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Publicado em 06/10/2017 às 15:36

Ataque à creche prova que o desarmamento é necessário

janauba Ataque à creche prova que o desarmamento é necessário
Horrível demais o que aconteceu em Janaúba. Nove inocentes assassinados por um louco. 41 feridos. Nos Estados Unidos acontece todo dia. Aqui não. A razão é que lá é facílimo qualquer um comprar armas de fogo. Aqui não.
Damião Santos, o assassino, era um louco. Não tem prova maior de loucura que atear fogo a crianças e a si mesmo. Como tantos, nunca deu antes mostras de ser perigoso. Nos EUA, acontece a mesma coisa. O psicopata que matou 59 pessoas essa semana em Las Vegas era uma pessoa calma, tranquila, muito gente fina. Até fazer o que fez.
Nos EUA, atentados assim são comuns porque as armas são comuns. Todo santo dia algum maluco que jamais tinha antes dado sinais de maluquice fuzila inocentes em escolas, igrejas, estacionamentos. Sempre armas compradas legalmente, na loja da esquina.
No Brasil temos muito mais assassinatos que nos Estados Unidos, no total. Por volta de 60 mil por ano. Os mortos no Brasil são jovens, pobres, da periferia. Geralmente com armas ilegais. Pouquíssimos destes são mortos em atentados como os de Minas Gerais, ou como os que acontececem nos Estados Unidos diariamente.
Se o Brasil liberar as armas de fogo, se passarmos a ter as mesmas leis que os Estados Unidos, teremos todos os 60 mil assassinatos que temos hoje. E mais um monte de atentados como os de Minas. É muito mais fácil um louco matar inocentes usando revólver, espingarda e metralhadora do que com álcool, como vimos em Las Vegas.
A tragédia de Janaúba é especialmente chocante porque a maioria das vítimas são crianças pequenas, quatro anos. Pois nos Estados Unidos uma parte enorme dos assassinados em chacinas deste gênero também são menores de idade. O lugar mais comum para atentados assim é justamente nas escolas. Imagine quantos haveriam aqui, se qualquer um pudesse comprar uma arma legalmente e sair atirando?
O desarmamento do Brasil precisa ser total, absoluto. Como demonstrado em outro artigo, os países mais seguros do mundo são os que têm as leis mas duras contra a posse e porte de armas. Esse é o caminho. O resto é ideologia, demagogia - mentira.

http://r7.com/zIEr

Publicado em 05/10/2017 às 10:31

Por que o Brasil não ganha o Nobel de Literatura

kazuo1 1024x614 Por que o Brasil não ganha o Nobel de Literatura
Todo ano quando é anunciado o Nobel de literatura, duas palavras pipocam: nunca li. Quando vou me informar sobre o vencedor, outras duas se repetem com incrível frequência: nunca lerei. Os vencedores de 2013 e 2014, Alice Munro e Patrick Modiano, bem, parei em um estágio anterior, e, admito, muito comum: nunca ouvi falar.

Imperdoável? Jornalista tem esse cacoete de posar de sabichão. A gente pode nunca ter lido, assistido, ido ou vivido, mas tem que fazer de conta que sabe de tudo. Pior que nosso vício privado virou virtude das massas. Com a internet, somos todos pseudo-especialistas instantâneos em tudo, com direito a opinião sobre tudo, e acalorada e radical sempre faz mais sucesso.

O prêmio é entregue desde 1901. Li 29 dos vencedores - li alguma coisa dos 29, para ser preciso, não "a" obra. Para pegar uma amostrinha recente, no século 21 os vencedores foram:

2017 - Kazuo Ishiguro

2016 - Bob Dylan (nunca li mas ouvi bastante)

2015 - Svetlana Alexievitch

2014 - Patrick Modiano

2013 - Alice Munro

2012 - Mo Yan

2011 - Tomas Transtromer

2010 - Mario Vargas Lllosa

2009 - Herta Muller

2008 - Jean-Marie Gustave Le Clézio

2007 - Doris Lessing

2006 - Orhan Pamuk

2005 - Harold Pinter

2004 - Elfriede Jelinek

2003 - John M. Coetzee

2002 - Imre Kertész

2001 - V.S. Naipaul

2000 - Gao Xingjian

Se sentiu ignorante? Eu sim. Devemos estar perdendo um monte de coisa boa. Mas a academia sueca também perdeu. Porque quase nenhum dos meus autores favoritos de todos os tempos ganhou o prêmio.

Kazuo Ishiguro? Quase nunca li. Escreve sobre o passado, ficção científica, fantasia, drama. Varia de tom e tema, o que é incomum e intrigante. Britânico nascido no Japão, escreve gostoso, pelo menos no seu único livro que li, The Buried Giant, O Gigante Enterrado, uma fábula arturiana com bruxas e ogros. Mas vi um filme baseado em livro seu, Os Vestígios do Dia, chatíssimo, e ele me espaventou da obra de Ishiguro.

Ele é a exceção que confirma a regra. A maioria dos vencedores do Nobel escrevem no gênero "drama realista contemporâneo". Já leio muita não-ficção, ensaios, jornalismo. Quando leio ficção, é exclusivamente por prazer. Que também encontro neste gênero, que domina premiações e atenção da crítica. Mas encontro mais em outros cantos.

Previ anos atrás que pela crescente estatura internacional do país, na próxima década o prêmio não nos escaparia. Mas nossa boa fase se foi. De qualquer forma, se um autor brasileiro vencerá por merecimento, ou porque simplesmente terá chegado a hora do Brasil levar o prêmio, é outra história.

O Nobel não premia "o melhor escritor do mundo do ano". No caso de nomes consagrados que escrevem em inglês, o habitual é premiar pelo conjunto da obra - vide Pinter, Lessing e Naipaul (os únicos deste século que li mais ou menos, com Vargas Llosa).

Quando a obra é em língua "exótica", o Nobel premia um tanto o autor, e muito a literatura daquela cultura, país, continente. Você não vai ver autores africanos ganharem três anos seguidos, ou asiáticos, ou latino-americanos. O que nos leva à eterna questão: e o Brasil, por que nunca ganhou, e quando vamos ganhar?

Adoraria encontrar um autor conterrâneo que abrace nossa complexidade social. Meio Naipaul e meio Philip K. Dick. Com ginga e humor. Nem precisa tanto: alguém que não faça feio do lado de Pinter e Vargas-Llosa. De cabeça, não me ocorre ninguém. Ninguém que dê conta do mundo além de nossas fronteiras; ninguém que dê conta de nossa realidade única, radical, improvável. Talvez sejamos melhores biógrafos, ensaistas, cronistas, piadistas e tuiteiros que romancistas e, aliás, contistas.

A melhor explicação é a mais simples: o escritor brasileiro é um chato. É homem, branco, tem diploma universitário, mora no eixo Rio-São Paulo, e uns 50 anos. O protagonista de seu romance é homem, branco, tem diploma universitário, mora em metrópole etc. etc.

Dos nossos autores, 36% trabalham como jornalistas. Pois as profissões mais comum dos protagonistas da literatura brasileira são, pela ordem, escritor, criminoso, artista, estudante e jornalista. E a maioria das histórias se passam no presente, ou no máximo dos anos 80 para cá.

O assunto da literatura brasileira é o escritor brasileiro e seu mundinho. É um coroa diletante e seu tema é a própria juventude e meia-idade, reimaginadas dramaticamente. Este é o resumo curto e grosso da pesquisa feita pela professora Regina Dalcastagnè, da UNB. Ela analisou 258 romances de 165 escritores diferentes, de 1997 a 2012, de editoras variadas. É mostra significativa.

Regina conclui que não há na literatura nacional o que chama de "pluralidade de perspectivas sociais". Nossos livros não incluem brasileiros de várias cores, classes, religiões, idades. Bidu. É e sempre foi assim. Não há gays, velhos, deficientes, umbandistas e tal nos nossos livros.

A ausência mais escandalosa em nossa literatura, personagens negros, tem razão bem concreta. Não há negros nas redações, na universidade, nas posições de comando do País. O típico escritor brasileiro simplesmente não convive com negros de igual para igual. Mas há mais discriminação nos nossos livros que no Brasil não-ficcional. Em 56% dos romances, todos os personagens são brancos. Negro, quando aparece, é miserável, bandido e, principalmente, coadjuvante.

Faz sentido que 36% dos nossos escritores sejam jornalistas. Tirando jornalista, poucos brasileiros têm português legível. Jornalista não sabe grande coisa, mas aprende a encaixar uma frase na outra, respeitar concordâncias, economizar nas vírgulas.

Dashiell Hammett recomendou: escreva sobre o que você conhece. Donde que temos jornalistas escrevendo sobre jornalistas. Um bando de rato de redação se imaginando como herói: uma vez na vida, a notícia sou eu! Bem, sou exatamente o perfil do romancista brasileiro, jornalista, branco, cinquentão, e passo muito bem sem ler sobre mim. Nem em versão romantizada, e muito menos realista...

A pesquisa de Regina explica a desconexão de muitos, e a minha, com a literatura brasileira atual. Me recomendam este e aquele autor nacional. Compro, leio quinze páginas e despacho pro sebo, raríssimas exceções.

O problema não é o País de origem nem a profissão dos autores. É o universo ficcional e existencial dos autores e personagens. Poucos leitores se interessam pelos problemas dos brasileiros letrados de classe média e meia-idade, suas neurinhas, fantasias e infidelidades.

Em todo lugar o gênero "problemas sexuais-existenciais da classe média intelectualizada" tem longa tradição. É um gênero, como livros de vampiro ou histórias de detetive. Nos Estados Unidos, é o que garante prêmios, convites para lecionar e confete em festivais literários. É o favorito de escritores que não vivem de escrever.

Ganham a vida como professores, quase sempre. Quem sabe faz, quem não sabe ensina... Não, sacanagem. Tá cheio de professor por aí que manda muito bem nas mal-traçadas. A desgraça é quando os escritores começam a escrever para impressionar outros escritores (e isso vale também para músicos, pintores, arquitetos e qualquer atividade criativa).

No Brasil literatura é segunda profissão ou hobby. Um autor ganha uns três reais por exemplar vendido, e as tiragens aqui raramente passam de 3.000 exemplares. Pouco importa sobre o que o escritor brasileiro vai escrever, e muito menos se vai escrever bem: meia dúzia vai ler. E ele não vai ganhar dinheiro nenhum com isso.

Escrever em tempo parcial não precisa ser problema. Muitos usam bem as conexões acadêmicas e mesadinhas variadas, de fundações, esse e aquele programa governamental etc. O problema é quando a profissão do escritor não é escrever, é “ser escritor”. Cobrar cachê pela participação. Cavar verbinha do diretor de marketing do banco. Preparar a palestra para a o próximo festival corporativo. É como esses roqueiros picaretas que pegam dinheiro público via Lei Rouanet para gritar contra o sistema.

Cada um se vira como pode? Escritor não tem esse direito. Sardinha na brasa: escrever está acima de qualquer outra atividade artística. Aprender a escrever é aprender a pensar. Ter o que dizer é o melhor do humano. Dizer de maneira poderosa é divino.

