Ex prostituta, Elize Matsunaga matou e esquartejou o marido para se vingar de ameaça cruel

Elize Matsunaga no último dia de seu julgamento, em São Paulo (Foto: Sigmapress/Folhapress)

Por Percival de Souza

Palavras ferem. Palavras sensibilizam. Palavras podem ser mortíferas. Palavras podem ser restauradoras. Os peixes morrem pela boca. O empresário Marcos Kitano Matsunaga, diretor do império de alimentos Yoki, também morreu pelo que disse. Além de ser morto, foi esquartejado e seu corpo, dividido em partes, ficou escondido em sacos de lixo. Quem matou e retalhou foi a mulher, Elize Matsunaga, na noite de 10 de maio de 2012, dentro de um luxuoso apartamento triplex, na Vila Leopoldina, em São Paulo.

Ora, direis, o que tem a ver palavras com uma versão feminina de Jack, o Estripador, que agia em plena Inglaterra vitoriana? Tudo a ver, direi eu, que vejo Dostoievski como precursor de Sigismund Freud no estudo da alma humana. Talvez, sem o escritor russo de Crime e Castigo, o psicanalista austríaco não teria existido, embora no Caso Yoki estejam dois de seus pilares: o complexo de inferioridade e o ressentimento. Vejamos. Dispensemos o sofá.

Marcos tinha 42 anos. Elize, 30. Conheceram-se num bordel sofisticado, onde se vende o corpo por preços nada módicos, clientela seletiva e por vezes fixa. Prostitutas não se apaixonam, por dever de ofício, do mesmo modo que traficante, pela mesma razão, não deve viciar-se.

Marcos apaixonou-se por Elize. Tirou-a do lugar de encontros clandestinos para transformá-la em esposa e mãe de uma filha.

Às palavras, voltemos. A poetiza Cecília Meireles fez cântico à potência da palavra, comparando-a a um fino vaso de veneno e ao mesmo tempo algo mais frágil do que o vidro e mais poderoso do que aço. A Bíblia faz advertências sobre o aspecto destruidor no uso de palavras ferinas. Línguas afiadas são perigosas. Bem que o escritor inglês Graham Greene advertiu: “palavras usadas com imperícia são como granadas: explodem na boca”.

Matéria-prima da vida e da literatura, a palavra dá sentido à própria vida.

No Caso Yoki, a explicação do crime passa, primeiro, pela sociologia. Marcos apaixonou-se por uma prostituta. Quando Elize tornou-se “do lar”, como alguns definem por aí, Marcos decepcionou-se. Ele conheceu e gostou de uma mulher, bonita, mas naquele ambiente escuro, que oferece seus fascínios e satisfazem fantasias. Elize, em casa, era outra, por óbvio. Tanto que Marcos passou a frequentar esporadicamente o mesmo bordel, com os mesmos desvarios e fetiches. Esta, a razão original.

Elize desconfiou de algo, com o sexto sentido feminino, e contratou um detetive particular para segui-lo. Foram feitas as comprovações e o rei do império Yoki ficou nu.

Definida a gênese sociológica, vamos à psicológica. Sim, existem sociologia e psicologia do crime, e também psiquiatria. Elize abriu o jogo e colocou as cartas na mesa. Ás de ouro nas mãos dela, Marcos não teve como blefar. Primeiro, preferiu indignar-se ao saber que o autor das provas era um detetive pago com o dinheiro dele. Depois, proferiu palavras ameaçadoras. Seriam fatais:

— Vou mandar você de volta para o lixo de onde a tirei.

Essas palavras calaram fundo. Voltar para o lixo. Um tiro na cabeça, bem de perto. A raiva evoluindo para o ódio foi tão grande que ela resolveu picar o corpo, aos poucos e cuidadosamente. Para ser violento, é preciso, antes, aprender a odiar. Os pedaços humanos foram sendo colocados em sacos de lixo, o mesmo lixo ameaçador para um retorno às origens. Em matéria de crime, polícia e justiça se debruçam sobre provas, buscando estabelecer a autoria irrefutável e nada mais. Não se percebe que estão diante de um laboratório de comportamento humano. Mas isso não lhes interessa, embora o enigma das motivações possua explicações imponderáveis.

Os sacos de lixo foram colocados em três malas, no compartimento de bagagem de uma Pajero TR-4. Do prédio na rua Carlos Weber, ela pegou a estrada em direção ao Paraná, onde estão seus familiares e um rio que ela conhece bem. Seria o destino final de Marcos. NA SP-127, altura da cidade de Capão Bonito, a 222 quilômetros de São Paulo, a Polícia Rodoviária parou o carro para uma inspeção de rotina. Os documentos da Pajero mostravam um licenciamento vencido. Ela foi multada e desistiu de prosseguir a viagem. Voltou para a Capital.

É a vida: se a Polícia revistasse o carro, acharia os restos de Marcos. Entre ser incompreendida pelo rigor ou ironizada por não descobrir um corpo no carro vistoriado, fica o fio tênue das opções da ação policial. Elize dirigiu até Cotia, onde abandonou os sacos de lixo repletos numa estrada de terra. Seriam encontrados cinco dias depois.

O Tribunal do Júri condenou Elize a dezenove anos e 11 meses de prisão, tornando-a parceira de cárcere e diálogos de surrealismo fantástico com Suzane Richthofen e Anna Carolina Jatobá, na Penitenciária de Tremembé. A pena poderia ser maior se o promotor não engendrasse a tese inverossímil de que haveria um segundo assassino na cena do crime. Elize não teria agido sozinha, mas não havia amparo algum, na robusta investigação feita pelo Departamento de Homicídios, para que essa tese pudesse ser defendida.

Na perícia feita no apartamento, mais detalhes intrigantes: Marcos era colecionador de armas, registrado, e possuía um arsenal bélico em casa. Elize pegou uma das muitas delas, pistola que havia ganho de Marcos, e disparou um único tiro, certeiro, fatal. No tríplex de 500 metros quadrados, havia também uma gigantesca jiboia. A serpente ficava num viveiro alimentada por camundongos. Aqui, quem sabe, fosse a hora da psiquiatria entrar em jogo.