constatada fratura no pé esquerdo, a menina ficou em observação, acompanhada pela mãe. A ocorrência foi conduzida ao 2° DP."

De novo: comunicação que não comunica. Ignora questões e questionamentos. Fala, fala, e parece que não ouve, ou não quer ouvir.

Dória tem fãs ardorosos e detratores automáticos. Passada a eleição, a maioria não é uma coisa nem outra. Os paulistanos são muito pragmáticos. Queremos ver resultados. Só louco quer ver o fracasso da gestão Dória. Todos torcemos que esse prefeito faça a melhor gestão de todos os tempos. E o prefeito que o substituir, idem, seja quem fôr, do partido que fôr. Todos sonhamos com uma cidade muito melhor.

Mas para nosso prefeito fazer uma boa gestão, precisamos também nós fazer a nossa parte. Minha encomenda para os paulistanos: está na hora da gente cobrar Dória. Já são seis meses na prefeitura. Está na hora dele provar que é o que dizia ser, durante a campanha, um bom gestor. E já passou da hora dele se tocar: a primeira obrigação de um gestor é aprender a falar menos e ouvir mais.

http://r7.com/i8UF

Publicado em 19/07/2017 às 16:45

Protesto tem que incomodar. E o Brasil precisa aprender isso

docentes se irian a huelga  nq3Hlda JPG 976x0 Protesto tem que incomodar. E o Brasil precisa aprender isso

Macchu Picchu é um dos lugares mais fascinantes da Terra. É o principal destino turístico do Peru. Essa é a época que mais enche, porque não chove, visibilidade perfeita. Vem um monte de turistas, principalmente dos EUA e Europa. Chega a seis mil pessoas por dia. Justamente por isso é que os professores da região decidiram fazer agora um grande protesto por salários melhores - bloqueando o acesso a Macchu Picchu.

O sindicato dos professores do estado de Cusco fez greve durante os dias 12 e 13 de junho. Querem o mesmo que os professores do Brasil: mais dinheiro. O piso lá é uma miséria, como aqui. O movimento começou no início do mês. O governo explicou que não tem dinheiro no orçamento agora, as desculpas habituais.

Pois os professores foram lá e bloquearam a trilha de trem que leva a Macchu Picchu, e que é a única maneira de chegar lá. Botaram paus e pedras nos trilhos. Com isso, muitos turistas que tinham visita programada para esses dois dias perderam a viagem. Do Brasil, e também de lugares muito mais distantes. Imagine a frustração, voar da Alemanha ao Peru e não conseguir visitar Macchu Picchu.

Bem, certamente é menor que a frustração de ensinar todo dia a nova geração de peruanos, ganhar mal e ouvir desculpa dos políticos, ano após anos. E a população do Peru entende isso. Inclusive os guias turísticos. E inclusive os policiais.

Veja só: a polícia teve uma reação inesperada. Não sentou a borracha nos manifestantes, nem tacou gás lacrimogêneo neles, mesmo quando o sindicato ocupou toda a Plaza de Armas, o lugar mais turístico de Cusco. Um policial resumiu muito bem a posição dos peruanos: "todos sabemos que os professores precisam ganhar mais, e todos temos filhos nas escolas." O que a polícia fez? Os professores bloqueavam os trilhos, os policiais iam lá e limpavam. E assim foi durante dois dias.

O Peru é um dos berços da civilização humana. Um dos primeiros lugares onde se desenvolveu uma sociedade sofisticada, organizada, com agricultura, arquitetura, cultura próprias, há uns oito mil anos atrás. Foi lá, no México, Crescente Fértil, Índia, China e só. Os peruanos seguem mais civilizados que os brasileiros, de várias maneiras, mesmo com toda a pobreza e desigualdade do país. Por exemplo, não há violência. Nem do crime, nem do estado contra seus cidadãos (OK, de vez em quando há. Mas não nesse caso dos professores).

Eles entendem que protestar é direito de todos. E que protesto é para incomodar mesmo, para atrapalhar o andamento da vida normal, para dar prejuízo. Protesto que não incomoda não é protesto, porque não pressiona, não repercute, não faz a sociedade prestar atenção, a imprensa debater, o governo se mexer.

Foi enchendo o saco que nossos antepassados conquistaram o voto, salário mínimo, escola pública gratuita, e todas as conquistas que hoje damos de barato. Podes crer que muita gente naquela época reclamava, "lá vem aquela mulherada de novo atrapalhando o trânsito para conseguir o direito ao voto!".

