canudos Euclides da Cunha e os crimes impunes de Canudos

Foto da época do confronto de Canudos

Por Percival de Souza

Cento e vinte anos se passaram da destruição, pelo Exército, do arraial da Canudos (outubro de 1897), miserável aglomerado na caatinga da Bahia, no final do século 17, quando se considerou que a República recém-proclamada estava ameaçada. Até a metade do século passado, a trágica história de Canudos era tratada como mero apêndice do livro Os Sertões, de Euclides da Cunha. Os fatos, porém, transcendem ao livro, que embora monumental, não é suficiente para que se compreenda o que se procurou apagar da História. O passado, entretanto, projeta sombras tenebrosas de longo alcance. Envolvem uma série de crimes e um esforço para que se esqueça de tudo. Mas Canudos tornou-se prisioneiro de Euclides.

Torna-se, portanto, necessária a autópsia histórica. Três missões militares fracassaram diante dos jagunços do beato Antonio Vicente Mendes Maciel, o Antonio Conselheiro. Somente uma quarta expedição militar, comandada pessoalmente pelo então ministro da Guerra, conseguiria derrotá-lo após uma multiplicação de equívocos. O leque de histórias envolve crimes. Que crimes? Nas palavras de Euclides: “Foi na significação da palavra, um crime. Denunciemo-lo”. Palavras reverberadas no Congresso, onde o senador Rui Barbosa – nosso jurisconsulto maior – leu trechos do livro de Euclides e discursou: “Nossa terra, nosso Governo e nossa consciência estão comprometidos”. Mas preferiu-se um profundo silêncio geral: do Governo, do Exército, do Judiciário e da Igreja - esta, nexo causal do inconformismo pela doutrinação do líder religioso Conselheiro conquistar mais e mais adeptos e exigir, em represália, enérgica ação das autoridades.

Canudos, confinado em Euclides, era muito mais. É verdade que, em Os Sertões, os capítulos "O Homem" e "A Luta" são magníficas aulas de reportagem, ignoradas por muitos professores de jornalismo que preferem, hoje, atacar o jornalismo em vez de formar bons jornalistas. Aliás, eles deveriam saber que Canudos somente se libertou de Euclides em 1950, quando uma reportagem da revista O Cruzeiro, que seria uma espécie de Veja da época, fez o que ninguém fizera até então: ir ao distante palco dos acontecimentos, entrevistar sobreviventes da guerra e seus familiares, e contar o que havia acontecido tendo como fontes testemunhas oculares, revelando detalhes impressionantes e ignorados sobre as sangrentas batalhas.

Tão impressionantes que o então presidente Getúlio Vargas foi conhecer Canudos, angustiou-se com o problema crônico da seca no sertão e prometeu a construção de um açude, o Cocorobó, o que realmente aconteceria, inundando o arraial e deixando Canudos submersa. Como se confirmasse uma profecia do Conselheiro: “o sertão vai virar mar, o mar vai virar sertão”. A história de Canudos me fascinou. Li Euclides e Mario Vargas Llosa, Nobel de Literatura, e sua obra A Guerra do Fim do Mundo. Estive em Canudos, conheci o sítio arqueológico dos campos de batalha, conversei com familiares de combatentes. Antes, passei em Salvador e tive uma aula de Canudos com o professor de História José Calazans, da Universidade Estadual da Bahia, a quem passei a chamar de “canudófilo”. Ele soube valorizar a importância da história oral e desenvolver a arte da reconstrução dos fatos.

Afinal, qual a razão dessa guerra que deixou um soldo de 15 mil mortos? A República era nova, 1889. O arraial do Conselheiro chegou a ter 30 mil habitantes, e passou a ser visto, sem fundamento algum, como uma ameaça da monarquia para retomar o poder. Principalmente depois que, na terceira expedição militar, foi morto, em combate, o coronel do Exército Moreira César. Ícone da Força Terrestre, hoje nome de distrito em Pindamonhangaba, onde nasceu, foi defender a República a ferro e fogo em Santa Catarina, rebelada contra o segundo presidente da chamada República Velha, Floriano Peixoto. Implacável, prendeu, executou e mudou o nome da Capital, Desterro, para Florianópolis. Ou seja: Floriano. À força.

