Encontrado com silicone no peito, o esquartejador Farah morreu de maneira macabra

O médico Jorge Farah em imagem de 2007 (Foto: Robson Ventura/Folhapress)

Por Renato Lombardi

A cena impressionou até o mais experiente dos policiais, o delegado Nico Gonçalves. Sobre a cama naquele sobrado de Vila Mariana, na zona sul de São Paulo, todo fechado com grades e circuito de câmeras, estava o corpo do homem que ele deveria prender.

Vestido de mulher, silicone grudado no peito, veia femural da perna cortada — que provocou uma longa hemorragia. Sangue. Havia muito sangue em toda a cama. Havia pela casa música clássica. O som estava alto. Era Farah Jorge Farah de 67 anos. Estava morto havia algumas horas.

Na noite anterior ouvira pela TV a decisão da Justiça em mandá-lo definitivamente para a cadeia. Médico, se especializara em cirurgia plástica, estava condenado a 14 anos e oito meses pelo assassinato da ex-paciente e amante Maria do Carmo Alves. Tivera o diploma cassado pelo Conselho Regional de Medicina e deveria seguir para a prisão por determinação do Superior Tribunal de Justiça (STJ).

O crime aconteceu na noite de 24 de janeiro de 2003, véspera de feriado pelo aniversário de São Paulo. Farah atendia em seu modesto consultório no bairro de Santana, zona norte de São Paulo. Sua consulta não era cara e tinha muitos pacientes. Entre elas, Maria do Carmo, de 46 anos, casada, que conhecera havia alguns anos. Ela que fizera anos antes uma cirurgia de redução da mama, queria uma lipoaspiração. Farah tinha 53 anos se empolgou ao examinar a mulher na primeira vez e os dois, com o passar das consultas, começaram a se relacionar. Se tornaram amantes.

Algum tempo depois, o médico tentou se livrar de Maria. Mas, segundo ele, ela não se conformava e passou a telefonar, ir ao consultório, insistir na volta do relacionamento e numa lipo, até que ele decidiu atendê-la e deixou para ser a última consulta. Não havia ninguém mais no consultório. Farah a matou por estrangulamento, esquartejou o corpo e colocou os pedaços em sacos de lixo. O médico que morava num apartamento de Vila Mariana ligou para os pais eles dizendo que seu carro estava com problemas e que fossem buscá-lo.

O corpo de Maria, que era dona de casa, foi dividido em cinco sacos de lixo e encontrado pela polícia dois dias depois, no porta-malas do carro de Farah. Ao ser interrogado declarou no Distrito Policial da Casa Verde que não lembrava do que havia acontecido naquela noite. Eu tentei falar com ele, que estava assessorado por um dos principais criminalistas de São Paulo. Negou-se a responder minhas perguntas repetindo sempre que "não lembrava de nada". Os peritos que examinaram o corpo disseram em seu relatório que Maria, além do estrangulamento, teve o pescoço cortado ainda na sala de consulta e depois arrastada até a sala de cirurgia, onde fora esquartejada durante a madrugada.

Segundo ainda os peritos, com quem conversei no Instituto Médico Legal de São Paulo, Farah, com o uso de instrumentos cirúrgicos, dissecou o corpo de Maria. A pele de parte do rosto, do tórax e das pontas dos dedos das mãos e dos pés foi retirada. Muitos pedaços foram depositados numa banheira e cobertos com formol e água sanitária, evitando a decomposição, disfarçando o odor e ajudando a retirar o sangue dos membros e reduzir o peso de Maria, de 66 quilos para 30. Todo o processo teria levado mais de dez horas.

Eu entrevistei o marido de Maria, João Augusto Lima. Ele me disse que como a mulher não voltara e ninguém atendia o telefone do consultório do médico, decidiu ir à polícia para o registro de um boletim pelo desaparecimento da esposa. Sabia da amizade entre o médico e sua mulher e que ela fora procurá-lo para falar da lipoaspiração.

"Fui até a clínica no dia seguinte logo cedinho", disse João. "Encontrei o doutor Farah. Ele estava nervoso. Perguntei pela Maria. Ele não respondeu. Seu corpo cheirava a Cândida (água sanitária). Depois me disse que não sabia dela, anotou o número do meu telefone celular, me deu o dele e prometeu que ligaria se soubesse", revelou.

Os sacos com o corpo de Maria ficaram no porta malas e o carro foi levado para a garagem do prédio onde o médico morava. Dois dias depois de matar Maria, Farah se internou numa clínica psiquiátrica na Granja Julieta, zona sul de São Paulo. Foi visitado pela sobrinha e contou para ela o que tinha feito. Deu as chaves de seu carro dizendo que o corpo estava no porta malas. Ao se aproximar do carro a sobrinha sentiu um cheiro forte que saía do porta-malas e decidiu ir à polícia.

