Acontecia de tudo nos famosos plantões policiais do Doutor Gravatinha

O Doutor Gravatinha sempre usava uma desse tipo (Foto: Pexels)

Por Renato Lombardi

A Praça da Sé, nos anos 60, era ponto de encontro de namorados, políticos, comerciantes, jogadores de futebol, garçons e até dos românticos batedores de carteiras, verdadeiros artistas. O que acontecia na praça era registrado na Central de Polícia, no Pátio do Colégio, prédio onde morou a Marquesa de Santos. Outros tempos, outra polícia.

Os delegados se revezavam nos plantões de 12 horas. Havia entre eles o doutor Mágino, que nascera em Bofete, interior de São Paulo. Enérgico, repetia sempre que sua cidade natal não era Bofete, de bofetada. O filho do doutor Magino é hoje o secretário da segurança pública de São Paulo. Tinha o Israel, o Gravatinha. Gostava de ver a sala cheia de gente e mulheres sentadas nos sofás.

E também o folclórico Ortega Granado, que encontrava sempre uma maneira de promover a reconciliação entre os detidos e averiguados. Um apaixonado por corridas de cavalos.

Eu, repórter em começo de carreira, com 18 anos de idade, peguei o final do antigo plantão da Central. Trabalhando de madrugada, ficava vendo a chegada e saída dos envolvidos em ocorrências. Nas madrugadas de verão o calor era insuportável. A cada 15 minutos parava um carro da Guarda Civil na porta da Central com detidos. Naquela época o serviço de patrulhamento de rua era feito pela Guarda Civil. Policiais chegavam a pé apresentando bêbados, pessoas que se envolviam em discussões e brigas.

Havia gente espalhada pelos cartórios, sala dos investigadores, à espera de uma conversa com o doutor Gravatinha. Ele tinha o hábito de reunir o maior número de pessoas para concluir se era caso para inquérito ou para um simples registro. Na sala da imprensa, nos fundos do corredor, jornalistas e policiais de folga não paravam de rolar os dadinhos. Um deles, destacado repórter de rádio da época e apresentador de programa político na TV, perdera uma casa para um colega de jogatina.

Irritado e prometendo que não voltaria a jogar, o repórter estava preocupado com outra missão: enfrentar a mulher às 5 da manhã e explicar o que estivera fazendo até aquela hora. O mais grave seria justificar a perda da casa. Num canto da sala do plantão um comerciante de Santo Amaro, detido por discutir com um vendedor de melancias na Sé, ao lado da Catedral, chegara no começo da noite. Seu caso não fora resolvido. Ele reclamava que teria problemas com a enfezada da mulher. Já o vendedor estava preocupado com a banquinha carregada de frutas, pois deixara um bêbado tomando conta.

Ali estava também um balconista de loja que fora surpreendido com a amante, pela mulher, num restaurante da praça, ao lado da Caixa Econômica Federal. Estavam aos beijos e abraços. As duas se pegaram aos tapas, arranhões e acabaram na Central de Polícia. O balconista, três horas depois, ainda não havia falado com o delegado e as duas conversavam prometendo deixá-lo. Para a namorada, o balconista dissera que era solteiro.

E tinha ainda o pernambucano enganado no pagamento pelo dono de uma empresa especializada em reformas e pintura que esperava a solução do seu caso. Ele dera uma surra no patrão, dentro de um escritório reformado na Sé, e fora detido. O doutor Gravatinha – alto, cabelos crespos, óculos de aro e gravatinha borboleta azul – folheava um livro escrito por seu colega delegado Laudelino de Abreu. Era fã de Laudelino. Entre os que lotavam a sala estava ainda um engraxate da Sé preso depois que um oficial de Justiça apresentou queixa. Ele esquecera de colocar o couro protetor e ao passar a graxa preta pintou os sapatos e as meias brancas do funcionário do Fórum Criminal. E ainda mandou o homem reclamar para o padre da catedral.

Levado com a caixa e as latas, não perdeu tempo. Ofereceu seus serviços e passou a engraxar os sapatos dos policiais e das pessoas que esperavam pelo delegado. Desta vez o protetor para não sujar as meias estava lá. Eram quase 6 horas quando o doutor Gravatinha decidiu esvaziar o plantão. Mandou as mulheres ficarem de pé. Havia mais de 30 pessoas. O jogo de dados na sala da imprensa tinha acabado. Alguns jornalistas seguiam a pé para o restaurante Gouveia, onde o churrasquinho ao vinagrete era imbatível. Outros preparavam suas reportagens para os vespertinos, como os jornais Última Hora e Diário da Noite.

O doutor Gravatinha começou a decidir o que seria apenas registro e o que viraria inquérito. Passou a falar do trabalho do delegado de polícia, dos riscos da profissão, da remuneração, da cobrança dos superiores, e das virtudes de seu colega Laudelino de Abreu.

— O doutor Laudelino foi um brilhante delegado e na polícia todos tentam imitá-lo, repetiu. Neste momento entrou o delegado Granado para o plantão das 7h. Estava irritado porque perdera nas corridas de cavalo na noite anterior. Gravatinha apontou o colega para as 30 pessoas e disse.

— Aí está o doutor Granado, que vai me substituir, e poderá dizer quem foi Laudelino de Abreu. Quem foi, caro colega?

Granado baixou a cabeça, coçou os cabelos e soltou.

— Foi um grande filho da.... Virou as costas e foi para os fundos do distrito.

A gargalhada foi geral. E todos foram dispensados.