Escritor que depende do poder político e econômico se assume subalterno. O que nossos romancistas dizem sobre nós? Pouco ou nada. O que perdemos com esse silêncio? Muito, tudo. As exceções reforçam a regra. A cultura do Brasil é dominada pelo consenso que compensa.

Graham Greene cravou: "A Itália, durante trinta anos sob os Borgias, conheceu a guerra, o terror, o assassinato e o derramamento de sangue. Mas produziu Michelangelo, Leonardo da Vinci e o Renascimento. Na Suíça, eles têm o amor fraternal e quinhentos anos de democracia e paz - e o que produziram? O relógio de cuco."

Falta de tempo e dinheiro para escrever frequentemente foi bem estimulante. James Joyce, para pegar o mais celebrado autor do século passado, criou Ulisses num miserê de dar gosto, exilado mundo afora, casado com uma mulher que zoava suas veleidades de artista e dois filhos pequenos pra criar. Na ponta oposta da respeitabilidade crítica, igual. A fábrica de best-sellers Stephen King pariu Carrie, seu primeiro sucesso, quando labutava como zelador e morava em um trailer, datilografando até altas horas, os nenês chorando.

Podemos e devemos fazer melhor. Ficção exige imaginação e encantamento; um tanto de história, outro de jornalismo; e variedade. Hoje festins pantagruélicos, amanhã snacks para devorar aos nacos.

Escrever bem é técnica, e escrever divinamente é talento e suor. Mas a prova dos nove é escrever sobre a realidade. Ainda que no formato de um romance histórico, ficção científica, horror ou humor ou o que for.

Escrever sobre a realidade não é escrever sobre a minha vida. E muito menos um livro é melhor ou pior porque se passa na São Paulo de hoje, e não em Saturno no século 30. O que existem são livros mais e menos ambiciosos, e mais e menos bem-sucedidos, em relação ao tema, à trama, à linguagem, ou na criação de ambientes e personagens. Alta e baixa literatura é papo de crítico cretino.

A pesquisa de Regina explicita que o assunto central da ficção brasileira é o umbigo do seu autor. Não é problema localizado. Em todo lugar, cada vez mais os escritores estão caraminholando sobre seu mundinho particular, reciclando fantasias de aventura e consumo, revisitando seus livros e filmes e ícones culturais prediletos. "Influence is Bliss", resume Michael Chabon, que faz isso melhor que a maioria.

A possibilidade de celebridade propiciada pelas redes sociais acentua a tendência. Todos vivemos escrevendo e lendo devaneios narcisistas. Boa parte do que passa por literatura é tão verdadeira quanto essas fotos supostamente displicentes, mas cuidadosamente planejadas e retocadas, que colocamos em nossos perfis no Facebook.

A ambição da ficção, e da ficção brasileira, pode e deve ser maior. Escritores são faróis na neblina. Vivem na escuridão. Tateiam. Tropeçam. Mas apontam rumos. Sinalizam um norte. E sem eles, nos perdemos.

A vencedora do Nobel de literatura de 2015 foi uma jornalista e das boas, Svetlana Alexievich. Vive no mundo, não em seu mundinho. Repórter, lhe importa mais a voz dos outros que a sua. Seu tema é a dor de parto de um mundo pós Guerra Fria, uma Rússia pós soviética, num continente quietamente deflagrado. Nunca tinha ouvido falar.

Onde estão nossas Svetlanas? Cadê os escritores de que o Brasil precisa? Nossos guias, intérpretes, espelhos? Cadê o grande romance sobre nossa miséria e nossa fortuna? A Itália do século XV é um nada de sacanagem perto do Brasil do século 21.

Hammett estava errado. A literatura que importa não é sobre o autor, é sobre o leitor. Quero, exijo, um livro que me hipnotize, e me leve para outro lugar, e para dentro de mim mesmo. O que importa em literatura é fitar o desconhecido. E não conseguir desviar o olhar.

http://r7.com/QTgY

Publicado em 04/10/2017 às 15:36

Só uma coisa funciona contra a violência. É o desarmamento

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Na lista dos países menos violentos do mundo, nos primeiros lugares estão países completamente diferentes entre si. Pequeninos principados europeus como Andorra e Monaco, mas também Japão, Bahrain, Madagascar. Em décimo-primeiro lugar, está a Indonésia. Em vigésimo-quarto, a mais gigante e desigual China. Em seguida, a desenvolvida Coréia do Sul.
Neste ranking de homicídios per capita, os EUA estão muito mal: é o número 126, abaixo do Cazaquistão. E o Brasil pior ainda: de 219 países, somos o número 206. Pior que a gente, só alguns países muito sofridos da África, e os campeões, nossos vizinhos na América Latina, Venezuela, Honduras e El Salvador.
É difícil entender o que têm em comum os países bom baixa taxa de homicídios. Uns são pequenos, outros tem mais de um bilhão de habitantes; uns pobres, outros ricos, outros mais ou menos. Em alguns a desigualdade grassa, outros têm a renda muito bem distribuída. Variam etnicamente, religiosamente, historicamente.
Na verdade, eles têm uma única coisa em comum. Os países mais seguros do mundo tem leis muito restritivas sobre armas de fogo. Dificultam, ou simplesmente não permitem, que seus cidadãos se armem. E têm punições duríssimas para quem tiver armas ilegalmente.
Na China, por exemplo, nenhum cidadão pode ter armas. A pena é três anos de cadeia para quem tiver armas, e prisão perpétua para quem traficar armas. Na Indonésia, 260 milhões de habitantes e muita pobreza, só é permitido ter armas de caça, não pistolas, nem armas militares, e mesmo assim depois de um longo e dificílimo processo de aprovação. No Japão é simplesmente proibido o cidadão ter armas. As exceções são somente para caça, e, de novo, raras e difíceis. Na Europa, o continente mais seguro de todos, as leis são todas muito restritivas.
E o contrário é verdadeiro: os países onde há menos restrição e vigilância da posse e porte de armas são os mais violentos. Entre os ricos, o único que tem leis lenientes é os Estados Unidos, e é o único país rico tão mal no ranking.
Naturalmente, não basta haver lei, atributo do Judiciário. O Executivo e o Judiciário têm que garantir o seu cumprimento. É para isso que eles existem. E não adianta somente proibir o cidadão comum de ter armas, e não punir pesadamente a porte ilegal de armas e seu tráfico. Para um país não ser violento, ninguém pode ter armas - nem o cidadão honesto, nem o criminoso.
E quando ninguém usa armas, a polícia também não usa - o que é a regra nos países seguros em geral. Na maior parte da Europa e no Japão, o policial normalmente não porta arma de fogo, só armas não-letais, como spray de pimenta, tasers, cassetetes. Caso ocorra uma situação extrema, é chamado um time especial para enfrentar o crime armado - um tipo de SWAT - esse, sim, portando armas de fogo e bem treinado para isso.
O Brasil está longe dessa realidade. Mas se outros países grandes, com população jovem, com grande desigualdade e baixa escolaridade, como a Indonésia e a China, conseguem combater a violência, nós também podemos. Basta a gente se espelhar nos países que venceram o crime: desarmamento total, punição dura para armas ilegais e tráfico de armas. Esse é o caminho. E não há outro.

http://r7.com/buzh

Publicado em 03/10/2017 às 14:57

Tom Petty, um garoto americano

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Caipira, mirrado e fanho, Tom Petty era só mais um projeto de Bob Dylan, como tantos moleques naquela virada dos anos 60 para os 70. Diferente de Dylan, nunca foi especial. Fez de não ser especial sua especialidade.
Petty não era de messianismo ou enfrentamentos, de mudar de estilo, dar show, fazer força. Era "laidback", como define com precisão a língua inglesa. Recostado, quem sabe em uma cadeira, em uma varanda, os pés pra cima na cerquinha, quieto, curtindo o fim da tarde, tomando uma cerveja no bico. Vamos traduzir por "na dele".
Em quarenta anos de carreira, foi sempre o mesmo. O mesmo som, meio da roça, meio da Califórnia, rock branco, puro, agridoce. A mesma banda, as mesmas roupas, o mesmo pouco papo. Os mesmos personagens, que eram os mesmos de seu contemporâneo, similar e contrário, Bruce Springsteen. Mas Tom Petty era de polaróides, não de pintar com tintas fortes. Escrevia bilhetes, não manifestos.
Suas meninas e garotos estavam ali de bobeira, do lado da rodovia, não particularmente oprimidos nem revoltosos. Sem angústia, sem consciência, sem razão. "A rebel without a clue", cravou perfeitamente sobre os roqueiros que então faziam sucesso, começo dos anos 90. E sobre o que aconteceria com o rock dali para frente. E, quem sabe, um pouco sobre si mesmo.
Tom Petty não era herói da guitarra, não era herói de ninguém. Era um qualquer, e fez disso seu ponto de vista, seu lugar no mundo, sua própria lenda pessoal. Se esforçou só o suficiente para ser o melhor Tom Petty que alguém jamais poderia ser. He was... an american boy.

http://r7.com/JFls

Publicado em 02/10/2017 às 10:49

É isso que dá liberar venda de armas pra qualquer um

GRAPHIC Las Vegas shooting 3 1024x768 É isso que dá liberar venda de armas pra qualquer um
Nesse momento em que volta à discussão o porte de armas no Brasil, é bom prestar atenção no que acontece nos Estados Unidos. Toda semana temos notícia de assassinatos de massa. Os EUA têm 5% da população do mundo e 31% dos casos em que uma pessoa sai atirando contra inocentes.
Algo está muito errado no país mais rico do planeta. E nem vamos falar dos mais de 17 mil homicídios e 45 mil suicídios que acontecem nos Estados Unidos todos os anos, uma parte enorme com armas de fogo.
O que é? A leniência com a posse e o porte de armas. É facílimo comprar revólver, espingarda e metralhadora lá. Não há nem uma lei federal que exija uma checagem no histórico do comprador.
Os casos estão cada vez mais horríveis. Agora temos esse de Las Vegas, o pior da história. No quarto de onde o assassino matou cinquenta pessoas, foram encontradas diversas pistolas e rifles de longa distância.
Mesmo com massacres cada vez mais violentos e frequentes, o Congresso americano tenta mudar as leis. A razão é que é covarde. E que a opinião pública não conecta explicitamente essa lei frouxa, homicida, com os cidadãos chacinados. Pelo contrário, muitas vezes há quem culpe as vítimas, dizendo que se elas estivessem com armas, teriam escapado ilesas...
A imprensa americana tem sua parte de culpa, porque não quer desagradar a fatia mais conservadora da audiência. E porque dá espaço para "os dois lados" da questão, como se eles tivessem igual razão, e iguais dados para defender seus argumentos.
Há grandes interesses em manter a opinião pública enganada. Da indústria de armas e de determinados grupos políticos. É gente que lucra com o sangue de inocentes. E dia sim, dia não, eles estão morrendo - nas ruas, escolas, igrejas, simplesmente quando curtiam um show.
Vamos falar do Brasil? É só dar uma passeadinha pelas nossas redes sociais, e ver o que tem de doido nesse país, para ficar claro que é uma péssima idéia facilitar que eles tenham acesso a armas de fogo.
O Brasil já é o campeão mundial de assassinatos, mais de 60 mil assassinatos anuais. O brasileiro tem medo de sua rua, sua cidade, seu país. Violência será pauta muito importante na próxima temporada, especialmente com as eleições se aproximando.
Garantir nossa segurança e de nossas famílias deveria ser nossa primeira prioridade. O caminho para isso requer que a gente dê vários passos. Um deles é o Brasil se espelhar nos países seguros, não nos países violentos.
Muitos países de renda média, como o Brasil, e também injustos e desiguais, são muito menos violentos que o Brasil (e, aliás, que os EUA). Uma razão é que é dificílimo comprar legalmente uma arma, e é severa a punição para posse e porte ilegal de arma.
Esse é o caminho para enfrentarmos a violência. O outro caminho, liberar cada vez mais pra todo mundo as armas de fogo, é fazer de conta que dá para apagar incêndio com gasolina.

