O delegado corintiano que complicava a vida de são paulinos e palmeirenses

Não é fácil ter um coração corintiano (Foto: Fotoarena/Folhapress)

Por Renato Lombardi

No começo da minha carreira de repórter policial eu ouvira falar da paixão de um delegado de polícia pelo Corinthians. Não fiquei muito surpreso porque qualquer corintiano é apaixonado ou fanático pelo Timão. Mas queria conhecê-lo. Pedro era seu nome. Queria ser jogador do time de Parque São Jorge, vestir a camiseta toda branca com escudo e os números em preto. Mas o sonho acabou quando o pai decidiu que iria estudar Direito. Naquela época, jogador de futebol tinha fama de boêmio, vivia em bares, boates. Gastava tudo com as mulheres.

O jovem Pedro, então, obedeceu ao pai, mas não perdia um jogo do seu time do coração. Entrou para a Faculdade do Largo de São Francisco, num dos primeiros lugares, e seus colegas já sabiam: quando o Corinthians jogava à noite, no Pacaembu, Pedro nem aparecia. Pedro cresceu, formou-se, desistiu da carreira de advogado e entrou para a polícia como delegado.

Depois de percorrer cidades do interior foi parar no plantão da antiga Central de Polícia, no Pátio do Colégio, região central de São Paulo. Nos plantões noturnos e nos finais de semana todos sabiam que as coisas iam bem até o começo do jogo. Durante os 90 minutos ninguém podia incomodar o doutor Pedro, a não ser em caso de extrema urgência. Nas vitórias do Corinthians os detidos por brigas, discussões e embriaguez eram liberados mais cedo.

Numa noite de verão, o Corinthians foi derrotado pelo São Paulo de Gerson, Pedro Rocha, Toninho Guerreiro, um timaço tricolor. Um oficial da Polícia Militar chegou à Central de Polícia levando preso um grupo de vizinhos, da Bela Vista, por discussão e briga. O italiano Biaggio, dono de uma pensão, cansado dos calotes do são-paulino Norberto, decidira que cama, café da manhã e jantar só pagando os atrasados. A coisa estava dividida. Os familiares do italiano e alguns inquilinos forçavam o delegado a obrigar Norberto a pagar. O são-paulino e um outro grupo de inquilinos reclamavam da comida fria, do café que mais parecia água de batata e das roupas de cama trocadas a cada 15 dias.

"É uma sujeira, uma sujeira", repetia Norberto que confirmava estar devendo e não pagava por ter comprado alguns ternos. "Primeiro preciso pagar a roupa, cuidar do meu visual, e a pensão vem depois".

As coisas pioraram para o Norberto quando o delegado Pedro pediu os documentos. Ele entregou sua carteira profissional e dentro dela um cartão com o distintivo do São Paulo Futebol Clube.

"O senhor é são-paulino?", perguntou o delegado.

"Com muita honra”, confirmou Norberto. E emendou: "Enfiamos hoje um saco nos maloquentos (como eram chamados de maneira indelicada os torcedores do Corinthians).

Não deu outra. "O senhor só vai sair daqui quando pagar o que deve para o senhor Biaggio", disse o doutor Pedro que levava Gibelli no sobrenome. "Não quero nem saber se comprou terno, presente pra namorada ou gastou em farra. Paga e vai embora. Se não pagar, vai em cana".

Os amigos saíram apressados para arranjar o dinheiro. Voltaram pela manhã, no final do plantão. Os atrasados foram pagos e, ao liberar Norberto, o delegado o aconselhou: "Não deixe nunca de pagar suas dívidas e da próxima vez, ao falar dos corintianos, limpe bem a boca, pois se ouvir de novo do senhor a expressão maloquentos eu o tranco por um bom tempo".

Meses depois, num plantão noturno, lá estava o doutor Pedro, bastante nervoso. Era um dia muito especial na vida do Corinthians. Iria jogar com o Santos, no Pacaembu, e tentar quebrar o maldito tabu de tantos anos. O delegado confiava em Paulo Borges, Buião e nos outros guerreiros. Sua vontade era estar no estádio. Tentara trocar o plantão mas dera azar. Os outros três delegados, que dividiam com ele os períodos, também corintianos, estavam no jogo. Pedro sofreu, deu chutes nas portas, embaixo da mesa de trabalho, mas valeu a pena. O tabu fora quebrado. O timão ganhara de 2 a 0. A cada patrulha que chegava com detidos, os policiais militares cumprimentavam o delegado pela vitória. Às 3 da madrugada, um camburão parou na porta da Central de Polícia com cinco mulheres, um homem, e vários funcionários de uma boate de Vila Buarque, região central da cidade. O pagamento de uma conta fora o motivo de toda a confusão.

"Bebi um uísque, tive que pedir drinques para as cinco moças que sentaram na minha mesa e querem que eu pague o que ganho em dois meses de trabalho", argumentou Liberto, um gráfico. Os empregados da boate o acusavam de ter bebido uma garrafa de uísque, do bom, de ter ofendido a família de todos eles e os ameaçado de morte. Pediam o testemunho das mulheres, que confirmavam.

"Uma garrafa"?, surpreendeu-se o gráfico. Essa gente tá é doida. Com uma garrafa eu estava era em coma. Bebi uma dose e mesmo assim foi para comemorar a vitória do meu Corinthians que acabou com essa história de chabu (tabu) do Santos".

O delegado arregalou os olhos e perguntou: "O senhor é corintiano?". Liberto estufou o peito e respondeu em cima. "Com muita honra, seu doutor", e tirou do bolso uma carteira de sócio do Corinthians. Apertando a mão do gráfico, o doutor Pedro disse que estava liberado. "Pode ir porque corintiano não mente e o uísque que tomou e não pagou fica por minha conta. Eu pago".

Liberto saiu feliz do plantão da Central de Polícia. Os garçons e as mulheres foram liberados somente pela manhã. Eram todos palmeirenses.