O corpo da dona de casa estava realmente nos cinco sacos plásticos sem as mãos e as vísceras que, num exame, poderia apontar se ela fora dopada com algum sedativo antes de ser morta. Farah teve a prisão decretada pela Justiça em 28 de janeiro. Em 2006, o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) suspendeu o exercício profissional do cirurgião plástico e depois cassou o diploma. Por ser médico e ter nível universitário, Farah permaneceu preso no 13º Distrito Policial, da Casa Verde, durante 4 anos e quatro meses a espera da "batalha" judicial entre defesa e acusação (polícia, advogados e Ministério Público).

E foi no distrito que consegui conversar com ele. Farah fazia a limpeza da cela, medicava os demais presos, todos com nível universitários. Não dava trabalho. Queixou-se da falta de medicamentos específicos pois estava sofrendo de um câncer próximo à coluna vertebral — que mais tarde viria a ser submetido a cirurgia e foi curado — e começava a ter problemas com uma hérnia que apertava algumas de suas vértebras, também resolvida.

Em 29 de maio de 2007, a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal concedeu ao médico um habeas corpus. O relator foi o ministro Gilmar Mendes. Farah deixou o distrito da Casa Verde para aguardar a conclusão do processo em liberdade. Em 15 de abril de 2008 foi levado a julgamento pelos crimes de homicídio duplamente qualificado — por motivo torpe e emprego de meio que impossibilitou a defesa da vítima — e ocultação de cadáver.

Seus advogados pediram à Justiça que Farah fosse considerado semi-imputável — capaz de entender o crime, mas sem condições de se controlar – e defenderam a tese de homicídio privilegiado, alegando que ele era perseguido por Maria do Carmo. Apresentaram relatórios das operadores de telefonia mostrando que em março de 2002, quase um ano antes do crime, recebera de Maria mais de três ligações.

O ministério Público apresentou provas sobre o perfil criminoso de Farah e a polícia localizou quatro mulheres que alegaram terem sido molestadas na clínica. Depois de três dias de julgamento, Farah foi condenado a 13 anos pelo homicídio e ocultação de cadáver. Mas não foi para a prisão. Como tinha o habeas corpus do STF, a Justiça entendeu que não oferecia riscos e poderia recorrer da sentença em liberdade.

Os advogados do ex-médico não se conformaram, recorreram ao Tribunal de Justiça de São Paulo e, em 30 de janeiro de 2013, a 2ª Câmara de Direito Criminal do TJ anulou o julgamento acolhendo o argumento de que o conselho de sentença — os jurados — havia ignorado o laudo oficial sobre Farah, segundo o qual o réu estaria semi-imputável no momento do crime (não sabia o que estava fazendo).

No dia 12 de novembro também de 2013, a mesma Câmara do TJSP extinguiu a pena do crime de ocultação de cadáver, pena de um a três anos, por que o julgamento, de 2008, prescrevera. Coisas da nossa lei. Mas o Ministério Público insistia no novo júri que foi adiado por cinco vezes. Até que, em 12 de abril de 2014, já com 64 anos, Farah foi julgado no Fórum Criminal da Barra Funda e quatro dias depois acabou condenado a 16 anos por homicídio e esquartejamento pena reduzida depois para 14 anos e oito meses.

O promotor de Justiça e o advogado de acusação defenderam a tese de crime premeditado, alegando que Farah teria atraído a vítima até a clínica dizendo que lhe faria a lipoaspiração. Entre as testemunhas ouvidas, dois médicos que fizeram uma avaliação psiquiátrica de Farah. Um deles, em seu parecer, afirmou que Farah não era psicopata e não sofria de epilepsia, ao contrário do que alegava a defesa. O outro médico relatou que Farah tinha tendência a representar um determinado sentimento ou um valor, de forma desproporcional, teatralizada, com toque de dramaticidade.

Mesmo condenado Farah continuou em liberdade por causa do habeas corpus e dos recursos da defesa que pediam a redução da pena e o impediam de ir para a prisão, recursos que estavam sendo analisados pelo Superior Tribunal de Justiça. Na quarta-feira, 20 de setembro deste ano, três anos e cinco meses depois de condenado, o STJ decidiu revogar o habeas corpus, não atendeu os recursos, deu por encerrado o caso e determinou que o ex-médico fosse para a cadeia e cumprisse a pena. O mandado de prisão foi expedido e, quando os policiais civis foram cumpri-lo, tiveram dificuldade em entrar na casa. Arrombaram portas e encontraram Farah morto.