O dia em que acabei ferido e dentro de um buraco por causa do Maníaco do Parque

Chico Estrela, o Maníaco do Parque (Foto: Jorge Araújo/Folhapress)

Por Renato Lombari

Uma sequência de mortes de mulheres encontradas nas matas na margem da rodovia dos Imigrantes, em Diadema, na Grande São Paulo, vinha deixando a Polícia Civil em alerta. Além dos distritos policiais, o Departamento de Homicídios também investigava. Os corpos eram encontrados sempre em adiantado estado de decomposição, com as partes íntimas dilaceradas, o que permitiu à polícia concluir que seria um criminoso em série. E que tinha conhecimento de sobrevivência na selva. O ano, 1998.

Um levantamento completo sobre um grupo de moças desaparecidas e atacadas fez com que a polícia chegasse até uma garota de 18 anos que escapara do maníaco ao fingir que estava morta. A descrição do homem era a mesma de uma outra vítima. Com esses detalhes os investigadores chegaram ao motoboy Francisco de Assis Pereira.

Ele foi reconhecido por foto pelas duas sobreviventes e na empresa de entregas com moto, onde trabalhava, no bairro do Brás, os policiais souberam que depois do noticiário do encontro de cinco corpos, do retrato falado e de uma foto dele andando de patins no Ibirapuera, desaparecera com sua moto e não dera mais notícias.

Um colega de trabalho contou aos policiais que o motoboy,  dias antes de desaparecer, jogara alguns documentos no vaso sanitário e acionara a descarga. Na rede de esgoto da empresa a polícia encontrou documentos de duas das moças assassinadas. E a caçada começou. Foram semanas atrás dele que era um campeão de patinação e conhecido por Chico Estrela. Francisco tinha uma legião de admiradores e admiradoras, frequentadores da pista de patins do Parque do Ibirapuera, na zona sul de São Paulo. Participava de campeonatos, coordenava grupos de jovens e dava aulas, principalmente para mulheres.

Chico foi  preso no Rio Grande do Sul, levado para São Paulo, e passou a indicar onde deixara os corpos de suas vítimas — a maioria jovens, bonitas, e solteiras. O primeiro corpo encontrado, por indicação do assassino, foi de uma garota loira, pais separados, e que fora, segundo ele,  abordada na saída de uma agência bancária do Itaim Bibi, na zona sul da capital de São Paulo. A conversa era a mesma. Mostrava um book de fotos, dizia que trabalhava para uma agência de modelos, estava em busca de novos talentos e as levava de moto para a mata do Parque do Estado, na divisa da capital com Diadema, sempre no fim da tarde, para a sessão de fotos.

Dizia que as fotos  ficariam excelentes em meio ao verde. Ali ele matava depois de abusar sexualmente. E foi numa manhã de sábado, dias depois da chegada de Chico a São Paulo, que levou os policiais até a mata. Iria indicar o primeiro corpo. Acordei com um telefonema do jornal informando sobre o trabalho do Departamento de Homicídios e da ida dos policiais até a mata. O preso indicaria o lugar onde deixara o corpo da garota. Eram quase 8h. Tomei banho, café, peguei meu carro e fui para a rodovia dos Imigrantes.

Quando cheguei, os policiais de Homicídios estavam com os legistas do Instituto Médico Legal. Concluíam o trabalho de perícia e providenciavam a recolha do que sobrara do corpo em decomposição.  Pedi aos agentes que saiam da mata para me explicar como faria para chegar ao local. Eram muitas as trilhas e mesmo com a indicação peguei a trilha errada.

— Tome cuidado – disse um dos policiais. Há buracos abertos nas trilhas. Se errar o caminho pode cair num destes buracos.

Tarde demais. Claro que errei o caminho, cai num buraco, e fiquei de pernas e braços para cima. Passei a gritar por socorro. Mais de vinte minutos e nada. Comecei a me desesperar até que ouvi vozes com pessoas conversando alto e se aproximando. Gritei mais alto e fui atendido. Achei que eram policiais. Mas para minha sorte e azar eram jornalistas. Meus colegas que voltavam acharam muita graça da minha situação. Riram muito, me tiraram do buraco e indicaram a trilha certa até onde estavam os peritos.

Minhas costas estavam vermelhas e feridas. Achei o lugar, entrevistei os policiais e o legista que tinha examinado a ossada e determinado a remoção do que restava do corpo. Entrevistei o assassino. Ao me despedir de um dos médicos pedi que me orientasse. Expliquei o que acontecera e ele, ao ver minhas costas, me receitou uma pomada também usada na contusão de cavalos.

— Limpe bem com água e sabão, passe, e vai se sentir melhor.

Fui para a redação para escrever minha matéria para a edição do domingo. Eu acompanhava as apurações desde o encontro dos primeiros corpos. No caminho comprei a pomada. Guiei meu carro com dificuldade. Assim que cheguei à redação e me aproximei da mesa onde estava o chefe de reportagem para contar sobre o que iria escrever. Foi quando ouvi de uma colega:

— Caiu no buraco, hein!!! Lá onde o maníaco matava.

Fiquei surpreso. Como sabia. E ela.

— Ouvi na rádio Eldorado. A repórter disse que além do encontro do corpo da garota os jornalistas tinham também te encontrado no buraco pedindo ajuda.

Fora Vera Fiordoliva, repórter da  Eldorado,  que informara sobre o trabalho da polícia e no final do noticiário dissera que a outra novidade fora o meu encontro entalado no buraco.

Chico Estrela foi condenado a mais de 200 anos de prisão. Conversei com ele antes do julgamento. Contou que quando criança, na cidade de São José do Rio Preto, interior de São Paulo, fora molestado pelo padrasto, que a mãe mantinha relacionamento com alguns homens, e por isso ele odiava as mulheres. E quando as atacava não sabia o que estava fazendo. Além de estuprar, dilacerava as partes íntimas de suas vítimas.

Quando cumprir os 30 anos de sua condenação, Chico Estrela será submetido a exames com psiquiatras, psicólogos e assistentes sociais para o exame criminológico. Acredito que vai continuar preso. Os médicos que o examinaram antes da condenação disseram que se um dia for solto volta a praticar crimes idênticos.