tuma Mengele, o carrasco nazista, transformou Romeu Tuma em celebridade internacional

O delegado Romeu Tuma mostra à imprensa provas da morte de Mengele, em 1985 (Foto: Equipe AE)

Por Renato Lombardi

Procurado em todo o mundo, Josef Mengele, carrasco nazista, que matou centenas de pessoas em campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial com suas loucas experiências, estava enterrado num cemitério da Grande São Paulo fazia anos. Depois do término da guerra, em 1945, e com a Europa se reerguendo das loucuras praticadas pelo exército alemão comandado por Adolf Hitler os criminosos nazistas que torturavam e matavam, passaram a ser  perseguidos e fugiram para diversos países. Na América do Sul se esconderam na Argentina, Paraguai, Uruguai e Brasil.

Um deles, o médico Josef  Mengele estava na lista de diversos grupos de caça aos nazistas como o Instituto Simon Wisental. Numa noite de segunda-feira eu estava na redação do jornal o Estado de S.Paulo, onde trabalhava,  pronto para limpar minha mesa e ir embora quando o telefone tocou. Era o delegado Romeu Tuma que chefiava a Polícia Federal em São Paulo. Conheci Tuma quando ele se tornou diretor do Dops da Polícia Civil paulista. Excelente fonte de informação, me perguntou se eu conhecia Josef Mengele a quem ele se referia como Mengél.

Expliquei que sabia muita coisa dele por ter lido as histórias das atrocidades do carrasco nazista, histórias da Segunda Guerra, de Hitler, de outros nazistas que se esconderam no Brasil, Argentina, Uruguai e no Paraguai. E, Tuma na sua maneira tranquila de falar, me disse do outro lado da linha:

— Acho que ele está enterrado num cemitério aqui do Embu. Recebi um telefonema do consulado alemão de São Paulo e outro da embaixada alemã de Brasília dizendo que policiais alemães chegam amanhã com informações sobre onde Mengél está enterrado. E vamos ver.

Achei que era mais uma informação das muitas sobre Mengele.  Seria verdade um criminoso daquele quilate, procurado em todo o mundo, estar enterrado num pequeno cemitério da Grande São Paulo sem que ninguém soubesse?

— Doutor Tuma — disse – se for realmente Mengele o senhor terá a imprensa de todo o mundo aqui em São Paulo por semanas. Será uma das grandes histórias de sua carreira. Pode se preparar.

mengele Mengele, o carrasco nazista, transformou Romeu Tuma em celebridade internacional

Josef Mengele, o carrasco nazista (Foto: Estadão Conteúdo)

No dia seguinte, logo cedo, fui para a sede da Polícia Federal na rua Antonio de Godoi bem ao lado do Largo Paissandu. Os policiais alemães já tinham chegado. Tuma pedira um médico legista do Instituto Médico Legal para acompanhar a exumação. E fomos todos – policiais alemães e um batalhão de jornalistas para o cemitério. Os alemães tinham descoberto a possível presença de Mengele no Brasil depois da apreensão de cartas na casa do filho do carrasco, na Alemanha.

Mengele morara em São Paulo – capital e interior —, ficara com duas famílias alemãs, usava nome falso, e morrera afogado numa praia do litoral paulista onde passava o fim de semana.  Ele tinha uma vida normal em São Paulo, frequentava consultório dentário, as reuniões dos alemães nos finais de semana em sítios de Caieiras e Mairiporã, restaurantes de comida alemã, estivera morando em cidades do interior, e escolhera, quando chegou ao Brasil, o bairro de Santo Amaro, na zona sul da capital, perto da represa de Guarapiranga por ser uma região mais fria, um clima semelhante ao da Alemanha na época de outono.

Exumação feita, exames realizados, e a constatação. Era realmente o nazista que fora enterrado naquele pequeno cemitério com o nome de Wolfgang Gerard. Tuma soube através dos relatórios encaminhados pelo governo alemão e também pelo setor de inteligência dos Estados Unidos,  que Mengele chefiara o setor médico do campo de concentração de Auschwitz, na Polônia, entre 1943 e 1945.  E usava os prisioneiros como cobaias, em experiências pseudo-cientificas, com o propósito de provar a superioridade da raça ariana.

Por causa de suas práticas cruéis recebeu o apelido de Anjo da Morte. Sobreviventes contaram que entre as experiências realizadas, uma delas tinha o objetivo de mudar a cor dos olhos das crianças prisioneiras, injetando-lhes substancias químicas. A  obsessão era estudar gêmeos, matando-os e dissecando-os em outro campo de concentração, o de Dachau.

Colocava os prisioneiros em tanques de água gelada  para saber quanto tempo eles suportariam as temperaturas, antes de morrer. E através de amputações e dissecação de pessoas sadias e por meio de aplicação de drogas e pressão do ar, pretendia encontrar um método para impedir o nascimento de que chamava de sub raça.

Tuma também ficou sabendo que Mengele fugira da Alemanha em maio de 1945, quando os nazistas se renderam. Ele desembarcou na Argentina em 1949, foi para o Paraguai, onde ficou alguns anos, e ao ser colocado na lista de um dos criminosos de guerra mais procurado no mundo, com pedido de extradição feito pela Alemanha para todos os nazistas, conseguiu documentos falsos com o nome de Wolfgang Gerard e desembarcou no Brasil. Viveu em sítios de Nova Europa, Serra Negra, interior de São Paulo, Caieiras, na Grande São Paulo, Campos do Jordão e se estabeleceu no bairro de Santo Amaro, na zona sul da capital de São Paulo.

Com a identificação do corpo de Mengele  durante várias semanas,  repórteres de diversos jornais e emissoras de televisão de dezenas de países do mundo estiveram em São Paulo.  Tuma cansou de dar entrevistas. Os correspondentes das TVs americanas e da Alemanha montaram estúdios no Hotel Maksoud Plaza, na região da Paulista. Tuma falou diversas vezes no jornal Bom Dia América transmitido de costa a costa dos Estados Unidos.

Passado o turbilhão, inquérito encerrado pela Polícia Federal a vida voltou à rotina. Encontro Tuma na porta dos elevadores da PF no fim de tarde e ele com toda a simplicidade — que era uma característica sua —, estivesse em qualquer cargo que ocupava, comentou comigo:

— Você estava certo quando falou da imprensa. Eu nem tinha ideia de que fariam tanto barulho e renderia tantas entrevistas.

Tuma não sabia quem era Mengele. Nada sabia sobre o Anjo da Morte até o telefonema do consulado alemão.