mateus1 O atirador que causou terror num cinema de São Paulo

O ataque no cinema, no Shopping Morumbi, teve realmente cenas de um enredo de filme de terror. Uma história que poderia ser de Stephen King, autor americano reconhecido como um dos mais notáveis escritores de contos de horror do mundo. Um jovem estudante de medicina, de uma das faculdades mais importantes do País, entra numa sessão de cinema, com uma submetralhadora, mata três e fere outros espectadores. E somente para porque é desarmado.

Quando cheguei na Delegacia, na zona sul de São Paulo, entrei pelos fundos e não fui visto por uma legião de repórteres, fotógrafos, e cinegrafistas que esperavam para serem atendidos. Eu conhecia o delegado que estava com o matador havia muitos anos, o que me valeu a exclusividade. Da porta dos fundos, caminhei pouco mais de 40 passos e fui levado para uma pequena sala que era utilizada para reconhecimento de criminosos. Ali encontrei, sentado numa cadeira, Mateus da Costa Meira, o jovem estudante, então com 24 anos. Mãos algemadas para trás, tênis sem meias e sem cadarços. De calção. Ele me olha esquisito. Estava com o rosto vermelho. Assustado. Me identifico, digo que sou jornalista, falei do jornal em que trabalhava e ele ainda atordoado por todo aquele movimento começou a contar. Disse ser usuário de cocaína e tinha em mente metralhar a sala de espetáculo do cinema havia algum tempo. Comprara a submetralhadora de um traficante que lhe fora apresentado por um motorista de táxi. Não sabia ao certo porque fizera aquilo. "Quem sabe para chamar a atenção da minha família", disse em determinado momento. "Tinha vontade. Muita vontade de atirar nas pessoas", repetiu também.

Foi na noite de 3 de novembro de 1999. Na sala 5 passava o filme O Clube da Luta. Havia pouco mais de 30 pessoas na platéia. Mateus sentou na primeira fila. Passados alguns minutos, levantou-se e foi ao banheiro para testar a arma. Olhou-se no espelho, apontou a submetralhadora para sua imagem e disparou. Certificou-se de que estava funcionando e voltou para a sala de projeção. Ficou de frente para a platéia, próximo da tela, e começou a atirar. A sala permaneceu escura. A fotógrafa Fabiana Lobão Freitas, que tinha 25 anos, o economista Júlio Maurício Zeimaitis, de 29, e a publicitária Hermé Luísa Jatobá Vadasz, de 46, morreram. Outros quatro espectadores ficaram feridos sem gravidade. Mateus somente parou de atirar ao ser agarrado e desarmado.

Filho de médico, classe média alta baiana, Mateus fora convencido pelo pai a estudar em São Paulo. Ele queria continuar em Salvador mas aceitou a determinação e em São Paulo estava cursando o 6º ano da Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo quando decidiu pelo ataque. Os colegas contaram que ele era amigo, dócil, calmo, mas meses antes dos tiros o comportamento começou a mudar. Todos acreditavam que era em decorrência dos estudos, da ausência da família e do trabalho. Ele fazia pesquisas pela Internet para um jornal da capital durante a noite e madrugada. De excelente aluno passou a faltar às aulas, começou a frequentar bares e pontos de venda de drogas. Suas amizades com traficantes eram reprovadas pelos colegas que foram se afastando. Fez tudo em uma semana, disse. Planejou o ataque, comprou a arma, e seguiu para o shopping.

Quando deixei a delegacia, no final da madrugada, com a entrevista exclusiva, quase fui "linchado" pelos colegas jornalistas que também queriam entrevistá-lo mas não conseguiram.

Reencontrei Mateus meses depois. Fui cobrir a prisão de três chineses autores de extorsão contra famílias da colônia chinesa em São Paulo, proprietários de pequenas granjas, no distrito policial de Santa Cecília, e o delegado me perguntou se eu não queria conversar com Pimenta Neves, meu ex-chefe no Estadão que estava preso por ter assassinado a namorada Sandra Gomide. Fui até um quarto improvisado como cela no primeiro andar da delegacia, nos fundos do corredor. Além de Pimenta estavam Mateus e o ex-vereador Vicente Viscome que fora condenado por se envolver em falcatruas na Câmara Municipal de São Paulo. Na sala havia um sofá velho e sujo. Viscome, que estava com os cabelos raspados, foi para o banheiro e disse que não queria conversar com jornalista e somente sairia quando eu fosse embora. Mateus lembrou-se de mim, perguntou se eu sabia como andava o processo que ele respondia, falou da saudade da família, que o pai, também médico estivera um mês antes e prometera revê-lo e não aparecera. Sentia-se só. E Pimenta queixou-se de seus ex-subordinados no jornal alegando que poucos o visitavam e muita gente que ele ajudara simplesmente o ignorava. Queixou-se também de um colunista que escrevera um livro e dera a apresentação da obra para Pimenta escrever. Com a prisão, o colunista mandara refazer a edição do livro e tirara a apresentação de Pimenta.

Mateus acabou condenado a 120 anos e seis meses de prisão em regime fechado. Seus advogados alegaram que ele era semi-imputável, ou seja, possuía consciência parcial de seus atos. Tentaram demonstrar através de laudos particulares que ele sofria de alucinações, ouvia vozes misteriosas, tinha crises de agressividade, e de comportamento estranho e solitário. Alegaram insanidade mental do cliente e argumentaram que Mateus havia sido influenciado por um jogo de computador no qual há uma cena de tiroteio dentro de um cinema. E não tinha nada a ver com o filme O Clube da Luta.

Em 2007 o Tribunal de Justiça de São Paulo reduziu a pena para 48 anos e 9 meses. Mateus ficou no Centro de Observação Criminológica, do Complexo do Carandiru, na zona norte de São Paulo, até o presídio ser desativado, em 2002. Foi para a Penitenciária de Tremembé no Vale do Paraíba, interior de São Paulo e, em 2009, a pedido da família e com a concordância da Justiça paulista e baiana foi para a Penitenciária Lemos Brito, em Salvador, onde moram os pais.

A última notícia que tive sobre Mateus foi a de que no final de 2009 tentou matar na Bahia o colega de cela, o espanhol Francisco Vidal Lopes, de 68 anos, a golpes de tesoura. Foi autuado por tentativa de homicídio. O motivo: o colega de cela ouvia a televisão em volume muito alto. Dois anos depois foi absolvido por um júri popular por ser inimputável e sofrer de doenças mentais atestadas por laudos médicos do sistema carcerário baiano. Com a decisão da Justiça, o ex-estudante de medicina foi internado no Hospital de Custódia e Tratamento de Salvador, destinado a doentes mentais e onde permanece até hoje.