caringi Em 1990, a PM matou a inocente Adriana Caringi com um tiro na cabeça

Adriana Caringi morreu aos 23 anos (Foto: Reprodução)

Por Percival de Souza

Um tiro só, longa distância. Certeiro, fatal. É o que se exige da performance profissional do sniper, o atirador de elite. O objetivo único é salvar a vida de alguém que esteja em perigosa situação de risco. Atingir o alvo quer dizer, para o sniper, definir quem você escolhe. Poupar o lobo é condenar à morte as ovelhas, já escreveu Victor Hugo. A decisão tem que ser tomada em fração de segundos. Exige equilíbrio, controle emocional, sangue frio. O sniper existe porque a criminalidade tornou-o necessário.

Era este o quadro em que se desenhava a situação da professora de educação física Adriana Caringi, 23 anos, na janela de um sobrado na zona oeste de São Paulo, em 1990. Um bandido invadiu a casa e foi surpreendido por um, inesperado para ele, cerco policial. Na janela, Caringi tinha um revólver apontado para a cabeça. Seu algoz, o assaltante Gilberto Palhares, queria sair dali de qualquer jeito. A moça refém era o seu escudo.

O Gate, Grupo de Ações Táticas Especiais da Polícia Militar, estava dando seus primeiros passos como um grupo especial inspirado na famosa SWAT dos Estados Unidos. Uma nova unidade da PM. Este era o cenário que a PM chama de teatro de operações. Sim, um teatro com vários atores: a vítima, quem a ameaça, negociador, cerco, definição do perfil psicológico do agressor, saber lidar com limites, não ceder a todas as exigências, deixar bem claro quem é senhor da situação, quem pode impor, quem deve ceder e não exigir. É uma técnica operacional, cujo know-how é enriquecido com a administração de cada caso.

De repente, não mais que de repente, um tiro. Barulho seco. A cabeça de Palhares foi atravessada por um tiro. Palhares e Caringi caíram juntos, mortos instantaneamente. O mesmo projétil que atingiu em cheio a caixa craniana de Palhares, no mesmo ângulo transfixou e acertou a cabeça de Caringi, lado a lado com o sempre ameaçador invasor. Desfecho trágico para o que a PM chama de “gerenciamento de situação de crise”. Na corporação, muitos oficiais superiores perguntaram o que eu achava do caso. Respondia: “podemos usar todo tipo de argumento, mas só uma coisa importa: a moça está morta”.

A morte da professora gerou discussões intermináveis. Quis saber, e não foi fácil, quais eram os bastidores dessa triste história. E descobri coisas que vou revelar agora, fora do processo (o atirador, o cabo Furlan foi condenado e posteriormente absolvido), que se restringe a aspectos técnicos e não de uma vida que se foi precocemente. Aliás, tecnicamente falando, o que aconteceu? Primeira resposta: foi um erro de fato. Seria melhor, semanticamente, definir-se juridicamente o episódio assim: de fato, admita-se um erro. Ou, como prefiro: um erro fatal. Busquemos, então, as razões do erro, mergulhando nas técnicas utilizadas no dia-a-dia pela Polícia Militar. Situações como essa se repetem frequentemente no cotidiano da violência urbana.

Segunda resposta: o tiro foi certeiro, de absoluta precisão. Mas as circunstâncias que levaram o sniper a apertar o gatilho num determinado momento fazem parte dos segredos internos da corporação. O Gate de hoje, maduro, não é o de ontem, recém-nascido. O cabo Furlan aprontou cuidadosamente a sua arma, um fuzil de longo alcance. Montou o tripé, agachou-se e esticou as pernas. Debruçado, fixou a arma, equipada com luneta de caça, para o alvo postado no andar de cima do sobrado. Numa hora dessas, o alvo, agitado, se move com frequência. Oscila, agitado, muda de posição, procura visualizar o que está acontecendo pelo lado de fora.