Mas os professores peruanos conseguiram seu objetivo, atrapalhando a vida dos turistas? Ainda não. O governo tá enrolando, promete uns aumentos para o final do ano. O sindicato segue mobilizado. Os médicos da rede pública entraram em greve em apoio aos professores. E agora os mineiros também declararam greve sem data para acabar, mas contra o pacote de reformas trabalhistas que o governo pretende impôr, e que a população do Peru rejeita. Lembrou de algum país?

Enquanto isso no Brasil ainda continuamos com o discurso de que protesto é coisa de vagabundo. Que interromper as vias é coisa de criminoso, que manifestação é anarquia e por aí vai. Outro dia estavam chamando de vândalos uns manifestantes que quebraram umas vidraças no Rio de Janeiro. Ora, perto do vandalismo que foi cometido pelos governantes do Rio contra a população... são dois erros, sei, e não fazem um acerto, sei, mas não vamos comparar a violência cometida por Sérgio Cabral e cia. contra o Rio, com uns vidros espatifados.

Hoje mesmo uns estudantes que protestavam contra o aumento no preço do transporte para eles, aqui em São Paulo, entraram no sarrafo. Uma mulher foi hospitalizada com cacetada na cabeça. Manifestantes e um jornalista se machucaram. A maior parte da imprensa noticiou como "confusão". Não tem confusão nenhuma, tem é agressão do poder público contra a população.

Que tem todo o direito de protestar. Inclusive tem o direito de protestar contra a retirada de seus direitos. Porque, como sabemos, direito não é uma coisa que se concede, não é um presente. É uma coisa que se conquista, e que a gente precisa defender para não perder. Por isso é que protesto tem que incomodar. Coisa que qualquer país civilizado sabe e dá de barato. Inclusive nosso vizinho Peru. E que o Brasil ainda tem que aprender.

http://r7.com/wdHk

Publicado em 18/07/2017 às 17:04

O morto-vivo que inventou os zumbis

george1 O morto vivo que inventou os zumbis

Se o mundo fosse justo, George Romero teria morrido bilionário. Ele criou um monstro — nos dois sentidos. Inventou o conceito do morto que volta à vida faminto por carne humana, o que hoje chamamos de zumbi. E o zumbi se tornou um negócio monstruoso, em incontáveis outros filmes, games, séries, em merchandising e no inconsciente coletivo global.
O que Romero ganhou com todo esse fenômeno zumbi, com Walking Dead, Resident Evil, bonecos e salgadinhos zumbis? Nada. “George Romero” é sinônimo de zumbi, mas ele não tinha copyright sobre o monstro que criou. Não demonstrava amargura com isso, nem com sua prisão criativa no gênero terror. Desde seu primeiro filme,  George Romero deixou claro: ele sabia muito bem que o mundo não é justo.

“Night of the Living Dead”, o original de 1968, segue cultuado e assustador, fotografia preto-e-branco, tom documental, terror sem explicação ou misericórdia.  Romero continuou quase 50 anos nessa toada. Seu nome garantia financiamento de qualquer filme de terror, e melhor ainda se fosse de zumbi. Seus mortos-vivos renderam filmes incríveis. Ele bateu na onda patriótica dos anos Reagan-Rambo em Day of the Dead. E zoou com a crescente desigualdade da América sob Bush, em Land of the Dead.

Sua filmografia se sustenta mesmo quando não há um zumbi por perto. Sempre trabalhando com baixos orçamentos, Romero sempre surpreendeu. “Crazies” é sobre uma epidemia de insanidade. “Martin” é um garoto frágil que na verdade é um vampiro — ou talvez pense que é. “Knightriders”, uma versão da Távola Redonda sobre motos (!). Seu projeto mais leve e comercial foi em parceria com Stephen King. “Creepshow” era uma homenagem aos gibis de terror da EC Comics. Foi o primeiro filme dele que vi - e revi, e revi, e reveria hoje com prazer.

