isabella O detalhe cruel que revelou o assassino da pequena Isabella Nardoni

Isabella Nardoni foi protagonista de um dos casos mais estarrecedores já vistos

Por Percival de Souza

Islabela, ilha bela, Isabella, menina bela. Um corpo que cai do sexto andar do Edifício London e fica estendido no gramado. Quando vi as fotos da perícia, chorei. A menina de seis anos tinha exatamente a mesma idade da minha neta Julia. Eu não conseguia dissociar uma imagem da outra. Antes de mim, in loco, chorou o delegado Calixto Kalil e sua assistente, Renata Pontes, ao ver o corpinho inerte sob uma chuva fina.

O que teria acontecido? Um acidente? Um ladrão alucinado que invadiu o apartamento? Sem nenhuma resposta para intrigantes perguntas, os dois delegados levaram para a delegacia o pai de Isabella Nardoni. Indagações de praxe: teriam, ele e a mulher, algum inimigo? Observaram alguma coisa que poderia ser considerada suspeita? Desconfiavam de alguém? Um bandido poderia ter invadido?

No primeiro andar do 9º Distrito Policial, na sala do delegado Calixto, ele e a assistente Renata direcionavam as perguntas. Emocionados com a cena terrível que tinham visto, os dois delegados choravam. Era difícil para eles articular as palavras e tentar entender quem, e por que, teria cometido uma barbaridade daquelas. Ao contrário dos delegados, Alexandre, o pais de Isabella, mantinha-se impassível. Poderia estar em estado de choque, tão perturbado que não conseguiria raciocinar? Apenas insinuava, vagamente, que um bandido teria entrado no London, o prédio número 138 da rua Santa Leocádia, Vila Guilherme, zona norte de São Paulo.

Foi quando, 1h20 da madrugada, aconteceu algo inesperado. Alexandre esticou o braço esquerdo, olhou demoradamente para o relógio e fez uma pergunta aos delegados: “precisam de mais alguma coisa de mim? Estou a fim de ir para casa tomar uma ducha”.

Calixto e Renata se entreolharam. Eles chorando e o pai querendo ir para casa tomar um banho? Isso não é possível compreender. Todo policial arguto, Sherlock Holmes ou Hercule Poirot na vida real, sabe que de um detalhe aparentemente insignificante, altamente subjetivo como este da indiferença, pode significar o fio da meada para uma grande investigação. A chave para decifrar um mistério. O detalhe pode tornar-se uma pista, apenas perceptível para vocacionados que sabem investigar. Uma sensibilidade que não está descrita em lugar nenhum. Não existe manual para talento. Calixto e Renata trabalharam com a alma. Policiais também choram. A alma não tem espaço na memória do computador. O caso foi esclarecido por eles, no 9º DP, sem que fosse preciso recorrer ao órgão especializado, o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa, DHPP. Uma aula de investigação.

A Polícia Científica acabara de receber, em março de 2008, a data da morte de Isabella, um novo equipamento: o luminol, reagente químico que detecta manchas de sangue não visíveis a olho nu. Isabella, o pai Alexandre e a madrasta Anna Carolina Trotta Peixoto Jatobá, saíram juntos para fazer compras, e retornaram ao London no carro que foi estacionado na garagem.

Uma vistoria no prédio, da mesma noite da queda de Isabella, demonstrou que nenhum apartamento tinha sido arrombado. Ou seja: quem matou, estava dentro do prédio. Perícia no carro: manchas de sangue. Imagens: Isabella viva. Perícia no trajeto para o elevador: manchas de sangue. Perícia no elevador: manchas de sangue. Perícia no percurso da saída do elevador para o apartamento: manchas de sangue. Sangue de Isabella. Perícia na tela de proteção de uma janela do apartamento: cortada a faca. Isabella foi arremessada dali. Perícia no apartamento: tinha sido limpo, lavado em alguns pontos. Cena do crime adulterada. Um crime para bons detetives. O pai de Isabella preferiu ficar vinte minutos ao telefone, falando com o próprio pai, do que providenciar socorro. Insinuou que tudo indicava que o grande suspeito seria o porteiro.

Caso encerrado: espancamento brutal até a morte da menina, por motivos inexplicáveis, pela madrasta ciumenta de Isabella. Alexandre subindo numa cama com o apoio (marcas dos sapatos encontradas), com ela já inerte nos braços. Segurou-a pelos pulsos, para em seguida soltá-la no espaço. Quem faz isso não consegue chorar. Os policiais, sim.

Não foi difícil para o promotor Francisco Cembranelli detalhar no Tribunal do Júri tudo o que você acaba de ler. Os jurados foram implacáveis, como tinha de ser. A multidão indignada, à porta do Fórum, atacou o advogado de defesa, Roberto Podval: correu para cima dele e alguém lhe desferiu um pontapé. A dosimetria da pena, também rigorosa.

Há dois meses, a juíza Sueli Zeraik de Oliveira Armani, da Vara de Execuções de Taubaté, concedeu a Ana Carolina Jatobá o benefício de prisão em regime semiaberto. Argumento: “ótimo comportamento carcerário” (obrigação e não virtude de qualquer preso) e parecer da uma “comissão técnica de classificação”, que equipada com uma bola de cristal, deduziu que a possibilidade de reincidência é “nula”. Um desrespeito à memória da linda e inocente Isabella, seis aninhos, uma página de vida em branco, que não pode mais ser escrita. Controlo-me para não chorar novamente. Minha neta completou 14 anos. Não consigo digerir brutalidades contra criança.