tomazzovale Mafioso traidor capturado em São Paulo esculhambou o Brasil

O mafioso Tommaso Buscetta (Foto: Reprodução)

Sabe-se muito da Máfia pelo talento do escritor Mario Puzzo e o romance que inspirou O Poderoso Chefão (The Goldfather), com Marlon Brando. Mas as ramificações sicilianas com tentáculos norte-americanos tiveram um eixo desvendado em São Paulo. Detalhes não sabidos, agora revelados.

O capo Tommaso Buscetta andou por São Paulo por um bom tempo, até ser capturado, em 1983, pelo delegado Roberto Precioso Junior, da DRE – Delegacia de Repressão a Entorpecentes da Polícia Federal. Usava o nome falso de Paulo Roberto Felici, apreciava muito as massas da Cantina Giovani Bruno e algumas praias do litoral norte de São Paulo.

As revelações de Buscetta, o Don Masino, atraíram imediatamente para São Paulo o juiz italiano Giovanni Falcone, que atravessou o Atlântico para desvendar os segredos mafiosos. Falcone foi o pai do chamado maxi-processo, formato jurídico que interliga as informações embutidas em diferentes processos, saindo do padrão estático brasileiro, onde a Justiça aguarda ser provocada e o magistrado não sai do Fórum. O juiz italiano estabeleceu conexões com episódios que alguns teóricos definiriam, mais tarde, como um jeito jurídico de obter o domínio dos fatos, rompendo as barreiras da omertà, a implacável lei do silêncio. O juiz foi habilidoso ao conseguir romper o obstáculo: Buscetta não tinha mais obrigação criminosa alguma com a Cosa Nostra, que havia assassinado todos os seus parentes até o terceiro grau. Da famiglia não, impunham os cânones mafiosos. Então, ele poderia falar. E falou. Estive com o juiz quando ele visitou o Supremo Tribunal Federal. Ele trancou-se com quem deveria, conseguiu a extradição e mafiosos foram literalmente enjaulados em Roma. Prêmio: Don Masino mudou o rosto com uma plástica, obteve nova identidade e foi viver em Nova York. Aproveitei a imperdível oportunidade para sonhar em fazer um livro com as confissões de Buscetta. O intermediário era infalível. E ele concordou! Um câncer tirou-lhe a vida, nos Estados Unidos, provocando a minha grande frustração profissional.

Antes de partir, Falcone teve uma curiosidade: saber do próprio Buscetta como ele vacilou tanto para ser preso em São Paulo. A resposta foi surpreendente: “doutor, no Brasil nem a Máfia funciona”.