biaemel Os bastidores brutais dos assassinatos das pequenas Bia e Mel

As meninas Bia e Mel (Foto: Reprodução/Record TV)

Por Percival Souza

Criança é uma página em branco a ser escrita. Com pureza e sem maldade, ela ainda não sabe que a inteligência humana tem limites. A estupidez, não.

Bia e Mel eram duas dessas crianças. Meninas de três aninhos. Anjinhos. Estão agora na quadra dos anjinhos, uma reservada ala infantil no Cemitério da Saudade, em São Miguel Paulista, ponto distante e esquecido da zona leste, capital de São Paulo.

No Dia das Crianças, 12 de outubro, macabra ironia: seus corpos foram encontrados, putrefatos, dentro de uma picape branca, roubada e abandonada num beco do Jardim Lapena (zona leste de São Paulo). Essa história você já sabe. Mas o que há por trás dessa tragédia humana, não. A necropsia ficou sem condições de determinar a causa mortis. Impossível. As palavras isoladas de um dos acusados, sim. Entre medicina legal e confissões, uma distância enorme. Provas, discute-se pensando o futuro, julgamento pelo júri do conteúdo de um processo. Mas quem disse que a vida se resume a um tribunal? Ou que a nossa vida possa caber dentro de um processo?

Creio que não. Releio Grande Sertão: Veredas. Guimarães Rosa escreve: “Uma coisa é por ideias arrumadas, outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, e de mil e tantas misérias”. Jardim Lapena é um desses muito lugares de incontáveis misérias. Ali tudo é miserável: as ruas de terra, o esgoto em córrego a céu aberto, a promiscuidade, os drogados da vida, os barracos estreitos, os becos, as vielas, a ausência completa do Estado, este mais frio dos monstros frios, como definiu o filósofo alemão Friedrich Nietzsche.

Esse monstro frio gera monstros. Na total falta de sensibilidade e responsabilidade social, Bia e Mel viviam na rua, à mercê de tudo e todos. Largadas. Conselho Tutelar? Esquece. Juizado da Infância? Esquece. Assistência Social? Esquece. No Jardim Lapena, tudo é esquecido: dignidade, caráter, responsabilidade, respeito, leis, Constituição... e do que mais você se lembrar. As pessoas que estão ali são invisíveis para a sociedade. Bia e Mel estavam nesse pântano moral. Coitadinhas: nunca tiveram a menor chance de conhecer um mundo melhor. O mundo delas era este, socialmente repugnante. A caverna de Platão da periferia.

Tão invisíveis que sequer eram conhecidas pelos nomes. Beatriz Moreira dos Santos era a Bia. Adrielly Severo Porto, a Mel. Mais precisamente: “Branquinha” (Bia) e ”Moreninha” (Mel).

À necropsia social, agora: num lugar como este, o que manda é a chamada Lei do Cão. As regras e os códigos diferem dos parâmetros legais. Essa lei é implacável. Não admite certas práticas – entre elas o abuso infantil: elas são punidas, inclusive com a aplicação da pena capital, pouco se importando com a cláusula pétrea constitucional que a proíbe. Para aplicar a Lei do Cão, existe um Tribunal do Crime, que investiga, captura, “julga” e executa.

Foi assim no caso de Bia e Mel: os suspeitos de autoria dos crimes foram levados para um barraco, amarrados e torturados. Até confessarem. Quando iriam ser mortos, a Polícia Militar apareceu. Os torturados foram fotografados, desamarrados e levados para a delegacia do bairro. Deste caso, a princípio de crianças desaparecidas, a investigação se transformou em apuração de homicídio. A primeira convicção policial: uma coisa, a tortura, nada teria a ver com a outra, os assassinatos. Mas tinha.

Ninguém se importa com o Jardim Lapena. A Record TV se importou. Recebeu o pedido desesperado de moradores e noticiou o sumiço no Cidade Alerta. Depois, a libertação, pela PM, num barraco-cativeiro dos supostos autores. Os algozes informaram aos moradores que os dois seriam os autores dos assassinatos de Bia e Mel. A Record TV seguiu informando. O Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa, DHPP, aprofundou-se na história, mas com irritação sobre as matérias tendo como fontes os moradores da desgraça social. Na semana passada, o DHPP convocou a imprensa para apresentar os supostos criminosos. Que, segundo a Polícia, eram os torturados resgatados num barraco.

Essa apresentação significou que o DHPP ratificava o que fora feito pelos algozes de ambos, traficantes ligados a uma facção do crime.

Acrescentando-se apenas que a mulher de um deles, Marcelo, tinha ouvido a confissão de autoria dos assassinatos pelo companheiro e não conseguia mais dormir. Detido, Marcelo confessou que eram eles mesmos: atraíram as duas oferecendo doces, asfixiaram as duas meninas e as estupraram após a morte. Pedófilos e necrófilos. Carregaram os corpos no colo, cerca de quinze horas depois, para a picape abandonada.

Na apresentação do caso tido como elucidado, a diretora do DHPP, Elisabete Sato, estava irritadiça com os “senhores”, isto é, a imprensa. Para ela, a investigação do que chamou de “quebra-cabeças” tem um tempo próprio, que não é o dos “senhores”, citando como exemplo um caso de esclarecimento pelo DHPP dez anos após o crime. Assim, segundo Sato, o caso Bia e Mel ficou superdimensionado socialmente só por causa dos “senhores”, porque se não fossem os “senhores” ninguém saberia, sequer, que Bia e Mel existissem. A entrevista coletiva terminou abruptamente com ela, ao lado do delegado-geral de Polícia, Youssef Chaim, levantando-se e indo embora. Como se dissessem: “basta!”

Eu estava lá, assisti a cena e posso dizer: uma atitude deselegante e desrespeitosa com os profissionais de imprensa. Para quê? Ácido, desnecessário. E sei por que: o governador Geraldo Alckmin cobrou de Sato o tal “tempo da investigação”. Como ele, a Record TV também, simplesmente porque não se pode ser burocrático diante de duas menininhas trucidadas. Aliás, o tal Marcelo já havia cumprido pena por ter estuprado uma criança, e a investigação sem tempo certo passou batida diante do precioso detalhe. Diante do trotar lento da carruagem investigatória, foi uma falha. Não é preciso ter lido Shakespeare para saber: o que foi feito, não pode ser desfeito. Por isso, atenção, delegados, promotores e juízes: a ministra Nancy Andrighi, do Superior Tribunal de Justiça, já relatou um processo, entre tantos desse tipo, definindo que estuprador nunca se emenda, é reincidente, não tem jeito. Leiam, estudem, aprendam, apliquem. É psiquiatria forense. Ponto. Soltá-lo é um perigo, como prova, e de novo, o caso Bia e Mel.

Fomos ousados na Record TV, em busca da verdade e combatendo a impunidade. Tudo é ousado para quem a nada se atreve, escreveu o poeta Fernando Pessoa. Somos ousados mas sensíveis: para amenizar um pouco o forte impacto das mortes de Bia e Mel, fizemos na redação uma doação para as crianças do Jardim Lapena, “adotando” meninas e meninos para lhes dar um presente, como se o Dia das Crianças tivesse sido adiado. Foi nesse último domingo. O nosso tempo é o presente, para projetar sombras sobre o futuro. Aqui, agora, amanhã. Que os dois anjinhos descansem em paz e relevem nossas maldades. Perdão, Bia e Mel.