smith Português é demitido, mata o patrão, a esposa e ganha apelido curioso da polícia

Revólver da marca Smith & Wesson (Foto: Divulgação)

Por Percival de Souza

Cheguei pela manhã ao pequeno prédio no bairro dos Campos Elíseos, sede de uma famosa fábrica de tecidos, a Mitidieri. Numa das salas, dois homens mortos. Tiros. Lá dentro, ainda, o assassino — um senhor de idade, português de grossos bigodes, arfante, destilando ódio, imobilizado e preso antes de concluir o plano de se matar, ainda com o dedo no gatilho do revólver, indicador ferido com tanta força que fazia tentando apertá-lo. Mostrava-se frustrado por não poder agir com a covardia de tirar a própria vida, ato que contraditoriamente exige extrema coragem.

Era um homem sem cara de matador, se é que pudessem sobreviver as teses de Lombroso, segundo as quais o criminoso nato teria características faciais. Essas teses, contudo, excitaram a muitos, mas não nutriram a ninguém.

A rua do crime fica em plena Boca do Lixo, lugar em que funcionavam hospedarias vagabundas de curta permanência e circulavam mulheres e seus exploradores. Um bas-fonds que contrastava com outra boca, a do luxo, esta incrustada em lugar mais elegante da cidade.

O criminoso estava quieto, enquanto a perícia fazia o seu trabalho. Por quê? A primeira vítima era seu patrão. O senhor Joaquim trabalhava na empresa desde adolescente e lá permaneceu por quarenta longos anos. Foi despedido, já idoso, sem mais nem menos. Perplexo, ouviu do advogado da empresa: “procure um advogado para cuidar de seus direitos”. Palavras mortíferas, chaves para o crime.

Pensou, pensou: matar patrão e advogado, mancomunados para destruir a sua vida... O que fazer dela agora? E a esposa, coitada, como viveria? Planejou: ir logo cedo à sede da firma, 8 horas da manhã, e matá-los. Pensou também: e a esposa, como sobreviveria sem ele? Naquela noite, num apartamento da rua Apeninos, no bairro do Paraíso, enquanto ela dormia, encostou o revólver no ouvido da mulher e atirou. Ao amanhecer, tomou o café da manhã e foi para a empresa matar os dois. Só falhou a última etapa do plano.

Depois de longo silêncio e introspecção, o senhor Joaquim revelou as razões do duplo assassinato. Contou tudo aos policiais do 3º Distrito, unidade policial celebrizada, à época, pelo jornalista Ramão Gomes.

Ramão, editor de Polícia do jornal Notícias Populares, autor de memoráveis crônicas sobre a Boca.

Diante da ingratidão em grau máximo demonstrada pela empresa, e aconselhado a procurar um advogado e virar-se como pudesse na Justiça trabalhista, chegou ao local do crime armado. Patrão e advogado da empresa à frente, disse: “Vocês mandaram eu procurar meu advogado. Ele está aqui. Seu nome é doutor Smith”. Puxou o revólver da marca Smith & Wesson e fez os disparos. Daquele momento em diante, nunca mais foi conhecido pelo nome. Para sempre, Joaquim tornou-se o doutor Smith.

Os policiais, acostumados a lidar com todo tipo de desgraça, olhavam doutor Smith com candura. Foi quando ele fez a espantosa revelação: “Matei minha mulher antes de vir para cá. O corpo está lá em casa”. Os policiais correram para conferir.

Não é fácil emitir juízos de valor neste caso. Entrevistado no programa Roda Viva, da TV Cultura, perguntam-me, como testemunha da história criminal em São Paulo, se poderia existir um tipo de crime considerado justificável. Contei a história do doutor Smith e admiti: teria dúvidas em condená-lo. O advogado Pedro Paulo Negrini assistiu à entrevista e interessou-se imediatamente pelo caso. Ele conta essa história no seu livro Eu, Criminalista, descrita assim na página 154: “Se ele absolveria o Dr. Smith, e se eu também o achava merecedor da absolvição, talvez os jurados também pudessem ser convencidos a absolver”.

Inspirei assim o doutor Negrini, criminalista de alto nível. Autuado em flagrante, Smith foi para a Casa de Detenção. Numa das noites em que dormi no presídio, para escrever o livro A Prisão, a cela onde estava era compartilhada por ele. Ali, certa noite, ele me pediu para julgá-lo. Eu? Fiquei atônito. “O seu julgamento é que me importa”. À volta, outros presos observavam. Relutei. Smith insistiu. Respondi, então: “No seu lugar, eu seria tentado a fazer o que o senhor fez. Mas com a sua mulher, não. O senhor não tinha o direito de fazer isso”. Ele balançou a cabeça afirmativamente. Outros presos também. Não se tocou mais no assunto. Smith dormiu o resto da noite, roncando alto.

Dia do júri. Negrini engendrou uma tese juridicamente insustentável: “coação moral irresistível”. Seria isso, filosoficamente falando, alguém ser pressionado moralmente de tal forma que não lhe caberia alternativa senão fazer uso de um recurso extremado. Mas conseguiu sensibilizar os jurados, tentados por ele a condená-lo, caso considerassem o caso imperdoável, ou absolvessem, se admitissem a mais remota hipótese de fazer a mesma coisa.

O Tribunal do Júri é o único espaço na Justiça onde a emoção pode sobrepor-se à razão. Os jurados se emocionaram. “Excelência, eu não estou entendendo”, desafiou o promotor diante da alquimia jurídica. "Se Vossa Excelência tivesse entendendo, não estaria acusando”. Todos sorriram com a ironia. O promotor perdeu.

O juiz Manoel Veiga de Carvalho, filho de Hilário de Carvalho, meu professor de criminologia no Instituto Oscar Freire, da USP, viu as respostas dos jurados aos quesitos e aplicou a dosimetria da pena mínima: seis anos, mas só pelo assassinato da mulher. Em se tratando de três homicídios, foi o equivalente a uma absolvição. Péssimo processo em seu conteúdo frio, ótimo réu dominado pelas emoções. Smith saiu logo da prisão. Deixou seu passado para trás, terminando seus dias anonimamente numa pacata cidade do interior.