http://r7.com/aIvH

Publicado em 28/09/2017 às 10:31

A Playboy morreu antes de Hugh Hefner. Mas a Playboy e Hef viverão para sempre

hef 1024x797 A Playboy morreu antes de Hugh Hefner. Mas a Playboy e Hef viverão para sempre
A Playboy era mulher pelada. Foi o grande diferencial da revista com relação às que vieram antes e depois. Antes era a Esquire, onde Hugh Hefner, fundador da Playboy, foi redator: a revista do que interessa para o homem, do bem-viver com inteligência e estilo. Com sex-appeal, mas “decente”. Depois veio a Hustler, 100% sexo explícito, e hoje vão morrendo as revistas em geral, e as revistas com mulher nua também.
A Playboy era muito mais que isso, claro. A fórmula da Playboy é como a da Coca-Cola, segredo. E não industrial: segredo artesanal. Muito humor e um tanto de seriedade. Muito bom-viver e alguma provocação. Cérebro e hormônios, política e costumes. Mulher para domar e para namorar. Seus melhores editores foram verdadeiros equilibristas. E seu melhor editor foi seu criador, Hugh Hefner.
Claro que a Playboy era principalmente inspiração para masturbação. Mostrava nua, disponível e provocante a vizinha lindinha das fantasias dos americanos. Mas não era exatamente “revista de sacanagem”. Era revista para fantasiar. As moças não pareciam prostitutas. Pareciam estar a fim, e não a fim de dinheiro.
Hoje vemos mocinhas lindinhas praticando o kama sutra e muito além, perversões de A a Z, de todos os modelos e nacionalidades. Está tudo na internet, de graça. A Playboy perdeu esse bonde. Poderia ser a dona do YouPorn, RedTube, e todos esses serviços de pornografia digital instantânea.
Mas não é, como nenhum dos grandes canais de televisão é dono do YouTube, e nenhuma empresa de mídia é dona do Google ou do Facebook, as empresas de mídia que mais faturam no planeta Terra.
É fácil identificar as bobeadas nas empresas dos outros. As Playboy Enterprises cometeram muitas.Tropeço imperdoável foi o reality show mostrando Hugh Hefner como um velho babão, morando com três “namoradas” falsas loiras e falsas em geral.
Se assumiu paródia de si mesmo, modelo obsoleto, pagando por companhia de garotas com idade pra serem suas netas, um Olacyr de Moraes gringo. Tudo que o homem do século 21 não quer ser quando envelhecer. Foi a imagem que ficou.
Importante lembrar que Hefner lançou a Playboy jovem, com 32 anos de idade, e dinheiro emprestado da mãe e dos amigos. E que foi editor de meter a mão na massa, e de mão cheia. Um dos maiores editores de revista da história, além de um dos maiores empreendedores que o mundo do jornalismo já viu.
A Playboy de fato era para ser lida pelos artigos. O time de colaboradores da revista foi a fina flor do jornalismo americano. Playboy divertia e influía, combinação perfeita e quase impossível. Hefner era símbolo de realização, não só da vida boa que os machos de sua geração e seguintes sonhavam ter.
E lutou o bom combate, pelos direitos civis, pela liberdade de expressão, pela revolução sexual, contra o militarismo, o racismo, a truculência. Vamos falar a verdade: Hef era o editor que todo editor sonhava em ser.
No Brasil, Playboy foi sonho de outro jovem, que convenceu o pai a recriar no Brasil as três revistas americanas que mais admirava: Time, Fortune e Playboy. Era Roberto Civita, que fez, e fez muito bem, suas versões das três. Eram Veja, Exame e a própria Playboy, licenciada da edição americana, mas com identidade muito própria.
A revista brasileira teve sua fase de ouro quando a americana já não tinha tanto apelo assim. Grandes entrevistas, grandes cartunistas, grandes fotógrafos, muito molho, tudo do melhor. Grandes editores, sem dúvida. E as mulheres mais maravilhosas e mais famosas do Brasil sonhavam em posar para a Playboy.
Comecei a "ler" a Playboy antes dela existir por aqui. Pingavam umas raramente por aqui nos anos 70, de pais de amigos, e meu inglês ainda não dava para o gasto. Minhas primeiras memórias são da cutchuquinha Barbi Benton. Lá pros 14 anos eu já era desse tamanho de hoje, e comprava de um jornaleiro amigo.
Comprei intermitentemente desde então. Escolhendo pela capa, como todo mundo. Fui convidado uma única vez pra colaborar. Escrevi sobre o Velvet Underground em 1991.
Tenho amigos que passaram pela redação da Playboy brasileira. Sinto inveja deles, e saudades da surpresa do mês, a revista despindo as personagens que todo mundo quer ver peladinhas. Fosse a atriz, a estrelinha de reality show, ou a protagonista do novo escândalo de Brasília. Vi uma foto de Magda Cotrofe esses dias, continua batendo um bolão. Aliás, a foto era ela com a filha. Aliás, vamos mudar de assunto.
Tivesse eu um muitão de dinheiro, quem sabe investiria em uma nova Playboy. Uma revista linda e leve, esperta sem ser metida, com carteira recheada para convencer as famosas mais desejadas do mundo a tirar a roupa.
Colocaria trinta fotos da estrela da edição na revista. E essas trinta e mais cem no site, junto com o making of do ensaio, em vídeo. E, claro, o arquivo completo dos trocentos anos da Playboy. Todos aqueles zilhões de textos e ilustrações e cartuns e piadas e mulheres incríveis.
Um dólar por mês. Você não assinava? Você e eu e mais uns vinte milhões de machos. E mais um monte de moças que gostam de moças. E senhoras que liam a Playboy pelos artigos... Não, péssima idéia. Nostalgia é sempre perda de tempo, e o tempo da Playboy é lá no século 20.
Hugh Hefner se foi da edição da Playboy há décadas, a verdadeira Playboy se foi tem um tempão. Agora Hugh se foi de fato, 91 anos. O futuro sabe-se lá. O passado não se apaga. Todos aqueles textos e reportagens, ilustrações e piadas e ensaios, tudo vive. E o que a Playboy fez por gerações de homens não tem preço. Deu prazer e fez pensar. O que mais você pode desejar? Obrigado, Hef.
835dd7b427baf01279249027e6ab70dd 1024x682 A Playboy morreu antes de Hugh Hefner. Mas a Playboy e Hef viverão para sempre

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Publicado em 27/09/2017 às 17:21

Se você é um trabalhador com deficiência, precisa conhecer essas empresas. Se não é, também precisa

Working with People with Down Syndrome Things You Should Know 1024x673 Se você é um trabalhador com deficiência, precisa conhecer essas empresas. Se não é, também precisa

Acaba de sair a edição 2017 da pesquisa Melhores Empresas Para Trabalhar. É um trabalho muito bem feito, da organização Great Place To Work. Mas para 12 milhões de brasileiros, a lista está completamente furada.
É o número de pessoas com deficiência no Brasil. São quase oito milhões com deficiência visual, 2,6 milhões com deficiência física, 1,6 milhão com deficiência intelectual. Esse levantamento foi feito pelo próprio IBGE e publicado em 2015. De lá para cá esse número deve ter aumentado, e vai continuar aumentando nos anos vindouros.
Porque a população do Brasil terá cada vez mais velhos e menos jovens, e conforme os anos passam, todos nós vamos ganhando essa ou aquela deficiência. E, como sabemos, todos vamos ter que trabalhar por muitos e muitos anos, porque uma aposentadoria digna está ficando cada vez mais longe.
O Brasil tem uma boa lei para inserir as pessoas com deficiência no mercado de trabalho. Ela obriga o preenchimento de 2% a 5% vagas do quadro de funcionários com reabilitados ou pessoas com deficiência.
O problema é a distância entre a lei e o cumprimento da lei, como tantas vezes acontece no Brasil. A maioria das empresas não está nem aí, nem pra essa lei, nem para adaptar suas instalações para pessoas com deficiência. A fiscalização é pouca e se a empresa for pega descumprindo a lei, a punição é levíssima.
E naturalmente a maioria dos deficientes brasileiros é pobre. Afinal a maioria dos brasileiros é pobre. Então têm menos dinheiro para estudar. E menos oportunidades em geral. Afinal, quantas escolas são adaptadas para o deficiente? Quantos professores treinados para educá-los? Quanto dinheiro o poder público investe nisso?
E depois, quantos ônibus são adaptados para transportar o cadeirante? Quantas ruas facilitam a travessia para o cego? A lista das dificuldades vai embora.
Por isso que vale comparar a lista das Melhores Empresas Para Trabalhar com outra lista. A Das Melhores Empresas Para Trabalhadores Com Deficiência. É um prêmio criado pelo governo do estado de São Paulo, e a última edição foi em 2016.
As listas são muito, muito diferentes. Se você é uma pessoa com deficiência, a lista das 150 melhores empresas para trabalhar em 2017 não serve pra grande coisa.
Tem uma empresa que se sai muito bem nas duas listas: a Caterpillar. Ela é a sétima melhor empresa para Trabalhar, e a primeira melhor empresa para o trabalhador com deficiência. Parabéns.
Sem desmerecer em nada o trabalho do Great Place To Work, que ilumina nosso mercado de trabalho, revela melhores práticas e premia bons exemplos, vale conhecer a lista das empresas em que os deficientes têm mais oportunidades. E se perguntar: porque as duas listas são tão diferentes?
Talvez o bom trabalho da Great Place to Work possa melhorar ainda mais, dando um peso maior para as empresas que fazem mais para contratar, treinar e promover pessoas com deficiência. Essas empresas merecem nossos aplausos e apoio.
Podem também merecer nossas críticas, em outros quesitos. Mas uma sociedade é tão mais avançada, quanto melhor ela trata seus integrantes mais frágeis. Vale para o poder público, vale para o setor privado.
O Brasil, tão rico, tão avançado em tantas áreas, segue muito atrasado em seus indicadores sociais, em sua desigualdade, na maneira como lidamos com os diferentes e os que precisam de uma mãozinha, um braço amigo da sociedade. Mudar o ambiente em que trabalhamos é um passo fundamental para as pessoas com deficiência terem o que todos precisamos e merecemos: uma chance. Essas empresas estão fazendo a parte delas. E a sua?

