O violento e sedutor Bandido da Luz Vermelha saiu da prisão para morrer nas ruas

João Acácio, em 1997, quando já havia saído da prisão (Foto: João Wainer/Folhapress)

Por Percival de Souza

Demorou para ser definido o apelido que tornaria o Bandido da Luz Vermelha, nos anos 60, uma celebridade no mundo do crime. Usando de vez em quando, mas não sempre, uma lanterna vermelha para assustar as vítimas, ele começou sua vida de invasor de casas, estuprador e matador usando um macaco hidráulico para arrombar grades de proteção nas janelas e entrar nas residências. Máscara no rosto e lanterna nas mãos, aterrorizava as mulheres.

Na verdade, foi um imitador. O original, Caryl Chessman, ficou conhecido como The Red Light Bandit. Agia nas colinas de Hollywood, como um maníaco, diríamos aqui. Identificado e preso, permaneceu por longos anos na Penitenciária de San Quentin, onde escreveu 2455 – Cela da Morte e A Lei Quer que Eu Morra. De fato, foi executado numa cadeira elétrica, nos anos 50, depois de conseguir escapar da pena de morte por sete vezes, defendendo a si próprio e comovendo o mundo, após estudar Direito na prisão e lutar contra a pena capital.

O cineasta Rogério Sganzerla levou a história do criminoso brasileiro para a tela. Ele, com quem trabalhei no Jornal da Tarde, lia as minhas matérias, queria saber mais e mais, encantou-se com o personagem e escolheu o ator Paulo Vilaça para o interpretar o papel do bandido. Eu e colegas de jornal participamos de uma pontinha do filme, como pessoas que se juntaram à porta da casa de uma das vítimas. Um sucesso de bilheteria.

Quanto ao “Luz Vermelha” brasileiro, muito se falou, mas nem tudo se sabe. Para chegar até ele, a Polícia desenvolveu um paciente trabalho de investigação. Os ataques se sucediam e, partindo do zero para descobri-lo, os policiais do antigo Departamento de Investigações passaram a recolher impressões digitais (por vezes, apenas fragmentos) até chegar aos pontos de coincidência da pesquisa datiloscópica: um ladrão, que tinha passagem pela Delegacia de Roubos, onde fora identificado falsamente como “Roberto da Silva”, burlando a Polícia que se contentou em espancá-lo em busca de eventual confissão. Eram os tempos em que se prendia primeiro para investigar depois.

O Velho Departamento de Investigações tinha uma carceragem própria, com cerca de 400 “detidos para averiguações”, que se somavam a outros 700, no Presídio Tiradentes, na avenida do mesmo nome em São Paulo, e outros 500 no Presídio do Hipódromo também nome idêntico ao da rua. Todos presos para serem “averiguados”, sem culpas formalizadas. Era assim nos anos de chumbo. A procura de marcas digitais de “Roberto da Silva” foi busca de agulha no palheiro. Não existem duas iguais no mundo. É a ciência aplicada em São Paulo por Ricardo Gumbleton Daunt, o IRGD do Instituto de Identificação da Polícia Civil. Funcionou a virtude de Jó: “Roberto”, na verdade, era João Acácio Pereira da Costa.

“Roberto” estava em Curitiba, onde foi preso e levado de carro para São Paulo, sendo colocado diretamente para o prédio do Palácio da Polícia, na rua Brigadeiro Tobias. Ali aconteceram cenas inacreditáveis. Começaram a chegar cartas de amor — algumas surpreendentes, assinadas por pseudo-vítimas, que se identificavam, davam o endereço e pediam para que ele voltasse. Muitos buquês de flores e maços de rosas. Vendo tudo isso na mesa do delegado de Roubos, percebi que algumas das belas rosas haviam sido enviadas por uma escrivã de Polícia. Foi um escândalo. Descobri naquele dia que certo tipo de bandido exerce um fascínio arrebatador para algumas mulheres, como constatei em outras situações. Talvez Freud pudesse explicar o enigmático amor-bandido.

Assisti ao primeiro julgamento de João Acácio. Homicídio, Tribunal do Júri. O promotor externava em palavras toda a sua ira e o contorcionista advogado tentava achar uma válvula de escape. Acácio, indiferente, escrevia num pedacinho de papel. Fiquei observando. Ele terminou, amassou o papel, fez uma bolinha e a arremessou em direção a uma moça que estava sentada na primeira fila da plateia. Continuei olhando. A moça abriu, leu e sorriu. Ele, réu que seria condenado, esboçou uma contração facial. Galante, o bandido. Até numa hora dessas.

As penas somadas de 77 roubos e quatro assassinatos resultaram numa pena fantasmagórica. Mas nos velhos tempos a Justiça adotava o sistema chamado duplo binário, pelo qual se aplicava a pena e uma medida de segurança detentiva (para proteger a sociedade da periculosidade do réu), que se mudaria para a opção pena ou medida de segurança. Começou aí o périplo prisional de João Acácio. Passou pela antiga Casa de Detenção, Penitenciária do Estado, Casa de Custódia de Taubaté e Manicômio Judiciário.

 O violento e sedutor Bandido da Luz Vermelha saiu da prisão para morrer nas ruas

O Bandido da Luz Vermelha foi preso em 1967 (Foto: Folhapress/Folhapress)

O circuito significava que os psiquiatras não chegavam a um acordo: imputável? Inimputável? O fronteiriço semi-imputável? De fato, era difícil definir, o Direito não tem respostas para tudo. Mas inimputabilidade, a incapacidade do autodiscernimento, significava na prática prisão perpétua, tema que dissequei em meu livro A Revolução dos Loucos e foi foco de um trabalho de conclusão de curso do então estudante de jornalismo Douglas Tavolaro, que me entrevistou, e hoje é vice-presidente de jornalismo da Record TV. Sensibilizado, um advogado fez pedido de habeas-corpus para Acácio, mas as Câmaras Conjuntas Criminais do Tribunal de Justiça rejeitaram, porque “Luz Vermelha” apresentava “sérios distúrbios mentais”.

Bem que tentei decifrar os mistérios do seu cérebro, mas não foi possível. Uma hora dizia que era enviado divino e que tinha uma missão a cumprir na Terra. Outra se apresentava como vítima de maus tratos do pai. Ou então eram as mulheres, encantadas por ele, que o provocavam. No Manicômio, vi uma face oculta de João Acácio: uma engenhoca por ele construída — bicicleta com falo adaptado no selim, no qual ele se sentava e pedalava, satisfazendo as suas fantasias sexuais. O invento foi apreendido.

Recordista de permanência no cárcere, ali passou longos trinta anos. Saiu para morrer. Apenas quatro meses em liberdade, o mundo era outro para ele. Admirável e desconhecido. Numa briga de bar, em Santa Catarina, de nada lhe adiantou a fama de ser o lendário Luz Vermelha. Foi morto com um tiro.