Seus filmes de zumbi chocam com o horror e educam com o humor. Mas nunca aliviam, nunca deslizam para a paródia. Romero é violento na sangreira e no comentário social. “Dawn of the Dead”, seu melhor filme, é a crítica de costumes mais explícita. O olhar agudo de Romero captura em 1978 as origens da sociedade super consumista, super comportada dos nossos dias. Seus zumbis circulam por um shopping, olham as vitrines, conferem os preços. Como se estivessem vivos. Como nós. Morre o homem, vive George Romero - o homem que não só inventou os zumbis, mas fez deles humanos.

http://r7.com/Uwtj

Publicado em 17/07/2017 às 10:50

Crime e recompensa: o legado de Martin Landau

Crimes Featured Crime e recompensa: o legado de Martin Landau
Judah é um homem bom. Oftalmologista respeitado, pai de família, pilar da comunidade judaica de Nova York. Tem pela primeira vez na vida um caso, com uma aeromoça quarentona. Ela ameaça expôr a relação. Desesperado, ele explica a situação para seu irmão trambiqueiro, que promete dar um jeito na situação. Judah concorda. A amante é assassinada. Um abismo se abre sob Judah, um homem bom com sangue nas mãos: confessar o crime ou seguir com a vida, como se nada tivesse acontecido?
Só pela cena final entre Martin Landau e Woody Allen é obrigatório assistir Crimes e Pecados, o papel definitivo de Landau, que acaba de nos deixar. A tradução é ruim. Pecado é pior que crime. O original é Crimes and Misdemeanors, palavra sem equivalente em português, uma infração, um pecadilho.
Título de acordo com o tratamento ambíguo, como a vida é e a arte deve ser. Allen, que nos entediou em sua fase russa-escandinava quando resolveu ser diretor "sério", nunca foi tão sério. Costura o drama de Judah com uma trama paralela, em que faz seu papel habitual, "Woody Allen", exasperado com frustrações, enredado em paixonites, embatucado com o sentido da vida.
Voltaria ao tema Dostoievski-light, crime e talvez castigo, no hitchcockiano Match Point. É a mesma trama e mais explicitamente sobre guerra de classes, porque na Inglaterra, e mais jovem e sexy, Jonathan Rhys-Davies e Scarlett Johansson.
"Se você quer um final feliz, vá assistir um filme de Hollywood", provocava Judah, em um filme de 1989 que inclui um produtor de TV mercenário e um documentarista cego. No século 21 só há final feliz e uma interpretação do como a de Landau é missão quase impossível. Requer material que exija não só do ator, mas do espectador.
O entretenimento de hoje é patrulhado em todas as reentrâncias e comportado em qualquer plataforma. Espetaculoso na telona, algorítmico na telinha. Qualquer desvio do bem-pensante prontamente digerível é anátema.
Landau em Crimes e Pecados é empatia pura, humaníssimo, forte e fraco como eu e você. Surpresa: era em ator sensível o impassível canastrão que minha geração conheceu em Espaço: 1999.
Martin Landau foi da primeira geração do Actors Studio. Estudou com Lee Strasberg e Elia Kazan, foi colega de James Dean e Steve McQueen. Foram quase quarenta anos para ganhar o papel que o fará imortal. A recompensa por uma vida de trabalho demorou, mas chegou.
Allen, maior criador vivo do cinema americano, segue vilificado por pecadilhos que a opinião pública conservadora insiste que são crimes, mesmo que nunca tenham sido provados. A recompensa por sua vida de trabalhos brilhantes é o estigma de pecador.
Mas sua obra será vista e revista pelas gerações que nos seguirão. O ganhador do Oscar e a série que todos comentam neste final de semana, não. Enquanto houver inteligência e sensibilidade no planeta, enfrentaremos o dilema de Judah, admirável monstro moral, que o talento de Landau impõe: e se fosse eu?

http://r7.com/y4zS

Publicado em 14/06/2017 às 15:42

A economia não está melhorando coisa nenhuma. A crise vai durar muito tempo

Crise Brasil 730x471 A economia não está melhorando coisa nenhuma. A crise vai durar muito tempo

Os dados não deixam nenhuma dúvida: a recessão vai continuar por muito tempo

Existem muitos indicadores que medem o desempenho da economia brasileira. Cada um tem seu valor. PIB, vendas no varejo, confiança do consumidor, exportações, déficit e superavit... e por aí vai. Subiu a venda de carros? Caiu o endividamento? Aumentou a poupança? A safra é recorde? Tudo tem sua importância para entender onde estamos e para onde vamos. Mas como sempre digo, "tudo" é muita coisa.
De todos os indicadores econômicos, elegi um como o mais importante para prever o futuro da nossa economia. É a Arrecadação de Impostos. Quanto o governo federal está arrecadando. Porque isso nos informa, de uma vez só, sobre muitas coisas. Como estão as vendas das empresas. Como está o consumo. Qual será a capacidade futura do governo pagar suas contas, pagar suas dívidas, e - se sobrar alguma coisa - investir no país.

