mercia Caso Mércia Nakashima foi esclarecido por quem ninguém esperava

Mércia e Mizael, seu futuro assassino (Foto: Reprodução)

Por Percival de Souza

O sentimento de posse, que deriva de ciúmes doentios para a transformação da mulher em mero objeto, permeia o comportamento do homem brasileiro. E isso mesmo muito tempo depois que a tese jurídica de “defesa da honra”, perdeu por completo espaço nos tribunais. A velha história de que “se não for minha, não é mais de ninguém”, ainda domina corações e mentes dos brucutus que habitam as cavernas, outrora medievais, mas que insistem em ser contemporâneas.

A praga comportamental envolve personagens de todas as classes sociais na prática de crimes rotulados como passionais. Assim aconteceu com Mércia Nakashima, a jovem advogada de 28 anos, trucidada pelo ex-companheiro, Mizael Bispo de Souza, também advogado e ex-policial-militar. Ela não queria mais nada com ele, ex-sócio de escritório, que se julgou, então, no direito de aplicar a pena de morte. Engana-se, e muito, quem repete o mantra “fora dos autos, fora do mundo”, na ousada e ambiciosa pretensão de considerar que algo que não esteja dentro de um processo também não teria espaço no planeta. A vida humana está muito além das páginas redutoras de um processo.

Foi assim no caso Mércia: um episódio fora dos autos, porém decisivo, levou à localização do corpo da jovem desaparecida. Mesmo não sendo possível levar em consideração que não existe crime sem cadáver (vide, por exemplo, o ex-goleiro Bruno e Elisa Samudio, cujo corpo jamais foi encontrado), as provas ficam mais difíceis de serem obtidas. A moça saiu de uma casa da família, após costumeiro almoço, e desapareceu.

Mas ela saiu da casa informando que tinha recebido um telefonema de Mizael e iria encontrar-se com ele. O carro dela seria encontrado submerso na represa de Nazaré Paulista, ligada por uma estrada a Guarulhos, de onde Mércia sumiu.

Aqui começa uma grande história fora dos autos: um senhor pescador viu um carro sendo empurrado, do alto de um pequeno morro, para dentro da represa. Este homem é um japonês. O pai de Mércia também é japonês.

O pai da advogada procurou o pescador e entre os dois houve um diálogo tocante, de forte emoção: a conversa foi toda em japonês. Um japonês conversando com outro, terminando com uma súplica em tom amargo, silenciosamente desesperado: “por favor, me ajude a encontrar o corpo da minha filha”. O pedido foi recebido com uma dedicação ímpar. O pescador, que tinha o hábito noturno de lançar a vara com o anzol, iniciou a procura incessante. E dias depois localizou o corpo. Não foi a Polícia. Não foram os bombeiros. Foi o japonês comovido até a alma.

Mizael, o híbrido ex-policial e advogado, não imaginava que o carro de Mércia pudesse ser encontrado. Empurrado para dentro da represa, que ele conhecia muito bem, ficou a dez metros de um enorme buraco oculto. Desapareceria, se houvesse crime perfeito. Sumiria também o corpo, alvejado por dois tiros. Todas as suspeitas convergiram para ele, transformando-se circunstâncias indiciárias nas primeiras provas quando, na casa de Mizael, foram apreendidos sapatos do advogado, contendo o mesmo tipo de algas existente na represa. Mizael combinou com um vigia ir buscá-lo no local do crime, para trazê-lo de volta a Guarulhos. Condenado a 22 anos e 8 meses de prisão, Mizael negou enfaticamente a autoria, mas não convenceu a ninguém de que seu carro, um Kia modelo Sportage, foi localizado — comprometedor — perto da casa da família de Mércia.  Mera coincidência? O vigia fugiu para o nordeste, onde foi localizado e preso. Elementar.

Mizael, arrogante e atrevido, desafiou a todos, até o delegado Antonio de Olim, que comandou as investigações. Só não conseguiu olhar nos olhos penetrantes e perturbadores do pai de Mércia. Como advogado, ele sabia que o Direito sempre foi a luta do mais fraco contra o covarde mais forte.