carandiru1 Facção criminosa do Carandiru foi derrotada por um documento secreto nos anos 80

Detentos no Carandiru, em São Paulo, nos anos 80 (Foto: Estadão Conteúdo)

Por Renato Lombardi

Um bom repórter deve sempre frequentar gabinetes, observar documentos sobre as mesas, ouvir conversas para seguir em busca de notícias que lhe proporcione exclusividade. Um bom repórter vive de furos. Numa tarde de segunda-feira entrei no gabinete do delegado Romeu Tuma, que era o diretor da Polícia Federal, em São Paulo, e um documento com o carimbo em vermelho de sigiloso me chamou a atenção. Perguntei o que era. O timbre no envelope era do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Embaixo, em letra menor, lia-se "Corregedoria dos Presídios e da Polícia Judiciária".

Tuma ouviu a minha pergunta, exitou e disse.

- Posso te mostrar, mas vai me prometer que você não sabe de onde saiu.

Claro que prometi. Abri o envelope e era uma carta assinada pelo juiz corregedor dos presídios do Estado comunicando a organização dos Serpentes Negras, a primeira facção criminosa que tentou se instalar nas prisões de São Paulo começando pela Casa de Detenção, no Carandiru, presídio que foi implodido anos depois pelo governador Geraldo Alckmin.

O documento que também fora enviado ao presidente do Tribunal de Justiça, ao Secretário da Justiça do Estado, ao Ministério da Justiça e ao gabinete do governador do Estado de São Paulo trazia um relato detalhado de como era composta a facção. Eram presos condenados a penas altas do Pavilhão 8, onde ficavam os reincidentes, aqueles com diversas passagens pela cadeia. O objetivo dos detentos era dominar todo o sistema carcerário. Anos depois isso aconteceu com a criação e a atuação do Primeiro Comando da Capital, o PCC, que age dentro e fora dos presídios.

Convenci Tuma a me dar uma cópia do documento. Com aquelas informações comecei a fazer contato com agentes penitenciários da Casa de Detenção e também alguns presos que me davam informações. Com tudo apurado, bem apurado, escrevi uma reportagem de duas páginas para o jornal O Estado de S.Paulo o que acabou provocando um abalo na secretária de Justiça a quem o sistema penitenciário paulista estava subordinado.

Os Serpentes Negras tinham como objetivo montar células em todos os presídios do Estado de São Paulo. Convencer os mais jovens a se engajar. Exatamente tudo que o PCC fez e faz. Com a publicação da reportagem e a repercussão, as autoridades do governo tentaram desmentir. Eu tinha uma cópia do documento assinado pelo juiz corregedor com os detalhes. Fui chamado para depôr numa sindicância na Corregedoria do Tribunal de Justiça. O objetivo dos desembargadores era saber quem dera as informações e de onde saíra o documento.

Claro que não falei sobre a minha fonte. Contei uma história que repeti por anos e que agora vou revelar a verdade porque já se passaram mais de 30 anos, o presídio não existe mais e Romeu Tuma morreu. O desembargador que presidia a comissão de investigação me perguntou como eu obtivera as informações que  ele concordou que eram verídicas. Respondi que tinham me telefonado no jornal perguntando se eu estava interessado numa história sobre a Casa de Detenção. Pedi para que me detalhassem sobre o que era e do outro lado tinha dito que iria repercutir em todo o Estado e também no País. Era uma bomba. Eu disse mais: fora orientado a esperar próximo da porta principal do Fórum João Mendes, no centro de São Paulo, onde me procurariam para entregar uma carta. E na carta estavam três páginas com as informações sobre a organização dos  Serpentes Negras. Da minha história contada na apuração do Tribunal a única verdade eram as três páginas. Um repórter jamais deve revelar sua fonte a não ser que ela concorde.

O juiz corregedor que elaborou o documento, Haroldo Pinto da Luz Sobrinho, se aposentou anos depois e nunca desmentiu minha reportagem. Confesso que foi uma belíssima reportagem seguida de outras e repercutida pelos demais jornais e emissoras de rádio e TV. O grupo  Serpentes Negras não prosperou. Com as providências adotadas na Casa de Detenção, os condenados que tinham elaborado o plano foram separados e mandados para diversos presídios do Estado. Mas a semente plantada por eles está aí presente e cada vez mais forte: o Primeiro Comando da Capital. O secretário da Justiça era o criminalista José Carlos Dias. O governador, Franco Montoro. Dias, brilhante advogado, sempre que me encontrava perguntava quem me dera as informações sobre os Serpentes. Eu eu continuava com a minha versão.

Ele defendeu Jorge Delmanto Bouchabki, o Jorginho, acusado de matar a mãe e o pai na Rua Cuba, crime que ficou conhecido em todo o país como o Crime da Rua Cuba. Durante toda a apuração da polícia e do ministério público para o esclarecimento do assassinato — isso eu conto numa outra crônica —, era comum encontrar José Carlos Dias no Departamento de Homicídios ou no Fórum de Pinheiros por onde o processo do crime tramitava. No dia em que Jorginho foi excluído da acusação da morte dos pais, depois da entrevista coletiva de José Carlos Dias, na frente do Fórum, convidei-o para um café num bar em frente. Ele me disse que com a decisão da Justiça de excluir Jorginho do processo, caíra o castelo de cartas do promotor do caso, Luiz Antonio Guimarães Marrey. Conversamos sobre sua tese de defesa, o que poderia acontecer depois, e ao me despedir ouvi do criminalista:

- O tempo passou. Me conte agora que te deu aquele documento sobre os Serpentes Negras.

Repeti a minha versão.

A última vez que vi Dias foi numa festa de véspera de Natal na casa de um casal de amigos em Higienópolis. Depois do jantar, sentados num sofá, tomando um xerez, Dias acendeu um charuto, me ofereceu, recusei, e após algumas  baforadas, voltou a perguntar.

- Vai contar ou não?

Um dia, doutor. Um dia... Quem sabe agora, lendo esta crônica, José Carlos Dias vai saber a verdade sobre quem me deu as informações sobre os Serpentes Negras.