Há muitos anos uso esse indicador como o mais preciso para fazer meu planejamento financeiro, como pessoa física e jurídica. Não é bola de cristal. É pé no chão. Até porque esses indicadores setoriais só mostram uma faceta da realidade. No momento as vendas subiram um pouco e o endividamento caiu um pouco. Por quê? Efeito da liberação do FGTS. Que acaba daqui a pouco. São dados que dizem pouco, em termos de tendência para o segundo semestre e o ano que vem.

Como estamos em uma recessão, esse indicador é ainda mais importante. É matematicamente impossível sair de uma recessão sem investimento. Mas as pessoas estão sem dinheiro e com receio. As empresas estão na retranca; ou mal das pernas, ou, as poucas que têm recursos, deixando eles nos bancos em vez de arriscar. O investidor estrangeiro não vai botar dinheiro aqui que não seja de curto prazo.

Temos uma incógnita gigante, que é o que nos espera de 2018 para frente - podemos eleger um radical da austeridade, ou um aventureiro, ou um Congresso ainda pior que esse, sabe-se lá. E, claro, a cada dia aparece uma nova denúncia enfraquecendo nosso executivo, legislativo, e aliás judiciário.

Ou seja: se as pessoas, as empresas, os estrangeiros não estão investindo. Restaria o governo investir. Mas ele terá capacidade para isso? Afinal, em uma recessão, cai a arrecadação do governo. E é exatamente esse o indicador que mais importa para mim.

Reportagem de hoje no jornal Valor Econômico informa que houve queda da arrecadação federal em maio de 2017, comparando com maio de 2016. Mais: "houve queda quase generalizada dos tributos, particularmente aqueles relacionados com a atividade econômica." Mais: os dados de maio reforçam a trajetória negativa da arrecadação. Nos primeiros quatro meses de 2017, a arrecadação ficou R$ 19,6 bilhões abaixo do esperado. Vale lembrar que nesse início de ano entrou o dinheiro do Imposto de Renda. O Valor usou dados oficiais, do Siafi, o sistema eletrônico que registra todas as despesas e receitas da União. O artigo completo está aqui.

Esse dado nos informa o seguinte: não só o governo não vai conseguir investir em 2017 para revertar nossa recessão, como tem grande chance do governo nem conseguir cumprir a meta fiscal de 2017. Porque, obviamente, não há nenhuma razão concreta para acreditarmos que a arrecadação vai crescer nos próximos meses.

E depois disso? Bem, o governo Temer aprovou ano passado a PEC do Teto dos Gastos, que estabelece um teto para os gastos públicos. Determina que a União só poderá gastar o que mesmo que no ano anterior, acrescido da inflação do período. Essa lei limita severamente a capacidade do governo brasileiro atuar para estimular a economia. Ficamos ao sabor dos ventos, da disposição das empresas se arriscarem, da iniciativa de estrangeiros investirem aqui. Talvez o próximo presidente e Congresso mudem essa lei. Talvez por algo pior ainda...

O futuro após a eleição de 2018 é nebuloso. Daqui até lá, é previsível. A recessão estará conosco até onde os olhos conseguem ver.

http://r7.com/6jbU

Publicado em 05/06/2017 às 17:45

De Paris a Pernambuco, o problema é o mesmo (e a solução está com você)

rivania menina mochila 2 750x410 De Paris a Pernambuco, o problema é o mesmo (e a solução está com você)

Cenas como essa vão acontecer cada vez mais. Mas você pode evitar isso - começando hoje