Aqui está a lista das Melhores Empresas Para Trabalhadores com Deficiência:

VENCEDORES 2016
1. CATERPILLAR
2. SENAC-SP
3. ACCENTURE DO BRASIL

15 FINALISTAS DE GRANDES EMPRESAS:
1. ACCENTURE
2. ARCOS DOURADOS (MC DONALDS)
3. BANCO CITIBANK
4. CATERPILLAR
5. CS BRASIL TRANSPORTE DE PASSAGEIROS E SERVIÇOS
6. EATON
7. HEWLETT-PACKARD BRASIL
8. HP BRASIL
9. IBM BRASI
10. JONES LANG LASALLE
11. JSL
12. MAPFRE
13. NOVARTIS
14. SÃO MARTINHO
15. SENAC

5 CASES GRANDES EMPRESAS:
1. SEBRAE-SP
2. BRADESCO
3. NATURA
4. MONSANTO
5. ERNST YOUNG

PEQUENA E MICRO EMPRESA
1. LEÃO TROCA DE ÓLEO EMPREENDEDORES COM DEFICIÊNCIA
1. EDISON JOSE FERREIRA – HOSPTRONICA
2. MIRELA CAMILO ADERUPOKO - ADERUPOKO E CAMILO COMERCIO E SERVIÇO
3. RICARDO NOBORU SHIMOSAKAI

http://r7.com/IFMT

Publicado em 26/09/2017 às 16:20

Você prefere ficar sem celular ou sem sexo?

AAEAAQAAAAAAAAjGAAAAJDc2NmIzNWY5LWIyOWQtNDIwMi04YzhkLTU2MGNmZDQ0M2I5Mw Você prefere ficar sem celular ou sem sexo?
Você não tem tempo pra nada? Não tem tempo para estudar uma língua, voltar para a academia, curtir mais seus filhos, visitar mais seus pais, aprender marcenaria, gastronomia, filosofia? Para passar fio dental depois de escovar os dentes, passear no parque, ter um amor?
A solução é simples. Desligue. Desligue a televisão, como vi recomendado outro dia aqui mesmo no R7. Desligue o computador, o que os amigos aqui da casa provavelmente não indicariam. E agora, desligue o celular. Ou pelo menos dois dos três, vá.
Ah, estás proibida de sair para comprar qualquer coisa. Bom proveito curtindo (?) a vida. Parece torturante, né?
Vamos reconhecer: nós não queremos mais tempo. O que queremos de verdade é o que fazemos de verdade, e principalmente fazer várias coisas ao mesmo tempo, e não nos concentrar em nenhuma. Estamos todos desesperados o tempo todo por... distração.
Não sou dos mais dependentes de telinhas e telonas. Vejo pouquíssima TV, e quase só uso celular para me comunicar com as pessoas, e os aplicativos básicos - 20 minutos por dia se tanto. Passo de vez em quando uns dias sem o celular, só checando se tem alguma emergência (quem tem família não escapa de fazer isso), e com zero ansiedade.
Sou alienígena, sei. No mundo todo, celular é a nova chupeta, o novo cigarro, o novo vício que ninguém consegue largar. Um estudo nos Estados Unidos sobre uso de celular concluiu o seguinte:
- 55% dos americanos preferem ficar sem café, 63% preferem ficar sem chocolate e 70% preferem ficar álcool, do que ficar sem celular;
- um em cada cinco prefere passar uma semana sem sapato que sem celular;
- 22% prefere ficar uma semana longe do amado/amada, que uma semana sem celular;
- e finalmente: um terço dos pesquisados prefere ficar uma semana sem sexo, que uma semana sem celular.
Bando de malucos? É. Mas não vou ser eu a fazer gozação com os gringos. Reconheço: não vivo de segunda a sexta sem computador. Se eu realmente quisesse dominar a esgrima, o kama sutra e a culinária vietnamita, achava hora.
Na real, fora todo o tempo que passo trabalhando, ainda reservo uns bons minutinhos diários surfando velhos videoclipes no YouTube, checando o que os amigos estão fofocando no Facebook e conferindo o que está dando assunto no Twitter.
Tudo com a desculpa do trabalho. De estar pesquisando para este blog, tudo por ti, honrado leitor, amada leitora. De estar estudando o mercado para novas e incríveis iniciativas. E outras mentiras.
Ah, e uso bastante o tablet, para ler livros e principalmente quadrinhos...
Só depois das dez da noite e no fim-de-semana é que desconecto geral ou quase. Minha pequena conquista pessoal.
A vida no século 21 é, e será cada vez mais, a vida que vivemos através de telinhas, fazendo tudo ao mesmo tempo. É animado e faz a vida passar bem rápido.
Mas entretenimento não é cultura e distração não é paixão. Os maiores prazeres da vida ainda estão no mundo offline. E estes exigem que nos permitamos o tempo necessário para fruí-los - como o café, o chocolate, o vinho, o amor - e, sim, o sexo.

http://r7.com/5thf

Publicado em 25/09/2017 às 16:17

Toda Arte é nua

168411 1024x722 Toda Arte é nua
Francisco Goya e Toulouse-Lautrec são dois dos maiores artistas de todos os tempos. Fazem parte do canône da Grande Arte. Têm o aplauso incondicional da crítica, e contam no que mais conta nesse nosso mundo: suas obras valem milhões, suas exposições atraem multidões. Ninguém com senso de ridículo pode se dar o direito de decretar desimportância dos dois.
São Paulo recebe uma pequena e preciosa exposição de Goya, e a primeira, e primorosa, exposição de Toulouse-Lautrec no Brasil. Se conversam nos traços impiedosos com que um e outro capturam a humanidade, às vezes no limite do cartum.
A de Goya reúne as últimas gravuras que ele produziu na vida, os "Disparates". São alegorias sobre a sua Espanha, sobre a nossa natureza. Tocam no medo, na loucura, na maternidade e na guerra. Foram produzidas entre 1815 e 1823 e só vieram a público quatro décadas após sua morte, em 1864.
Porque eram provocativas demais para uma temporada de trevas. Porque sem conter ataques diretos aos poderes de seu tempo, a monarquia e o clero, as fantasias negras de Goya nos tocam o subconsciente. Quase como faria um século depois o surrealismo.
Polêmicas na época, as gravuras de Goya seguem perturbadoras, mas não escandalizariam o olhar mais pudico. Já Toulouse-Lautrec tem como temas principais bordéis e cabarés, e como protagonistas prostitutas e seus clientes, bailarinas de can-can e bêbados nos bares. A exposição no Masp tem imagens de nu frontal e um quadro que retrata sexo oral entre duas mulheres.
Muitos pais se sentiriam constrangidos de visitar a exposição de Toulouse-Lautrec em companhia de seus filhos, crianças e mesmo adolescentes. Outros, não. Perfeitamente natural que os pais decidam o que é apropriado para seus filhos verem. Até que os filhos cresçam o suficiente, ou tomem em suas próprias mãos a independência de tomar esse tipo de decisão. Artificial é transferir esse poder ao político, ao juiz, ao governo. Qualquer governo.
Goya e Toulouse-Lautrec arregaçam nossa humanidade. Expõem nossas vísceras e vaidades. A insanidade que se esconde nas folias cotidianas dos espanhóis desgraçados pela guerra, a rendição pragmática das prostitutas na Paris da Belle-Époque. Temas difíceis, cantos obscuros da psique. Horror e amor iluminados pelo talento fulgurante, inescapável, de dois talentos a serviço de seu tempo.
Muitos hoje ainda sonham em aprisionar a liberdade criativa de Goya e Toulouse-Lautrec em censura prévia, faixas etárias, classificações indicativas. Estão do lado perdedor da História. As obras de Goya e Toulouse-Lautrec que mais forte nos falam, já no século 21, são justamente as que os poderosos de suas épocas se negavam a aceitar, loucas, violentas, difíceis. Aos olhos de algumas pessoas de então e de hoje, pornográficas.
Existem muitas imagens que gostaríamos de poupar aos nossos filhos. Uma delas vimos no caminho para a mostra de Goya, bem em frente à Caixa Cultural. Eram centenas de moradores de rua na praça da Sé, esmolando água e comida, envoltos em um miasma de urina e álcool e lixo.
Eu gostaria que meu filho jamais tivesse que ver nada parecido. Mas entendo que é minha obrigação como pai expôr o adolescente à realidade da sua cidade, seu mundo e sua natureza. E expôr ele à Arte, ao que a mãe dele e eu entendemos que é Arte, decisão que não aceitamos transferir para ninguém.
Até porque certas realidades, de ontem e de hoje, só mesmo artistas como Goya e Toulouse-Lautrec são capazes de retratar, interpretar, eviscerar, desnudar. Todo artista que importa incomoda; toda obra eterna é explícita; toda Arte é nua.

http://r7.com/LE2r

Publicado em 22/09/2017 às 12:50

Minha primavera negra e colorida

earth wind fire playlist JACK FM vancouver 1 1024x575 Minha primavera negra e colorida
Em Piracicaba não existem estações. É quente o ano inteiro. Minha infância foi assim, sem blusa. De junho a agosto cai um pouquinho a temperatura, só pra dizer. Não era problema.
Eu gostava de junho, porque tem São João e as férias estavam ali na bica. De julho, claro, porque eram férias, e as férias de julho duravam anos quando eu tinha doze anos. E de agosto, porque é meu aniversário.
Mas eu também gostava especialmente de setembro, porque o frio ia embora de vez, as flores se abriam, as férias ficavam definitivamente para trás, e o cheiro da queimada de cana deixava nossas narinas.
Quando eu era criança, música internacional era música negra. Não tocava rock na televisão ou no rádio, raríssimas exceções. As trilhas de novela eram funk, disco, baladas, um ou outro Elton John.
Meu primeiro LP foi trilha de rádio, Excelsior, a Máquina do Som. Porque eu comecei a gostar de Beatles? Não sei.
Quando eu comecei a deixar de ser criança e fui nas primeiras festinhas e na discoteca do clube Coronel Barbosa, era som de negro. Passinhos ensaiados, os mais velhos tomando menta com gelo e dando uns beijinhos, a gente só espiando no canto, camiseta Lightning Bolt, calça Lee, o globo espelhado rodando.
De todas as músicas boas daquele ano, eu tinha uma preferida. Que representava perfeitamente tudo isso - a chegada da nova vida, da Primavera. Eu vi eles cantando na TV, que coisa alucinada, e feliz, feliz.
Eu tinha feito Yázigi e peguei o refrão, "do you remember dancing in September? Never was a cloudy day." Isso mesmo, pensei, here comes the sun. Eu não sabia que a Primavera no hemisfério norte começa em março.
Hoje o mundo está ensolarado, céu muito azul aqui na janela da cozinha, e, juro, um passarinho cantou bonito quando eu estava exatamente no meio de escrever esta frase.
Acordei cantando aquela música, tão negra, tão colorida. Porque é primavera. Porque é Setembro.

