pesse1 Marcelinho, de 13 anos, assassinou seus pais policiais e se matou. Por quê?

Marcelinho e seus pais, ambos policiais (Foto: Reprodução/Facebook)

Por Renato Lombardi

A dúvida ainda persiste na cabeça dos familiares. Passados quatro anos e um mês, tios e primos não acreditam que um menino de 13 anos pôde matar os pais, que eram policiais militares — ele da Rota —, a avó materna que ele tanto amava, a tia-avó e depois ainda ter se matado com um tiro na cabeça na residência onde todos moravam.

"Ele amava a todos e jamais faria isso. Sequer sabia atirar ou dirigir", disse um dos tios. Foram nove meses de investigação e esta foi a conclusão da Polícia Civil de São Paulo. No relatório final do Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), aceito pelo Ministério Público e pelo Poder Judiciário, a afirmação foi a de que Marcelo Pesseghini, de 13 anos, usou a pistola .40 da mãe para executar toda a família e tirar a própria vida.

Os corpos foram descobertos em 5 de agosto de 2013, na Vila Brasilândia, Zona Norte de São Paulo, onde a família morava, por um tio do menino que pulou o muro e entrou na casa. Uma das provas mais contundentes, segundo a polícia, foi o laudo psiquiátrico sobre a personalidade do garoto assinado pelo psiquiatra forense Guido Palomba. Segundo ele, Marcelo Eduardo Bovo Pesseghini, de 13 anos, o Marcelinho, sofria de uma doença adquirida aos dois anos de idade e que se matou não por arrependimento pela chacina, mas sim pelo fracasso de seu clube de assassinos, o qual pretendia formar com amigos da escola. O garoto, na escola, segundo seus colegas, queria formar um grupo para matar pessoas e dizia sempre que sua vontade era eliminar os próprios pais.

Em 35 páginas entregues por Palomba à polícia, depois de examinar todo o inquérito e falar com testemunhas, ele afirma que Marcelinho sofria de uma doença chamada encefalopatia encapsulada ou sistematizada, a qual se desenvolve por falta de oxigenação do cérebro. Com o adolescente isso ocorreu aos dois anos, durante uma internação hospitalar. "Esse distúrbio é relativamente comum, que se encontra com uma certa facilidade e desde já quer dizer que não são as pessoas portadoras desse tipo de distúrbios que vão ficar matando seus pais amanhã. Isso acabou dando um território pré-disposto para que depois ele tivesse desenvolvido esse delírio encapsulado ou sistematizado que o levou  a cometer esse delito, mas é uma conjuntura, uma série de fatores nos quais há circunstâncias e nas quais ele vivia, ele estava inserido e foram elas que contribuíram".

Ao ter como pais a cabo da Polícia Militar Andréia Bovo Pesseghini, de 36 anos, e o sargento da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar) Luiz Marcelo Pesseghini, de 40 anos, o menino, segundo Palomba, sempre teve contato com assuntos relacionados à violência. Conhecia e sabia manusear arma, dirigia carros e tudo foi intensificado pelo gosto que o garoto sempre possuiu por jogos considerados violentos.

"Ele também aprendeu a atirar muito cedo, participava de jogos e isso foi formando o núcleo mórbido delirante dele, porque em cima dessa encefalopatia, que é o comprometimento cerebral, se desenvolveu um delírio sistematizado. É nele que estavam as ideias delirantes para matar os pais e se tornar um assassino justiceiro errante. Essas ideias delirantes e graves muitas pessoas souberam. O único problema é que as únicas que souberam eram da idade dele e ninguém levou a sério, ninguém contou aos adultos. Se tivessem contado, talvez alguém tivesse percebido, conversado e naturalmente poderia ter tido um outro desfecho", explica o psiquiatra em seu relatório.

 Marcelinho, de 13 anos, assassinou seus pais policiais e se matou. Por quê?

A casa da família Pesseghini na época do crime

Palomba afirmou ainda o que levou o menino a se suicidar após matar toda a família horas antes. "Não foi por arrependimento, mas pelo próprio fracasso. Esse tipo de doença não dá arrependimento, mas sim a sensação de fracasso. Ele mata os pais, vai pra escola, conta aos amigos que tinha matado e ninguém deu atenção. Aí ele mostra a chave do carro do pai, conta até para uma menina, convida ela pra fugir. Moral da história: ele acaba regressando de carona pra casa, sem o carro, volta ao mesmo lugar (dos crimes), sem nenhum amigo seguidor, ninguém acreditou nele de que matara os pais. E o que acontece? Toda aquela fantasia delirante ruiu completamente. Ele, por fracasso, com a mesma naturalidade que matou os pais, a avó materna Benedita de Oliveira Bovo, de 67 anos, a tia-avó Bernadete Oliveira da Silva, de 55 anos, se mata".