Dezoito cidades brasileiras estão em estado de emergência por causa de seca e enchente - simultaneamente. São em Pernambuco e Alagoas. Os moradores não têm água nas torneiras, mas suas casas estão alagadas. O Brasil se emocionou com Rivania, a menininha resgatada com seus livros. O futuro estará repleto de Rivanias - mas você pode começar a resgatar essas crianças hoje, já.
Aquecimento global não significa que o mundo vai ficando mais quentinho por igual. Significa que com a temperatura média do globo subindo, nosso cotidiano é mais seco e mais úmido, mais quente e mais frio, mais furacões e tormentas - variações violentas.
Por isso é que em vez de "Aquecimento Global", hoje os cientistas dizem "Mudança Climática". Pena que a gente ouça pouco essas palavras.Toda hora tem desastres "naturais" sendo reportados, sem serem associados à Mudança Climática. Que não é algum dia, é o nosso presente sob o domínio do Capitalismo Fóssil. E é no nosso futuro, da maneiras previsíveis e imprevisíveis.
Segundo um estudo financiado pelo Banco Mundial, o que podemos esperar na América Latina se o aquecimento global chegar a 4 graus, daqui a 83 anos, em 2100:
- Muitas áreas enfretarão secas extremas, inclusive a bacia do Rio Amazonas
- Seca também nos Andes, porque todos os glaciares da região terão derretido
- Furacões de categoria quatro e cinco, os mais devastadores, serão comuns
- 77 milhões de latino-americanos não terão água potável para beber
- queda dramática na produtividade das principais safras e na indústria pesqueira
- Aumento do nível do mar de 1m40, inundando cidades litorâneas como Rio de Janeiro
Isso dá para prever. Mas como prever o impacto social de milhões de imigrantes fugindo da Catástrofe Climática, do Nordeste, dos Andes e do Litoral, e buscando a sobrevivência nas zonas mais temperadas e altas? É o que nos espera.
Não há debate "científico" a respeito porque não há o que debater. Não há controvérsia, não existem duas visões. O que existem são evidências imensas, irrefutáveis, de que o aquecimento global é causado por atividades humanas. O "outro lado" é propaganda pura, bancada pela indústria do petróleo e seus asseclas, cujo objetivo é gerar em você e eu dúvidas sobre a origem das Mudanças Climáticas e a gravidade da situação.
Acredite na força conjunta das declarações oficiais de mais de 140 das mais respeitadas organizações de pesquisa do planeta, focadas em saúde, geociência, biologia, química, física, agricultura e engenharia. Esse resumo é atualizado periodicamente; este o mais recente, de Janeiro de 2017. Todas afirmam que o Mudança Climática é causada pela atividade humana, é perigosíssimo, e convocam à ação.

http://scienceblogs.com/significantfigures/index.php/2017/01/07/statements-on-climate-change-from-major-scientific-academies-societies-and-associations-january-2017-update/