http://r7.com/DnVO

Publicado em 21/09/2017 às 15:52

O música mais louca, mais crítica, mais assustadora do The Who

o THE WHO 1971 facebook 1024x672 O música mais louca, mais crítica, mais assustadora do The Who

Roger Daltrey e Pete Townshend, 1971

"Won´t Get Fooled Again" talvez não seja a melhor música do The Who. Mas tem a história mais louca. Tem a melhor letra da banda. E o grito mais apavorante do rock. OK, é a melhor música do The Who. Porque outra razão seria a música que quase sempre fecha os shows deles?
Era 1970, todo mundo tomando altas drogas, toda a juventude metida com espiritualidade e política, e Pete Townshend teve uma iluminação. Andava lendo muito sobre sufismo, o ramo do islamismo que advoga a conexão direta com o divino através da música e da dança. Seu livro favorito era O Misticismo do Som e da Música, do líder sufista Inayat Khan, que pregava que para a humanidade encontrar a harmonia espiritual, deveria procurar um acorde universal.
Por sorte felizmente tinha sido inventado recentemente um instrumento perfeito para isso: o sintetizador. Townshend saiu entrevistando pessoas que, para ele, tinham algo a dizer. Gravou as batidas de seus corações e seus eletroencefalogramas. Converteu tudo em sinais de áudio. Brincou bastante com o material, filtrando através de diversos sintetizadores, modificando timbres e sonoridades. Isso tudo foi parar na gravação de "Won´t Get Fooled Again". Foi uma das primeiras vezes que um sintetizador foi integrado no rock.
A letra prefigura o punk rock. É acre em sua descrença de soluções políticas fáceis e definitivas, nas certezas de sua dúvida. "Pego a minha guitarra e toco, como fiz ontem, me ajoelho e peço - que a gente não seja enganado de novo." Mas seremos, seremos, Pete lamenta. "Conheça o novo chefe, igual ao velho chefe..." Não traduzo, o original está abaixo, e não há letra mais crítica na história do rock.
A música, sintetizador "espiritualizado" à parte, tem aquele indefinível quê de soul music que as melhores músicas do The Who tem. Quando eles começaram, ouviam muita música negra. Talvez seja por isso que quando ouço alguns de seus maiores hinos, sempre imagino Tina Turner cantando...
Mas nem Tina seria capaz de dar um berro de gelar a alma, de derreter o coração, como Roger Daltrey dá no final de "Won´t Get Fooled Again." É um grito primal de frustração com nossa pobre natureza humana? De revolta impossível de conter? De guerra?
Vou me perguntar de novo hoje, quando ouvirei pela milionésima vez, pela primeira vez ao vivo. É melhor envelhecer do que morrer jovem...

We'll be fighting in the streets
With our children at our feet
And the morals that they worship will be gone
And the men who spurred us on
Sit in judgment of all wrong
They decide and the shotgun sings the song

I'll tip my hat to the new constitution
Take a bow for the new revolution
Smile and grin at the change all around
Pick up my guitar and play
Just like yesterday
Then I'll get on my knees and pray
We don't get fooled again

The change, it had to come
We knew it all along
We were liberated from the fold, that's all
And the world looks just the same
And history ain't changed
'Cause the banners, they are flown in the next war

I'll tip my hat to the new constitution
Take a bow for the new revolution
Smile and grin at the change all around
Pick up my guitar and play
Just like yesterday
Then I'll get on my knees and pray
We don't get fooled again .

No, no! I'll move myself and my family aside
If we happen to be left half alive
I'll get all my papers and smile at the sky
Though I know that the hypnotized never lie
Do ya?
There's nothing in the streets
Looks any different to me
And the slogans are replaced, by-the-bye
And the parting on the left
Are now parting on the right
And the beards have all grown longer overnight

I'll tip my hat to the new constitution
Take a bow for the new revolution
Smile and grin at the change all around
Pick up my guitar and play
Just like yesterday
Then I'll get on my knees
And pray We don't get fooled again
Don't get fooled again no, no!

Meet the new boss
Same as the old boss

http://r7.com/XYOm

Publicado em 19/09/2017 às 18:10

Bon Jovi: um mestre na arte de cuidar da própria vida

jon bon jovi Bon Jovi: um mestre na arte de cuidar da própria vida

John Francis Bongiovi Jr. está de volta ao Brasil, e para um pai de quatro filhos com 55 anos, looking fucking good. Eu também estaria rebolando feliz se tivesse vendido 130 milhões de álbuns. Talvez sem a mesma ginga e sex-appeal, claro, mas me esforçando paca.
Se você é fã, já comprou seu ingresso para os shows faz tempo. E os (e principalmente as) fãs do Bon Jovi sempre dão um jeito de arrumar dinheiro para ver Jon ao vivo, de novo, de novo. Se você não é fã, mesmo assim tem que aceitar que ninguém faz hinos genéricos, tronitruantes, assobiáveis, all-american melhor que o Bon Jovi.
Umas eles acertam na mosca - Wanted Dead or Alive, Living on a Prayer, It's My Life. Outras nem tanto. As melhores estão lá atrás. É assim na carreira de todo mundo. A última razoável foi "We Weren´t Born to Follow", lá no distante 2009.
O vídeo tinha um monte de heróis americanos, ou pelo menos heróis para um garoto italiano, durango e Democrata de Nova Jersey - Martin Luther King, Al Gore, Bobby Kennedy, astronautas. E Obama, que Jon apoiou. Na última eleição, Hillary.
No universo do Bon Jovi, ser um cara comum é ser a melhor coisa do mundo, o sal da terra, o herói, o protagonista. A banda vende melhor que ninguém o sonho americano: a vida é difícil, mas na terra da liberdade, qualquer um pode conseguir realizar muita coisa. Basta trabalhar duro, ser justo e leal com seus amigos.
O que é verdade, naturalmente; e a prova indiscutível é o próprio Jon saracoteando sorridente no palco na sua frente, não está vendo?
É um ideário que seria country e republicano se não fosse suburbano e liberal. A operação conceitual é interessantíssima. O Bon Jovi existe em um ponto imaginário equidistante de Los Angeles, Memphis e New Jersey. Entre, sei lá, Poison, Elvis e Bruce Springsteen. Nunca fui exatamente fã de Bon Jovi, mas sempre simpatizei e cada vez mais. Piracicabano que vira paulistano tem dessas coisas.
Quando entrei na Folha, 88, era cabeludo e tinha gente que achava que eu era headbanger. Vai ver não diferenciavam minhas camisetas do Joy Division e Dead Kennedys de camisetas do Iron Maiden. Minha primeira capa da Ilustrada foi sobre, adivinha, a então mais recente dentição metaleira, o hard rock de laquê e batom de gente como Motley Crue, Guns N'Roses e... Bon Jovi.
Todos esses caras viraram covers deles mesmos. Jon virou outra coisa. Elvis é a referência mais na cara. Claro que a vida do comportado Jon não tem nada a ver com o doidão Elvis. Aliás, Jon já viveu hoje doze mais que Elvis. Mas ninguém há de negar que mesmo sendo um garoto de cidade, Jon engana bem de cowboy do asfalto.
Bon Jovi, como Presley, domina a arte de ser famosíssimo e manter aquele equilíbrio entre ser inatingível e acessível. Queridíssimo entre as mulheres e “one of the guys” para os homens.
O som? É hard rock superproduzido; é caipira de coração; é o hino que embala sonhos, desilusões e festerê do povão. É, mais ou menos, Victor & Leo. Ouço ecos de Bon Jovi constantemente nesses hinos sertanejos de estádio.
Parte importante da lenda que suportava o Bon Jovi é a da gangue de amigos inseparáveis e superleais, Jon à frente, Richie Sambora como seu fiel escudeiro. Richie está fora da banda há anos, mas só os fãs muito radicais ainda se importam.
O Bon Jovi segue fazendo shows emocionantes e lotando estádios nos cinco continentes. Maratonas só comparáveis às dos Stones e U2, mas mais íntimas e espontâneas. Como, digamos... Bruce Springsteen, de novo.
Jon é tão perfeito que parece de mentira. É mentira mesmo, como todo popstar, mas deve ter seu fundo de verdade, porque nunca pegaram ele de calça curta. Minha teoria: disciplina e tino comercial.
Jon é filho de dois ex-Marines, fuzileiros navais americanos. Ele, John, ela Carol, ex-coelhinha da Playboy. Das que serviam mesas no Club Playboy no final dos anos 50, não das que saíram peladas na revista.
Infância linha dura, pouca grana mas sem miséria. Jon era bonitinho, moleque. Se fez bonitão: plásticas, musculação, jaquetas nos dentes, tratamentos diversos - é só olhar a pele dele com 23 anos e hoje. Sua beleza veio exatamente de onde vêm os visuais de estrelas de cinema, e não é da barriga da mamãe, ainda que DNA ajude bem.
Para completar, Jon tem um legendário “casamento perfeito” e discreto, com sua namorada de colegial, Dorothea. Bonitona ela, mas sem visual de superstar.
Jon cresceu querendo ser um rockstar, e foi rápido. Depois queria ser um menestrel respeitável, como Bruce Springsteen, e não foi. Agora parece que está mais confortável. É facílimo prever os próximos anos do Bon Jovi. Mais discos iguais aos de sempre, mais turnês lotadas, mais sucesso, mais dinheiro e nenhum escândalo à vista.
Não está nada na moda gostar de Springsteen e Bon Jovi. Bem, tenho quase a idade de Jon, e não estou dando a mínima para o que está na moda. O tempo passa, para o bem e o mal. Também me sinto cada vez mais confortável. Ganhamos de presente a vida, para cada um cuidar da sua. Cada vez fica mais claro que, como canta Jon Bon Jovi (e Bruce!), it´s my life...