Moreira César foi o escolhido pelo Exército para ir a Canudos. Sua morte em combate traumatizou a todos e reforçou a ideia da fictícia conspiração monárquica. Na profusão babélica de idiossincrasias, seria uma movimentação na caatinga distante (395 quilômetros de Salvador) para derrubar a República, instalada no Rio de Janeiro, Distrito Federal. Um delírio. A quarta expedição foi à Bahia para vingar César e massacrar os “monarquistas”. E massacrou: os prisioneiros foram degolados. As execuções eram chamadas de “gravata vermelha”. O sangue jorrava, um

pescoço cortado atrás do outro, rapidamente. O crime, denunciado por Euclides. A cabeça do Conselheiro foi levada para Salvador. O médico Nina Rodrigues, precursor da psiquiatria e medicina legal no Brasil, examinou-a em busca de vestígios de insanidade mental. Nada de científico encontrou. Canudos não se rendeu: sobraram apenas quatro, descreveu Euclides: um velho, dois homens e uma criança. Meninos foram “doados” aos vitoriosos. Euclides da Cunha ganhou um “jaguncinho” de presente. O menino veio para São Paulo, estudou no Colégio Caetano de Campos, formou-se para o magistério e dele não se teve mais notícia.

O livro-denúncia de Euclides foi publicado em 1902. Ele consumiu cinco anos para escrevê-lo. Sete anos depois, seria assassinado pelo cadete do Exército Dilermando de Assis, 17 anos, amante de sua mulher, Anna, com 30. Euclides, sempre viajante e ausente para Anna, foi à casa do cadete, Piedade, Rio de Janeiro. “Vim para matar ou morrer”. Atirou, feriu, Dilermando se defendeu e matou. Anos depois, o filho do escritor, tenta vingar o pai, de quem tinha o mesmo nome. Vai atrás de Dilermando, numa emboscada traiçoeira, atirou primeiro, feriu Dilermando gravemente, e na reação foi morto. O clima era totalmente hostil para Dilermando. A vítima-escritor já era mito nacional. Mas o talento advogado Evaristo de Moraes soube minuciar os fatos e convencer os jurados da ausência de alternativas. Duas absolvições. Dilermando e Anna casaram-se depois. Tiveram dois filhos.

Por trás de Canudos, mais tragédia: um mês depois da destruição do arraial, houve no Rio um desfile das tropas vitoriosas. No palanque, um soldado, armado com garrucha, tentou matar o presidente Prudente de Moraes. O ministro da Guerra, marechal Bittencourt, interferiu para salvá-lo. Golpeado por um punhal escondido, morre.

No Rio, da árvore de histórias de Canudos sobraram as favelas. Há um monumento sobre a guerra à entrada do Corcovado. Favela é o nome de um dos palcos de combates na caatinga. Ficava no alto. Nos morros do Rio, foi o lugar batizado pelos ex-combatentes foram morar, ignorados pelo Governo. A favela ampliou-se em complexos e ganhou, em tempos modernos, o eufemismo semântico de “comunidade”.

Em 1912, a história de Canudos se repetiria com a Guerra do Contestado, uma feroz disputa de terras travada entre os Estados de Santa Catarina e Paraná, por causa de desapropriações para a construção de uma estrada de ferro. O conselheiro sulista era o monge José Maria, que como Conselheiro liderou a revolta camponesa dos expulsos da região. Foi um replay de Canudos. A nova guerra durou quatro anos. Tropas federais foram combatê-la. Sem destaque histórico: desta vez, não houve um Euclides da Cunha para contar.