Massacre do Carandiru: quando feridos agonizavam junto aos mortos

O corredor do presídio cheio de sangue após a invasão da PM naquele 2 de outubro de 1992 (Foto: Niels Andreas/Folhapress)

Por Percival de Souza

A Casa dos Mortos, não a de Dostoievski, mas a dos 111 da Detenção, é uma construção de paredes que continuam — jurídica, social e institucionalmente — frágeis. 25 anos depois, ainda é tempo de percorrer os túneis do tempo e afastar deles resíduos da hipocrisia, da indiferença, dos bizantinos e dos cínicos.

Devo esclarecer que conheci as desgraças do Carandiru nas palmas das mãos. Escrevi um livro sobre o presídio, A Prisão, e para isso vivi por um mês lá dentro, inclusive com a experiência de dormir em celas, trancado com outros presos. Ninguém precisa me contar como era. Eu sei.

Conheci todos os diretores, de Fernão Guedes de Souza (o coronel Guedes) a Luiz Camargo Wolfmann (o Luizão), passando por Luiz Philippe Florence Borges, José Ismael Pedrosa e tantos outros. Com eles, percorria os pavilhões, conversava com os presos, dava pontapé inicial em partidas de futebol e ouvia confidências, muitas delas fora dos processos.

Eu sabia que o dia sinistro chegaria. Porque a existência da Casa de Detenção sempre foi um absurdo medieval incentivado e tolerado. Um gigantesco depósito de gente, desumano e fétido, que chegou a ter mais habitantes do que mais de quinhentos municípios brasileiros, segundo o IBGE. Uma cidade-presídio. Cinco mil, seis mil, sete mil presos.

Tão chocante que o juiz-corregedor dos Presídios à época, Renato Laércio Talli, tomou uma decisão drástica: estabeleceu um teto carcerário, 7 mil, e que para mantê-lo fossem ocupadas as celas dos distritos policiais de São Paulo. O preço: substituir a função de investigar por tomar conta de presos, a ponto da Polícia Civil criar um inacreditável novo departamento, chamado Departamento de Assistência Carcerária, o Dacar. O juiz quis saber como se agiria em caso de uma grande rebelião que, por óbvio, seria incontrolável. Mostraram-lhe um croqui com detalhes dos pavilhões, a entrada de policiais e um comboio de viaturas para a retirada de cadáveres. Eu vi. O juiz me mostrou. Assim estava escrito. Assim estava previsto. Assim aconteceria. Não foi profecia, foi previsão.

Aos fatos, expondo as chagas abertas, purulentas. A Detenção sempre foi um cemitério de poesias, sentenciava o diretor Philippe Borges, filho do reverendo presbiteriano Borges. Sim, cemitério repleto de túmulos com teorias, teses, palpites, abstrações, achismos, divagações e delírios indignos de Michel Foucault — o psiquiatra francês autor do imbatível Punir e Vigiar —, mestres brasileiros como Manoel Pedro Pimentel, Flamínio Fávero e Augusto Thompson. Quem quisesse saber sobre o inevitável, que perguntasse. Porque, como ensinou o padre António Vieira, quem não pergunta, não quer saber. E quem não quer saber, quer errar. Mas ao longo de muitos anos não foram feitas perguntas. A resignação tomou lugar da indignação.

Chegou o dia, chegou a hora. Tarde de 2 de outubro de 1992. Ouvi os rumores sobre os fatos. Fui ao gabinete do secretário de Segurança, o promotor Pedro Franco de Campos. Trancado em sua sala, ele estava extremamente nervoso, contaram seus assessores. Nunca tinha visto Pedro, a quem chamava de Pedrão, transtornado assim. Percebi que algo de grave estava acontecendo. E como, soube, isso envolvia a Polícia Militar, entrando na Casa de Detenção, fui imediatamente ao quartel do Comando Geral.

Ali, para minha surpresa, encontrei o comandante, coronel Eduardo Assumpção, muito calmo. Contei para ele que o secretário de Segurança estava super-nervoso. Ele ligou imediatamente para o secretário. “O Percival está me dizendo que o senhor está preocupado”. Nesse instante, entrou na sala o coronel Ubiratan Guimarães, único oficial superior que acumulou as funções de comandante do policiamento da capital e comando da tropa de choque. Sentou-se ao meu lado e deu-me um tapinha nas costas. “O que aconteceu?”, perguntei. “Tem uns setenta mortos”, respondeu. Gelei. A seguir, foi dar informações, falando baixinho, ao comandante geral. Ubiratan foi chamado ao gabinete do secretário.