Esse assunto rende, rende, rende. E tem uma característica peculiar. De um lado, parece um desafio tão grande que desanima. De outro, frequentemente é reduzido a uma mudança de comportamento de consumo individual. Basta você mudar seus hábitos e está feita "a sua parte".
É verdade que somos todos viciados em carbono. Move nossos carros e ônibus, gera eletricidade para nossas casas e indústrias, e naturalmente o transporte de produtos por mar e ar é feito queimando combustível fóssil. Sua camiseta, seu celular e o que você almoçou hoje, tudo tem um rastro de carbono. Mas se cada um de nós tomarmos banhos curtos, usarmos sacolinhas recicláveis, comermos menos carne, usarmos bicicleta etc. e os governos e empresas não fizeram as partes deles, vamos pro beleléu exatamente do mesmo jeito.
Existem governos - nacionais, estaduais, municipais - que enfrentam com mais energia a Mudança Climática. Outros, menos. É uma questão de interesse eleitoral e principalmente de dinheiro. Quem tem petróleo quer continuar vendendo. No caso dos EUA é mais grave. O país ocupa militarmente o globo. Suas Forças Armadas são movidas a petróleo, e garantem o fornecimento de petróleo para os EUA, que o queima para produzir eletricidade. As Forças Armadas americanas têm fornecedores (de tudo) espalhados por todos os Estados do país, o que garante o apoio do empresariado e políticos locais. Falando nisso, o maior comprador de armas made in USA é a Arábia Saudita.
Donald Trump renegou o Acordo de Paris, pelo qual o mundo todo se compromete a conter emissões para manter o aquecimento global abaixo de 1,5 graus. Obama, antes, já tinha negociado para que o Acordo de Paris não tivesse nenhum valor legal, não gerasse responsabilidades nem sanções para os países. Não quer dizer que não tenha sua utilidade, mesmo que seja só simbólica. Mas é só um pedaço de papel, e papel aceita tudo. O consenso na comunidade científica é que não dá mais pra cumprir essa meta, e aliás já é garantido que vamos ultrapassar os 2 graus de aquecimento nas próximas décadas.
É importante dizer que não é "a humanidade" que está causando a Mudança Climática. É um tipo muito específico de organização econômica e social, que privilegia os lucros estratosféricos de uma casta global de super-ricos intocáveis. Que premia o extrativismo predatório privado, e o setor público que arque com as consequências. As evidências estão em todo lugar. Ouviu alguém tossindo hoje? Nossas cidades são poluídas por monóxido de carbono. O lucro é de quem vende o carro e a gasolina. O custo da doença é seu e do SUS.
O Capitalismo Fóssil é muito poderoso, mas não é todo-poderoso. A humanidade já venceu desafios gigantescos e vencerá este. O primeiro passo é conseguir imaginar um mundo diferente do atual. Duzentos anos atrás, ninguém conseguia imaginar um mundo sem monarquias e sem escravidão. Cem anos atrás, direitos como salário mínimo, educação pública, voto da mulher etc. eram utopias.
Só imaginando um mundo melhor, mais limpo, justo e equânime, poderemos derrotar seus inimigos. Mas imaginação precisa de estímulos. A Mudança Climática faz parte do nosso cotidiano, mesmo que a gente não queira. Devemos querer, devemos fazer força para que ela faça parte do nosso cotidiano. Todo dia você deve lembrar que vivemos sob a ameaça da Mudança Climática, todo dia você deve perceber que muita gente está se mexendo para enfrentar isso. A cada dia em algum lugar alguém está celebrando uma vitória.
A maneira mais fácil de fazer isso é seguindo nas redes sociais os principais agentes desta mudança. São cientistas, jornalistas especializados em Meio-Ambiente, ativistas. Não adianta procurar anjos; somos todos humanos. Mas é fundamental procurar pessoas e organizações que têm compromisso com o rigor científico e não têm rabo preso. Um exemplo: o Greenpeace não é perfeito. Mas jamais dá espaço para ciência fajuta, e não aceita dinheiro de governos nem de empresas, o que garante sua independência.
Essa exposição diária irrita e inspira, entristece e estimula, provoca e esclarece. Quando você menos perceber, você estará muito bem informado sobre os desafios do Meio-Ambiente. E não vai conseguir ficar quieto, nem parado. Vai sentir necessidade de compartilhar suas descobertas com os outros, sua família, seus amigos. Vai sentir necessidade de agir. Uma ação pessoal, uma ação Política - com P maiúsculo.
Então, dê o primeiro passo. Nesse segundo. Comece com uma coisinha pequena. Clique nesses links abaixo comece a seguir já. E, por favor, compartilhe esse texto com gente que se importa com o planeta - o planeta de hoje, e o dos nossos filhos e netos.

OBSERVATÓRIO DO CLIMA
O Observatório do Clima reúne 35 das principais organizações ambientalistas, entre elas Conservação Internacional, Instituto Socioambiental, SOS Mata Atlântica e WWF.
Twitter: @obsclima
Facebook: https://www.facebook.com/ObservatorioClima

REVISTA PÁGINA 22 (do Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV)

http://pagina22.com.br/

Twitter: @pagina_22
Facebook: https://www.facebook.com/pagina22/

Em inglês, siga o 350.org (a maior coalisão global de entidades enfrentando a indústria do combustível fóssil) e o IPCC (é o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática - a maior autoridade internacional sobre o tema).

350. org

Twitter: https://twitter.com/350

https://www.facebook.com/350.org

IPCC
Twitter: @IPCC_CH

https://www.facebook.com/IPCC/

E já que está com a mão na massa, que tal doar R$ 40 por mês para o Greenpeace? Faz bem pro planeta e pra consciência. E é uma maneira de você já dar o segundo passo - além de investir seu tempo pra se informar, investe também um dinheirinho. Porque o outro lado está cheio da grana, e o nosso também precisa...

http://www.greenpeace.org/brasil/pt/

Um mundo melhor não só é possível, como a humanidade tem feito ele ser possível desde sempre, século após século. E faremos o mesmo no Século 21.

http://r7.com/BIpL

Publicado em 25/05/2017 às 18:21

Quando a Justiça enoja: três anos de cadeia por furtar ovos de páscoa e um quilo de frango