http://r7.com/rMUZ

Publicado em 19/09/2017 às 17:14

Quem tem cachorro deve pagar IPTU em dobro

Barking Puppy 1024x576 Quem tem cachorro deve pagar IPTU em dobro
Tenho uma certa tentação de enquadrar meus novos vizinhos no Artigo 42 da Lei das Contravenções Penais. A lei federal trata de som alto. Diz que é crime "perturbar alguém, o trabalho ou o sossego alheios com: gritaria ou algazarra; exercendo profissão incômoda ou ruidosa, em desacordo com as prescrições legais; abusando de instrumentos sonoros ou sinais acústicos; provocando ou não procurando impedir barulho produzido por animal de que tem a guarda".
Meus novos vizinhos certamente são muito gente fina. Mas como muita gente fina por aí, eles têm cachorros muito barulhentos. Os desgraçados dos bichos latem ardido. E latem qualquer hora. Me acordam noite sim, noite não. Vai ver eles estão estranhando a casa nova. Não é problema meu.
A verdade que não quer calar é que cidade não é lugar pra cachorro. Nesse milhares de anos de convivência, o ser humano viveu quase sempre no campo, e os cachorros também.
Nos últimos cem anos, e mais ainda nas últimas décadas, nós humanos mudamos em massa para cidades. Socamos os cachorros em casas e até apartamentos. Desconfio que a maioria dos cachorros não gostam, tirando mini-espécies tipo poodle. Cachorro é um bicho que gosta de se espalhar. Morar trancado é uma cadeia para eles, afinal.
Evidentemente os donos não têm como controlar os latidos de seus cachorros de madrugada. Só se derem uns soníferos pra bicharada. Justamente por isso é que cidade não devia ter cachorro. Gato tudo bem, gato é silencioso. No máximo dá uns gritinhos quando está transando.
Veja, nem todo cachorro é barulhento. A casa desses meus vizinhos fica a uns 50 metros da minha. A casa ao lado da minha tem um cachorrão velho, o Paco. Também dá umas latidas, mas poucas, e grossas. Incomoda, mas pouco. É aturável.
A questão é que a maioria dos cachorros das nossas cidades são super barulhentos. Porque nesse país há uma justificável paranóia de segurança, e se criou essa teoria furada que cachorro é importante para proteger a casa de ladrão. Quem inventou isso?
A indústria de alimento pra cachorros? Deve ser, porque os ladrões no Brasil usam faz bastante tempo um negócio chamado revólver. Sei que você, dono de cachorro, tem certeza que seu cãozinho é super especial, mas à prova de bala não deve ser.
Como essa lei federal é meio drástica para usar contra vizinhos, fui dar uma pesquisada na Lei do Silêncio paulistana, que só prevê multa. Mas infelizmente o Programa do Silêncio Urbano (PSIU) não permite vistoria em casa, apartamento e condomínio. Só lugares públicos, bar, boate, salão de festa, templo, empresa. A Lei do Silêncio é inútil pra cachorro.
Como as cidades já estão cheias de cachorros, e brasileiro adora cachorro, minha proposta modesta para minimizar o estrago sonoro feito por eles é que as casas que têm cachorro barulhento paguem IPTU em dobro. Vamos contratar uns fiscais pra medir quantos decibéis a cada cachorro emite a cada latido. Vai gerar empregos!
E o dinheiro arrecadado vai pra financiar vidraças à prova de som nas casas dos vizinhos. Quer ter cachorro barulhento, pague por isso.

http://r7.com/41_H

Publicado em 15/09/2017 às 14:58

O adeus da Cassini e a mensagem que nos chega do Cosmos

terra cassini 01 O adeus da Cassini e a mensagem que nos chega do Cosmos
A Cassini, sonda espacial que investigou Saturno, fez hoje seu último mergulho em direção ao planeta. "Cassini é agora parte do planeta que estudou", tuitou a Nasa quando recebeu o último sinal emitido pela sonda. "Obrigado pela Ciência."
Depois de vinte anos e um investimento de US$ 3 bilhões, a missão juntou uma enormidade de dados importantes sobre o sexto planeta do Sistema Solar.
Mas também cumpriu uma outra missão. Talvez ainda mais valiosa. Foi tirar essa foto que você vê acima.
Está vendo aquele pontinho branco, embaixo, à direita?
Somos nós. É a Terra, vista de Saturno.
Dá um arrepio.
Quando vi a foto, lembrei instantaneamente de um trecho do livro "Pálido Ponto Azul", do astrônomo Carl Sagan.

"É nosso lar. Somos nós. Neste pontinho estão todos que você ama, todos que você conhece, todos de quem você já ouviu falar, todo ser humano que já existiu.
A totalidade de nossas alegrias e sofrimentos, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas, cada caçador e saqueador, cada herói e covarde, cada criador e destruidor da civilização, cada rei e plebeu, cada casal apaixonado, cada mãe e pai, cada crianças esperançosas, inventores e exploradores, cada educador, cada político corrupto, cada superstar, cada líder suprem”, cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu ali, em um grão de poeira suspenso em um raio de sol.
A Terra é um palco muito pequeno em uma imensa arena cósmica. Pense nas infindáveis crueldades infringidas pelos habitantes de um canto desse pixel, nos quase imperceptíveis habitantes de um outro canto, o quão frequentemente seus mal-entendidos, o quanto sua ânsia por se matarem, e o quão fervorosamente eles se odeiam.
Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores, para que, em sua gloria e triunfo, eles pudessem se tornar os mestres momentâneos de uma fração de um ponto.
Nossas atitudes, nossa imaginária auto-importancia, a ilusão de que temos uma posição privilegiada no Universo, é desafiada por esse pálido ponto de luz.
Nosso planeta é um espécime solitário na grande e envolvente escuridão cósmica. Na nossa obscuridade, em toda essa vastidão, não ha nenhum indicio que ajuda possa vir de outro lugar para nos salvar de nos mesmos.
A Terra é o único mundo conhecido até agora que sustenta vida. Não ha lugar nenhum, pelo menos no futuro próximo, no qual nossa espécie possa migrar...
Talvez não haja melhor demonstração das tolices e vaidades humanas que essa imagem, tão distante do nosso pequeno mundo. Ela enfatiza nossa responsabilidade de tratarmos melhor uns aos outros, e de preservar e estimar o único lar que nós conhecemos… o pálido ponto azul."

Carl Sagan não viu os imensos benefícios e imensos desafios da nova comunidade global. Não viu a revolução digital. Morreu antes da ciência compreender a mudança climática causada pelo capitalismo fóssil, que precisamos e vamos derrotar. Mas sabia a coisa mais importante que uma pessoa pode saber.
Você pode olhar a foto acima, e pensar que somos insignificantes, quase nada. Carl Sagan nos via de maneira muito diferente. Somos um pedacinho minúsculo do universo, dizia, mas somos o pedacinho do universo que sabe que o universo existe. Que tenta compreendê-lo. E até mudá-lo - para melhor.
A Terra é só um pontinho flutuando no espaço. Mas pode ser um pontinho brilhante. Depende de nós. Essa é a mensagem da Cassini, de Sagan, minha - do Cosmos.
.

http://r7.com/jfOp

Publicado em 14/09/2017 às 16:47

Lady Gaga não faz falta nenhuma no Rock in Rio

lady gaga 1024x576 Lady Gaga não faz falta nenhuma no Rock in Rio

Lady Gaga já era. Foi o maior sucesso de 2009, quase uma década atrás. Em música pop é um século. Só fãs fundamentalistas sentirão sua falta no Rock in Rio. Quem ainda se importa com Lady Gaga?
Stefani Joanne Germanotta decolou assinando um contrato 360 graus com sua gravadora, a Interscope. Isso significa que a gravadora recebe dinheiro em cada coisinha que ela faz, não só as canções.
A Interscope recebe uma parte da receita dos shows, dos patrocínios (da indústria de cosméticos e todos os outros patrocinadores da moça). Mais que isso: a Interscope vai atrás de desenvolver negócios para a marca “Lady Gaga”.
Com um contrato como esse na mão, naturalmente a gravadora investiu muito em Lady Gaga. Verba de marketing mesmo, à moda antiga. Grandes orçamentos para roupas, para shows rocambolescos, para videoclipes gongóricos.
Os investimentos começam na música, claro. Já os primeiros hits de Gaga, Just Dance e Poker Face, foram coescritos e coproduzidos pela cantora com o sueco-marroquino RedOne. Mais um desses gênios escandinavos do pop pegajoso, com Shakira e cia. no currículo. Até hoje é um dos produtores de seus discos.
Gaga estreou menos genérica que a concorrência. A estratégia da Interscope foi aguar o Electro-Pop, a trilha sonora dos primeiros anos do milênio. Gaga era eletrônica-roqueira, andrógina-irônica como Scissor Sisters, Fischerspooner e Princess Superstar.
Parecia ambiciosa e se vendia como a primeira estrela de uma nova era. Talvez fosse, no máximo, a última superstar concebida no velho mundo das gravadoras gigantescas e da mídia de massa.
O ponto é que muita gente podia ser Lady Gaga. Com um contrato 360 e um investimento deste tamanho, qualquer moça com uma boa voz, um corpinho OK e cara de pau podia ser Lady Gaga.
Ela cita Rilke e Bowie? Dá boas entrevistas? Se refere a si mesma na terceira pessoa? Adula os gays? Anda com papas fashion? Arrota conexões underground? Quem viu a transformação de outra carcamaninha ambiciosa em superestrela, 25 anos atrás, pode prever cada passo de Gaga.
Até sua tentativa de reinvenção como cantora "de verdade", em duetos com Tony Bennett, e pessoa "de verdade", com o àlbum "Joanne". E até o previsível fracasso comercial e crítico dessa tentativa.
Gaga, como Madonna, quer fama e fortuna, mas também prestígio. Quer ser respeitada pelo seu conteúdo. Síndrome de Marilyn Monroe, ô, dó. Como Madonna, está fadada a ser cover de sua versão jovem para sempre, até o lar dos velhinhos.
Uns anos atrás, Lady Gaga lançou um disco chamado ArtPop. Mas Arte é trabalho para quem tem algo de importante a dizer, e diz de maneira que nos toca e desafia. Arte é pessoal, imprecisa, imperfeita, e não sai de linha de montagem, nem do esforço desesperado por aplausos.
Lady Gaga, pobrezinha, nunca foi arte e nunca será. E agora também não é pop, porque cada vez menos popular. É só mais um dinossauro se arrastando pelos estádios do mundo. Sua ausência no Rock in Rio preenche uma lacuna.

http://r7.com/Chsb

Publicado em 13/09/2017 às 15:01

É melhor viver do que morrer jovem: memórias do Rock in Rio, 1985

freddie mercury rock in rio 1985 É melhor viver do que morrer jovem: memórias do Rock in Rio, 1985