Terceira resposta: Furlan, esticado no solo, mantinha Palhares na mira. Esperava o momento certo para o disparo. Mas, aqui vai um segredo interno, não dispunha da tranquilidade necessária para definir o momento de atirar. Sniper é sniper, e não aventureiro que joga na loteria. Ao lado dele, vários policiais procuravam influenciá-lo aos gritos: “agora, agora!”, “vamos, vamos”, “essa é a hora”. Para um atirador de elite, essa é uma pressão insuportável que nunca pode acontecer. Mas no caso Caringi, infelizmente aconteceu.

Quarta e última resposta: a perfeição do disparo efetuado por Furlan é inquestionável. Mas houve erro? Sim, houve erro. Qual? O equívoco, por óbvio não intencional (este, o jurídico “erro de fato”), foi a escolha da arma. Um potente fuzil calibre 5.52. Seus projéteis atravessam obstáculos. Não se cogitou que poderiam ser alvejadas, ao mesmo tempo, o bandido e sua vítima. Poderiam não significa a mesma coisa que seriam. No caso, foram. Gate, táticas especiais, armas especiais como a SWAT. Para cada situação, um tipo de arma. Curta, longa, intermitente, rajada. Escolhe-se a arma mais adequada para cada tipo de situação.

Uma das melhores polícias do mundo, o FBI, a Polícia Federal dos Estados Unidos, compartilha alguns dos seus ensinamentos para outras, como a nossa. Conheci a Academia do FBI em Quântico, na Virgínia, onde à entrada se vê um busto do lendário e longevo diretor Edgard Hoover. É doutrina do FBI para a chamada situação de risco: “evento ou situação crucial, que exige uma resposta especial da polícia, a fim de assegurar uma solução aceitável”. É necessário, portanto, a “eliminação do risco”. A doutrina é insofismável. Também vi a SWAT em Nova York. Quando ela chega, é fim do enredo da história.

Fiquei surpreso, mas a Polícia Militar mostrou-se disposta a analisar erros e acertos, corrigir o presente a aprimorar-se para o futuro. Ela possui um curso, CSP, chamado Curso Superior de Polícia, obrigatório para os que almejam chegar ao último posto hierárquico, que é o de coronel. Um tenente-coronel, Antonio Marin, que era do Comando de Policiamento de Choque, escolheu o tema da situação de risco para a sua monografia. Uma tese apresentada com defesa oral. Submete-se a perguntas da banca, no molde acadêmico. O Comando Geral da corporação escolheu-me para integrar a banca examinadora: dois coronéis e eu. Mostrou flexibilização institucional. Senti-me honrado. Posicionei-me como você acaba de ler: na situação de emergência, a prioridade número 1 é preservar a vida da vítima. Ponto. Enfatizei: prioridade para a vítima, e não ao bandido. Com armas adequadas e pessoal treinado, nessa hora a Polícia não pode vacilar. De modo geral, o bandido quer sair dali intacto. Compreende-se. Mas a vítima não só quer, mas deve sair dali viva. Direito prevalente é da vítima, ameaçada o tempo todo, numa sinistra tortura psicológica. E isso não se pode questionar.

O aprimoramento do Gate pagou o preço Caringi. Alto, desgastante, traumatizante. Para a família Caringi, para o Gate também. Caro demais. Cicatriz na alma. O caso da professora Caringi é de 1990. Em 2008, a situação se repetiu. A Polícia, ainda estigmatizada, hesitou. Tolerante, tergiversante, vacilante, errou de novo. Durante longos e inacreditáveis cinco dias (!), a jovem Eloá Cristina, de 15 anos, ficou numa janela, ameaçada por Lindemberg Alves, o namorado imbecil. À noite, era espancada. Transmitimos cenas traumatizantes ao vivo, pela Record TV.

Numa sucessão de concessões inadmissíveis, Lindemberg matou Eloá, de 15 anos. Só então, e tarde demais, a Polícia invadiu o local. O sequestrador-assassino foi capturado. Intacto. Foi preservado. Eloá, não. Ficou mais uma lição. Os erros não se repetirão. Na Penitenciária de Tremembé, os presos não perdoaram Lindemberg. Apareceu enforcado. Criminoso não é complacente.