Presas com bebes a8a21219 Quando a Justiça enoja: três anos de cadeia por furtar ovos de páscoa e um quilo de frango

Presas na Penitenciária feminina de Pirajuí, onde cumpre pena de três anos uma mãe com bebê - por roubar ovos de páscoa e um quilo de frango

O bebê é pequenininho, menos de um mês. Nasceu na cadeia e lá vive com sua mãe. A cela tem capacidade para doze pessoas, mas está ocupada por 18 lactantes. A mãe cumpre pena por furtar ovos de páscoa e um quilo de peito de frango. Foi condenada a três anos, dois meses e dois dias por esse crime.
A defensoria pública de São Paulo pediu um habeas corpus na última sexta-feira. Acionou o Supremo Tribunal de Justiça para pedir a anulação do crime, por ser insignificante; a readequação da pena; ou a prisão domiciliar, garantida pela leis às mães responsáveis por filhos menores de 12 anos.
O argumento é que a sentença é desproporcional à tentativa de furto e que a mulher é mãe de mais três crianças, de 13, 10 e 3 anos de idade. Além do bebê, que será separado da mãe quando completar seis meses. As quatro crianças crescerão longe da mãe, se ela seguir cumprindo pena na Penitenciária Feminina de Pirajuí, no interior de São Paulo.
O ministro do STJ, Nefi Cordeiro, negou o pedido da Defensoria e manteve a pena da mãe em regime fechado. Determinou que ela deva cumprir toda a pena na prisão por causa de “circunstâncias judiciais gravosas”. Disse “não vislumbrar a presença dos requisitos autorizativos de medida urgente.”
Quem é Nefi Cordeiro? Curitibano, oficial da PM, formado pela Federal do Paraná. Tem duas medalhas concedidas pelas Forças Armadas, a do Pacificador e Ordem do Mérito Militar. Foi nomeado para o STJ por Dilma Rousseff.
Nefi Cordeiro determinou em julho de 2016 a soltura de Carlinhos Cachoeira, Fernando Cavendish (da Construtora Delta), e de Adir Assad e Cláudio Abreu. Presos na Operação Saqueador, eles são acusados de integrar um esquema que lavou R$ 370 milhões de reais de dinheiro público.
Nefi Cordeiro confirmou em 2015 uma condenação por tráfico de duas gramas de maconha – isso mesmo, duas. É o menor caso de condenação por tráfico já registrado. A pena foi de quatro anos e onze meses. O tráfico aconteceu 15 anos antes, em 2000, em Cataguases, Minas Gerais.
Nefi Cordeiro concedeu habeas corpus a quatro PMs cariocas que fuzilaram com 63 balas um carro com cinco jovens inocentes, matando Roberto, de 16 anos, no caso que ficou conhecido como Chacina de Costa Barros. No dia 7 de julho de 2016, a família disse que após o habeas corpus, a mãe de Roberto, a cabelereira Joselita, morreu “de tristeza”.
É lugar comum dizer que o Brasil precisa de reformas. Mas reformas são leis, e leis dependem de aplicação, e isso é feito por seres humanos, juízes. No Brasil, muitos juízes aplicam as leis como bem entendem. É a velha piada que advogados contam: “de cabeça de juiz e bunda de nenê, nunca se sabe o que vai sair.”
Nunca se sabe, mas todos sabemos que a justiça brasileira frequentemente tarda e falha, e tarda e falha especialmente quando o acusado tem dinheiro. A estrutura de senzala do Brasil está tão integrada à nossa sociedade que ninguém estranha que haja prisão de luxo para quem tem diploma universitário, e de lixo para quem não teve dinheiro para estudar. Como ninguém estranha o elevador de serviço, a diferença da cor de pele entre ricos e pobres, 60 mil assassinatos anuais, ou o fato de metade dos brasileiros não terem esgoto em casa.
Nunca houve justiça no Brasil e não haverá tão cedo. Como nunca houve democracia e não haverá tão cedo. Temos pouca experiência com uma e outra. Esse é o fardo histórico que todo brasileiro tem que carregar, bestas de carga, deitados eternamente em berço esplêndido.
Mas Justiça é um tema cada vez mais central na vida de todos nós. Porque a natureza da sociedade abomina o vácuo. Então o Judiciário vem preenchendo – correta e incorretamente, com moderação e com messianismo - o vazio deixado pelo Executivo e Legislativo, que há tempos abdicaram de nos representar. E seguem ignorando solenemente desejos e necessidades da maioria, e enchendo os bolsos numa lambança sem fim, como nos informa todo dia o noticiário.
Mas membros do executivo e legislativo podem perder o emprego. Juízes não. É mais fácil arrancar uma presidente eleita por 53 milhões de votos do seu cargo que demitir um juiz do supremo tribunal de justiça.
Talvez antes de qualquer outra reforma, o Brasil precise de uma reforma profunda no Judiciário. Que o torne ágil e transparente, potente e permeável à fiscalização da sociedade.
Que dê alguma credibilidade a um poder que mantém na cadeia uma mãe miserável que furtou frango e ovo de páscoa, mas concede a prisão domiciliar a Adriana Ancelmo, esposa e comparsa do ex-governador, casal que fez fortuna com a miséria dos mais miseráveis cariocas - exatamente a gente que, no limite, furta comida.
Não se trata de “cortar as asas” do Judiciário, sonho da curriola de políticos e empresários que se organiza para fugir de investigações e delações. Se trata de tratar de maneira mais equânime os ladrões da esquina e os ladrõezões de terno e gravata.
Essa semana a polícia paulistana prendeu com grande balbúrdia traficantezinhos na Cracolândia. Também esta semana, o Supremo Tribunal Federal condenou Paulo Maluf a sete anos de prisão por lavagem de dinheiro que ocorreu no seu mandato de prefeito, entre 1993 e 1996. Finalmente Maluf vai pra cadeia? Não, ainda há espaço para recurso, mais de trinta anos depois do roubo cometido...
O juiz é um funcionário público como qualquer outro. Eles têm que ser tratados de acordo. Trabalham para nós. Têm que responder para nós. E, se for o caso, serem corrigidos, ou até punidos por nós. Nossa Justiça, e ausência dela, e revisão profunda do que significa justiça no Brasil, é pauta urgente e bem mais importante do que quem vai sentar no Palácio do Planalto nos próximos meses.
Mas alguns casos, algumas pessoas, talvez estejam além da capacidade da sociedade brasileira de corrigir seu rumo. A decisão de Nefi Cordeiro que mantém uma mãe de quatro filhos na cadeia, por furtar frango e ovo de páscoa, é incompreensível para nós. Está em outro domínio. O do inimaginável, do inumano, além da imoralidade, além da redenção.