Conhecia Ubiratan desde capitão. Comandou a Cavalaria, a Rota, o Comando de Choque, fez de tudo. Era referência, um ícone. Quando a Casa de Detenção fervia como uma sangrenta briga entre presos, no pavilhão 9, a PM foi chamada pelo diretor do presídio, Ismael Pedrosa. Três juízes, inclusive o corregedor dos presídios, estavam lá dentro. Todos pediram para a PM entrar. Antes, Ubiratan consultou a Pedro. Ouviu: “o senhor é quem está aí, faça o que achar melhor”. Ubiratan entrou.

 Massacre do Carandiru: quando feridos agonizavam junto aos mortos

O coronel Ubiratan, que deu a ordem para a invasão do presídio (Foto: Moacyr Lopes Júnior/Folhapress)

No primeiro pátio, os presos jogaram em direção a ele um tubo de televisão antiga, que explodiu no seu rosto. O coronel perdeu os sentidos. A tropa, vendo o coronel-ídolo desmaiado e carregado numa maca, ficou ensandecida. Começou aí a invasão. Exatamente nessa hora, o coronel estava sendo atendido no Pronto Socorro de Santana, na rua Voluntários da Pátria. Ou seja: não estava no local, não disparou um só tiro. Vamos ver a interpretação desses fatos, que são insofismáveis. Repito: insofismáveis.

O que houve de sinistro dentro do presídio ficou camuflado durante o final de semana. O PMDB tinha como candidato a prefeito naqueles dias o hoje senador Aloysio Nunes Ferreira. O governador Fleury achava que ele tinha grandes chances nas eleições e a divulgação do que acontecera na Detenção poderia atrapalhar. Nunes perdeu para Paulo Maluf. Antes, Fleury mandou reunir a tropa do Batalhão Tobias de Aguiar, a sede da Rota, no pátio do quartel, para pedir votos para Aloysio.

Fleury não percebeu o constrangedor problema: o tenente Alberto Mendes Junior, justamente daquela unidade, foi executado a coronhadas de fuzil na cabeça por guerrilheiros da ALN, a Aliança Libertadora Nacional, durante cerco, no Vale do Ribeira, ao capitão — desertor do Exército — Carlos Lamarca. A questão é que Aloysio tinha sido militante da ALN, com o codinome de “Mateus”, onde era motorista de outro Carlos, o Marighela. Somente após a votação, surgiram as primeiras revelações sobre a Detenção. Durante esse tempo, presos mortos ficaram amontoados aos feridos, condenados a agonizar lentamente. Um coronel do Alto Comando, que viu essa cena dantesca, contou-me isso, horrorizado.

Pedro Franco e Ubiratan perderam os cargos. Ordens de Fleury. Pedro ficou indignado. Ubiratan preferiu o silêncio, assumindo que deu a “voz de comando” antes de desmaiar. Essa postura é prevista no Código Penal Militar. Mas o caso era de júri popular, como prevê a Constituição. O diretor da Detenção, Ismael Pedrosa, foi assassinado anos depois pela facção criminosa PCC, em Taubaté. Ubiratan elegeu-se deputado estadual dez anos após a invasão. O júri condenou-o a fantasmagóricos 632 anos de prisão. Mais tarde, o Órgão Especial do Tribunal de Justiça o absolveu, argumentando que Ubiratan tinha agido no “estrito cumprimento do dever legal”. Foi assassinado com um tiro, em seu apartamento nos jardins, provavelmente por um fantasma, já que a Justiça preferiu entender que não havia provas para acusar ninguém.

De Ubiratan, uma frase não se apaga da minha memória. Tomando um café com o deputado, na Assembléia Legislativa, Ubiratan me disse: “Perci, eu pensava que conhecesse bandido”. Nessa história complexa, nada simples, para agradar a gregos, troianos e espartanos, peço a ajuda do dramaturgo italiano Luigi Pirandello: “assim é, se lhe parece”. Così è se Vi Pare".

O que lhe parece isso tudo?