Eu tinha 19 anos e estava sozinho no ônibus Copacabana-Cidade do Rock, com o coração na boca. Meu primeiro dia no Rio de Janeiro. Meu primeiro dia de Rock In Rio.
Já morava sozinho em São Paulo há dois anos, mas tive que pedir aprovação para os meus pais mesmo assim. Eu não tinha grana para ir, só estudava. Não encrencaram, ajudaram. Descolaram até um lugar para eu ficar hospedado.
Moleza total. Noite no barrão do festival, dia num mega-apê lotado de obras de arte e livros louquíssimos do Umberto, meu primo cardiologista society, marchand, descoladésimo, que mal vi enquanto estava lá. Se foi antes da hora, como outros que me ajudaram.
Umberto trabalhava e badalava como um louco, jantava fora todo dia. A geladeira dele só tinha guaraná e iogurte de morango. Vivi de sanduba na rua meus dias de Rock In Rio. E salada de frango do Bob's e Malt 90 de noite.
O engraçado é que eu não armei a viagem com ninguém, mesmo sabendo de alguns conhecidos que iam. Não lembro por que foi assim. Encontrei lá, que eu me lembre, dois colegas de colegial, Paulo Cabral - colega jornalista - e Viviane Zveiter, minha amiga de infância. Foi a última vez que vi Viviane - quer dizer, até 2008, aniversário de 25 anos de formatura do colegial. Ela estava igualzinha. Eu, 25 quilos mais pesado. Hope I die before I get old, indeed...
A ironia é que em 85 meu negócio era punk e new wave fazia séculos, e eu estava me sentindo um pouco traído com New Wave ter virado gel com glitter para cabelo. Que ondinha é essa de B-52's, Legal Tender? Eu era fã dos caras desde 1980!
Fiquei mais chateado ainda porque os artistas que eu mais gostava, o próprio B-52's, Go-Go's, Nina Hagen e tal, fizeram umas porcarias de show. Os brasileirinhos, coitados, mal a gente escutava, Paralamas, Kid Abelha, Blitz. O Rock In Rio foi dos dinossauros: Queen, AC/DC, Whitesnake, Yes, Iron Maiden.
Eles é que sabiam tocar em descampados com uma acústica de pesadelo. Fui lá pra implicar com a velharada. Não era e nunca fui metaleiro. Mas tive que me render. Me converti ao AC/DC, que achava coisa pra jacu, lá mesmo. Até hoje cravo sem dúvida nenhuma: o melhor show do festival foi o Queen. Só estando lá para ver. Outro que aquela maldita praga levou, Freddie Mercury.
O Rock In Rio, de uma maneira esquisita, foi o Woodstock do Brasil: rock, amor e lama, um divisor de águas geracional. Não tínhamos voto direto para presidente, mas pelo menos a gente estava livre dos generais. Chega de mau humor. Chega de tromba. Chega de patrulha ideológica. Chega de Fagner, Gonzaguinha, Simone, chororô. Let's rock!
Não arrumei uma namorada lá, mas tentei bastante. Me atolei no gramado e nos lagos de esgoto que se formavam nos banheiros. Meus tênis viraram blocos de barro. Voltei do Rio de havaianas (com meia! estava frio!), cheguei uma da matina. Dormi na rodoviária de SP, para pegar o primeiro ônibus para Piracicaba sete da manhã. Eu tinha me transformado em outro cara.
Foi bom, tudo foi lindo, foi uma aventura. Sem risco, mas para minha parca experiência da época, uma aventura mesmo assim. Perto das maluquices que conhecidos fizeram, tive um festival de playboy total. O mano Paulo César Martin, o Paulão, do Garagem, fritou o braço com o óleo da batata frita e foi enfaixado ver o Ozzy!
O Rock In Rio teve consequências diretas na minha vida. Porque durante o festival, foi realizada uma pesquisa com o público sobre a viabilidade de uma revista sobre rock no Brasil. Em termos de leitores, de anunciantes e tal.
Foi com base nesses resultados que ela foi lançada no Brasil alguns meses depois: Bizz. Ideia de executivos e jornalistas roqueiros, que xavecaram os chefões na Abril. Hei, Carlos Arruda, aquele abraço!
Seis anos depois, eu era editor da Bizz, cabeludo, e passei o Rock In Rio 2 inteiro instalado numa suíte do Copacabana Palace. Dormia de dia, dividia a piscina com o George Michael à tarde, enfiava o pé na jaca noite adentro, nos shows, nas salas Vip das gravadoras e num after que não acabava nunca. Meus dias de rockstar. Dava autógrafo na rua, juro.
Em 2001, voltei for fun, com grandes amigos, para um final de semana regado a REM e Guns N'Roses. Fiquei feliz de ter ido. E nunca mais voltei.
Agora tem outro Rock In Rio. E parece menos legal do que o meu primeiro, porque não tem bandas com cheiro de novidade. Isso ficou para outros festivais, grandes como o Lollapalloza, do tamanho certo como o Popload. Mas também parece mais legal, porque tem eventos paralelos sensacionais, como o GameXP, uma espécie de filial da Comic Con Experience no meio do Rock in Rio, recheada de jogatina, gibi e companhia.
Duvido que voltarei um dia ao Rock in Rio. Festival requer energia jovem. Só se for com meu moleque, que começa a gostar de rock, e rock velho. O ingresso para o Deep Purple, aliás, já está comprado.
Anotem aí, jovenzinhos: hope you get old before you die. Te vejo no show do The Who em São Paulo...

the who founding members roger daltrey and pete townshend 825x524 É melhor viver do que morrer jovem: memórias do Rock in Rio, 1985

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Publicado em 12/09/2017 às 09:01

O novo iPhone e a eterna lição de Steve Jobs

apple iphone8 launch 21 O novo iPhone e a eterna lição de Steve Jobs

Em uma matéria de capa da revista Fortune em 1998, Steve Jobs abriu o jogo sobre seus planos para a Apple: "a referência é a Sony". Ele queria fazer de sua marca de computadores uma referência de qualidade e inovação inquestionáveis, como a empresa japonesa conquistou nos eletrônicos de consumo - TV, som, Walkman.
Já tive milhares de revistas em casa. Joguei fora 95% quando parei de editar revistas. Essa é uma das poucas que guardei. Tem um significado especial para mim. Aprendi muito com Steve, como muitos de nós. No meu caso, a ficha demorou um pouco para cair.
Steve conseguiu ser "a Sony dos computadores" e mais. Anos após sua morte, a Apple segue a empresa mais valiosa do mundo. Cada novo lançamento é cercado de suspense. Agora é o caso dos novos iPhones 8 e X (agora sem cabinho para carregar, sem botãozinho de home, com tela Oled etc.). E das versões melhoradas do Apple Watch, AppleTV e tal.
Tudo bacana e compraremos, os sortudos entre nós que puderem pagar por isso. Mas a Apple não "inova" faz tempo, no sentido habitual que o setor de tecnologia dá à palavra inovar. Tem os mesmos produtos de sempre: computador de mesa e laptop em duas versões, para a casa e o escritório; ipad idem; o iPhone novo e o modelo anterior. É pouco, quase nada. É tudo que importa. O sistema operacional, softwares e serviços são para vender os aparelhos, que é de onde vem a grana.
A empresa continua tirando a maior parte de sua receita e lucros do iPhone, que já tem dez anos, e não mudou conceitualmente desde seu lançamento. É mais potente, tela mais bonita, câmera melhor. É a diferença entre um carro do século 20 e o modelo do ano: pouca.
O destino da Apple em 2017 estava claro naquela longíqua entrevista de Jobs. Que foi um jovem encantado com a cultura oriental, com o zen-budismo e com o Japão. A Sony é a mais americana das empresas japonesas. E a Apple é a mais japonesa das empresas americanas.
Os japoneses adoram novidade, mas veneram a permanência. Sem contradição nem angústia. Em nenhum lugar o moderno e o eterno convivem com tanta harmonia.
Se for para resumir a atitude japonesa com relação à criação - seja de uma empresa, uma faca de cozinha, uma obra de arte ou um telefone celular - dá para reduzir a esta essência:
- Faça pouco
- Faça muito bem
- Seja reconhecido como um mestre na sua especialidade
- Comunique bem o que você faz
- Cobre caro pela qualidade superior.
- Repita.
Isto é criação. Isso eu aprendi com Steve Jobs, depois de muito tempo. Veja bem, não é o que eu faço - é o que eu almejo a fazer.
Fazer em quantidade, com qualidade média, jogar no mercado e brigar no preço também tem seu lugar. Já fiz muito, quem sabe farei novamente no futuro. Mas é comércio, não criação. Não é tarefa para, digamos, espíritos elevados. Ou talvez maduros; Steve já não era criança em 1998, e muito menos eu sou hoje.
Os observadores da indústria até já desistiram de cobrar o próximo grande produto da Apple - o televisor holográfico, o automóvel sem motorista, a impressora 3D, o foguete, o robô. Continuamos torcendo, a cada novo evento da Apple.
Difícil. A Apple não atrai nem atrairá os cérebros mais inovadores, que no Vale do Silício vão para empresas iniciantes, onde terão ações e, se cair um raio, serão os próximos bilionários, os próximos Steve Jobs. Que diferença do Brasil...
Também não vemos a Apple apresentando modelos de negócio disruptivos, liderando na adoção de padrões empresariais inovadores, abraçando causas ambientalistas ou reinventando a roda. A Apple não apresenta grandes novidades porque, ué, não precisa. Assim está ótimo pros acionistas. O cofre está lotado, os fãs fazem fila. A necessidade é a mãe da invenção. A Apple não entrará para a história pela nova versão do iPhone. Não importa.
Tim Cook é um sucessor digno de Jobs, porque igualmente oriental em sua visão da Apple. O que vale é a perfeição da criação. O que foi e o que será são pouco importantes. Só existe o agora, e a vida passa rápido demais, até para gente como Steve jobs. Outra iluminação do Oriente, outra lição que eu quero aprender...

Fortune Nov. 9 1998 O novo iPhone e a eterna lição de Steve Jobs

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Publicado em 11/09/2017 às 15:18

Quem grita “censura” hoje é o censor de ontem e de amanhã

queer Quem grita censura hoje é o censor de ontem e de amanhã
Você já deve saber que a Exposição "Queermuseu - Cartografias da Diferença Brasileira", promovida pelo Santander Cultural em Porto Alegre, foi fechada. A mostra foi acusada de promover pedofilia, zoofilia e debochar de símbolos religiosos. A repercussão nas redes sociais foi muito grande. O Santander cedeu e encerrou a exposição.
O tema envolve arte e ideologia, dinheiro público e marketing corporativo, fé, sexo, dinheiro. Vou pular toda essa parte e ir à parte do assunto que não vi bem explorada. Que é a parte que me interessa.
Qual a minha posição? Sou sempre pela mais absoluta liberdade de expressão. Principalmente das opiniões que considero mais estúpidas e nocivas. Mas tenho consciência que faço parte de uma minoria ínfima de fundamentalistas da liberdade de expressão.
E sei muito bem que a maioria das pessoas mundo afora, e no Brasil também, acredita que deve haver limites para a liberdade de expressão. E os limites são sempre os limites de sua própria opinião, claro. Quem está exagerando é sempre quem está no campo contrário.
Frequentemente quem está de um lado desses debates nem enxerga que o seu lado tem posição. A gente tende a pensar que o nosso lado é sempre o neutro e ponderado, o outro é que é radical e ideológico. Mas toda posição é ideológica, claro.
A grita contra o fechamento da mostra "Queermuseu" vem principalmente de grupos que denunciam como "discurso de ódio" qualquer questionamento às suas próprias posições. Se o Santander patrocinasse uma mostra de arte que desse a menor brecha para ser intepretada como apologia ao racismo, ou apologia à violência contra a mulher, muitas dessas mesmas pessoas que hoje gritam "censura!" estariam tentando fechar a mostra.
Esse caso ilustra lindamente a incompreensão nacional sobre o que é a arte e qual é sua "função". A arte não tem nada a ver com o belo, o justo ou o socialmente responsável. "Arte" não é o que você pensa que é arte, é o que o artista cria. E os artistas que entram para a história são justamente os que criam obras contra o gosto estabelecido na sua época, claro. O resto é entretenimento, propaganda, comércio ou o que você quiser, mas jamais arte.
Esse caso também ilustra perfeitamente a divisão entre as pessoas que acreditam que os problemas da liberdade se resolvem com mais liberdade, e as pessoas que acreditam que os problemas da liberdade se resolvem com menos liberdade. Como disse, estou no primeiro time.
Tanto quem brigou para fechar o "Queermuseu" quanto quem reclama do fechamento estão no segundo time. Um lado ganhou, outro perdeu. É a vida em sociedade: conflito. Conheço pessoas inteligentes e bem-informadas que estão do lado perdedor, amigos inclusive. Passam vergonha ao reclamar de censura ao "Queermuseu". Se você luta para suprimir as vozes contrárias à sua, não me venha choramingar quando grupos sociais majoritários suprimem a sua.
Ou melhor dizendo: pode choramingar sim. Você tem direito à total liberdade de expressão. Inclusive a de tentar cercear a liberdade de expressão dos outros. E inclusive à liberdade de chorar sobre o leite derramado.

