maiteproenca O dia em que jantei com o pai de Maitê Proença, que matou a própria mulher com onze facadas

Maitê Proença em imagem dos anos 80 (Foto: Divulgação)

Por Percival de Souza

Jantei com o assassino da mãe da atriz Maitê Proença. Calma, não se assuste. Eu não sabia, mas quando cheguei ao clube de Campinas onde estavam reunidas as principais autoridades da região, o lugar que me estava reservado era bem ao lado dele. Fiquei constrangido, mas o assassino foi educado e elegante durante todo o tempo. Gentilmente, até serviu-me vinho, garantindo que a safra era excelente. Não tocou no crime, como cheguei a temer, conversando normal e educadamente. Demonstrou ser um homem muito culto. Não parecia, ali, o homem sobre o qual eu tanto havia escrito.

Naqueles tempos, início dos anos setenta, o homem que jantava comigo, o promotor Carlos Eduardo Gallo, havia matado a facadas — onze punhaladas de ódio — a esposa, Margot Proença Gallo. Na cobertura do caso, pelo Jornal da Tarde, fui implacável com o matador, que se dizia ensandecido por uma traição. Maitê era, então, uma menina de 12 anos de idade. Autor e vítima eram famosos no society local e eram os pais da menina que ficaria famosa na TV no futuro. Ela, professora no colégio Culto à Ciência. Ele, destacado promotor na Comarca.

Por que jantamos juntos? Porque o delegado-geral de Polícia, Amândio Malheiros Lopes, era muito amigo de Gallo. E meu amigo também. Como chefe maior da Polícia Civil e ex-delegado seccional de Campinas, onde fizera carreira, organizou o encontro de confraternização num clube da cidade. Não me avisou de nada antes do jantar. Apenas, de vez em quando, me lançava um olhar maroto. Quando tudo acabou, perguntei para Amândio a razão daquela surpresa. Ele sorriu e disse que tinha sido apenas para eu “conhecer melhor” o promotor Gallo, que se despediu me dando um abraço e dizendo que tinha sido “um prazer” me conhecer. Muitos convidados assistiram a cena, sem nada entender, porque eu fui ácido o tempo todo com o promotor. Nunca gostei de machões que trucidam mulheres. Das onze punhaladas, várias foram desferidas nas costas de Margot, que tentou desesperadamente escapar da morte.

A menina Maitê foi arrolada como testemunha no plenário do júri. Uma crueldade humana e jurídica. Confirmou a traição com um professor de francês. Seu testemunho foi decisivo para os jurados. Sobre a menina, hoje linda e talentosa atriz, nada mais quero dizer. Vou preservá-la, poupá-la da trágica situação vivida há exatos 47 anos (o crime aconteceu em 1970). Como a salamandra da mitologia grega, vou andar em brasas, mas não quero me queimar.

O caso, entretanto, adquiriu contornos que seriam exclusivamente jurídicos. Duas feras da advocacia entraram na ribalta. Valdir Troncozo Peres, o Espanhol, um dos maiores criminalistas que conheci, foi o defensor de Gallo. Leonardo Frankenthal, outro gênio, atacou na acusação. Duelo de titãs forenses. A primeira coisa que Valdir fez foi pleitear ao Tribunal de Justiça quer se abrisse mão do foro privilegiado, ao qual Gallo teria direito, para ser julgado pelo Tribunal do Júri, palco teatral que Valdir dominava com brilho, dono da uma oratória empolgante. A filha-testemunha emocionou os jurados. Era o que Valdir queria.

Após assassinar Margot, Gallo ficou dez dias em Belo Horizonte. Depois, apresentou-se em Campinas. Valdir sabia que os jurados, que são soberanos juízes de fato, julgam com o coração. Frankenthal, municiado com fatos processuais, dizia que Gallo “sabia de tudo”. Foram dois julgamentos. No primeiro, Gallo ganhou a absolvição por sete votos a zero. Diante dessa decisão, frontalmente contrária à prova dos autos, o Tribunal determinou a realização de novo júri. Valdir venceu de novo. Apertadamente, 4x3, mas ganhou com a tese do homem latino que confunde matar com defender a honra.

Agora, a parte oculta dessa história. Amândio Malheiros, o delegado, ficou sem chão ao ser surpreendido com o jovem filho ter diagnóstico de câncer. Fez tudo o que um pai poderia fazer numa situação dessas. Pesquisou onde se poderia fazer o melhor tratamento oncológico e descobriu: Estados Unidos. Problema incontornável: Amândio não dominava o inglês. Foi quando o promotor Gallo mostrou-se mais uma vez um grande amigo: acompanhou o delegado e ficou com ele o tempo necessário no hospital norte-americano, para as traduções necessárias.

O filho de Amândio curou-se. O delegado e o promotor solidificaram ainda mais a amizade. Não se passaram muitos meses quando surgiu uma nova e surpreendente descoberta: em exames rotineiros, Gallo ficou sabendo: agora, era ele que estava com câncer. Em estado avançado. Sem chance. Decidido, planejou abreviar seus dias. Dissimuladamente, pediu a Amândio uma arma, dizendo que no condomínio onde morava estava precisando de proteção pessoal. O delegado não titubeou em dar-lhe um revólver. E foi com ele que Gallo matou-se.

O crime aconteceu em 1970. O suicídio em 1989. O corpo de Gallo foi cremado em cerimônia reservada. Maitê estava lá. Somente ela sabe o que se passava em sua alma. Em entrevista recente, Maitê contou que, interpretando Sinhazinha na novela Gabriela, um filme desenrolou-se na sua cabeça como personagem na cena em que, flagrada na cama em adultério, foi assassinada pelo marido.

O tema provou delírios acadêmicos. Já percebi que, no templo dos fariseus, como já definiu o historiador Leandro Karnal, muito se aprecia construir uma tese a priori, para depois lutar, com fortes doses de desonestidade intelectual, para que os fatos se ajustem à teoria. Foi assim no caso Gallo-Margot: numa tese de pós-graduação, falou-se insistentemente em “práticas discursivas da mídia” que “instituem diversos direitos para além daquele destinado”. Assim, os “saberes do campo jurídico são espetacularizados no discurso da grande mídia”. Nada a ver, com o você acaba de ver na sinopse do caso. Eu, por exemplo, escrevi no Jornal da Tarde que Gallo se transformara num novo 007, como a licença de James Bond para matar. Sempre defendi, e faz tempo, que a tese de “defesa da honra” é absolutamente inaceitável. Mas isso não interessou na tese acadêmica que menciono: neutralizaria o conjunto da obra. Como ensinava o provérbio chinês, brigar com os fatos é inútil, é inútil...