Com a divulgação do caso que fora chefiado pelo delegado Itagiba Franco, da Divisão de Homicídios do DHPP, e acompanhado pelo promotor Daniel Tosta de Freitas, do Ministério Público, os avós paternos de Marcelinho, afirmaram na ocasião que não acreditavam que o neto cometera os assassinatos e se matara. Pediram uma nova investigação, contrataram uma advogada para contestar a versão da polícia mas prevaleceu a conclusão e o caso foi encerrado.

Para a  polícia, depois de matar os pais, a avó e a tia-avó, Marcelinho dirigiu o carro dos pais até uma rua próxima ao colégio onde estudava, dormiu dentro do veículo e logo cedo foi para a aula. A saída do carro e a caminhada pela calçada até a colégio foram gravados por uma câmera da rua e as imagens anexadas ao inquérito.

Na escola, ele contou para os amigos que havia matado a família, mas ninguém acreditou. Afinal ele vivia dizendo que mataria os pais. Depois pediu uma carona para o pai de um colega de escola para quem ele contara sobre ter matado a família, voltou para a residência e se matou. Todos foram mortos com tiros na cabeça. Quando os corpos foram encontrados, o pai do menino que dera a carona compareceu à polícia com o garoto que contou sobre o relato. O depoimento do melhor amigo de Marcelinho, também de 13 anos, foi decisivo para reforçar a suspeita de crime familiar. O garoto contou sobre o o plano de matar os pais durante a noite, quando ninguém soubesse, fugir com o carro deles, ser matador de aluguel e morar em um lugar abandonado.

O pai desse garoto que deu carona para Marcelinho disse à polícia que antes de sair, o garoto apontou o carro dos pais estacionado, foi até o veículo, pegou um objeto e o colocou na bolsa. Poderia ser a arma, acreditava a polícia. A menina que fora convidada a fugir com Marcelinho também foi ouvida. No decorrer das apurações, os policiais souberam que, em 2012, Marcelinho, que ficava horas e horas à frente de um computador enquanto os pais trabalhavam, disse aos colegas de escola e do grupo que formara, que iria se tornar um "justiceiro", um "matador de aluguel de corruptos", inspirado no game Assassin's Creed. Um mês antes dos crimes, passou a usar em seu perfil na rede social a imagem do assassino do jogo e também a usar um capuz como o personagem do game, Desmond Miles – um barman que volta no tempo na pele de seus ancestrais, encarna o matador Altair e se envolve na guerra entre assassinos e templários ao longo de diversos eventos históricos.

Marcelinho era um garoto tímido e tinha poucos amigos. Para o psiquiatra Palomba, o convívio em um ambiente familiar de policiais, onde relatos de mortes, prisões e perseguições poderiam fazer parte do dia a dia e contribuir para formar uma cultura de violência "pode ter sido fatal para que decidisse pelo extermínio da família".

Na escola ele sempre falava da admiração pelo trabalho de seus pais que tinham ensinado o garoto a atirar e a dirigir para ser utilizado em caso de necessidade por eles serem militares e estarem sempre na mira de criminosos. A vizinha Elisa Rosa, 84 anos, que morava em frente à casa dos Pesseghini, foi quem também falou à policia sobre a atitude dos pais que  permitiam ao garoto dirigir pequenos percursos e estacionar o carro na garagem.

 Marcelinho, de 13 anos, assassinou seus pais policiais e se matou. Por quê?

Marcelinho e sua mãe

Marcelinho também era visto próximo ao portão e ao muro da casa com uma arma de brinquedo simulando atirar nas pessoas que passavam e nos vizinhos. No começo das investigações chegou-se a suspeitar que todos tinham sido eliminados a mando do crime organizado. Depois outra suspeita: a de que o extermínio dos Pesseghini fora por causa das investigações que a mãe do menino fizera no Batalhão em que trabalhava sobre militares corruptos. Mas a conclusão que está no processo arquivado passados quatro anos continua não sendo aceita pelo resto da família. Se não aconteceu do menino matar os pais, a avó, a tia-avó, e se matar, quem cometeu os crimes? E qual seria a motivação?