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Publicado em 06/09/2017 às 15:28

O que aprendi no meu 7 de setembro inesquecível

Sete de Setembro rio preto O que aprendi no meu 7 de setembro inesquecível
Rua Barão de Limeira 425, três da tarde de 7 de setembro de 1988: André, 23, um metro e oitenta e quatro, 65 quilos, cabelo nos ombros, calça de veludo bege, jaqueta de couro e bota carrapeta, entra na sala pra fazer sua primeira entrevista de emprego na vida e mente sem parar.
Mente sobre sua experiência, que é nenhuma, sobre quanto viajou, quanto leu, o que está lendo, mente mente mente. Se não está mentindo está exagerando, embelezando, enrolando. Os entrevistadores são Márion Strecker, editora da Ilustrada, Maurício Stycer, editor-assistente, e Carlos Eduardo Lins da Silva, secretário de redação da Folha de S. Paulo.
Já tinha mentido no currículo que mandou - e deu certo, foi chamado pra entrevista, certo? E então é hora do teste: escreva em uma hora duas laudas dizendo quais são os principais problemas da Ilustrada e o que você pode fazer para melhorar o caderno. À máquina, favor corrigir erros com branquinho.
O que escrevi? Adoraria ler hoje. Lembro de citar acid house. Eu acabava de voltar de Londres, e tinha dado a entender no currículo que tinha uma larga experiência internacional (que nada, tinha só passado 45 dias mochilando na Europa com a namorada). Que mais? Richard Ellmann, disse que estava lendo sua biografia de Oscar Wilde. Mentirinha - até queria ler mas ainda não tinha comprado não. Esqueci o resto.
Ironias: eu estava de volta ao Brasil. A namorada tinha ficado em Londres. Tinha gasto todo meu dinheiro na viagem. Minha prima mais próxima ia ser operada, tumor no cérebro (sobreviveu, quatro filhos lindões hoje). Eu absolutamente não queria voltar de novo à faculdade, que já tinha abandonado uma vez.
Nunca tinha trabalhado e já tinha mais que decidido que esse negócio de jornalismo não era para mim. Estava empurrando a vida com a barriga, que não tinha. Um dia tomo café e vejo o anúncio no jornal: vaga para cobrir férias durante um mês, na Ilustrada.
No penúltimo dia possível batuquei meu currículo inventado. No último dia fui entregar pessoalmente aquela falcatrua na Folha. Me perdi geral, não manjava nada daquele pedaço da cidade. Durango, não tinha como viajar no feriado, então fiquei na cidade... e no dia seis de setembro tocou o telefone me convocando pra entrevista no dia seguinte.
Se isso, se aquilo, mil ses e meu futuro teria sido completamente diferente. E no dia sete fiz a entrevista. Foi meu sete de setembro inesquecível, meu dia da independência. Comecei a ganhar minha grana, achei minha vocação e aqui estamos. E é por isso que essa data é tão cheia de significado, de simbolismo para mim.
Perguntei muitos anos depois para Márion, que virou amiga: o que te deu para me contratar? E ela retrucou na galhofa: e como não ia te contratar?
Acho que na entrevista percebeu que eu queria muito aquilo, e que eu era o tipo de garoto que a Folha podia aproveitar, e que eu não pensava dentro de caixinhas, e que ia dar o sangue. E dei. Porque quando uns dias depois me chamaram para começar a cobertura de férias de um mês, eu fui lá pra trabalhar o resto da vida.
No primeiro dia de manhã já fui pra rua com uma pauta. Zeca Camargo era o pauteiro, e me mandou fazer uma reportagem sobre o show do Circo Imperial da China no Ibirapuera!
E aí começou. Na primeira semana entrevistei Gianfrancesco Guarnieri e Célia Helena, imagine, eu que nunca entendi nada de teatro. E depois do expediente comecei a pegar críticas de discos e de filmes pra fazer, cortesia de Carlos Rennó e Alcino Leite.
E escrever sobre qualquer coisa que pintasse de quadrinhos, porque o cara que mais manjava do assunto na Ilustrada, Marcos Smirkoff, tinha virado fechador e tinha bem menos tempo. Quem mais estava lá no comecinho? Marco Chiaretti, Carlos Calado, quem mais?
Era uma turma muito generosa, e paciente, e fui aprendendo, e o mês passou e me convocaram para outro mês de cobertura de férias, e aí fui efetivado. Eu era Da Reportagem Local. Nunca tinha visto tanto dinheiro. Não lembro quando era em cruzeiro, nem lembro que moeda a gente usava na época, devia ser uns mil dólares bruto. Tava rico!
E logo tinha uma coluna de HQ às segundas, e estava entrevistando Lobão, Titãs e Lulu Santos, e fazendo matérias de capa, e crítica de cinema, e indo para Londres entrevistar Tina Turner na casa dela, hot legs. Blefava que era um horror, mas lia, lia, lia, gastava boa parte do meu salário em livros e enciclopédias de filmes e rock.
Fui me educando em público, fui aprendendo com os colegas mais experientes.
Logo entrou um monte de gente nova na Ilustrada, minha nova turma. Ia em todos os shows e baladas e me divertia loucamente.
Trabalhar na Ilustrada era o emprego dos meus sonhos quando eu era um colegial em Piracicaba. Miraculosamente, foi meu primeiro emprego. E dezesseis meses depois de pisar pela primeira vez na redação da Folha, eu estava indo embora sem olhar para trás, convidado para ser - com nem dois anos de experiência nas costas - editor da grande revista de música do país, a Bizz.
Esses meses na Folha são um borrão inesquecível na minha vida. Foi na Folha que eu comecei a virar eu. Foi lá que comecei a ser adulto. Foi lá a primeira e última vez que fui jornalista e nada mais.
Porque na Bizz eu já era editor, e tinha que controlar borderô, chefiar equipe e isso e aquilo. Meu chefe quando eu saí, Mário César Carvalho, falou: tá louco, você tá indo bem na Folha, vai trocar pela Bizz?
Ele estava certo, eu estava louco mesmo... louco por aventura, e continuo assim. Foi fazendo a Bizz que me encontrei. E depois larguei tudo para fazer fazer revista independente, e montar editora, e veio outro projeto, e outro.
Publiquei um monte de livros e quadrinhos legais, lancei revistas, montei e desmontei sociedades. Escrevi pra caramba. Fui trabalhar com internet. Trabalhei com centenas de pessoas legais, aprendi muito, e jamais parei de me enfiar em mil e uma e de meter os pés pelas mãos, e sempre, SEMPRE dei um jeito de manter o olho no amanhã e energia para brigar no dia seguinte.
Quase três décadas depois e sigo buscando, defendendo aquela independência, que comecei a conquistar naquele sete de setembro...

http://r7.com/Ohry

Publicado em 04/09/2017 às 16:00

Quando o estuprador também é vítima

 Quando o estuprador também é vítima
Na terça-feira passada, Diego Ferreira de Novais ejaculou em uma passageira de ônibus, em plena Avenida Paulista. Escândalo, nojo e revolta. Mais ainda quando, preso, foi liberado pelo juiz. Decidiu que o que Diego fez não é estupro, mas somente "importunação ofensiva ao pudor". A punição é só multa, sem cadeia.
Escândalo nas redes sociais, com famosos e desconhecidos gritando por justiça, contra a Justiça, e muita gente pedindo sangue. A gritaria subiu de volume quando a imprensa descobriu que Diego já tem 16 boletins de ocorrência por crimes sexuais, quase sempre expondo o pênis em público.
E mais, mais grita ainda quando Diego repetiu o que fez, apenas dois dias depois de ser solto. Sábado passado ele agrediu outra mulher, esfregando o pênis em seu ombro, em um outro ônibus.
Segundo a mãe de Diego, dona Iracema, ele não agia dessa forma até 2006, quando sofreu um acidente de carro e teve ferimentos graves na cabeça. Ficou em coma 15 dias e passou por duas cirurgias no cérebro.
Ela diz que o filho ficou com sequelas graves. Perdeu o olfato e o paladar. Tem sangramentos nasais frequentes e manca da perna direita. "Era um menino alegre e estudioso... virou um garoto silencioso e agressivo", diz ela. Ela defende que o filho passe por tratamento psiquiátrico.
Pode ser que a mãe esteja distorcendo os fatos para proteger Diego. Mas vamos admitir que Dona Iracema está dizendo a verdade?
Deveria ser desnecessário ponderar que uma pessoa com problemas psiquiátricos, ou deficiência mental, pode não ser inteiramente responsável por seus atos. Há casos em que o doente não tem a menor idéia do que faz. Há casos em que têm muita, ainda que não plena, consciência das suas ações. E a mesma pessoa pode ter níveis diferentes de consciência em momentos diferentes.
É, para resumir, complicadíssimo. Coisa para especialista. E não pra comentarista de Facebook.
É fácil fazer o linchamento moral de gente como Diego. É muito fácil escorregar para o linchamento físico. Sabemos como as turbas tratam estupradores. Sabemos seu destino na cadeia.
Para efeito de comparação, vamos pensar nos nossos velhinhos. Digamos que o seu avô, que está com um começo de Alzheimer sai dirigindo, sobe na calçada, atropela e mata uma pessoa inocente. Ele deve ser punido da mesma maneira que alguém que atropelou outra pessoa de propósito? É claro que não.
Diego é uma ameaça para as mulheres? É. Nada indica que vá parar de fazer o que faz. Tanto que mesmo depois de preso, foi lá e agrediu outra mulher. O que aliás indica uma atitude compulsiva e, francamente, um pouco biruta.
Não dá para deixar Diego liberado por aí para cometer violências. Outra coisa é tratá-lo como criminoso cruel e reincidente sem nem antes ele passar por uma avaliação médica.
Quando você trata um tema como estupro de maneira desapaixonada, ponderada, tentando entender quem é o agressor, porque ele agrediu, e se tem consciência do que fez, está mexendo em vespeiro. No mínimo, será acusado de "relativizar" a violência sofrida pela vítima.
Pois é exatamente isso que devemos fazer. A realidade é relativa. O contrário é nos rendermos aos absolutos, ao preto e branco, ao maniqueísmo que exige a supressão imediata, inquestionável do "criminoso", sem nem saber se ele cometeu mesmo um crime, ou se tem noção de que cometeu um crime.
A violência sexual é absolutamente errada? Sem dúvida. Deve ser punida? Com rigor. A aplicação da lei para puni-la deve levar em conta se o agressor sofre de alguma deficiência mental ou problema psiquiátrico? Sem sombra de dúvida. Porque o agressor, o bandido, o "monstro" às vezes também é vítima.

http://r7.com/1udB

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