http://r7.com/fdIf

Publicado em 17/05/2017 às 20:25

Temer: entre a renúncia e o impeachment

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Temer foi cúmplice para comprar o silêncio de Cunha na cadeia. Este é o resumo da notícia-bomba, a mais explosiva em todos esses anos perigosos. Existe um vídeo disso, afirmam os donos da JBS em delação premiada. O Brasil ainda não viu. Contra uma imagem dessas, não há desmentido ou explicação possível.
Tem mais. Temer indicou um político, o deputado Rodrigo Loures (PMDB-PR) para resolver problemas da holding que controla a JBS. Loures foi filmado recebendo uma mala de R$ 500 mil pago pela JBS. O dinheiro foi rastreado pela Polícia Federal.
Isso é o que sabemos sobre o presidente. Por enquanto. Muito mais pode aparecer nessa delação, que deixa a da Odebrecht no chinelo, e já foi homologada pelo ministro Edson Fachin no Supremo Tribunal Federal.
Aécio Neves também foi filmado, pedindo R$ 2 milhôes para a JBS. A Polícia Federal realizou sete operações no total, filmando as entregas das malas de dinheiro, e rastreando o dinheiro. É um furo espetacular, histórico do jornal O Globo.
O que acontece agora?
Temer pode negar, negar, negar e continuar na presidência, totalmente enfraquecido e sob investigação e fogo cerrado. Mas será fortíssimo o clamor pela sua renúncia. Ou impeachment, como já pedem deputados e as redes sociais. Na prática, o governo Temer acabou hoje. Não terá força para mais nada. A renúncia será menos prejudicial para o Brasil que outro longo, doloroso processo de impeachment.
Renúncia ou impeachment, a regra é clara. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, assume temporariamente e convoca eleições indiretas. Quem vota é o Congresso, deputados e senadores.
Mas numa situação tão incendiária, é possível que a pressão pelas Diretas Já seja irresistível. A batalha pelo futuro do Brasil continua.

http://r7.com/VoOA

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